O Arcipreste
Manuel Gomes da Costa
Pároco de S.
José de Ribamar
A Alexandrina escreve sobre ele ao P.e Pinho, dizendo: «Já me
esqueceu a dizer que lá transmitiu os meus pedidos.» Como o pedido era de que fosse
autorizado o retorno deste sacerdote, nada disso teve seguimento. Parece
contudo que se operou o princípio de uma viragem na cúria.
Um pequeno diálogo com a Venerável na carta ao P.e Pinho:
A Alexandrina pertencia ao seu Apostolado dos Doentes fundado
pelo Dr. Garcia de Carvalho
O P.e Pinho viveu na Póvoa e publicou no Brasil uma obra sobre
Nossa Sra.
Dois colóquios de Alexandrina
Colóquio do
dia da Imaculada Conceição de 1944
Longe de raiar o dia – dia que para mim não raiou – principiei a
fazer as minhas orações e a preparar-me para a visita de Jesus. Não podia
rezar, cheia de pavor, sobrecarregada de vergonha, dor e humilhações. Era
levada de casa em casa, de rua em rua; sofria no mais íntimo da alma. Chorava para dentro; para dentro suspirava.
Esmagava-me o peso das humilhações. Meu Deus, que dor tão íntima e tão
profunda! Era como uma dor sem fim. Não era capaz de ver onde ela podia parar.
Jesus, como poderei suportar tão grande martírio? Se me faltais,
não resisto, morro, morro depressa.
Com esta dor não pude ter um momento de alegria, nem podia
lembrar-me que era do dia da Mãezinha,
dia tão predilecto para mim, dia da Imaculada Conceição.
Jesus, pobre de mim, não posso estar aqui!
Veio Jesus. Aqueceu-me logo com o calor do seu amor divino.
Acariciou-me e disse-me:
—
A
tua dor, minha filha, é dor de salvação. Esse mar imenso de sangue que
continuamente derramas do teu coração é onde são mergulhados os pecadores.
—
É no sangue da tua dor que eles são purificados, é sangue da
nova redenção.
Tu és a segunda arca de Noé. Em ti guardo os pecadores; em ti,
como nessa arca, guardo tudo para a vida do novo mundo.
A tua dor, a tua imolação é dor e humilhação de vida mais para
as almas que para os corpos. Coragem, filhinha! Nada temas.
A chuva que sobre a nova arca cai não é de condenação, é de
salvação: é chuva de humilhações, desprezos e sacrifícios. A arca não está em
perigo: navega nas alturas. Uma vez que baixem as águas da perseguição, verá o
mundo a riqueza que continha, que era de salvação.
Filhinha, amada querida, Eu não estou sozinho, está comigo a
minha bendita Mãe, escuta o que ela te diz.
Jesus à esquerda, a Mãezinha, à direita, tomou-me para o seu
regaço, apertou-me fortemente contra o seu sacratíssimo Coração, cobriu-me de
carícias e disse-me:
—
Minha
filha, venho com o meu divino Filho fazer-te a entrega da humanidade e fechá-la
em teu coração. Ficam as chaves na posse do teu Jesus e da tua querida
Mãezinha.
—
Dei-te o meu santíssimo manto e a minha coroa de rainha: foste coroada
por mim. És rainha dos pecadores, és rainha do mundo, escolhida por Jesus e por
Maria.
Hoje, dia da minha Imaculada Conceição, fazemo-te a entrega do
teu reinado. Principia desde hoje, é teu, guia-o, governa-o e guarda-o.
Guarda-o na terra assim como o guardarás e governarás depois nos céus.
Escolhi este dia que em minha honra é guardado, para que em
união comigo seja festejado o dia em que te entreguei o reinado da humanidade.
Quando o mundo disto tiver conhecimento, comigo serás louvada.
Senti como se me abrissem o peito e dentro o coração; foi aberto
por Jesus e pela Mãezinha. Depois de depositarem nele alguma coisa, fecharam-no
novamente. Fechou-o à chave a Mãezinha e depois Jesus. Bafejaram-no e
acalentaram-no docemente. Depois fiquei entre Jesus e a Mãezinha come no meio
duma prensa. De tanto que me estreitaram entre os seus Corações divinos,
parecia-me não poder resistir a tanto amor, ir morrer naquelas duas chamas
divinas. Uma vez a Mãezinha, outra vez Jesus, uniram seus lábios aos meus,
bafejavam-me e davam-me a sua vida divina. E a m Mãezinha continuou:
—
Filhinha
amada, querida do meu Jesus, recebe a vida de que vives, recebe a vida do céu,
recebe-a e dá-a às almas.
—
E continuou Jesus:
— Minha pomba bela, branco lírio, pura açucena, estrela
cintilante que cintilarás noite e dia para luz e guia dos pecadores, pata luz e
guia de quantos me quiserem seguir e amar com amor mais puro e mais forte:
coragem, filhinha, não temas a guerra do mundo! Espera-te o Céu para te abraçar, espera-te o Céu para nele
guardar o maior tesouro que tenho na terra. És de Jesus, és da Mãezinha.
Espera-te toda a corte celeste.
Ó Conceição pura, ó Mãe de Jesus,
Guarda o meu corpo cravado na cruz;
Cravado na cruz, à cruz abraçado,
Guarda-o, Mãezinha, ó Conceição pura,
Mãe do meu Esposo amado!
Recebi novas carícias de Jesus e da Mãezinha, fiz-lhe a entrega
de mim mesma e de todos os que me são
queridos e por fim do mundo inteiro, incluindo também os que me fazem sofrer.
Mãezinha, faço-Vos a entrega da humanidade, guardai-a, que é
Vossa, salvai-a, só Vós podeis.
Envergonho-me por ter recebido de Vós a entrega do mundo. Que
pode esta miséria sem a Vossa protecção?
Ó Jesus, ó Mãezinha, a Vós me entrego como o soldado que quer
combater e defender o vosso reinado. Quero lutar, quero obedecer; mandai; eu
com a vossa graça tudo cumprirei; serei forte. Com a graça e a força do Alto
será salvo o mundo.
Desprendi-me de Jesus e da Mãezinha com grande custo. Unida a
eles, vencia o mundo, nada temia. Agora tudo temo, nada posso.
Ai que saudades tenho do Céu! Quando irei para lá?
(Sentimentos da Alma, 1º
vol., pp. 116-118, 8-12-1944, sexta-feira)
Outro
colóquio
Bendirei ao Senhor.
Recebi de Jesus neste mês bendito da querida Mãezinha mais um
miminho que veio abrir-me a sepultura e mais espinhos que vieram cravar-se na
chaga do meu coração sempre a sangrar, não a deixando assim cicatrizar. De vez
em quando é avivada fortemente. Bendirei sempre a Jesus e à Mãezinha, mas
confesso: se não fossem as graças do Céu, teria desesperado e morrido.
