D. António Bento Martins Júnior (II)

 

Se já o artigo do P.e Terças tinha feito vir sobre a Alexandrina a atenção das pessoas, o que não terá acontecido agora? O que se não terá comentado! E a Alexandrina que era tão reservada nas coisas do seu íntimo foro religioso!

 

Sabendo-se que o relatório em que o Arcebispo se apoia é um documento lamentável a diversíssimos títulos, que cegueira o terá levado o a classificá-lo de «iluminado»? Como poderia ser iluminado se nele se aceitou como coisa natural que a Alexandrina sobrevivesse sem se alimentar? Se o P.e Pinho, que acompanhava a Alexandrina quase desde há uma década, não foi ouvido nem achado? Se não foi tido em conta o que escreveu o Cónego Vilar nem o P.e Durão? Se os autores do relatório quase não ouviram a Alexandrina?

 

Dez anos adiante, o Bispo do Porto fazia, por sua vez,  divulgar o seguinte:

 

«Para evitar interpretações equívocas, o Prelado desta diocese do Porto recomenda a todos o clero residente nesta Diocese a recusar-se absolutamente a acompanhar qualquer leigo que, pessoal ou colectivamente, queira dirigir-se a Balasar, sob qualquer pretexto ou motivo.

 

Se houver, em qualquer caso especial, uma justificação que pareça fundada, deverão consultar primeiro esta Cúria.»

 

O P.e Dr. Sebastião Cruz (cremos que foi ele), no dia do enterro da Alexandrina, desabafou assim para um colega:

 

«Sr. Dr. Mendes do Carmo, venho cumprimentá-lo e dizer-lhe que temos sido uns cobardes. Eu, à terceira vez que visitei a doentinha, fiquei convencido que era divino o que nela se passava. Mas não tínhamos a coragem de o dizer.» É a isto que se chama ser sinal de contradição.

 

Leiamos agora um fragmento da carta de D. António Bento Martins Júnior ao Cardeal Secretário do Santo Ofício, do tempo em que se preparava a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. É de 24/2/39:

 

«A rapariga parece verdadeiramente dotada de singular virtude, humilde, simples, piedosa, tal que não pode haver suspeita de fraude ou afectação nas coisas que diz ou conta. Responde com uma maravilhosa modéstia e naturalidade às perguntas que lhe são postas. Só se queixa de uma coisa: de ser conhecida e falada. O que muito a magoa e provoca grande sofrimento é falar dos pecadores, especialmente dos sacerdotes pecadores. É como uma momentânea agonia que não pode deixar de manifestar-se exteriormente;  e mesmo não sabendo exprimir o que sente, parece-lhe que o peito e o coração se lhe despedaçam. Desde quando o Senhor começou a manifestar-se-lhe, diz que ainda ninguém lhe tinha falado de fenómenos místicos extraordinários ignorando que estes factos acontecessem nela; e de facto não se encontram indícios de que houvesse sido iniciadas pelo seu padre espiritual ou por outra pessoa estranha. Sente-se por isso absolutamente segura de tudo o que conta. E mesmo que não possa excluir-se uma possível alucinação subjectiva, todavia todos os critérios quer negativos quer positivos da sua virtude com certeza a favorecem e a recomendam.»

 

Numa outra carta para o Vaticano, de 17/1/42, o tom duvidoso parece avolumar-se:

 

«Parece-me fora de dúvida que Alexandrina Maria da Costa, sobre quem me pergunta na carta de 9/10/1941, n. 40455, seja de considerar–se uma senhora de piedade e de santidade, segundo o parecer de todos.

 

Mas se tenha visões celestes ou apenas alucinações, nem todos concordam.

 

Há de facto alguns doutos e prudentes sacerdotes, ou algum entre os próprios confrades do P.e Mariano Pinho, S. J., e ao menos dois médicos, católicos e verdadeiros especialistas, de doenças nervosas, que duvidam bastante ou abertamente asseguram que se trata de factos que não superam a ordem puramente natural.

 

Além disso, esta senhora, que as sobreditas testemunhas definem mais como doente que vidente, atribui estes factos ao Senhor Jesus e à Santíssima Virgem quando com ela falam.

 

Em meu entender, estas coisas devem tratar-se com muita cautela (não digo refutá-las) e não crer-se facilmente. ...»

 

 

O Dr. Abílio Garcia de Carvalho

 

Presidente da Câmara da Póvoa de Varzim e médico de Alexandrina

 

O livro sobre o Cónego Vilar faz ainda menção de um outro homem que interveio na vida de Alexandrina. Trata-se do presidente da edilidade poveira, o Dr. Abílio Garcia de Carvalho. Vejamos:

 

«Finalmente levantou-se o Sr. Dr. Abílio Garcia de Carvalho, um trabalhador dedicado e desinteressado a bem da Póvoa de Varzim, sua terra adoptiva..., e outro amigo e admirador do Sr. Cónego Pereira Vilar. Perguntou se mais alguém dese­java falar e, como ninguém se erguesse, apre­sentou a S. Rev.a os cumprimentos do Município inteiro, ali representado por todos os membros da Câmara.

 

‘Ex.mo Sr. Cónego Vilar e meus Senhores:

Cuadro de texto: O Dr. Abílio tenta em vão separar as mãos de Alexandrina, unidas no momento da flagelaçãoA Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, representada por todos os seus membros aqui presentes, quis vir de longada até esta cidade para apresentar a V. Ex.a, em nome do concelho da Póvoa, respeitosos cumprimentos de admiração e de despedida.

 

É-nos sumamente grato venerar e prestar homenagem ao poveiro ilustre que V. Ex. é, em quem o talento e a virtude se associam de tal modo e em comunhão tão íntima que todas as almas boas que um dia tiveram a felicidade de o conhecer tomam para si uma quota-parte dos seus triunfos, das suas alegrias, e também das suas tristezas; por isso aqui estamos, pois não podiam os edis da terra de V. Ex.a deixar de lhe apresentar os cumprimentos de despedida da Póvoa inteira, acompanhando a freguesia de Terroso nesta magnífica homenagem.

