A Rosa Entre Espinhos
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Por Josiane Veiga
Ijuí/2008
 

 

 

 



A Rosa Entre Espinhos

Por Josiane Veiga

Original

Romance/Terror/Suspense

Protagonistas: Mairi e Ian.

Resumo: Um assassinato mudara para sempre a vida de dois jovens amantes. Mairi e Ian terão que provar sua inocência e transpor todos os obstáculos para viver seu amor.

INTRODUÇÃO

Inglaterra, 1842

Aquele deveria ter sido o dia mais feliz da vida de Eleanor. Após seu casamento com o abominável Ian, iria fugir com o gentil e ardente Ben. Estava linda. O vento que adentrava pela janela enorme sacudia seu vestido claro, fazendo-o deslizar pelo maravilhoso corpo de formas perfeitas.

Mas havia algo errado... uma sensação ruim preenchia sua alma. O ar quente da noite não lhe trazia calma ou paz, antes parecia gritava seu nome, chamando-a... E ela sabia... era a morte tentando ceifar sua vida.

Eleanor sabia que Ian era jovem, rico, e diziam até bonito, mas ela nunca o desejara. O noivado com ele apenas satisfez sua ambiciosa família. Ela mal tinha visto o rapaz em toda a sua vida, contudo era sua noiva desde o nascimento, nunca lhe foi concedida à oportunidade de escolher. Ian fora estudar em Londres, enquanto ela ficou na cidade de York sendo educada pela família para ser uma boa esposa. Quando enfim o conheceu, na festa de noivado, não pôde dizer que ficara decepcionada com a aparência dele. Era moreno, contradizendo sua ascendência escocesa por parte do avô paterno, mas tinha olhos frios. Ela, sendo fogosa e vivaz, não suportaria viver o resto da vida ao lado de um homem tão gélido como ele, ao passo, que a vida com o aventureiro Ben, seria muito mais convidativa, excitante.

Ela havia se encontrado com Ben às escondidas e propôs o normal para a situação, afinal amava o rapaz pobre.

- Estas louca?! - ele gritou - Não fugirei com você!

- Mas acabei de me casar com Ian. Como pode aceitar isso?! Esta noite ele me fará sua mulher!

- Era isso que eu queria sua tola! Agora, teremos tanto dinheiro quanto pudermos gastar! E você conseguirá tudo daquele idiota!

- Como pode aceitar me dividir com ele!? Achei que me amava!

- E amo... - a voz dele amenizou - mas como sobreviveríamos sem um tostão no bolso? Precisamos do dinheiro dele...

Foi então que Eleanor compreendeu tudo.

- Você me usou! -gritou ela - Nesta... Nesta noite, contarei tudo a Ian! Não vou mais engana-lo!

A discussão acabou ali. Ben saiu batendo a porta do quarto, o mesmo em que por diversas vezes fora usado para seus encontros. Deixou Eleanor ali, chorando sozinha.

Ela permaneceu sentava na cama, logo o marido entraria pela porta e teria que contar-lhe a verdade, só não sabia se seria antes ou depois que ele percebesse que não era mais virgem.

Foi até o espelho e encarou a imagem refletida. Pensou que talvez não fosse tão terrível, que poderia dominar seu marido. Olhou o colar no pescoço com a enorme pedra de diamantes. Era uma relíquia e devia custar alguns milhões de dólares. Pertencera à rainha Matilde, que após uma guerra civil presenteou um antepassado de Ian pela lealdade, e se tornara a jóia mais importante da família. Ganhara na festa de noivado e pensara em vendê-lo assim que fugisse com Ben. Mas então, ao descobrir os verdadeiros motivos dele estar com ela, abandonou a idéia.

“É... acho que não será tão ruim viver ao lado de Ian” - pensou ela.

De repente, um barulho do lado de fora lhe chamou a atenção. Em poucos instantes, adentrou pela porta uma figura que quase a fez gritar. Mal teve tempo de esboçar uma reação, mãos firmes puxaram a gargantilha de ouro que estava em seu pescoço e depois, foi jogada contra a janela de vidro, que não resistiu e quebrou-se a derrubando do quarto andar.

Lá embaixo, apenas um corpo morto, o corpo de uma moça que um dia fora linda, mas que agora somente jazia fria ao chão, quebrava o ar de calma do lugar.

 

 

 

 


A Rosa Entre Espinhos

Por Josiane Veiga

Capítulo I

 

Mairi jogou por cima dos ombros cansados o latão de água quente. Mal podia suportar as próprias pernas. Felizmente, logo acabaria aquela atividade. Lavar os vestidos caríssimos de lady Dorothea era um inferno. Tinha primeiramente que esquentar a água, deixar de molho as barras e então passar sabonete de lilás no tecido. Ela era empregada na casa do lord Ian McGgregor desde criança, mas nunca se acostumara a rotina de escravo imposta pela governanta, à senhora Perpetua.

Órfã de pai e mãe, a linda moça de cabelos castanhos e olhos tão azuis quanto o céu nunca conhecera outra vida. Trabalhava dia e noite alheia ao que acontecia fora do seu mundinho que era a cozinha e eventualmente o lago da mansão se seu lord. Também não tinha idéia de como sua aparência era meiga e fascinante e como sua pele clara formava um conjunto perfeito com seu corpo exuberante. Mairi poderia facilmente sair da vida de empregada e torna-se amante de algum lord rico. Mas ela nunca sequer cogitou isso. Apesar de ser uma pobre moça, tinha caráter. E também nunca parou pra pensar no quanto sua vida era triste. Nunca tivera uma família, não conhecia o significado da palavra carinho. Tratada como um animal, ela se escondia pelos cantos, com medo de tudo.

Quase um ano antes, só uma pessoa havia quebrado a auto-proteção que a envolvia. O jovem Ben, rapaz belo, de cabelos escuros como a noite e olhos tão dominadores que quase a fizeram se apaixonar. Ela poderia dizer que eles foram simplesmente amigos, mas seria mentir ao próprio coração, pois ele sempre palpitava no peito quando o via chegando a mansão para entregar as verduras encomendadas na feira do pai de Ben. Mas então ela descobriu porque o jovem mancebo havia se aproximado dela, a empregada que limpava os ladrilhos: por causa da belíssima Lady Eleanor. Ele só havia firmado amizade com Mairi para se aproximar da noiva de lord Ian. Magoada, Mairi não conversou mais com Ben. Mas ela sempre carregou o peso de, mesmo involuntariamente, ter ajudado o rapaz a se aproximar de Eleanor.

Mairi sabia que eles haviam se tornado amantes, mas nunca falou nada disso a ninguém. Ela já tinha as tarefas cansativas da mansão dos McGgregor para se preocupar. Além disso, apesar de ser uma moça fina, Eleanor nunca havia lhe tratado mal. Até lhe sorrira certa vez.

A empregada também foi uma testemunha da tristeza de Eleanor no dia do seu casamento, e viu o corpo dela estirado no piso de concreto logo após o fim da festa de suas núpcias. Algumas pessoas diziam que ela havia se suicidado atirando-se da janela do quarto de casal ou que fora assaltada, já que o colar de diamantes que ela ganhou de noivado havia desaparecido, mas outras falavam que havia sido o lord Ian que a havia matado. A verdade nunca havia aparecido, mas a polícia ainda estava investigando.

Mairi não sabia o que pensar, pois não conhecia o lord pessoalmente. Ian havia saído de York muito jovem para estudar em Londres e havia retornado apenas há pouco tempo para se casar com a sua noiva prometida desde o nascimento. Mesmo agora que ele regressara nunca lhe foi permitido entrar na sala dos patrões ou se aproximar. Ela ficava apenas no porão ou nas salas em que se lavavam as roupas do castelo. E era nas lavanderias que ela acabou descobrindo a única coisa que sabia de seu lord: “ele tem um cheiro muito bom”, sempre pensava ela ao pegar as suas camisas para lavar.

- Já acabou, Mairi? - perguntou a governanta ao ver os olhos sonhadores da empregada.

- Ainda não, senhora Perpetua. Tenho que lavar os ladrilhos do quarto da senhora Dorothea e a biblioteca também.

Dorothea era a mãe de Ian. Mulher rígida, nunca lhe havia dirigido um olhar. Bom, era de se esperar, afinal, ela não passava de um bichinho medroso pela enorme casa.

- Pois vá logo! Parece até que não tem gratidão pela bondosa lady Dorothea, por ter recolhido você da rua e lhe dado um teto e comida! Deveria fazer seu serviço com mais rapidez, sua lerda!

- Estou indo! - disse e se moveu apressadamente. Demorou quase uma hora para limpar as ricas cerâmicas do quarto, e não pôde deixar de pensar que não precisava ser assim tão grata pelo acolhimento de lady Dorothea, já que não ganhava um centavo para tanto trabalho. Na verdade desconfiava que os ricos Lords pagassem sua labuta, mas o dinheiro parava nas mãos da governanta.

Pensando em seu quarto, e no quanto desejava sua estreita cama de colchão de palha, Mairi foi à biblioteca. Entrou cabisbaixa sem olhar direito o ambiente e se dirigiu a uma das prateleiras de livros, pegou um deles e o olhou sonhadora. Ivanhoé... era seu livro favorito. Aprenderá a ler com um bondoso reverendo que havia morado em York. Ele lhe havia ensinado na Bíblia, ela pegou gosto pela coisa e logo começou a tomar emprestados alguns livros do castelo e os levar para o quarto por algum tempo, mas depois sempre devolvia. Esse era seu modo de escapar da realidade, e com a leitura de Ivanhoé, ela até se apaixonou por Wilfred, personagem principal do livro. O autor escocês Walter Scott, se tornou seu autor favorito, e a história de Rowena e Wilfred, o casal de Ivanhoé , havia se tornado o seu casal preferido.

- Também gosto muito de Ivanhoé...

Ela quase derrubou o livro no chão de susto. Olhou para o canto de onde a voz havia saído e mal podia acreditar em seus olhos. O homem que havia falado era exatamente como ela imaginara o protagonista de Ivanhoé. Era Wilfred que estava à sua frente. Belo, alto... talvez sua cabeça chegasse ao queixo dele, tinha olhos negros, o corpo esbelto, definido entre o requintado traje. Além de uma presença dominante e marcante. Mairi sentiu as pernas adormecerem e ainda descrente, pensou se o amado herói não teria saído da história para se tornar seu príncipe encantado e tirá-la daquela sua vida miserável.

- Acabou a inspeção? -perguntou ele sorrindo.

Mairi ficou muitíssimo vermelha, e saindo de seu devaneio, guardou rapidamente o livro na prateleira.

- Me desculpe, senhor. Não percebi que estava no recinto.

- Não fique envergonhada. Você entrou e praticamente correu às prateleiras. Foi uma experiência especial observar seus olhos ao puxar dali Ivanhoé, que é meu livro preferido.

- Eu não pretendia danificá-lo...

- Ora, não se preocupe. Eu tenho vários livros de Walter Scott... Inclusive outro Ivanhoé, pode levar este com você se quiser...

Ela virou os olhos.

- Gostaria muito... mas não posso...se a senhora Perpetua o ver comigo, achará que eu roubei.- disse ajeitando a touca na cabeça.

O rapaz ficou encantado com a figura exótica à sua frente. “Linda como o sol e tão meiga, chega a ser difícil resistir.” ele pensou.

- Não se preocupe com ela. Sou o dono da casa e se estou dando-lhe algo, ela não tem nada que ver com isso.

Mairi abaixou os olhos, e com o livro nos braços, ia deixando a biblioteca, mas o rapaz a chamou.

- Espere! - disse ele.

Mairi estancou no lugar.

- Como se chama? - ele perguntou.

- Mairi... - disse tímida, pensando consigo que aquilo parecia uma brincadeira: um lord querendo saber seu nome.

- Mairi? Mairi... parece música.

Ela não pôde conter um leve sorriso.

Aquele, que só podia ser o lord Ian, teve ímpetos de pedir a jovem que tirasse a touca, para que pudesse ver-lhe os cabelos, pois de alguma forma, aquele moça lhe lembrara a Rowena do livro.

- Leu algum outro livro do senhor Scott, Mairi?

Ela negou com a cabeça.

- Então, pegue este também. - disse tirando um livro da gaveta na escrivaninha.

- Waverly... - falou ela, gaguejando um pouco.

Ela não tinha uma dicção muito boa, mas foi maravilhoso para Ian ver os olhos dela brilharem de ansiedade diante do livro. Ele nunca havia conhecido alguém como ela.

- Você vai gostar... - dizia Ian, mas naquele momento a senhora Perpetua entrou na biblioteca.

- Oh! Perdão, lord Ian! Eu não sabia que estava aqui. Mas por que essa desastrada está aqui o incomodando? Mairi, quantas vezes já disse para não incomodar os nobres!? Vamos!

Ian sentiu uma vontade louca de protegê-la, pois a governanta sempre foi muito dura com os criados, contudo, ele próprio não sabia bem como lidar com os empregados. Além do que se tratando de Perpetua, até James, o orgulhoso mordomo da família, parecia ter medo dela, mas precisava interferir de algum modo.

- Senhora Perpetua... - disse alto, ganhando a atenção da mulher. - Ela não está me incomodando. Inclusive, falávamos sobre Walter Scott e seus livros. Aliais, presenteei Mairi com dois livros e gostaria de pedir a senhora que a liberasse mais cedo de seus afazeres para que possa ler meus presentes.

A governanta arregalou os olhos, mas sem saída apenas consentiu com a cabeça, logo depois ela e Mairi se retiraram da biblioteca.

- Ele é lord Ian? - perguntou Mairi à senhora.

- Sim... - confimou - Pobre lord Ian, vive trancado naquela biblioteca desde a morte de lady Eleanor.

Ouvir aquilo entristeceu o coração da jovem empregada.

 


A Rosa Entre Espinhos

Capítulo II

Por Josiane Veiga

“O castelo continuava frio e escuro”, pensou Ian ao caminhar pelos corredores. O jovem moreno sempre se sentiu aliviado quando saiu dele, ainda criança, para estudar em Londres. Aquele lugar provocava nele calafrios. Era fantasmagórico e poderia fazer mesmo um homem forte como Ian se tornar em uma criança vendo vultos em todos os lugares.

Não! Agora não era mais uma criança, era um homem de quase trinta anos. Um homem que tinha vivido as mais diversas experiências e que também aprendera que sonhos de criança não são realidades! Aliais, deixou de ser criança antes da hora. A capital não era um lugar próprio para alguém ingênuo do interior. Mas aprendeu as lições lá ensinadas. Hoje não confiava em ninguém. Sabia que todas as pessoas sempre tinham uma segunda intenção e estava preparado para enfrentar os mais diversos ataques.

Ainda jovem, freqüentou muitos eventos na capital, sendo sempre convidado para os mais diversos motivos, e principalmente para as mães casamenteiras que sempre desejavam ver Ian casado com suas filhas. Mas tirando algum romance ardente, mas sem compromisso, com alguma mulher da vida, ele nunca se envolveu com ninguém. Respeitava Eleanor e a escolha de sua mãe, mesmo sem conhecer a noiva.

Aliais a conhecia. Mas apenas se lembrava dos lindos olhos azuis e dos cachos dourados que cascateavam pelas costas e também das bochechas rosadas e gordinhas. A ultima vez que a viu, ela não tinha mais que sete anos.

Quando retornou a York, vê-la não foi de todo desagradável. Eleanor se transformara na mulher mais linda da cidade. Inteligente, culta... A esposa perfeita. Mas a perfeição acabou quando seu melhor amigo lhe confidenciara, balbuciando nervoso, que seu anjo de candura na verdade era um demônio. Eleanor tinha um caso com um jovem, filho de um comerciante pobre. Ian o vira apenas uma vez. Era bonito, mas sabia que poderia fazer Eleanor o esquecer. Se assim ele o quisesse...

O problema é que ele não queria!

Estranhamente, a mulher perfeita não provocara nele aquele algo mais. Passar o resto da vida ao lado dela, vendo-a apenas falar em roupas e jóias pareceu tão fútil que ele se sentiu doente.

-Você sempre quis o impossível! Não existe uma mulher neste mundo que ache interessante ficar com um livro entre as mãos, sonhando com aventuras de personagens fictícios. Nossa natureza faz com que nos sentimos atraídas por jóias, bailes... Estas coisas que você tanto gosta são típicas dos homens. – dissera-lhe a mãe ao ouvi-lo dizer o porquê não gostaria de se casar com Eleanor.

A festa de noivado foi na mesma noite. O colar dado a ela (que agora se encontrava nas mãos do ladrão e assassino que a matou) foi o único gesto que Ian fez para demonstrar sentimentos que na verdade não sentia. Este mesmo colar figurava no pescoço de alguma antepassada de Ian pintada no retrato da direita no corredor.

-Lord...

Ele virou-se e sorriu. Mairi ajeitava a touca bege com as mãos sempre nervosas.

-O senhor deseja alguma coisa? Estava passando no corredor e o vi olhando tão estranhamente para a Milady do retrato.

Ele teve vontade de rir. Aquela menina deveria achar que ele era maluco. De repente uma idéia mais louca ainda passou pela sua cabeça.

-Eu desejo algo Mairi...

-Sim..e o que é?

Estranhamente a palavra “você” dançou em seus lábios. Loucura! Ian estava infectado com aquele castelo horrível. Ela era sua empregadinha. E uma moça inocente. Ele jamais usaria uma jovem como aquela. Ainda tinha caráter.

-Senhor...

-Quero sua amizade Mairi... Pode me dar isso?

Ela arregalou os olhos, mal acreditando nos seus ouvidos.

-Sim Milord, mas tem certeza que deseja isso? Sou apenas uma empregada. Com certeza Milord tem muitos amigos no seu próprio nível social.

Ele quase gargalhou. Como ela era ingênua se pensava que dentro da perversidade e falsidade da sociedade inglesa poderia haver amizade... bom, na verdade havia.

-Tenho um amigo. Quase um irmão. Ele se chama Allan. É de Londres e esta vindo à cidade para me ajudar a resolver um problema. Mas só tenho a ele... Preciso de alguém como você.

Ela sentiu-se tocada, mas tentou não levar as palavras dele muito a serio. Ele era um Lord, ela um nada. Talvez a tristeza que ele estivesse passando o fizesse falar aquelas palavras, mas ela não poderia levar em conta para não sofrer...

-Serei sua amiga, meu Milord, o que precisar de mim, é só pedir.

-Só quero alguém como você para conversar.

-Estarei sempre aqui.

Aquilo ecoou nos ouvidos dele. Nunca teve ninguém sempre disponível para ele. Uma amizade pura, sem preconceitos e exigências. Nunca tivera um relacionamento assim também, apesar de todo carinho que tinha por Allan, Ian nunca se sentiu completo com alguém. E aquela menina pobre fazia ele se sentir daquela maneira.

Mairi fez uma reverencia e se afastou e ele ficou olhando-a de costas.

Os cabelos dela! Que obsessão. Ele gostaria muito de saber a cor das madeixas. O formato. Se eram lisos ou ondulados. Mas aquela touca não deixava um fio à mostra. Deviam ser lindos. Como os olhos que eram azuis, os cabelos deveriam ser loiros, porque poucas mulheres tinham cabelos escuros com olhos claros. E a sobrancelha era tão fina que não poderia definir a cor.

Bobagem pensar nisso. Jamais veria seus cabelos. Mas sempre ela estaria ali, do lado dele. Dele! Mas e quando se casasse? Como estaria sempre disponível para ele com um marido para cuidar.. ou filhos? Uma estranha sensação de posse tomou conta dele ao imagina - lá segurando uma criança de outro homem... outro homem a possuindo...

Bateu o punho fechado no próprio maxilar. Agora não tinha mais duvidas, estava endoidando.

-Ian...

Ele virou-se em direção a bela mulher, que na faixa dos seus 40 anos ainda mantinha um rosto perfeito.

-Sim, minha mãe?

-Com quem estava conversando?

-Com Mairi.

-Com quem?

Engraçado que a menina trabalhava para eles desde criança, mas sua mãe não havia lhe guardado o nome. Às vezes Ian sentia raiva da sua própria família e poder social.

-A moça que faz a limpeza.

-Você falava com uma serva? Essa gente esta perdendo o respeito e não reconhece mais o sua posição? Irei falar com Perpetua para tomar providencias e a moça ser colocada no seu devido lugar.

Uma raiva descomunal se apoderou de Ian.

-Não fará isso não! O dono da casa sou eu! Falo com quem quiser e continuarei a ser eu que recriminarei ou não os meus empregados!

Dorothea não esperava aquela reação do seu pequeno Ian e se surpreendeu com a atitude dele. Mas como toda Lady não perdeu a compostura e apenas curvou a fonte se afastando.

Uma semana se passou. Mairi ia todos os dias levar chá a Ian e sempre conversavam sobre a vida no castelo e sobre literatura. Tinham uma estranha relação, falando às vezes apenas com o olhar. Era como se duas pessoas, tão distantes socialmente, pudessem estar próximas pela própria alma.

Era estranho para Ian que ele tivesse um relacionamento daqueles com uma empregada, sendo que era com sua esposa que sempre imaginava viver aquilo. Mas admitia que nunca se sentira tão bem ao lado de uma mulher, mesmo sem ter um relacionamento intimo com ela. Já Mairi estava apaixonada pelos olhos, pela voz do seu Lord... ele era seu Wilfred, que mesmo sendo impossível de ama-la, pelo menos a tratava com carinho e viera dos mundos distantes dos livros para fazer a vida dela ter um pouco de emoção.

Era hora do chá da tarde quando Mairi chegou com a bandeja à sala particular de Dorothea. A moça a estava servindo quando a mulher mais velha bateu com o leque em suas mãos, desta maneira derramando um pouco do liquido na toalha.

-Olha o que você fez sua estúpida! – disse a Lady dando um tapa no rosto de Mairi.

O choque de ter sido agredida foi imenso. Lady Dorothea mal falava com ela e nunca a havia agredido antes. Este papel sempre fora desempenhado por Perpetua.

-Perdão Senhora.

Tentando se recuperar ela pegou o pano que se encontrava em seu avental e passou sobre a toalha. Os olhos marejados de lagrimas lutavam para não chorar na frente da mulher. Quando Mairi estava terminando o seu trabalho Dorothea começou a falar.

-Escute bem aqui sua vermezinha! Não gosto que fale com o meu filho. Um escândalo de Ian engravidando uma empregadinha é tudo que eu não preciso agora.

-Como é que é mãe?

Dorothea enrubesceu ao ver o filho entrando pela porta. Mas não perdeu a compostura.

-Eu já lhe disse que sou eu quem decide com quem falo ou deixo de falar.

-Estou defendendo seus interesses. Esta nervoso pela morte de Eleanor, mas logo ira se recuperar e vai me agradecer.

Ian olhou para Mairi e percebeu que ela mantinha os olhos abaixados, mas a respiração entrecortada demonstrava claramente que ela estava quase chorando. Sentiu-se penalizado pela dor daquela menina. A sua menina que adorava seus livros e que era a única pessoa naquele lugar que ele demonstrava o mínimo de carinho. Ele colocou uma de suas mãos nos ombros dela e disse baixo.

-Pode sair Mairi.

Quando ela já havia deixado o quarto ele foi firme em falar:

-Mãe, se insistir em desobedecer minhas ordens novamente ira pagar muito caro.

Dorothea não se amedrontou.

-O que ira fazer?

-A mandarei para uma das fazendas. Se acha a vida monótona em York, morreria de tédio no meio do mato.

Aquilo sim não era agradável de ouvir.

-Não pode estar me ameaçando por causa de uma serva.

-Minha serva! Minhas ordens! Não admito ser desobedecido.

-Você é igual ao seu pai! Avassala tudo e impõe sua vontade!

-Esta se descrevendo e não ao papai, mãe! Aliais, não fará da minha vida a infelicidade que foi a dele.

Ela ficou muda com aquela afirmação. Ian havia descoberto de seu caso com o duque de HerShire ainda em Londres e a mandara para York a quase sete anos atrás. O pai de Ian acabara morrendo de decepção por aquilo. Mas enfim não fora sua culpa. Todas as damas de Londres tinham seu flerte fora dos casamentos, sempre tão rotineiros e chatos.

Sem resposta Ian saiu da sala e foi ate a cozinha. Mairi fervia o pano de limpar a casa com sabão. Ela mordia os lábios para não chorar e ele teve vontade de arrancá–la daquela cozinha fria e triste e a carregar ate um quarto onde ela poderia dormir e descansar sem que ninguém a perturbasse.

-Mairi, onde esta Perpetua?

Ela mantinha os olhos baixos quando respondeu:

-Ela estava na sala dando ordens ao senhor James.

Mal havia falado aquilo quando Perpetua entrou na sala.

-Senhora.. –ele disse cumprimentando-a.

-Senhor, o que faz aqui?

-Vim aqui para lhe pedir que contrate mais três meninas para ajudar no serviço de casa. Mairi é minha protegida agora!

-Não!

Surpreendentemente a negativa veio da mais nova “protegida” de Ian.

-Por favor Senhor, eu sempre trabalhei. O que as pessoas diriam se soubesse que estou vivendo na casa sem trabalhar. Seria minha desgraça.

Ian se recriminou mentalmente pela idéia estúpida. É claro que eles pensariam que ela era sua amante se ele a tirasse do trabalho pesado, mas não era aquilo que ela precisava. Ela só precisava diminuir no trabalho e não trabalhar feito um animal.

-Está certo Mairi. Quero que continue trabalhando, mas diminua sua carga. O trabalho será dividido.

Aquilo já era um sonho para Mairi. Havia muitas empregadas na casa, mas o trabalho pesado sempre ficava para ela. As outras apenas lavavam a louça ou faziam a comida. A limpeza era da exclusividade dela. Nunca pode reclamar já que se fosse despedida para onde iria? Teria que se prostituir nas ruas de York, e entre isso e a limpeza ela continuava a limpar os ladrilhos.

Ela estava tão feliz que não percebeu quando ele saiu da cozinha com a senhora Perpetua atrás dele.

-Senhor... – a governanta o chamou.

-Sim?

-Sei que não deveria me meter, mas Mairi é uma jovem boba, criada dentro dos muros deste castelo. Ela não conhece a vida. Isto que pro senhor é um ato de bondade, ou algo... algo sem importância, para ela pode ser o ponto que destruirá sua vida.

-O que quer dizer Senhora Perpetua?

-Isto que esta sentindo passara. Logo encontrara uma jovem Lady educada para ser uma boa esposa e o senhor se esquecera da menina que limpa o chão.

A mulher estava achando que ele tinha se apaixonado por Mairi? E ele que pensava que estava enlouquecendo... não... era a governanta que era uma demente. Ou não? Ele olhou por um canto da porta e viu Mairi arriando uma panela. Era linda... Ele havia achado aquilo desde o inicio... Mas não estava apaixonado... A havia conhecido há pouco tempo...aquilo não acontecia assim... ou acontecia?


A Rosa Entre Espinhos

Capítulo III

Por Josiane Veiga

 

"Era loucura". Não teria outra explicação, pensou Ian. Desde que conheceu a jovem empregada na biblioteca, pegava-se a espiando pela casa. Regozijava de prazer ao vê-la pelos cantos com os livros que lhe dera na mão. Adorava observa-la colhendo as flores do jardim para montar os vasos... E principalmente, amava a maneira como ela lhe cheirava as suas camisas quando ia lavar. Cada movimento de Mairi entrava em sua mente e não saía mais de lá. O problema é que este sentimento estranho e desconhecido para ele também poderia lhe trazer problemas. Ela era somente uma empregada e ele um Lord inglês. Logo teria que se casar com alguma moça de família importante e continuar a manter o bom nome dos McGgregor.

-No que estas pensando Ian?

Ele olhou para o homem sentado na poltrona. Allan Hatton era seu melhor amigo. Os dois haviam estudado juntos em Londres e sempre se deram bem. Eram cúmplices das facetas da mocidade. Ajudavam-se mutuamente e ele estivera lá quando aquela desgraça aconteceu no dia do seu casamento, dando-lhe todo o apoio. Além disso, Allan era um grande advogado e cuidava dos negócios de Ian.

-Não estou pensando em nada Allan. –Ian sentou-se na poltrona a frente da de Allan.

O amigo sentado em sua frente sorriu.

-Ah, eu conheço estes olhos de peixe morto...

-Por favor, Allan. Não me venha com piadinhas! O momento é serio!

-Sim, eu sei.

Allan mexeu nos papeis que tinha na mesinha.

-Estou preocupado com você Ian. Infelizmente, existem provas contra você. Algumas testemunhas viram você subindo pro quarto momentos antes da morte de Lady Eleanor.

-Era nossa noite de núpcias! É claro que eu deveria ir até o quarto. Além disso, não fui eu que a matei. E porque roubaria aquele colar horroroso que minha mãe me fez dar aquela mulher?

-Eu sei que não faria isso, meu amigo. E por favor, tente ser mais saudoso em falar de Eleanor. Num tribunal chamar sua falecida noiva de “aquela mulher” pode lhe comprometer.

-Nós dois sabemos que ela tinha um amante. E também sabemos que eu nem me importava. A detestava. Era insuportável. Só se preocupava com roupas e futilidades. Achava estranho eu gostar de literatura... Aliais, ela sempre me olhou como se eu fosse um mostro.

-Não podemos culpá-la, seu feioso.

Ian o olhou feio. O amigo loiro sempre vinha com brincadeiras nos momentos mais impróprios.

-Veja o que pode fazer por mim Allan.

-Farei o que puder Ian. Não se preocupe.

-Não estou preocupado. – ele disse levantando-se e indo até a janela. De lá se via Mairi sentada embaixo da sombra de uma árvore lendo um livro. – A justiça sempre prevalece. E tenho certeza que a verdade aparecerá.

Allan juntou-se ao amigo.

-Ora... Que bonitinha sua empregada. -disse malicioso.

Conhecendo Allan tão bem quanto conhecia, sabia que ele lhe estava provocando.

-Se chama Mairi.

-Que lindo nome.

-Sim...é uma moça especial. Muito doce e...

-..e bem diferente de Eleanor – completou o rapaz.

Ian ergueu as sobrancelhas.

-Nem a compare a Eleanor. Mairi é apenas uma menina humilde. Eleanor era uma Lady.

Apesar das palavras serem pronunciadas num tom calmo, Allan captou algo na voz de Ian que o preocupou.

-Por favor Ian. Não vá me seduzir a moça.

Conhecendo o talento de Allan para defender os fracos e oprimidos, Ian apenas sorriu.

-Não se preocupe. Quero-a apenas como amiga.

-Que assim seja.

Quando Allan foi embora, Ian não resistiu e acabou juntando-se a Mairi no lago. Ela estava linda, apesar das vestes velhas e da toca horrorosa que não permitia que Ian visse seus cabelos. Como seriam? Loiros, negros... Ian não sabia! Talvez ele pudesse lhe dar roupas novas... Vestidos lindos de seda... Não! Deste jeito acabaria com a reputação da moça. Alguns empregados já haviam comentado sobre o evento da cozinha.

-O que achou do livro Mairi?

-Lord Ian!

Ela havia se assustado. Não percebera a chegada dele. Que homem enigmático! Assustava-lhe e a tranqüilizava ao mesmo tempo.

-Gostei muito, milorde.

Ela sentava-se sobre o gramado. Ian pensou que nunca, em toda a sua vida havia visto visão mais linda e pura. Como ela era diferente das mulheres que ele conhecia. Nenhuma outra se sentaria em um jardim para ler um livro. Mas Mairi não parecia se importar.

-Esta pensando nela?

Ele lhe olhou assustado. Percebeu seu olhar triste, mas não entendeu a pergunta.

-Como?

-Percebi que estava voando em seus pensamentos. –ela murmurou - Oh... Desculpe-me. Não queria ser inconveniente.

Ele sorriu.

-Somos amigos Mairi. Isso não existe entre nós... Mas quem seria “ela”?

Ela abaixou os olhos e ficou enrubescida.

-Ora... Lady Eleanor.

Ele sentiu vontade de rir. Reconheceu o ciúme no tom de voz dela, e se sentiu recompensado. Mas logo se arrependeu. Ela provavelmente estava gostando dele. Isso não poderia acontecer porque ele não poderia dar esperanças a uma reles serviçal. Mas Mairi não era uma simples empregada. Ela era aquela que animava seus dias. Que lhe arrumava o café da manhã da maneira que ele gostava. Que ajeitava suas roupas, limpava seus livros com carinho e colocava talco em sua cama para que quando ele fosse dormir, sentisse o perfume.

Mas não era o perfume do talco que ele queria sentir o cheiro. Ela o dela. Sem conseguir evitar o pensamento acabou levando-se ao próprio quarto e vendo Mairi deitada em sua cama, com longos cabelos espalhados em seu travesseiro, e o corpo nu escondendo-se em seus lençóis.

-Mairi...

Ela levantou os olhos. Seu nome foi dito quase como um gemido.

-Senhor?

-Não estava pensando em Eleanor – ele respondeu sua pergunta - na verdade, nunca pensei nela. Em nenhum momento da vida... Pelo menos não da maneira que penso em você.

Ela lhe olhava confusa. Ian acabou irritando-se com a própria fraqueza e com a confissão.

-Esta chocada?

Ela acabou ficando sem saber o que dizer. Não entendera as palavras dele antes e agora ele parecia seriamente raivoso.

-Com o que senhor?

-Com o fato de eu não ligar a mínima pra minha ex noiva? Por eu ter passado o noivado todo querendo que ela morresse? Detestava aquela mulher. Imaginava que horrível seria minha vida ao lado de uma vagabunda como ela.

Mairi ficou nervosa. Ele parecia que iria pular nela. A mudança do rapaz calmo que se achegou a ela naquela tarde para conversar, para o homem frio que a encarava agora era muito radical. Seria possível que Ian tivesse realmente matado Lady Eleanor, como todos na cidade falavam?

-Não sou um santo Mairi. Não sou perfeito.

-Não!! – ela não respondeu a ele...e sim aos próprios pensamentos.

-Não? Não o que? –ele a segurou pelos braços.

Ela estava quase as lágrimas. Como uma linda tarde poderia acabar daquela maneira?

-Desde o dia em que nos conhecemos, Milorde me trata com respeito, como se eu fosse uma igual e não apenas uma mulher e serviçal. Todos sempre gritaram comigo, e me trataram mal pelo fato de eu não ter família e ser pobre... Mas o senhor sempre me tratou bem, como poderia achar que não és perfeito?

Ele soltou seus braços. Passou as mãos pelos cabelos negros e os olhos intensos encontraram os dela.

-Você é muito pura Mairi. Pura... Ingênua...

-O senhor é um bom homem!

Ele quase riu com aquela afirmativa. Ela acreditava nele de uma maneira que nem ele mesmo nunca confiou.

Sem conseguir resistir ele segurou seus cabelos e uniu sua boca a dela. Desejara este beijo desde o primeiro dia que a viu, naquela biblioteca. Havia pensado nisso todas as noites antes de dormir e durante as conversas na mesa, no café da manhã, ele quase se perdia naqueles olhos azuis.

O gosto dela era inebriante e a sensação daquele corpo perfeito contra o seu era ainda mais excitante do que qualquer outro momento amoroso que ele já havia passado. Ele inclinou a cabeça para beijá-la melhor e percebeu que os braços dela deslizaram pelo seu peito. Quando aquelas pequeninas mãos se enterraram nos cabelos dele, Ian perdeu a razão, só sabia que uma fome louca tomou conta de si.

Suas línguas dançavam e os corpos se apertavam. Deus! Ele a amava! Havia sido amor à primeira vista! Nunca gestos tão inocentes de uma mulher havia mexido tanto com ele.

Ele percebeu que aquele beijo não bastaria, mas já era insensatez demais para um dia. Lutando contra o próprio corpo, ele separou as bocas e afastou-se um passo dela. Percebeu quando os olhos dela se abriram, que a duvida estava lá presente.

-Sei que deveria me desculpar. – ele disse – mas não vou... Porque não consigo ver erro na minha atitude. Acho que estou ficando louco Mairi... E você é a culpada.

-Perdoe-me.

-Não – ele disse gentilmente. – Se continuarmos a conversar agora, trarei vergonha sobre você, sou um homem...

-E eu uma mulher... –ela retrucou.

A resposta ferina o satisfez.

-Meu amor... Você anda lendo muito os livros do Sr. Scott.

Ela sorriu.

-Não sou herói e bom como Wilfred, Mairi.

-Não... Você é melhor que ele.

Durante o beijo Mairi finalmente entendeu o que sentia Rowenna de Ivanhoé. Agora ela sabia o que era o amor... E o que sentia por Ian. Percebeu o motivo de seu coração bater tão forte quando o via. Soube por que se preocupava com ele... e também porque queria tanto vê-lo feliz. Mas também sabia que jamais ficariam juntos. Ela não passava de uma empregada...

-É impossível. – ela murmurou.

O tempo pareceu parar para eles. Encararam-se por algum tempo, até ela tomar a coragem.

-Continuar esta amizade será o mesmo que alimentar todos os dias o que sentimos um pelo outro. Nunca poderemos ficar juntos. E sei que morreria ao ver Milord com outra mulher. Então... o melhor é darmos um fim agora...

-Acha possível?

-Não sei.. nunca amei antes.

Aquela confissão tão docemente feita arrasou o coração dele. Quando ela deu-lhe as costas e caminhou em direção a ala dos empregados, ele sabia que o sensato era colocar um ponto final ali. A mandaria para a fazenda em Rievaulx. No castelo dera ordens para que Mairi não trabalhasse mais tanto quanto antes. Ela poderia ser governanta na fazenda e não mais ficaria se desgastando nas atividades domesticas. Ganharia seu salário e ate poderia se casar com algum peão. E ele nunca mais a veria. Isso! Era isso que ele faria.

O problema de tudo foi que as pernas não obedeceram à mente, e antes que ela entrasse no castelo ele lhe segurou o braço e a puxou contra si.

-Você confia em mim?- ele perguntou desesperado.

-Mais que na minha própria vida.

Ele sorriu.

-Lhe prometo Mairi... Darei um jeito de ficarmos juntos.

Nenhuma palavra mais precisava ser dita para inundá-la de felicidade.


A Rosa entre Espinhos

Capitulo IV

Por Josiane Veiga

Dorothea viu a cena que se passava no jardim com uma raiva crescente em seu coração. Maldita empregadinha! Seu adorado filho era muito superior àquela ratinha que limpava seu banheiro.

