O Cónego Dr. Molho de
Faria: tão vizinho e tão distante
Determinar
o lugar que o Cónego Dr. Molho de Faria teve junto de Alexandrina supõe
determinar o modo como Braga tratou a Venerável e ajuda a perceber muita outra
coisa. Vê-se logo que é tarefa de vulto, eventualmente melindrosa. Tarefa para
que nos não achamos preparado, tendo portanto de deixar uma porta aberta para
juízos mais fundamentados.

Mas há
coisas que parecem claras. Sendo a Alexandrina uma cristã da Arquidiocese de
Braga, a Igreja bracarense não se ocupou dela, até hoje, tanto quanto se poderia esperar. Porque, se
a Alexandrina é hoje conhecida no
mundo, não o é pelos estudos realizados pelos homens e mulheres da sua
arquidiocese. Ela é conhecida pelo que se escreveu no Norte de Itália, pelo que
o P.e Mariano Pinho escreveu no Brasil e por umas tantas coisas que foram
escritas por alguns salesianos portugueses. Em boa verdade, Braga ficou de
fora. E não foi por não ter gente capaz ou suficiente, foi antes por não ter
avaliado devidamente a situação. E entra aqui o Cónego Molho de Faria.
Foi a
um outro poveiro de Terroso – o Cónego
Molho de Faria – que o Arcebispo bracarense D. Bento Martins Júnior entregou, a
certa altura, a responsabilidade de estudar tudo o que dizia respeito à
Venerável a fim de poder ter sobre o caso uma opinião segura, oficial. Ora a
comissão a que ele presidiu trabalhou muito mal, como é sabido, tendo sido
razão de grande sofrimento para a Alexandrina e para aqueles que mais de perto
a acompanhavam.
Vejam-se
algumas frases do único encontro havido entre este e a Venerável, segundo o
relato da Deolinda. Pedia-lhe sua reverência que o esclarecesse porque fugira
lá da casa do Calvário a Felismina, ao que a Venerável respondeu:
«- Fiz o
propósito de não dizer nada, de não me desculpar.»
(Entenda-se,
de não me desculpar, já que isso implicava culpar a Felismina.)
Volta o
teólogo:
«- Mas
aqui não é mundo que a interroga, sou
eu. Saiba que está tudo nas minhas mãos!»
(Parecem
ecoar nesta resposta palavras que Pilatos proferiu uma dia...)
«Senhor
Padre, responde-lhe a Alexandrina, a minha vida está nas mãos de Deus.»
Prossigamos.
A análise das diligências da comissão está feita, como está feita a crítica ao
relatório que então foi produzido. Mas tenha-se em conta que o juízo deduzido
deste relatório fez fé durante um largo período. Foi ele sem dúvida que motivou as duras posições que ao longo de
dez anos saíram de Braga. Foi só já no final da vida de Alexandrina que se
decidiu fazer-lhe novo exame, que não chegou realizar-se, mas que significava
já menos confiança nas conclusões do primeiro.
O Dr.
Molho de Faria em 1959 publicou um pequeno livro a propósito da Alexandrina. E
até hoje, que saibamos, foi o único responsável da Arquidiocese que a tal se
abalançou. Intitula-se ele A Devoção aos Servos de Deus. No frontispício,
acrescenta-se este subtítulo entre parêntesis: «Acerca do “Caso de Balasar”».
(Pelos
vistos, há outro livro da responsabilidade dum sacerdote da arquidiocese, mas
desconhecemo-lo.)
Que diz
porém no seu escrito o Cónego Molho? Qual é a sua mensagem?
Antes de
mais, não resume a vida de Alexandrina, não faz uma ainda que rápida apreciação
da sua caminhada de santidade. Não lhe dedica uma só página inteira seguida.
Clama por prudência, pela necessidade de vigiar para que os fiéis não caiam em exageros...