Que grande amor o de Jesus! Quanto Vos devo, meu amor! Convosco
venci e vencerei sempre! Não pude ter uma palavra de queixume; ainda mais
mereço pela minha miséria.
Estou como a pombinha de bico aberto, a bater as asas prestes a
perder-se, sem ter onde pousar. Tenho sede de luz, tenho sede de conforto. Já
que na terra me tapam todos os caminhos, deixai-me, Jesus, deixai-me, Mãezinha,
entrar nos Vossos Corações amantíssimos; ainda que nada sinta, deixai-me ao
menos a certeza que vivo neles. Lá estou livre de ódios e perseguições, lá
estou certa de que Vos amo e não Vos ofendo.
Se o meu corpo pudesse encobrir-se nas trevas para não ser mais visto
nem lembrado, como nas trevas foi encoberta a minha alma, assim morreria, não
seria falada, como são os desejos do meu Prelado. É com todo o amor que aceito
e obedeço às suas ordens. Não nasceu dentro de mim a mais pequenina sombra de
ódio. Contra ele e contra os seus companheiros, antes pelo contrário, dizia:
Meu Jesus, compadecei-Vos deles, não compreendem mais, não
conhecem os sofrimentos de uma alma.
Meu Jesus, se pudesse prostrar-me diante de Vós e de mãos
levantadas soubesse agradecer-Vos os miminhos que me dais! Com o coração a
sangrar de dor, não pude com os lábios rezar a «Magnificat», mas rezei-a com o
pensamento.
Dai-me forças, Jesus, para sofrer e não me condeneis Vós, porque
a sentença dos homens nada vale a não ser para meu maior martírio.
Foram os homens que me prepararam o sofrimento de hoje para mais
me assemelhar a Jesus e acompanhá-Lo no caminho do Calvário. E lá vou eu, presa
com cordas, mas com amor, abraçada à cruz. Sou vítima das opiniões dos homens,
sou vítima das lágrimas dos meus. Se eu pudesse sofrer sozinha!
Bendirei ao Senhor, não quero perder um momento.
Os meus olhares continuam a não ser meus. Fitam-se cheios de
ternura num e noutro coração que mais se deixa compenetrar destes olhares tão
cheios de doçura e amor. Os olhares não vão para todos por igual; os corações,
a sua correspondência, é que fazem merecer tudo quanto estes olhares encerram.
Tinha tanto para dizer neste ponto! São tantos os que queria atrair e abraçar a
mim!
O que é isto, meu Jesus? É sempre a minha cruz. Neste conjunto de sofrimentos, o meu calvário com o
de Jesus, o coração oprimido com o peso esmagador da dor abafava, não resistia.
Poderei vencer, Jesus? Resistirei tanto? Só com Vós. Valei-me.
Tenho medo. Sentir tanto o meu abandono e o de Jesus! O meu corpo sangrava,
dava as últimas gotas de sangue.
Ele veio.
-
Amo-te
tanto, minha filha! Assemelhei-te a Mim e o teu calvário é o Meu. Tem coragem.
Os espinhos que te ferem foram os Meus. As varas que te açoitam foram as Minhas
e a cruz Minha foi também.
-
Foi o amor a causa dos espinhos, dos açoites, da cruz, do
Calvário, da morte. Prendeu-Me o amor à cruz, prendeu-Me ainda nos sacrifícios
até ao fim dos séculos. E tu, Minha pomba bela, à Minha imagem presa foste
também; prendeu-te o amor ao Meu Divino Coração, prendeu-te o amor às almas.
Deixa-te ferir, Minha amada; cada espinho que te fere sai um da Minha sagrada
cabeça e do Meu Divino Coração. Vês como tenho tantos!
Jesus apresentou-me a Sua sagrada cabeça e o Seu Coração Divino.
Que grande sebe agudíssima o feria! Enterneci-me tanto por Jesus e disse-lhe:
Aceito tudo o que seja dor, mas quero tirar de Vós todos esses
espinhos e não deixar sinal algum dos ferimentos.
Principiei a tirar espinhos de Jesus que tinha ao meu dispor. Em
poucos instantes desapareceram todos e nem a sagrada cabeça nem o coração
divino ficaram chagados: nem um sinal de sangue. Tudo desapareceu.
-
Vês,
Minha esposa querida, como o teu novo sofrimento cicatrizou todas estas feridas
que Eu tinha? Coragem! Anima-te! Eu não te falto. Duvidar de Mim é ofender-Me.
-
Ainda que te dissesse que o que te prometi vinha já não te
enganava, não te enganava ainda que levasse anos, pois os anos, em comparação
com a eternidade, representam um já. Mas não demoro, confia. Vou deixar-te,
Minha filha, um pouco mais libertada do demónio; para poderes resistir, preciso
de operar milagres. Se soubesses com os combates do demónio as almas que
arrancaste dos abismos e conduziste a Mim! Estão firmes, não voltam a
ofender-Me gravemente; salvam-se.
Para resistires ao teu penoso calvário, vou vir a ti frequentes
vezes, mais delas silenciosos. São êxtases de amor, mas deles receberás sempre,
sempre, toda a abundância das Minhas graças, ternuras e amor.
És rica de Mim, és rica de virtude. É por isso que os teus olhos
atraem, têm carinhos, têm doçura, têm prisões, têm amor.
É por isso que o teu sorriso tem meiguices, tem tudo o que é do
Céu. Não vives, vivo Eu. São meios de salvação e chamamentos para as almas.
Não é por acaso verdade, Minha filha, que Eu no Meu calvário
possuía duas vidas, humana e divina? Até nisso te pareces comigo. No teu
calvário tens também a vida divina; é Cristo que está em ti. Nada temas.
Vem o Jardineiro divino ao seu jardim a ver as maravilhas que
nele operou e o fruto de tantas canseiras. Vem o Rei ao palácio da sua esposa,
o Redentor divino à sua redentora, à nova salvadora da humanidade.
As minhas maravilhas em ti não ficam ocultas, não consinto no
seu escondimento. Hão-de brilhar! São a minha glória; são salvação das almas.
Tudo será conhecido, minha doutora das ciências divinas, tudo será
conhecido no livro da tua vida.
És a heroína do amor, a heroína da dor, a heroína da reparação,
a heroína dos combates, a rainha dos heroísmos.
Recebe conforto, filhinha, recebe o Meu amor divino. Quando vier
a ti nos Meus colóquios, uno-Me a ti com este amor. Venho dar vida e conforto
ao teu coração, ajudar-te nas tuas trevas.
És minha sempre e Eu sempre em ti habito!.