-O que houve minha querida?

A mãe de Ian voltou-se a senhora elegante que tomava chá em sua sala particular.

-Não aconteceu nada, Vitória. Estava apenas admirando o campo lá fora.

A mulher loira fez um sinal de desagrado.

-Ora Dorothea. Perdendo tempo com essas coisas fúteis, enquanto temos tantas coisas importantes a que pensar. – dito isso, fez um sinal com a cabeça em direção a uma jovem sentada a seu lado- minha amada filha esta na idade de se casar. E sabe bem quem eu quero pra genro, não querida?

Dorothea colocou seus olhos sobre a bela moça, loira como a mãe, que elegantemente vestida, tomava o chá como alguém da realeza.

-Tem meu total apoio. Mas a morte de Eleanor ainda assombra estes corredores.

-Ian é jovem e precisa de uma nova esposa para aplacar seu coração triste. E ninguém melhor que minha pequena Annie para um rapaz tão poderoso.

Dorothea sentou-se no sofá de camurça.

-Sabe o que falam de meu filho pela cidade, não sabe?

-É claro que sei. E não sou idiota! Mas tenho consciência que ele é acusado injustamente pela morte de Eleanor.

A mãe de Ian mexeu-se no sofá incomodada. Falar sobre este assunto sempre a assustava.

-Eleanor era a moça mais linda de toda York... Mas nunca mereceu meu Ian..pena que só reparei nisso tarde demais. – ela disse seca – mas é claro que Annie é diferente. – completou sorrindo.

A conversa continuou cheia de futilidades e a tarde, antes de Vitória ir embora Dorothea já arquitetava uma maneira de tirar a empregada do caminho de Ian.

Allan Hatton entrou no seu escritório na esquina da rua Rivelx segurando uma pasta embaixo do sobretudo que usava para fugir do crescente frio. Passou as mãos sobre os cabelos molhados pela neblina e murmurou alguma blasfêmia contra o maldito frio.

-Demorou...

O jovem loiro tomou um susto ao ver Ian sentado numa cadeira em frente a sua mesa, com um ar desgastado e cansado.

-Não sabia que estava em Londres.

O outro se levantou e eles cumprimentaram-se.

-Desde sua última vinda em minha casa fiquei pensando no que poderia fazer para provar minha inocência pela morte de Eleanor.

-E chegou a alguma conclusão?

-Não... Mas estou desesperado. Achei que poderia suportar esta indiferença e desconfiança de toda a cidade, mas não pensei na minha mãe. Deste a visita de Vitória Webster há uma semana, ninguém mais foi vê-la. Você a conhece! Ela se sente uma rainha abandonada, e esta entrando num estado crítico, sentindo-se rejeitada.

-Realmente Ian... Lamentável esta situação.

-Na verdade, ela também anda insuportável, mas consegui evitar que ela descontasse isso nos empregados. Ninguém tem nada a ver com nossos problemas.

-Você sempre pensando nos pobres e feridos. É um verdadeiro herói.

A ironia foi clara, mas também bem vinda. O humor de Allan era um alivio naqueles dias infernais. Os jornais criaram uma história de “Romeu e Julieta” sobre Eleanor e as pessoas ficaram encantadas. Todos achavam que aquela linda moça loira fora obrigada a um casamento sem amor e que quando se recusou ao marido na noite de núpcias ele a matou. Eram tão convincentes que a sociedade já pressionava a justiça para a prisão de Ian McGreggor.

As únicas coisas boas daquela ultima semana eram os beijos roubados pelas sombras do castelo. A boca de Mairi era água fresca no deserto de vida de Ian. Os dois escondiam-se pelo bosque a noite, e conversavam sobre os mais diferentes assuntos, mas principalmente sobre o amor que nascia e crescia cada dia mais. Era um sentimento impossível, Ian tinha esta consciência. Mas já não vivia mais sem a sua Mairi. O desejo de fazer amor com ela o estava corroendo, mas não a tomou. Preferiu partir para Londres antes que fosse tarde demais. Precisava oferecer mais que sexo aquela jovem. Ela era muito especial.

Então soube que a família de Eleanor tomava providências e a policia já estava desesperada sem ter a solução do crime. O mais óbvio seria a conclusão. Eles iriam prender Ian pelo assassinato da mais bela mulher que já viveu em York.

-Como anda o caso, Allan? Tem novidades?

-As coisas andam difíceis, Ian. Gostaria de ter boas noticias. Mas sejamos francos. O casamento aconteceu. Eleanor subiu para o quarto para se arrumar para você. Você subiu logo depois. E num curto intervalo de tempo ouve-se um grito e todos encontram seu corpo atirado no concreto.

-Inferno! - vociferou Ian. – Se eu tivesse chegado um pouco antes ao quarto poderia ter pegado o assassino. Mas estava tão desconsolado com este casamento que fui atrasando minha entrada.

-O caso é o seguinte: encontramos a jóia, encontramos quem matou Eleanor.

-É como procurar agulha no palheiro.

Allan suspirou.

-Não me desanime Ian.

O jovem advogado levantou-se e serviu café para si e para o companheiro.

-E então? Conte-me como vai aquela garota que tem o nome musical.

-Nome musical?

-Ora..você entendeu.

Ian tomou um gole do café.

-Allan. Eu preciso lhe contar uma coisa.

-É serio?

-Muitíssimo.

O loiro sentou-se novamente a frente do amigo.

-Fale.

-É sobre Mairi.

-Sim...

-Bom..desde que eu cheguei lá, nos tornamos amigos. Ela é muito inteligente. Falamos de literatura... ela ama Scott e seus livros.

-Esta descrição para me convencer que ela é a mais maravilhosa mulher que já pisou sobre a Terra é somente para dizer que a ama?

-Como sabe?

-Não sou tolo. Está escrito nos teus olhos. Nunca lhe vi assim. Só espero que não faça a moça sofrer.

-Casar com ela seria que o mesmo que dar uma pistola a minha mãe para que a mesma atire na sua própria cabeça.

-Ah, não duvido que Lady Dorothea vá odiar a mais nova nora. Mas não permita que isso interfira na sua felicidade. Sabe quantas pessoas passam a vida procurando alguém para nunca encontrar? Você é muito rico, não precisa se casar por dinheiro.

Ian sentiu certa amargura na voz de Allan, mas não prosseguiu no assunto. Era estranho, mas sentia que estaria enganando o amigo se não contasse sobre Mairi. Os dois mantinham um código de honra que não permitia que um deles possuísse algum segredo sem que o outro soubesse.

Já no castelo dos McGreggor as coisas não andavam bem para a jovem empregada. Assim que Ian saiu da casa, Dorothea começou a atacar a moça com as mais diversas artimanhas. Mesmo assim Mairi teve forças para não revidar. Ouvia tudo quieta tentando acreditar no amor de Lord Ian.

-Mairi!

O grito lhe causou arrepios. Pegou o bule com o chá e levou ate a sala onde estava Milady. Sem imaginar o que lhe esperava a moça foi servir a patroa, remoendo em medo.

-Você demorou inútil! Não se fazem mais empregados como antigamente. Já lhe disse que não gosto de esperar.

-Perdão Senhora, mas o chá não estava pronto.

-Eu lhe perguntei algo? Sirva meu chá e não fale comigo - e numa raiva crescente Dorothea levantou-se e caminhou em direção a Mairi – você é uma ratinha que se esgueira por este castelo, uma vermezinha que não tem valor nenhum. Portanto, nunca mais fale comigo.

Mairi previu que seria agredida fisicamente por Dorothea quando James entrou na sala, interrompendo a cena.

-Lady Annie chegou senhora.

O aviso do mordomo fez com que uma luz inundasse os olhos de Dorothea que rapidamente se afastou de Mairi.

Logo depois uma jovem loira, de olhos castanhos e um corpo perfeito entra na sala. Parecia um anjo pisando em nuvens. Vestia um vestido da ultima moda, num veludo verde escuro. O intenso frio do inverno inglês não parecia lhe afetar, pois as bochechas transmitiam uma saúde incrível. Mairi imaginou se tivesse nascido numa família e pudesse se vestir daquela maneira também seria tão bonita.

-Bom dia Milady Dorothea.

A voz dela era suave. Annie lembrava Eleanor, se bem que a última tinha uma sensualidade que nesta não existia.

-Boa dia minha querida - disse Dorothea segurando as mãos da jovem entre as suas.

De repente como se tivesse lembrado de algo, ela vira-se em direção a Mairi e fala:

-Mairi, traga chá para Annie. E traga a melhor porcelana. Vá se acostumando que ela será a futura esposa de meu filho.

Foi uma punhalada brutal. A empregada sabia que seu amor pelo Lord era algo impossível. No máximo seria sua amante. E isso ela não podia aceitar. O pouco que aprendera sobre Deus com o reverendo que a ensinou a ler, fez – lá compreender que jamais poderia viver tamanho adultério.

-Quando será o casamento? –ela perguntou usando toda a coragem que nunca imaginou possuir.

Sem demonstrar surpresa com a audácia da empregada, Dorothea respondeu:

-Aqui há dois meses. Ian foi a Londres organizar o casamento.

Ela tentou não acreditar, mas foi difícil. Ian havia partido alguns dias antes para Londres e não lhe contara o motivo, dizendo que não queria aborrecê-la com os seus problemas. Abaixando a cabeça, engoliu as lágrimas e saiu da sala. Precisava esquecer Ian. Precisava, pois senão ele seria sua desgraça.

 


A Rosa entre Espinhos

Capitulo V

Por Josiane Veiga

 

Mairi ouviu atentamente a conversa entre as Ladies na sala. O casamento estava sendo planejado nos mínimos detalhes e não havia nada que ela pudesse fazer. As noites passadas ao lado de Ian só haviam servido para animar seu coração, mas ela nunca se enganou. Sabia que o Lord não poderia se casar com uma empregada. Todo o poderoso status dos McGgregor estava em jogo.

Ela acreditava na sinceridade de Ian. Sabia que ele lhe tinha sentimentos puros, mas não era tola o suficiente para ignorar que existia um mundo que jamais aceitaria aquela união.

A cabeça dela pendeu contra a parede. Cada detalhe pronunciado pelas duas mulheres, fadigava seu coração. Ela mal percebeu quando as lágrimas lavaram seu rosto. Um amor impossível. Por que fora castigada com tão triste sina?

-Mairi!

O grito de Lady Dorothea inundou sua mente. Rapidamente ela correu ate a rica sala. Notou que a jovem Annie já havia se retirado.

-Sim?

Dorothea levantou-se da cadeira em que estava e aproximou-se da janela. Lá fora, o dia transcorria normalmente, mas dentro da sala, o tempo parecia parar. A senhora estava enrubescida de raiva, mal conseguia encarar a moça.

-Meu filho esta se casando com Annie e não quero uma rata suja como você na minha casa atrapalhando a nova vida de Ian. Você vai embora, ouviu?- ela disse pausadamente.

O quê? Mas o que ela havia feito? Apaixonara-se por Ian, era verdade, mas nunca exigira nada dele. E agora? Para onde iria? Não tinha dinheiro nem família. Como viveria nas ruas frias, cobertas de neve?

-Senhora... Por favor...

-Não quero desculpas. Arrume suas coisas agora! Quero você longe da minha casa, já disse!

Não havia o que discutir. Ian poderia fazer algo por ela se estivesse em casa, mas naquela situação a única coisa coerente era ir embora.

Tentando se munir de todas as forças que fosse possível ela deu as costas a mulher e foi até seu quarto. Não havia nada que pudesse arrumar para ir embora. Tinha apenas uma roupa velha, que estava vestindo, e o livro dado por Ian. Ela tocou a capa. Não teria onde guardá-lo. Era melhor deixá-lo ali. Dificilmente alguém a pegaria para trabalhar sem referências. Passaria fome.

Todas as coisas horríveis que poderiam acontecer com ela nas ruas passaram em sua mente. Uma jovem sozinha, sem família e dinheiro não tinha muitas opções. Para viver, precisaria se prostituir! Mas antes a morte que isso! Havia sonhado em entregar sua virtude ao Lord Ian, mas ele havia respeitado sua donzelice. Do que havia adiantado? Se tivessem vivido alguma noite de amor, ela pelo menos teria uma lembrança.

“Não seja tola!”, esbravejou para si mesma. Se tivessem feito amor, provavelmente ela teria um bastardo na barriga. Um ser inocente para passar fome junto com ela.

-Lamento Mairi.

A voz da governanta Perpetua invadiu o quarto. A mulher já sabia o que havia acontecido?

-Para onde irei, senhora? – a moça perguntou num tom desesperado.

-Tentei avisá-la, Mairi. Os ricos não se importam conosco. Só nos usam e quando cansam, nos jogam fora.

A voz de Perpetua era claramente perturbada por uma raiva contida.

-Eu sei.

A outra então a abraçou. Nunca pensou que Perpetua havia sido quase como uma mãe naqueles anos todos, mas agora a verdade se mostrava. A velha governanta, apesar de toda a rabugice, havia sido a pessoa mais próxima de uma família que jovem empregada havia conhecido.

Quando Perpetua deixou o quarto, ela escondeu o livro embaixo do colchão de palha. Se Deus ajudasse, talvez um dia Ian o encontrasse e percebesse o quanto o amava. Mas agora, Mairi não tinha tempo nem pra pensar em toda a sua dor. Precisava sair daquele castelo. E o futuro se mostrava sombrio a sua frente.

Quando sentiu o vento gelado por fora do castelo, ela enfim saiu do estado de torpor. Até aquele momento, tudo parecia um pesadelo, mas o frio e a falta de um abrigo no inverno inglês congelou também qualquer esperança que Mairi pudesse ter.

Todas as coisas ruins que uma mulher pode pensar passaram por sua mente. A prostituição jamais! Mas ela poderia ser estuprada nas noites de York. E quanto tempo o orgulho e a dignidade iria se manter sem comida na barriga?

“Não, Mairi! Não pense assim! Você vai achar trabalho! Sempre trabalhou bem... Deus, não me abandone agora”. – ela disse a si mesma.

E talvez Ele não a tivesse abandonado mesmo. Quando chegou ao centro de York, uma feira ao ar livre se achava. E o primeiro rosto que ela viu foi o de Benjamin. Ela quase chorou de alegria. Apesar de saber que Ben só havia se aproximado dela para se tornar amante de Lady Eleanor, ele havia sido a pessoa mais próxima de um amigo que ela tivera em toda a vida.

-Ben...

Benjamin era um jovem alto, moreno e muito bonito de olhos negros e misteriosos. Ambicioso, ele sempre havia tentado tirar proveito de tudo que se passava em sua vida. E foi assim também com aquela menina que se encontrava em sua frente com os olhos arregalados.

Quando conheceu Mairi, não acreditou que um anjo tão bonito pudesse ser uma empregada de tão baixo nível dentro do castelo. Ele entregava os legumes do mercado de seu pai no castelo, e assim encontrava a jovem todos os dias. Era tão linda... mas era pobre. E ele não era tão miserável para seduzir uma órfã.

-Mairi! Você por aqui?

Ela não saia do castelo. Por falta de tempo e também porque a governanta tentava proteger a moça. Mairi não era mais que uma conhecida, mas foi através dela que ele se conheceu e conseguiu se aproximar de Eleanor. Usou a empregada para seduzir a patroa. E, sem qualquer culpa, pois a loira rica adorou seus jogos sexuais pelos bosques em volta do castelo e pelos hotéis vagabundos que eles se encontravam quase sempre.

-Preciso de ajuda Ben... Lady Dorothea me expulsou do castelo...

-Como? Mas por quê?

Ela enrubesceu e ele logo entendeu.

-Não acredito que você de deitou com o Lord.

-Não! – ela desmentiu rapidamente.

Não? Ele franziu o cenho. Ele havia visto Ian algumas vezes e sabia que o homem podia seduzir uma jovem boba como aquela. Ele até temeu que Eleanor se apaixonasse pelo marido, pois se isso acontecesse, talvez ela deixasse de lhe dar dinheiro...como alíais, aconteceu, já que ela morreu.

-Então por quê?

Mairi baixou a cabeça e balbuciou.

-Milord vai casar e sua mãe não me quer por perto.

“Típico dos ricos!”- pensou Ian- Mairi era tão linda, e com o Lord de casamento novo, talvez a empregada virasse a cabeça do homem e atrapalhasse a nova união.

-Mas então? O que quer de mim? – ele perguntou.

-Preciso de trabalho.

“Ah Mairi! Se você não fosse tão certinha eu lhe daria um trabalho na minha cama” – pensou Ben. Mas é claro que ele não diria aquilo.

-Impossível Mairi. Mesmo que eu lhe indicasse para alguém, com certeza Dorothea iria atrás e você seria mandada embora.

Ele se comoveu quando a viu chorar. A orgulhosa Mairi, que mesmo sem família, nunca reclamava do tratamento de animal que recebia, agora chorava na frente dele.

-A diligência que vai para Londres sai daqui à uma hora. Na capital é mais fácil você conseguir trabalho.

-Não tenho dinheiro...

-Ora, eu lhe pago a passagem. É o mínimo que posso fazer por você.

Uma passagem para Londres era algo que custava caro. E Benjamin não era tão rico assim... mas Mairi nem pensou nesse ataque de abnegação dele.

-Eu nem sei como lhe agradecer.

-Não precisa me agradecer... Seja feliz pequena. –ele disse colocando as mãos em seus ombros.

“Mairi também já foi humilhada por esses malditos da nobreza." –ele pensou com amargura, mas não pronunciou nada.

Dois dias depois

Ian saiu do coche e olhou sua mãe. Alguma coisa havia acontecido, porque Dorothea tinha um sorriso enorme nos lábios. E se ele bem conhecia sua mãe, ela não era uma pessoa de rir, a não ser se alguém lhe contava alguma desgraça alheia.

Subindo as escadas, ele se aproximou da lady e beijou-lhe as mãos.

-Bem vindo a sua casa, meu filho! – ela pronunciou ainda sorrindo- como foi em Londres?

-Nada por enquanto minha mãe. Sou o principal suspeito. A imprensa esta pressionando a polícia. Posso ser preso.

-Isso nunca! Somos nobres. Com certeza a realeza irá nos ajudar. Você é um McGgregor! Vou mandar uma carta hoje mesmo para a Rainha Vitória.

-Há muito tempo a monarquia já não tem o mesmo poder, mamãe. Desde que se tornou rainha, nossa majestade só passa a reprimir rebeliões.

-Tolice – ela balbuciou colocando as mãos em seu braço e adentrando para dentro da casa com o filho - não a nada que o dinheiro não compre.

-Exato mamãe. E não se esqueça que o comércio está se expandindo. O mundo está mudando e logo nosso poder não será tão valioso assim. Logo a burguesia tomará conta do mundo.

-Não seja tolo! Isso nunca acontecerá.

Ian suspirou.

-Mãe, logo um sobrenome apenas não garantirá a um homem imunidade. Mesmo os mais ricos e abastados não escaparam das maledicências.

-Que Deus ajude que eu não viva para ver um mundo assim.

Ian sentou-se cansado no sofá e não discutiu mais. Aquela mulher aristocrata a sua frente era sua mãe! Mas nem parecia. Ela nunca entenderia que ele não se importava a mínima para o dinheiro ou o poder... Ele queria limpar seu nome, mas porque essa era a realidade! Ele não era um assassino! Ele não matou Eleanor!

Revirando os olhos pela enorme sala ele procurou pelo rosto de Mairi. Onde ela estava? Provavelmente aproveitaram sua ausência para abusar dela. Ele pensou em ir a cozinha procurá-la, mas acabou desistindo. Estava sujo e cansado. Antes tiraria a poeira do corpo.

-Onde esta James? – ele perguntou a mãe.

-A neta de James passou mal e ele foi visitá-la. Vou mandar algum empregado levar água para seu banho.

-Agradeço – ele disse subindo as escadas.

Algumas horas depois, jantando, ele ainda se surpreendia por Mairi não ter aparecido.

Os olhos procuravam os olhos claros dela, mas nada. Onde ela se metera?

Perpetua serviu o vinho e ia se retirar quando ele a chamou:

-O que deseja, Senhor?- ela perguntou com um olhar magoado.

Mas o que estava acontecendo naquele castelo? Sua mãe feliz e Perpetua mais carrancuda ainda!

-Onde está Mairi?

A senhora de cabelos pretos e rosto pálido suspirou.

-Foi embora!

O choque foi tão grande que ele quase derrubou a mesa a sua frente.

-Como assim foi embora? Ela não tem família! Onde ela está?

-Pelo que eu soube Milord, ela foi atrás de emprego em York. Mas o senhor sabe que York não é uma cidade muito grande. Ela não achou nada. Mas encontrou Ben...

-Ben?

-Benjamin, o filho do dono da fruteira.

Ele sabia quem era Benjamin! Ainda se lembrava da sua perplexidade ao saber que aquele rapaz que o encarava desafiante na aldeia, era amante da sua noiva.

-E o que aconteceu? – ele perguntou não muito certo de saber o ocorrido.

-Ben pagou uma passagem para que Mairi fosse procurar trabalho em Londres.

-O que? – ele perguntou desesperado.

Mairi estava em Londres agora. Deu um murro na mesa de tanta raiva da moça. Ela era muito ingênua. Não tinha idéia do que era Londres. Uma cidade feia, fria e que não daria nenhuma chance para uma garota do interior.

De repente ele percebeu algo.

-Por que Ben pagou a passagem para Mairi?

-Eles são amigos. –ela disse se retirando.

Amigos...

Eles são amigos...

Benjamin e Mairi. Os dois se conheciam. E eram amigos. Se eram amigos... ela sabia que Eleanor era amante de Benjamin.

Chocado ele saiu pela varanda precisando tomar ar. Nem percebeu quando as lágrimas desceram por seu rosto. Fora traído novamente... e desta vez, fora por alguém que ele amava.


A Rosa entre Espinhos

Capitulo VI

Por Josiane Veiga

O vento bateu contra as vidraças. As enormes árvores se chocaram fazendo um barulho sinistro. Lady Dorothea não era uma mulher de se assustar com nada, mas naquela noite, ela sentia frio em todo o corpo. Acabara de ter um pesadelo. Viu o corpo de Eleanor atirado sobre o concreto frio e logo após, os olhos da moça a encaravam.

A senhora pousou a mão sobre o peito tentando se acalmar. Era adulta. E nunca temera nada. Não seria um pesadelo que lhe colocaria qualquer sentimento. Nem de medo... Nem de culpa.

Puxou as cobertas e se levantou. O quarto ainda estava iluminado por um resto de vela. Ela andou de um lado para o outro, pegou um livro, sentou-se na cama, tentou ler.

Foi então que ela ouviu um choro. No começo parecia um lamurio, mas logo ela percebeu que era um pranto feminino.

-Quem esta aí? – ela perguntou.

Nenhuma resposta.

O choro acalmou tão de repente quanto havia começado. Então fez se ouvir o som de passos. O barulho da caminhada cessou quando estava à frente da porta do quarto da senhora, assustando-a, mas recomeçou, para alivio de Dorothea.

-Alguém esta tentando me amedrontar. – ela murmurou.

Tentando encontrar toda a coragem possível, colocou o penhoar e saiu do quarto. O corredor estava escuro, mas não totalmente. A luz da lua adentrava pelas janelas do final do mesmo. Dorothea foi seguindo o som dos passos. Iria pegar o maldito que estava tentando assustá-la.

Mas ela quase perdeu a vontade ao perceber que o som vinha do quarto em que Eleanor morreu. O medo poderia a deixar irracional, mas ela era orgulhosa demais para isso. Lady Dorothea colocou a mão na maçaneta da porta e a abriu.

Estava vazio...

Ela caminhou para o meio do quarto. Estranhamente a janela de onde Eleanor fora jogada, estava aberta. Olhando ao redor, Dorothea percebeu a sujeira. Ninguém entrava naquele lugar desde a noite maldita.

-Dorothea...

Ela ouviu o barulho. O coração quase parou no peito. Ela sentiu que ia desmaiar, mas o corpo agiu contra sua determinação de não ver. Aos poucos ela foi se virando.

Perto da cama a imagem de uma jovem loira ensangüentada, a fez gritar. Era Eleanor! Ela viera buscá-la.

Correu até a porta, mas esta se fechou sozinha. Puxou a maçaneta com força, mas sentiu dedos frios na sua nuca. Iria morrer! Com desespero ela começou a gritar, mas a mão que estava na sua nuca deslizou para sua boca.

-Mãe?

A voz de Ian no corredor surgiu tão de repente quanto a mão a abandonou. E a porta abriu-se.

O rapaz olhou assustado a jovem senhora que nunca perdia a frieza. Aquela Lady era muito diferente da mulher que lhe dera a vida. Dorothea estava descabelada, o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas.

-Mãe! O que houve?

-Ian... Eleanor, ela me quer...

E desmaiou.

ºººººººº

O frio era tão intenso quanto à fome que chocava seu ventre. Mairi estava suja, cansada e infeliz.

Quando chegou a Londres, procurou emprego, mas estranhamente ninguém naquela cidade precisava de uma jovem sem família. De casa em casa ela ouviu “não”s tão secos quanto às pessoas que a entrevistaram.

Quando a noite chegou, ela encontrou um canto úmido em um beco, cheio de ratos, que espantou rapidamente com um pedaço de madeira. Deitou-se sobre o chão duro e dormiu. E assim as semanas foram passando. De dia, ela procurava qualquer trabalho, e às vezes conseguia o labor de limpar chaminés. Um serviço triste, cansativo e que lhe dava pouco dinheiro.

O estomago doía de tanta fome. Quando brigou pela primeira vez com um rato por um pedaço podre de carne, ela perdeu o resto da dignidade. Então não tentou mais se lavar nas fontes nas praças e também não mais procurou por trabalho. Comia o que encontrava no lixo e perambulava pela cidade fugindo de qualquer um que tentasse a atacar.

A roupa suja e gasta começaram a atrair pulgas. Logo o corpo todo coçava e estava vermelho de mordidas. Os cabelos castanhos, antes tão brilhantes, estavam infestados de piolhos.

E mesmo assim ela ainda achava tempo pra pensar em Ian. As tardes passadas ao lado dele, o vendo ler. As noites em que fugiam juntos para os bosques para conversar... tudo era um alento ao seu coração. Pelo menos ela tinha lembranças. Lindas e puras lembranças.

Naquele momento, ele já devia estar noivo. Até casado. Lady Anne era uma mulher de sorte.

-Saía daqui! – alguém gritou quando a viu parar em frente a uma casa.

Enxotada como um animal. Sem esperanças.

Passou a mão pela toca que cobria o cabelo e o coçou. Malditos piolhos! Fazia tempo que não tomava um banho, mas tinha até medo de se limpar, afinal, sem a sujeira, algum homem poderia querer se aproveitar dela.

“Limpa... talvez algum homem me queira e pague por isso”, pensou.

Não! Não a prostituição! Qualquer coisa menos a prostituição!

Por que ela estava passando por aquilo? Desde pequena não tinha a ninguém. Não tinha família. Fora abandonada em frente ao castelo e Lady Dorothea a acolheu como empregada. Sua infância foi limpando o chão.

Começou a chorar ao lembrar dos natais, onde as outras crianças divertiam-se com suas famílias e ela tinha que ficar trancada no quarto. Lembrou-se das páscoas que ela não viveu. Dos abraços que não ganhou.

A primeira pessoa a mostrar um pouco de afeto verdadeiro por ela fora Ian. E até ele lhe havia sido arrancado.

Agora ela estava ali. Suja, esfomeada, sozinha. Olhou as mãos grossas de terra. Eram calejadas de tanto trabalhar e ela por um momento sonhou em como seria se fosse filha de alguém. Se tivesse alguém para cuidar dela.

A costumeira tontura apareceu. Era de fome, ela sabia. Esgueirou-se por um beco escuro e tentou ver algum lixo no chão para comer. Já fazia três dias que não encontrava nenhuma chaminé para limpar, e sem trabalho, não tinha comida.

Os olhos claros então viram um rato morto perto de um barril. Ela baixou a fronte e percebeu que depois disso nunca mais seria a mesma. Sem hesitar e sem olhar, ela caminhou em direção ao animal...

-Ian! Que surpresa agradável! O que o trás a Londres?

Já fazia dois meses que Ian regressara a York e não havia lhe dado noticias. Agora Allan Hatton encarava o amigo que se sentara na poltrona em frente a sua mesa no seu modesto escritório.

Ian tinha mudado. Olheiras marcavam seus olhos e ele tinha um aspecto cansado. Mas o que mais lhe impressionou foi a barba por fazer. Nunca Ian se permitiria um descuido desses. Mas Allan achou melhor não comentar nada.

-Como está o processo?

-Ian, já lhe disse... é como encontrar uma agulha no palheiro. Não tenho pistas e já procurei em toda Inglaterra. Ninguém vendeu o maldito colar. Sem essa pista, nunca chegaremos ao assassino.

-A pessoa pode ter destruído o colar e o vendido em pedaços. – comentou Ian.

-Ore para que não, meu amigo. Seria o fim de nossa ultima chance.

Uma senhora de meia idade, gordinha, adentrou a sala. Era a Sra. Drake, secretária de Allan. Ela serviu um café a Ian e se retirou silenciosamente. O jovem moreno olhou a xícara com o liquido escuro e sorveu um gole.

-Como esta sua mãe? – perguntou Allan.

-Louca.

A resposta tão fria e dura quase fez Allan tossir.

-O que aconteceu?

-Ela viu Eleanor pelo castelo há um mês atrás. E agora tem medo da assombração.

-Homem de Deus! E você me diz isso com essa calma?

Ian deu um sorriso cínico.

-Você e eu sabemos que fantasmas não existem. Minha mãe esta ficando velha e vendo coisas. Ou pode ser a consciência que esta pesando.

O loiro demorou um tempo até entender o que o amigo disse.

-Você esta querendo me dizer que acha que Milady matou Eleanor.

-Sim. Pode ser isso.

-Mas ela sabe que você esta sendo acusado deste assassinato. Ela não ficaria quieta sabendo que o filho pode ir à forca.

Tão logo disse isso, Allan arrependeu-se. Seria horrível se fosse verdade. A pior veracidade seria que Dorothea nunca amou Ian, deixando o filho que colocou no mundo pagar por um crime que ela mesmo cometeu.

-E sua menina com nome musical? – tentou mudar de assunto Allan.

O corpo de Ian ficou rígido e seus olhos mudaram de cor. Allan sentiu a mudança e nem quis pensar o que pode ter acontecido.

-Foi embora! Adivinha de quem ela era amante também?

-Amante? Como assim?

-Não a toquei porque achei que fosse pura. Que lorota! Quando voltei a York soube que ela havia partido com a ajuda de Benjamin.

-Benjamin? O amante de Eleanor?

Ian suspirou.

-Não sei por que motivo este homem sempre esta no meu caminho. E não entendo como Mairi fez isso. Mas fez! A única coisa que eu consigo pensar é em como eu a odeio por isso.

Allan baixou os olhos. Enganara-se com a empregada. Achava com sinceridade que a jovem amava Ian, mesmo não a conhecendo pessoalmente. Quando olhava os dois juntos, ao longe, tinha a impressão de que fossem duas partes de uma mesma alma. Era como se tivessem nascido um para o outro.

-E o que pretende fazer, meu amigo?

-Eu? Nada. Vou apenas aproveitar minha estada nesta maldita cidade e sairei com algumas belas mulheres, beberei, irei ao teatro e aproveitar o que puder antes de ser preso e morto por um crime que não cometi.

Allan não teve coragem de falar mais nada. O antigo Ian, o rapaz bondoso e honrado não existia mais. Neste momento ele via uma maldade nos olhos do amigo que não estava lá da ultima vez que ele viera a Londres.


A Rosa entre Espinhos

Capitulo VII

Por Josiane Veiga

Os seios de Igranie eram claros como a neve e os bicos rijos de desejo esfregaram-se no peito de Ian. Ele a beijou com desejo. Ela era uma bela amante. Uma das mais lindas e desavergonhadas prostitutas de Londres. Custava uma verdadeira fortuna passar uma noite com ela, mas a mulher loira valia cada centavo.

Sem piedade ele a penetrou e rapidamente esguichou dentro dela seu líquido quente. Foi tudo tão rápido e sem sentimentos que a mulher, mesmo acostumada a homens frios, se assustou.

Ian tirou as pernas dela da sua cintura e se levantou. Jogando o dinheiro da noite em cima da cama, ele vestiu a calça rapidamente e saiu pela porta. Igranie pensou em como um homem tão bonito podia ser tão amargurado e agradeceu aos céus por não ser o objeto de ira daquele rapaz. Ian com certeza guardava muito ódio por alguma mulher. E um dia se vingaria dela...

O moreno desceu as escadas do prostíbulo e não deu atenção a mais nada. O lugar, cheirando a bebida e cigarro estava cheio. Vários homens o cumprimentaram com a cabeça e ele apenas acenou em resposta. Logo encontrou a porta de saída e saiu.

Era primavera em Londres, mas era inverno no seu coração.

Três meses. Há exatos três meses ele descobriu o quanto o sentimento por uma mulher pode destruir um homem. Sorriu ao pensar em quão tolo foi ao imaginar que Mairi o amasse. Iria enfrentar a sociedade para se casar com ela. Estava disposto a tudo, até a se separar da mãe. Tudo por ela.

Chutou uma pedra ao pensar em como a respeitou. Mal conseguia se agüentar quando a via, mas pensava em tomá-la apenas quando ela fosse sua mulher. Quantas vezes ele sentiu vontade de lhe deitar na relva e amá-la desesperadamente, mas não fez isso. Queria fazer as coisas certas. Preservar a virgindade dela! A pura e intocável Mairi! A cadela era amante de Benjamin! O mesmo que já havia lhe tomado à noiva! Mordeu os lábios e imaginou o jovem Ben beijando a boca que ele amou. Tremeu por dentro ao pensar em os dois fazendo amor e rindo da caretice do Lord da região.

Mairi que rezasse que ele nunca lhe encontrasse! Porque se isso acontecesse, ela iria ver uma coisa! Iria destruir a vida da vagabunda como nunca destruiu a vida de ninguém!

Sorrindo em imaginar as coisas que faria com ela ele entrou no hotel em que estava instalado. Esperava que um dia o destino lhe fosse justo e permitisse a vingança.

O doutor Brian de La Tere entrou no quarto de Dorothea e a encontrou como da última vez. Pálida, imóvel e demente. A mulher estava acreditando que Eleanor voltara do mundo dos mortos para assombrá-la. O porquê era algo que só as duas poderiam saber.

Ele aproximou-se da cama e abriu a maleta. Mais uma dose de fortes remédios seria necessária para que ela dormisse.

-Milady, pensei que estivesse melhor após nossa conversa.

A mulher desviou os olhos do teto e o encarou.

-Eleanor vai me matar. E o senhor quer que eu esteja calma?

Apesar da frase, o tom de voz era extremamente calmo. E isso surpreendeu Brian. Ela parecia drogada.

-Eleanor está morta Lady Dorothea.

-Eu a vi...

-Já disse a senhora que o momento, os dissabores e toda a carga que esta enfrentando pelo seu filho pode ter feito sua mente lhe pregar uma peça.

-Sei o que vi! – ela enfim gritou.

Suspirando, ele lhe receitou mais algum remédio e se retirou.

Mas alguém no quarto sorriu ao ver como Dorothea era boba ao realmente acreditar em espíritos.

Allan Haton era um jovem advogado que já havia aprontado das suas na adolescência. De uma altura considerável, um cabelo loiro atado em um tecido na altura da nuca e um corpo firme e vigoroso, Allan transpirava masculinidade! Filho bastardo de um Lord ele teve uma educação privilegiada, dinheiro sobrando para necessidades básicas, lindas mulheres e uma vida muito calma. Sua personalidade brincalhona e doce fez com que todas as suas amantes lhe adorassem e todas, sem exceção, tornaram-se suas amigas com os fins dos relacionamentos. Allan era assim, uma excelente pessoa no pessoal, um grande profissional no escritório e um vulcão na cama. Que mulher poderia desejar o mal de um homem assim? Sua única preocupação era o caso difícil do melhor amigo Ian McGreggor.

Caminhando pela noite amena da bela Londres ele tentou renovar os pensamentos.

O prazo estava se esgotando. Se não encontrasse o assassino da ex-noiva de Ian, ele teria a infelicidade de ver o melhor amigo preso... E talvez morto. Mas quem estava com o maldito colar?

A visão de Dorothea no castelo só fez com que Allan tivesse certeza que foi ela que matou Eleanor. Mas como uma mãe pode fugir de assumir um crime, quando seu próprio filho estava sendo acusado disso? Dentro do castelo ainda existia Mairi, a jovem empregada que, afinal de contas, era a mais séria candidata. A empregada de olhos claros era amante de Benjamin e podia ter armado com ele para matar Eleanor. Ele tinha problemas em aceitar essa hipótese porque, apesar de só ter visto a moça de longe, sentia certa bondade nela que não combinava com assassinato. Também existia o próprio Benjamin, mas como ele teria entrado no castelo se não era um dos convidados? Tirando os convidados, Perpétua e James também eram suspeitos.

“Governanta e mordomo sempre são suspeitos”, ele pensou sorrindo. A mulher que usava o cabelo em um coque severo podia matar alguém... Mas o mordomo mal agüentava as próprias pernas de tão velho.

Este era o caso! E Allan nem era um detetive! Mas tinha que provar a inocência de Ian, e a única forma era achar o verdadeiro assassino!

-Me solte!

Uma voz feminina soou alto na noite. Ele olhou em direção ao som. Uma mulher de rua lutava contra dois jovens mancebos que estavam tentando violentá-la. A violência sexual era o ato mais abominável do mundo para Allan, depois do aborto. Mesmo sem nenhuma arma em mãos, o loiro correu em direção ao trio que lutava.

Quando o primeiro homem sentiu o soco forte na boca, assustou-se. Como a mulher não tinha condições para tamanha agressão, ele pressentiu mais alguém entre eles. Olhando pela escuridão do beco, avistou um homem loiro, extremamente zangado.

Gritou avisando o amigo e os dois atacaram Allan. Foi uma luta sem igual. Um deles tentava segurar o advogado, mas não estava preparado para a força, somada ao ódio do loiro. Allan chutou entre as pernas do que estava na sua frente, e o outro que o segurava não pode evitar receber uma cotovelada no estômago. Os dois desabaram no chão e Allan correu em direção a mulher.