Como a
sua prosa está longe do que fez Alexandrina! Com quanto sacrifício ela recebeu
os visitantes que Jesus lhe enviou! Quanto ela orientou! ... As pessoas que
então vinham eram as que continuavam a vir após a sua morte. O Cónego Molho de
Faria, que não veio antes, chega agora alvoroçado. Ouçamos as suas primeiras
palavras:
«Há
dezenas de anos que o «Caso de Balasar» entrou no domínio
público. E também no da discussão, por vezes apaixonada e... apaixonante. Com
defensores acérrimos. Não raro, imprudentes e alguns exorbitantes. E com
inimigos, que não dão tréguas. Tudo lhes serve. Tudo interpretam mal.
Ao lado
destes, muitos outros exploram e... confundem. À busca de notícias
sensacionais, relatam factos com interpretações duvidosas, ou exageradas e
subjectivas. Falaram os jornais. Falaram as revistas. E até os livros. Falaram,
sobretudo, as gentes, na sua linguagem prática e eloquente.
Não nos
admiramos de tudo isto. Reputamos natural. O caso tinha de chamar a atenção
pelo extraordinário de que se revestiu. Tinha de causar real alvoroço. Criar
mesmo verdadeira contradição. E quer na hipótese de tudo quanto se passou com
Alexandrina Maria da Costa ser obra de Deus. É que a obra de Cristo foi de
contradição. E tanto mais quanto maior mistério implica. Criou inimigos.
Muitos, e dos que não perdoam. Sempre irreconciliáveis e na brecha. O próprio
Evangelho é peremptório.
Quer na
hipótese de não se tratar de obra de Deus. Tal qual surgiu o «Caso de Balasar»,
a modos de explosão sobrenatural, não qualquer mas deveras extraordinária,
multi-facetada, — tinha de provocar violentas reacções.
E
provocou-as. Houve-as fortes, durante a vida de Alexandrina. Continuaram, após
a sua morte. Com aspectos diferentes? Sim. Mesmo bastante diferentes. É natural
que continuem. Deus queira que só para bem.»
Há em
Balasar um livrito a que o Cónego Molho faz referência demolidora. É um escrito
anónimo e popular, para venda de feira, digamos. Tem por título O Caso de
Balasar, expressão que foi comum para se referenciar tudo o que respeitava
à Venerável.
Não nos
pareceu que o anonimato lhe prejudicasse tanto o conteúdo, que muitas vezes tem
o seu mérito. Os responsáveis dele nem se arrogaram originalidade; limitaram-se
a fazer uma recolha de materiais publicados. Julgamo-lo aliás um documento bem
significativo para perceber a dinâmica que se gerara em redor do nome de
Alexandrina. Dizer que isso levou a excessos, sendo verdade, não pode fazer
ignorar o lado positivo da questão, que esse sim teve e tem uma importância
suma – até para nos acordar a todos!
Mas
vejam-se algumas das escandalizadas palavras do Cónego Molho de Maria a
propósito do que chama «apóstolos arranjistas» de Balasar:
«Entre a
mercadoria de tais apóstolos arranjistas, vinham livrecos e... folhetos. Destes
temos um presente. É o cúmulo de indignidade e de abuso de coisas sagradas.
É o
cúmulo de indignidade. Anónimo, — sem qualquer autor responsável. O pior papel.
A apresentação ridícula. Tudo a indicar claramente um único intuito: gastar pouco
e ganhar o máximo.

Não há
que olhar para estas minúcias? Bem ao contrário. Não nos sofre o ânimo que se
pretenda tratar de uma coisa sagrada, como se houvesse de propagandear... arroz
ou bacalhau. E o paralelo só não é justo, porque aqueles géneros alimentícios
merecem, de frequente, propaganda mais decente. Tudo, pois, indigno do assunto
em questão.
A
glorificação de um Servo de Deus merece todo o respeito. Deve ser tratada com a
maior delicadeza e piedade. Não com veleidades. Muito menos, com coisas destas.»
Daqui
passa-se para a seguinte nota de rodapé:
«Esse
folheto apresenta, na primeira página interior, título mais extenso e...
harmónico com o conteúdo: “O Caso de
Balazar, através de várias transcrições, publicadas em diversos livros e
jornais”. Além de incompleto, o longo título implica fraude. Nessas
transcrições, nada há que legitime ou autentique o seu valor. Nada a indicar
quais os livros ou jornais. Nem quais os seus autores, excepto um. Houve este
único objectivo: preencher as 70 pequenas e paupérrimas páginas. Além dos
textos a esmo, há igualmente algumas cópias de
fotografias, espalhadas sem critério.”»