(Sentimentos da Alma, 1º
vol., pp. 248-251), 18-5-1945, sexta-feira)
A carta do
abade francês
O filho do general
Está no livro Venerável Alexandrina com outras
Teresinha no caso
Cartas de
Alexandrina com destinatários poveiros
Angelina Ferreira
Nos êxtases, nas cartas
Alexandrina e
os artistas
Alexandrina e os artistas
O lugar do
P.e Mariano Pinho:
a incompreensão dos outros e a paciência própria
Dados biográficos
Sobre o P.e Mariano Pinho, ver
que escreveu Jorge Barbosa – interessante
Na Póvoa
As cartas, os livros
D. Gabriel de Sousa
D. Gabriel de Sousa, abade do Mosteiro de Singeverga

O Notícias da Póvoa de
Varzim tem o seu débito para com Singeverga. O Dr. Adérito Ferreira, seu
primeiro director, estudou lá vários anos. Aqui escreveram e ainda escrevem
alguns monges de Singeverga, como o ratense P.e Abel Matias (autor de Angola.
Paz só com Muxima) e outros; aqui se noticiou há poucos anos a ordenação de
um outro ratense que também é monge de Singeverga. Nós mesmo, autor destes artigos,
em Singeverga estudámos um largo período e aí conhecemos a primeira biografia
de Alexandrina – vai para 40 anos -, que aliás não nos deixou boa impressão.
(Que impressão poderia deixar a biografia, semeada de fotografias
«cadavéricas», de uma mística da bitola de Alexandrina a um adolescente de
cerca de treze anos?)
Venhamos à relação de D. Gabriel de Sousa com Balasar. Este
douto abade beneditino (nascido em Besteiros, Paredes, em 1912 e já falecido)
surge nos escritos de Alexandrina nos derradeiros anos da sua vida; e surge em
companhia de outro beneditino, o espanhol P.e Ramirez. D. Gabriel de Sousa
deveria então andar grandemente empenhado na gigantesca obra do novo mosteiro
(que nunca se concluiu). Presidia à abadia desde 1948. Teve ele o mérito de ser
um dos primeiros dignitários da Igreja a aderir à Alexandrina. (O lousadense
Cardeal Cerejeira talvez se lhe tenha antecipado, mas manteve sempre
distanciamento físico para não causar melindres.)
O abade de Singeverga ia ser agora o presidente duma segunda
comissão, apoiada pelo arcebispo de Braga, para estudar a Alexandrina.
Integravam-na o P.e Dr. Sebastião Cruz e outros, como o prof. da Universidade
de S. Tiago de Compostela e sacerdote, Dr. Luís Filipe Cavalhero, e o já
mencionado P.e Ramirez. A própria Alexandrina se refere a estes sacerdotes numa
carta ao P.e Mariano Pinho. Escreve, por exemplo, a dada altura:
«O secretário do arcebispo, Dr. Sebastião Cruz, trouxe aqui um
cónego e professor de Salamanca. Dizem que partiu muito satisfeito; perante
ele, o Dr. Cruz disse-me que tem estado e está do meu lado.
Parece que vem um místico de Salamanca para estudar o caso com
ele e com o abade de Singeverga, que está a examinar os escritos.
Como vê, temos muitos amigos e muito inimigos; mas os amigos são
mais.» (3/11/53)
Quem não se convencia inteiramente dos méritos de D. Gabriel de
Sousa era o Dr. Azevedo: não o considerava à altura da tarefa.
Ficou célebre um breve seu escrito relativo a Balasar:
«A lembrança que me ficou.
Às vezes, de visita a lugares célebres, trago entre as folhas do
canhenho a pétala duma flor; ela seca, perde o aroma, e só fica a valorizá-la a
data que se lhe inscreve. Fui a Balasar um dia. Voltei uma segunda vez. E
também trouxe de lá, entre as folhas do Livro de Horas de minha pobre vida, uma
pétala de lembrança. Mas essa ainda não murchou, ainda não perdeu o aroma: a
visão duma alma angelical, através duns olhos de pureza, como nesta derrancada
terra se não encontram. E, do Calvário da Alexandrina Costa, foi esta a dolorosa
e imaculada lembrança que me ficou.»
O escrito, que data de 1958 e surgiu originalmente no «Boletim
Mensal» de Alexandrina, serve de prefácio ao livro de Gabriel Bosco Alexandrina
de Balasar e, em tradução italiana, vem numa das páginas iniciais de
Figlia del Dolore, Madre di Amore e de Anima Pura, Cuore di Fuoco.
D. Gabriel de Sousa ainda pôde estar presente, em 13 de Outubro
de 1996, à celebração, em que se fez a recepção solene do Decreto sobre as
Virtudes Heróicas de Alexandrina, como então noticiou o Dr. Adérito Ferreira
neste jornal:
«A recepção solene, em Balasar, do Decreto sobre as Virtudes
Heróicas de Alexandrina foi motivo uma merecida celebração, a que presidiu
o arcebispo bracarense de então, D. Eurico Dias Nogueira.
Concelebraram o bispo de Bragança, D. António Rafael, o bispo de
Vila Real, D. Joaquim Gonçalves, os bispos auxiliares de Braga, D. Jorge Ortiga
e D. Jacinto Botelho, a Abade Emérito do Mosteiro de Singeverga, D. Gabriel de
Sousa, o postulador da causa da beatificação e várias dezenas de sacerdotes,
quase todos do arciprestado de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, entre os quais
estava o arcipreste, Monsenhor Manuel Amorim. A afluência de devotos e
peregrinos foi muito grande. Comemorava-se também o 41.º ano do falecimento
da Venerável.»
Sem pretendermos de modo nenhum pôr em causa o real nível
cultural deste homem, a sorte do texto talvez se deva mais ao mérito do que
então Singeverga representava do que ao conteúdo da sua prosa poética.
A intervenção do Dr. Pacheco Neves
O Dr. Joaquim Pacheco Neves também interveio no caso da
Alexandrina. Fê-lo no Jornal do Médico de 8/8/953, num texto que figurou como editorial sob o título de
«Um caso estranho». Porque o Dr. Azevedo propôs um esclarecimento, o tema manteve-se
no periódico ao longo de vários números. Nós porém só copiámos o artigo
original e a primeira resposta do Dr. Azevedo, pelo que não nos podemos
pronunciar sobre o resto do debate.
Para o médico vilacondense, Alexandrina é «uma pobre mulher de
espírito simples e desinteressado, sublimado por virtudes que se originam,
talvez, na própria doença», «não é uma mística com arrebatamentos e transportes
que deixem perceber uma psiconeurose, nem uma beata que se esconda por detrás
da sua hipocrisia»; resume-lhe a vida, refere o seu jejum, etc. Isto é, não
toma a atitude hostil de outros, mas naturalmente, no seu escasso conhecimento
do assunto, redu-lo a bastante pouco.
Aponta então a sua artilharia sobre o povo que até ela acorre.
