Os escritos do P.e Leopoldino Mateus

 

 

 

Conhecemos poucos dados sobre o P.e Leopoldino. Foi certamente um orador de nomeada. Praticou algum jornalismo, nomeadamente escrevendo sobre a Alexandrina e algumas efemérides poveiras.

Perante a Alexandrina, teve, pelos vistos, um comportamento bastante legalista. Na Casa do Calvário, nunca terá passado duma pessoa respeitada, sem chegar a ser um amigo ou confidente. Em sentido estrito, nunca a dirigiu nem foi seu confessor.

Aquando da comissão nomeada pelo Arcebispo, não se colocou do lado da sal aproquiana; pelo contrário «foi o mais severo e o mais influente na decisão» (Dr. Azevedo) tão gravosa que então se tomou.

A sua posição há de ter-se modificado nos derradeiros anos da vida da Alexandrina, como aconteceu com muitos dos seus mais renitentes adversários e como se revela nos escritos, ainda assim escassos, que o P.e Leopoldino lhe dedicou.

O P.e Leopoldino deixou a paróquia em Outubro de 1956, um ano após Alexandrina ter «voado para o Céu».

Em 1958 (vol. I, n.º 2) e 1959 (vol. II, n.º 1), publicou no Boletim Municipal da Póvoa de Varzim um longo artigo sobre Balasar, onde, de passagem, também evoca a Alexandrina.

 

 

 

 

Do livrito comemorativo do II Congresso Eucarístico Diocesano que em 1925 teve lugar na Póvoa de Varzim, copiámos este artigo de temática eucarística:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


À Memória de Alexandrina Maria da Costa

 

Na freguesia de Balasar deste concelho baixou à paz do túmulo Ale­xandrina Maria da Costa “Vicente”, tão conhecida, pelo menos de nome, em quase todo o País.

Nasceu a 30 de Março de 1904 e faleceu a 13 de Outubro de 1955, isto é, nasceu no ano de Nossa Senhora (ano do 50.º aniversário da defini­ção dogmática da Imaculada Concei­ção) e faleceu no dia da mesma Se­nhora, no dia último das suas aparições aos pastorinhos de Fátima.

Recebeu a primeira Comunhão na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Póvoa de Varzim e recebeu os ú1timos Sacramentos administrados por um sacerdote po­veiro, o seu pároco.

Diz-se de Nosso Senhor no seu Evangelho que passou a vida fazendo bem; da saudosa Alexandrina também se pode garantir que passou a sua vida espalhando benefícios.

De todos os donativos que alguns visitantes lhe deixavam espontaneamente, nada queria para si, distribuía-os pelas igrejas e pelos necessitados e pelas Missões.

É conhecida a história da sua vida; era uma humilde pastorinha do campo quando, qual outra Goretti, perseguida para fins criminosos, não encontrou outro meio de escapar do crime do que lançar-se de uma jane­la ao quintal, o que lhe ocasionou uma doença que a prendeu ao leito da dor perto de 40 anos e sofrendo com a maior resignação.

Era uma alma de Deus toda entregue ao sacrifício pela conversão dos pecadores, salvação dos moribundos e alívio das almas do Purga­tório.

O   segredo da sua resignação cristã estava na Vida Eucarística, pois que recebia diariamente o Pão dos Anjos com fervor edificante e piedade singular.

A Sagrada Comunhão já há bastantes anos era a sua única comida, porque não tomava alimento algum. Nas últimas horas de sua vida, já mais do Céu que da terra, quando a sua família chorava e soluçava, asse­gurava-lhes: «Não chorem, que eu vou para o Céu.»

Sim, Alexandrina con­tava ir para o Céu, mas como os desígnios de Deus são insondáveis, é bom sufragá-la para lhe apressar o seu triunfo, se carecer de se purificar.

O seu funeral, a que assistiram cerca de 40 sacerdotes - e mais viriam se soubessem ou pudessem - foi um triunfo, uma apoteose. O seu cadá­ver inumado por entre lágrimas e suspiros na terra fria, tem ainda a visita de muitos admiradores. É uma romagem constante para sua sepul­tara, uns a chorar outros a suplicar graças à Sacrificada que já não vêem mas que acreditam estar no Céu.

Aqui deixamos estas linhas à me­mória daquela que foi modelo da vida cristã.