Continua
depois o autor:
«Também é
o cúmulo no abuso de coisas santas. Não apresenta qualquer aprovação
eclesiástica. Num escrito deste teor, é isso de lei, como veremos. Em especial,
quando destinado ao público. Não a tem nem a podia ter. Miscelânea tão
inconveniente só podia merecer reprovação completa.
Depois,
em tudo houve um fim comercialista a conseguir. Daí, a preocupação de amontoar
sem qualquer critério tudo quanto viram de molde a comover o coração simples
das nossas gentes. Ainda por cima, aparecem as últimas páginas com uma colecção
de orações para santificar o dia. Nada da aprovação necessária. Nada que as
fizesse esperar. Nada, a separá-las do resto. Revolta ver como estas coisas
santas são tratadas sem qualquer escrúpulo. Revolta e... pede correctivo.»
O Cónego
Molho de Faria não era certamente um homem sereno. O seu juízo arrasador não
faz muito sentido. O livrito pode-se ver antes como a reacção popular à
incompreensão eclesiástica. À incompreensão do Cónego Molho. Vir falar de
bacalhau, da gravidade de publicar «uma colecção de orações para santificar o
dia»...
Vamos
agora concluir e fazemo-lo com algumas frases do livro italiano Figlia del
Dolore, Madre di Amore, frases que nos escusamos de comentar. Aí se
escreve:
«Quanto a
Molho de Faria, só depois da morte de Alexandrina começou a considerá-la santa,
tendo estudado os seus escritos e meditado sobre a sua vida. Celebrou três
vezes a Santa Missa na Capela funerária, por devoção.
Ao depor
para o Processo Informativo Diocesano, afirmou:
‘Neste
momento penso que a fama de que goza a Serva de Deus seja a melhor possível e
merecida. Insisto em que penso que a Serva de Deus é digna da honra dos
Altares.
Tudo sei
por conhecimento e estudos pessoais.’»
Gomes dos
Santos, na Voz da Póvoa de 5/8/1984, publicou um artigo sobre os cónegos
Molho de Faria e Vilar, mas sem estabelecer qualquer relação com a Venerável.
O encontro de Molho de
Faria com Alexandrina
Há em Balasar uma carta do P.e Humberto Pascoal
onde ele recomenda a certa altura: «non lasci Braga dormire». É frase duma pessoa
muito delicada nos seus juízos, que muito trabalhou para a Alexandrina.

Congressos
Eucarísticos
A
Venerável foi, em 1924, com grande custo, ao Primeiro Congresso Eucarístico Nacional
realizado em Braga. Este facto é relevante e conduz-nos a uma reflexão sobre
este e outros congressos eucarísticos que ao tempo se reuniram; ajuda-nos
também a ver que a sua devoção à Eucaristia não surge sem contexto, sem
antecedentes.
Desde logo,
juntam-se nesta ida a Braga a Eucaristia e a dor, dois temas sempre presentes
no seu percurso biográfico e de santidade. Depois, é preciso saber que o
congresso teve duas vertentes, a da reflexão teológica, mais douta, que
decorreu «na igreja do antigo Seminário de S. Pedro e S. Paulo», e uma outra
mais prática e litúrgica, com manifestações variadas, em que se contou uma
participadíssima missa campal no Sameiro, presidida pelo arcebispo de Évora, D.
Manuel Mendes da Conceição Santos, e cerimónias na Sé com procissão, que
permitiu a bênção do Santíssimo na Avenida Central. A jovem Alexandrina terá
vibrado com o entusiasmo geral vivido nestas últimas.
Além da
Alexandrina, tomaram parte neste congresso mais três personagens com processos
de beatificação em curso, o P.e Abílio Correia, o mencionado arcebispo de Évora
e Bernardo de Vasconcelos. Este último, que estava a caminho de se fazer
beneditino, na qualidade de membro do CADC (Centro Académico da Democracia
Cristã, de Coimbra), teve uma intervenção notada e notável. A ela nos vamos
referir abaixo.