 

Temos como certo, Sr. Cónego Pereira Vilar, que dificilmente o espírito público do nosso concelho nos poderá um dia incumbir de delegação mais distinta e mais unânime; porque se V. Ex.a deixa vivas saudades entre nós, e ao mesmo tempo nos deixa a certeza da falta imensa que nos faz neste momento de graves preocupações sociais, em que a actuação da sua personalidade veneranda, quer pela palavra falada ou escrita, quer pelo trabalho canseiroso do seu apostolado são exemplo vivo e lição proveitosa e constante de que ca­recemos, também em compensação nossas almas sentem justa satisfação por reconhecermos com sumo prazer e honra que Sua Santidade, o insigne Pontífice Pio XII, tem os olhos postos em V. Ex.a, escolhendo-o para missão nobre e honrosíssima na Cidade Eterna.

 

A carreira de V. Ex. será sempre e justissimamente ascencional; e esperamos, Senhor, que a Póvoa será mais honrada ainda quando tiver a dita de contar, en­tre os seus filhos mais queridos, um Prelado sábio e piedoso, tão sábio quanto piedoso.

 

Que Deus o reconduza de novo à Pátria, para perto da sua ilustre e muito virtuosa família, são os votos que formulamos neste instante em que desejamos a V. Ex.a muito boa viagem e as maiores felicidades no desempenho do alto cargo para que foi justamente escolhido.’

 

O Sr. Cónego Dr. Pereira Vilar agradeceu a homenagem, que muito o sensibilizou por vir da sua terra, e despediu-se de todos com um demorado abraço. Houve lágrimas e ninguém era da Família.»

 

Num  relatório de 24/4/45, o P.e Pinho refere assim a actuação do Dr. Abílio de Carvalho junto de Alexandrina:

 

«Eu mesmo fui o primeiro a ficar perplexo, não sobre os êxtases mas sobre os movimentos (que readquiria no momento da Paixão). Por este motivo interessava-me saber com certeza qual o género da sua paralisia. Falei disso ao Dr. Abílio de Carvalho, que já tinha tratado a doente; interessou-se e levou-a ao Porto, ao Dr. Roberto de Carvalho, em Dezembro de 1938.»

 

Lactário de S. Tarcísio: o P.e Abílio Correia falou de S. Tarcísio e da sua relação com a Eucaristia. Este nome evoca...

 

Já há uma «carta»

 

Em Balasar há duas cartas deste Dr. Abílio. Uma dirigida ao P.e Pinho e outra talvez ao Dr. Roberto de Carvalho (que não era seu irmão, apesar do apelido), trazendo o papel nas duas o timbre da presidência da Câmara. Nelas se mostra deveras interessado em concorrer para o esclarecimento das dúvidas sobre a doença de Alexandrina.

 

Veja-se a carta ao P.e Pinho:

«Ex.mo Senhor P.e Pinho e meu muito prezado amigo

 

Cuadro de texto: Fragmento duma carta do Dr. Abílio de CarvalhoA minha vida muito trabalhosa e o meu estado de saúde muito precário durante alguns dias, entre os quais os últimos da semana finda, obstaram a que eu pudesse ir na sexta-feira à rua de Santa Catarina, como desejava.

 

O Dr. Pessegueiro (companheiro de juventude do Dr. Abílio) fez-me a vontade indo ver a doente; acredito porém que a sua observação fosse superficial, porque se não tratava de assunto da sua especialidade; porém, o que eu despejava não era uma opinião sobre os factos, e antes um exame físico tanto quanto possível completo; não interpretou assim, o que foi pena.

 

Ao falar anteontem com ele, disse-me que na verdade se inclinava para a hipótese de alta histeria; porém, que a doente deveria ser observada com cuidado por especialista no assunto. Também assim o julgo; e por isso acho óptima a ideia de que seja vista pelo prof. Elísio de Moura, incontestavelmente uma das mais altas competências e sumidades no assunto; estou certo que a sua opinião dissipará nossas dúvidas.

 

Eu não tenho senão relações de cumprimento com S. Ex.a; não deseja V. Rev.a trazê-lo na sexta-feira, 30 do corrente? Eu conto cá estar e, caso V. Ex.a me previna de que vem, eu procuraria também assistir, para trocar impressões.

 

A radiografia que tenho e da qual envio o relatório (é o único) nada revela, não confirmando as minhas suspeitas de lesão vertebral.

 

Precisamos caminhar com toda a prudência, e para tal convém sobretudo a opinião do Prof. Elísio de Moura. Ainda bem que ele vem a Braga nas férias. V. Ex.a, se assim o entender, poderá mostrar-lhe esta carta, a fim de que ele faça a caridade de vir dissipar as dúvidas.

 

Agradecendo a acarta de V. Ex.a, tenho a honra de me subscrever amigo ...

14/12/938

Abílio de Carvalho»

 

A outra carta é quase um bilhete. Como dissemos, presumimos que o destinatário fosse o Dr. Roberto de Carvalho:

«Meu caro colega

Agradeço as suas notícias.

Entendo que terá a doente de ir ao Porto e lá permanecer dois ou três dias para ser observada. Espero a fineza de me dizer o dia em que ela vai, para eu lá ir com o meu colega num dos dias, a fim de que o Dr. Pessegueiro a veja, se o colega concordar.

 

Seu amigo e colega,

Abílio de Carvalho.»

 

O Dr. Abílio, que posteriormente foi nomeado governador civil de Angra do Heroísmo, falecerá em 1941, pelo que as suas intervenções no caso da Alexandrina terão terminado pouco tempo adiante.

 

 

O  Dr. Abílio Garcia de Carvalho: alguma informação biográfica

 

Nós demo-nos a investigar um pouco sobre o Dr. Abílio Garcia de Carvalho. E bafejou-nos a sorte pois descobrimos um grande homem, um homem com estofo de santo, um lutador, um homem que não sendo poveiro fez muito pela Póvoa, um homem que se exprimia muito bem por escrito, que assumiu desde muito cedo e com determinação e saber a sua condição de católico, e um homem em cuja vida, estamos em crer, o salazarismo deixou uma mancha bem lamentável. (Manchas deste tipo há muitas e muito mais lamentáveis...)

 

O Dr. Abílio Garcia de Carvalho nasceu em Mouquim, Vila Nova de Famalicão, em 1890. Estudou primeiro em Guimarães, no seminário-liceu, depois no Porto. Matriculou-se em Medicina nesta cidade e acabou o curso em Lisboa.