 

«Ala Arriba», 22/10/1955

 

 

 

«Alexandrina, na idade de seis, e Deolinda, na de nove anos, não havendo em Balasar uma escola para meninas, foram postas na pensão de um carpinteiro da Póvoa de Varzim. Quando as tempestades marítimas tornam difícil o desembarque nas nossas praias, a gente do mar, com fortes gritos, invoca os santos da sua devoção para intercederem em seu auxílio sobre os barcos em viagem de volta da pesca.

Os gritos das mulheres e das famílias inteiras de pescadores causam uma dolorosa e inapagável impressão sobre a população inteira, que se dirige para a praia para assistir, demasiadas vezes, a gravíssimas catástrofes.

A nossa Alexandrina, ainda pequena e não habituada àqueles espectáculos, porque oriunda duma aldeia do interior, ficava de tal modo impressionada que não resistia ao pensamento dos sofrimentos em que andavam os homens do mar. Comovia-se com isso, como se se tratasse de pessoas de família.

Por esse motivo quando, então prisioneira do seu leito, era visitada pelos pescadores, sabia dizer-lhes palavras de afecto, de conforto e de encorajamento, que dificilmente saberemos reproduzir.

Nas suas conversas, não deixava nunca de aconselhar-lhes a devoção a Nossa Senhora, (à Mãezinha, como costumava dizer), Estrela do Mar, Senhora dos Navegantes e de todos aqueles que viajam por mar. Este seu afectuoso interesse pelos homens do mar tornou-se proverbial, a ponto de a maior parte dos pescadores de bacalhau, das praias da Póvoa até Nazaré, não partirem nunca para os longínquos mares do Norte sem irem saudar Alexandrina e recomendarem-se as suas orações.

Faziam a mesma coisa quando regressavam à Pátria.

A peregrinação, então tradicional, não se interrompeu depois da morte da Alexandrina.

Há dias, uma camioneta conduzia a Balasar 43 pessoas, as famílias dos pescadores da Gafanha de Nazaré, que vinham em visita ao túmulo florido e iluminado da Alexandrina.

Ajoelhados sobre essa terra, rezaram em comum o Terço. Apenas acabaram esse acto de devoção, aproximámo-nos do chefe da comitiva, Mateus Casoilo, casado, de 44 anos, residente na Gafanha. Informou-nos ele que, embarcado no navio «Ilhavense», carregado de bacalhau, encontrava-se a 15 de Agosto perto da ilha das Flores.

Devido a um curto circuito ocorrido a bordo, o navio incendiou-se e toda a tripulação foi obrigada a abandonar o barco, apinhando-se nos pequenos salva-vidas. Durante umas 13 horas estiveram em gravíssimo perigo por causa das ondas alterosas.

Naquela tremenda emergência, ele e os companheiros de trabalho recorreram à boa Alexandrina, como eles lhe cha­mavam, a fim de que os recomendasse a Deus.

Quando menos o esperavam, apareceu, finalmente, um navio americano que os recolheu a todos e os transportou para Boston, donde uma companhia de aviação os conduziu incólumes até Lisboa.

Aquela piedosa peregrinação queria ser a acção de graças de todos os pescadores e das suas famílias à grande benfeitora.

Hermínio da Silva, também presente, confirmou a narração do primo Mateus e acrescentou que, durante a pesca, havendo-se encontrado em perigo no seu barco com os seus homens, invocaram a Alexandrina e foram todos salvos.

Assim faziam também os Apóstolos quando, no meio das ondas ameaçadoras do lago de Genesaré, invocavam o Divino Mestre, só do qual esperavam a salvação».

     

«Ala Arriba»,14/1/56

 

 

 

«Estamos no tempo santo em que a Igreja nos convida a meditar nos sofrimentos de Cristo na Cruz. A Cruz é o instrumento de suplício e o púlpito do Mestre. Nela pronunciou sete palavras e com o clamor violento que levantou antes de exalar o último suspiro, Cristo mostrou que morreu voluntariamente porque tinha forças para viver ainda mais tempo. Pela mesma razão, inclinou primeiro a cabeça e só depois é que exalou o espírito.