Em 1925,
decorreu na Póvoa o II Congresso Eucarístico Diocesano (o primeiro do género
fora em Braga no ano anterior
ao nacional). A Alexandrina já cá não pôde
vir, pois acamara havia alguns meses. Num livrito que então se publicou a
preparar o acontecimento, o P.e Abílio Correia, que para ele escreveu um artigo
dedicado à vítima da Eucaristia S. Tarcísio,
é classificado como «a alma mais eucarística de Portugal».
Alguns
anos após o da Póvoa, haverá também em Guimarães um congresso eucarístico.
Integradas nesta dinâmica, em 1939, Vila do Conde celebrará umas vistosas
comemorações eucarísticas. Tudo isto ajuda a esclarecer o contexto donde emerge
a Vítima da Eucaristia de Balasar.
Venhamos agora à intervenção de Bernardo de
Vasconcelos no Congresso Eucarístico Nacional. Este estudante coimbrão era um
lutador e a sua alocução era já conhecida doutros auditórios. Mas tinha todo o
cabimento ali. Vejam-se as linhas iniciais deste poético texto que enche muitas
páginas:
«Na
antemanhã do Natal, o homem, “ainda sentado nas trevas e nas sombras da morte”,
era já como o filho dum rei obrigado a viver na maior indigência e sabendo-se
chamado a mais altos destinos ...
Ao raiar
a estrela de alva, sobre a terra desceu a Grande Luz: — nasceu o Sol do
Mundo... e tudo se iluminou à sua volta...
E esse
era o Verbo, no qual estava a Vida: — “era a Luz verdadeira, que ilumina todo o
homem que vem a este mundo...”.
O homem
tinha fome e sede de justiça; buscava a felicidade ...
E o Verbo
se fez carne para ser o Caminho... Muitas gentes o seguiram - ...; outras,
porém, enveredaram por caminhos diferentes, sombrios, levadas pelo seu único
juízo..., em busca do desconhecido
E o Verbo
era Luz. Mas a Luz ocultava-se então no corpo, como hoje se oculta nas
espécies...
Por isso
“a Luz resplandeceu nas trevas e as trevas não o compreenderam”. E de novo o
homem se ficou nas sombras da morte...
O Verbo era
Deus. As palavras do Verbo traduziam a Sua natureza: — o Verbo era a Verdade
... O homem ansiava pela verdade; mas a verdade era, para seus olhos carnais,
luz mais mortiça que a das suas paixões...
Preso a
elas, e amando o que tomava por verdade, o homem afinal odiava a própria
Verdade, porque ela ia de encontro às suas misérias.
O homem
buscava a felicidade. E o Verbo veio até ele...; e conhecer a Deus, ao Verbo
enviado de Deus, era possuir a vida eterna...
Mas o
homem animal prendia-se ao mundo e à carne...
As
palavras de Deus eram palavras de vida eterna. As palavras do Verbo Encarnado
revelavam Deus e todas as suas grandezas e perfeições; e eram “fontes perenes
donde brotava a vida eterna”.
O homem
superior buscava a felicidade fora de si e para além do mundo. E um anseio
estranho, uma estranha inquietação agitava as almas: — elas eram “como um mar
em tormenta, que não serena”.»


«O homem buscava
a felicidade... E a felicidade vinha procurá-lo na pessoa do Verbo de Deus
feito carne; e o homem, que a não compreendera, não a recebeu.
Os bens e
os prazeres deste mundo não podiam saciar a alma... E de novo o homem tacteava
nas trevas à procura da luz ... E a
todos aqueles que a receberam deu-lhes o Verbo o poder de se tornarem filhos de
Deus.
Foi então
que a humanidade começou a compreender que nascera para Deus e para a
felicidade do Céu...
E o homem
começou a sentir-se exilado na terra..., e a viver o doce amargo da saudade de
Deus..
Hoje,
como ontem, o homem sente necessidade de alguma coisa “que o faça sair dele e o
leve além”...
E “mundo
procura a paz; mais a paz do que a liberdade...”