-Você esta bem?

Ela fedia de tanta sujeira e ele se perguntou como alguém podia desejar tomar uma mulher naquelas condições. O rosto, que provavelmente era claro, estava grosso e seboso. Mas quando ela abriu os olhos Allan não pode evitar de sentir algo muito forte. Eram azuis. Ou verdes. Não tinha como saber, porque parecia uma mistura das duas cores. Quando ela sorriu em agradecimento a ele, o coração do rapaz quase derreteu. Os dentes eram brancos, apesar de tudo. E a boca era carnuda, feita para beijar.

Assustado com os pensamentos ele a ergueu no colo. Era tão magra e estava tão fraca com a briga que não esboçou reação.

-Fique calma, vou levar você a um local seguro.

Ele chamou uma carruagem de aluguel que passava no lugar e a colocou lá dentro. Ordenou ao cocheiro que os levasse até sua casa, que ficava em cima de seu escritório. Lutando contra a vontade de apertar aquela mulher contra si, ele apenas a segurou. Surpreso ele a viu fechar os olhos e sorriu ao pensar que ela se sentia tranqüila perto dele da mesma forma que ele se sentia assim perto dela.

Quando enfim chegaram à casa de Allan, ele a carregou no colo ate seu próprio quarto. Gritou o nome da sra. Drake e a mulher apareceu de penhoar assustada.

-Senhor, o que significa isso?

Ele sorriu daquela maneira que abrandava o coração de qualquer mulher e a rígida senhora Drake viu que a batalha estava perdida.

-O que devo fazer senhor?

-Traga água. Precisamos limpar a moça. E me ajude a fazer isso, porque pressinto que não será uma tarefa fácil.

Alguns minutos depois a mulher trouxe água quente e despejou dentro de uma tina que estava no quarto de Allan. Sem falsos pudores o rapaz ergueu o corpo da moça e começou a rasgar o tecido. Assustado percebeu que a pele era muito clara, mas estava infestada de mordidas.

-Jesus... – ouviu a Sra. Drake murmurar.

Realmente era uma imagem assustadora. Ainda existiam pulgas andando pelo corpo dela, e os seios estavam arranhados. Ela devia se machucar muito tentando matar os insetos. Quando a parte de baixo da roupa dela foi tirada, Allan tentou desviar os olhos do ninho escuro que estava no meio das pernas da jovem. Tentou... Em vão. Mas controlar o excitamento ele conseguiu, afinal, era um homem honrado e não um vigarista que se aproveitaria de uma menina de rua.

Menina? Não... Era uma mulher. E apesar da magreza, possuía um corpo fenomenal.

-Senhor, precisa tirar a toca do cabelo dela.

Allan ouviu a empregada e pegou uma tesoura. Os cabelos estavam muito duros, emaranhados e grudados no tecido. Mas com algum esforço ele conseguiu tirar a toca sem cortar os fios.

Nua, ele a ergueu e a colocou dentro da tina. Assustado, ele percebeu que ela acordou.

-Calma. Chamo-me Allan Hatton e essa é a senhora Drake – disse apontando a velha senhora a sua direita - estamos apenas lhe ajudando a tomar um banho. Não se preocupe. Ninguém lhe fará mal aqui.

Era relaxou e afundou-se mais na banheira. Allan pegou um sabonete e começou a lhe esfregar os cabelos. Conforme a sujeira ia saindo, ele percebia um tom único de cobre em suas mãos. Pelos céus, limpa ela seria uma preciosidade para qualquer homem.

-Allan... – ele a ouviu chamar baixinho.

-Não se esforce. Esta muito fraca. Depois do banho, irá jantar.

-Foi você que me salvou? – ela insistiu.

-Sim. Você foi atacada por dois bárbaros.

Ela sorriu e ele percebeu naquele momento que tinha se apaixonado.

-Você é um anjo?

Ele gargalhou.

-Não. Sou advogado. Algo bem longe das hostes celestiais.

A água já estava escura e a sra. Drake saiu para pegar mais. Os dois ficaram sozinhos.

-Como você se chama? – ele perguntou

Ela não respondeu de imediato e ele sentiu algo estranho. Um mau pressentimento.

-Mairi...

E então Allan soube que estava perdido.


A Rosa entre Espinhos

Capitulo VIII

Por Josiane Veiga

Mairi terminou a sopa dada pela Sra. Drake rapidamente. Ainda fraca, ela sentiu o liquido quente e nutritivo descer pelo seu estômago e aquece-la. Fechou os olhos por alguns segundos e agradeceu pela ajuda recebida.

Desde que viera a Londres, ela não sabia mais o que era uma cama quente e um prato de comida, por mais simples que fossem. Deus era bom por lhe dar mais uma chance de se alimentar! E Allan Hatton era um anjo, por mais que ele negasse a divindade e preferisse ser apenas um advogado.

Abrindo os olhos ela encarou o lindo jovem a sua frente e sorriu timidamente.

-Se sente melhor?

-Sim –ela murmurou.

Então percebeu. Sua voz estava danificada por causa da maneira como os homens apertaram seu pescoço. Sem perceber ela levantou as mãos e tocou sobre a pele avermelhada pela agressão. Falar doia a garganta, mesmo com o tom baixo.

-Você vai ficar bem – Allan a tranqüilizou – vai descansar, se alimentar e logo estara reabilitada.

-Eu não tenho onde ficar...

-Ficara aqui. – ele parecia estranhamente firme.

Mairi não imaginava, mas a cabeça do loiro rodava naquele momento. Apaixonara-se a primeira vista pela mulher que destruiu seu amigo. Apaixonara-se pela amante de Benjamin! Mas será mesmo?

-Mairi, como eu disse antes, sou Allan Hatton.

-Sim...

-E você é a Mairi de York?

Ela arregalou os olhos.

-Como você sabe?

-Preciso que me diga... você é a Mairi de Ian?

Mairi... Um nome tão raro. Não poderiam existir duas mulheres em Londres com este mesmo nome. Por alguns segundos antes de ela responder, ele ficou implorando mentalmente para que ela disse “não”.

-Sim...Você o conhece?

Então se lembrou que Ian havia dito uma vez que tinha um amigo, quase irmão, que se chamava Allan.

Ele baixou a fronte perturbado.

-Mairi. Ian esta em Londres.

-Ele veio atrás de mim?

O coração dela se encheu de esperança. Ian não se casara com Lady Annie. Ele a amava!

-Não. Ian acha que você o traiu com Benjamin.

-O quê?

Ela ficou perplexa! Benjamin não era mais que um conhecido. Não existia animosidade entre eles, mas amizade era algo especial demais para ser citado.

-Nunca tive nada com Benjamin – ela explicou.

Allan nem quis questiona-la. Ele conhecia as pessoas o suficiente para saber que a moça a sua frente era completamente inocente.

-Ele se casou com Lady Webster?

A pergunta o surpreendeu.

-Ian? Do que esta falando?

-Lady Dorothea me expulsou do castelo, porque Ian iria se casar com a senhorita Annie Webster. Então fui à cidade procurar trabalho. Encontrei Ben e ele me ajudou a vir a Londres. Achei que em uma cidade maior eu teria mais oportunidades para trabalhar. Mas deu tudo errado. Sem referências ninguém me deu trabalho, e fui parar nas ruas.

Allan sentiu os olhos úmidos. Deus, por que ela tivera que passar por tudo aquilo? Ele precisava contar a verdade a Ian, mas como jogá-la à cova dos leões? Ian estava louco de ódio, Dorothea já havia provado que não tinha coração e Mairi era sozinha.

Então ele se aproximou da cama. Sentando, a abraçou e eles ficaram a noite toda conversando sobre a vida de ambos. Melhores amigos... almas amigas precisavam se conhecer...

ººººººººººº

Três dias depois...

Ian entrou no recital da casa dos Wolfs de braços dados a Annie. Sua mãe lhe enviara uma carta avisando que a filha dos Webster estava em Londres e lhe pedindo para levá-la a alguma festa. Ele baixou um pouco o rosto e a encarou.

Ela era fisicamente muito parecida com Eleanor. Um corpo esguio coberto por um lindo vestido claro. Olhos de um castanho intenso e cabelos claros presos numa trança em coroa em volta da cabeça. E a moça o adorava. Ou pelo menos aparentava. Nunca mais poderia ter certeza disso depois de Mairi. Mulheres eram cobras traiçoeiras!

Mas os pensamentos logo mudaram de rumo. Já fazia três dias que tivera sua última mulher. Igranie, a prostituta. Teria que sair essa noite novamente para satisfazer a carne. Pena que não poderia ser com a loira ao lado, porque não estava a fim de se encrencar em um casamento com ela.

-Ian!

Ele virou-se e viu Allan vindo ao seu encontro. O amigo estava nervoso e as mãos esfregavam-se uma na outra como se estivesse com frio.

-Allan Hanton! Que surpresa! O que faz aqui? Há alguns dias não lhe vejo...

-Estive ocupado durante esses dias, Ian.

-Cuidando do meu caso?

Allan recuou. Devia contar que encontrará Mairi nas ruas de Londres? Dera banho nela, a alimentara e agora ela se recuperava na sua cama? Não... Não poderia fazer isso. A moça demorou um dia todo para conseguir se alimentar direito e ficar em pé. Mas Ian não entenderia isso. Ele estava louco de ciúmes e ódio. Se soubesse que Mairi fora encontrada, com certeza ele iria à casa de Allan e a esganaria. Precisava ter calma.

-Mais ou menos.

A reação de Allan não passou despercebida nos olhos de Ian. E ele sofreu com isso, apesar de não demonstrar. Os dois nunca tiveram segredos um para o outro. Bom... Talvez Allan não quisesse contar algo na frente de Annie.

-O que faz no recital? Se não me engano, você detesta esse tipo de ambiente.

Allan sorriu.

-Não se enganou. Realmente, festas da sociedade não fazem parte da minha personalidade.

Annie encarou o jovem advogado a sua frente e perguntou delicada:

-E de que tipo de diversões gosta?

Ian quase gargalhou. Se Allan contasse o tipo de divertimento que apreciava, a moça loira desmaiaria.

-Senhorita – disse Allan segurando suas mãos – gosto de arte. Mas da arte das ruas. Dos poetas boêmios.

-Poetas de rua? – ela parecia chocada.

Allan a ignorou. Voltando-se novamente para Ian, respondeu.

-Ian. Eu gostaria de conversar com você. Mas agora não é a hora nem o local. Se estiver livre amanhã poderia ir até meu escritório.

-Veio até aqui apenas para me dizer isso?

-É algo urgente – disse o loiro.

Ian estranhou a atitude séria do advogado. Allan nunca esteve tão nervoso e calmo ao mesmo tempo. Que contraste!

-Ian. Vamos entrar? – Annie lhe puxou o braço.

Sorrindo, Ian adentrou para dentro da mansão com a bela mulher.

-Você falou com ele? – Mairi perguntou.

Allan nunca poderia negar o quanto o magoava vê-la tão ansiosa por um encontro com McGreggor. Mas ele nunca demonstraria isso. Nesses três dias que cuidou de Mairi, como se cuida de uma criança, ele aprendeu a amar tudo nela. Somente três dias. Mas dias em que a viu suja, fraca e precisando de auxilio. E a transformação que a comida e o banho fizeram nela o deixou tão surpreso que quase não conseguia raciocinar direito.

Mairi ainda estava fraca. E muito magra. A camisola da senhora Drake quase caia por seus ombros e o penhoar parecia um lençol. Os olhos ainda mantinham olheiras profundas e a voz estava fraca.

“Foi por isso que não contei nada a Ian. Ele esta com tanto ódio que poderia machucá-la facilmente”

A quem estava tentando enganar? Não contara nada ao Lord pelo mesmo motivo que ficava acordado a noite. Não dissera que Mairi estava viva, porque tinha medo de perde-la. Como tivera coragem de trair a amizade de Ian desta forma? E logo o amigo que ele dizia amar como a um irmão.

-Não pude falar nada, Mairi...

-Por quê? – ela perguntou sentando-se na cama.

Allan pensou no que responder, mas não sabia direito o que dizer.

-Ele estava acompanhado. Não quis falar nada na frente de outras pessoas.

Ela baixou a cabeça. Sentiu o coração pesado e os olhos encheram-se de lágrimas. Allan não podia falar nada a Ian, pelo motivo mais simples do mundo. Como falar de uma empregada na frente de outras pessoas. Não devia se meter mais na vida dele. Talvez a vinda dela a Londres foi algo feito pelo próprio destino para que ela parasse com a tolice de amar a este homem. Um amor totalmente impossível.

Allan viu a mudança da jovem de olhos brilhantes que o recebeu quando chegou ao quarto e a mulher que agora era abatida pela decepção. Droga! Por que ela tinha que sentir esses sentimentos por Ian e não por ele? Seria tudo mais fácil. Allan não tinha terra e títulos, mas tinha uma profissão e poderia dar uma boa vida a ela. Mairi seria feliz ao lado dele! Por que não a conheceu um dia antes de ela e Ian se encontrarem? Tudo seria diferente agora.

-Ora, anime-se – ele não sabia se dizia isso a ela ou a si mesmo - tudo vai dar certo. Amanhã é outro dia!

-Sim, você está certo.

-Você já jantou? – ele perguntou tentando desviar o assunto.

Ela sorriu. Os dentes alvos dela fizeram seu coração palpitar. Até quando ia suportar ficar assim tão próximo a ela sem a beijar?

-Sim. A sra. Drake preparou um ensopado para mim. Minha garganta esta melhorando e talvez até o final da semana eu já consiga comer coisas sólidas.

O pescoço claro dela ainda estava avermelhado, tamanha a agressão que aqueles monstros a fizeram passar. Só de pensar nisso, Allan sentiu todo o corpo esquentar de raiva.

-Mairi. Preciso conversar com você. Ian esta mudado. Ele é uma pessoa temperamental e sensível. Na mente dele, você era amante de Ben e talvez ate ajudou a matar Eleanor.

-Nunca faria isso!

-Eu sei e você sabe! Mas Ian está transtornado. Anda fazendo coisas que não fazem parte do seu caráter.

Como se meter em brigas e dormir com prostitutas. Mas Allan não iria contar isso a ela.

-Você acha que ele não vai me escutar?

-Ele irá! Mas precisa de tempo. Gostaria que você ficasse na casa de uma amiga minha. É um local calmo e lá ninguém ira incomoda-la. Eu aluguei um quartinho e irei lá sempre ver você. Quero tirar você da linha de frente desta luta que Ian esta travando. Quando eu conseguir faze-lo recuperar o juízo, vou lhe buscar. Você entende?

Ela percebeu a preocupação nos olhos do loiro. Como não confiar nele se ele a teve nos braços e a ajudou. Como não amar como a um irmão um homem que lhe banha e tem a discrição de nunca mencionar o fato. Allan fez por ela o que ninguém mais no mundo fez, nem Ian. Deu-lhe comida, teto e amor. Não um amor sexual, mas um grande amor. E ela lhe seria eternamente grata.

-Quando irei?

-Amanhã bem cedo. Madrugada ainda. Ian virá ao meu escritório de manhã. Mas ele esta num recital esta noite e não dormira cedo. Portanto, se sairmos ao nascer do sol, não há como ele saber que você esta aqui.

Ela compreendeu o que ele quis dizer.

-Boa noite então, Mairi.

Allan inclinou-se e depositou um beijo na sua testa. Depois saiu do quarto para mais uma noite de insônia.

O mordomo da mansão Webster o olhou carrancudo. Mas Ian não se intimidou. Curvou-se para Annie e lhe beijou a mão.

-Foi uma noite encantadora. – disse ele.

-Concordo plenamente. Fico feliz que estamos podendo nos conhecer melhor.

-Com certeza Srta. Webster. Pretendo convidar-lhe para outros recitais, se não tiver com compromissos, é claro.

Ela enrubesceu de emoção. Seria delicioso passar mais uma noite agradável ao lado de um homem como Ian. Mas o principal seria o fato de todas as moças da festa a olharem com inveja. Ian era alto, forte. Era incrivelmente sensual. Não foram poucas as noites em que ela passara imaginando que ele lhe tomava. Quando foi a festa de noivado de Eleanor, desejou com todas as forças que fosse ela que iria se casar. Sentia um subido calor no vão das pernas só em pensar nele. Mas o dinheiro dele é que encantava mais. Eleanor foi uma boba ao se negar a ele. Annie não tinha problemas nenhum com o escândalo que estava envolvendo o nome dos McGreggor. Pessoas ricas como eles tinham entrada certa em todas as festas. Como não amar um homem que pode lhe oferecer tudo?

-Devo ir agora. Tenha uma boa noite.

-Igualmente Ian.

Ela esperou que ele se inclinasse para um pequeno beijo, mas para sua surpresa, ele virou-se de costas e saiu. O mordomo fechou a porta e se retirou. Quando estava sozinha Annie tocou no peito.

-Você será meu, Ian. Eu juro que será!

ººººººººº

A noite estava agradável. Mas o humor continuava péssimo. Ian já imaginava o que faria nesta noite. Voltar ao quarto e passar o resto da noite bebendo. Ou ir a uma boate qualquer e dormir com uma prostituta. E depois disso beber. Era só o que podia fazer para esquecer os problemas que o atormentavam. Porque tudo aquilo estava acontecendo com ele? Não merecia isso.

Ou talvez merecesse. Talvez tivesse cometido algum pecado oculto e estava recebendo o castigo.

Chutou uma pedra.

Tudo estava contra ele. Mas pelo menos esta noite ele se divertira ao lado da bela Annie Webster. Ela lhe surpreendera. Mostrara-se uma jovem inteligente, com comentários sagazes. Não esperava isso dela. Talvez devesse repensar a historia do casamento que sua mãe sempre insistira. Nunca amaria Annie, mas pelo menos teria alguém por ele. Ou para ele. Tanto faz.

De repente lembrou-se de Allan. Ele lhe pedira para ir ao seu encontro de manhã. Diabos! Mas já era quase de manhã. Deviam ser umas seis horas. O sol ainda não despontara, mas logo faria isso.

Ir ao hotel em que estava era perda de tempo. Nem poderia dormir. Então o melhor seria ir ao encontro do amigo.

Allan parecia estranhamente nervoso quando o encontrara no recital. Era como se algo de extrema importância devesse ser dito. E agora Ian estava ardendo de curiosidade.

Sem pensar em coches ou cavalos, ele foi a pé até o escritório de Allan. Talvez até tomasse café com o amigo, que tinha uma excelente cozinheira de empregada. A vantagem do escritório de Allan ser junto com sua casa, é que sempre podia subir a cozinha para comer algum bolo.

Foi quando ele percebeu que estava próximo a casa. Mas algo estranho estava acontecendo. Uma carruagem de aluguel estava parada na entrada do sobrado. Ian refugiou-se atrás de uma arvore para ver quem chegava a casa de Allan naquela hora, onde praticamente toda pessoa com posses estava dormindo.

Então ele percebeu que ninguém chegava. E sim saía! Uma capa negra envolvia o corpo de alguma mulher que acompanhava Allan. Sim, era mulher! Ian reconheceria as formas mesmo embaixo de sacos de estopa.

O safado!

Mesmo de longe reconheceu o amigo sorrindo ao lado da figura. Ian começou a rir! Era esse o problema de Allan então? Havia arrumado alguma mulher e ela foi para a sua casa. Como será que ele domara a austera sra. Drake para aceitar uma imoralidade na casa?

Surpreso ele viu a mesma empregada de Allan saindo pela porta da frente e abraçando a mulher da capa. Encostando o ombro na arvore em que se camuflava, Ian percebeu que Allan falava alguma coisa, e após, colocando a mão na cintura da mulher, a conduziu a carruagem.

Estranhamente Ian teve a impressão que a figura estava doente, pois se mexia com dificuldade. Ou era doença, ou Allan dera um trato nela, pensou divertido.

Foi quando um vento forte sacudiu a capa. O capuz pendeu para trás e Ian, num misto de surpresa e torpor, reconheceu Mairi.

 


A Rosa entre Espinhos

Capitulo IX

Por Josiane Veiga

 

Mairi observou as ruas de Londres passando rapidamente pela janela da carruagem alugada. Era uma cidade cinzenta mesmo na primavera. Ela pensou nos campos verdejantes de York e sentiu o coração fraquejar de saudade. O ar puro, a beleza da floresta, o pequeno córrego que separava a cidade... tudo aquilo fazia falta. York era sinônimo de trabalho duro, mas também de paz!

Então de repente o veículo parou.

-Chegamos Mairi - disse Allan.

Ela olhou o amigo e sorriu. Engraçado como o destino podia ser sagaz. Acabara a melhor amiga do melhor amigo de Ian, que era o homem que ela amava.

Allan desceu primeiro e a puxou pela mão. Os pés fraquejaram ao tocar o sono, então ele lhe segurou pela cintura, sustentando-a. Os dois olharam para frente, mas foi ela que se espantou com o “simples” sobrado do qual Allan falava. Na verdade, o palacete tinha dois andares e era bem localizado. Arvores lhe adornavam a frente e um belo jardim ficava próximo ao portão de entrada. Era um local encantador!

A porta se abriu e uma mulher saiu lá de dentro. Ela tinha baixa estatura, era roliça, mas os lábios continham um sorriso único. Espantoso como ela conseguia ser tão simpática mesmo à distância. Foi se aproximando e Mairi viu que os cabelos vermelhos ao longe, na verdade eram pretos, pois em encontro com o sol, mudavam de tonalidade.

-Allan...

-Emily Preston! – saudou Allan – essa é a moça da qual lhe falei

Emily observou a mulher ao lado de Allan. Mairi era alta, mas não tanto. Os cabelos castanhos estavam soltos, caindo sobre o vestido de algodão simples. Ela era encantadoramente linda, e isso explicava o porque dos olhos brilhantes do sr. Hatton. Mas o que mais impressionou foi à magreza da moça. Allan havia lhe visitado no dia anterior e lhe pedira um abrigo temporário. Contara o que a moça passara nas ruas e que ela fora à mulher que Ian amou. Emily nunca recusaria ajudar alguém que Allan e Ian amavam! O jovem Lord Ian e o advogado Allan foram amigos de seu filho David, que morreu vitima de tuberculose durante a juventude. Os dois amigos não deixaram a mãe do companheiro padecer e sempre lhe mandavam libras para se manter e ainda guardar para alguma emergência.

-Seja bem vinda, minha filha. – ela tocou o braço da jovem.

Enquanto as duas mulheres se conheciam, Allan pegou a parca bagagem de Mairi. Alguns vestidos que ele comprara, a camisola que a sra Drake lhe dera, dois pares de sapatos e um chapéu. Os três entraram na casa sem imaginar que naquele local, suas vidas mudariam para sempre.

ººººººººººººº

McGreggor não acreditava que Allan lhe traiu por vontade própria. Aquela mulher devia tê-lo encantado, como fizera com si mesmo. Ian conhecia Mairi e sabia que aqueles olhos de gato podiam fazer qualquer homem acreditar em bondade.

-Bom dia senhor. – ele cumprimentou um homem que estava colocando ferraduras em um cavalo.

O cocheiro que levou Mairi e Allan!

O primeiro sentimento que Ian teve ao ver Allan e Mairi foi de dor. À vontade de se vingar dela o corroia. Então ele segurou as pernas para não sair correndo ao encontro dela. Quando ela e Allan entraram na carruagem, ele maldisse a todos os seres celestiais que o impediram de ir a cavalo até Allan. Mas então ele reconheceu o homem que dirigia os cavalos. Jonh sempre fazia trabalhos a Allan. Era um cocheiro de confiança. Mesmo bilhetes particulares e importantes que Allan enviava a Ian, ele entregava

-Lord Ian! Que surpresa!

O pobre homem rapidamente se levantou e limpou as mãos num avental encardido que estava atado a sua cintura. Então estendeu a mão.

-Eu é que estou surpreso que ainda se recorda de mim, Jonh – falou Ian sorrindo, aceitando o cumprimento das mãos. – Como vai sua esposa? Estava doente da ultima vez que você me prestou um serviço.

Cínico! Essa foi à palavra que dançou em sua cabeça ao ver o homem explicar como Mary, sua esposa, havia melhorado da gripe que quase a matara. Ian ouviu tudo ao longe! Não lhe interessava nada, tudo que queria era saber onde o cocheiro havia levado Mairi.

-Fui à casa de Allan Hatton de manhã, e quando estava chegando, o vi entrando no seu coche. Como ainda estava longe, gritei, mas vocês não me ouviram. Tenho um assunto urgente para falar com ele. Poderia me dizer onde o levou?

-Ora Milord, não precisava vir até aqui. A Senhora Drake sabia onde Allan estava indo.

-Ah.. – ele pestanejou – bom, eu não quis incomodá-la. Era muito cedo.

-Realmente. Allan Hatton me procurou ontem à noite e pediu para que eu lhe fosse buscar praticamente ao nascer do sol. Mas quando eu vi a moça, entendi.

-Entendeu? – Ian tentou não parecer muito curioso.

-Sim. Ele não queria que ninguém visse a moça doente na sua casa.

-Doente?

Aquilo sim era uma surpresa!

-Devia estar doente, pois estava muito fraca. Mal conseguia andar...

Então ela enganou Allan desta forma! Fingiu-se de enferma, e como Hatton era tolo o suficiente para cair aos pés de qualquer mulher que parecesse frágil, Ian não duvidava que ele até soubesse quem ela era de fato, mas não lhe contara porque sabia o que Ian faria com ela quando a achasse.

-... e eu acho que vai haver casamento. – falava o homem.

Ian então percebeu que não prestara a menor atenção no que Jonh dizia. Sua mente estava em duas palavras: Mairi e vingança!

-Como?

-O senhor Hatton! Vê-se claramente que está apaixonado. E olha que eu já o vi com muitas mulheres, mas com essa doente é diferente. Ele mal respira perto dela, os olhos não conseguem desviar dela um minuto sequer. E quando foi ajuda-la a subir na carruagem, estava tremendo. Claro que ele disfarça bem, mas eu sei que ele se apaixonou.

Ian sentiu ímpetos de matar Allan! Mas não podia nem pensar nisso. A culpada era aquela vadia. Ele também já fora enganado por ela. O desejo por Mairi era tão forte que ele nem conseguia dormir. Foram noites em claro.

-Mas o senhor lembra onde o levou? – ele resolveu terminar logo aquela tortura.

-Mas é claro. Na casa de Emily Preston. O filho dela era amigo de vocês não?

Ian não respondeu. Tirou dos bolsos um punhado de notas e as entregou a Jonh.

-Senhor... - balbuciou o homem sem entender o porque de Ian estar lhe dando dinheiro.

-Muito obrigado Jonh. Agora preciso ir. Felicidades

E virou-se de costas, caminhando.

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-Emily vai cuidar bem de você – Allan disse colocando a mala dela em cima da cama.

-Eu sei.

Ele então a olhou. Doía muito a deixar sozinha, mas não queria arriscar. Ian estava descontrolado e ele sentia medo do que o outro poderia fazer.

-Mairi. É apenas uma questão de tempo. Eu verei vê-la todos os dias. Todo o meu tempo disponível...

Ele então se calou rapidamente. Se continuasse, falaria de seu amor.

-Allan, não se preocupe comigo. Nunca poderei recompensa-lo por tudo que fez por mim. – prossegue - Você acredita em almas gêmeas?

O coração dele quase parou.

-Não. – ele foi sincero.

-Bom, eu também não. – ela riu - mas se existisse, seriamos irmãos gêmeos de alma. Já reparou como somos parecidos?

Ele a olhou. Era mais alto que ela, loiro. Parecidos? De onde ela tirou isso?

-Não... – ele balbuciou.

-Somos iguais psicologicamente. E amamos muito a mesma pessoa.

Sim, era verdade! E ele nunca poderia ficar com ela, porque nunca se permitiria trair Ian!

Então ele reclinou a cabeça e beijou a testa de Mairi. Fechando os olhos, Allan permitiu-se ficar assim por alguns segundos. Quando a encarou, ela ainda sorria.

-Sei que vai parecer loucura Mairi, nos conhecemos há poucos dias, mas eu sinto...

-Como se me amasse há muitos anos... –ela completou.

-Como sabe?

-Eu sinto o mesmo. Quando você correu em minha direção no beco, eu fiquei aliviada. Enfim, havia encontrado você.

Os olhos dele lacrimejaram. “Homens não choram!”, ele ouviu seu pai dizendo uma vez. E não iria chorar. Esse tipo de reação não fazia parte da sua personalidade.

"Amigo é o irmão que a gente escolhe...", ele filosofou secretamente.

-Volto a tarde. Quer que eu lhe traga algo?

-Limão...

Ele, que já caminhava em direção a porta, parou.

-Limão?

Ela riu.

-No castelo, as ervas para chá só podiam ser usadas pelas Ladies, e como eu também queria beber algo quente nos dias frios, fervia limão com mel e adorava.

Ele se comoveu. Quería coloca-la dentro de si, para protege-la. Por que não a conhecera há tempos atrás?

-Trarei limão, então!

Sorrindo ele saiu do quarto.

ºººººººººº

Mairi arrumou suas poucas roupas em um roupeiro que ficava próximo a cama. Após tudo ajeitado, ela olhou ao redor. Um pequeno quarto, mas a cama parecia tão convidativa e as cortinas claras na janela alegravam aquele lugar. Ela sentou-se no colchão e percebeu que ele tinha molas.

-Eu poderia pular em cima de você – ela riu como criança.

A primeira vez que experimentara um colchão daqueles foi na casa de Allan. Ela se sentia tão bem perto dele e dormir em sua cama lhe dava muita tranqüilidade. Mairi se sentia completamente descansada após aqueles dias na companhia do amigo e esperava que pudesse se recuperar totalmente na casa de Emily.

De repente ela percebeu uma penteadeira num canto. Um móvel daqueles era uma preciosidade. Lady Dorothea tinha um e no quarto de Ian também havia um em um canto. Fora comprado para servir a falecida Eleanor.

Sorrindo ela se aproximou e sentou-se em um banquinho à frente do grande espelho. Pela primeira vez em muitos anos ela pode se olhar de verdade. Os cabelos estavam secos e quebrados nas pontas, mas já estavam se recuperando. A pele era tão clara que parecia transparente. Mas havia o vermelhão no seu pescoço e as olheiras nos seus olhos. Espantada ela percebeu sua desnutrição. Fechou os olhos tentando esquecer o que passou nas ruas, mas não conseguiu. Pousou a mão no peito e baixou a fronte. Não queria mais chorar... já chorara tanto.. mas havia o rato... o que fizera com ele... e o animal nunca mais sairia da sua cabeça.

-Querida...

A voz da senhora Emily invadiu o quarto e Mairi secou os olhos rapidamente. Olhando em direção a porta, ela sorriu para a mulher.

-O almoço está pronto – Emily anunciou – mas não poderei acompanha-la. Você se importa?

-Não, claro que não. Pode deixar que irei sozinha a cozinha. A senhora vai sair?

-Sim, meu bem. Vou visitar uma amiga que esta doente. Levarei remédios e almoçarei com ela. Talvez eu volte um pouco tarde, mas prometo vir a tempo de tomar chá com você.

Mairi se levantou e foi até a gordinha senhora.

-Fique tranqüila. Eu sei me virar. Obrigada pelo que esta fazendo por mim.

Emily se comoveu com aquilo. Abraçou Mairi e então saiu. A moça ainda ficou olhando para a porta fechada durante um tempo e então foi deitar-se.

ººººººººº

Ian esperou ansiosamente a manhã toda para que Emily saísse de casa. E esperaria dias inteiros se fosse preciso. Precisava pegar Mairi sozinha e não queria testemunhas. Felizmente, a senhora adorava passear e não tardou a fazer valer essa característica. Pouco depois do meio dia, ela saiu da casa com uma grande cesta e Ian sentiu que chegou o momento.

-Ah Mairi, agora você conhecerá o tamanho da minha ira.

Ian sentia um lado seu dizendo-lhe para não cometer um ato tão insano, mas ele o afastou. Era homem e precisava honrar seu nome! Ela brincara com ele e lhe enganara. Agora era chegado o momento.

Cruzou o portão e chegou a porta. Estava trancada, mas ele sabia onde a Sra. Preston deixava a chave. Puxou o tapete. Touché! Pegou a chave e a colocou na fechadura.

“-Você confia em mim?”

A sua voz lhe invadiu a mente. Fazia muito tempo que perguntara aquilo a ela. Quando ninguém mais acreditava nele, quando tudo estava contra ele, seu mundo pareceu florir ao lembrar da resposta dela. Então ele fraquejou.

“-Mais que na minha própria vida.”

Sacudiu a cabeça tentando retirar da mente a resposta. Falsa! Caiu na conversa da pilantra como um imbecil qualquer.

-Lhe prometo Mairi... Darei um jeito de ficarmos juntos”

E enfim ele cumpriria a promessa! Agora ela sentiria o quanto ele queria ficar com ela.

Entrando na casa ele esperou alguns minutos por barulho. Nada. O cheiro de comida vinha da cozinha, e ele foi pra lá esperando vê-la se alimentar. Nada. A louça limpa na pia indicava que ela já havia almoçado. Prestativa e organizada como sempre, Mairi deixara tudo limpo.

Foi ate as escadas. Pé ante pé, Ian caminhava devagar sem fazer nenhum ruído, tentando não chamar a atenção dela. Para sua sorte, ou azar, a primeira porta estava entreaberta e ele a viu.

Mairi estava deitada na cama. Os cabelos acobreados estavam soltos e deslizavam por suas costas. Ela parecia uma deusa mitologica. Mas não teria nada de sagrada quando ele terminasse com ela.

O coração dele batia tão forte no peito que ele fraquejou por alguns segundos. Não! Não podia dar pra trás agora! Era o momento de se vingar de tudo que aquela mulher fizera a ele.

Ian entrou no quarto.

A porta se fechou... o passado não voltaria mais! O amor puro entre eles estaria para sempre destruído?


A Rosa entre Espinhos

Capitulo X

Por Josiane Veiga

O som fez com que ela abrisse os olhos. O primeiro pensamento que Mairi teve foi de que Emily retornara. Mas logo ela percebeu que não era possível. Ainda era muito cedo e a senhora havia adiantado que só voltaria na hora do chá.

Logo depois ficou apreensiva, o coração começou a bater mais forte. A barulho da porta se fechando era do quarto dela. Alguém tinha entrado no seu quarto! Ainda com medo, ela virou o rosto.

A próxima reação foi de tamanha surpresa que ela arregalou os olhos tentando adivinhar se estava sonhando ou não. Mal conseguia se mexer. Já havia se passado meses desde que vira Ian pela última vez e agora ele aparecia na sua frente. Sim! Era ele, e estava a poucos metros dela a olhando.

O corpo dela começou a tremer de emoção. Ela tentou gravar na mente seu rosto, o cabelo em desalinho e a barba por fazer. O corpo vigoroso estava coberto por um traje de luxo. Ian parecia vindo de uma festa, e estava estranhamente sedutor. Era uma beleza diferente do Ian de York, mas era o homem que ela amava e que amaria para sempre.

-Ian... –ela balbuciou.

-Ainda me reconhece depois de tanto tempo, Mairi?

O tom da voz estava grave. Foi então que ela percebeu seu olhar. Estava carregado de raiva. Mas raiva de quê? Rapidamente em sua mente surgiu a voz de Allan lhe contando que Ian achava que ela era amante de Ben.

-Ian... –ela levantou-se com dificuldades, mas sorrindo – eu estou tão feliz que você esteja aqui...

Ian reagiu ao sorriso dela como se recebesse uma bofetada. Como ela se atrevia a ser tão cínica?

-Não diga nada, vagabunda! – ele falou, interrompendo-a – poupe-me de suas mentiras. Sei bem que você veio para Londres com dinheiro de Benjamin! E mais, você já o conhecia mesmo quando trabalhava dentro do castelo. Vai negar que não sabia que ele e Eleanor eram amantes?

-Não, mas...

-Então cale essa boca. – apesar das palavras cruéis, o tom de voz era baixo.

O que uma mulher pode fazer diante de um homem tão furioso? Ian parecia descontrolado e Mairi pensou em gritar. Mas a garganta não conseguiria emitir algum som alto e mesmo que conseguisse, não havia ninguém na casa. Além disso, como se afastar dele se tudo que ela queria era se aproximar mais?

Ela respirou fundo e baixou a fronte. Tentou pensar no que dizer... no que fazer. Precisava convencer Ian da verdade. Ela nunca o traíra! Nem em sonhos! Ian foi o primeiro homem que ela amou, e seria o último.

-Você está enganado Ian –ela começou devagar.

Ele riu. Enganado! Então passeou os olhos pelo corpo dela. Notou as marcas roxas.

-O que houve com você? Esta toda machucada e tão magra! Seu amante não lhe ajudou a se manter em Londres? Ou isso é resultado dos seus passeios sexuais? Tratei você com muita delicadeza, não? Talvez você goste mesmo é de brutalidade.

Aquilo a chocou. Ele falava sério! Como podia pensar isso dela, se tudo que ela fez na vida foi amar a ele?

-Benjamin só me deu dinheiro para vir a Londres por piedade, Ian. Nós mal nos conhecíamos.

Ele virou os olhos e ironizou.

-Você não me engana mais. Quer mesmo que eu acredite que o filho do dono da fruteira, que mal tem dinheiro pra comer, iria lhe dar uma passagem para Londres por caridade?

Ela sentiu os olhos encherem de lágrimas. Essa era a verdade! Benjamin só a ajudou por pena. Amava tanto Ian, mas não podia vê-lo dizendo todas essas barbaridades. Esperou tanto para encontra-lo novamente, para correr até seus braços e ser protegida por eles... mas o destino novamente lhe tava uma tacada cruel. Este Ian a sua frente, não era o mesmo que ela conhecera no castelo.

-Ian, Allan me contou que você pensa que eu o enganei.

Ele colocou as mãos no bolso. Observou o quarto simples e começou a caminhar.

-Allan... – disse com os olhos vidrados nela – O que você fez com meu amigo? Allan daria a vida por mim e, no entanto, agora me engana...

Ele molhou os lábios secos com a língua. Passou as mãos no cabelo em desalinho e tentou raciocinar. Esse Ian McGreggor que se colocava diante de si agora, não era o mesmo Ian que ela conhecera. O que poderia dizer a ele?

-Ian, eu amo você.

Ele sorriu. De repente o coração dela começou a saltar no peito.

-Eu devia manda-la a um teatro. Você é uma excelente atriz.