A Cruz não é, apenas, o instrumento do suplício – é também a cátedra do ensino de Cristo – diz Santo Agostinho. Foi o que ele revelou à Alexandrina, num dos seus êxtases:

“- Minha filha, aqui estou com o Meu Divino Coração aberto pelos pecadores, aberto com a maldade do Mundo. Este coração não tem, como no Calvário, um só soldado que o abra, que lhe crave a lança; agora são milhares de pecadores que assim Me ferem. Alexandrina, sofre, repara por amor; é Jesus, o teu esposo, que te pede.

- Meu Jesus, - responde ela – eu não sei sofrer nem reparar e nada valem os meus sofrimentos. Tudo tenho sofrido por Vosso amor e vejo-Vos sempre ferido. São, com certeza, as minhas maldades!

- Filha – continua Jesus – sossega. Faço isto, mostro-me assim para te fazer compreender que o Mundo crucifica-me continuamente; mas não sou Eu que sofro, revesti-me de ti, é Cristo em ti. É o teu coração que é aberto pela lança, é a tua cabeça que é coroada de espinhos, são os teus pés e mãos chagados, é o teu corpo açoitado, és tu a vitima imolada, a vítima do Rei Divino.

Criei-te para a dor, para repara­res; criei-te e fiz de ti um instrumento de salvação para as almas. Eu não sofro senão em ti. Sou o teu Guia, prometi-te ser o teu Director, não falto.

Aproxima-se o teu Céu, a tua Pátria divisa-se claramente.

Olha o que é o Paraíso eterno, a alma na posse do seu Deus, embebi­da no Amor Divino. Que alegria ao veres a grande multidão, milhões e milhões de pecadores, que salvaste e com o teu so­frimento levaste ao gozo eterno!”

 

«Ala Arriba», 25/3/56

 

 

«Um dia, sentindo que as forças me iam definhando, disse-lhe:

Alexandrina, parece-me que vou deixar-vos, porque me não sinto com alento para o pesado ónus desta longa freguesia.

A doente calou-se, mas, volvidos alguns dias, antes de lhe dar o Pão da Vida, ao abeirar-me do seu leito, diz-me:

“Senhor Abade, não receie perder o vigor para deixar a freguesia; porque pedi a Nosso Senhor que eu morresse antes de V. Rev.cia nos deixar e Ele prometeu-me que sim, e a sua palavra não falta.”

E assim sucedeu.»

 

«Ala Arriba»,13/10/56

 

 

 

Bodas de Oiro

 

Beiriz, que, na opinião do saudoso jornalista Cândido Lan­dolt, é a freguesia mais rica do nosso concelho, onde a vegeta­ção brota luxuriante a ponto de, junto ao produto dos seus traba­lhos na Póvoa, apresentar pré­dios bem construídos e guardar fortunas bem sólidas, viu no dia 11 de Dezembro de 1874 nascer, no lugar de Paredes, um dos seus filhos que muito a havia de ilustrar. Esse menino recebeu o nome de José no baptismo que lhe foi ministrado pelo Sr. Joaquim Lopes Ferreira, de sau­dosa memória. Seus pais, Ma­nuel Gonçalves Cascão e Maria Rita Ferreira Cascão, depois de confiar seu filho ao professor de ensino particular Sr. Francisco Rodrigues Maio (o Maneta), com escola na rua da Madre de Deus desta vila, transferiram-no mais tarde para a Escola Azevedo de Beiriz, ­então regida pelo professor ofi­cial Sr. José Joaquim Rodrigues dos Santos, que o habilitou para o exame de Ensino Primário Ele­mentar, que nesse tempo se fazia nas Salas da Câmara Municipal.

Entendendo que o filho tinha a instrução suficiente para ser um bom lavrador, seus pais tira­ram-no da escola para o entregar à cultura da terra, mas José Cas­cão, sentindo-se nesse mister como o peixe fora da água, nada dava na agricultura, o que levou os seus progenitores a mandá-lo estudar: eis a razão por que só aos 14 anos fez exame de instru­ção primária no liceu de Braga. Frequentou os primeiros anos de preparatórios no nosso Insti­tuto Municipal, indo terminá-los no Seminário de Braga. Con­cluímos os preparatórios ao mes­mo tempo —Outubro de 1895, ele fazendo exame de Filosofia e eu de Literatura, mas como eu tinha apenas 16 anos de idade, ele entrou para o curso teológico e eu fiquei à espera de poder ser admitido, o que consegui no ano seguinte, com dispensa da idade, concedida pelo saudoso Prelado D. António José de Freitas Ho­norato.