Veja-se a sobranceria deste período: «É ao povo, a essa gentalha ignorante e
crendeira, retintamente boçal e lorpa, que me quero referir por se ter deixado
arrastar pelas suas tendências supersticiosas e ludibriar pelas habilidades
interesseiras de uns tantos videirinhos.»
Ouçamos então parte da cuidada prosa do seu artigo:
«A quilómetros da vi1azinha onde eu moro, vive uma pobre mulher
a quem a doença inutilizou e reduziu à quase expressão de dois olhos negros o
buliçosos. Uma queda aos quinze anos fracturou-lhe a coluna e deu origem a uma
paralisia que a imobilizou numa cama donde começou a dar um exemplo edificante
de resignação e paciência. Se a visitavam e lhe diziam uma palavra de lamento,
ela encolhia os ombros magros, esboçava um sorriso resignado e dizia-se
conformada com o seu sofrimento e destino.
Assim se passaram dez, quinze, trinta anos sem que a frescura do
seu rosto murchasse ou a vivacidade do seu espírito ensombrecesse. Sempre com
um sorriso alegre a iluminar a tristeza do seu olhar calmo e uma palavra de
consolo a desprender-se dos seus lábios descorados, ela mostrava uma resignação
e paciência que começou a criar na vizinhança um sentimento de veneração que
aos poucos transbordou para as aldeias mais próximas. E começou a chegar gente
para a ver. Outra vinha para a ouvir. O recorte suave do seu rosto pálido, a
expressão doce dos seus olhos tristes, a transparência azulínea das suas mãos
delicadas, o tom penetrando da sua voz lenta e a comunicabilidade da sua
palavra consoladora, criaram no espírito daquela gente simples uma ideia de
sobrenaturalidade, de um ser à parte mantido na vida por um desígnio superior
ao seu entendimento que a maravilhava. ...
Assim se dilatou o conhecimento desta pobre mulher que, por
muito se dar, muito se esquecia de si. O sou nome começou a andar de boca em
boca e ultrapassou as raias fronteiriças. Dos recantos mais longínquos do país
vieram excursões de curiosos. De Espanha veio também gente para a ver. Junto da
sua humilde casa organizavam-se peregrinações a que só a Igreja era estranha.
Os que sofriam e esperavam, tinham fé no poder magnífico das suas palavras e no
valor das suas orações. Sentiam-se reconfortados na sua presença e aceitavam a
sua intervenção como a expressão maravilhosa dum prodígio extraterreno, cujo
entendimento estava fora do alcance da compreensão humana.
E a legenda de santidade foi firmando raízes. Falava-se de
milagres: cegos que viam, paralíticos que andavam, curas extraordinárias que se
obtinham, numa revoada de esperanças que alargava por longe a fama do seu nome.
Dela se dizia que não se alimentava, como se a vida orgânica já tivesse chegado
ao sou termo e a sua existência só se mostrasse pela chama brilhante que luzia
no seu espírito. E vieram módicos para a
ver, atraídos pela nomeada
extraordinária da sua fama.
A mistificação podia ocultar-se por detrás do temperamento
neurótico, impressionável e impressionador, destes que quase suspendem a vida vegetativa quando a força de vontade determina. E propuseram-lhe o
internamento numa Casa de Saúde, que ela aceitou. E vigiaram-na durante largas
semanas sem descobrirem qualquer fraude. O único alimento que ela não
dispensava era o Sagrado Viático que ela recebia com humildade e unção cristãs.
Os seus lábios em nada mais tocavam. As observações dos médicos chegaram por
fim a termo e ela regressou de novo à sua pobre casa da aldeia. Vinha como
fora, com a mesma resignação, a mesma bondade, a mesma compreensão pelo
sofrimento a1heio. ...
Este caso estranho, que agitou o Norte do país e movimentou
muitos milhares de pessoas, merece um comentário ligeiro à margem de paixões
que, como é de costume, acompanham sempre os eventos que saem da linha do
comum.
Trata-se, na verdade, duma pobre mulher de espírito simples e
desinteressado, sublimado por virtudes que se originam, talvez, na própria
doença. Salvo os prolongados jejuns, que aliás se vêem de quando em quando
anunciados nos jornais como curiosidade de indivíduos dados a certas práticas
abstencionistas, a resignação, o sofrimento, a paciência, a compreensão, a
tolerância e a bondade, se não são atributos comuns, não são tão excepcionais
que não se mostrem em milhares de pessoas sem que felizmente surja qualquer
acontecimento que lhes dê notoriedade. A própria formação religiosa não
ultrapassa a linha vulgar — não é uma mística com arrebatamentos e transportes
que deixem perceber uma psiconeurose, nem uma beata que se esconda por detrás
da sua hipocrisia. As condições de excepção são outras e vivem mais do
desinteresse que ela mostra pelos bens do mundo que a podiam enriquecer, do que
da fama que lhe criaram sem outro proveito que não seja o de aumentar-lhe o
sofrimento.
Não é, porém, a mulher com a sua doença, com os seus jejuns ou
com as suas prédicas o que importa; o mal dos outros não contenta ninguém, nem serve
para obrar prodígios que sirvam de regalo. É ao povo, a essa gentalha ignorante
e crendeira, retintamente boçal e lorpa, que me quero referir por se ter
deixado arrastar pelas suas tendências supersticiosas e ludibriar pelas
habilidades interesseiras de uns tantos videirinhos. ...
Montou-se assim um verdadeiro negócio a que não faltava larga
propaganda com o apregoar de milagres. Todos os dias era certo o aparecimento
de uma história maravilhosa e sobrenatural, daquelas que impressionavam as
almas simples e parvas. Até que se deu o inevitável: o caso desandou em
chocarrice e houve uma intervenção superior. As peregrinações
acabaram. Deixou do haver arraial. Os interesses que andavam à sua volta ruíram
e a terra principiou a ser lavrada. Talvez tarde de mais. A semente já devia
ter sido lançada para poder produzir bons frutos. Mesmo assim, ela há-de
germinar e dar grão. Só não dará nessa massa estúpida de gente que se
atropelava, moía, suava, perdia a calma, gastava tempo e dinheiro para ouvir
uma pobre mulher dizer — tenham paciência, não desesperem, rezem, rezem
sempre. ...»
O Dr. Azevedo
responde ao Dr. Pacheco Neves
Ao artigo de 8 de Agosto do Dr. Pacheco Neves, responde o Dr.
Azevedo em 19 de Setembro no mesmo Jornal do Médico. Intitulou o seu escrito
de «Respeitosas referências a “Um caso estranho”».
