O Venerável Giorgio la Pira e o Ex-Presidente da República Italiana Óscar Luigi Scálfaro: dois entusiastas da Alexandrina

 

G. Amorth refere-se com estas palavras a Giorgio la Pira:

 Onorevole Giorgio La Pira «Eu, nessa época, conhecia pouco a sua vida (de Alexandrina): a imobilidade na cama e aquele viver prolongado, somente com a Eucaristia, que tinha encantado Giorgio La Pira a ponto de falar disso com entusiasmo num livro seu, «Lettere alle claustrali» (Vita e Pensiero, 1960, pág. 220-225), e de se ter tornado promotor de subscrições em favor da sua causa de beatificação.»

Menciona-o ainda ao menos num outro passo do seu livro, quando escreve, sobre os êxtases da Alexandrina, «que foram uma das suas características fundamentais e que nos deixaram, por estarem escritos, um rico património de “excepcional experiência mística”, como gostava de lhe chamar o Servo de Deus Giorgio La Pira».

E a Óscar Luigi Scálfaro refere-se assim:

«E também sobre ela escreveu o actual presidente da República da Itália, então deputado Óscar Luigi Scalfaro.»

Cuadro de texto: Giorgio la PiraIsto não seria muito se se não tratasse de dois grandes homens. O nosso conhecimento porém sobre eles é inteiramente elementar; vamos por isso transcrever apenas breves excertos das biografias respectivas que encontrámos na Internet.

Giorgio la Pira nasce em nove de Maio de 1904, no mesmo ano que a Venerável Alexandrina, de família humilde. Mas há-de formar-se em Direito. Falecerá em Florença a 5 de Novembro 1977.

Leia-se uma passagem da biografia deste homem que lutou activamente contra a ditadura fascista de Mussolini, que teve de fugir para não cair nas mãos da sua polícia secreta, que foi depois eleito deputado à Assembleia Constituinte em 1946:

«Em 1951 intervém junto de Estaline a favor da paz na Coreia. No princípio de Julho do mesmo ano, a seis anos do fim da guerra, foi eleito Presidente da Câmara de Florença. Ele afirmava:

"Um Presidente da Câmara é como um pai de família"; por isso, frente às emergências do tempo, o desemprego, os desalojados, a gente sem assistência, sobretudo os idosos, os doentes e as crianças, declarava:

"Se há um que sofre, tenho um dever preciso: intervir de todos os modos, com toda a capacidade que o amor sugere e que a lei fornece, para que aquele sofrimento seja diminuído ou suavizado. Outra conduta para o Presidente da Câmara em geral e para um Presidente da Câmara cristão em particular não há." Opõe-se por isso ao fecho das fábricas. Dizia efectivamente:

"O pão é sagrado; a casa é sagrada: não se toca impunemente nem num nem noutra! Isto não é marxismo: é Evangelho!"

Favoreceu a construção das "Casas mínimas", para dar um alojamento a todos e, utilizando uma lei de 1865, que permitia a requisição dos alojamentos a favor das vítimas dos terramotos, fez ocupar as casas abandonadas por quem não tinha casa.

Foi Presidente da Câmara de Florença de 1951 a 1958 e de 1961 a 1965; naquele período foram reconstruídas as pontes destruídas pela guerra, a ponte às Graças e a ponte à Santíssima Trindade; foi criado um quarteirão satélite, o Isolotto; foi reconstruído o Teatro Comunal, foi criada a Central do leite e foi ampliado o número das escolas. Para enfrentar o desemprego, fez com que a Pignone, com dois mil operários, que deviam ser despedidos, fosse absorvida pela Eni, e a Fonderia delle Cure, por ele requerida, foi transformada numa cooperativa; foram salvas do desmantelamento ainda as Officine Galileo.

Convicto defensor da paz, em plena "guerra fria", criou os "Colóquios internacionais para a paz e a civilidade cristã" em 1952.

Ele gostava de recordar a profecia do profeta Isaías: "As espadas serão transformadas em arados, o leão viverá com o cordeiro" e dizia que neste objectivo devíamos pôr a nossa acção com todas as nossas forças e a nossa inteligência. Para isto, em 1955, reuniu em Florença um encontro dos Presidentes da Câmara das capitais do mundo; assim, a 4 de Outubro, estiveram juntos o Presidente da Câmara de Paris e o Presidente da Câmara de Berlim, o de Washington e os de Moscovo e de Pequim. Foi naquela ocasião que o Presidente da Câmara de Moscovo convidou La Pira a visitar a sua cidade; o Presidente da Câmara de Florença disse ao Papa Pio XII que iria a Moscovo como embaixador de Cristo e da Igreja de Cristo, a expensas suas, e que o mérito era só de Deus e da Igreja de Deus. La Pira conseguiu fazer reunir Árabes e Judeus, Franceses e Argelinos nos Colóquios para o Mediterrâneo, enfrentando o tema da liberdade da Argélia e o da paz no Médio Oriente. Graças ainda a este seu empenho, a Argélia em 1963 conseguia a independência. A 17 Agosto de 1959 La Pira encontrou-se em Moscovo com Krutchev, que ficou muito impressionado com os colóquios. Em 1965, em plena crise vietnamita, Giorgio La Pira foi a Hanói onde teve um encontro com Ho Chi Minh; foi tratado o tema da paz e, depois de algumas tentativas, encontrava-se uma solução, honrosa para todos, para pôr fim ao conflito; todavia os acordos deviam ficar secretos. Mas um jornalista difundiu a notícia e tudo acabou. Alguns anos depois seria conseguida a paz sempre na base do acordo precedente.»