E, mais
do que nunca, uma febre enorme agita agora, violenta e profundamente, as
almas...
É o
Senhor mesmo essa febre que agita as almas...
La source de paix que
toute soif réclame... (Verlaine)»
Bernardo
de Vasconcelos, que à frente havia de passar algum tempo na Póvoa, escreveu
estas palavras sobre o Congresso de Braga:
«Dias
inolvidáveis! (...) Os nossos lentes fizeram linda figura. A tese do Dr.
Salazar foi considerada a melhor de todas. O nosso Dr. Cerejeira, esplêndido -
sempre aquela linda figura de místico ... do mesmo sangue-azul do céu.»
Sobre
Salazar, tenha-se presente que vinha ainda longe a sua intervenção em política
governamental (salvo uma frustrada experiência que durou apenas um dia), pelo
que esta apreciação é relevante. Aqueles que a primeira República
vexou hão-de um dia devotar-se de alma e
coração ao Estado Novo... A Alexandrina uma vez obterá dele a publicação de uma
lei, como a seu tempo referiremos.
Estiveram
no Congresso os comandantes dos quartéis da cidade. Parece-nos que estas grandiosas
manifestações de empenho católico terão pesado na decisão que levará os
militares bracarenses a impor ao país, no ano seguinte, uma nova orientação
política. (Um congresso mariano no Sameiro precedera de pouco o 28 de Maio...)
Algumas
palavras mais agora sobre o Congresso Eucarístico que teve lugar na Póvoa de
Varzim em 1925. Conhecemos três documentos que falam dele: o opúsculo
intitulado Número-Homenagem Comemorativo do II Congresso Eucarístico da
Arquidiocese de Braga; o texto da conferência com que o médico Abílio
Garcia de Carvalho participou no congresso; e ainda a reportagem saída no
«Comércio da Póvoa de Varzim» em 12/7/1925.
O Número-Homenagem
Comemorativo do II Congresso Eucarístico da Arquidiocese de Braga,
iniciativa dos Pagens do Santíssimo Sacramento da Póvoa de Varzim, pretenderia
galvanizar a Póvoa no sentido de a ele aderir. Nele se podem ler textos como o
do já mencionado P.e Abílio Correia, do Monsenhor Pereira Júnior (certamente o
futuro arcebispo), do P.e Leopoldino Mateus, do P.e Leituga, etc. A conferência do Dr. Abílio Garcia de
Carvalho deu certo brado, tendo sido publicada por jornais espanhóis e
franceses. Intitulada a Eucaristia e a Medicina, com ela se quereriam
rebater teses e atitudes anticlericais que inclusive proibiam que se levasse o
Viático aos doentes. A reportagem do «Comércio da Póvoa de Varzim», entre
muitas outras coisas, como a informação sobre o entusiasmo então suscitado,
traz a relação das sessões e dos intervenientes, com os títulos das suas
alocuções. Além da conferência do Dr. Abílio Garcia de Carvalho, saliente-se a
do P.e Abílio Correia «Relatório da obra da Adoração do SS. Sacramento» e a do
lente da Universidade do Porto, Dr. Gomes Teixeira, sob o título de «A Piedade
e a Caridade no Convento-Hospício do Grande S. Bernardo do Alpes».
A
terminar lembramos que foi o arcebispo de Évora, D. Manuel Mendes da Conceição
Santos, que presidiu à concorridíssima Eucaristia campal celebrada no Sameiro
(falou-se em quatrocentas mil pessoas, entre as quais estava a Venerável). Ele
há-de, anos à frente, ter uma pequena intervenção relativa à Alexandrina: no
fim duns exercícios espirituais que o P.e Mariano Pinho dirigira para os bispos
portugueses, ao preparar-se a carta a enviar ao Papa a pedir a Consagração do Mundo
ao Imaculado Coração de Maria, ele será o único a propor um retoque na redacção
definitiva do texto.