Não havia lugar a arrebiques de literatura e por isso o texto é
de cultura, com menção de muitos nomes que as mais das vezes não serão do
conhecimento do leitor vulgar. O autor, que é também formado em Teologia, quer
é defender o carácter sobrenatural do que se passa com Alexandrina. Para não
provocar hiatos na exposição, vamos transcrever todo o escrito, metade hoje e
metade na próxima vez. Advirta-se desde já que a referência a Renan com que o artigo
abre e se conclui talvez fosse mais oportuna do que hoje se nos afigura:
«Lemos há dias o artigo do Senhor Dr. Pacheco Neves, “Um caso
estranho”, publicado no Jornal do Médico. Fora-nos anunciado como um artigo,
que humilhava aqueles, que estio confiantes na grandeza deste Caso. Afinal, não
é bem assim. Literariamente, parece estar bem feito, e até, ao findar a sua
leitura, veio-nos à memória, mantidas as devidas proporções, a “Vida de Jesus”,
de Ernesto Renan. Este artista literário quis amortalhar no lençol de púrpura
do seu estilo feiticeiro a divindade de Jesus, e o nosso colega, se isso lhe
fosse possível, amortalhara no seu belo estilo aquilo que há de invulgar e
extraordinário no Caso de que falou. Tê-1o-ia conseguido? Parece que não. Um
dia Felix Leseur, medico ateu, amigo íntimo do sábio Le Dantec, quis amortecer
as crenças católicas de sua esposa, a extraordinária mulher que foi Elisabeth
Leseur, e por isso, entre os livros cuja leitura lhe aconselhou, dois deles
foram a “História das Origens do Cristianismo” e a “Vida do Jesus”, do Renan. O
resultado da sua leitura, porém, foi contraproducente. Elisabeth,
inteligente como era, não se deixou fascinar pelo brilhantismo da forma
literária desses livros, e ficou surpreendida pela pobreza do seu fundo. Lendo
atentamente o artigo do nosso Colega, vemos bem que as roupagens
literárias com que o revestiu são aliciantes, mas, afinal, não conseguiram o
fim em vista.
Falta de talento, falta de sinceridade, talvez nada disso;
simplesmente, dificuldade e grandeza. do assunto a demolir. E senão vejamos.
Percorramos o artigo a fugir, notando também uma ou outra inexactidão mais
importante, o da existência delas não haja surpresa, porque dizem não haver
bela sem senão. Essa mulher, pobre, porque assim o quer, dos bens terrenos, mas
rica dos bens celestes, embora emaciada, ainda não esta assim reduzida a “uma
quase expressão de dois olhos negros e buliçosos”. Nem oito nem oitenta,
Colega; nem tem a coluna fracturada. Dizem (Dr. Roberto de Carvalho e outros) ter
uma mielite. Mas mais ou menos mielite, mais ou menos polinevrite, não á isso
que nos traz justificadamente apreensivos. Há, por aí, muitas mielites e
polinovrites, e nada disso é fora do vulgar. Mas “o exemplo edificante de
resignação e paciência, o sorriso resignado” para os visitantes, e dizer-se
“conformada com o seu sofrimento e destino”, esses “dez, quinze, trinta anos
sem que a frescura do seu rosto murche ou a vivacidade do seu
espírito ensombrecesse, sempre com o seu sorriso alegre a alumiar-lhe o olhar
calmo”, toda essa resignação e calma” que chegou “a criar na vizinhança um
sentimento de veneração, que transborda para as aldeias mais próximas” e
afastadas, e para o estrangeiro, tudo isso que o Colega regista, que significa
e denuncia? Qual a causa de efeitos tão belos? Que nevrose ou psiconevrose ou
doença mental, referidas na Neurologia e Psiquiatria, se coaduna com o estado
orgânico, psíquico e moral a que se está referindo no seu artigo? Se queremos
fazer ciência, temos de explicar os efeitos por causas proporcionadas. Como se
chama a árvore que dá frutos tão belos? Essas qualidades morais, evidentes na
nossa heroína, constantes e nunca desmentidas, serão vulgares? Essa sua heroicidade de virtudes não será caminha aberto para coisas
superiores e transcendentes? Os factos tão persistentes, tão coerentes, tão
belos e radiosos, sob o ponto de vista moral, e que aponta nessa doente
deixam-nos perplexos, não nos permitindo dar-lhes uma explicação natural. Mas o
Colega continua o sou fraseado belo, cujo resultado será aumentar o número de
visitantes, que provocarão as iras de gansos que grasnem no Capitólio, talvez
devido ao medo de Deus, sofrendo o médico assistente e a
família da doente as respectivas alfinetadas e consequências. E essa doente
nada diz “que não fossem palavras de conforto ou piedosas orações; nada de
mezinhas misteriosas, sinais cabalísticos, e só palavras de esperança a
consolar almas desesperadas”. E a fama desta doente, “que por muito se dar,
muito se esquecia de si”, passou as fronteiras, mostrando, talvez, que estamos
todos alucinados, não é assim? Que poderá a Neurologia ou a Psiquiatria dizer
sobre isto? Sempre além, deixando as circunstâncias secundárias para o caso de
que fala, e de que ninguém tem culpa, para nos interessarmos do essencial, do
importante caso: vieram os médicos, e a doente foi internada numa Casa de
Saúde, em que foi vigiada, de dia e de noite, sucessivamente por três grupos de
duas Senhoras, havendo o cuidado de escolher algumas descrentes em Religião.
Esteve internada durante 40 dias e, nesses dias, foi constatado que
não bebeu uma gota de água nem houve a menor excreção. Onde se registou uma
caso natural destes, Colega? O seu peso manteve-se constante, as suas tensões
normais, o seu sangue, analisado à quarta semana de internamento, era normal
nos seus elementos constitutivos e de desassimilação, a sua vida intelectual
era sujeita a rigorosos interrogatórios, e finalmente foi dito que a Medicina
não explicava este caso por modo natural. Mais e a propósito: o argumento
único, que convenceu a doente a deixar-se internar, foi eu dizer-lhe que a
Autoridade eclesiástica assim o desejava. Tudo tem, já se vê, a sua
significação, o seu valor para o julgamento de Caso.»
«Enquanto ao jejum ou abstinência dessa doente, o Colega está
enganado, ao dizer que esse jejum se vê, de quando em quando, anunciado nos
Jornais. A abstinência alimentar dessa doente data de 1942, é quase absoluta, porque só bebe, de longe
a longe, umas colherinhas de água simples, mas simples. Em1942 fizemos varias
experiências, dando-lhe água açucarada ou com qualquer água mineral ou coisa
idêntica, mas tudo isso era logo vomitado.
Desde então, nada tomou
a não ser a tal água simples. Onde se vêem esses jejuns, a não ser em Tereza
Neumann, de Konnersreuth, ou no Padre Pio, em Itália? A Fisiologia e a
Patologia ensinam-nos que o homem não pode sobreviver, a uma abstinência de
sólidos e líquidos, prolongada por semanas. Sabemos que o Lord Cork, recusando
alimentar-se, em protesto contra a dominação inglesa sobre a Irlanda, e tomando
somente líquidos, durou dois meses e
meio. O bandido Granié, bebendo água,
e não querendo alimentar-se, durou 63 dias. Gandhi fazia os seus jejuns, mas
tomava água e vitaminas, e sabemos bem o que lhe acontecia em poucos meses de
jejum. Os faquires fazem os seus jejuns, que não são totais, e por pouco tempo.