-Eu...

-Já disse para calar a boca! Você teria tudo comigo Mairi. Eu iria me casar com você. Protege-la com meu nome, meu patrimônio. Você sairia da cozinha para as mansões. Teria tudo... mas não... você preferiu me enganar com aquele desgraçado do Benjamin!

Então ele se aproximou. O corpo dela tremia compulsivamente, e ela não tinha certeza se era de amor ou de medo. Quando Ian tirou uma das mãos do bolso da calça e a ergueu ate seu queixo ela o encarou.

-Você teria tudo de mim... – ele balbuciou.

Aos poucos ele foi se aproximando. Encostou os lábios aos dela e tudo pareceu parar. Um beijo! Ah quanto tempo não se beijavam? Mas não poderiam se beijar sem que a verdade fosse reconhecida!

Ele a puxou pela cintura e grudou o corpo ao dela. As pernas de Mairi perderam as forças e ela segurou em seus ombros pra não cair. A língua dele estava quente e a acariciava no mesmo movimento que as mãos nas suas costas. Beija-lo sempre fora um prazer, mas agora ela sentia que chorava. Ele a beijava docemente, mas era um beijo falso. Ele a beijava com sofreguidão, mas não confiava e acreditava nela.

Mairi só percebeu que havia algo de errado, quando empurrou Ian. Ele começou a rir de uma maneira estranha, o corpo firme ainda a mantinha presa e ela estremeceu. Desta vez, de receio.

-Me solta, Ian... Precisamos conversar.

-Conversar? – ele a encarou – o que vou falar com uma vadia como você? Não se preocupe... vou pagar bem. Melhor que seus outros clientes. E se você for boazinha, não irei machuca-la como eles fizeram.

Ele mal terminou de dizer essas palavras e sentiu o rosto esquentar. A mão dela voou em sua direção. Ela lhe esbofeteara.

-Você teve coragem de me bater, Mairi? – ele riu, ainda sem a soltar – se você insiste...posso fazer do jeito que você gosta.

Novamente a puxou contra si. Ela lutava desesperadamente contra ele, mas não tinha forças. O corpo ainda sofria dos efeitos da desnutrição, e a surra que havia tomado daqueles dois homens que a atacara, a deixaram muito fraca. Mesmo assim... ela resistiu. Chutou Ian, deu socos em seu peito, e não parava de se mexer, até sentir que ele a atirou contra a cama.

Ao notar o colchão nas costas, ela tentou se levantar, mas o joelho dele bateu com força contra sua barriga. Com medo, ela recuou.

-Ian... – Mairi sentiu as lágrimas molhando o rosto- não faça isso comigo. Por favor...Ian... esse não é você...

Por alguns instantes ele parou. Não... Ian McGreggor jamais iria forçar uma mulher daquela maneira. Mas Ian McGreggor estava morto, e a mulher que se debatia embaixo dele foi a responsável por isso.

Então ele não a ouviu mais. Estava cego na própria ira. O ódio já dominava seu coração. Forçou mais o joelho na barriga dela ate sentir que ela gemia de dor.

Quando ela sentiu o vestido sendo puxado para cima, viu que a batalha estava perdida. De todas as formas que sonhava em seu tornar mulher, nenhuma havia sido tão cruel.

-Ah Mairi... Anáguas? E brancas? Quanta pureza você esconde... –ele ironizou ao rasgar a peça intima.

Ela olhou para ele. Quem era aquele monstro que estava em cima dela? Como alguém podia ser tão sádico?

Ian quase desistiu ao ver o centro feminino. Parecia pura... parecia virginal. Mas não passava de uma cachorra que já devia ter se deitado com metade de York enquanto ele pensava em se casar com ela. Agora ela teria sua punição!

Os dedos dele a tocaram e ela estremeceu. Mas Ian sabia que não era de desejo. Mairi estava com nojo dele! Pois que tivesse!

Sem pensar muito ele abriu a calça e tirou seu membro para fora. Não estava excitado, mas era uma questão de honra pessoal.

Você nunca pensou em fazer isso Ian... você não é um monstro... não faça isso...”, ele ouvia a própria consciência falando.

Pegou seu órgão com as mãos e esfregou nela. Em pouco tempo, ele endureceu.

-Não Ian... por favor... – ele a ouviu dizendo.

Mas a voz dela estava tão longe. Era como se estivesse em outro lugar. E a raiva dele estava ali, presente, o incitando a fazer aquilo.

Rapidamente ele a penetrou. Percebeu a rigidez dos músculos internos dela e viu que ela não estava pronta. Não importava! Não iria perder seu tempo com preliminares.

“Nem preliminares adiantariam” , ele pensou sorrindo satisfeito.

Ouviu ela gritar e se debater, mas segurou os braços dela com as mãos. Deslocou o corpo contra o dela, para prensa-la. Não queria que nada atrapalhasse aquele momento.

Ian sentiu que algo estava molhado, mas nem olhou. Sem pensar direito, começou os movimentos rapidamente.

Mairi sentia a dor aguda quase a matando, rasgando. Nada que havia passado anteriormente podia ser pior que aquilo. Percebeu que quanto mais se movia lutando contra ele, pior era a dor, então ela aquiesceu. Já não mais fazia barulho. As lagrimas eram silenciosas.

Então o sentiu gemer e algo a lubrificou. Mas ela não fez caso. Já nada mais importava. Não estava naquele lugar! Estava em York, limpando os ladrilhos, fazendo a comida, ouvindo as reclamações da Sra. Perpetua. Estava longe... estava na infância que não teve, nas brincadeiras que não viveu, no amor que não ganhou.

Ian sentiu-se gozar e jogou seu líquido nela. Então a razão voltou! Mas era tarde demais. Chocado, ele levantou-se rapidamente e olhou Mairi. Ela estava quieta. Apenas lágrimas saiam de seus olhos, mas não parecia real.

Rapidamente pegou o pênis para guardar dentro da calça. Foi então que viu o sangue sobre seu membro. Sangue? Olhou para ela novamente. O vestido levantado até a cintura e as coxas cobertas de sangue o fizeram sentar no chão.

Ela era virgem.

Ela não mentira.

E estava daquele jeito graças a brutalidade dele.

“Benjamin só me deu dinheiro para vir a Londres por piedade, Ian. Nós mal nos conhecíamos”

Podia ser verdade?

Era verdade! Lembrou-se de Perpetua lhe falando que Mairi nunca saia do castelo. Lembrou-se de como sua mãe a tratava. Por que não pensou nisso antes? O Ódio o cegou a tal ponto que não viu que Benjamin realmente poderia apenas ter sido piedoso em ajudar a moça a vir para Londres. Ele colocou as mãos na boca e tentou não gritar. Destruíra a vida da mulher que ele amava.

-Mairi... – ele disse baixo.

Ela não respondeu. Ela nem se mexia. Estava como uma morta viva na cama.

Ele tentou se levantar e ir até ela, mas não teve força. Era com covarde que prometera cuidar dela, mas a recompensava com dor. Um filme cruzou sua mente e lembrou-se das vezes em que sonhava em se casar com ela e lhe fazer amor. Seria tudo correto. Não a tomou em York porque queria que tudo fosse dentro do casamento. Pensava em ter filhos com ela e nunca mais deixar ninguém a ferir.

Que ironia.

Ela havia dito que lhe amava. Ela falara isso de varias maneiras antes. Dissera aquilo cuidando dele. Dissera com palavras...dissera com ações. E quando ela retificava os sentimentos, ele lhe zombou.

Duvidas do porque da fuga dela, do porque ela estar com Allan em Londres cruzaram seu pensamento. Mas no fundo, ele sempre soubera que tinha uma explicação. Mas não lhe dera uma chance para lhe esclarecer.

-Mairi... –ele a chamou novamente

Nada.

Mesmo que não houvesse uma explicação, nada justificava seu ato. Ela era uma rosa, que fora despedaçada. Não uma flor de estufa, mas uma rosa silvestre, que devia ser livre e feliz, mas que ele havia conseguido destruiu o perfume.

Ian automaticamente lembrou-se do revolver que guardava na escrivaninha do seu escritório em York. Ele devia ir até lá. Pegar a arma e se matar. Não merecia viver. Já fora covarde o suficiente, mais covardia, dessa vez seria bem vinda. Foi se levantando lentamente, ainda olhando para ela. Mas antes de chegar à porta, esta se abriu, e Allan entrou.


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XI

Por Josiane Veiga

Allan Hatton havia saído da casa de Emily Preston naquela manhã com a certeza crescente de que tomara a melhor decisão. Manter Mairi em sua casa, por melhores que fossem suas intenções, só destruiria a reputação da moça. Além disso, a senhora Emily era alguém de total confiança. Cuidaria de Mairi como a uma filha e Allan poderia preparar o terreno para Ian com calma.

Cruzando por uma feira, ele comprou um saco de limões. Quem diria que Mairi era apaixonada por limão e mel? Mas agora ela experimentaria outros chás, como hortelã. Allan cuidaria para que ela vivesse de tudo um pouco e nunca mais passasse privações. Talvez se o ódio de Ian houvesse destruído sua paixão por ela, Allan até poderia se casar com Mairi. Ela teria conforto e paz ao seu lado.

Esperou Ian McGreggor toda a manhã em seu escritório, e estranhou quando o amigo não apareceu. Ian tinha palavra! Onde estaria?

Almoçou e resolveu retornar a casa de Emily. Mesmo por pouco tempo, lhe custava ficar longe de Mairi. Além disso, queria lhe mostrar os presentes que comprara para ela. Coisas simples, mas de coração.

Allan só sentiu que algo estava errado quando chegou a entrada da casa. A porta da frente estava apenas encostada. Apesar de o local ser calmo e a polícia Londrina não tolerar assaltos diurnos, o advogado estranhou. Emily nunca deixava a casa escancarada daquela forma. E Mairi estava fraca demais para dar passeios pela vizinhança, portanto, não havia sido nenhuma das duas que cometeu aquele descuido. Então ele ouviu um barulho vindo de cima. Não era um barulho sinistro, mas era anormal. Algo o dizia que o ar estava pesado... que Mairi precisava dele. Correu para as escadas e subiu com rapidez. Mas era tarde demais.

Hatton não estava preparado para a cena que encontrou ao abrir a porta. Incrédulo, seu coração não aceitava o que seus olhos viam. Ele se aproximou de Ian e a culpa estampada no rosto do melhor amigo fizeram fraquejar o nobre advogado. Ainda, sem emitir nenhum som, virou-se em direção a Mairi. Ele engoliu seco ao vê-la deitada na cama, como uma morta, o vestido levantado à altura da cintura, as pernas cobertas de sangue. Sua parte mais íntima estava exposta e ele sentiu vergonha por ela. Mas não conseguia se mexer. Ficou alguns segundos assim, vendo e não vendo.

-Ian... o que você fez? – ele perguntou baixo.

Mas era uma pergunta tola. Ele sabia a resposta.

Ian parecia estar em um pesadelo. Ele mal conseguia respirar e tudo que conseguiu sentir foi o peso da responsabilidade caindo sobre seus ombros. Nunca esteve tão desesperado em toda a sua vida. O maior choque foi ver Allan entrando subitamente pelo quarto, o embaraço estampado em seu rosto e a duvida em seus olhos.

-A culpa foi sua... – ele balbuciou.

Não! A culpa não era de Allan e ele sabia disso! Mas estava tentando desesperadamente justificar em sua mente a atitude animalesca. Se Allan tivesse contado que encontrara Mairi desde o começo, nada disso teria acontecido. Mas o pensamento foi interrompido por um soco no queixo.

Ian caiu sobre um pequeno sofá q ficava num canto. Ele não acreditava que Allan Hatton, seu melhor amigo, seu irmão de alma havia lhe agredido. Mas também não podia culpa-lo. Ele mesmo se pudesse, se espancaria. Tocou o queixo e sentiu o sangue escorrer do nariz. Era pouco. Preparou-se para mais.

-Como você ousa me culpar por um ato desses? – Allan perdeu o controle – Saia daqui Ian! E nunca mais se aproxime dela!

Nunca mais ver Mairi? Mas ele precisava reparar o erro que cometera!

-Eu a amo... – Ian falou transtornado.

-Ama? – Allan passou a mão nos cabelos e tentou respirar – Você sabe o porque de ela ter vindo a Londres, Ian? Você a deixou desamparada em York! Assim que colocou os pés na capital, sua digníssima mãe começou a maltratá-la, até conseguir a expulsar do castelo com a mentira que você estava de casamento arranjado com Annie Webster! Você esperava que Mairi ficasse nas ruas de York passando fome até a sua volta? –Allan começou a torcer as mãos tentando controlar o ódio - Benjamin deu-lhe dinheiro por piedade, para que ela viesse procurar trabalho em Londres. Mas aqui ela não conseguiu nada, a não ser fome e violência. – ele se calou, tentando raciocinar – até um mimado como você, consegue ver o estado de magreza dela. Ela mal conseguia andar até a três dias atrás e não pode falar alto, porque foi agredida por dois miseráveis na rua que quase a mataram asfixiada.

Ian tremia. Como tivera coragem de ainda provocar mais dor nela?

-Allan... se você tivesse me contato tudo antes... Quando o vi com ela esta manhã, achei que estivessem me traindo.

Então Ian havia visto os dois saindo na carruagem de manhã? O loiro sentiu que boa parte da culpa se transferia para ele. Fora imprudente!

-Eu iria contar tudo, se você fosse ao escritório essa manhã...- Allan se aproximou da porta e abriu - Suma da minha frente, Ian! Nós não somos mais amigos. Nunca mais seremos. Só não o mato, porque tenho meus motivos. Um dia talvez você os conheça.

O fato de perder o amor de Mairi (sim, Ian bem sabia que isso acontecera) já era algo forte demais. Perder Allan era como se toda a esperança de paz de Ian sumisse de repente.

-Nós dois somos irmãos de alma. -ele repetiu o juramento feito tantas vezes no passado.

-Nunca mais repita isso. Pra mim, você não é mais nada.

Ian encolheu os ombros. Não havia justificativa para tal ato vil e Allan estava certo. Se fosse ao contrario, a reação de Ian seria a mesma. Levantando-se do sofá, tirou um lenço do bolso e passou no nariz que sangrava pela agressão de Allan. Abriu a boca para dizer algo a mais, mas desistiu. Allan não o olhava. Dera-lhe as costas. Sem saída, Ian saiu do quarto.

Allan caminhou até a penteadeira e apoiou-se na mesma. Precisava respirar. Ian estuprara Mairi no lugar onde ele achou que ela estivesse segura. Agora, tarde demais, o que ele poderia fazer? Como remediar um mal deste tamanho?

A cena que encontrou naquele quarto, nunca mais lhe sairia da mente. Pensou na própria mãe que também fora pega por um Lord que não aceitara sua recusa. A mãe... uma empregada num grande castelo. Ninguém sabia disso. Nem Ian. A única pessoa que sabia que Allan era fruto de um estupro era o próprio, pois o pai lhe confidenciara quando o fora visitar na escola, certa vez.

O mundo era injusto para com as mulheres. E para com os bastardos também. Ellen era quase uma menina quando foi trabalhar numa das mais importantes cidades inglesas, fundada pelos romanos e palco da famosa Guerra das Rosas... York. Chegou ao castelo e foi para a lavanderia. Mesmo pouco vista fora dos porões frios onde lavava as roupas, não conseguiu escapar dos olhos do duque do local. Pelo que ouvira falar da mãe, Allan não se surpreendia. Baixa, loira e de uma pele pálida, a jovem tinha formas voluptuosas. Mas era apaixonada pelo cocheiro. E recusava avanços indesejados.

Mas nada era recusado ao duque de York. E durante um temporal, típico da região, ele a estreitou no porão. Ela resistiu, mas não o suficiente. Apanhou e foi violentada. Nove meses depois morria no parto, dando a luz ao filho do homem que destruiu sua vida.

Quando Allan nasceu, o duque o retirou do castelo e lhe enviou a um internato. Ainda bebê foi cuidado por professoras e cresceu com uma educação ímpar. Aos quinze anos, descobriu a verdade numa visita do pai, e nunca mais lhe perdoou. O Duque morreu vitima de ataque cardíaco alguns anos depois, deixando para Allan algumas ações do banco, dinheiro e a herança maldita de seu sangue odioso.

Malditos Lords que se acham no direito de se impor, sem se importar com os sentimentos das outras pessoas. Mairi fora uma vítima. Assim como a mãe.

Pobre Mairi.

Mairi!

Ele virou-se rapidamente. Ela continuava no mesmo lugar. Não se mexia. Pouco respirava.

-Mairi... –Allan a chamou baixo se aproximando.

A idéia de que agora ela teria medo dele e de todos os homens lhe passou pela cabeça. Como seria a relação deles agora?

-Estou aqui Mairi – ele lhe disse com receio de amedrontá-la – estou aqui... me perdoe por não estar aqui quando você precisou de mim... – ele aproximou-se da cama devagar e se ajoelhou perto dela.

Alguns segundos se passaram até Mairi se mexer. Ela virou o rosto e a luz voltou aos seus olhos. Allan sentiu que ela lhe reconhecia.

Então ela fez algo que o surpreendeu. Sentou-se na cama e o abraçou. Sabendo que dele, ela nunca sentiria medo, Allan ficou mais forte. Estreitou-a entre os braços e eles ficaram assim durante algum tempo. Sem nada dizer, apenas sentindo.

-Vou limpar você – ele disse baixo.

Não era simbólico. Retirando as mãos dela dos seus ombros, Allan a empurrou delicadamente. Desceu a cozinha e retornou rapidamente com um balde e um pano. Retirou o vestido sujo dela pela cabeça e o jogou pro lado. Era a segunda vez que ele fazia aquilo, mas esperava que fosse a última.

Com delicadeza, ele molhou o pano e lavou o sangue. Ele não a olhava diretamente, então fazia aquilo por instinto. Muitas vezes já lavara outras mulheres. Todas amantes fogosas. Mas nunca lavara o sangue de uma mulher. Não desta forma. E quanto mais a água do balde se avermelhava, mas o coração dele se irava.

Quando terminou, Allan caminhou até a cômoda e retirou um vestido limpo da mesma. Vestiu Mairi como se veste uma criança, e então, deixando-a na cama, dirigiu-se novamente a cômoda em que ficava as roupas.

-Allan... o que vai fazer? – ela perguntou baixo.

-Vou levar você para casa. Nunca deveria ter tirado você de lá.

Ela abriu a boca para responder, mas foram interrompidos pela chegada súbita de Emily. A senhora estranhou ver Allan no quarto de Mairi, mas nem teve tempo de comentar o fato. Quando os olhos encontraram a moça, ela perdeu o fôlego.

-Allan Hatton! O que você fez? E na minha casa?

Allan não respondeu de imediato. Jogou antes as roupas de Mairi dentro de uma valise e então encarou a cética senhora.

-Pergunte a Ian McGgregor.

Ao ouvir o nome de Ian, Mairi se encolheu e os olhos ficaram lacrimejantes. Mas ao contrario dela, Allan estava frio, sustentado pela raiva ativa que fazia-o quase tremer.

-Allan, exijo uma explicação. – a voz de Emily se elevou.

Fechando a valise, Allan segurou o braço de Mairi, ajudando-a a se levantar. Quando os dois chegaram a porta, ele disse baixo:

-Ian descobriu Mairi aqui antes de eu conseguir conversar com ele. O resto, você já deve saber... tome – colocou algumas notas na mão da sra. Preston – acho que isso deve bastar pelo dia em que ela ficou na sua casa.

A mulher ficou lívida.

-Allan... Se eu soubesse que Ian fosse aparecer, jamais a deixaria sozinha – Emily estava à beira das lágrimas.

O jovem rapaz sorriu para a senhora, tranqüilizando-a.

-Emily, eu sei disso. Não estou zangado com você. Ninguém tem culpa do que aconteceu. Só Ian.

E com essas palavras, eles se despediram.

Uma das maiores belezas de York eram as “Shambles”, ruas mais antigas da cidade, datadas da época medieval, e que não haviam sofrido modificações bruscas pelo tempo. Essas ruas eram como o resto da cidade. Preservada e fantasmagórica.

York ainda tinha em sua terra, o sangue dos inimigos dos Lancasters, e de alguma forma, toda a cidade clamava a volta de algo grandioso. York fora construída para a guerra, e chorava silenciosamente a paz.

E o choro consumido também era presente na vida de seu Lord. Ian observou os porões da cidade e agradeceu aos céus por ter chegado logo. Ele precisava do seu castelo e refugio. Queria morrer lá, como qualquer líder de feudo. Mas seus pensamentos mudaram de direção ao chegar no lar.

Saiu da carruagem e, incrédulo, observou a mãe, de camisola correndo até ele. Dorothea não era mais a mesma. Das belas roupas e do porte altivo, nada restava. A soberba Lady tinha os cabelos emaranhados e ria como uma louca.

-Mãe... o que houve?

-Ian... Que bom que voltou! – ela disse exasperada - Eleanor sente sua falta. Você devia dar mais atenção a sua esposa.

-Eleanor esta morta.

Ela moveu os dedos, desdenhando.

-Tolice. Vamos entrar! – puxando-o pelo braço, ela encaminhou ele para dentro – Perpétua fez chá e você deve tomar para aquecer o corpo. Quer que eu coloque conhaque na sua xícara?

As respostas desencontradas surpreendeu Ian. Ele pensava em questionar a mãe sobre Mairi, mas como conseguiria tirar dela qualquer informação? Discretamente deixou Dorothea falando sozinha na sala e subiu as escadas em direção ao quarto.

Não teria mais o direito de morrer. Jamais poderia fazer isso e deixar a mãe sozinha no mundo. Louca e só.

Steph Morris jogou os papéis em cima da mesa com violência. Estava sendo pressionado já a alguns meses para descobrir o assassino de uma linda e jovem Lady da região de York. Os juízes de Londres já o colocaram numa cilada antes, mas não com tanta armadilha.

Como pegar um assassino quando a única pista para isso não aparece? Ian McGgregor era o único suspeito, mas o detetive sabia que ele não era o culpado.

Instinto!

Não havia provas, nem contra, nem a favor de Ian, mas o instinto nunca falhara antes.

Steph levantou-se da cadeira de madeira nobre e caminhou em direção a uma mesa. Um pequeno espelho estava sobre ela e ele observou-se por um instante. Havia envelhecido uns vinte anos nesses últimos dias, tamanha a preocupação. Mas ainda era um homem atraente. Alto, cabelos castanhos e olhos verdes. Steph era alguém que chamaria a atenção de qualquer mulher, mas não tinha nem tempo, nem disposição para isso.

Tinha um assassino a solta. E ele precisava pegá-lo.

O colar! O maldito colar de diamantes que a Lady assassinada estava usando na hora do crime. O assassino havia roubado o colar. E Steph sabia que achando o colar, achava o criminoso.


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XII

Por Josiane Veiga

 

Ian desceu as escadas do palácio com relativa pressa. O enorme tapete vermelho que adornava e protegia a escadaria contrastava com a roupa preta que ele usava. O verão chegava ao fim. Era um alívio. Estranhamente a estação mais aguardada do ano nunca fora a mais querida por Ian e ele estava feliz por se despedir dela. Que viesse a neve! Trancaria-se em sua casa e não veria ninguém.

James o aguardava ao final das escadas. Acompanhando seu senhor até o escritório, abriu a porta e McGreggor encarou o homem alto de cabelos acobreados que se levantava, estendendo a mão.

-Como vai, Milord?

Ian apertou a mão de Steph Morris, o investigador que estava cuidando do caso do assassinato de Eleanor.

-Morris, o que faz aqui? – então uma idéia surgiu de repente - encontrou o colar?

O tempo pareceu parar. Quando fora comunicado que Steph estava no palácio, ele alegrou-se. Conhecera o investigar pouco depois da morte da ex-noiva e acreditava no caráter dele. Os dois, por uma questão ética, pouco se viam, portanto, Ian ficou surpreso ao saber que o outro o visitava.

-Infelizmente não.

Estendendo a mão, Ian apontou a cadeira e os dois homens sentaram-se.

-Soube que Allan Hatton entregou seu caso. – começou Steph

-Sim. Ele não cuida mais da minha defesa.

O outro suspirou alto.

-Ian, isso complica mais a situação. Você sabe que eu acredito na sua inocência e Allan estar lhe apoiando, ajudava muito. O advogado Hatton é muito respeitado pelo caráter nos tribunais de Londres. Os juizes viam com bons olhos sua defesa.

-Allan abandonou a causa por motivos pessoais. – Ian explicou.

-Muitos não acreditaram nisso...

Ian sabia que Steph estava certo. O caso complicava ainda mais. Fofocas surgiriam sobre o motivo de Allan ter abandonado a alegação de Ian e com certezas muitos iriam achar isso o advogado havia descoberto que o Lord havia realmente matado Eleanor. Seria um prato cheio para a imprensa.

-Como você soube?

-Allan entregou o caso ontem de manhã, o juiz me comunicou e peguei a primeira diligência para York.

Ian acomodou-se melhor.

-Mas o que o trás aqui, Steph?

O investigador pigarreou e prosseguiu:

-McGreggor, acho que sei porque não encontramos o colar ainda.

Ian sobressaltou-se.

-Fale, homem de Deus!

-Eleanor não morreu por causa de dinheiro, o assassinato não foi latrocínio.

Ian curvou as sobrancelhas. Já pensara nisso antes. Um assaltante já teria se desfeito da jóia. Mas algo não fechava nesta história.

-Mas, porque alguém mataria a moça?

-Vingança!

-Vingança? Mas ela cresceu em York. Duvido que tivesse algum inimigo.

-Realmente, pelo que pude constatar a falecida Lady não possuía inimigos. Apesar de sabermos que ela manteve um romance secreto, tampouco era invejada. Soube até que ela tratava a todos muito bem. Era querida pela região.

-Então?

-Não era a ela que queriam destruir, era você!

-A mim? – Ian alarmou-se.

-Foi tudo muito bem planejado. Eleanor era uma jovem bem nascida que se casaria com o homem mais rico desta região. Era noite de núpcias, só o próprio marido entraria no quarto. Todos sabiam que ela e o filho do dono da fruteira tinham um relacionamento oculto... enfim... tudo apontaria para você, o marido traído que descobre a infidelidade da mulher com quem se casou e a mata.

-Tem lógica – concordou Ian - mas não tenho inimigos. – completou desanimado.

-Já faz meses que o crime ocorreu. Se realmente o assassino a matou para roubar, como você acha, já teria se desfeito do colar. Mesmo que ele separasse as pedras, diamantes são raros por aqui. Nós já o teríamos pegado. Isso foi sempre o que a policia pensou, por isso você se tornou suspeito. Muitos acham que você a matou e sumiu com o colar para fingir roubo seguido de morte, pois só um louco roubaria uma mulher na noite de núpcias. A hipótese que a Lady morreu por crime passional é a única plausível.

Ian pigarreou. Então realmente Eleanor morreu por sua causa. Conseguira destruir a vida de duas mulheres. Talvez de três, contanto o fato de que a mãe também estava praticamente devastada. Que sina!

Envergonhado levantou-se da cadeira e caminhou até a enorme janela.

Steph olhou o homem meditar. Não viera ali para contar somente aquilo. Tinha uma suspeita. Mas não conseguira falar dela para aquele homem amargurado.

Seria um longo outono.

ººººººººººº

Dois meses depois...

Allan entrou no quarto revoltado. Procurou Mairi com os olhos e a encontrou sentada em um sofá, próxima a janela. Estancou por alguns momentos, respirou fundo e se aproximou.

-Como você se atreve, Mairi?

-A que? – ela disse com os olhos pousados num livro.

Ouvindo a respiração entrecortada de Allan, ela levantou o olhar e o encarou. Vendo que não teria uma resposta, continuou a perguntar:

-A recusar você?

Ela sorriu e ele se desarmou. Puxou um pequeno banco de madeira e sentou-se próximo a ela. Estava linda. A vivacidade voltara a sua pele. O corpo adquiriu um pouco de volume e tinha engordado. Os cabelos, ela sempre mantinha preso num coque. Como ficar zangado?

-Não temos escolha.

-Não Allan. Não insista. –ela falou ao vê-lo abrir a boca.

Allan abaixou a fronte e sorriu.

-Cabeça dura!

Ela riu e ele acompanhou a gargalhada. Mas a situação não era engraçada.

-Mairi, você precisa entender...

-Eu já falei que não me casarei com você!

Ela foi tão firme na resposta como fora em todas as outras vezes em que ele falara do casamento.

-Você ainda ama Ian?

Os olhos dela escureceram rapidamente.

-Não fale o nome deste homem perto de mim.

Hatton suspirou. Não conseguiria tirar nada dela.

-Mairi, não temos escolha.

-Sempre existem escolhas Allan. Eu vou trabalhar. Quando cheguei em Londres, com a roupa do corpo realmente ninguém me deu emprego. Mas agora, você e a Sra. Drake pode me dar referências. Posso trabalhar com qualquer coisa. Não estou aleijada.

-Droga Mairi! – ele levantou-se zangado - você não percebe? Está grávida! Grávida! – ele praticamente gritou – quem vai lhe dar trabalho? Esta sendo infantil! Não percebe que sua barriga vai crescer, seu filho não terá pai! Será um bastardo como eu! As pessoas vão falar dele! E quando ele crescer, como será sua vida? Não terá emprego. Só existe um jeito de defender essa criança! Querendo ou não, você se casará comigo.

Allan repetiu a ela o que sua própria mente lhe dizia desde que percebera algo de estranho com o próprio corpo. Primeiro suas regras não desceram como de costume. No primeiro mês, tentou se tranqüilizar, pois pensava que era reflexo da desnutrição que passara. Mas no segundo mês, completamente restabelecida, ela não pode mais negar a verdade. Um filho. Teria um filho. Não fruto de um grande amor. Mas fruto de algo abominável.

Chorou dias seguidos, tentando imaginar o que faria com a criança. Não poderia tirar. Isso era inconcebível, levando-se em conta que ela sempre sonhou com alguém para ela. Matar uma criança era algo tão desprezível que ela logo afastou a idéia. Um bebê... um sonho antigo. Uma família. Mas como criar uma criança sem pai na Inglaterra? Imaginou que talvez pudesse abandonar o recém nascido depois de dar a luz. Mas não teria tamanha coragem! Ela também cresceu sem ninguém... Não exporia o bebê a tamanha dor.

-Você não entende, Allan? – ela disse – Não posso casar com você! Você não merece isso. Você merece uma esposa que lhe ame. Você merece filhos com seu próprio sangue! Não vou me casar com você e está decidido. Carregarei este fardo sozinha!

-Mairi...

-Escute. Eu lhe amo. Mas nos dois sabemos que o que vivemos é amizade. Você também cresceu sem família. Acabamos nos unindo. Somos um só... mas nunca conseguiremos viver uma relação conjugal normal. Como posso destinar você a algo tão triste? Você merece paixão – ela se aproximou e colocou as mãos no rosto dele e continuou sonhadora – quero ver você ao lado de uma linda mulher, criando filhos loiros...

Ele quase riu. Devia ter contado a ela antes que a amava como mulher! Mas agora era tarde demais.

Encostando sua testa na dela, Allan lembrou de toda a sua vida, quando quis encontrar alguém como Mairi. Alguém que dependesse dele, mas que também lhe transmitisse força. Ele não se importava de, para ter ela, criar o filho de outro homem. Amaria a criança como sua. Mas...

-Essa criança tem meu sangue...- ele confabulou.

Tarde demais percebeu o que tinha dito. Mairi jogou a cabeça para trás e o olhou.

-Teria meu sangue... Porque eu e você somos como irmãos – ele tentou consertar.

Não deu certo.

-Allan Hatton! Não ouse mentir pra mim. O que você quis dizer com isso?

-Nada – ele sorriu para ela e foi saindo do quarto.

Mairi segurou seu braço e o puxou novamente. Os dois se encararam. Allan suspirou. O sorriso devastador nunca funcionava com ela.

-Você conhece a história do meu nascimento...

-Sim, a Sra. Drake me contou que sua mãe era concubina de um lord muito rico.

-É mentira, Mairi. Minha mãe era empregada em um castelo. Foi violentada como você e morreu ao dar a luz a mim. O homem que a violentou era um lord. O Lord de York. Ele sabia que eu era seu filho e por algum motivo, levou-me para uma escola. Deixou-me também uma pequena herança em dinheiro. Enfim...

-Que coincidência com minha vida. – ela o interrompeu, conformando-o – entendo porque você se apegou tanto a meu filho.

De repente Mairi percebeu algo implícito nas palavras dele.

-York... – ela balbuciou – mas York... Ian...

-Meu pai se chamava Ian McGgregor.

-Como assim? –ela se assustou.

-Ian, nosso Ian, tem o mesmo nome do pai. Eu e Ian somos irmãos.

Ian e Allan. Irmãos. Mas como?

-Allan...

As palavras ficaram presas em sua garganta. Mas Allan respondeu o que a voz dela não conseguiu perguntar:

-Ele não sabe. Conheci Ian quando eu tinha catorze anos e ele treze. Acabara de chegar na escola e quando eu soube que ele era de York, fiquei feliz. Seria alguém que me lembraria minha mãe. A mãe que não conheci. Aproximei-me dele. Ficamos amigos. Um dia, Lord McGreggor chegou à escola e eu quase corri para abraçar meu pai. Você deve imaginar meu choque ao ver Ian ir até ele.

Mairi abraçou Allan.

-Eu imagino sua dor...

-Ian tinha tudo que eu nunca teria. Um nome... Uma mãe! Não era olhado como um bastardo, mas como alguém importante. Soube das terras, do palácio. Mas por mais que eu tentasse, não consegui odiar a ele. Nossa amizade continuou. Pouco depois, McGgreggor morreu e Ian se tornou Lord. Eu voltei ao castelo várias vezes, mas para minha surpresa ninguém sabia de mim. Então James me contou aos cochichos que o Lord pai proibiu que o nome da minha mãe, Ellen, fosse pronunciado entre as paredes da mansão. E todos achavam que o bebê havia morrido.

-James? O mordomo?

-Parece que era a única pessoa na qual o antigo Lord confiava. – ele suspirou mais uma vez - Mairi, ninguém pode saber disso.

Ela tirou os braços de volta dos ombros dele e caminhou até a poltrona.

-Nunca contarei a ninguém. Mas Ian devia saber.

-Já era difícil pra mim contar pra ele antes. Imagina agora, que não nos falamos mais.

Intimamente ela sentiu-se culpada por ter destruído a amizade dos dois. Roubara Allan de Ian. Como será que ele estava, sozinho naquele castelo, abandonado por todos?

O que? Tola! Mil vezes tola! Como ainda se concedia pensar naquele maldito que a violara? Ainda preocupava com o estado dele? A única coisa de Ian que ela manteria seria o filho. Ian MCGgreggor estava morto! Morto!

Fechou os olhos tentando controlar a onda de raiva que sentia de Ian e dela mesma e então percebeu que Allan colocava a mão no seu ombro.

-Esqueça esse ódio, Mairi. Enquanto não o esquecer, nunca será feliz.

-Jamais. À noite ainda sonho com o que ele fez... – ela disse sussurrando.

Allan iria responder, mas a Sra. Drake entrou no quarto.

-Desculpe incomodá-los, mas o jantar está pronto.

Mairi sentiu o estômago enjoado na hora. Ultimamente tinha pouca fome.

-Já sei o que vai dizer – falou Allan sorrindo. – mas não adianta! Vai comer sim, futura mamãe!

Era difícil não amar essa gravidez com Allan do seu lado. Sorrindo Mairi deu o braço a ele e desceram para a cozinha juntos, praticamente uma família feliz.

 


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XIII

Por Josiane Veiga

Allan tamborilou os dedos na mesa de magno que tinha ao centro de seu escritório. A música que os membros tocavam contra a madeira era desconhecida para ele mesmo. E tampouco se importava com ela.

O que faria?

Amava demais Mairi para deixá-la numa situação como a que a moça enfrentava.

A Sra. Drake já havia anunciado que considerava errado uma moça solteira, grávida vivendo na casa de um homem. E ele não podia culpá-la. Quem acreditaria que ele não era o pai e que Mairi não era culpada pela barriga? A vizinhança logo comentaria, se é que já não estivesse falando.

Mairi e ele eram adultos. Pouco importava os mexericos. Mas ele pensava muito na criança. O ser inocente que ela trazia no ventre. Cada vez que pensava no bebê Allan lembrava da própria infância. Do começo da adolescência. E da vida adulta. Muitas mães o achavam um mal partido para suas filhas simplesmente porque ele não tinha um sobrenome paterno. Por melhores que fossem suas intenções e condições financeiras, um casamento com uma moça da nobreza era algo impossível para o belo loiro.

Aquilo já o preocupara antes. Agora pouco importava.

Não era uma mulher da alta sociedade inglesa que ele queria. Era uma simples órfã grávida de outro homem que se negava a ele.

Jogou a cabeça para trás e a encostou-se a confortável poltrona. Inferno! Não merecia isso. Não merecia muitas coisas, mas esse azar da vida sempre vinha contra ele.

Por que precisava amar tanto Mairi? Por quê? Os cabelos longos dela, lisos no topo, encaracolados nas pontas. O cobre da cor das madeixas. A pele pálida. Cada característica do corpo dela fazia seu coração contorcer de amor, mas era a personalidade dela que mais o encantava. Como uma mulher podia ser tão doce e meiga ao mesmo tempo em que era atrevida e jovial?

Ian quase a destruiu, mas nem toda a violência que ele cometera fizera Mairi pensar em morrer. Ela era uma guerreira. Uma sobrevivente da maldade humana! Não importava todo o mal que recebia, ela era incapaz de retribuir da mesma forma.

-Allan, trouxe chá.

Ele saltou da poltrona, saindo dos pensamentos. Mairi entrou no escritório com uma pequena bandeja. Mel e limão. O chá preferido dela se tornou o dele também. Todos os dias, à tarde, ela invadia seu escritório para lhe oferecer o líquido quente.

O outono transcorria com rapidez. Logo o frio inverno chegaria e a barriga dela apareceria.

-Obrigado.

Ele sorriu e ela retribuiu o gesto.

-O que houve Allan? No que pensas?

Ele pegou a xícara e tomou um gole. O chá estava doce. Adorava a maneira como ela sempre sabia o gosto que ele tinha para bebidas.

-No seu filho. – ele foi direto.

-Allan...