 

Cuadro de texto: No primeiro plano desta fotografia, que data de Setembro de 1933, aos lados da senhora ao centro, estão Salazar e o Dr. Abílio de Carvalho. No segundo plano vêem-se vários poveiros.O Porto foi o primeiro espaço onde manifestou a sua dedicação à Igreja. Estava-se nos anos subsequentes à implantação da República. O meio académico era hostil à religião, mas Abílio de Carvalho, em resposta, cria então com outros colegas o centro Académico da Democracia Cristã, o C. A. D. C.. Juntos e organizados aguentaram melhor o combate. Foram perseguidos, o Centro chegou a ser incendiado, mas os lutadores ficaram.

 

Terminado o curso de Medicina, teve de ir prestar serviço militar na I Guerra Mundial, em França. Foi pouco o tempo, mas a sua saúde ressentiu-se. Regressado, casou e mais adiante veio para a Póvoa, donde era natural a esposa.

 

«Uma vez instalado na Póvoa, imediatamente iniciou a sua carreira de médico sabedor e honesto, tendo granjeado larga clientela e impondo-se desde logo como grande trabalhador no campo social e cristão. E neste campo, com o Dr. José Luís Ferreira, distinto prof. do nosso Liceu,  e os Rev.os P.es Aurélio de Faria, e Meira Veloso, zelosos sacerdotes locais, fundou, em 1923, um importante núcleo de Escutismo. Com estes valiosos colaboradores e com o auxílio e trabalho de todos, conseguiu que o «escutismo» poveiro se impusesse, atingindo 100 o número de escutas repartido por três sedes.

 

Aqui realizou uma brilhante festa escutista, no Estádio de Gomes de Amorim, que ficou memorável e na qual participaram inúmeros filiados de vários pontos do país, honrando-a também com a sua presença o saudoso Arcebispo Primaz, Senhor D. Manuel Vieira de Matos.

 

Em virtude do muito que trabalhou em prole do escutismo, foi o Dr. Abílio de Carvalho agraciado, pelo Comissário nacional, com a «Cruz de agradecimento e bons serviços», de ouro, e noemado Comissário Geral Marítimo.» (Ideia Nova, 20/01/1940)

 

Em 1925 fez-se na Póvoa o que sabemos que foi feito noutras terras de maior dimensão, um congresso eucarístico. (A Venerável Alexandrina ainda fora, com grande custo, ao de Braga, no ano anterior). O Dr. Abílio participou com sucesso notável. A sua intervenção foi publicada na íntegra em jornais portugueses, espanhóis e franceses. Por fim, publicou-a, fazendo-a preceder, a modo de introdução, duma carta do eminente matemático Dr. Gomes Teixeira.

 

«No “Congresso Litúrgico”, propôs o Dr. Abílio de Carvalho, aos ilustres Prelados aí reunidos, a criação, em Portugal, do «Secretariado Nacional do Apostolado dos Doentes», que, embora não oficialmente, existia já, com sede na Póvoa, mercê da sua actividade e do valioso auxílio dos Rev.os Padres Meira Veloso e Manuel da Costa Gomes, e de outros.

 

Tal sugestão foi aceita e transformou-se em realidade, contando hoje mais de 2.000 associados em todo o País.

 

A sede desta prestante instituição é na Póvoa de Varzim, estando a sua chefia confiada ao zelosíssimo abade de S. José de Ribamar, Rev.o P.e Costa Gomes – verdadeiro apóstolo dos doentinhos.

 

Mas não terminou aqui a acção apostólica do Dr. Abílio de Carvalho.

 

Como médico escolar do Liceu de Eça de Queirós, tem desenvolvido uma intensa actividade neste vastíssimo sector da medicina pedagógica, dedicando aos seus alunos uma profícua assistência e procurando sobretudo, descobrir neles as más inclinações, antes que ecludam, para lhes corrigir os defeitos natos por uma sábia actuação de ordem moral e psíquica.

 

É pois um médico escolar competentíssimo, como a moderna pedagogia o exige.

 

O sei estudo, apresentado ao concurso para médicos escolares dos Liceus, em 1934 – “Desvios Morais dos Alunos sob o ponto de vista genital” - que a revista «Acção Médica» publicou na íntegra, em separata, devia ser lido em meditado por todos os educadores.» (Ibidem)

 

«Para não falarmos noutras, não serão obras estruturalmente cristãs a «Cozinha Económica», o «Lactário de S. Tarcísio» e o «Patronato-Oficina de S. José», instituições em feliz hora fundadas pela Câmara da sua ilustre presidência e englobadas todas na «Casa Poveira de Acção Social»?

 

Se outros méritos não tivesse aquele a quem o Santo Padre se dignou conceder a elevada mercê de o nomear Comendador-Cavaleiro da Ordem de S. Gregório Magno, estes que acabamos de mostrar em apressada síntese, eram suficientes para o imporem à consideração de todas as pessoas de boa vontade e de são e honesto carácter.» (Ibidem)

 

Veja-se agora esta síntese da sua obra à frente do município:

 

«A sua acção como administrador dos negócios municipais foi fecunda e progressiva. Desenvolveu o turismo, a grande fonte de vida e receita da Póvoa, promovendo visitas dos municípios vizinhos, que se realizaram com grande afluência e entusiasmo, como referimos. Administrou com inteligência e com largueza de vistas a fazenda municipal, promovendo muitos e notáveis melhoramentos na sede do concelho e nas freguesias. Em todos os sectores da actividade municipal foi notável o seu trabalho, mas a obra que mais o impõe à gratidão dos poveiros é, sem dúvida, o abastecimento de água à vila. Foi este o seu maior serviço àquela linda terra, que tantos outros lhe deve.» (Ideia Nova, 01/02/1941)

 

Interveio também na concretização da obra do porto da Póvoa.

 

É sintomático que nas duas resenhas biográficas que citamos, da autoria de amigos, se ignore a sua colagem salazarista.

 

 

 

Poderíamos continuar a falar longamente de Abílio Garcia de Carvalho. O seu empenho social foi notável. Leiam-se estas linhas:

 

«Para não falarmos noutras, não serão obras estruturalmente cristãs a “Cozinha Económica”, o “Lactário de S. Tarcísio” e o “Patronato-Oficina de S. José”, instituições em feliz hora fundadas pela Câmara da sua ilustre presidência e englobadas todas na “Casa Poveira de Acção Social”?»