Os que sofrem de anorexia mental não se privam da alimentação total, e todavia
conhecemos bem o seu estado psíquico, o seu emagrecimento, e se não arrepiam
caminho, depressa caem no túmulo. Mas então não haverá pessoas que vivam num
jejum perpétuo? Há sim. Essa doente de que estamos falando, o Padre
Pio na Itália e Tereza Neumann, a mística de Konnersreuth. Pelo que nos dizem o
Dr. Imbert Goubeyre e o Dr. Henri Bon, que são autoridades destes assuntos,
conhecemos vários místicos que viveram numa inédia bem constatada e
naturalmente inexplicável: Ângela Foligno, que viveu dois anos, sem tomar
qualquer alimento S.ta Catarina de Sena, 8 anos, Isabel de Reuth, 12 anos;
Catarina Emmerich, nos últimos 12 anos de vida, só tomava água fresca simples
e a Sagrada Comunhão Nicolau von der Flue, passou 20 anos sem comer nem beber,
e apresentava-se sempre bem disposto e robusto; Dominica del Paraiso, 20 anos;
Santa Ludovina de Schiedman, 28 anos; etc., etc.
O verdadeiro alimento destes místicos era a Sagrada Comunhão.
Autoridades Civis e Eclesiásticas constaram, por vezes, essa abstinência de
alimentos com o maior rigor. Quem não sabe o que se tem passado com Tereza
Neumann, no nosso tempo? Quem explica, naturalmente, a possibilidade e facto da
rea1ização de tais inédias, de tais abstinências alimentares? Pelo contrário,
que sabemos nós da parcial abstinência alimentar dos anoréxicos mentais?
Sabemos que, apesar dos seus metabolismos descerem muito, e das suas combustões
internas serem reduzidas, e de tomarem alguma quantidade de alimentos, o
falecimento desses anoréxicos mentais sobrevém, nos casos rebeldes ou sem tratamento,
em poucos meses. E não nos falem, nestes casos, em letargia própria dos animais
hibernantes, pois trata-se por vezes, de pessoas de vida normal e até muito
activa. Não nos falem também em assimilação das radiações solares.
O dever da ciência é “estudar os factos e indagar-lhes a causa,
qualquer que ela possa ser”. Claro que podemos tentar dar uma explicação desses
jejuns, mas é preciso que ela seja razoável. E diz o Dr. Henri Bon que “quando
se trata de fenómenos comuns a duas disciplinas intelectuais, ou a duas
ciências, a conclusão definitiva não se obtém sem que os dois métodos confiram
juntamente os resultados. E nos fenómenos médico-religiosos é à Teologia que
pertence evidentemente a última palavra. Em matéria religiosa, a leviandade é
inadmissível”. Esses jejuns não querem dizer, só por si, santidade. Num e
noutro jejum, até poderá haver intervenção diabólica. É certo que o que faz os
Santos não são estes jejuns nem estas abstinências alimentares. Mas, regra
geral, estas absolutas abstinências alimentares, prolongadas, são gritos
clamorosos a anunciar-nos que há um Ente Supremo e Providente, que nem tudo
acaba com a morte, e que são do Céu as Mensagens, que alguns desses abstinentes
nos anunciam. Nessas inédias sensacionais, aliadas a outros fenómenos místicos
extraordinários, embora a Medicina e a Psicologia devam ser ouvidas, a última e
decisiva palavra pertence à Mística, pertence à Igreja.
O nosso caso um destes. Como vê, Colega, não poderá dizer-se que
casos como este “não faltam por esse mundo fora” e não basta “vê-los apenas
pelo seu aspecto humano”, se os quisermos explicar. Concluindo agora: a
princípio, comparei o estilo do Colega ao fraseado sedutor de Renan. Quero
terminar os meus dizeres, recordando o fim deste brilhante escritor francês, no
meio literário e científico em que por tempo pontificou. Nessa Academia
Francesa, o seu sucessor Challemel Lacour provou no seu discurso de recepção,
em que era costume fazer-se o elogio do antecessor, que a ciência de Renan não
era científica e que a filosofia deste filósofo não era séria.
É sabido que Renan tinha recebido dum banqueiro judeu um milhão
de francos para escrever as blasfémias que escreveu contra a Divindade de
Jesus. A Bossier, encarregado de responder a Challemel (querendo atenuar o
golpe dado em Renan) só foi possível dizer que Renan era um “sonhador”.
No seu leito de morte, às seis horas da manhã de 2 de Outubro do
1892, um domingo, Renan morria a rezar, a dizer: “Tende compaixão do mim, meu Deus,
tende compaixão de mim”. Por fim, o Colega desculpar-me-á o dizer que o seu
artigo, literariamente bem escrito, é inofensivo contra o maravilhoso e
extraordinário do caso de que fala. Sendo os frutos bons, óptimos e raros, boa,
óptima e rara devera ser a árvore que os dá. Isto também é ver as coisas ”pelo
seu lado humano”.
Ribeirão, 31 de Agosto de 1953.»
O lugar do
P.e Humberto
No livro Figlia del dolore, Madre di Amore colhemos os
seguintes dados biográficos sobre o P.e Humberto:
«O P.e Humberto nasceu em um
de Setembro de 1906 em Vignole Borbero, Itália. Acolhido em Valdocco,
Turim, em 1919, lá frequentou dois anos o liceu, donde foi afastado por ter
manifestado o desejo de partir para as missões. Vencidas algumas dificuldades,
conseguiu entrar no seminário tortonês de Stazzano. Ao terceiro ano de
Teologia, regressou aos Salesianos. Durante o noviciado em Borgomannero
apresentou pedido para a leprosaria da Colômbia. Na altura da partida, foi-lhe
pedido pelos Superiores para se dirigir a Portugal por um ano para ajuda à Obra
reaberta pouco antes. A obediência provisória prolongou-se por 15 anos.
Ordenado sacerdote em Lisboa, em 1935, pelo Cardeal Cerejeira,
abriu em 1937 a Casa de Mogofores, erigida em noviciado, a que deu em breve uma
sede mais ampla (em 1939), transformando a casa primitiva para obras
paroquiais: oratório masculino, laboratório para rapazes e ninho para a
infância. Deu vida às Edições Salesianas que, em 1945, mudou para o Porto e a
que em 1947 deu sede própria. Chamado novamente a Itália em 1948, foi destinado
ao Centro Catequístico (em Leumann, Turim).
Continuou o receber os Diários de Alexandrina e tornou-se o seu
principal biógrafo.