-Mairi, me ouça. Se continuar a se negar a casar comigo, tomarei uma decisão drástica, que você não vai gostar. Mas não vou admitir que essa criança nasça sem sobrenome, sem a proteção de uma família.

-Allan, será que você não me entende...

-Quem não entende é você! – ele esbravejou batendo o punho na mesa – O que pensa Mairi? Ama tão pouco seu filho que não é capaz de se sacrificar por ele? Você também é bastarda! Também é órfã! É isso que quer para ele?

As palavras foram duras, cruéis. Doeram fundo nela. Ela amava o filho sim. Amava aquela pequena criatura que se formava no seu ventre.

-Amo meu filho. Mas amo você também. E não permitirei que pague uma dívida que não é sua.

Com essas palavras ela saiu da sala.

Naquele momento Allan tomou a decisão mais difícil de sua vida.

ºººººººººº

Brian de La Tere era um médico muito estimado no circulo social de York. Mas ele se perguntou se realmente valia a pena ter um nome respeitável e ganhar um bom dinheiro, se para isso, era preciso cuidar de mulheres como Dorothea McGgreggor.

-Milady – ele segurou suas mãos – já falamos sobre isso...

-Todos acham que eu estou louca. – ela gritou histérica – mas não estou. Eleanor esta no castelo. Ela não morreu!

Ian entrou correndo no quarto. A mãe jogara as cobertas no chão e se debatia. La Tere tentava desesperadamente segurar a mulher para lhe dar um calmante, mas era em vão.

-Mãe, acalme-se. – o jovem Lord aproximou-se e a segurou.

Ao perceber a presença do filho, Dorothea parou de lutar. E fez algo que surpreendeu os dois homens que estavam no quarto: abraçou Ian.

-Ian... me ajude... Ian... – ela gemia alto.

“Vou perder a sanidade também” –ele pensou retribuindo o abraço.

Não tinha certeza se era um abraço real ou algo falso. Dorothea era sua mãe, mas nunca houve nenhum sentimento verdadeiro entre eles. Ian fora criado por criadas e amas de leite, e ainda criança, foi enviado a Londres. Voltava ocasionalmente a York e mesmo assim, pouco dedicava atenção a sua mãe. Dorothea também nunca sentiu falta da presença do filho.

-Ian... Eleanor...

-Mãe – ele a encarou - Eleanor esta morta. A senhora precisa aceitar isso.

-Ela não esta morta! Ela esta viva! Ela vem ao meu quarto com freqüência... ela quer eu mate você.

Aquilo chocou Ian de uma forma arrebatadora. Meu Deus, Dorothea realmente estava louca e poderia cometer um assassinato contra o próprio filho?

-A senhora esta com os nervos a flor da pele. – ele tentou justificar.

-Ela não esta morta! – ela voltou a gritar.

-Escute – ele também levantou a voz – eu ajudei a retirar o corpo de Eleanor do concreto. Ela caiu do terceiro andar do castelo. Seus ossos estavam quebrados e seu pescoço se partiu do corpo. Eu vi. Eu senti. A senhora precisa aceitar isso.

Arrependido de falar daquela maneira, ele levantou-se. Dorothea chorava, abraçada no travesseiro. Brian deu-lhe calmantes e ela se aquietou. Pouco mais tarde, os dois homens saíram do quarto.

-Você sabe o que deve fazer – o médico disse.

-Nunca! – Ian falou baixo, mas firme. – Minha mãe não será levada a um sanatório. Ela viveu sua vida toda neste castelo e vai morrer aqui. Não permitirei que sofra nas mãos de médicos tão dementes como ela.

Brian não pode negar as palavras. Sabia dos métodos usados nos sanatórios ingleses para “curar” os doentes e não podia culpar Ian por preferir que a mãe ficasse em York.

ºººººººººº

Mairi levantou naquela manhã com a incomoda sensação de que faltava algo. Fez o toalete e desceu as escadas procurando o rosto de Allan. Não encontrou.

-Sra. Drake, onde esta Allan?

A empregada de Hatton fazia pães e encarou a jovem com um olhar surpreso.

-Foi viajar. Ele não lhe disse?

Não. Allan não havia falado com ela e isso já fazia uns três dias, desde a conversa no escritório. Maldição que os homens tem sempre que achar que sabem o que é melhor para as mulheres. Às vezes Mairi sentia vontade de lhe chutar a canela.

Magoada ela nem se alimentou. Foi a pequena biblioteca de Allan e pegou um livro. Fugiu de Scott e seus romances (os romances de Ian...) e preferiu Shakespeare. Mas nem as palavras do escritor a fizeram conseguir se animar. Por que Allan não lhe dissera que ia viajar? Será que ele cansara dela e de sua teimosia?

Já fazia algum tempo que os dois não se separavam. Ficavam sempre juntos e Allan havia recusado diversos trabalhos para não se ausentar do lado dela nos primeiros momentos da gravidez.

E agora isso? Saíra sem nenhuma palavra. Como se ela não tivesse importância!

ºººººººººº

Ian terminou os livros de contabilidade e curvou-se sobre a escrivaninha. Estava exausto. O administrador da fazenda de York não vinha fazendo um bom trabalho e ele precisaria tomar providências.

Perpétua entrou no escritório com café quente sobre a bandeja. Ah, Ian adorava café. Era a verdadeira delicia das terras além mar. Não que também não gostasse de chás. Mas café lhe dava mais ânimo para fazer cálculos e cuidar dos negócios exaustivos.

No dia seguinte iria visitar alguns dos arrendatários. Fazia isso todo o começo de mês, mas adiantaria o trabalho para evitar a neve que cairia a qualquer momento. O vento norte já dava sinal de vida. Logo as montanhas em volta da cidade das rosas ficariam totalmente brancas.

Ian quase engasgou de susto quando Perpétua voltou correndo a sala. Ela parecia nervosa e afobada.

-O que houve? –ele perguntou.

-O senhor tem visita.

E todo aquele nervosismo era apenas porque alguém vinha vê-lo. Ian sorriu ao pensar que realmente estava se tornando um recluso.

-E quem esta aí? A Rainha Vitória?

-Antes fosse, senhor.

Ian levantou as sobrancelhas.

-Fale logo, mulher.

-Seu amigo, Allan Hatton.

Todos no castelo sabiam que Allan abandonara a defesa de Ian, mas desconheciam o motivo. Mesmo assim, quando ouviu o nome de Allan, Ian sentiu que o coração subiria pela boca.

Em nenhum momento, desde que vira Allan e Mairi pela última vez, Ian deixou de pensar nos dois. O melhor amigo e a mulher que ele amava. Mas não se atrevia a procurá-los e pedir o perdão tão necessário. Simplesmente porque sabia que não poderia ser perdoado. Fora mais que um animal...

Mas agora Allan estava em sua casa. Talvez houvesse uma chance para ele.

Tentou aparentar calma e solicitou a Perpétua que encaminhasse Allan ao escritório. Assim que a magra e severa mulher saiu do aposento ele se levantou, tentando fazer as pernas pararem de tremer. Allan havia voltado! Mairi estaria com ele?

Ou havia acontecido algo com ela?

Céus, o que faria se algo de ruim abatesse a mulher que ele amava? Era um cretino por não afogar esse sentimento e deixá-la em paz, mas a muito vinha planejando uma reaproximação. Precisava vê-la!

O pensamento voou até ela. Seus cabelos em cobre e a boca carnuda. A última vez que a vira, foi no momento em que a machucara. Nunca esqueceria do seu aspecto na cama... Parecia morta.

Os olhos voltaram a porta quando esta se abriu.

Nos quase três meses que não via Allan, o ex-amigo não havia mudado muito. Na verdade, era como se não estivesse passado nenhum dia. Já Ian aparentava ter envelhecido uns dez anos.

-Allan... – ele balbuciou nervoso.

Allan o encarou com um olhar frio. A magoa e a raiva ainda não havia desaparecido do seu coração, percebeu Ian. Será que algum dia ele poderia ser desculpado?

-Estou surpreso... – Ian continuou esfregando as mãos uma na outra, como se estivesse com frio.

Allan não pediu permissão para se sentar. Caminhou até a poltrona e acomodou-se tranqüilamente. Ian o imitou. Por alguns segundos os dois homens se encararam. Allan, seco. Ian abatido. Eram dois contrastes chocantes. Seria muito mais se Ian desconfiasse que tinham o mesmo sangue.

-O que o tras a York?

-Mairi! – Allan respondeu.

Ian quase pulou da cadeira. Ele sabia que ela era o motivo da vinda de Hatton! Por alguma estranha razão, quando soube que Allan estava a sua porta, sua mente foi até Mairi. O que tinha acontecido com ela? Ele nunca se perdoaria se...

Não!

-O que houve com ela?

Allan molhou os lábios com a língua.

-Você tem um charuto?

Charuto?

-Você não fuma! – esbravejou Ian.

-Ora, eu sei – disse Allan sorrindo – mas é delicioso ver sua cara de nervoso, de preocupado, depois de tudo que aprontou. Desta forma, talvez eu demore um pouco para lhe dizer o que aconteceu.

Ian se acalmou imediatamente. Allan nunca perdia uma piada, e se estava fazendo graça, a situação não seria tão desesperadora.

-Você ainda a ama? – perguntou Allan de repente.

-Amo – respondeu Ian simplesmente.

Allan então se levantou. Caminhou ate a enorme janela que dava para o pátio e ficou pensando alguns minutos com o olhar fixo ao jardim. Ian não o interrompeu. Sabia que Allan estava decidindo alguma coisa e conhecia-o bem demais para saber que aquele momento, era único... era dele.

Estava certo.

Allan realmente vivia um momento único. A primeira vez que viu Mairi. Ela estava tão longe, com as costas eretas, lendo um livro embaixo de uma árvore. Já ele estava no mesmo lugar, divertindo-se as custas do irmão, que estava claramente apaixonado:

“-Ora... Que bonitinha sua empregada.” –ouviu-se dizer.

Lembrava bem da reação de Ian. Não ficara possesso ou zangado com a sugestão implícita nas palavras do loiro como ficaria em outra situação. Ao contrário. Continuou a falar de Mairi com admiração. Naquele momento Allan percebeu que ele estava realmente amando. Estando longe demais para saber se ela realmente era tão bonita, mas vendo a beleza delas nos olhos de Ian, Allan torceu como um louco por aquele casal.

O destino às vezes era cruel.

Cruel por tirar dele o desejo de felicidade do próprio irmão. Meses mais tarde, ele conheceria Mairi e também a amaria com loucura. Um amor a primeira vista, e ele nem sabia que isso realmente existia!

-Ian – ele voltou à atenção ao rapaz sentado que o observava silencioso – tenho uma proposta a lhe fazer. Você tem duas alternativas e quero que pense bem nas duas.

-Esta bem. E qual é a primeira?

-A primeira é você dizer não. Mas essa tem uma conseqüência. Dizer não para mim e dizer sim para o tiro que lhe darei no peito.

A sugestão feita quase fez Ian rir.

-Bom, como não quero levar um tiro de você, não porque tenho medo de morrer, mas porque sei que você atira muito mal e é capaz de acertar outro lugar que não seja o coração, não me resta opção à não ser dizer sim.

-Ótimo.

-Mas eu disse “sim” para o quê?

Allan respirou fundo antes de responder.

-Você irá se casar com Mairi.

Ian quase caiu da poltrona. Encarou incrédulo Allan.

-Você quer dizer que Mairi se casará comigo, mesmo após tudo que eu fiz?

-Sim.

-Por quê? Duvido que ela me queira.

-Tem toda a razão, ela não quer ver você nem pintado de ouro, tampouco quer se casar. Aliais, ela nem sabe que estou aqui.

-Mas então? Qual é o motivo?

-É simples. Ela não quis se casar comigo.

Ian ficou surpreso. Não sabia que Allan sentia algo por Mairi para lhe propor casamento, mas exultou ao saber da recusa dela.

-Você quis se casar com ela?

-Sim. Quis remediar o mal que você lhe fez.

-Só por isso?

-Só? –Allan irritou-se. – Você acha pouco?

Ian passou as mãos no cabelo tentando pensar.

-Desculpe. É claro que é um bom motivo. Eu me casarei com ela. Eu a amo, afinal. Prometo-lhe que cuidarei dela com a minha vida. Mas não creio que ela aceitara esse casamento.

-Acredite-me, ela aceitara. Nem que eu tenha que força-la.

Ian suspirou.

-Por favor, não faça isso. Chega de faze-la sofrer.

Allan levantou-se e se encaminhou para a porta.

-Isso você deixa comigo. Esteja preparado para me encontrar com ela aqui há três dias no condado de Yorkshire. Irei encaminhar os papeis e vocês se casaram lá. Também não se preocupe com o pastor, eu encontrarei um clérigo para realizar a cerimônia.

Ian pensou que ele gostaria de realizar uma festa e também de providenciar tudo para se casar com a mulher que ele sempre desejou, mas não teve coragem de pronunciar uma só palavra sobre isso.

-Allan, você a entregara a mim depois de tudo que eu fiz? – ele precisava perguntar.

-Entregar ela a você? Talvez não. – ele disse sorrindo – no contrato de casamento, estipularei que eu fique morando no castelo e também tenha direitos sobre Mairi. Será um caso especial, mas tenho amigos e conseguirei as assinaturas necessárias com os juízes de Londres. Ou seja, se eu precisar defendê-la de você, estarei aqui.

-Nunca precisará.

-Assim espero –virou-se de costas, foi até a porta e pegou na maçaneta, pronto para partir – Ian... – disse baixo – ela esta grávida...

E saiu.

Ian segurou-se na mesa.

Ele nem percebeu quando começou a chorar...


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XIV

Por Josiane Veiga

 

Mairi colocou a farinha na bacia e começou a juntar os outros ingredientes para preparar a receita. Bolo de amendoim, o preferido de Allan. Esperava que ele encarasse o agrado como forma de reconciliação. O amigo saíra de casa sem lhe comunicar nada já fazia dois dias. Os dois nunca ficaram tanto tempo longe um do outro. Já estava sentindo muito a falta dele.

-Tem certeza que quer bater o bolo? – perguntou a sra. Drake.

Ela encarou a mulher que a olhava apreensiva. Quase riu.

-Eu fiz bolos a vida toda, senhora. Pode deixar que eu mesma bato.

-Mas esteve tão doente. E agora grávida...

Mairi sorriu. Era bom saber que a mulher a sua frente vencera os preconceitos e já falava da barriga da amiga do patrão sem problemas. Ambas sabiam que Mairi não era culpada por aquela gravidez, embora no fundo não se sentisse assim.

-Já estou ótima e gravidez não é doença. Além disso, quero dar este presente a Allan.

-Um presente para mim?

As duas olharam em direção a porta. Allan Hatton entrou pela cozinha carregando uma pequena valise. Retornara enfim.

A cena que o loiro viu ao entrar na casa quase o fez desistir de todos os seus absurdos planos. Parecia uma família. Mairi cozinhando para ele, a sra. Drake falando da gravidez com bondade. Enfim, um momento único. Levaria aquilo para sempre.

-Allan!

Mairi correu em sua direção, o abraçou forte e ele quis ficar assim com ela perante a eternidade. Mas não era tolo de expressar esse desejo com palavras ou ações.

-Se eu soubesse que era tão aguardado, tinha voltado antes. –disse sorrindo.

A jovem estava muito emotiva no ultimo mês. Mairi quase chorou ao vê-lo entrar pela porta. O coração já começava a ficar pequeno perto do melhor amigo. Estava feliz simplesmente por perceber que ele não estava com raiva da teimosia dela.

A cada dia que passava, a opinião de Allan a seu respeito importava mais para Mairi. Mas por quê? Ele era homem. E ela nunca seria feliz com homem nenhum depois do que passou nas mãos de Ian. Mas a contradição se colocava a sua frente, pois era feliz ao lado de Allan... Será que estava se apaixonando? Impossível... era um amor fraternal o que sentiam. Ou não? Allan nunca lhe dera nenhuma indicação de que sentisse algo a mais por ela, e deixara claro que se casaria com ela apenas pela criança... Enfim... Ela devia tirar essas bobagens da cabeça antes que colocasse em risco a amizade deles.

-Ainda está zangado comigo? –ela perguntou inocentemente.

Ele deslizou o dedo indicador pela face dela e parou próximo a boca.

-Nunca fico zangado com você.

Alguém pigarreou e ele notou que a sra. Drake continuava na cozinha, observando os dois jovens atentamente.

-E a senhora? – ele perguntou dirigindo-se a mulher mais velha - também não vai me abraçar?

-Poupe-me de seus galanteios, sr. Hatton. Sou velha demais para eles. –ela disse rindo, claramente embevecida.

-Quanta bobagem, o amor não tem idade – ele a abraçou, mas logo a soltou olhando a bacia – o que é isso?

-Bolo de amendoim – respondeu Mairi – estou fazendo pra você.

Ele a olhou intensamente. Mairi sentiu os pêlos do braço arrepiando-se. Naquele momento ela soube que algo estava errado.

-Allan...

-Vou tirar a poeira da viagem – ele a cortou rapidamente - mais tarde desço para comer seu bolo, querida.

ººººººººº

Sim, ela iria odiá-lo. E Allan não sabia se estava pronto para perder a confiança de Mairi. Como contar a ela? Como ver a decepção em seus olhos?

...Como viver sem ela?

Por mais que estivessem juntos no castelo de York, não poderia mais ter a mesma liberdade. E nunca mais se permitiria em pensar nela como mulher, em tentar amá-la, sabendo que ela pertenceria aos olhos de Deus, a seu próprio irmão. Seus mais sublimes sonhos teriam que ser atirados ao mais secreto lugar de sua alma. O fim deles estava próximo.

E Mairi? Seria feliz ao lado de Ian? Ela dizia que não o amava mais, mas ele via o sentimento escondido em seus olhos e o olhar de uma mulher nunca mente. Sabia que ela podia estar confusa, depois de tudo que houve, mas Mairi e Ian foram feitos um para o outro. Ela voltaria a amá-lo, tinha certeza disso. Já o irmão, nunca a esqueceria.

Um enlace perfeito. Um final digno de um livro. Se não fossem as circunstâncias, ele estaria se congratulando pela criatividade de uni-los. Mas não podia estar feliz. Seria Ian que a teria, seria dele os filhos que ela gerasse.

Allan afundou-se na tina enorme. Nem o banho quente ajudava. Escorregou para baixo propositalmente e afundou o rosto na água. Devia ficar assim para sempre. Mas se fizesse isso, quem obrigaria Mairi a se casar com Ian?

Não...ainda não era o momento certo dele morrer.

Quando emergiu, passou as mãos no rosto tentando tirar a água. Ainda com os olhos fechados, apalpou a cadeira ao lado para pegar a toalha. Não encontrando, abriu os olhos e tomou um grande susto ao ver Mairi parada em sua frente com a toalha na mão.

-Mairi! –ele não sabia se ficava zangado ou feliz com a audácia dela. – você enlouqueceu? Estou tomando banho!

Ela estendeu a toalha a ele, muito séria.

-Allan, onde esteve nesses dois dias que ficou fora?

Ele pegou a toalha. Na banheira, a espuma escondia seu membro, mas seria impossível se levantar sem que ela lhe visse nu.

-Quer se virar?

-Não a nada aí que eu já não saiba como é. Esqueceu que seu irmão já fez questão de me mostrar da pior maneira possível?

Ele quase riu.

-Mairi, você está louca realmente! O que a faz pensar que eu e Ian somos iguais sem roupa? Não se esqueça que nosso estereotipo é muito diferente.

-Onde esteve?

-Vire-se!

Contrariada ela virou-se de costas. Céus, Mairi era uma mulher completamente doida, mas estranhamente excepcional! Ele levantou-se da banheira e enrolou a toalha em volta da sua cintura. Tentou não olhar para ela, porque na condição em que se encontrava, não conseguiria esconder uma possível reação imprópria.

-Já se tapou? – ela perguntou.

-Em um segundo? – ele perguntou – está doida. Mal tive tempo de me enrolar na toalha, quanto mais de conseguir a façanha de ficar apresentável.

Sem prévio aviso ela virou-se de frente. Engoliu seco em ver o loiro apenas com uma toalha que pouco escondia sua masculinidade.

Allan realmente era lindo. Um anjo como ela já o havia definido. A beleza era tão arrebatadora que ela perguntou-se como nenhuma mulher ainda não havia o conquistado e se casado com ele. O tórax era totalmente definido e o peito trazia poucos pêlos claros, que se escureciam levemente em direção a barriga. As coxas eram fortes e também musculosas. O que ele fazia para ficar em tão boa forma sendo advogado?

-Acabou a inspeção?

Ela sorriu.

-Estava pensando que você é um pedaço de mau caminho!

A franqueza dela o divertiu. Estava ficando insustentável essa situação, mas ele resolveu brincar com o perigo.

-Você acha? –ele deu um passo a frente.

E ela não recuou.

-Onde estão as mulheres da sua vida, Allan? –perguntou de repente

Este assunto era um tabu para eles. Mairi nunca perguntara sobre possíveis amantes e ele nunca falara delas. A futura mamãe sabia que um homem não vive sem satisfazer certas necessidades, mas Allan nunca dera mostras de nenhuma amiga mais íntima.

-Uma delas está lá em baixo. A sra Drake é como minha mãe, já que a mesma infelizmente eu não conheci. –ele respondeu sorrindo – a outra é você. E também essa pequena aqui – falou colocando a mão no ventre dela.

Mairi sentiu os olhos enxerem-se de lágrimas.

-Estou falando de mulheres reais. Não de fantasmas!

-Você não é um fantasma na minha vida. É a pessoa mais importante do mundo para mim. Entende isso?

Ela mordeu o lábio inferior e ele se aproximou mais.

-Você entende Mairi? Eu faria qualquer loucura para vê-la feliz. Mas você não sabe onde esta a sua felicidade. Eu sei...

O assunto foi tão estranho que Mairi ficou alguns segundos o encarando sem nada dizer. Então ela percebeu que Allan aproximava seu rosto do dela. Céus, ele iria beijá-la! E pior, ela queria isso!

Envergonhou-se. Que tipo de mulher era que podia ter sentido desejo por dois homens diferentes? E sendo esses homens irmãos, deixava a situação muito mais constrangedora!

Ainda pensando nisso, Mairi sentiu a boca de Allan encostar-se à sua. Ele segurou seu queixo e aprofundou o beijo. Era tão casto, mas tão gostoso. Ela levantou a mão, indecisa se o acariciava o rosto ou lhe empurrava. Aos poucos foi perdendo a noção de tudo, a não ser de o corpo atlético dele, praticamente nu, encostando-se ao seu e a língua quente deslizando por seus dentes. Então ela sentiu a rigidez dele contra seu ventre. Aquilo destroçou o momento.

Assustada, ela afastou-se e andou para o outro lado do quarto. Allan imediatamente percebeu que o encanto se quebrara.

-Me desculpe, Mairi...

-Eu que peço desculpas Allan. Mas não posso dar a você o resto de mulher que Ian me transformou.

-Eu aceitaria... –ele balbuciou.

Então, de repente ele virou-se em direção ao armário. Tirou as roupas de lá e foi a uma sala anexa se vestir. Mairi sentou-se na cama e o aguardou. Ele foi rápido e logo voltou.

Ela mal conseguia encará-lo e estava prestes a chorar.

-Voltando ao assunto de antes – ela falou ainda desconsertada, tentando manter a calma – onde esteve?

Ele aproximou-se da cama e sentou-se.

-Precisamos conversar.

-Eu sei disso – Mairi respondeu.

-Fui a York.

Allan aguardou os gritos, a explosão, mas nada veio.

-Por quê? – ela perguntou simplesmente.

-Você me disse que não posso pagar uma dívida que é de Ian. Então ele terá que quita-la. Ele vai se casar com você. Já está tudo combinado.

Ela engoliu a raiva que começava a brotar em si.

-Então você me traiu? – ela perguntou apertando os lábios.

-Existem coisas que mesmo um homem leal tem que fazer Mairi. Você esta confusa e não pensa claramente agora. Mas no futuro me agradecerá. Seu filho ou filha não será humilhado pela sociedade como eu fui.

-Allan... você não me entende... não posso nem olhar para ele...

Ele franziu a testa.

-Terá que ser forte.

-Allan... Como pode fazer isso? –ela levantou-se exasperada - Vai me largar sozinha? Vai me abandonar?

Ele levantou-se também e a prendeu entre os braços.

-É isso que pensa? Que eu seria capaz de deixá-la a mercê de Ian depois de tudo que ele fez? Eu disse que você se casará com ele por causa da criança, e não que precisará ser uma esposa no sentido real da palavra.

-E como você impedirá que ele me force novamente?

Ele a soltou.

-Existe um contrato de casamento. Eu serei uma espécie de tutor. E prometo que Ian jamais colocara as mãos em você novamente... A não ser...

-A não ser o quê?

-Que você queira.

-E você acha que eu quero?

-Agora não, mas talvez no futuro.

Ele passou as mãos no cabelo. Estava confuso. Também não queria entregá-la a Ian. Se ela forçasse mais um pouco, ele desistiria.

-Tenho outra opção? –ela perguntou baixo.

-Minha proposta de casamento ainda esta de pé.

-Não posso Allan.

Então ela começou a chorar. Já fazia algum tempo que ele não a via assim, tão agredida pela necessidade. A pegando nos braços, ele a ninou como a uma criança. Ficaram algum tempo assim, abraçados, entregues.

ºººººººººººº

O vento frio já anunciava que o inverno estava próximo. As árvores já haviam derrubado suas folhas, e a pequena névoa que cobria toda a Inglaterra não dava lugar ao sol. Sempre fora assim naquele lugar do planeta. E se, para muitos era fantasmagórico, para outros, como Mairi, era romântico.

Se bem que romantismo nada tinha a ver com o momento. Ela passou a mão nos cabelos, tentando evitar que o vento desmanchasse a grossa trança que fizera. Os olhos ainda estavam úmidos. Chorara durante os dois dias anteriores a sua ida a YorkShire e agora que se encontrava lá, sentia vontade de agir como criança e se sentar no chão, negando-se a levantar.

Mas não podia fazer isso. Já abusara demais de Allan! Ele também a desejava. Ela sentira isso no beijo que eles se deram, e por este motivo, não podia continuar ao lado dele, o incentivando, mesmo inconsciente. Teria que dar um jeito de ele achar que ela se apaixonara novamente por Ian e fazer ele ir embora. Allan não merecia os restos de outro homem. Ele merecia alguém melhor que ela. Uma moça pura que lhe fosse totalmente fiel.

Ela olhou para frente. A pequena paróquia emergia belamente entre as árvores altas e secas. Seria o lugar de sua morte. Ali entregaria a vida às mãos do homem que mais odiava.

Confusa ela tentou não pensar, mas as idéias surgiam na sua mente. Será mesmo que odiava Ian? Será que viver novamente ao lado dele não a faria voltar a sentir o mesmo carinho e amor que sentira antes? Mas como perdoar o que ele lhe fez?

-Mairi... – Allan a chamou.

Ela encarou o amigo e sentiu vontade de bater nele. Mas reconhecia que sua intenção era a melhor possível.

-Precisamos entrar.

Eles dirigiram-se ao prédio. Allan entrou primeiro e abriu espaço para Mairi passar. Ela pensou que fosse sentir um ódio mortal ou um medo descontrolado quando olhasse Ian, mas vê-lo levantar-se de um banco, a fez notar que ali na sua frente estava apenas um homem e não um monstro como sua imaginação criou.

-Mairi... – o ouviu chamá-la baixo.

Allan a levou até próximo a ele.

-Quero que saiba que eu jamais concordaria com essa loucura se não fosse pela criança. –ela reagiu fria.

Não lhe dando a chance de responder, ela afastou-se um pouco, tirou a grossa capa que a protegia do frio e a colocou sobre um dos enormes bancos do templo.

Ian mordeu o lábio inferior. Deus, ela estava tão linda quando entrara na igreja. Uma beleza única, incomum. Os cabelos acobreados presos, a pele pálida e a boca convidativa.

“Pare com isso!” ele recriminou-se. O amor deles já tinha chegado ao fim.

Viu ela se afastar para tirar a capa e olhou Allan. O melhor amigo loiro não o encarava.

-Mandei preparar seus aposentos no castelo, Allan... –ele explicou, tentando quebrar o incômodo silêncio.

-Agradeço. – respondeu Allan num murmuro.

Quando Mairi virou-se sem a capa, Ian quase caiu para trás. A barriga dela ainda não estava grande, mas já se percebia que teria um filho. O filho dele! Não merecia essa criança! Que injustiça! Fora um covarde e ganhara um presente. Mas não conseguia deixar de ficar feliz em saber que ela tinha uma parte dele dentro de si.

Quando levantou os olhos, viu que Mairi percebeu sua emoção ao ver-lhe o ventre.

-Vamos acabar logo com isso. –disse Allan, aparentemente bem incomodado.

Um senhor idoso que estava em um canto se aproximou.

-Quem é o noivo?

Allan bem sentiu vontade de gritar que era ele que merecia se casar com ela. Que ele a amaria e que dele, ela nunca precisaria temer nada, mas apenas afastou-se. Ian e Mairi ficaram lado a lado ouvindo o sermão que se iniciava. Os dois estavam com o pensamento longe. Ele na criança, ela no terror que podia ser sua vida dali a diante.

-Mairi...

Ela levantou os olhos para o pastor. Percebeu que ele havia falado com ela.

-Aceita este homem como seu legítimo esposo e promete amá-lo e respeitá-lo, na saúde e na doença, na riqueza ou na pobreza até que a morte os separe?

Por alguns segundos ela pensou em dizer não. Mas então colocou as mãos sobre o ventre dilatado.

-Aceito.

Ouviu Ian respirar aliviado do seu lado. Teve que reprimir um riso. Então o arrogante Lord Ian McGreggor sentia medo de ser abandonado no altar? Temia que uma simples empregada órfã o recusasse?

Ian também repetiu os mesmos votos e após trocarem alianças, Ian deu-lhe um beijo na testa.

O contato foi assustador para ela, mas não recuou. Não era mais a menina boba que um dia lia romances com ele. Aquela Mairi morreu.

Os contratos foram assinados e os três saíram da paróquia para o vento frio da manhã.

-Como vieram? –ele perguntou a Allan.

-Com um coche de aluguel. Sabíamos que você teria uma carruagem aqui para após a cerimônia.

Pareciam três estranhos, quando, no entanto tinham sido os melhores amigos. Era uma situação terrível e desafiadora. Ian sabia que teria que lutar muito para recuperar o respeito e admiração do melhor amigo e de Mairi, sua esposa.

Esposa...

Estendeu a mão e a ajudou a subir na carruagem. Depois Allan entrou e sentou-se do lado dela. Ian ficou na frente dos dois.

O coche era um veículo fechado, muito bem aquecido com tecido de camurça e veludo, e também bastante espaçoso. O cocheiro ficava em um banco na parte da frente e não tinha nenhum contato com os passageiros.

A viagem transcorreu tranqüilamente. Os três em total silêncio, sem nenhuma provocação. Mas será que seria assim no castelo? Por quanto tempo essa paz reinaria?


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XV

Por Josiane Veiga

O castelo de York emergia bravamente entre as frondosas árvores, mostrando-se capaz de resistir ao tempo e espaço. Era grande, belo, imponente, mas muito assustador. Mairi, felizmente, não temia a mais nada, muito menos aos fantasmas que se escondiam nas sobras por entre os corredores.

Ela sentiu-se emocionada ao avistar o palácio. Fora ali que vivera toda a sua vida e foi ali que descobrira o amor. Olhou pela janela do coque e distinguiu o jardim que adornava as laterais do castelo, se surpreendendo ao permitir que a imaginação a levasse até a árvore que presenciara o seu primeiro beijo.

E foi um primeiro beijo lindo.

“Pena que a pessoa beijada não o merecesse”, ela pensou olhando o homem a sua frente.

Por um momento os olhos de Ian a encontraram. Mediram-se, testaram-se. Mas ele logo recuou, abaixando a cabeça. Ela ainda o observou por alguns momentos, (tempo suficiente para perceber que ele parecia envergonhado em sua presença), mas logo também mudou de direção, olhando novamente pela janela.

Sentiu uma mão quente sobre a sua. Allan anunciava que estava presente, que não a deixaria sobre o poder de Ian. Eles apertaram-se os dedos mutuamente por alguns segundos, num gesto mudo de força, mas logo afastaram as mãos, tentando evitar qualquer situação constrangedora que poderia acontecer.

-Chegamos...

A voz de Ian estava baixa e tensa. Ele não pode evitar ver o casal a sua frente trocando um ato de total cumplicidade. Allan e Mairi pareciam companheiros e isso o deixava possesso de raiva e ciúme. Ciúme? Ele não tinha esse direito. Quando ela lhe era fiel e totalmente leal, lhe atacara com a maior brutalidade que um homem pode ter para com uma mulher. Agora recebia sua recompensa pela maldade.

Naquele momento Ian percebeu que nada é sem retorno.

Ele saiu do coche e estendeu a mão a Mairi. Achou que ela pudesse se negar a receber ajuda, mas viu que agora a moça tinha uma segurança desafiadora. Encostou a mão sobre a dele, apoiando-se e saiu do coche. Mairi não recuava. Ela o enfrentava de frente, como se louca para vencê-lo. Fora assim na igreja. Seria assim para sempre em suas vidas?

-Não mudou nada... –ela balbuciou referindo-se ao castelo.

-Na verdade, mudou sim. – Ian disse devagar.

Havia mudado tudo! Ela voltara. Mesmo que nunca mais lhe perdoasse e agisse como a antiga Mairi que ele beijava secretamente pelos corredores, com quem ele trocava livros e com quem conversava sobre os mais diversos assuntos, Ian já era grato apenas por tê-la por perto.

Eles caminharam em direção a porta principal. James, o reservado e útil mordomo a abriu e não pode evitar arregalar os olhos ao notar quem passava pela porta. Eram uma comitiva no mínimo estranha: Ian, um Lord amargurado, Allan, o amigo que não era mais amigo e Mairi, a antiga empregada.

-Como vai, Sr. James?

Ele sorriu. Mairi estava muito bem. A pele estava rosada e havia ganhado um pouco de peso. Antes a moça era tão magra que dava dó. Ele quase a abraçou de emoção, mas então notou as roupas, simples, mas obviamente caras e a capa de veludo que nunca poderia ser comprado por uma moça que limpa o chão.

-Mairi... –ele balbuciou.

-James, solicite que alguns empregados peguem a bagagem da Milady e do Sr. Hatton e coloquem nos quartos que eu pedi que fossem preparados.

O velho olhou para fora e viu que a carruagem tinha malas no seu teto. Mas onde estava a Milady? Logo percebera o que aconteceu.

-Milady? –ele perguntou a jovem.

-Sim, James.

-Mas...

Ela fez um gesto com a cabeça demonstrando que não continuasse a indagação. Mairi estava esgotada, física e psicologicamente e não queria explicar nada agora. Mais tarde ela falaria com o amável senhor James.

Caminhando em direção ao porão, ela estancou de repente. Não mais moraria no quartinho ao lado da parte baixa da casa. Agora era a esposa do dono. Mas nunca aceitaria dormir no quarto de Ian.

-Onde irei dormir?

Ian a encarou.

-Me acompanhe.

Mesmo não sendo convidado, Allan, que estava quieto desde que saíra da igreja, foi atrás dos dois. Subiram as escadas e entraram no corredor em direção ao quarto principal, que era ocupado pelo moreno.

Mas passaram a porta do quarto de Ian.

A próxima porta era do quarto conjugado, que foi aberta. Os três entraram e Ian abriu as janelas. Seria o quarto usado por Eleanor se a mesma não tivesse sido brutalmente assassinada.

-Você preparou o mesmo de sempre para mim? –Allan perguntou.

-Não – respondeu Ian e deixando obvio que permitia que o loiro ficasse próximo a Mairi, disse – o seu fica de frente a esse. Venha comigo...

Os dois homens saíram do quarto e a deixaram sozinha. Mairi se aproximou da cama e sentou-se. Respirou fundo. Acostumaria-se a viver ali novamente? Acariciando o ventre ela pensou que pelo menos o filho ou filha teria um lugar para ter infância. Os gramados eram vastos, a planície próxima era segura e o lago calmo. Um lugar perfeito para uma criança. Pena que ela própria não pudera usufruir daquele paraíso.

Ainda pensava nisso quando Ian entrou no quarto. Ela assustou-se e imagens da ultima vez em que estiveram sozinhos veio a sua mente. Segurou a língua para não gritar.

-O que quer? – ela perguntou tentando aparentar frieza, mas afastando-se da cama e indo em direção ao lado oposto.

Ele a observou por alguns segundos e foi a porta de ligação. A abriu.

-Esta porta liga nossos quartos. Como casados não é de admirar que eu tivesse que lhe colocar num quarto conjugado. Mas não se preocupe...

Ian não terminou a frase. Caminhou em direção a ela e a viu dar um passo atrás, como se o temesse. Tentou se controlar. Se fosse mais jovem, com certeza choraria de desespero. Mairi, a mulher que ele amava não conseguia nem ficar sozinha do seu lado sem sentir vontade de sair correndo.

Então ele lhe estendeu uma chave. Ela assumiu uma postura interrogativa.

-Esta é a chave da porta de ligação. Ficará com você. Nunca abrirei essa porta Mairi, é você que fará, se algum dia, quiser.

-Nunca hei de querer.

-Mesmo assim, fique com ela.

Rapidamente, ela a pegou.

-Vou ficar. Mas não é para abrir a porta e sim para deixá-la trancada perpetuamente.

Molhando o lábio inferior com a língua, Ian não retrucou. Curvando-se em reverência, ele saiu pela porta que ligava seu quarto ao dela. Mairi correu atrás e fechou a porta com força, passando a chave. Logo depois, ela puxou uma mesa de centro de madeira contra a porta.

Sua mente estava dominada pelo pavor. Se parasse para raciocinar perceberia que Ian nada faria, mas precisava da precaução. Se ele quisesse usar aquela porta, a fechadura o deteria, e se mesmo assim ele conseguisse passar, a mesa seria um bom obstáculo.

Daria tempo de gritar por Allan... se necessário fosse.

ºººººººº

Ian ouviu o barulho do móvel ser arrastado. Encostou a cabeça na porta e fechou os olhos. Merecia aquilo! Então porque a magoa? Estava casado com a mulher que ele amava, há algumas horas e sua lua de mel era ouvir ela colocar barreiras entre eles.