 

curioso, ao que nos dizem, foi o modo como abasteceu o lactário. Ao tempo vinha para a Póvoa leite produzidos nas casas de lavoura das redondezas. Esse leite tinha que ser analisado. Para o efeito, bastava colher uma pequena amostra. O Dr. Abílio mandou que se recolhesse uma amostra mais avantajada, que revertia para o lactário ao serviço dos mais indigentes.

 

No Patronato de S. José, havia carpintaria, tipografia e oficina de sapateiro. Ali os meninos da rua podiam aprender uma arte.

 

E continua o articulista que temos citado:

 

«Se outros méritos não tivesse aquele a quem o Santo Padre se dignou conceder a elevada mercê de o nomear Comendador-Cavaleiro da Ordem de S. Gregório Magno, estes que acabamos de mostrar em apressada síntese, eram suficientes para o imporem à consideração de todas as pessoas de boa vontade e de são e honesto carácter.» (Ibidem)

 

Veja-se agora esta síntese da sua obra à frente do município:

 

«A sua acção como administrador dos negócios municipais foi fecunda e progressiva. Desenvolveu o turismo, a grande fonte de vida e receita da Póvoa, promovendo visitas dos municípios vizinhos, que se realizaram com grande afluência e entusiasmo, como referimos. Administrou com inteligência e com largueza de vistas a fazenda municipal, promovendo muitos e notáveis melhoramentos na sede do concelho e nas freguesias. Em todos os sectores da actividade municipal foi notável o seu trabalho, mas a obra que mais o impõe à gratidão dos poveiros é, sem dúvida, o abastecimento de água à vila. Foi este o seu maior serviço àquela linda terra, que tantos outros lhe deve.» (Ideia Nova, 01/02/1941)

 

Interveio também na concretização da obra do porto da Póvoa.

antologia

 

Da sua obra: Tese eucarística, discursos, tese educativa

É sintomático que nas duas resenhas biográficas que citamos, da autoria de amigos, se ignore a sua colagem salazarista.

 

 

Quando eu estive na Póvoa de Varzim

 

Sob este título «Quando eu estive na Póvoa de Varzim», preparámos nós um pequeno livro. A autora dele é a própria Venerável, pois quase todo o texto lhe pertence. Vamos agora publicar algumas páginas dele, na impossibilidade de o fazer para a sua totalidade. Por isso, o próximo conjunto de artigos vai ter características um pouco próprias.

 

Começa o livro com uma epígrafe, já conhecida do nosso leitor:

 

«Vinde todos, colhei flores!

Podem vir todos ao jardim que Eu cultivei, / para colherem flores de virtude, / flores de pureza, / flores de graça, / flores de caridade, / flores de heroísmo, / flores de toda a variedade. / Vinde todos, colhei, são flores celestes!»

Vem depois o inevitável prefácio:

 

A Póvoa representou muito para a Alexandrina. Foi aí que ela aprendeu uns rudimentos de leitura e de escrita; foi aí que ela pôde conhecer um pouco da vida urbana e conhecer também o mar, que tem largo espaço nos seus escritos; foi aí que ela passou a maior parte do tempo que não passou na sua aldeia rural.

 

O texto-base desta narrativa é retirado da sua Autobiografia; os que a ele reunimos, são os do P.e Leopoldino Mateus (que era da Lapa e foi coadjutor da Matriz da Póvoa e depois pároco de Balasar ao tempo da Alexandrina) e os que vêm dispostos em verso livre, colhidos nos Sentimentos da Alma. A aproximação entre estes últimos e algumas realidades poveiras parece garantir o peso que a Póvoa teve no seu conhecimento do mundo.

 

Ilustrámos o escrito com fotografias retiradas de vários fontes.

 

Agora que se caminha a passos largos para a sua beatificação, possa  o nosso trabalho proporcionar ao leitor o início dum conhecimento mais pessoal desta mística de projecção mundial.

 

Como primeiro capítulo temos a ida para a Póvoa. Escreveu a autora:

 

«Em Janeiro de 1911, fui com minha irmã Deolinda para a Póvoa do Varzim, para frequentarmos a escola. Não quero pensar quanto sofri com a separação da minha família. Chorei muito e durante muito tempo.»

 

E nós ajuntámos-lhe este parágrafo do P.e Lepoldino:

 

«Alexandrina, na idade de seis, e Deolinda, na de nove anos, não havendo em Balasar uma escola para meninas, foram postas na pensão de um carpinteiro da Póvoa de Varzim, (na Rua da Junqueira).»

 

A palavra de novo à Alexandrina:

«Distraíam-me, acariciavam-me, faziam-me todas as vontades, e, depois de algum tempo, resignei-me.

 

Continuei a ser muito traquinas: agarrava-me aos americanos, deixava-me ir um pouco e, depois, atirava-me ao chão e caía; atravessava a rua, quando eles iam a passar, sendo preciso o condutor deles acusar-me à patroa. Muitas vezes fugia de casa e ia apanhar sargaço para a praia, metendo-me ao mar, como fazem as pescadeiras; trazia-o para casa e dava-o à patroa, que o vendia depois aos lavradores. Com isto afligia a patroa, pois fazia isto às escondidas, embora rapidamente.»

 

E para terminar por hoje, de novo o P.e Leopoldino:

 

«A nossa Alexandrina, ainda pequena e não habituada àqueles espectáculos, porque oriunda duma aldeia do interior, ficava de tal modo impressionada que não resistia ao pensamento dos sofrimentos em que andavam os homens do mar. Comovia-se com isso, como se se tratasse de pessoas de família.

 

Por esse motivo quando então, prisioneira do seu leito, era visitada pelos pescadores, sabia dizer-lhes palavras de afecto, de conforto e de encorajamento, que dificilmente saberemos reproduzir.

 

Nas suas conversas, não deixava nunca de aconselhar-lhes a devoção a Nossa Senhora (à Mãezinha, como costumava dizer), Estrela do Mar, Senhora dos Navegantes e de todos aqueles que viajam por mar.»

 

 

Ouçamos como a Alexandrina fala agora da sua Primeira Comunhão, ocorrida na Matriz Poveira:

 

«Foi na Póvoa de Varzim que eu fiz a minha primeira comunhão, com sete anos de idade. Foi o Sr. Padre Álvares Matos quem me perguntou a doutrina, confessou e me deu, pela primeira vez, a Sagrada Comunhão. Como prémio, recebi um lindo terço e uma estampazinha. Quando comunguei; estava de joelhos, apesar de pequenina, e fitei a Sagrada Hóstia, que ia receber de tal maneira, que ficou tão gravada na alma, parecendo-me unir a Jesus para nunca mais me separar d’Ele. Parece que me prendeu o coração! A alegria, que sentia, era inexplicável. A todos dava a boa nova. A encarregada da minha educação levava-me a comungar diariamente.»