Foi chamado a Balasar em 1965
para preparar o Processo Informativo Diocesano, em que foi uma das principais
testemunhas.
Em 7 de Maio de 1973 levou a Roma toda a documentação do mesmo
Processo.
Morreu em Rivoli, Turim, em 5 de Março de 1985. Em 5 de
Fevereiro de 1989 os Salesianos de Mogofores – em sinal de gratidão ao fundador
da Obra Salesiana em Mogofores – inauguraram um seu busto em bronze, para
comemorar o cinquentenário da sua fundação.»
Estas informações são, na maior parte, autobiográficas. Muito
sucintas.
O P.e Humberto foi em Balasar um homem providencial.
Como veio.
O P.e Humberto e
a delicadeza, os estilo claro,
a amizade sem sombras, a alegria contagiante, a paciência de quem não
esbravateia contra a autoridade, a obediência lúcida,
As referências nos êxtases, na Sicília
Em Sob o céu de Balasar, traz informações úteis
Ainda o P.e
Leopoldino
A carta para Braga
Como é que ele começou a dar a comunhão à Alexandrina
A sua percepção incompleta
O legalista
Autor de um artigo extenso sobre Balasar, saído em 2 n.os do
Boletim Cultural da Póvoa de Varzim – no princípio do dito
O Mons.
Mendes do Carmo
«Quis a Providência – escreve o P.e Pinho na sua Vítima da
Eucaristia – que Mons. Mendes do Carmo, Professor do Seminário da Guarda e
antigo Reitor do Colégio Português em Roma, assistisse às últimas horas da vida
terrena da Alexandrina. Ele mesmo contou o facto que apareceu narrado em vários
jornais.»
Oiçamos então algumas palavras deste professor que leccionou
Mística por largas décadas, palavras retiradas do prefácio do livro Venerável
Alexandrina:
«Só conheci a Doentinha
de Balasar, nos últimos três meses da sua vida, a 26 de Julho de 1955. Cheguei
na tarde desse dia, acompanhado de pessoas amigas e dedicadas. Entrámos no
quarto da doente a cumprimentá-la, por brevíssimos minutos apenas, pois outras
visitas esperavam também.
Saio para a sala de visitas e digo
para a família da doente e companheiros de viagem:
“Desejo muito estar ainda com a
doentinha só, e por dois ou três minutos.”
Saem as últimas visitas, entro eu e
pergunto-lhe:
- Minha filha, sofre muito?
E ela responde:
- Ai tanto, Sr. Doutor!
- E quer dizer-me qual a sua maior
cruz?
-
Estou no fim da minha vida, em agonias de morte, e
não tenho o meu director, que tanto amparou a minha alma.
-
-
Já leu a vida de Santa Margarida Maria?
-
Não, não li.
-
Então ouça o que lhe vou dizer: Quando ela teve as
aparições do Sagrado Coração de Jesus e sofria terrível martírio, Jesus
mandou-lhe como director o Padre La Colombière, hoje também nos altares. O
santo director, depois de ter examinado bem tudo o que se passava, garantiu-lhe
que era obra divina. Ela ficou tranquila e a superiora e irmãs aceitaram a
decisão. Pouco tempo depois, por ordem dos superiores, o santo director deixou
Paray, deixou a França e foi para a Inglaterra, trabalhar na conversão dos protestantes.
Margarida não chorou, não pediu que o conservassem, não mostrou desgosto, só
uma ligeiríssima pena lhe passou pelo coração. Quando Jesus lhe apareceu a
primeira vez, depois da partida, disse-lhe:
-
-
Como? Não te basto Eu, que sou o teu princípio e o teu fim? - E Margarida teve imensa pena daquela pequenina
pena.
Despedi-me com estas palavras:
- Minha filha, paz e confiança.
Adeus. Ore por mim que a lembrarei na Santa Missa.
Agradeceu, e parti.»
Do pouco que lhe conhecemos escrito,
o Mons. Mendes do Carmo parece descambar facilmente para a hipérbole, para a
frase que faz efeito no ouvido. Mas não nos parece haver exagero quando escreve
mais adiante no mesmo prefácio ao mencionado livro do P.e Humberto Pascoal:
«A parte mais extraordinária do livro
é a que diz respeito à assombrosa vida mística reparadora da Doentinha de
Balasar.»
Nisto estamos em perfeito acordo.
Outros autores ficam-se por
exterioridades, por acidentes de percurso e por isso ainda nenhum
escreveu sobre ela nada de semelhante ao que podemos encontrar nos escritos do
P.e Humberto.
Veja-se como aconteceu a sua última
vinda a Balasar, a tal que lhe deu o privilégio de ouvir as derradeiras
palavras de Alexandrina:
«No passado dia 10, saí da Guarda com vontade de seguir para
Fátima, a passar o dia 13 de Outubro, um dos maiores dias da História de
Portugal e, para muitos e para mim, o maior. Chegado a Coimbra, deixo os
distintos companheiros de viagem que seguiram para o grande Santuário e eu
parto para Balasar. Queria visitar pela terceira vez a conhecida doentinha. a
Alexandrina.»
Um outro homem que teve uma intervenção reduzida junto de
Alexandrina e que deixou um texto bem sucedido, em prosa poética, foi o abade
do Mosteiro de Singeverga, D. Gabriel de Sousa. No termo da vida da
Alexandrina, quando se preparava nova comissão para a examinar, havia a
intenção de lhe entregar o exame teológico. Eis o seu pequeno texto, que se
pode encontrar quer no livro , quer no
Figlia Dolore, Madre del Amorte, em italiano.
As imagens da
escritora
O mar e a pesca, a montanha – de S. Félix, barcelense, do
Sameiro..., a torre e os faróis, o castelo (da Póvoa, do Queijo?), o escavar da
sepultura, sugada pelas almas
Alacoque
p. 263
1955
Faustina – referência do livro de Molho de Faria
Imagens e paradoxos
O castelo
O escavar da sepultura
A torre de Hermas
As redes
Morro sem morrer
Cardeal Cerejeira,
Um serafim que se
consome de amor
Carta e bilhete

O Dr. Sebastião Cruz
Biografia pela E. Verbo
Como secretário do Arcebispo
Vizinho de Ribeirão
Amacia o Paço
Nova equipa de observadores com
o abade de Singeverga, mais o salmanticense 1951
Docs.? carta?
Colóquios
Venerável ou irmã ou serva de Deus?
Entrevista ao P.e Francisco
Êxtases
Profecias
profecia 319
« 130-1
214-5
versos 140
a do bolchevismo
as que o P.e Humberto regista
a da consagração, a do Pacelli
Portugal será salvo 214
143
Documentos e mais documentos
Acontecimentos
Alexandrina society
Passos da caminhada mística da Alexandrina
Com tudo o que está dito, está ainda quase tudo por dizer. O que
ficou dito vale para quaisquer leitores, o que ficou por dizer para quem tiver
sensibilidade cristã.-
Miscelânea poética da Alexandrina
Paradoxos:
Vivo sem viver,
Sofro sem sofrer,
Amo sem amar.
p. 255
canta em êxtase p. 115
« 228
outra poesia
a dos salesianos: p. 316
140
morro pq não morro
256
Sta. Teresinha de Lisieux

A novel Doutora da Igreja Sta.