Tentou se conformar. Assim seria sua vida. Mas ali há alguns meses teria um filho e esse filho seria o motivo de sua existência. O amaria mais que a própria vida. Esta criança lhe daria o conforto.

Uma batida na porta do corredor o puxou do torpor dos pensamentos. Virou-se, foi até ela e abriu.

-Sim? – perguntou a James

-Milord, o senhor Morris se encontra na ante-sala.

Steph Morris, o investigador, se encontrava novamente em sua casa? Traria alguma novidade?

-Leve-o até o escritório. Desço em seguida.

Fechou a porta e olhou o quarto, mas nada via. Estava com os pensamentos em outro lugar. Seu filho! Precisava provar sua inocência para viver ao lado daquela criança.

Pouco depois desceu as escadas e foi ao encontro de Morris. O encontrou sentado em uma cadeira, pequena demais para o homem grande.

-Morris. – chamou.

O outro se levantou e trocaram cumprimentos. Ian sentou-se em sua frente.

-Achei que houvesse esquecido de meu caso. Já faz um certo tempo desde que nos vimos pela ultima vez.

-É verdade Lord, mas garanto que estive fazendo minhas investigações. Aliais, aluguei uma casa próximo ao castelo para poder continuar a procurar pistas.

-Fico feliz de lhe ter como vizinho, mas não creio que achara algo por aqui. Nossa única pista é o maldito colar.

Morris não falou das provas que conseguiu que podiam incriminar seu principal suspeito. Isso seria antiético e também não queria acusar ninguém sem ter certeza. Mas o caso chegava próximo ao final. Ele tinha certeza.

-Bem Ian, eu só vim para lhe avisar que estou por perto. Espero sua autorização para andar pelas suas terras.

-Fique a vontade Steph. Espero que ache algo.

Os dois cumprimentaram-se novamente, agora em tom de despedida e Ian foi acompanhando Steph até a porta.

Mas os dois homens pararam ao chegarem próximo a saída do castelo. Mairi estava descendo as escadas. Ela havia tirado a roupa de viagem e se mostrava agora com um vestido de lã quente, mas que lhe evidenciava o ventre.

-Senhora... – Steph a cumprimentou fazendo uma reverência.

Ele ficou fascinado. Ela não era linda, mas tinha uma beleza exótica que chamava demais a atenção. Os cabelos presos eram de um tom escuro e o corpo era magro, apesar de ela estar grávida. Dois ou três meses, calculou o investigador. Mas o que mais se notava sobre ela eram os olhos. Os cílios eram excessivamente negros, como carvão e os olhos claros, num tom próximo ao mar. Um contraste maravilhoso, encantador.

-Morris, esta é minha esposa, Mairi. Mairi, este é Steph Morris, ele esta investigando o assassinato da falecida Eleanor.

Esposa? Bom, Eleanor já morrera a mais de um ano e com certeza o Lord poderia casar novamente. Mas mesmo assim foi algo chocante, já que Steph não sabia que Ian tinha uma noiva.

-É um prazer conhecê-la.

-O prazer é meu, Sr. Morris.

Era inevitável pensar onde Ian havia encontrado uma beldade daquelas, mas não esboçou nenhuma pergunta. Despediu-se do casal e saiu.

-Alguma novidade sobre o assassino? – perguntou Mairi a Ian quando ficaram sozinhos.

-Ainda não. Mas espero que ele o encontre logo.

-Você tem algum suspeito? – perguntou a mulher o encarando.

-Não, infelizmente.

Ela olhou o chão e depois voltou os olhos novamente a Ian.

-Onde esta Perpetua?

-Não tenho idéia. Saiu, pelo jeito.

-E sua mãe?

Ian franziu a testa. Não havia contado ainda a ela sobre a situação de sua mãe. Qual seria a reação de Mairi?

-Minha mãe não é mais a mesma, Mairi. – ele começou, medindo as palavras.

-Por quê? Ela virou bondosa, de repente?

Mairi falava inflamada pela magoa da humilhação que já fora exposta.

-Ela está louca. Tivemos que prende-la em seu quarto.

Mairi se arrependeu no ato pela amargura da voz. Não desejava mal a Dorothea, mesmo depois de tudo que passou nas mãos dela. Sentiu pena de Ian. Uma vontade de consolá-lo, encostar sua mão no ombro dele e dizer que lamentava. Mas não podia. Limitou-se a inclinar a cabeça para baixo e pronunciar:

-Sinto muito.

Foi quase um murmuro, mas ele se sentiu feliz por ela pelo menos não o odiar a tal ponto de desejar o mal para sua mãe. Mairi era uma grande mulher.

-Com licença – ela falou afastando-se.

Ele a viu sumir em direção a cozinha. Não foi atrás. Ela precisava de espaço.

Mairi só cruzou pela cozinha, pois foi mesmo em direção a ala que se aproximava do porão, onde ficavam os quartos dos empregados. O mais pequeno e frio fora ocupado por ela num passado já longínquo. Quando se aproximou da porta, sentiu uma estranha sensação de tristeza.

Abriu a porta e um rajado frio chocou-se contra seu rosto. O quarto continuava o mesmo. Ela entrou e fechou a porta. A cama de palha, o armarinho onde guardava seus parcos pertences e o pequeno tapete feito com tecidos velhos continuavam no mesmo lugar. Já fazia quase um ano que ela deixara a casa, mas pareciam poucos dias.

Caminhando até a cama, ela acariciou o colchão lentamente e sorriu ao pensar que aquela vida pobre pelo menos era calma. Nada é pior que a falta de paz, ela meditou.

Puxando o colchão para cima, ela encontrou o que fora buscar.

“Ivanhoé”

O livro de capa escura e grossa, dado por Ian no primeiro encontro com ele, e seu único bem, estava no mesmo lugar onde ela havia deixado. Relembrou quando foi expulsa da casa e pensara que não teria onde guardar o romance, portanto deixaria escondido embaixo do colchão. Deslizou os dedos pela capa e indagou a si mesma o porque de estar lá pegando aquele livro.

-Scott não tem culpa pelo que Ian fez... –ela filosofou sorrindo.

Aquele livro era importante demais para ela. Guardaria para sempre. Foi até o armário e pegou um pedaço de pano, o enrolou. O levaria escondido até seu aposento. Manteria Wilfred, Rebecca e Rowena , os personagens do clássico, bem a salvo de curiosos, no fundo do roupeiro.

Foi até a porta e a abriu. Estava saindo quando se chocou contra alguém. Gritou de susto. E agora? Descobririam seu tesouro?


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XVI

Por Josiane Veiga

Perpetua voltara do vilarejo de York afobada. Logo que se aproximara do castelo, avistou ao longe a carruagem de Milord Ian, e como não gostava que o seu patrão soubesse que ela tinha uma vida pessoal, tentou se apressar antes que ele notasse sua ausência da mansão.

Incitando os cavalos, ela parou a carroça próxima à entrada dos empregados. Chamou um dos meninos que cuidava das baias para recolher os animais e correu para a cozinha. Respirando com mais calma ela começou a arrumar o chá para levar até onde estava Ian, demonstrando eficiência, mas um barulho vindo da ala dos empregados chamou sua atenção.

Já fazia quase um ano que somente ela e o velho mordomo usavam aquela ala. Os outros empregados moravam em casas localizadas nas terras do duque e a jovem órfã que dormia no quartinho próximo ao porão já havia ido embora há algum tempo.

O que James fazia lá àquela hora? Louca para dar uma reprimenda no mordomo, ela foi à direção dos quartos frios. Mas não podia ser o mordomo que revirava algo, pois o som vinha do quarto que fora abandonado. Pegando uma tora de madeira, ela esperou que o visitante saísse do aposento. O ladrãozinho iria ver uma coisa!

Quando a porta se abriu, ela ainda levantou a madeira. Mas logo a baixou.

-Mairi!

Perpetua tomou um grande susto ao ver a menina que viu crescer saindo do quarto. Era a empregada sem família, que se criou na cozinha com ela e que fora embora expulsa do castelo pela Lady Dorothea sem ter para onde ir, que vasculhava seu antigo dormitório.

-Senhora Perpetua. Fico feliz em lhe ver.

A jovem sentiu os dedos formigarem com o livro na mão, lutando para aparentar calma.

-Você voltou?

A pergunta era boba e Mairi até sentiu vontade de rir. Por acaso a governanta pensava que ela era um fantasma?

-Sim... – disse sorrindo.

Mas a reação da governanta não foi bem o que ela esperava. Ao invés que sorrir e lhe abraçar, a mulher parecia nervosa e preocupada.

-Filha, por que voltou?

O tom era maternal, era bondoso, mas algo estava estranho. Perpetua sabia que Mairi não tinha para onde ir, portanto o lógico não era ela ficar aliviada pela moça, que agora tinha um teto?

-Voltei porque me casei, senhora.

-Casou-se?

-Sim, com Lord Ian.

Perpetua sentiu-se como se os pés tivessem abandonado o chão, e ela agora flutuava pelo sombrio corredor. Baixou os olhos e notou o ventre proeminente da moça.

-Ele violentou você, não é?

Mairi tomou um susto. Como ela sabia? A afirmação foi feita com tamanha segurança que por um momento, a ex-empregada sentiu como se Perpetua tivesse presenciado tudo.

-Não... –ela mentiu numa estranha tentativa de defender Ian.

Ou a si mesma...

Era vergonhoso que as outras pessoas soubessem o porquê dela se encontrar naquele estado. Já bastavam aqueles que diretamente viveram sua tortura: Allan, Emily, Ian e ela própria.

-Não – ela repetiu tentando sorrir - a senhora sabe que nós nos amamos... – ela completou, numa mentira descarada.

-O que sei é que Milord saiu do castelo odiando você, voltou amargurado, como se tivesse cometido o pior dos pecados e agora você surge na minha frente grávida e recém casada. Sou apenas uma governanta, mas não sou simplória, Mairi.

Os olhos da moça se encheram de lágrimas, mas ela as segurou. Chorar já havia sido algo que fizera muito na vida, mas não queria lamentar mais o que já não tinha volta.

-O que importa é que ele se casou comigo e reparou seu mal...

O que estava dizendo? Por que de repente se importava em defender a honra daquele homem? Por que não queria que Perpetua pensasse que Ian era um desgraçado, se era exatamente isso que ele era?

-Não sabe o que diz, criança – disse Perpetua devagar.

O clima entre elas ficou tenso. Mairi sentiu que os pêlos do braço se arrepiavam.

-Está frio aqui. Vou subir. Com licença – ela disse a governanta.

Perpetua lhe abriu passagem.

Sentiu-se tola por quase correr até o corredor que levava a cozinha. Do nada, ela sentiu um medo angustiante. Algo estava errado. Muito errado.

ººººººººººº

Alguns dias depois...

Victoria Webster ouviu o vaso chinês caríssimo, que ficava exposto em um belo móvel no centro de sua sala, espatifando-se. Os gritos de Annie a encontraram. Assustada ela saiu correndo.

O eficiente mordomo, como se prevendo sua chegada, abriu a porta da sala de visitas. A distinta Lady ficou chocada ao ver sua preciosa e doce filha atirando todos os adornos de porcelana no piso.

-Annie Webster, o que pensa que esta fazendo?

A moça olhou a mãe tremendo de ódio. Por algum momento, Victoria pensou que sua menina havia enlouquecido.

-Mãe! A culpa é sua! Sua!

-Do que esta falando?

A loira puxou um pedaço de papel e mostrou a Lady.

-Sabe o que é isso?

-Não tenho idéia. Mas gostaria muito que você me dissesse.

-É uma carta de Perpetua.

-De quem?

-Da governanta dos McGreggor! – ela esbravejou.

Victoria puxou o leque e começou a se abanar, como se estivesse quente, em pleno inverno.

-E o que tem isso, Annie?

-Ian se casou! – ela gritou com todas as forças.

Victoria sentou-se numa atitude de tal dramaticidade que parecia algo teatral. Encarou a filha com os olhos arregalados, não sabendo o que dizer.

-Não é possível – ela murmurou.

-É possível sim! Eu pedi a senhora para ir até York, mas negou-me a viagem. E por causa disso perdi a chance de conquistar Ian.

-Não seja tola! O que faria em York como visita, agora que Dorothea enlouqueceu?

-Eu poderia mentir dizendo que estava doente, que precisava do ar do campo, recomendações médicas, o que for! Poderia inventar mil e um motivos para ficar em York e ter a chance de fazer Ian perceber que eu sou a pessoa certa para ele! Mas a senhora me impediu! E agora? O que farei? Não posso viver sem ele!

Victoria ergueu as sobrancelhas perfeitas duvidando muito daquele amor que sua filha dedicava ao Lord McGreggor. Conhecia Annie perfeitamente para saber que era o dinheiro e posição que sua loira com rosto angelical almejava. Não duvidava que o corpo másculo fosse uma cereja no bolo para Annie, mas ela nunca se apaixonaria de verdade.

-Você irrita-se com muita facilidade. Para tudo há solução!

-Casamentos não são anuláveis facilmente, mamãe. E eu jamais poderia me casar com um homem divorciado! –ela começou a chorar.

-Annie Webster! Recomponha-se!

A filha percebendo o estado em que se encontrava, sentou-se em frente à mãe.

-Há algum tempo atrás, você também gritava de ódio por causa do casamento de Ian com Eleanor- recordou Victoria – e não ocorreu uma solução? O que impede de a nova esposa de Ian também vir a falecer?

Annie estremeceu.

-Acha que eu teria tanta sorte?

-Tenho certeza. – respondeu ela segurando a mão de sua adorável filha.

ººººººººººº

Ian retornara mais tarde que de costume.

Mairi abriu os olhos e ouviu o barulho vindo do quarto dele. Os passos mostravam que ele ia até o aposento do banho. Como trabalhara muito tempo em York, sabia que todos os Lords homens que ali viveram se banhavam a noite, para desespero dos empregados que precisavam trabalhar até mais tarde. Ouviu mais passos. Provavelmente os servos trouxeram a água, despejaram na tina e saíram de lá. Imaginou Ian tirando a roupa e entrando na água.

“Pare com isso, sua tola” – ordenou a si mesma.

Deitada na cama, ela pensou que o casamento até que não era de todo mal. Nesta última semana, mal vira Ian. Ele levantava-se cedo, tomava o café da manhã antes dela e de Allan, e saia pela propriedade. Só voltava quando todos já estavam deitados.

E então a imaginação dela começava a trabalhar.

Cada noite era igual. Ela fantasiava o ritual que ele realizava para tomar banho e recriminava-se pela infantilidade. Mas mesmo as auto reprimendas não a impediam de visualizar ele molhado, deslizando o sabonete de lilás pela pele morena, a espuma cobrindo os negros pêlos do peito e o cheiro de homem invadindo o quarto.

Pouco tempo depois ouviu mais um barulho. Ele devia estar se secando. Do nada sentiu um desejo enorme de vê-lo naquele ato íntimo.

Burra, burra, burra!!”

Mas não conseguia evitar fechar os olhos e imaginar o corpo musculoso dele sendo esfregado pela toalha. Ian sempre teve a musculatura firme, os ombros avantajados, e o tórax definido.

Quando namoravam, ela uma vez lhe tocara a barriga. Queria saber se era tão firme quando aparentava e estranhamente sentiu que ele adorou aquele atrevimento. Realmente, o corpo dele parecia de aço... E ela sentiu bem como o aço machucava no dia mais tenebroso de sua vida, quando ele lhe tomara a força.

Lembrar-se disso fez com que a raiva que sentia, voltasse. Mas estranhamente, não com a mesma intensidade. Assustada, percebeu que realmente o ódio por ele estava diminuindo, dando lugar a um desejo estranho, algo que ela nunca sentira antes.

Jogando as cobertas para longe, Mairi se levantou. Pelo pequeno vão debaixo da porta de ligação percebeu que havia luz no quarto dele. Aproximando-se da porta, pensou onde havia deixado a chave.Então a lucidez voltou! Estava louca! Como se permitia imaginar abrindo aquela porta, e ir ter com ele? Era seu marido, mas aquilo que viviam era um casamento de mentira, destinado ao terrível fracasso.

Sem pensar, ela correu na outra direção, abriu sua porta do corredor e foi até a porta de Allan. Que sorte! Estava aberta.

-Allan...

O loiro dormia tranqüilamente, mas abriu os olhos imediatamente ao ouvir seu nome.

-Mairi, o que houve?

-Me tira daqui Allan... – ela disse fechando a porta do quarto e indo se sentar na cama do advogado.

-Por quê? O que aconteceu? Ian tentou algo?

-Não Allan, ele não tentou... Mas não posso viver aqui. Tenho medo...

Allan começou a rir e esfregou os olhos.

-Estou com sono Mairi. Não vai começar a acreditar em fantasmas agora, não é?

-Não seja idiota! –ela ralhou - não é de fantasmas que tenho temor! Tenho medo de Ian!

Sorrindo ele lhe puxou levemente e fez com que ela se deitasse do seu lado, a abraçando.

-Fique tranqüila. Ian já fez algo horrível com você, mas foi um ato isolado. Ele nunca mais fará nada de mal.

Por alguns segundos houve silêncio entre eles. Allan fechou os olhos certos de que convencera aquela teimosa.

-Allan...

A voz dela estava longe...

-Eu ainda amo Ian... –ela reconheceu.

Novamente ele abriu os olhos e a encarou incrédulo.

-Tem certeza?

-Não. Não tenho certeza de mais nada. O odeio pelo que ele fez comigo. Sinto o sangue ferver ao me lembrar que ele me tomou como um animal, que ele me acusou de coisas que não ouso pronunciar... mas também sinto algo muito forte... não sei o que fazer...

Allan tocou o rosto dela com a ponta dos dedos. A relação de fraternidade entre eles havia sido abalada pelo beijo que trocaram na última vez que estiveram em Londres, mas a confissão de Mairi fazia tudo voltar a ser como era antes.

Num misto de surpresa e gratidão, Allan percebeu que estava aliviado.

-Dê tempo ao tempo, minha amada... –ele disse baixo fechando os olhos novamente.

Mairi continuou olhando para ele esperando que Allan abrisse os olhos. O que não aconteceu.

-Não acredito que vai dormir quando eu quero tanto conversar.

Ele riu, mas não abriu os olhos.

-Allan Hatton – ela disse, dando-lhe um safanão no braço.

Nada. Ela sabia que ele estava acordado porque se mexia com as risadas travadas. Pegando um travesseiro, começou a bater nele com o objeto macio.

Mal se deu conta quando começou a gargalhar. Allan abriu os olhos e começou a revidar os golpes com o travesseiro. Bateram-se até cansar. Então Mairi saiu da cama e foi à porta.

-Boa noite, Allan Hatton! Nunca mais falo com você! –disse brincando.

-Restrinja este comentário à hora do meu precioso sono. –ele rebateu exausto e sorrindo. – agora me dê um beijo e suma do meu quarto, antes que o mordomo de Ian ache que estamos fazendo alguma coisa errada.

Ela tapou a boca com a mão tentando segurar o riso, ao imaginar James escutando atrás da porta, mas correu até ele, beijou-lhe a bochecha e saiu.

O exercício pelo menos lhe aliviou a alma, e cansada, ela logo adormeceu.

ººººººººººº

Ian retornara de mais um dia exaustivo de trabalho. Percorreu toda sua terra, falou com os arrendatários e planejou uma reforma na escola do condado. Precisava se manter ativo e totalmente ocupado, para não correr o risco de invadir o quarto da mulher que dormia ao seu lado, beijar-lhe e lhe fazer amor...

Depois do banho, ele vestiu o roupão e sentou-se com um livro nas mãos. Estava se preparando para começar a leitura quando ouviu um barulho. A porta do quarto de Mairi se abriu.

Ian saltou da própria cama e nervoso ele foi até a sua própria porta, espiando por uma fresta, a viu cruzando o corredor e entrando sem bater no quarto de Allan.

Eram amantes?

Não! Já desgraçara sua vida duvidando deles, e não podia cometer o mesmo erro novamente. Mairi e Allan ficaram meses sozinhos em Londres e com certeza eram muito amigos. Mas o que uma mulher casada ia fazer a noite no quarto de um homem solteiro? Não importava. Allan era um homem de caráter e Mairi era honesta! Confiava nisso!

Fechou sua porta, caminhou até a cama, mas logo se viu no corredor.

Seguro morreu de velho”, ele pensou tentando se desculpar.

Colou o ouvido à porta de Allan, e tentou escutar o que conversavam.

Eu ainda amo Ian...” – ele ouviu dito num tom firme, mas angustiado.

Era Mairi. Deus, ela o amava! Ela ainda sentia por ele o mesmo que sentia anteriormente? A resposta dela dita mais tarde, falando de sua duvida deixou claro para ele que o sentimento não era mais igual, mas algo ainda existia.

Existia uma chance para ele!

Percebendo que parara de ouviu após a confissão dela ao melhor amigo, colou novamente o ouvido na porta. Risadas e o som de algo se chocando fizeram o ambiente. Mairi e Allan estavam brincando! Era possível? Dois adultos, uma mulher linda e um homem jovem! Num quarto, completamente sozinhos brincavam despreocupadamente sem nenhuma malícia.

Realmente, aqueles dois eram pessoas fora do comum!

Ian quase riu com o pensamento, mas com medo de ser pego em flagrante voltou para seu próprio quarto. Mal havia fechado sua porta e percebeu que Mairi novamente cruzava o corredor.

Correndo levemente até a porta de ligação, ele a ouviu deitar-se na cama de molas e todo som cessou.

Ela dormira!

E ela o amava!

Se ele pudesse gritar de felicidade ele assim o faria! Que mulher abnegada que ainda o perdoava quando não havia mais esperanças de uma desculpa!

Bem, na verdade Mairi ainda não havia lhe perdoado, mas já admitira que ainda sentisse amor por ele. Isso já era um começo. Ele poderia voltar a ter a confiança dela novamente e de quebra, ainda reconquistar a amizade de Allan. Mas Ian precisaria fazer tudo direito. Sem conseguir dormir mais ele deitou-se na cama e ficou planejando o que faria a partir do dia seguinte.

ººººººººººº

Allan serviu-se de café e pegou um pedaço de pão, colocando-o no prato.

-Leite, senhor?

Uma jovem e risonha empregada o auxiliava na difícil tarefa de comer. Ele estava achando tudo muito divertido. A moça parecia apaixonada e jogava todo o charme que achava ser possível para o advogado, mas não conseguia mais que um olhar dele.

-Não, obrigado. Não bebo leite.

Ela iria se desculpar quando Perpetua entrou na sala. Despachando a infeliz rapidamente ela postou-se ao lado da mesa.

-Lamento Sr. Hatton por essa sonsa estar atrapalhando seu café da manhã. –disse ríspida, deixando claro que nem ligava se Allan se sentia bem ou não.

-Ora, não estava, Sra. Perpetua. É muito divertido ter uma carne jovem por perto. Meche com o libido de um homem.

A resposta maliciosa e mordaz a chocou. Ela arregalou os olhos e pediu licença para buscar os frios.

Uma mulher saia, e outra entrava. Mairi cruzou com Perpetua na porta, a cumprimentou, mas não recebeu mais que um murmuro de resposta.

-Ficou maluco ao dizer aquilo para a Sra. Perpetua, Allan? – ela disse assim que se sentou à mesa.

-Oh, então anda ouvindo atrás da porta, Milady? – ele respondeu rindo.

-Cheguei na hora que trocavam delicadas farpas.

-Não se preocupe. Ela não deve nem saber o que é um libido de homem.

-Por que diz isso? Perpetua é uma mulher bonita. Tenho certeza que um dia algum homem já a desejou.

Allan fez uma careta.

-Você anda muito atrevida. Olha só o que fala pra mim!

-Ora, desculpe se o ofendi demonstrando que tenho conhecimento, pelo menos teórico, nos anseios masculinos.

-Não, não é nisso que me ofende! Na verdade, me senti insultado por ter insinuado que um macho pode sentir alguma vontade de coabitar com aquele tipo de mulher.

Mairi atirou o guardanapo nele com força, Allan gargalhou.

-Estou brincando. Não sou o tipo de homem que me sinto atraído apenas pela aparência. Mas Perpetua é quase sombria. Ela dá medo.

Mairi então baixou os olhos para o colo, estranhamente triste.

-Ela me criou. Bom... Não foi como uma mãe, pois nunca me deu amor. Mas me educou, cuidou de mim quando eu ficava doente. Enfim, sinto carinho por ela. E percebo que ela é assim, porque algo em sua vida aconteceu. Talvez uma dor inexplicável.

-Será que ela já foi casada?

Ela não respondeu. Ian entrou na sala com os cabelos molhados e o cheirando a sabonete. Tanto Allan quanto Mairi se surpreenderam ao vê-lo entrando. Ele nunca tomava café com os dois.

-Bom dia. –ele os cumprimentou tranqüilamente.

Mairi olhou para Allan, e os dois responderam acanhados ao cumprimento. Por alguns momentos, houve silêncio total. Apenas o som do vento que batia na janela se fazia ouvir. Mas Allan Hatton detestava momentos assim, então logo puxou assunto.

-Mas há que demos a sua presença iluminada nas trevas de nossas míseras vidinhas? – ele perguntou a Ian que sorriu.

-Dormi muito tarde e perdi a hora. Mas não achem que eu não dividia a mesa com vocês por falta de vontade, era apenas por falta de tempo.

Virando o rosto, olhou Mairi e surpreso a viu manejando os talheres com destreza.

-Eu a ensinei. – disse Allan.

Ian enrubesceu na hora. Como Hatton podia sempre adivinhar seus pensamentos?

-Sim, Allan me ensinou a me portar na mesa, Ian. Então não precisa temer que eu vá comer com as mãos, atirar os pratos na sua cabeça ou subir em cima da mesa e dançar.

Agora essa! Os dois ficavam cada vez mais iguais nas piadinhas.

-Ora, seria muito interessante lhe ver dançando em cima da mesa. – flertou descaradamente Allan.

Para surpresa de ambos, Ian começou a rir. Se não tivesse ouvido a conversa da noite anterior talvez, ficaria possesso de ciúme, mas sabendo o que Mairi sentia por ele e conhecendo o tipo de relacionamento que ela e Allan viviam, ele adquiriu uma óbvia confiança.

O silêncio voltou a reinar, mas agora de maneira mais amena e calma. Comeram tranqüilamente, mas antes de se levantar, Ian perguntou a Allan:

-Soube que Steph Morris está em York?

-Morris aqui?

-Ele esta investigando o assassinato de Eleanor.

-Sim, eu sei. Esperamos que encontre algo.

A reação de Allan foi quase imperceptível, mas Mairi percebeu algo errado. Ele parecia incomodado.

-O que houve, Allan? – ela perguntou.

Ele a encarou.

-É este Morris. Por algum motivo, que desconheço no momento, ele não me suporta.

-Nunca percebi isso em Londres – retrucou Ian.

-Você não percebeu muitas coisas em Londres. – Allan se dirigiu ao irmão mais novo com o tom de voz carregado de segundas intenções.

O clima voltou a ficar tenso entre eles. Mas foi Allan que novamente quebrou o gelo.

-Perdoe-me Ian. Perdi o controle.

O loiro parecia sincero e Ian voltou a sorrir.

-Não se preocupe Allan.

Mairi então colocou o guardanapo em cima da mesa e se levantou. Sentiu os dois pares de olhos em cima de si, e apenas arqueou as sobrancelhas explicando:

-Bom, os senhores me dão licença, pois tenho trabalho a fazer.

-Trabalho? – perguntou Ian.

Ele quase se levantou e explicou a ela que não admitia que sua mulher trabalhasse. Mas antes de abrir a boca, ela despejou:

-Sim, vou cuidar da sua mãe.

E saiu deixando os dois incrédulos, se encarando na sala.


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XVII

Por Josiane Veiga

-Faça alguma coisa! – ordenou Ian sério.

Allan cortou uma fruta qualquer no prato, como se estivesse brincando, e após algum tempo, que mais parecia uma eternidade para Ian, ele retrucou:

-Se você supõe que eu tenho a capacidade de ordenar algo a sua esposa, lamento lhe informar, mas o contrario acontece. Mairi tem um prazer impressionante em me contrariar.

Ian observou a cadeira vazia, posta à frente da mesa do café da manhã onde Mairi acabara de terminar sua alimentação. Quando ela lhe comunicou que iria cuidar da sua mãe, ele praticamente perdeu a fala. Dorothea havia sido a pessoa que a expulsou da casa, que a humilhou e Mairi se dispunha a cuidar da mulher que tanto mal lhe fizera? Ou ela era muito bondosa, ou excessivamente ingênua.

-Você não entende? Minha mãe está louca! Ela pode ser perigosa. E Mairi esta grávida!

-E?

-Como assim “e”? – Ian fez um gesto com as mãos. – achei que se preocupasse com ela. Não posso exigir nada de Mairi, mas se você for lá e lhe explicar que não é seguro tentar fazer companhia a uma mulher demente, Mairi lhe ouvirá.

-Ian, Mairi não é boba e ao contrário do que você imagina, ela sabe se cuidar.

Mas Allan não convenceu o mais novo. Ian levantou-se e foi até o final da escada. Olhou para cima. Iria enlouquecer de preocupação.

-Calma Ian... – Allan o seguiu – confie em Mairi.

-Tenho medo por ela. Minha mãe diz que vê fantasmas. Da última vez em que parei para conversar com ela, me falou que Eleanor a ordenou que me matasse.

-Por favor! –exclamou Allan irritado - Começou a acreditar em assombração depois de adulto? Tome vergonha!

-Claro que não – esnobou o moreno – mas a demência pode fazer minha mãe fazer qualquer coisa.

-Se te tranqüiliza, ficarei de ouvidos a postos. Mas não me peça para espionar, porque se Mairi perceber, ela me esgana.

Ian esboçou um pequeno sorriso.

-Não acredito no que vejo! Allan Hatton, o famoso advogado, com medo de uma mulher grávida?

-Pra você ver como é a vida.

E os dois sorriram um para o outro.

-Bom, tenho um compromisso com o pastor local. A igreja está precisando urgentemente de reformas e ele me pediu uma audiência.

-Vá tranqüilo.

Os dois se despediram e Ian saiu do castelo.

ººººººººººººº

Mairi parou no corredor e respirou fundo. Pegou as chaves de reserva que lhes foram dadas muito contrariamente por Perpetua e abriu a porta do quarto da mãe de Ian.

Sentindo-se uma boba por estar com medo, ela entrou tentando manter a calma, afinal, a visita a Dorothea não parecia tão assustadora quando fora planejada. Entretanto, para seu alivio, não foi uma prisão escura e triste que encontrou. O quarto estava limpo e as janelas abertas. Era bem iluminado e aquecido. Dorothea estava deitada na cama. Felizmente parece que ela se encontrava em um bom dia, já que tranqüilamente a bela lady lia deitada em sua cama.

-Bom dia Milady. – ela disse calmamente, tentando chamar a atenção para si.

Dorothea levantou os olhos do livro e a encarou. Mediu-a dos pés a cabeça. Percebeu que não podia se tratar de uma empregada pelas roupas que claramente a destacavam como uma Lady. Os modos também eram perfeitos e a postura altiva. Então não a expulsou como fazia com todos os demais.

-Quem é você? Não esperava visitas.

-Me chamo Mairi, Senhora. Não lembra de mim?

-Não – respondeu, jocosa – qual seu sobrenome?

De solteira, ela não tinha. Mas resolveu responder.

-Sou uma McGreggor como à senhora. Sou a esposa de Ian.

Dorothea a olhou espantada.

-Esposa? Como assim esposa?

-Nos casamos há pouco tempo.

Mairi falava tentando demonstrar segurança e paciência, algo imprescindível a uma pessoa que necessita lidar com outra doente, mas estava quase saindo correndo do quarto.

-Mas Ian não pode ter casado.

Mairi se aproximou cautelosamente do leito.

-Ele se casou comigo, senhora. E estou grávida, veja! – disse mostrando o ventre.

-Mas ele já é casado com Eleanor. –ela respondeu ainda incrédula.

Mairi suspirou

-Eleanor morreu há quase dois anos. Sou a nova esposa de Milord.

Dorothea por algum momento sentiu-se duvidosa. Mas resolveu acatar o que a outra dizia.

-Bem, você não é linda como Eleanor, mas aparenta ter mais força. Tem quadris largos, vai ser fácil ter muitos filhos.

Mairi quase riu com o elogio, ou o que parecia ser um. Duvidava que Dorothea aceitasse de tão bom coração seu casamento se soubesse que ela era a mesma empregada que a Lady expulsou do castelo anteriormente.

Ela ainda ficou no quarto um bom tempo, leu para Dorothea e ouviu suas histórias da mocidade, quando aquela mulher fria, ainda tinha sentimentos.

ººººººººººººº

Dias Depois...

-Estou começando a me parecer com um sapo gordo e nojento – esbravejou Mairi, olhando-se no espelho da sala.

-Está linda. A barriga lhe faz muito bem. Depois que ganhar seu filho...

-Filha! –ela cortou Allan.

-Que seja... filha... – aceitou ele rindo e espreguiçando-se na cadeira – depois que parir, devia comer muito, engordar bastante, que vai ficar irresistível.

Os dois estavam na sala de estar, conversando como faziam sempre após o almoço.

-Li num livro que muitos homens preferem as mulheres mais gordinhas mesmo não sendo o ideal estético.

Allan gargalhou e Mairi ficou sem entender.

-Sabe porque? – ele perguntou com os olhos brilhando.

-Não.

Ela respondeu já rindo, porque sabia que Allan tinha alguma resposta maliciosa para lhe dar.

-Elas são melhores amantes – ele esclareceu sorrindo.

-É mesmo? –ela se fingiu de enciumada – como sabe?

-O que eu não sei, minha cara? O mundo se curva a minha sabedoria – disse fazendo graça.

Mairi se abanou com o leque e riu com vontade, e mesmo quando viu Ian entrando na sala com rapidez, o sorriso não morreu em seus lábios. Que estranho! A cada dia que passava a presença dele a incomodava menos. Quase era desejável.

Já havia admitido para Allan que ainda amava o marido, mas não queria aceitar o fato. Voltando os olhos para o espelho, fingiu arrumar um cacho solto do cabelo.

-Estou indo a cidade, Mairi – ele anunciou após cumprimentar Allan com um abano – gostaria de me acompanhar?

Ela virou-se novamente em direção ao marido totalmente surpresa. Não sabia o que dizer, mas era espantoso que ele supunha que ela gostaria de passear na sua presença.

Na verdade, adoraria!

Parecia que uma eternidade havia se passado desde os dias em que caminhavam juntos pelos bosques, namoravam sem preocupações. Mas essa vida feliz havia se perdido nas curvas do passado.

Olhou para Allan e viu seu olhar lhe indicando que ela devia aceitar. Ela já havia percebido que ultimamente o loiro tentava de todas as formas aproxima-la de Ian e mostrar que ele não era um monstro. Mas Mairi podia confiar nele novamente? Sem entender o porque da mente lhe justificar a vontade de estar com Ian, ela imaginou que ele nada mais podia ter dela, já que sua virtude fora desgraçada. Além disso, a barriga lhe deixava horrenda e com certeza homem nenhum lhe acharia atraente.

Estou protegida pela feiúra” – pensou ela divertida.

-Bom, eu gostaria muito de ir até o armazém.

-Ótimo – Ian lhe deu um sorriso arrasador. – aproveite e veja roupas para nossa filha.

“Nossa filha...” ela fraquejou. Era tão sedutor ele lhe falar aquilo e ela sentiu-se estremecer. Molhou os lábios com a língua tentando pensar em algo, mas para sua sorte, Allan cortou o silêncio:

-Será homem! – profetizou.

-Allan, você mesmo dizia que seria mulher – ela lhe retrucou sorrindo. – agora pouco concordou comigo quando eu falei que era menina.

-Não concordei. Apenas aceitei seu pensamento. Mas resolvi que devo contar a vocês o sexo da criança para que não fiquem chamando o menino de menina.

-E como você sabe que será um garoto? – indagou Ian divertido.

-Eu sonhei que era um menino. – ele disse levantando-se. – e será um belo garoto com os lindos olhos da mãe.

Naquele momento Mairi soube que esperava realmente um garoto. Estranhamente sua mente aceitou o decreto de Allan e ela nem ousou insistir.

-Que seja. Será amado de qualquer forma – disse Ian estendendo a mão para ela. – vamos?

-Vou pegar meu casaco – e virando-se para Allan perguntou – E você, vem conosco?

-Ora, é claro que não! Vou aproveitar e ver se arrumo alguma empregada bonitinha de namorada. Quem sabe não encontro outra Mairi.

Os três riram na hora, mas a conversa findou-se com a saída do casal, que logo se pôs a caminho do condado.

ººººººººººººº

-Você está louco, Morris! – esbravejou o juiz Benson. – nunca vai conseguir provar que alguém respeitado como ele é o assassino.

-Ian McGreggor é inocente! O assassino é esta pessoa que eu lhe disse. Mesmo que eu não consiga provas agora, vou lutar para comprovar que este mau elemento é a pessoa responsável pela morte da Senhora Eleanor.

Levantando-se da cadeira, Morris andou pelo imponente escritório do Juiz Mathew Benson, observando o estilo vitoriano do recinto. Ajeitando o sobretudo, ele encarou o magistrado.

-Este homem é um psicopata. Tenho medo pela nova esposa do duque de York. Lembro-me até hoje da maneira que sua falecida noiva foi morta, estirada na calçada.

-Ian McGreggor casou-se? – espantou-se o juiz.

-Sim. Na verdade ele nunca guardou luto, pois o antigo casamento não chegou a ser consumado. A nova esposa é uma jovem muito bem apessoada e inteligente. Tive o prazer de conhece-la pessoalmente na minha ultima visita ao castelo. E esta grávida!

-Grávida?

-Deve estar com uns três ou quatro meses agora.

-Mas quando ele casou-se?

-Não sei bem. Mas imagino que a jovem já estivesse grávida, pois as datas não fecham.

-Que horror! – disse Benson admirado, mas malicioso, contrariando suas palavras – os jovens de hoje não perdem tempo!

-Seja como for, temo pela nova mulher de McGreggor, pois claramente ele não tem idéia dos perigos que ela corre.

Voltando-se a sentar, Steph encarou o homem mais velho com avidez:

-Preciso de um mandado de busca no castelo e principalmente, preciso de autorização para remexer em alguns arquivos em determinados locais.