Fotografia ingranditaA ideia de promover um encontro dos Presidentes da Câmara das capitais do mundo por parte de um presidente que nem estava à frente duma capital leva-nos a recordar a dimensão mundial tão repetidamente presente nos escritos de Alexandrina, para quem até a sua cruz tinha um «peso mundial».

Já declarado venerável, está naturalmente em curso o seu processo de beatificação.

Se a nossa informação sobre o Venerável Giorgio La Pira já dependia em exclusivo da Internet, outro tanto se passa com estoutro lutador da liberdade, membro da Acção católica e militante da democracia-cristã italiana, homem público durante 50 anos.

Cuadro de texto: Óscar Luigi Scálfaro, outro admirador de AlexandrinaNascido a 9 de Setembro de 1918 em Novara, formou-se em Direito em 1941. Foi repetidas vezes deputado ao parlamento italiano e  integrou vários governos, inclusive como ministro dos Transportes e Aviação Civil com Aldo Moro, Giovanni Leone, Mariano Rumor e Giulio Andreotti (1968-1972); da Educação com Andreotti (1972-1973); e do Interior com o socialista Bettino Craxi (1983-1987). Com a queda do Governo Craxi, em Março de 1987, o presidente Francesco Cossiga pediu-lhe  que formasse um novo gabinete de coalizão multipartidário, mas face às dificuldades que encontrou deixou essa encargo a Amintore Fanfani.

Em 24 Abril de 1992, porém, foi eleito Presidente da Câmara dos Deputados e, a 25 de Maio do mesmo ano, Presidente da República, cargo que exerceu até 1999.

Com o seu histórico decreto de 16 de Janeiro de 1994 para a dissolução do Parlamento e convocação de eleições antecipadas, Scálfaro acelerou o final de cinco décadas de história de Itália e o advento de um novo regime, com novos partidos e novas regras de jogo políticas.

Em todo este tempo, Scálfaro erigiu-se em autoridade moral e "paladino da Itália honesta", no último destinatário da confiança de uma cidadania abalada pela infindável sangria de acusados e detidos por corrupção, entre eles a flor e a nata da classe política tradicional. Mais ainda, Scálfaro adoptou uma postura beligerante e animou o poder judicial a "aplicar o bisturi para sanar a peste bubónica" e "atacar as patologias que se haviam manifestado na gestão pública", entre outras inequívocas declarações.

No plano exterior, merece ser destacada a histórica viagem que Scálfaro realizou à Etiópia em 25 de Novembro de 1997, onde apresentou desculpas pelas atrocidades cometidas pelo Exército italiano quando invadiu o país em 1935.

Na Internet é possível ler vários discursos seus perante auditórios como o parlamento, a NATO ou a ONU. Para o nosso objectivo, tais discursos pouco interesse têm. Mas o mesmo já se não valerá para alguns parágrafos como os que vamos transcrever, do discurso da sua tomada de posse como Presidente da República. Nele se poderia dizer que ecoam palavras e sentimentos de Alexandrina, se não se tratar antes de uma atitude de ousadia e humildade mais genericamente cristãs:

«Depois do vosso voto, fechei-me em silêncio a meditar, a orar, para pedir luz e força e capacidade de sacrifício a Deus, em quem creio com tanta pobreza de coração. Fechei-me a pedir protecção e coragem àquela que, humilde e alta, mais que criatura, é Mãe de Deus e do homem. E ali, na meditação, pensei pedir a todos vós, a todos e a cada um indistintamente, que me ajudeis a colmatar as  minhas lacunas, a acrescentar a minha vontade, a serdes generosos nos vossos conselhos, a confortar a minha inabilidade.

Mas exactamente porque exprimi o sentido da minha fé religiosa, nesta sessão solene, quero manifestar o meu respeito face à fé religiosa do crente de qualquer outra fé ou frente à escolha de quem não acolhe no seu espírito pensamentos e valores transcendentes.»

Chegados aqui, podemos concluir que estes dois admiradores de Alexandrina, Giorgio La Pira e Óscar Luigi Scálfaro, honraram a Igreja e a Pátria com o seu pensamento e a sua acção, com uma honestidade em que ninguém ousou pôr mancha. Honraram também decididamente a nossa heroína.

 

 

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