 

O parágrafo seguinte, do P.e Leopoldino, evoca já a vida do mar, para onde queremos conduzir o leitor:

 

«Os gritos das mulheres e das famílias inteiras de pescadores causam uma dolorosa e inapagável impressão sobre a população inteira, que se dirige para a praia para assistir, demasiadas vezes, a gravíssimas catástrofes.»

 

O mar e a tempestade, o pesca, o nadar ocorrem com frequência nos escritos da Venerável. Veja-se este texto, disposto por nós em verso livre. Intitulámo-lo com palavras da autora:

 

«Que tempestade tremenda!»

«Sou como um náufrago que se aprofunda no mar.

Navego no profundo deste mar sem fim, não com as  minhas forças, porque não tenho vida, mas levada pelas águas.

De quando em quando este náufrago que é o meu corpo vem à superfície a receber vida,

Para reimergir logo e morrer novamente.

 

Jesus, meu caro Jesus, se não fosses Tu com o teu amor, se não fossem as almas,

Eu não seria vítima, não sofreria tanto.

É por Ti, luz e força da  minha dor, que eu sofro.

É por teu amor que, alegremente, consinto à dor que consuma o meu corpo.

 

Que tempestade tremenda!

De todos os lados vêm contra mim as fúrias tempestuosas dos ventos, que tentam arrancar-me raivosamente as raízes que me sustêm.» 25/10/46

 

Veja-se agora a última citação do P.e Leopoldino:

 

«Quando as tempestades marítimas tornam difícil o desembarque nas nossas praias, a gente do mar, com fortes gritos, invoca os santos da sua devoção para intercederem em seu auxílio sobre os barcos em viagem de volta da pesca.»

 

O poema seguinte evoca-nos o edifício da Câmara Municipal. Demos por título o verso que reza: «O grande edifício com arcadas está ainda em mim». Está muito próximo da alegoria:

 

«O grande edifício com arcadas está ainda em mim:

é branco, mais branco que a neve.

Há uma escada à entrada de todo o aposento

e essa escada sou eu.

Sinto sê-la

e sinto que sobem continuamente viajantes que vão recolher-se no edifício.

Sinto-os subir;

Sinto que vão ao porto de salvação e não me alegro com isso, não me consolo.

Quero que subam, esforço-me que não corram perigo,

mas eu, pobre de mim, continuo sempre envolta em trevas...» 28/6/45

 

 

 

 

Embora residisse na Póvoa, a Alexandrina foi receber o Crisma à Vila. Ditou ela:

 

«Foi em Vila do Conde, onde recebi o Sacramento da Confir­mação, ministrada pelo Ex.mo Rev. Sr. Bispo do Porto (D. António Barbosa Leão). Lembro-me muito bem desta cerimónia e recebi-a com toda a consolação.

 

No momento em que fui crismada, não sei o que senti em mim; pareceu-me ser uma graça sobrenatural, que me transformou e me uniu cada vez mais a Nosso Senhor. Sobre isto, queria exprimir-me melhor, mas não sei.»

 

Na Póvoa há um castelo. Mas o castelo que estes estes versos da Alexandrina evocam tem pouco a ver com ele, ao que nos aprece:

 

«Estas torres lembram-me os grandes castelos antigos»

 

«O meu corpo desfeito pela dor

Não tem o valor do farrapo mais sujo,

Porque não é nem um farrapo.

Mas a minha alma, ó Jesus, não sei onde ela vá.

Parece que está dentro de torres tão altas, tão altas,

Mas triste e tenebrosas;

Não são torres da terra, nem torres do céu;

Não sei o que são.

A toda a hora ameaçam cair pelo vento e tempestade.

A alma treme aterrorizada.

Estas torres lembram-me os grandes castelos antigos, escuros, cheios de arcadas;

Ninguém pode entrar ou sair sem um guia.

As entradas são tantas e situadas muito no alto;

Tenho medo de sair de lá porque estou só, sem luz, sem guia.

São tantos os muros em redor de mim:

Causam-me tal espanto que não deixaria de o sentir ainda que tivesse luz e guia.» (14/1/49)

 

«Encontro-me nas mesmas torres,

Mas, dia a dia, sempre mais no interior delas,

Sem sentir vida.

Quanto mais trabalho tanto mais vejo o que há a fazer;

Ou melhor, o Artista que em mim  trabalha não pára de trabalhar;

Encontra sempre que retocar.

Vê tudo e eu tudo vejo,

Mesmo nas trevas e na escuridão mortal em que me encontro.

Estas torres são cercadas, momento a momento, por novas torres.

Eu fico sempre mais no interior: não vejo caminho de saída;

Não sei como livrar-me.

São espantosas;

Elevam-se sempre mais e eu fico dentro delas.

A minha alma queria dar uma ideia mais clara do que são estas torres,

Do que acontece dentro de mim, mas não sei;

São tão grandes, tão espaçosas

E eu sinto-me tão comprimida entre as suas paredes!

São paredes que parecem ter a antiguidade de sempre.

Ó meu Deus, não sei dizer outra coisa; confio-o a Ti!»(28/1/49)

 

 

Com o artigo de hoje terminamos a publicação da parte inicial do livrinho que temos vindo a transcrever. A Alexandrina começa hoje por nos falar da sua vida de oração ao tempo da sua infância e adolescência:

 

«À medida que ia crescendo, ia aumentando em mim o desejo da oração. Tudo queria aprender. Ainda conservo as devoções que aprendi na minha infância, como «Lembrai-Vos, ó puríssima Virgem Maria...», «Ó Senhora, ó minha Mãe...»; o oferecimento das obras do dia - «Ofereço-Vos, ó meu Deus...» -, a oração do Anjo da Guarda, a oração a S. José e várias jaculatórias.»