-Acha que conseguirá provas com esses dados?

-Creio que sim!

-Vou conseguir os documentos que você precisa Morris, e lhe desejo muita boa sorte.

-Vou precisar, caro amigo... vou precisar...

ººººººººººººº

Mairi pousou a mão no braço de Ian e com ele, percorreu alguns trechos do centro do condado, sorrindo. Quem olhasse ao longe, acharia que eram dois jovens apaixonados, felizes com a gravidez do primeiro filho. Mas não era bem assim. Ela o amava. Não mais escondia este fato de si mesma, mas temia que ele soubesse. Não sabia se poderia voltar a ser mulher algum dia. Uma esposa normal, que deseja o marido e tem prazer em o ter no leito à noite.

Ian também lhe tinha sentimentos caros. Mairi era tudo que ele sempre sonhou numa mulher e casou-se com ela sem se preocupar com um sobrenome ou dote. Mesmo a desculpa de reparar o mal que lhe fizera, era apenas isso: uma desculpa. Casou-se por amor. Casou-se na ânsia de tê-la por perto, mesmo que nunca mais pudesse toca-la. E o filho era sim a concretização do sonho dos dois. De formas diferentes, mas mesmo assim muito aguardado.

Mairi sempre quis uma família. Crescera sozinha e não tivera a amizade de ninguém. Agora tinha Ian, mas mesmo assim, não se sentia tranqüila em relação a ele. E Allan, um dia se casaria e lhe deixaria. Mas o filho estaria sempre lá. Talvez até lhe desse netos. Já Ian teria na criança um herdeiro que teria seu sangue e seria a prova viva de que pelo menos fizera algo de bom na vida.

-Você gostaria de comer algo? – ele lhe perguntou.

Ela viu que pararam em frente a uma casa de chá e não resistiu.

-Sim, gostaria muito de um chá e um pedaço de bolo.

Ele lhe sorriu e a encaminhou ao local. Foram atendidos e comeram em silêncio. Após terminarem, Ian puxou assunto:

-Permita-me satisfazer a curiosidade. Por que esta cuidando de minha mãe?

-Lady Dorothea aceitou acolher-me quando bebê em sua casa e permitiu que Perpetua me criasse lá.

-Você trabalhou – ele justificou a estranha bondade da mãe.

-Realmente. Mas também vivi lá durante a infância e quando bebê não podia trabalhar.

Tomando um gole de chá, Ian comentou:

-Você é estranha Mairi. Estende a mão a uma mulher que lhe fizera tanto mal.

-Ela só tentou defender seus interesses. Sejamos francos. Você é um Lord e eu uma empregada.

-Mas eu te amo.

A confissão dele a pegou desprevenida e ela quase tossiu com a boca cheia de bolo. Seria uma vergonha, mas conseguiu se conter. Quando o observou novamente notou que os olhos negros de Ian pareciam se divertir com a pose dela.

-Não devia ter trancado sua mãe no quarto.

-Ela é perigosa. Diz que Eleanor lhe ordena assassinar pessoas.

-Já faz uma semana que estou cuidando dela e ela me parece muito bem. – ela disse – aliais, ela só comenta de um certo duque de HerShire.

-Fui vê-la esta manhã e ela me disse que desde que você passou a ter com ela, Eleanor sumiu. Ela acha que a falecida foi embora por sua causa e lhe é grata por isso. Sobre o duque, ele foi amante de minha mãe por muitos anos, mas a abandonou assim que surgiu a primeira ruga. – disse frio.

Mairi achou de bom tom não falar mais sobre este assunto. Mas apenas completou:

-Ela não sabe quem sou, Ian.

-Notei.

Pousando a xícara na mesa, Mairi olhou para fora.

-Vamos? Quero fazer as compras logo, pois pretendo voltar a tempo de ler para sua mãe.

-Claro - ele disse erguendo-se. – Importa-se de eu deixar você na costureira e ir conversar com alguns comerciantes?

-Não – ela respondeu sorrindo.

Após deixar Mairi na bela loja de confecções, Ian saiu em direção ao armazém local para conversar sobre os preços que estavam sendo cobrados pelos mantimentos que os seus fazendeiros precisavam. Mas não conseguiu chegar até o local. Na direção oposta a sua, Benjamin, o antigo amante de Eleanor vinha caminhando tranqüilamente.

Ian parou em sua frente e o esperou. Quando Benjamin o notou, já era tarde demais e não conseguiu cruzar a rua.

-Posso falar com você? – Ian perguntou.

O outro o encarou, num misto de susto e medo.

-Claro, Milord.

De repente Ian sentiu algo estranho. Os olhos de Benjamin eram iguais aos de alguém que ele conhecia. E a boca também. Tentou puxar na memória, mas nada veio.

-Soube que você emprestou dinheiro a minha esposa para que ela fosse embora de York.

Benjamin começou a gaguejar.

-Esposa? – ele perguntou, mas não parecia surpreso.

-Estou casado com Mairi. –esclareceu - Sei que foram amigos e que você lhe deu dinheiro. Não negue, por favor, porque não quero nada a não ser lhe devolver as libras dadas a ela.

Benjamin parecia aliviado. Ian McGreggor era grande, maior que ele. E olhe que Benjamin era bem alto! Os dois deviam ter praticamente a mesma idade e Ben o mediu com os olhos escuros. Se Ian soubesse o que ele sabia... Qual seria sua reação?

-Dei o dinheiro a ela sem nenhuma pretensão a não ser ajudar. Não pensei que fossem me devolver e com sinceridade, nem lembro quanto foi.

-Tome – Ian tirou do bolso um punhado de notas que devia ser no mínimo três vezes o que Benjamin gastara pela passagem de Mairi.

Não se fazendo de rogado o outro as pegou e rapidamente as colocou no bolso. Teria uma noite e tanto no prostíbulo!

Tocando a aba do chapéu, Benjamin foi se afastando.

-Espere – disse Ian.

-Sim?

-Peço que avise as pessoas para as quais contou que ajudou minha esposa, que eu lhe reembolsei. Não quero que pensem que você deu o dinheiro a Mairi. Uma questão de orgulho masculino – disse Ian sorrindo.

-Entendo Milord, mas não falei a ninguém.

E se foi.

Ian permaneceu na calçada, boquiaberto.

-Pelo que eu soube Milord, ela foi atrás de emprego em York. Mas o senhor sabe que York não é uma cidade muito grande. Ela não achou nada. Mas encontrou Ben...”

Fazia mais de um ano, mas ele ainda se lembrava com perfeição a conversa com Perpetua. Voltara de Londres e fora à procura de Mairi. Como não a encontrou, foi até a governanta sanar a duvida.

-Ben pagou uma passagem para que Mairi fosse procurar trabalho em Londres.”

Mas como Perpetua poderia saber disso se Benjamin não contou nada a ninguém?

Algo fede nesta história! Muitas coisas estão mal explicadas! A reação de Benjamin quando lhe falara que estava casado foi tão forçada, digna de um mau ator. O jovem que conquistara Eleanor claramente demonstrava que sabia do casamento. Bom, a união não era nenhum segredo, mas era a primeira vez que ele e Mairi saiam de casa juntos... Como ele poderia saber de tudo?

Percebendo que se atrasava para falar com os comerciantes, ele voltou a caminhar, mas não esqueceria essa historia tão cedo.

No final daquela tarde, Mairi e Ian voltaram ao coche. Ela estava particularmente feliz porque pegara pela primeira vez roupas de bebês nas mãos. Eram tão pequenas e graciosas. Mal podia esperar para ter o filho nos braços. Seria sua vida, sua força...

-Você tinha que ter visto! Tão delicadas, de algodão puro e todas azuis. Ian, esta me ouvindo?

Ele a olhou. O cotovelo apoiado na janela da carruagem e uma das mãos no queixo.

-Sim, meu amor, continue.

Meu amor? Se ele começasse a essas demonstrações de carinho, não poderia haver amizade entre eles. Mairi já estava disposta a perdoa-lo pela maneira como ele a tratara anteriormente, mas não conseguiria o ter como um irmão se ele tentasse seduzi-la.

Os céus sabiam que quando ele lhe tratava assim, seu coração saltava e as mãos tremiam. Enfim, não era culpa dela.

-Bom... –ela fingiu ignorar a forma como ele a chamou – as roupas eram lindas. Você devia ter visto.

-Dá próxima vez que viermos à cidade, eu prometo que a acompanharei.

Ian estava estranho, quieto demais. Mairi sentia que algo esta diferente com ele. Mas resolveu não questiona-lo, pois não tinha liberdade para tamanha intimidade. Olhou para fora esperando que logo chegasse ao castelo.

-Mairi... –ele a chamou.

Virando os olhos claros em direção a ele, Mairi cruzou as mãos sobre o colo, tentando aparentar calma.

-Você conhece Benjamin há muito tempo?

A pergunta a surpreendeu. Estaria ele novamente desconfiando dela?

-Ele entregava verduras no castelo. É filho do dono da fruteira. É trabalhador, Ian, mas muito esbanjador e irresponsável. Ficamos conhecidos durante as visitas dele, mas pouco conversávamos, pois eu sempre tinha trabalho a fazer.

-Você gostava dele?

-Sim – a resposta foi totalmente sincera – mas era um amor tolo de mocinha. Ele tinha olhos apenas para Lady Eleanor.

Ian sentiu-se estufar de satisfação.

-Você acha que ele amava Eleanor?

-Não sei responder.

-E Perpetua? Os dois se conheciam? Eram amigos?

Perpetua? Seria um enorme absurdo que Ian achasse que a governanta e aquele rapaz eram amantes, então Mairi não guiou os pensamentos para este lado. Provavelmente Ian pensasse outra coisa.

-Mal se falavam. Por quê? – ela não resistiu a curiosidade.

-Por nada, querida. Esqueça...

Fizeram em silêncio mortal o restante do trajeto.

ººººººººººººº

Jane! Este era o nome da empregada que havia se apaixonado por Allan. E ele já começava a achar que esta história perdera a graça.

Não que Allan Hatton fosse homem de recusar uma mulher, mas a jovem, por mais atraente que fosse, tinha seios enormes e era baixa demais. O oposto de Mairi...

-Allan Hatton! Seu idiota! Esqueça esta mulher! Deve ama-la como ama Ian! –disse para si mesmo enquanto cruzava o corredor.

Estava fugindo de Jane que, ansiosa, o perseguia pela casa, louca para cerca-lo de mimos e fazer-lhe à vontade. Logicamente ela aguardava o convite para visitar o quarto dele em uma noite qualquer. Era um desperdício, mas ela esperaria sentada. Allan não tinha animo nenhum para sexo. O pensamento estava centrado no casal que fazia parte da sua vida.

Quando Ian convidou Mairi para passear logo depois do almoço, ele sentiu uma onda forte de ciúme, mas a reprimiu. Ian e Mairi eram casados. Sua melhor amiga e seu irmão! Devia respeitar aquele enlace e ajudá-los a se entender. Ian amaria Mairi para sempre e ela lhe retribuiria os sentimentos.

E quanto a ele? O que importava!

Entrou no próprio quarto, pronto para pegar algum livro e passar a tarde lendo, mas se surpreendeu com Perpetua em pé, no centro, como se o aguardasse:

-O que faz aqui? – perguntou ele, de repente irritado por vê-la lá.

-Pegue Mairi e vá embora!

O que? Aquela mulher devia ser uma louca.

-Vou lembra-la que Mairi é casada com Ian. Como se atreve a entrar no meu quarto sem minha permissão e dizer tamanha barbaridade?

-Mairi é casada, mas o casamento é uma fraude. E você a deseja. É claro que ela espera uma criança, mas você me parece apaixonado. Não acho que será grande problema criar um filho que não é seu. Ou se preferir, sempre a algum meio de se desfazer de uma criança.

Allan se segurou para não avançar contra ela. Perpetua não sabia, mas só não recebia um soco agora porque era mulher e o advogado nunca fizera nenhuma agressão contra alguém do sexo feminino. Mas que ele tremia de vontade, ah isso tremia! Como ela se atrevia em pensar que ele pudesse fazer mal ao seu próprio sobrinho?

-Saía já daqui! E fique contente que eu não conte nada a Ian. Só não farei isso porque tenho pena da senhora. Uma mulher já velha, sem família, não teria para onde ir. Mas use esta ocasião como base para nunca mais se meter na vida dos patrões.

Perpetua não se ofendeu com a reação do loiro. Sabia que essa seria a atitude que ele tomaria, mas a semente havia sido plantada e fora exatamente por isso que ela viera conversar com ele.

Saindo do quarto com a cabeça erguida, a orgulhosa governanta sorriu.


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XVIII

Por Josiane Veiga

Mairi segurou Dorothea pelos braços e a ajudou a descer as escadas. A mais jovem trajava um vestido quente de lã cinza que era o mais confortável de suas vestes e também o que mais a protegia contra o vento frio. Desta forma, ela não se importava que não lhe caísse bem a cor, tampouco se sentia amedrontada pelo olhar de desagrado que alguns dos servos do palácio lhe deram enquanto cruzava por eles (provavelmente não gostando da maneira com que a nova lady se portava). Além disso, era a primeira vez na semana que o sol aparecia sem nuvens, e queria aproveitar. Já a outra mulher que a acompanhava se recusara a tirar a camisola, mas aceitara de bom grado descer para o jardim.

-O sol vai lhe fazer bem – disse Mairi a senhora mais velha.

-Sol? Não posso tomar sol. Minha pele sempre foi perfeita e não quero que fique estragada como a dos plebeus.

Mairi revirou os olhos, mas quase riu. Estranhamente, o fato de ser mãe, estava lhe dando uma paciência sem limites ultimamente. Cruzaram o grande salão de entrada e foram para fora.

O belo jardim ficava na lateral do castelo, e além de belas e exóticas plantas compradas ou enviadas por ricos lords amigos da família, havia também um imponente e espaçoso banco, com a escultura em forma da flor lótus. Este se achava abaixo de uma árvore frondosa que fazia tudo parecer cenário de um livro de fadas.

Mas enquanto ajudava Dorothea a se acomodar notou que a Lady parecia alheia a beleza a sua volta.

-Sente-se bem Senhora? – perguntou Mairi ao sentar-se ao seu lado.

-Você estava certa, menina. O ar me faz bem. Eu vinha mais ao jardim no início do meu casamento.

A jovem não gostava de indagar e investigar a vida pessoal de outros, mas, vendo Lady Dorothea falar tão calmamente e saudosa, ela sentiu curiosidade.

-A Senhora casou por amor?

-Quem se casa por amor a não ser os livres? – retrucou Dorothea – e eu nunca fui livre. Primeiro fui propriedade do meu pai e depois do meu marido.

Era triste ouvir aquilo de uma mulher que tudo tivera na vida. Dorothea não passara fome e nunca fora humilhada. No entanto falava da própria vida com uma amarga revolta. Mairi compreendeu naquele momento que todo o ódio e rancor com que ela tratava as outras pessoas era fruto de uma infelicidade extrema e bem guardada.

-Mas o pai de Ian foi um bom marido?

-Comigo ele sempre foi um bom homem. Mas não ignoro que não valia nada.

Dorothea respirou fundo e fez uma pausa. Olhou o horizonte como se imagens viessem a sua frente.

-Ele era doente. –ela gemeu entre os dentes.

-Doente? Não sabia disso. Achei que o antigo Lord fosse totalmente saudável.

Dorothea virou o rosto e a encarou. Mairi sabia que ela lhe contaria algo que muitos ignoravam.

-A doença dele era outra. Era mental. Ele gostava de machucar mulheres. Depois se arrependia e tentava ajudá-las.

Mairi estremeceu. Ian fizera a mesma coisa! Mas ele não parecia sentir prazer quando a tomou. Não... ele não podia ser igual ao pai!

-Bom, na verdade não foram tantas assim. Que eu saiba, apenas duas mulheres sofreram em suas mãos. Mas foi tão terrível que pra mim parecia milhares.

Duas? Mairi conhecia apenas a história de Allan, mas não sabia que mais de uma mulher havia sido violentada. Sem notar, ela falou em voz alta:

-Sabia apenas da senhorita Ellen.

Estremeceu assim que disse a frase. Para sua sorte, Dorothea parecia alheia a realidade e não estranhou o fato de a mulher de seu filho conhecer a historia de outra jovem que morrera há tantos anos.

-Ah sim! – Dorothea sorriu – Ellen, a loira. Eu tentei ajudá-la várias vezes, mas num dia em que eu não estava em casa, meu falecido marido a pegou. Não pude fazer nada.

Mairi curvou a fronte triste. O destino às vezes era excessivamente cruel.

-Eu não fui sempre este poço de maldade que você vê, menina – disse Dorothea, a surpreendendo – quando Ellen morreu no parto, dando a luz ao filho do estupro, eu pensei em adotar a criança. Não tinha filhos na época e queria muito um bebê. Mas o menino morreu com a mãe.

Mairi pensou automaticamente em Allan. Como ele teria gostado de crescer ao lado do irmão, correndo pelos campos, ao invés de trancado naquela escola. Por que o antigo duque levou o menino embora e fingiu para todos que a criança havia morrido?

-Isso é passado, Milady – disse a jovem grávida, segurando as mãos da mais velha.

-Tenho medo do passado.

-Por quê?

Dorothea então virou o rosto em sua direção:

-Vou lhe contar uma coisa, mas não quero que fique com ciúmes do meu filho. Ian já foi apaixonado por outra mulher, além de você. Ela era uma empregada muito bonita que eu mantinha no castelo desde criança, uma órfã. Enfim, ele ficou encantado com o fato de ela amar os livros que ele amava. Ficaram amigos. Um dia eu o vi a beijando neste mesmo jardim... e foi como se todo o passado voltara. Senti medo de meu filho ter as mesmas tendências do pai, que não podia ver uma empregada na frente. Expulsei a moça do castelo quando ele se ausentou. Nunca mais soube dela. Ela deve me odiar, mas eu só quis protege-la do sangue maldito dos McGreggor.

Mairi agradeceu aos céus por estar sentada. Nunca esperara na vida ouvir aquela confissão. As pernas começaram a tremer e por algum momento ela achou que perdesse o controle.

-Tenho certeza que ela não guarda rancor, senhora – murmurou tentando evitar as lágrimas.

-Assim espero.

As duas ficaram no jardim cerca de uma hora, mas não conversaram mais.

ººººººººººº

A garganta de Mairi havia ficado completamente seca e a mente fervia tentando compreender tudo que descobrira. Andou de um lado para o outro no quarto recordando a conversa que tivera com Dorothea. O pai de Ian então violentou duas mulheres! Uma delas era a jovem Ellen Hatton que deu a luz a Allan. Mas e a outra? Quem era? Será que Ian e Allan tinham mais um irmão ou talvez até irmã, espalhado por aí?

Sentou-se na cama e tentou se acalmar. Devia contar isso a eles? Não! Para que preocupa-los? O que ela devia fazer era investigar melhor esta história. Agora que Dorothea a aceitava o suficiente para falar coisas tão pessoais, ela poderia indagar aos poucos. Se não existisse um parente de Ian e Allan, ela deixaria o fato cair no esquecimento. Para que lembrar coisas tão ruins?

Afastando esses pensamentos, ela pousou a mão sobre o ventre e o acariciou. Seu filho crescia a cada dia e ela sentia que ele estava bem. Ali há alguns meses ela teria algo dela. Um bebê que carregaria no colo e amaria.

“Só quis protege-la do sangue maldito dos McGreggor.”

O maldito sangue dos McGreggor. Estranhamente Allan também falara assim de sua própria família. Será que tanto ele quanto Dorothea acreditavam que os filhos do duque tinham sua tendência de violentar mulheres?

Mas Ian não podia ser assim. Ela não aceitava isso! Por mais que o próprio filho que carregava agora não fosse fruto de uma noite de amor e sim de uma desmoralização, Mairi tinha consciência que... Consciência de que? Podia Ian ser como o pai? Uma sina? Será que o futuro lhe reservava mais momentos de horror? E o filho? Ficaria amarga como Dorothea tentando proteger alguma jovem que no futuro seu filho desejasse?

-Mairi...

Ela olhou para a porta aberta e viu Allan escorado na madeira.

-Não o vi chegando – ela sorriu, tentando evitar que ele percebesse o que seus pensamentos continham.

Mas foi em vão.

-O que houve? Está tão sombria.

-Não foi nada... vamos tomar chá?

Ele ficou sério.

-Iremos somente depois de você me dizer o que sente.

-Mas não é nada...

Ela tentava desconversar, mas Allan não parecia aceitar o fato. De repente o olhar dele ficou frio e com a voz alterada ele perguntou:

-Agora será assim?

Não entendendo a pergunta, ela aproximou-se do amigo loiro. Viu que havia mágoa em seus olhos.

-Assim o que, Allan?

Ele suspirou, mas não a respondeu. Deu-lhe as costas e saiu pelo corredor. Assustada por nunca tê-lo visto daquela forma, ela praticamente correu atrás do advogado. O alcançou próximo a escada.

-Allan, por favor, me diga o que aconteceu – ela parecia desesperada e tentou segura-lo pelo braço.

Mas ele puxou o braço e a deixou boquiaberta.

-Não aconteceu nada.

-Como não? Você esta tão zangado comigo e não me diz o motivo!

Ele passou as mãos pelo cabelo loiro e respirou fundo.

-O que importa o motivo? Agora você tem uma nova vida e seus próprios segredos. Não há mais espaço para mim!

Então, na própria voz, Allan reconheceu o ciúme. Envergonhado, ele baixou a fronte e foi-lhe pedir desculpas, mas ela se adiantou.

-Amo você mais que minha própria vida Allan. Não existem segredos entre nós e nunca existirá. Por favor, não fale assim comigo.

Deixando uma lágrima escapar dos olhos, Mairi olhou para o chão. O homem a sua frente recriminava-se pela cena. Droga! Estava enlouquecendo. Talvez Perpetua tivesse razão. Ele devia ir embora, mas sozinho! Nunca levantara a voz com Mairi e agora fizera isso com naturalidade.

-Desculpe minha querida – disse abraçando-a – não quero brigar com você.

Beijando-lhe o topo da cabeça, ele a manteve segura por alguns momentos. Estranhamente a sensação que teve com aquele carinho lhe pareceu familiar. As brigas que tinha com Ian quando eles eram mais jovens lhe veio a mente. Ele costumava abraçar o mais novo da mesma forma. Estava começando a gostar de Mairi como gostava de Ian?

-Por que parecia triste no quarto? – ele perguntou novamente.

-Lady Dorothea me falou de sua mãe. Da maneira como seu pai a violentou. E eu comecei a pensar... talvez Ian tenha as mesmas tendências...

Afastando Mairi pelos ombros, Allan a encarou.

-Escute Mairi, não se deixe enganar por este tipo de coisa. Eu e Ian temos o mesmo pai e, no entanto nunca me passou pela cabeça violentar mulher nenhuma. Não se sente segura comigo?

-Sim, mas Ian...

-Ian estava transtornado. Ele pensava que você já tivesse tido amantes. Sentiu-se desprezado como homem, mas meu irmão nunca faria isso com uma mulher se não fosse pelas circunstâncias. Dou-lhe minha palavra que Ian nunca mais agira assim.

-Como pode garantir?

-Conheço Ian.

Ela fez um gesto afirmativo com a cabeça. Se Allan conhecia Ian, ela conhecia Allan o suficiente para acreditar na palavra dele.

Desceram as escadas e foram até a sala. Lá Jane serviu o chá.

-Como vai Lady Dorothea? – Allan assuntou.

Mairi tomou um gole do chá quente e sorriu.

-Vai bem. De manhã fomos ao jardim aproveitar o sol. Agora ela esta dormindo. Os remédios que o doutor Brian lhe dá são muito fortes.

Jane, que após servir o chá, ficou em um lado da sala observando os patrões, encarou Allan de uma forma sedutora. Ele pigarreou e olhou Mairi.

A amiga não poderia socorre-lo, pois se a empregada achasse que eram amantes, seria um escândalo sem igual. E ele nunca exporia Mairi a isso. Mas mesmo assim, precisava de um cúmplice para se livrar da mulher. Não que não estivesse louco para se deitar com a jovem de seios grandes que o olhava como se o devorasse, mas sabia que meninas como aquela esperavam mais de homens como ele.

Todas as mulheres com quem ele tivera um caso eram experientes e prontas para decepções. Mas Jane era alguém do povo, que ainda acreditava em príncipes encantados. Para que destruir a chance dela conseguir um bom marido, mesmo pobre, a iludindo com sentimentos que ele nunca poderia lhe corresponder?

-Você quer andar pelo jardim? – perguntou à grávida a sua frente.

-Já estive no jardim a manhã toda. E está esfriando. Onde está Ian?

Mairi enrubesceu ao perceber qual fora sua última frase. Estava pensando em Ian com uma freqüência constrangedora e relacionar o fato de o vento ter mudado de direção e a temperatura ter caído tanto, logo se preocupou com sua saúde.

Mas para sua sorte, Allan nem parecia ter notado. Ele virava-se na cadeira como se algo o incomodasse e apenas resmungou:

-Esta na cidade. Foi conversar sobre a compra de alguns cavalos.

Ela olhou para a janela e sentiu uma louca vontade de estar perto do marido num dia como aquele. Será que os homens também pensavam assim? Também se sentiam inquietos com o frio e loucos para ir embaixo de uma coberta com uma mulher?

E se o marido estivesse bem quente naquele dia? Ele bem podia dizer que estava indo trabalhar, mas podia ter alguma amante! Mesmo em Ivanhoé onde o amor era idealizado por Scott, o protagonista se envolvia com Rebecca, uma bela judia. No final do livro, ele ficava com Rowenna... mas...

Chega Mairi”, ordenou a si mesma em pensamento.

Era só o que faltava! Ciúmes de Ian depois de tudo o que aconteceu. Se ele estivesse ido para a cidade atrás de mulher, que fizesse bom proveito!

Mas quando o viu entrando na sala imediatamente após seus pensamentos irem a uma direção perigosa, ela quase pulou de alegria. Sorriu para ele, que arqueou as sobrancelhas e perguntou:

-Alguma boa noticia?

-Não – responderam Allan e Mairi ao mesmo tempo.

Ian quase riu e retirou o grosso casaco que já continha pedaços de neve.

-Como foi com os criadores dos cavalos? –ela perguntou.

Se ele estranhou o súbito interesse dela por assuntos como os eqüinos que estava adquirindo, nada disse. Sorrindo como uma criança de brinquedo novo, ele respondeu:

-Maravilhoso. Comprei alguns “puro sangue” e uma égua árabe marrom para você. Lógico que só a montara após o nascimento de Ian.

-Cruzes – gracejou Allan – vão chamar o bebê de Ian McGreggor Neto?

Mairi não sabia que Ian já havia definido o nome do seu filho, mas não achou nada mal o nome escolhido. Afinal, ela o amava.

-Você não acha um belo nome? – perguntou Ian

-Tenho pena da criança – respondeu Allan.

Allan riu, mas o riso era nervoso e forçado. Mairi não pareceu notar, mas Ian automaticamente soube que algo estava errado com o amigo.

Após algum tempo na sala fazendo companhia aos dois, ele percebeu o porque do estado do advogado. Os olhos de Allan iam a direção a jovem empregada Jane, mas logo se desviavam. O moreno observava a cena atentamente e percebeu que a mulher estava jogando charme para Allan. Tudo ali na sua sala e na presença de sua esposa. Claro que Mairi não conhecia estes artifícios e não notara nada, mas ele não era tão tolo.

-Allan, gostaria de ir até o estábulo comigo?

A pergunta era tão idiota que Ian quase riu do absurdo. Em uma situação normal, Allan o mandaria pro inferno, pois jamais sairia da sala aquecida para ir até o estábulo frio ver cavalos. Mas o outro entendeu a pergunta e saltou da cadeira.

-Vamos já!

Mairi não pareceu notar nada de diferente na atração dos homens pelos animais e resolveu ir até a biblioteca ler. Mas Ian e Allan, após cruzarem a porta de saída, gargalharam.

-Por que esta se fazendo de difícil? – perguntou Ian de repente.

-A moça é muito bonita, mas não tenho nenhuma intenção séria. Nunca abusei da boa vontade das pessoas.

-E se ela quer ter sua boa vontade abusada?

Allan não respondeu. Chegando até a estrebaria, Ian lhe mostrou a égua que comprou para Mairi. O empregado responsável pelos animais colocava feno no cocho e quando viu o patrão, apenas acenou e saiu de perto. Os dois ficaram sozinhos.

-Alguma novidade sobre Steph Morris?

Ian estranhou a pergunta e olhou Allan. Não havia nada de anormal no amigo, mas desde que Allan abandonara sua causa, não fazia perguntas sobre a morte de Eleanor.

-Não. Ele sumiu.

Allan tocou o pescoço da égua que pareceu gostar do carinho.

-Já faz quase dois anos que Eleanor morreu...

-Sim, é verdade. E são dois anos que tenho uma foice no pescoço, o perigo de ser preso a qualquer momento.

-Não podem lhe prender sem provar que você é o assassino.

-Não vão provar nunca, pois não matei ninguém. Às vezes acho o mundo muito injusto. Eleanor morreu e nem pode ser vingada sua morte. Não houve justiça

-Não acredito mais em justiça... – Allan retorquiu.

Ian iria começar um discurso tentando mudar a opinião do loiro, mas foi interrompido pela voz de Perpetua o chamando.

-Estou aqui – ele disse alto.

A mulher apareceu na entrada da baia, bufando de ódio.

-Lord Ian, por favor, coloque freios em sua mulher!

Ian ficou tão admirado com o linguajar de Perpetua que por algum momento ficou sem fala. Foi Allan que respondeu.

-Como se atreve a falar assim de sua Senhora, esposa de seu Lord?

A governanta simplesmente ignorou o loiro e continuou com os olhos fixos em Ian.

-Deixei Mairi na biblioteca. O que ela poderia fazer lá que possa irrita-la tanto, senhora Perpetua?

-Na biblioteca, nada! Acontece que logo após ela saiu de lá e agora esta querendo invadir o quarto da finada Eleanor. Diz que quer liberar o quarto para futuros convidados e retirar as antigas roupas da falecida para dar a caridade.

Como Mairi poderia causar tanto reboliço em tão poucos minutos? Suspirando Ian olhou Allan e vendo o outro segurando o riso, virou-se em direção a casa e preparou-se. Iria encarar a fera! Mas antes precisava deixar umas coisas claras a governanta.

-Senhora, esta casa é a casa de Mairi e se ela quer colocar fogo, ela tem liberdade. O quarto que Eleanor ocupava não é nenhum templo sagrado e se minha esposa acha melhor o liberar ela tem autoridade para isso.

-Mas a policia...

-A policia já o liberou. Não a nada lá que possa ajudar nas investigações. A senhora lhe deu as chaves?

Perpetua engoliu em seco a raiva e tentou não reagir. Estava difícil...

-Ela praticamente as tomou de minhas mãos.

-Então Mairi fez muito bem. Agora com licença que verei se minha esposa precisa de algo.

Saindo do local, Ian caminhou em passos firmes em direção ao castelo. Allan lhe acompanhava em silêncio, mas ele sabia que o loiro estava rindo as suas custas. Mairi não era o tipo de mulher que vivia no ócio e ela faria questão de sempre estar ocupada com algo. Lhe daria um trabalho enorme.

“Se pelo menos fossemos um casal comum, eu a manteria ocupada na cama”, ele pensou com um sorriso triste.

Entrando dentro da casa, ele foi em direção aos quartos. Rapidamente se encontrava a frente do quarto de Eleanor e quase riu com a cena que encontrou. A porta aberta lhe dava uma visão de Mairi, em frente ao roupeiro, atirando todas as roupas da falecida no chão e Jane, a empregada que a acompanhava completamente petrificada num canto, como se estivesse morta de medo.

-Mairi! O que a senhora pensa que esta fazendo?

Apesar de a pergunta parecer séria, quando Mairi o encarou, notou que Ian sorria. Mesmo contra a vontade, ela retribuiu o sorriso.

-Os empregados têm medo deste quarto. Então pensei que seria bom o arrumar e deixar claro que não há fantasmas aqui.

-Mas e se realmente a falecida estiver aqui? – perguntou Jane esfregando uma das mãos na outra.

-Não seja boba! – Mairi a cortou – O corpo de Eleanor já foi enterrado faz muito tempo.

-Corpo sim... mas o espírito dela pode estar por aqui...

-Fantasmas não existem! – ela disse pegando um dos vestidos de Eleanor e dobrando.

-Cética como sempre, Mairi – falou Allan que até então se mantinha quieto. – e se a sua jovem serva tiver razão. Quem lhe garante que fantasmas não existem?

-Meu cérebro, minha crença e meu coração. Eleanor descansa o sono dos mortos. Não devemos teme-la e sim a pessoa que a matou.

Ian concordou com a cabeça. Ele e Mairi pensavam da mesma forma. Allan também pensava assim, apesar de nunca assumir publicamente. Afinal, era muito mais divertido contar historias de terror para a criadagem do que falar a verdade.

-Bom, concordo com você em organizar este quarto. Mas tem que ser você a fazer este trabalho? Está grávida Mairi! – ele disse apontando a barriga.

Ela abriu a boca chocada

-Se você não me avisasse, eu nunca saberia. Como este bebê veio parar aí em baixo?

Allan gargalhou e Ian ficou sério. Ele sabia muito bem como ela engravidara. Mas a frase da jovem deixava claro que ela não queria interrupções. Curvando a fronte, ele saiu do aposento zangado. Allan arqueou as sobrancelhas e o seguiu. Seria uma longa semana...


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XIX

Por Josiane Veiga

Jane recriminou-se pela falta de coragem. Nunca despertaria a admiração do Sr. Allan se continuasse a agir como uma boba em frente a ele. Mas como ser corajosa no quarto da falecida Eleanor McGreggor? Todos no castelo morriam de medo só de cruzar a porta, imagine estar ali dentro, revirando as roupas da finada!

Mas a nova esposa de seu Lord não parecia tão preocupada com a vingança do espírito de Eleanor. Mairi trabalhava com afinco, e sorria ao falar que algumas das roupas roídas pela traça podiam ser consertadas antes de dá-las a caridade.

A empregada que não era boba nem nada, já notara os olhos brilhantes que o advogado que ela própria desejava, lançava a sua senhora. Mas da parte da Lady Mairi, não parecia haver retribuição da lasciva. Mesmo assim, sabia que eles se amavam. Mas Jane nunca havia conhecido um amor assim, entre um homem e uma mulher, sem sexo. Era estranho, mas compreensivo, já que Mairi era esposa de um homem extremamente viril e bonito.

Coçando a cabeça, ela percebeu que Ian também não parecia ter um relacionamento normal com a própria esposa, já que dormiam em quartos separados, mesmo tendo tão pouco tempo de casados. Bom... dormir em quartos separados até que era normal naquele meio social, mas todas os dias ela percebia que as duas camas estavam desarrumadas, deixando claro que nenhum ia ao quarto do outro a noite.

Ah, mas se fosse ela nunca que deixaria um homem daqueles dormir sozinho! Talvez se Allan Hatton não resolvesse de uma vez se a queria ou não, daria uma visitinha ao patrão. Isso poderia lhe dar boas chances de conseguir ser mais bem tratada na casa.

Mas quando olhou a mulher agachada próxima a uma pilha de roupa, ela expulsou a idéia. Lady Mairi era muito boa e tratava todos com tanta consideração que não merecia uma traição.

-Milady, vamos embora daqui. Por que não esquece este quarto?

-Pare de tremer, Jane! – disse Mairi, aliviando as palavras ásperas com um sorriso – fique tranqüila. Eu conheci Eleanor. Mesmo que o espírito dela estivesse aqui, Eleanor ficaria feliz que suas roupas pudessem ajudar outras pessoas.

A revelação surpreendeu a outra mulher.

-A Senhora conheceu a finada?

-Sim. Eu trabalhei nesta casa.

Jane ficou tão pasma com o que Mairi lhe dissera, que se sentou na cama, a olhando com os olhos arregalados.

-Milady já foi uma empregada?

-Sim, trabalhei de empregada neste castelo desde que nasci. Você não me conheceu porque veio há pouco tempo para cá. Eu e Ian nunca havíamos nos encontrado antes, pois ele foi estudar fora. Anos depois, nos conhecemos, nos apaixonamos e cá estamos.

Mairi quase riu com seu discurso de “contos de fadas”. A história nunca poderia ser resumida desta forma, mas ela não considerava Jane tão confiável para lhe contar tudo. Ainda não...

-É uma história de amor tão linda – disse Jane com os olhos brilhantes.

-É apenas uma história – corrigiu Mairi com um suspiro triste – estou com sede Jane. Poderia buscar um suco para mim?

A empregada ergueu-se

-Mas a senhora vai ficar sozinha aqui?

-Sim. – e vendo a empregada abrir a boca para protestar, continuou – eu não acredito em fantasmas. Mesmo que existissem, Eleanor nada teria contra mim. Pode ir agora.

Ainda um tanto contrariada, Jane se retirou.

Quando a jovem saiu do quarto, Mairi sentiu um arrepio. Por mais que falava a verdade quando dizia que não acreditava em fantasmas, era humana e também temia algo. Mas não Eleanor. Era a lembrança da morte da mesma que a fazia estremecer. Quem a matou e por quê?

Bom... mesmo que fosse boa com suspeitas e investigações, esse não era um papel para ela. Pelo que ouvira de Ian, Steph Morris era o melhor investigador da região e com certeza estaria atrás do culpado. O que ela devia fazer agora era cuidar do quarto. Trabalhar!

Indo em direção ao roupeiro, ela lamentou não ter trazido um machado junto. Aquele móvel estava velho e cheio de cupins. Devia destruí-lo e colocar uma pequena cômoda no lugar. Ficaria um quarto maior, mais confortável e até esteticamente mais bonito.

Ficando de joelhos na frente do roupeiro, ela pegou o resto de roupas que estavam no fundo. Como Eleanor tinha vestidos! Já havia tirado de lá o suficiente para aquecer praticamente todas as mulheres pobres da cidade.

De repente os dedos tocaram um pedaço da madeira que estava descolada. Surpresa, ela percebeu que era um compartimento secreto do móvel, quase um cofre, para se guardar documentos e dinheiro. Levantando um pouco mais o pesado pedaço de pau, ela viu um livro. Temendo algum rato ou barata, ela puxou-o aos poucos do lugar.

