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E S P E C I A L Machado Freire
Uma das coisas que mais enchem um profissional de satisfação é o reconhecimento sincero àquilo que ele faz. E foi você, Celestino Gomes, quem melhor definiu (com a pureza de sentimentos que Deus te deu), uma matéria que eu fiz sobre a tua abnegação pela pintura, publicada no Diário de Pernambuco, com título ‘Celestino mundo afora, pintando igrejas e cabarés’ Isso foi lá pra década de 70 e fazia poucos dias que havíamos nos conhecido. Tratava-se de um relato sobre um talento extraordinário nascido ali na beira do rio, o São Francisco, e que pertencia à grande prole de seu Zequinha, homem simples nascido na roça, um berradeiro de verdade. Eu ainda não havia provado do peixão e do caldão de surubim e Cari (que preparavas na tosca cabana coberta de mato, localizada no centro de Petrolina), era servido festivamente a tantas pessoas amigas, de intelectuais a gente do povo. Nós também não havíamos feito aquele movimento sui generis ao lado da Catedral – uma noite que ficou na história – onde armamos uma barraca e servimos paçoca com aluá às pessoas que trocavam alimentos não perecíveis (já naquele tempo) por um perfil do rosto delas que tu traçavas em bronze. Pois bem, caro amigo, tu também ainda não havias escrito teus dois trabalhos, da Roça a Roma e de Roma a Roça - ‘Sparita’. E este último tu me presenteastes com um exemplar no penúltimo encontro casual que tivemos na Praça Chora Menino, no Recife, em 20 de maio de 2003, exatamente um ano e um mês antes do teu Adeus para sempre. Deixastes um autógrafo carinhoso, original, singelo e puro como eras: "Para meu amigo Machado Freire, lembrando também as alegres horas, "regadas" com meropéia" Na oportunidade, fiz questão de ficar com uma eterna lembrança: bati uma foto tua que publiquei (e republico agora) nesta Folha do Sertão. Nosso último encontro também foi casual, numa madrugada de fevereiro, no hall do Aeroporto de Petrolina (ali onde deixastes aquele belo painel sobre a aviacão). Tu partias para o Recife para o último tratamento de saúde. E no dia 21 de abril Deus te levou de volta para ficares para sempre perto do Velho Chico. Reproduzo aqui a última frase do teu segundo livro: "Tinha meu pai olhos azuis esverdeados, de tanto ver o céu e o rio. A gota de lágrima que teimava cair em sua face, era o orvalho do rio São Francisco. O rio que amamos". E esta gota de lágrima também teimou em cair dos meus olhos. Mas eu prefiro ficar com a alegria e a satisfação imensa de ter te conhecido como um grande amante do nosso Nilo sertanejo. É o destino, é a vida, somos todos nós... e Luis Manoel Siqueira (geólogo e escritor) que prefaciou o o último livro do pintor-escritor disse na última frase do seu texto: "A terra da ternura. É o que o sertão vai ser quando Celestino for embora, realizando mais sonhos e trabalhos."
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