De Alexandrina a Teresa
Neumann
No seu
livro, o Cónego Dr. Molho de Faria toma uma posição nada favorável à afirmação
do carácter sobrenatural do que com a Alexandrina aconteceu. Ao arrepio da
opinião generalizada, da opinião de gente bem
digna de crédito. Estranho é que não tivesse
vindo mais cedo à liça, esgrimindo os seus argumentos. Porque deixou isso para
depois de ela falecer?
Onde tal
posição de grande reserva se torna mais clara é quando expõe a opinião da Santa
Sé face ao que se passou com a alemã da Baviera Teresa Neumann. Depois de
transcrever uma carta da S. C. dos Ritos, que dá o seu apoio a um livro que põe
em causa, globalmente, o carácter sobrenatural dos fenómenos relacionados com
aquela «estigmatizada de Konnersreuth», o Cónego Dr. Molho de Faria conclui
para o caso de Balasar. Escreve então:
«Sem
embargo, porque as doutrinas expostas na Carta da S. C. dos Ritos são de
carácter geral e porque os fenómenos de Konnersreuth apresentam várias
semelhanças, pelo menos, com muitos dos que se dizem passados em Balasar, —
assim as curas, as visões, as revelações, os fenómenos da Paixão e da
Eucaristia, o jejum absoluto e tão duradouro, etc. —, pareceu-nos bem justa a
aplicação devida.
Não vamos
pormenorizar nem nos pertence cotejar a rigor. Está isso fora do nosso escopo.
Só queremos prevenir ou... remediar.
Pois
todos esses fenómenos maravilhosos da Estigmatizada bávara foram estudados à
luz da crítica bem exigente, objectiva e completa do P. Siwek. Verdadeira
autoridade consumada e ... já consagrada, afirmou por mais de uma vez, aquando
das suas lições magistrais na Gregoriana, que os factos extraordinários de
Teresa Neumann poderiam ser explicados naturalmente.
Há
quantos anos isto foi! Mais de duas dezenas! De lá até agora, continuou a
aprofundar os seus estudos, que acabam de sair a público sob o título: Uma
estigmatizada de nossos dias.
Arrostando
com o peso da opinião pública e de autoridades sem conta, partidários de Teresa
Neumann, em nada esmoreceu, — ou se arreceou das críticas mais desapiedadas. Só
esta amostra de E. Boniface, aliás moderado, cuja obra, já em idioma pátrio,
está ao alcance de todos.
Também
ele se refere com azedume, sarcasticamente, às teorias do P. Siwek. Arquivando
larga exposição das suas explicações naturalistas, que classifica de «exposição
divertida», conclui deste jeito:
«Eis onde se chega quando, dando-se primazia ao fenomenal sobre o espiritual,
se perde de vista, simultaneamente, o conjunto e a unidade espiritual viva, e
se procura uma explicação natural...» Já
antes, referindo-se a uns quantos sábios e teólogos, não lhes poupa encómios
como os seguintes: «Estes últimos, — os teólogos —, sobretudo os novos,
empenham-se visivelmente em dar provas de liberalismo para com as mais ousadas
teorias cientificas modernas, a fim de não serem acusados de as ignorar; e isso
leva-os por vezes um pouco longe... Por exemplo, o P. Siwek.»
E
continua o Cónego Dr. Molho de Faria:
«Perante
contrariedades sem conta e críticas das mais autorizadas, o genial Psicólogo
sentiu forças para ir até ao fim. Vergado ao peso da sua responsabilidade, só
buscou a verdade integral. E como reagiu a Santa Sé perante o facto consumado da
obra única do tão sábio Jesuíta?
Poderia
fazê-lo de três modos: ou desaprovando e... condenando; ou mantendo-se em
atitude silenciosa e... de simples expectativa; ou aprovando e... até louvando
condicional ou absolutamente.
Tendo em
conta a doutrina expendida no seu livro, tão deveras revolucionária, eram de
esperar discussões apaixonadas e... apaixonantes. E surgiram as mais
paradoxais! O simples silêncio da Santa Sé equivaleria,
no caso, a uma implícita mas grande
aprovação.
É que,
dada a retumbância mundial dos fenómenos de Konnersreuth, por tantíssimos já aceites como sobrenaturais, não
poderia ficar indiferente ao vê-los negados como tais. E não ficou. A Santa Sé
agiu, bem categoricamente.