 

Como que premonitoriamente, a Alexandrina sentiu uma atracção especial pela capela de Nossa Senhora das Dores. No que se segue não deve haver pieguices, mas a verdade de um fascínio sentido:

 

«Quando ia a passeio com a patroa para o campo, acompanhada com outras meninas, fugia do convívio delas e ia apanhar flores, que desfolhava para fazer tapetes na igreja de Nossa Senhora das Dores. Era em Maio e toda me comprazia em ver o altar da Mãezinha adornado de rosas e cravos e de respirar o perfume dessas flores. Algumas vezes, oferecia à Mãezinha muitas flores, que minha mãe propositadamente me levava.»

 

E agora um texto seu, onde as palavras de Jesus a associam à participação da sua Paixão e lhe atribuem um título bem singular: «Alexandrina das Dores»

«Esta manhã não podia respirar;

Tomada de terror, não podia viver.

Sentia os olhos colados do sangue que corria do grande capacete de espinhas lancinantes que me cingia a cabeça.

Em tal estado percorri as ruas escuras e estreitas para o Calvário. ...

Como foi dolorosa a viagem!

Quanto me custou chegar lá cima!

...

Veio Jesus; deu luz a toda a minha alma e disse-me:

- Minha filha, minha Alexandrina, Alexandrina das dores:

Consente que junte este título de esposa: Alexandrina das Dores.

Tem coragem!» (9/5/47)

 

O texto seguinte volta a falar na Senhora das Dores. Mas conta uma história curiosa, que diz da determinação da Alexandrina adulta:

 

«O capelão de Nossa Senhora das Dores lembrou-se de organizar várias comissões de meninas, para arranjar meios para o culto da mesma capela. Essas comissões espalharam-se pelas freguesias vizinhas da Póvoa de Varzim. Eu fui para a Aguçadoura. Aceitávamos tudo o que nos dessem, como batatas, cebolas, etc... Por mais que pedís­semos, pouco arranjámos e tivemos a má ideia de saltar a um campo e tirar batatas, cerca 2 kgs. Fui eu uma das que fiz tal acção, enquanto as outras vigiavam. Entregámos as ofertas, não contando nada do que se tinha passado.»

 

A Alexandrina também conheceu a Senhora da saúde de Laundos. Ouçamos a narrativa:

 

«Lembro-me de ir acompanhar a minha patroa a Laundos, cumprir uma promessa a Nossa Senhora da Saúde. Connosco foi uma filha dela e a minha irmã. Esta ajudava-a, pegando-lhe na mão, porque ia de joelhos, e eu ia à frente dela, arrumando-lhe todas as pedrinhas, que encontrava no caminho. A filha, que era mais velha do que nós, foi para a brincadeira.

Era muito dedicada à mulherzinha e quando me davam qualquer coisa boa, frutos, doces, etc..., repartia com ela, que ficava toda satisfeita.

Procedia assim, porque o meu coração assim o queria, apesar de ser muito má.»

 

Dois biógrafos da Venerável

 

São vários os biógrafos da Venerável. Hoje vamos referir dois. Não é que tenhamos muito que dizer a seu respeito; bem ao contrário, temos pouco, porque não conseguimos encontrar fonte que nos informasse.

 

Francis Johnston é o sacerdote irlandês que compôs uma biografia da Alexandrina em inglês, Alexandrina. The agony and the glory, facilitando assim o seu conhecimento aos leitores anglófonos. Sabemos que fez duas edições, uma em Dublim, em 1979, a outra no estado americano do Illinois. Esta segunda edição é ilustrada; nela colhemos a fotografia que aqui publicamos e que representa, da esquerda para a direita, em primeiro plano, o próprio Francis Johnston, Deolinda, a irmã de Alexandrina, e o P.e Humberto Pascoal. Em segundo plano, estão dois ingleses, certamente colaboradores do P.e Francis Johnston.

 

Num dos últimos parágrafos do livro, escreve este autor:

 

«Em Agosto de 1978, tive o grande privilégio de encontrar Deolinda na casa de Alexandrina. Agora com quase oitenta anos e com princípios do mal de Parkinson, ela manifestou uma admirável delicadeza e gentileza que me proporcionou uma amostra do zelo sublime que dedicou à sua santa irmã. E, por uma excepcional coincidência, o P.e Humberto Pascoal acabava de chegar de Turim para uma curta estada, depois de visitar a sua amiga Irmã Lúcia, agora uma carmelita de passagem em Coimbra. A sua cordialidade não teve limites. Depois de me mostrar tudo o que havia de interessante na casa e me explicar como a vida de Alexandrina está a ser traduzida para muitas línguas, deu-me como preciosa relíquia o lenço que ela usava imediatamente antes de morrer. Em resposta à minha sugestão de que Alexandrina pode um dia revelar-se como uma segunda Margarida Maria Alacoque, deu-me o mais decidido sim.»

 

Fácil é de ver que a fotografia de cima corresponderá ao momento evocado no parágrafo. Acrescente-se que, no princípio do livro, Francis Jonhston confessa o seu grande débito para com o P.e Humberto Pascoal, através do seu livro Alexandrina. O que nos parece específico deste sacerdote irlandês, porém, é o seu fôlego de escritor. Realmente, trata-se duma narrativa bem ordenada, de leitura agradável, precedida de um título convidativo.

 

Um outro biógrafo de Alexandrina de que hoje também pretendemos fazer menção é o salesiano P.e A. Rebesco, o autor de L’Estatica. Nada conhecemos sobre ele; no prefácio italiano declara que escreveu a pedido do P.e Humberto Pascoal e que pretendia fazer uma versão abreviada do livro Alexandrina, pelo que para ele remete para um conhecimento mais aprofundado. O livro é constituído por três partes: a Vida, os Prodígios (o jejum, a paixão, o êxtase) e os Ensinamentos.

 

Com o objectivo de situar a vida de Alexandrina no meio histórico e cultural português, o autor tece na primeira página um muito belo elogio a Portugal. Veja-se:

 

«Lusitania felix, Portugal feliz!

Terra ardente de sol, perfumada de flores, terra de cantos e de encanto.

Voltada para o Atlântico, dele ouve os bramidos tempestuosos, mas dele goza também as brisas acariciadoras.

 

Bastião ocidental da velha Europa: o sol, quando, à tarde, mergulha no Oceano para navegar para as praias americanas, envia-lhe um último beijo, como amigo que parte para uma viagem longínqua.