Teresinha de Lisieux, ou do Menino Jesus, foi canonizada em 1925, quando a
Venerável tinha 21 anos e ainda não acamara. Reuniram-se então na Praça de S.
Pedro 500.000 peregrinos. Este número diz já da movimentação que à sua volta se
gerara antes e que se há-se ter avolumado a seguir. Qual é a igreja ao tempo
existente que não teve a imagem desta jovem e extraordinária santa? A sua
popularidade atingiu dimensão universal. No quarto da Venerável encontra-se uma
reprodução da mesma fotografia que aqui publicamos.
O P.e Humberto escreve que a Alexandrina considerava a Teresinha
como sua «irmã espiritual». No dia da sua festa litúrgica, em 1947, rezou-lhe
assim:
«Santa Teresinha, minha querida Santa Teresinha, confio em ti,
conto coma tua protecção; ama por mim a
Jesus e à Mãezinha e a toda a Santíssima Trindade. Apresenta-lhe todos
os meus pedidos, alcança para todos os que me são queridos e toda a minha
família as bênçãos e graças do céu; lembra-te de todos os que a mim se recomendam,
lembra-te do mundo inteiro».
Não são todavia frequentes as vezes em que o nome de Teresinha
ocorre nos escritos de Alexandrina. Mas há um momento crucial em que tal
acontece e que deve ser assinalado. É também no dia da sua festa litúrgica, a 3
de Outubro de 1938, quando a Venerável acabara de reviver pela primeira vez a
Paixão. Ditou ela:
«Dado o meio-dia, vem Jesus convidar-me assim:
-
Eis,
minha filha, o Horto está pronto e também o Calvário. Aceitas?
-
Senti que Jesus por algum tempo me acompanhou no caminho do
Calvário. Depois, senti-me sozinha; e via-o lá no alto, em tamanho natural,
pregado à cruz.
Caminhei sem perdê-lo de vista: devia chegar depressa até ele.
Vi duas vezes Sta. Teresinha: primeiro à porta do Carmelo, com o
seu hábito, entre duas irmãs, depois rodeada de rosas e envolta num manto
celestial».
Dá a impressão que Teresinha vem passar a palavra, uma palavra
de determinação e de generosidade sem limites, que foram comuns às duas.
Teresinha tivera um acesso à cultura que Alexandrina não teve.
Os seus poemas, medidos e rimados, têm uma qualidade poética inegável. Vamos
transcrever as primeiras estrofes dum por nós traduzido, onde é possível
notar uma aproximação temática evidente
aos escritos de Alexandrina: a aceitação do sentido positivo, redentor da dor,
uma funda alegria que se sobrepõe aos acidentes do dia-a-dia, a entrega sem
reservas aos planos de Jesus... Intitula-se «A minha alegria»:
Há almas sobre a terra
Que
procuram em vão a felicidade
Mas
para mim é o contrário
A
alegria acha-se no meu coração
Não é
uma alegria efémera
Eu
tenho-a sempre
Como
uma rosa de Primavera
Ela
me sorri cada dia.
Sou realmente muito feliz,
Faço sempre a minha vontade...
Como haveria de não ser alegre
E não mostrar o meu encanto?...
A minha alegria é amar o
sofrimento,
Sorrio quando me vejo em
lágrimas
Aceito reconhecida
Os espinhos de mistura com as
flores.
Quando o céu azul vira sombrio
E parece abandonar-me,
A minha alegria é ficar na
sombra
Esconder-me, abaixar-me.
A minha alegria é a Vontade Santa
De Jesus meu único amor
Assim, vivo sem nenhum temor
Amo tanto a noite como o dia.
Para os leitores de francês, damos o original da primeira
estrofe, a fim de que possam apreciar quanto se perdeu na tradução:
Il
est des âmes sur la terre
Qui cherchent en vain le bonheur
Mais pour moi, c'est tout le contraire
La joie se trouve dans mon coeur
Cette joie n'est pas éphémère
Je la possède sans retour
Comme une rose printanière
Elle me sourit chaque jour.
A
minha alegria é ficar pequenina
Por
isso quando caio no caminho
Posso
levantar-me depressa
E
Jesus toma-me pela mão
Então,
enchendo-o de carícias,
Digo-Lhe
que Ele é tudo para mim
E
redobro de ternuras
Quando
Ele se oculta à minha fé.
Se às
vezes deito lágrimas
A
minha alegria é escondê-las bem
Oh!
Como o sofrimento é sedutor
Se o
cubro de flores!
Desejo
muito sofrer sem o dizer
Para
que Jesus fique consolado
A
minha alegria é vê-Lo sorrir
Quando
o meu coração anda desterrado...
A minha alegria é lutar sem tréguas
Para
gerar eleitos.
É o
coração a queimar de ternura
De
tanto repetir a Jesus:
“Por
ti, meu Divino Irmãozinho
Sou
feliz por sofrer
A
minha alegria sobre a terra
É
poder alegrar-Te.
Quero
viver ainda muito tempo
Senhor,
se assim o queres
Queria
acompanhar-Te no Céu
Se
isso Te dá prazer.
O
amor, este fogo da Pátria
Não
pára de me consumir
Que
me interessam a morte ou a vida?
Jesus,
minha alegria é amar-Te!”
S.ta Teresa de Ávila
Lá iremos. Um texto do castelo interior (?)
S.ta Teresa de Ávila
Lá iremos. Um texto do castelo interior (?)
A VENERÁVEL ALEXANDRINA (1)
Visita à casa da Alexandrina
Quarto: a cama (segunda), o altar, decoração; armário
envidraçado com livros, o diploma de cooperadora; sala: vitrines, armário com
porta corrediça (arquivo secundário), mesa com livros, a obra de Alexandrina,
cofre com os originais dos escritos de Alexandrina.
Arcebispo: enc. Verbo «Martins Júnior»
Glória ao Pai 265 e a
palavra pecadores
P. 225
Coroação da Alexandrina
O que vamos dizer há-de ter o seu ar de loucura. Mas julgue-se
no fim.
220-1 – rainha , manto
mundo – 239
a festa de alexandrina
imagens futuristas : pára-raios, lança as redes sobe casinos
A correspondência de Humberto Pascoal em Balasar
Non lasci Braga dormire
Põe o nome de Alexandrina ao lado dos dos doutores místicos Sta.
Teresa de Ávila, S. João da Cruz e de Sta. Catarina de Sena