José Gonçalves Cascão de Araújo foi sempre um estudante aplicado, motivo por que, termi­nado o curso de teologia, foi or­denado de Presbítero m 31 de Julho de 1898. Celebrou a sua Missa nova em Santa Maria de Terroso, terra da sua mãe, sendo presbítero assistente seu Vene­rando tio P.e Lino Ferreira de Araújo, para, logo no 3.º Domingo de Agosto, tomar posse da capelania da Confraria da Senhora das Dores.

Já lá vão 50 anos dos acontecimentos que acabamos de narrar e, por isso, a Mesa da Confraria e alguns antigos dedicados vão festejar-lhe as suas bodas de oiro. De tudo é digno o homenageado, porque tem sabido impor-se no nosso meio religioso e social. Quando S. Rev. tomou posse da capela das Dores, esta era um deserto onde não havia missa nem exercício de piedade ao domingo. O novo capelão, pelo seu zelo sacerdotal e devo­ção à Mãe Dolorosa, começou a chamar o povo ao templo aban­donado, com a celebração da San­ta Missa e recitação da Coroa. A fim de aumentar a frequência dos fiéis, estabeleceu canonicamente, no dia 8 de Setembro de 1900, a Pia União das Filhas de Maria, sendo no dia 5 de De­zembro do mesmo ano, agregada à Pia União das Filhas de Maria, estabelecida na igreja de Santa Inês em Roma, pelo que foi no­meado seu director pelo Sr. Arcebispo D. Manuel Baptista da Cunha. A sua acção sacerdotal foi tão valiosa que conseguiu fa­zer da devoção da Senhora das Dores, a primeira da Póvoa de Varzim.

Justa é, pois, a homenagem que a Mesa da Confraria lhe vai prestar. Os saudosos pais de José Cascão quiseram fazer dele um lavrador, mas ele, aspirando a outra cultura, nada deu no ser­viço das terras. O jovem estu­dante teve a sorte de encontrar bons professores no Instituto —Dr. João Faria (português e fran­cês); P.e Afonso dos Santos Soares (geografia e história); Albino Gonçalves de Oliveira (aritmética e geometria); Joaquim Dias de Azevedo (latim); e no Seminário de Braga — P.e Francisco José Duarte de Macedo (latinidade); Dr. Messias Fragoso (filosofia); Dr. Alves de Moura (literatura),

Dedicando-se ao estudo, traduziu do francês e do italiano várias obras, possui talvez a primeira biblioteca particular da Póvoa, foi explicador particular em línguas e, como jornalista, colaborador na Estrela Povoense. É um homem culto. Prestou bons serviços nas Confrarias do Coração de Jesus, Senhora das Dores e Senhora do Rosário, como Juiz, e na Comissão de devotos da Senhora da Conceição da Matriz, sendo seu presidente 4 anos, e como organizador dos programas das melhores procissões realizadas na vila. Sacerdote erudito, os seus sermões (era diácono quando principiou pregar) revelavam grandes conhecimentos de teologia.

Homem social, foi presidente da Associação dos Bombeiros (2 anos) e capelão da mesma humanitária Instituição (20 anos); presidente da Associação de Carida­de «A Beneficente» (2 anos); da Associação de Socorros Mútuos «A Povoense» (2 anos); do Sin­dicato Agrícola (2 anos).

Homem popular e sem vai­dade, trata a todas as pessoas, sem distinção de classes, com urbanidade e respeito, motivo por que é muito querido pelos seus amigos, particularmente aqueles que o acompanharam nas sua viagens ao estrangeiro. Alguns desses velhos amigos, associando-se à Mesa da Senhora das Dores, vão lhe prestar a sua homenagem na passagem da celebração das suas bodas de oir­o sacerdotais. Também, como velho amigo do P. José Cascão de Araújo, não posso deixar no olvido este momento, unindo-me espiritualmente aos seus amigos e admiradores e pedindo ao Bom Deus a conservação da sua preciosa vida.

Ad multos annos.

 

L. Mateus, «Idea Nova», 24/7/48

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