 

O seu povo generoso, como tantos outros – Fenícios, Genoveses, Venezianos, Amalfitanos (de Amalfi, próximo de Nápoles) e Holandeses – que têm defronte o mar e pelas costas um solo ingrato, lançou-se à conquista das ondas, de modo que nos séculos das grandes descobertas os navios portugueses aproaram às terras mais distantes da Ásia, da África, da América, conquistando para este povo um império vastíssimo, fonte de riqueza sem fim, e a quem, em troca, ele deu a sua língua, os seus costumes e a civilização cristã.»

 

Diz-se que os livros têm o seu destino, o seu caminho próprio (habent sua fata libelli). O deste é particularmente surpreendente, pois já tem traduções para tailandês e chinês e, possivelmente, também para japonês.

 

 

Um discurso do Dr. Azevedo

 

Não sabemos ainda avaliar a extensão do labor que à Alexandrina dedicou este médico de Ribeirão. Mas foi enorme. Seria preciso um livro para o registar e sobretudo para recolher o que escreveu.

 

Quem foi o Dr. Azevedo, este pai de 14 filhos, cuja vinda até junto de Alexandrina foi verdadeiramente providencial?

 

Ouçamos hoje este seu discurso, que transcrevemos do «Ala-Arriba» de 7/4/56, e que ele proferiu em Balasar, em 28/1/56, no descerramento de um retrato em homenagem a Alexandrina:

 

«Neste acto de gratidão e homenagem àquela que com carinho chamávamos a Doentinha de Balasar, sinto o dever de dizer algumas palavras de saudade, de parabéns e de agradecimento.

 

Palavras de saudade, porque a verdade é que, com o decorrer do tempo, parece ir-se avivando, cada vez mais, a tristeza pela falta da nossa querida Alexandrina, pois já não ouvimos a sua voz angélica a aconselhar-nos nas nossas dúvidas, a animar-nos no cumprimento do dever, amando mais e mais a Deus e ao próximo, numa palavra, a termos uma vida mais digna e cristã. E esta saudade de Alexandrina só nos pode ser suavizada por sabermos que os sofrimentos de vítima de nossos pecados e de pecados do mundo, nos últimos tempos, já não podiam ser maiores e hoje gozará, por prémio das suas virtudes heróicas, a maior felicidade, aquilo que S. Paulo, num êxtase sublime e inegável, viu e depois definiu como sendo «o que os olhos humanos nunca viram, os ouvidos nunca ouviram, nem o coração do homem imagina o que Deus tem preparado para aqueles que o amam».

 

Palavras de parabéns. Sim, mereceis esses parabéns pelos vossos sentimentos e actos, desde o falecimento da Alexandrina e pelo descerramento do retrato daquela que tanto alindou a vossa igreja. Logo após o falecimento dela, vós mostrastes a vossa dor  e a vossa esperança.

Dor pela falta dessa figura extraordinária, a maior glória de Balasar, em todos os tempos, glória que o futuro dirá ser de Portugal e do mundo inteiro.

 

Vós não sabeis, nós não sabemos, o que Deus criou e acumulou de graças no lugar do Calvário desta freguesia, mas, depois de volvido algum tempo (sem eu querer antecipar qualquer decisão definitiva da Igreja), dir-se-á que foi uma alma mística extraordinária, uma vítima propiciatória, daquelas a quem se referia Jesus falando a uma religiosa nos seguintes termos:

 

“O Pai celeste olha-as com especial agrado. São o encanto dos Anjos e dos homens. São muito poucas. Destinam-se a servir de defesa diante da justiça do Pai Celeste e a obter misericórdia para o  mundo.”

 

Mostrastes, senhoras e senhores, a vossa esperança, porque se o funeral da Alexandrina foi uma autêntica glorificação da sua vida heróica e santa, quereríeis significar com isso que tínheis a certeza da sua valiosa intercessão por vós lá no Céu.

 

Sim, aquele sorriso angélico da Alexandrina nos está dizendo que contemos com ela e que não desanimemos nas tribulações da nossa vida. Já dizia o nosso maior poeta que o “caminho da virtude” era “alto e fragoso, / mas no fim, doce alegre e deleitoso”. Para o Céu só há um caminho, o do dever, o do arrependimento, o das tribulações e cruzes, e a vida e o sorriso de Alexandrina nos estimulam a segui-lo e a  abraçá-lo.

 

Estejamos certos desta intercessão a nosso favor, perante Deus, a quem tanto adorava, e perante a Virgem Imaculada, a quem tão ardentemente amava.

 

Palavras de agradecimento para vós e para a vosso pároco. O Sr. abade, durante a vida da Alexandrina, foi incansável em dar-lhe diariamente o que ela desejava, o seu querido Jesus (seu único alimento durante treze anos e meio) e, desde o seu falecimento, tem sido incansável em manifestar, por belos artigos na Imprensa e por conversas, as virtudes dessa alma heróica e angelical, que foi a nossa querida e abençoada Doentinha. Deus lhe dê muitos anos de saúde e vida para continuar a dar-nos luz, a fim de que se saiba onde está a verdade e onde está a mentira, para continuar a fazer justiça, porque é um acto de justiça dizer ao  mundo quem foi a Alexandrina.

 

E vós todos, que dum ou doutro modo respeitais e acarinhais a memória da Alexandrina, ficai certos de que ela no Céu não vos esquecerá e, grata como sempre foi, nada vos ficará a dever. Pedi nas vossas dores e alegrias a sua intercessão e, do bom resultado dela, por dever e gratidão, continuai a dar conta ao senhor abade, a quem a autoridade eclesiástica confiou o registo das graças recebidas.»

 

No final do seu livro Alexandrina o P.e Humberto alude ao episódio do descerramento do retrato; é na página 366 da 6ª edição. Vale a pena ler o que então escreve:

 

«A seis meses da sua morte, durante uma solene manifestação, a figura de Alexandrina sorri a todos no grande quadro que foi inaugurado no salão paroquial de Balasar, como um sinal de estima e gratidão por quanto ela havia feito em vida pela terra natal.»

 

Diz-nos o Sr. P.e Francisco que o retrato de que aqui se faz menção será certamente o que se pode ver, muito envelhecido, sobre a cama, na casa que foi sua.

 

Opositores

 

A oposição à Alexandrina chegou a tomar formas muito duras. Vimos já que tudo começou com o artigo do P.e Terças, que tornou pública a vivência da Paixão pela Venerável. Esta carta escrita pelo pároco de Chaves ao Arcebispo ajuda a compreender como actuou a comissão por ele nomeada:

 

«Excelência Rev.ma

Beijo respeitosamente o seu anel.