Coberto de pó e teias de aranha, Mairi surpresa constatou que o mesmo era um diário. O diário de Eleanor...

ºººººººººººººº

-Por que você não se senta a aproveita a tarde livre para ler um pouco?

Ian encarou Allan com um olhar quase mortal. O loiro curvou as sobrancelhas e resolveu ficar quieto.

Não entendia o porque de Ian estar tão bravo apenas porque Mairi insistira em não aceitar ajuda para organizar o quarto da falecida.

-Se você não parar de andar de um lado para o outro, vai fazer um buraco no meio da sala. –avisou o loiro.

-Ela fez de propósito! – esbravejou Ian – ela sempre faz de propósito. Adora me contrariar. Deve sentir um prazer enorme cada vez que me vê zangado.

-Devia subir lá em cima e bater nela. Pra mostrar quem manda!

-Cale esta boca Allan!

-Só quis ajudar – disse o advogado levantando as mãos em sinal de impotência – mas se você não dá conta dela...

Então Ian parou no meio da sala, como se estivesse preocupado.

-E se ela se machucar? Vou subir lá em cima. –e saiu da sala.

Allan levantou-se fazendo um pouco de esforço. Já notara um leve resfriado no dia anterior, e ter saído da casa para o vento frio, quando foi ver os cavalos naquela tarde, só aumentou a sensação de doença.

Quando Ian chegou perto da escada, viu Jane descendo com uma bandeja.

-Deixou Mairi sozinha? – perguntou o moreno, nervoso.

-Milady me avisou que continuará o trabalho amanhã. Disse que se cansou por causa da gravidez e foi para o quarto. Nem quis tomar o suco que me mandou preparar.

Os dois homens se encararam e logo após saíram correndo escada acima.

ºººººººººººººº

Por alguns instantes Mairi encarou o grosso diário sem coragem de o abrir. Levantou-se da cama com ele nas mãos, mas logo voltou ao leito. O depositou no colchão enquanto tentava fazer as mãos pararem de tremer.

Poderia ler algo tão íntimo de Eleanor?

Mas Mairi tinha consciência de não ter o direito à ética num momento como aquele. O que tinha nas mãos podia dar uma pista certa do verdadeiro assassino.

-Mairi!

Ela levou os olhos a porta. Ian batia descontroladamente. Havia acontecido algo errado?

-O que foi? Estou de roupa de baixo – ela mentiu

Queria se livrar dele o mais rápido possível e nem percebeu o que tinha dito.

-Roupa de baixo? – perguntou Allan – o que esta fazendo de roupa de baixo a esta hora da tarde?

Mairi então percebeu que devia ter inventado qualquer outra coisa.

-Estou com calor. – ela tentou consertar.

-Calor em pleno inverno?

Maldito seja Allan Hatton que parecia adivinhar quando ela faltava com a verdade.

Olhando em volta do quarto, Mairi pensou onde guardar o diário dos olhos curiosos dos dois homens até que conseguisse se livrar deles para ler os escritos de Eleanor em paz.

-Abra esta porta, Mairi. – a voz de Ian estava claramente nervosa.

-Já vai. Estou me vestindo. –ela respondeu.

-Não importa como está! Abra de uma vez – era a voz de Allan e parecia preocupada.

No corredor, Ian olhou para Allan chocado.

-Como assim “abra como esta”? Ela pode estar indecente.

-Não seria a primeira vez que eu a veria nua. – ele provocou.

Ian enrubesceu de raiva e deu um passo em direção a Allan. Iria atacar, quando Mairi abriu a porta.

-O que estão fazendo? Não posso descansar um minuto? Parecem duas babás!

Os dois a encararam.

-Você esta bem? – Ian aproximou-se dela – nunca a vi descansando no meio da tarde... fiquei preocupado.

Ela sentiu o coração saltar no peito. O olhar de Ian era o mesmo que aquele de tanto tempo atrás, quando o amor deles não conhecia a maldade.

-Antigamente eu não tinha uma barriga do tamanho do mundo. Agora me canso com mais facilidade. Tudo que queria era tirar um cochilo, mas é impossível com vocês dois discutindo na minha porta.

Quando Mairi falou assim, Ian lembrou-se de Allan.

-Ele já a viu nua? –Ian perguntou e apontou o dedo para o loiro

Mairi quase riu. O marido parecia uma criança magoada que havia descoberto que a mãe dera um doce para o irmão e não para si.

-Sim, Ian. Ele já me viu nua. – ela foi sincera.

Ele parecia angustiado.

-Allan e eu temos uma relação que você não entenderia – ela continuou, tentando se explicar.

Ele sabia que tipo de relação os dois possuíam, mas não poderia admitir isso sem que os dois ficassem sabendo que ele os escutara atrás da porta.

-Tudo bem – ele tentou parecer o mais resignado possível – já que está bem vou ao escritório trabalhar.

Ele cruzou por Allan, que mantinha as mãos no bolso, e sumiu de vista.

-Ian ficou enciumado – o loiro comentou com a amiga.

-Você tinha que ter dito para ele que me viu sem roupa? – ela perguntou de supetão.

-É mentira por acaso?

Mairi iria responder, quando percebeu algo no amigo. Allan estava pálido. Dando um passo a frente, ela tocou com a mão no rosto dele.

-Esta febril. Por que não me disse que se sentia mal?

-Estou ótimo! –ele reagiu contrariado. – Vou deixa-la dormir.

Mas Allan sabia que agora que ela percebeu que ele pegara um resfriado, não o deixaria em paz. Por isso que ele sempre fingia que estava tudo bem, mesmo quando não estava.

-Você precisa descansar.

O puxando pelo braço, ela praticamente o arrastou até o quarto.

-Mairi, é só um resfriado. Me solta, Mairi!

Mas quando se deu conta, já estava na cama. Os sapatos postos ao lado do móvel e as roupas sendo arrancadas. Ele quase riu. Sempre imaginou ela arrancando suas roupas! Mas não daquele jeito e com um olhar severo. Logo foi vestido com um pijama como se fosse uma criança.

-Só para lembra-la, seu filho é o que esta na sua barriga.

-Não é à toa que Ian e você são irmãos. Dois teimosos que não admitem quando precisam de ajuda. Não quero você fora desta cama!

-Por que não desce lá em baixo e conta pra ele de uma vez – disse irritado com a maneira natural com que ela falou do segredo – quem sabe Ian não corre aqui em cima e me chama de maninho.

Erguendo os ombros, Mairi fez pouco caso com a evidente irritabilidade de Allan.

-Pois eu acho que iria acontecer isso mesmo. Você defende tanto Ian, mas tem medo de falar a verdade para ele.

-Não posso Mairi. Nunca mais poderia ser amigo dele. Você tem razão quando diz que eu o temo. Sinto pavor só de pensar que ele possa chegar a conclusão que eu só me aproximei dele para tirar vantagens.

-Este pensamento é um absurdo! Vocês eram praticamente crianças quando se conheceram!

De repente Allan se sentiu muito cansado. Era um abatimento físico, mas também psicológico. Viver uma mentira e amar tanto alguém como ele amava Ian, sem poder lhe falar que eram irmãos, sempre foi algo difícil. Depois se apaixonar pela mulher que se casou com o mais novo. Tudo parecia uma teia embaçada de sentimentos desencontrados.

Mairi pareceu perceber esta reação em Allan e cobrindo-o com o cobertor, deu-lhe um beijo na testa.

-Descanse querido. Agora é a minha vez de cuidar de você. Ficarei atenta a qualquer barulho. Só não ficarei no quarto porque reconheço que sou tagarela e não resistiria a conversar.

Ele sorriu ao vê-la sair.

ºººººººººººººº

A capa era áspera pelo pó que se acumulara lá nos quase dois anos em que o diário ficou escondido.

Usando um pedaço de pano velho Mairi limpou o mesmo. Sem mais nenhum motivo para tardar a abertura do diário, ela enfim ganhou coragem.

A primeira página que abriu era uma das primeiras do grosso volume.

“Hoje irei morar na casa dos McGreggor. Ian, meu futuro marido, ainda se encontra em Londres e provavelmente não virá me conhecer até próximo ao noivado. Sei que posso me apaixonar por ele, mas algo me diz que não acontecerá assim. Não quero este casamento... quero ser livre... liberdade é tudo que anseio...”

Mairi fechou os olhos por um momento. Quase podia enxergar a jovem Eleanor chegando na casa. Lembrava bem deste dia. Era uma moça de estatura mediana que parecia assustada com a nova vida. Quando os olhos das duas se encontraram, a loira sorriu. Ninguém nunca havia sorrido para a empregada antes...

Pulando algumas páginas (mais tarde ela leria tudo com calma), Mairi avançou no diário.

A menina dos olhos cor de mar se chama Mairi. Fora Perpetua que me contara, mesmo deixando claro que não poderia falar com ela. Fiquei triste, pois gostaria de me tornar amiga da linda moça... Sinto pena de nós duas”.

Nunca vi Mairi sorrindo... Será que ela possui algum problema na boca?”

Pousando uma das mãos nos lábios, Mairi chorou silenciosamente. Como poderia sorrir se naquela época a felicidade era algo surreal dos livros de Scott?

Aconteceu algo tão estranho. Olhava as nuvens pela janela quando vi uma carroça aproximando-se do castelo. Observei Mairi correndo em sua direção e pegando legumes de lá. Uma cena comum se não fosse pelo rapaz que desceu da carroça e falou com ela. Quem será que era? Era pobre, pelas roupas deixava isso muito claro. Mas tinha uma beleza incomum. Os cabelos eram tão negros e cacheados, e o porte altivo. Mairi tem sorte em ter um namorado tão bonito... Será Ian belo assim?”

Surpresa Mairi se surpreendeu em perceber que Eleanor a considerava uma rival pelo amor de Benjamin. Quão longe isso estava da verdade! Ela se apaixonara por Ben, era verdade, mas nunca tentou nada com ele. Como Eleanor, que era presa pelas circunstancias, ela não tinha o direito de amar, presa pela miséria.

Ele não namora Mairi! E se chama Benjamin... conversamos por alguns minutos próximo a porta da cozinha. Desci especialmente para vê-lo. Ben é tão lindo que dói o coração... estou apaixonada por ele... como pode ter isso acontecido?”

As páginas seguintes desenrolavam o que devia ter sido uma linda história de amor. Eleanor contou sobre a perda da virgindade e até descreveu algumas vezes em que eles se deitavam juntos, tanto na mata quanto em um hotel barato da cidade. Mairi se surpreendeu com aquilo, pois na única vez em que ela se deitou com um homem, não gostara nada da experiência. Mas Eleanor parecia ficar fascinada.

Mas então após uma pausa nas datas, algumas páginas pareciam suplicantes... apenas palavras desencontradas..

Eles querem que eu mate meu bebê... não farei isso... não me importa o que aconteceu no passado... nunca me importará!”

Benjamin e eu iremos fugir. Sei que ele me ama... esta apenas sendo... sei que ele também quer o filho... nós vamos fugir e iremos ser felizes com nosso bebê...”

As vezes sinto medo do que podem fazer...”

Hoje é meu casamento... Benjamin não quer fugir. Disse que poderemos viver as custas do dinheiro de Ian e sermos amantes. Ele me quer, mas não quer compromisso... e quanto ao bebê, para ele é algo certo que irei matar a criança. Não vou abortar! Estou grávida a tão pouco tempo... posso fingir que Ian é o pai”

As demais páginas que se seguiam estavam em branco.

Céus! Eleanor estava grávida. O monstro que a matou, matou não apenas a ela, mas também ao filho que ela esperava.

Como podia existir tamanha crueldade no mundo?

Eleanor deixava claro que “eles” exigiam que ela abortasse. Uma destas pessoas poderia ser Benjamin, e o conhecendo, Mairi sabia que ele queria isso para não ter que assumir filho nenhum. O jovem era inconseqüente, irresponsável. Mas isso não o tornava assassino da amante?! Ou tornaria? Mas por que ele mataria Eleanor se ela já estava certa de fingir que o pai era Ian?

E quem era a outra pessoa?

ºººººººººººººº

Ian levantou-se ao ver Mairi chegar a sala. O jantar estava pronto já há alguns minutos, e era a primeira vez que ela se atrasava.

-Onde esta Allan? – perguntou a ela gentilmente.

-Está resfriado. Teve febre à tarde, mas já esta bem melhor. Só precisa descansar. Mais tarde levarei uma sopa para ele.

Ele assentiu.

-E você?

-Estou bem – ela respondeu.

Mairi serviu-se das batatas ao molho de espinafre. Tentava encontrar um jeito de abordar o assunto com Ian. Decidiu ser direta.

-Ian. Encontrei o diário de Eleanor hoje enquanto limpava o antigo quarto dela.

O moreno quase engasgou com a revelação.

-Um diário?

Por alguns momentos ele pareceu absorver a informação.

-Sim. Vou entregá-lo a polícia. Talvez ajude de alguma forma. Você sabia que ela estava grávida?

Ele arregalou os olhos.

-Não. Meu Deus! Foram dois assassinatos ao invés de um!

-Sim... muito triste esta situação. Agora que estou grávida, compreendo melhor os sentimentos de Eleanor.

-Como assim?

-O fato de ela não querer ficar longe de Benjamin e não querer abortar a criança. Um filho do homem que se ama é a coisa mais importante da vida de uma mulher.

Ian mal podia acreditar no que seus ouvidos escutaram. A mulher a sua frente era a mesma Mairi que tímida e inocentemente lhe declarara seu amor há tanto tempo atrás. De repente Eleanor grávida e assassinada ficou em segundo plano. Todo o passado parou de existir. A única coisa importante era os dois, juntos, conversando na sala de jantar.

-E nosso filho? É a pessoa mais importante da sua vida?

-Sim, é o filho do homem que sempre amarei.

Mairi não poderia dizer a si mesma que as palavras escaparam. Ela pensou para falar. Não queria mais se esconder atrás da fingida indiferença. Uma parte dela se culpava pela declaração, mas outra estava aliviada. Era desgastante ficar fingindo que o odiava. E pra quê? O que ganhava com isso?

-Também sempre amarei você Mairi...

Ela lhe sorriu. Isso fez com que Ian se tornasse mais ousado para tirar dúvidas da sua mente.

-Acha que um dia poderemos voltar a ser um casal normal?

Ela sabia exatamente o que ele queria dizer com “um casal normal”.

-Não sei, Ian. Tenho medo. Foi horrível da primeira vez.

-Aquilo não foi um ato de amor, mas sim uma agressão, uma brutalidade. Mesmo que eu viva mil anos nunca poderei me desculpar o suficiente pelo que fiz.

-Já o perdoei. –ela disse sinceramente.

-Mas é importante que saiba que podemos ter uma vida normal se me der uma chance de...

Ele não terminou a frase. Perpetua entrou na sala para buscar os pratos e servir o café. Mairi estava completamente enrubescida, mas Ian não poderia parar agora que tivera coragem de tocar num assunto tão delicado com ela.

Assim que a governanta saiu, ele voltou a atenção para a esposa, segurando-lhe as mãos.

-Mairi, precisamos tentar...

Ela lhe olhou assustada.

-Não consigo. Tremo só de pensar. Entendo o que diz, quando fala que o que houve não foi algo normal. Mas a verdade Ian é que houve um ato sexual e este ato é o que me apavora.

-Nós podemos começar desde o início...

-Do que esta falando?

-Podemos fazer amor sem a penetração.

Mairi ficou completamente vermelha e Ian viu que foi longe demais. Mas precisava falar senão iria enlouquecer. Já abria a boca para pedir desculpas quando a voz dela o surpreendeu:

-E existe uma forma de fazer isso?

Ele achou que fosse explodir de tanta felicidade. Então Mairi também queria ter um relacionamento normal entre eles?

Sim, ela queria! Mairi tremia de vontade de tocar Ian, abraça-lo. Fora seu primeiro amor e seu relacionamento enquanto ela era empregada no castelo lhe deu uma amostra do caráter dele. Era um bom homem! A respeitou naquela época. A respeitaria agora.

-Existe sim.

Foram interrompidos mais uma vez. Mas quem entrava na sala agora era Jane com uma bandeja.

-A senhora gostaria que eu levasse a sopa ao Sr. Hatton?

Ian sentiu vontade de abraçar a empregada pela ótima idéia. Mal podia se agüentar para subir ao quarto com a esposa, e, além disso, Jane faria uma ótima companhia para Allan.

-Não, eu farei isso. – Mairi interrompeu seus pensamentos.

Ele quase amaldiçoou o melhor amigo, mas percebeu que seria muita infantilidade. Acompanhou com os olhos Mairi se retirando e indo dar comida a Allan. Com os cotovelos na mesa, ele segurou a cabeça com as duas mãos. Essa mulher o deixaria louco!

-Senhor... Se sente bem?

Levantou os olhos e viu Jane posta a sua frente.

-Me sinto ótimo. Vou dormir.

Ian retirou-se da sala deixando a empregada sozinha. Ele não parecia doente, pensou ela. Mas estava estranhamente desanimado.

Retirando as xícaras de café que ainda estavam na mesa, ela foi até a cozinha terminar de limpar as coisas. Ainda precisava ir para casa. Lógico que podia dormir no castelo, mas tinha medo das assombrações que lá existiam.

-Acho que será uma longa noite... –ela suspirou.

E acertou. Seria, definitivamente, uma longa noite.


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XX

Por Josiane Veiga

O vento batia na janela demonstrando sua força e frieza. Lá fora os animais noturnos deixavam sua marca através dos sons e a vida corria seu curso naquele inverno tenebroso.

Allan Hatton fechou os olhos amaldiçoando a própria saúde que lhe dera uma bela rasteira. Quem diria que ele fosse pegar uma gripe e ficar com febre? Logo ele que se alimentava tão bem, evitando alimentos com carne e seguindo a risca as últimas novidades da medicina natural! Suspirando, ele aconchegou-se mais na cama.

-Abra a boca!

Ele olhou Mairi a sua frente com um prato de sopa e cerrou os dentes.

-Não vou comer isso Mairi! Parece uma gosma verde!

-É sopa de espinafre.

-Parece vômito de sapo! Por que você não esquece esta sopa e me traga algo mais sólido. Talvez eu consiga engolir.

-Sua garganta esta inflamada. Jane fez essa sopa com tanto carinho pra você.

Ele pareceu prestar atenção na noticia.

-Foi Jane que fez?

-Sim.

-Bom...Então talvez eu coma um pouco.

Mairi sorriu e lhe serviu a sopa em colheradas. Na cabeça dela, Allan estava começando a gostar da empregada. Mero engano, Allan não se importava com quem preparasse seu alimento, só não queria que fosse Perpetua. O que ele temia é que a governanta lhe envenenasse. Estranhamente, a antipatia pela mulher estava tão forte que Allan já imaginava que ela havia assassinado Eleanor.

-Esta boa?

-Esta – ele respondeu com o pensamento longe.

Após cuidar do amigo, Mairi levantou-se. Cobriu o loiro com o pesado cobertor de lã que estava na cama e lhe beijou a face.

-Boa noite, meu querido. Espero que amanhã esteja melhor. Tenho tantas coisas a lhe contar.

Dizendo isso ela saiu do quarto. Allan ficou observando o teto e imaginando o que Mairi queria lhe dizer com a última frase, mas o primordial era como provar que a governanta era a pessoa responsável por todos os crimes que aconteceram em York. Iria apagar a vela da cômoda, quando uma leve batida na porta chamou sua atenção.

-Entre – ele disse já sabendo de quem se tratava.

A jovem bela e audaciosa, que se chamava Jane entrou no quarto sorrindo. Os dois se encararam por alguns momentos.

-Fiz tudo como mandou, senhor. Agora irei para casa.

-Esteja de olho para mim que será bem recompensada no final.

-Sei disso senhor. Obrigada pelo dinheiro dentro da minha sacola. Levei um susto ao perceber que havia me agraciado com sua oferta depois de ter fugido de mim esta tarde.

-Você percebeu? – ele perguntou surpreso e um tanto envergonhado.

Não havia reparado que fora tão obvio ao não querer nada com a mulher.

-Não sou tola. Não irei mais lhe importunar com minhas atenções. Sei para quem seu sentimento é destinado.

Ele assentiu. Curvando-se Jane já ia sair do quarto, quando a voz de Allan a fez parar:

-Não se esqueça. Mairi não coloca nada na boca sem que você tenha visto antes.

-Sim Senhor.

-Seu trabalho será por pouco tempo. Se tudo der certo, amanhã mesmo já voltarei ao meu posto de vigiar a cozinha.

Jane então se foi. Allan logo adormeceu. Estava tudo seguro. Assim ele esperava.

ººººººººººººººº

Ian estava deitado na enorme cama, olhando para o teto, com as duas mãos segurando a cabeça e o lençol sobre o tórax firme.

Que raiva”, ele pensou lembrando-se de Mairi.

Por que ela resolvia ser uma freira caridosa logo nesta noite na qual ele ansiosamente esperava partilhar o leito com a esposa?

Ainda na sala de jantar, tinha esperanças de que, após servir Allan ela viesse ao seu quarto. Esperou, mas nada. Ouviu pouco antes a porta do quarto dela sendo aberta e percebeu que sua mulher estava indo ao próprio dormitório, descansar.

Mais uma noite de insônia! E não seria a primeira!

Mas sua atenção foi-se para a porta de ligação. Um barulho denunciou que alguém a abria. Era Mairi!

Animado, ele a viu entrando no quarto. Ela usava uma camisola branca e um penhoar de lã por cima. Estava linda, com os longos cabelos acobreados cascateando pelos ombros e os olhos brilhantes, antecipando o que viria.

-Pensei seriamente no que me disse... – ela começou, mas parou para tomar fôlego.

Estava nervosa, ele percebeu ao vê-la umedecendo os lábios com a língua. Era natural que estivesse após tudo o que havia acontecido entre eles. No fundo, era como se fosse ainda uma virgem, já que nunca havia realmente vivido uma noite de paixão. A barriga dilatada deixava claro que era uma mulher. Mas não experiente. E tudo por culpa dele.

-E chegou à conclusão que... ? – ele tentou ajuda-la.

-Que eu quero viver uma vida normal de casados com você. – ela disse corajosamente.

Um sorriso despontou nos lábios de Ian e ele levantou-se. Aproximando-se da esposa, percebeu que ela tinha a respiração acelerada. Sentia medo? Ian a admirou mais ainda, por estar lutando contra todos os seus temores e demônios. Mairi era uma guerreira e lhe dava uma nova chance. Mesmo que lhe doesse, nunca mais poderia decepciona-la.

-Amo você – ele disse tentando transmitir confiança.

Ela baixou as pálpebras e ele a viu numa batalha triste contra sua própria vontade. Ian sabia que ela queria sair correndo, mas ficava. Ereta, ela enfrentava o que viesse.

-Fique calma, Mairi. Esta me deixando nervoso...

-Isso é mau – ela disse sorrindo – os dois nervosos não é o ideal.

-E qual é o ideal?

-Ora, você nunca leu nos livros? O homem é o experiente, que guia. E a mulher é a guiada, o ser criado para servir seu marido.

Ele riu.

-Não consigo imaginá-la tão abnegada.

-Que bom. Porque nunca serei assim...

Maravilhado com o senso de humor dela, mesmo numa situação tão constrangedora, ele baixou a fronte. Os lábios tocaram-se e a saudade despontou. Já fazia tanto tempo...

Segurando os ombros de Ian, Mairi entregou-se ao beijo. Aquilo sim era bom. O que viria depois era detestável, ela bem sabia, mas pelo menos, tinha este começo, que ela adorava. Sentiu quando Ian segurou-lhe a cintura e lhe apertou contra ele. Sem ar, ela separou as bocas para respirar.

As testas de ambos se encostaram. Então seus olhos se encontraram. Pedidos mútuos foram trocados naquele momento. Ela queria algo, mas não sabia o quê. A única certeza era que não fosse o ato praticado no dia em que engravidou.

-Você é linda... – o ouviu dizendo.

Linda não seria bem a palavra para descrever a si mesma, Mairi pensou. Não era uma beldade, mas também não era feia em excesso. Era normal. Mas Ian parecia sincero no elogio, então ela apenas sorriu de satisfação.

Os dedos de Ian subiram até a fita que prendia o penhoar. Desamarrando o laço, ele abriu o tecido. Mairi então sentiu o ar frio contra a pele. Arrepiou-se no ato. Mas o arrepio, estranhamente, não era desagradável. Muito pelo contrario, era delicioso.

-Estou enorme não?

Os olhos de Ian desceram até sua barriga. Estava dilatada. Mas formava algo único. Era adorável observar sua mulher grávida de seu filho. Logo as mãos seguiram o caminho traçado pelos olhos. Era a primeira vez que ele tocava a barriga dela após a gravidez.

-Qual a sensação?

-É pesado. Mas é muito bom. Às vezes, posso senti-lo, mas não comento com ninguém. É algo tão meu. Não trocaria a chance de ser mulher e passar por essa experiência com ninguém.

-Invejo você – ele foi sincero.

Ela riu.

-Ah, mas esqueci de mencionar os enjôos, vômitos, tonturas, inchaços...

-Já basta! – ele disse acompanhando a risada dela – Você me convenceu! Não a invejo mais.

E voltou a beijá-la.

Traçando os lábios polpudos com a língua, Ian aproveitava o momento tranqüilo para deslizar as mãos pelas costas. Ela era tão firme e quente que ele pensou que derreteria se não a possuísse nesta noite.

Mas não posso” – disse a si mesmo.

Então se limitou a acariciá-la. Já era um progresso, reconheceu. Com a mão livre, tocou-lhe o queixo e o ergueu um pouco para poder invadir a boca dela com a língua. Mairi gemeu e ele quase perdeu o controle.

Afastando-se um pouco, tentou respirar.

-Mairi... vamos deitar?

Ela arregalou os olhos, mas assentiu. O fato de ter concordado em ficar numa posição horizontal ao lado de Ian, já lhe fazia tremer inteira, mas precisava ser forte. Fora ela que abriu a porta que ligava os quartos, e foi ela que aceitou estar ali.

E enfim, o momento doloroso começava. Os beijos, que eram tão doces e gostosos, acabavam e agora era à hora de ela ser mulher de novo. Sentiu que todo o corpo gelava e afastando-se de Ian, aproximou-se da cama. Sobre o olhar intenso dela, afastou as cobertas e deitou-se. Sob o olhar espantado do marido ela aguardou fechando os olhos.

Mas Ian tinha outros planos para eles, apesar de estar envergonhado demais para falar sobre os mesmos. Talvez quando toda a desconfiança não existisse mais entre eles, a conversa sexual fizesse parte da rotina do casal. Mas agora era muito cedo.

Aproximando-se da cama, Ian sentou-se próximo aos seus pés. Pegando o tornozelo da mulher, ele o levantou até o lábio.

-Abra os olhos, meu amor.

Incrédula, Mairi observou Ian beijar seu tornozelo. Era um ato tão sem pretensões, mas um calor estranho apoderou-se dela naquele momento. Encostando-se no travesseiro ela suspirou.

-O que esta fazendo?

-Gosta?

Oh sim, ela gostava muito. Nunca em sua vida pensara que ver Ian lhe beijando o tornozelo, pudesse trazer sensações tão boas.

-Não entendo o porquê de estar fazendo isso – ela balbuciou ainda sem jeito.

-Quero mostrar pra você que existem varias formas de fazer amor...

Ainda sorrindo e tentando lhe transmitir confiança, Ian aproximou-se de Mairi. Com os lábios sedentos, beijou-lhe a face, mas logo desceu ao pescoço. Tudo era fora da compreensão dela, mas admitia que fosse maravilhoso. Quando ele chegou-lhe a curva da nuca, seu corpo inteiro arrepiou-se e ela segurou-lhe nos ombros dele, tentando manter o controle.

Assustada, ela percebeu que o próprio corpo pareceu ganhar vida própria, e ia contra o do marido. Estava tão absorvida nos próprios movimentos contra o de Ian que só percebeu que ele lhe arrancara a camisola, quando esta voou contra o chão.

Estava nua! E não conseguia sentir vergonha nenhuma de estar sem roupa sob os olhos famintos de Ian. E mesmo no inverno inglês, o corpo queimava numa angustia que ela desconhecia.

Percebeu que os dedos dele que lhe acariciavam a barriga, deslizaram para sua própria roupa. Logo Ian tirava o pijama de seda e a peça foi fazer companhia à camisola de Mairi.

A mulher dos olhos claros ficou sem fôlego ao vê-lo assim, só de cueca. Como um homem pode ser tão firme e bonito? Então foi a fez dela toca-lo para ter certeza que não era uma miragem que sumiria assim que ela recobrasse a razão. Os dedos da mão direita brincaram com os pêlos claros e macios do peito enquanto os dedos da outra mão acariciavam a pele quente.

Quando seus olhos encontraram os de Ian, ela sorriu.

-Por que esta me olhando assim? – perguntou para ele.

-Assim como? – Ian pegou um de seus dedos e começou a chupá-los.

-Assim como se fosse me comer aos pedaços.

Ele gargalhou e a sensação de sentir o corpo grande dele, tremendo com o riso sobre si, fez Mairi arquear as costas e gemer.

Cada movimento, por mais inocente que fosse entre eles, despertava sensações proibidas.

-Mairi.. você confia em mim?

Essa era uma pergunta que com certeza Mairi tinha dificuldades de responder, mas seu corpo pulsava tanto que ela nem raciocinava mais, então apenas concordou com a cabeça.

Ian então agiu. Primeiro ele deslizou os dedos sobre os pêlos úmidos da mulher e a acariciando na sua parte mais intima. Baixinho Mairi gemia. Com o outro braço, ele apoiou-se na cama e a observou. Ia enlouquecer de paixão ao vê-la tão delicada, tão feminina e tão a sua mercê. Poderia possuí-la se quisesse (ela estava pronta para aceita-lo), mas havia dado sua palavra e num passado recente, ele já havia falhado. Isso não aconteceria mais! Então retirou a mão dela e a deslizou para uma das pernas, a levantando um pouco, encaixando a própria coxa no centro da feminilidade da esposa. Percebendo a reação de espanto dela, Ian murmurou palavras de conforto e lhe disse que tudo ficaria bem.

Movimentando a coxa para cima e para baixo, Ian começou um movimento próximo ao sexo, mas sem penetração. E deu certo! Mairi gemia e suava sentindo sua parte mais íntima ser pressionada com movimentos eróticos pela coxa forte e os pêlos negros que se misturavam aos caracóis dela. Para a sorte dos dois, a barriga enorme dela, não atrapalhava em nada e eles conseguiam ficar bem próximos, entregues.

Beijando a boca de Mairi, ele a impediu de gritar, quando sentiu que os movimentos de ondulação dos quadris dela contra sua coxa eram mais rápidos. Os bicos dos seios, duros e rígidos, esfregavam-se contra o peito moreno e então, tudo nela explodiu em mil estrelas.

Nunca havia sentido aquilo. Nunca um prazer tão intenso a encontrou e então ela soube que queria estar com Ian durante toda a sua vida e viver aquilo para sempre.

Ian percebeu quando ela chegou ao gozo, e lutando para manter o controle, ele caiu do lado, mas de bruços. Apertando o pênis duro e excitado contra o colchão, respirou pausadamente durante alguns segundos. Não podia se satisfazer com ela, porque só estava começando o trabalho de reconquista-lá, então tinha que ter paciência e ficar feliz apenas por lhe dar prazer.

-Ian... –ela o chamou baixinho.

Virando o rosto para ela, o Lord sorriu.

-Sim, meu amor?

-E o resto?

Ele viu nos seus olhos a satisfação pelo que tivera, mas também o medo pelo que ainda viria.

-Ainda não esta pronta para o resto, Mairi. Um dia talvez... e quando estiver, garanto que vai gostar.

Ela respirou aliviada.

-Mas e você?

-Agradeço aos céus por estar com você do meu lado – ele murmurou.

Abraçando sua mulher e acariciando sua barriga, Ian a aconchegou. Quando ela finalmente dormiu, ele se permitiu descansar, mas não fechou os olhos a noite toda.

ººººººººººººººº

Mairi entrou no quarto de Allan carregando uma bandeja com o café da manhã. Colocou a mesma sobre uma cômoda que ficava ao lado da cama e foi até as janelas. Quando puxou as cortinas, percebeu o sol entrando com força no aposento. Sorrindo notou que até o dia comemorava sua felicidade.

Há quanto tempo não sentia tanta paz? De madrugada acordou e refez novamente os mesmos carinhos com o marido. O prazer que sentiu desta vez foi ainda maior. Talvez valesse a pena permitir que Ian a possuísse se continuasse a sentir os mesmos deleites.

-Vamos, seu dorminhoco! Já é dia, acorde! – disse ao loiro.

Mas algo estava errado. Allan não reclamou como sempre fazia quando era despertado, mas estava acordado, já que tremia na cama. Aproximando-se dele, viu que apesar do tremor estava muito vermelho, quente. Colocou a mão sobre a testa dele e percebeu a febre. Assustada ela correu até o escritório de Ian. Entrou sem bater.

Ele estava trabalhando nos livros de contabilidade da fazenda, quando viu a mulher entrando. Ia se levantar para beijá-la, quando percebeu os olhos úmidos.

-O que houve?

Ainda era muito cedo. Talvez umas sete horas da manhã, horário em que nenhum outro nobre se levantava, então, não poderia ter acontecido algo de tão ruim tão cedo?

-Allan! Ele piorou. Está com muita febre...

As palavras dela o tiraram do êxtase de vê-la. Ian então correu corredor acima. Chegou ao quarto tão rápido, mas quando olhou para trás, percebeu que Mairi o acompanhou na mesma velocidade.

Aproximando-se da cama, ele perguntou:

-Allan, esta me ouvindo?

O loiro gemeu baixinho e continuou a tremer. Ian já sentia o coração quase parando no peito, quando as palavras dele o acalmaram:

-Vou morrer Ian.

Quase riu com a frase de Allan. Os dois sabiam que uma febre não matava e esta era uma das frases que diziam um ao outro quando um deles ficava doente. Mas quando Ian ouviu o choro de Mairi nas suas costas, teve que acalma-la.

-Allan, Mairi esta aqui e ela acha que é sério.

Então a voz do loiro mudou um pouco.

-Só estou fraco Mairi.

-Não é melhor chamar um médico? – ela perguntou a Ian

-Sim, vou fazer isso agora. De Lá Tere, o doutor que cuida de minha mãe ficou de vir aqui hoje para medicá-la, mas mandarei um serviçal avisá-lo para se adiantar.

Aquilo pareceu tranqüilizar Mairi.

Mas não foi por muito tempo.

Mais tarde, quando Brian de La Tere chegou para medicar Dorothea, encontrou a nova Lady do palácio caminhando de um lado para o outro, desesperada por causa do amigo. Mas as noticias não foram boas. Uma epidemia forte de gripe estava ocorrendo na região de Yorkshire e muitas pessoas haviam sido atingidas, principalmente os camponeses.

Ian providenciou recursos para o doutor cuidar dos seus subordinados, afinal, era o Lord da região. Mas se preparou para o momento ruim que se iniciaria. Uma peste sempre era um grande temor para o responsável pela região.

Dentro de casa, as notícias continuaram ruins. Quando Brian entrou no quarto de Dorothea, percebeu que a mesma também havia adquirido a doença.

-Mande outra menina para a cozinha, Jane. Quero que me ajude a cuidar de Allan e de Milady Dorothea. – disse Mairi à empregada assim que elas se encontraram no corredor.

Assustada, Jane tentou ganhar coragem.

-Desculpe senhora, mas prefiro cuidar da cozinha.

Nunca antes havia discordado de uma Lady, mas Jane poderia ganhar muito dinheiro só por permanecer de olho em Perpetua.

-Mas Jane... Preciso de você.

Mairi ainda não havia adquirido a autoridade de Lady, e talvez nunca adquirisse, então tentou convencer a criada. Não deu certo.

-Desculpe senhora. Mas talvez outra moça possa ajudá-la.

E assim foi.

Jane falou com uma amiga e esta ajudou Mairi com Allan e Dorothea.

Os dias começaram a se tornar uma sucessão de cuidados. A esposa de Ian levantava-se cedo, passava o dia todo cuidando dos doentes lhe trocando as roupas e alimentando, e a noite ia ter com o marido.

A relação dela com Ian não havia mudado muito na cama. Ele se recusava a se satisfazer e ela não insistia. Mas temia que o marido se cansasse da situação e a largasse, o que era ridículo.

Num dos raros momentos juntos, naquelas últimas duas semanas, os dois sentaram-se a mesa de jantar.

-Estou preocupado com você – Ian lhe disse.

-Por quê? Estou bem, a gripe não me atingiu.

-Mas esta grávida e a barriga cresce a olhos vistos. Deve ser pesado. Por que não deixa minha mãe e Hatton aos cuidados de uma enfermeira.

-Não Ian, e não insista. Ninguém cuida de Allan a não ser eu! E sua mãe é tão frágil... não quero que passe pela humilhação de ser tratada por uma estranha.

Ele lhe segurou as mãos.

-Sinto orgulho de sua força, mas temo pela sua própria saúde.

-Fique tranqüilo – ela lhe beijou levemente os lábios – estou ótima.

Sem perceber, Ian mudou o assunto.

-Gosta muito de Allan, não?

-Sim... você também. – ela riu.

Sem entender o porquê de colocar palavras ciumentas numa conversa tão amistosa, Ian concordou com ela.

-As coisas ficaram tão preocupantes nestas últimas semanas que acabei esquecendo de lhe contar que já mandei avisar Steph Morris que você achou o diário de Eleanor. Estranho ele ainda não ter aparecido por aqui.

-Você conseguiu ler o diário inteiro? Tem alguma pista?

-Infelizmente não. A única novidade era o fato de Eleanor estar grávida.

-Como ninguém desconfiou disso antes?

Mairi bebeu a água tentando engolir o alimento. Pensar que um bebê morrera inocentemente pela maldade de alguém era algo forte demais para ela.

-Acho que ninguém se atreveu em falar que a Lady não era virgem. – Ian passou o guardanapo na boca e a encarou – Esta cansada?

A pergunta tinha dois significados, mas Mairi preferiu deixa-lo em expectativa.

-Vamos subir? – ela perguntou sorrindo.

De mãos dadas foram ao quarto. Eles não sabiam, mas esta seria a última noite de paz, por um bom tempo...

 

Continua...

 

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