Achando-me em repouso aqui, no santuário do Sameiro, um fulano autoriza-me a dizer-lhe que o caso de Balasar (uma certa Alexandrina) não é senão uma torpe e indecente mistificação que é conveniente extirpar quanto antes. É um caso verdadeiramente monstruoso do qual deve desligar-se e sobretudo afastar o P.e Pinho. Não posso dizer outra coisa.

Servo inútil.

P.e José Francisco Gonçalves Fraga, Pároco de Chaves.

 

Sameiro, 30/7/1942». P. 114

Cuadro de texto: O prof. Carlos Lima, da Universidade do Porto, que comprovou o jejum de AlexandrinaNa oposição ao carácter sobrenatural do que se passava com Alexandrina, destacava-se o jesuíta P.e Veloso, colega do P.e Pinho, que defendia que tudo acontecia por sugestão deste. Como o Cónego Molho de Faria, também ele ouvira na Gregoriana as lições do P.e Siwek. Como ele, generalizava sem análise.

 

O amor do P.e Veloso à verdade era muito discutível. Veja-se este lamentável episódio contado pelo P.e Humberto:

 

«O P.e Pinho, como superior, tempos atrás, fizera uma observação a um confrade: o P.e Veloso. Este conservou-lhe um rancor surdo. Um dia na sua ausência entrou-lhe no quarto e devassou-lhe a correspondência e encontrou uma carta que oferecia  ocasião a interpretações sentimentais (tratava-se de carta duma dirigida do P.e Pinho, uma insensata que acabou por juntar-se a um ateu...); teceu insinuações pouco correctas e enviou tudo aos superiores. A denúncia teve triste seguimento, pelo que o P.e Pinho foi afastado com restrições no exercício do seu ministério.

 

O P.e Abel Guerra, que narrou estes particulares ao P.e Humberto em 10/04/1973, acrescentou que, sendo superior do P.e Pinho naquele período, conhecida tudo e se sentiu no dever de enviar aos superiores gerais um longo relatório em sua defesa.»

 

E veja-se agora esta intervenção do P.e Veloso, aquando da ida de Alexandrina para o Refúgio de Paralisia Infantil para exame. Conta o Dr. Azevedo em carta ao P.e Pinho:

 

«Antes de ter (de redigir) o relatório, o Dr. Araújo foi abordado pelo P.e Veloso (tão digno de crédito que foi proibido de pregar nas dioceses de Lamego e do Porto), que disse para se não comprometer porque a doente de Balasar é uma impostora; para estar atento porque se trata de uma mistificação e que eu sou um fanático. Soube a coisa... mas pelo que me diz respeito perdoo-lhe e não quero que sofra com isso: peço-lho de joelhos. Quanto às afirmações acerca da doente, é preciso que o fulano esteja atento... porque há parentes de tal força que se viessem a saber da calúnia quebravam-lhe as costelas.» (23/08/1943) p. 140

 

Poderá parecer que estes actuações tão lamentáveis merecem apenas o silêncio. Mas a história também se faz com tais baixezas e com elas se fez o sofrimento da Alexandrina. Além disso, elas explicam a firme reacção do Dr. Azevedo a uma frase dum escrito do P.e Veloso na Brotéria. O escrito do Dr. Azevedo saiu no Comércio do Porto. Sem este contexto não faz sentido.

 

Estamos já em Janeiro de 1947. O artigo do P.e Veloso intitulava-se «Mística e jornalismo» e alongava-se por 15 páginas. Começava assim:

 

«A psicose do maravilhoso vem de longe. E uma tentação mais ou menos cíclica, principalmente em tempos anor­mais, quando a vida, na palavra justa de Vauvenar­gues, mais se vence do que se vive. Pode haver outras razões, mas esta é, parece-nos, uma das mais influentes nesse curioso fenómeno, de que o nosso tempo nos tem dado abundantíssima ma­téria de observação e estudo.

 

 

Só dos últimos anos, lembram-nos os casos típicos do Barral, da Madre Virgínia (no Funchal), e das visionárias de Lamego, da Correlhã, da Vergada, de Pereira de Avidagos, de Balasar, do Pinheiro, de Baião, de Oriz e, ultimamente, a de Vilar Chão. E certamente que o rol não fica por aqui. Estes casos, porém, tor­naram-se mais conhecidos, não porque valham mais que os outros, mas porque a imprensa periódica, tomando-os à sua conta, lhes deu, com razão ou sem ela, uma notoriedade que, de outro modo, nunca chegariam a ter.»

 

O Dr. Azevedo riposta: o P.e Veloso não era especialista no tema; os médicos tinham dado o seu veredicto e ele não o respeitava; havia o testemunho do insuspeito e categorizado Cónego Vilar. O P.e Veloso não devia ser impedido de escrever mais na Brotéria.

 

Ele tinha muitas e boas razões para defender a Alexandrina. Ela não era impostora, o seu apego à verdade e a sua humildade eram totais, o seu bom senso não admitia dúvidas, o carácter sobrenatural do que com ela se passava impunha-se por si a quem a acompanhava de perto.

 

Dr. Elísio de Moura

Por No Calvário de Balasar

Em defesa da Alexandrina

Dados biográficos pelo P.e Humberto

As palavras de Jesus

No caso do Refúgio

Tribunal

 

Os escritos do Dr. Azevedo: até ao Papa escreve; responde em tribunal; os seus escritos: as suas múltiplas intervenções davam um pequeno volume

 

O dr. Precedente

 

«É um serafim que se consome de amor»

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dr. Roberto de Carvalho

 

Salazar: «levo-o para o céu»

 

 

Os juízos das épocas não são constantes sobre a mesma matéria. Salazar hoje é avaliado pela óptica daqueles que ele combateu.

 

Dizer que Salazar era fascista significa igualá-lo a Mussolini. Ora as diferenças entre os dois eram se calhar bem mais que as semelhanças.

Diabolizar

Fazer a apoteose.

Como quer que seja, aqui não se pretende fazer análises histórico-políticas, mesmo quando as incidências surjam; essas fiquem para os especialistas.

Os congressos de Braga e da Póvoa, a festa de Vila do Conde

José Ferreira

 

Hosted by www.Geocities.ws

1