Contudo fez
o que era, cremo-lo bem, absolutamente inesperado. Falou e aprovou. E não
aprovou com reticências, mas generosamente. Não se limitou a simples frases
rituais, mas entrou em louvores rasgados.»
Antes de
mais, há que ter em conta que a tal carta diz apenas que «um grande número» dos
«fenómenos maravilhosos que se verificam em Teresa Neumann» «têm
cientificamente uma origem natural, ao passo que, no momento, é duvidosa a de
um pequeno número». Isto é, embora se incline para a recusa global, não vai tão
longe, porque não tem base para isso.
Mas
depois há uma outra coisa: a comissão a que o Cónego Dr. Molho de Faria
presidira fez as suas afirmações, não na base de um estudo sério, mas na base
de preconceitos, sem análise. Na sua origem parece estar o estudo que aqui
menciona. E por isso ele não mereceu crédito. Antes, já passara por Balasar o
seu amigo Cónego Vilar, que certamente também ouvira na Gregoriana o P.e Siwek
e que reagira de um modo tão diferente!
O caso de
Balasar era muito complexo. As razões a favor eram muitas e de vária ordem.
Não
ficaria bem que, tendo referido Teresa Neumann, não proporcionássemos ao leitor
alguma informação a seu respeito. Fazemo-lo usando o recurso relativamente
fácil da Internet, que é aquele de que dispomos. Vamos transcrever
alguns fragmentos de um artigo italiano que
lá encontrámos, com o título «Teresa Neumann: a mulher que
falava a língua de Cristo», e cujo autor se inclina para afirmar o carácter sobrenatural do que
com ela se passou:
«Esforçar-se por dar, a todo o custo, uma explicação
racional a fenómenos não conformes ao andamento usual das coisas é uma
peculiaridade da mente humana. Tudo o que de qualquer modo transcende a ideia
limitada que temos da realidade obriga-nos à espasmódica busca de uma justificação
que dê apoio seguro àquelas "certezas" tão laboriosamente adquiridas
no decorrer de séculos de história.
Mas não é persistindo de modo irracional em manter uma
posição de defesa que conseguiremos anular a presença de fenómenos
sobrenaturais que, queiramo-lo ou não, fazem parte da nossa realidade e merecem
um estudo atento e aprofundado. Quando em Setembro de 1927 o Dr. Fritz Gerlich
se dirigiu a Konnersreuth para procurar, "em nome da razão e da
ciência", fazer luz sobre o caso da estigmatizada Teresa Neumann,
encontrou-se frente a uma mulher, de aspecto humilde, que daí a não muito tempo
iria dar às suas verdades um novo e mais amplo significado. Os sinais da
crucifixão de Cristo que tão aristocraticamente sofria na sua carne, o jejum de
trinta e seis anos e a vasta gama de fenómenos sobrenaturais ligados à sua
pessoa, representavam e representam a prova física da existência de
"qualquer coisa" que vai além das nossas percepções sensoriais e que
pretende abrir as nossas consciências a um novo conhecimento: o da existência
de um mundo espiritual em nada limitado porque não prisioneiro do peso da
matéria.
De que outro modo, por que outro meio se poderia explicar a
total falta de sede e de apetite que caracterizou a figura de Teresa de
Konnersreuth, pequena aldeia da Baviera setentrional e que foi sempre motivo de
acesa polémica? Em Julho de 1927 a cúria de Ratisbona ordenou que fosse
efectuada uma atenta análise para a verificar a existência ao menos de tal
fenómeno preternatural. Depois de ter apurado que um indivíduo não pode
sobreviver per mais de onze dias sem alimento nem água, uma comissão médica
composta por um psiquiatra, o Dr. Ewald, um médico, o Dr. Seidl e quatro irmãs,
vigiou Teresa por um período de quinze dias. A grupos de duas, as irmãs, sob
juramento, controlaram ininterruptamente até o mais pequeno movimento da
mulher. À Resl, nome com que era indicada Teresa, foi proibido o acesso à casa
de banho: todas as secreções foram recolhidas e examinadas.
Os médicos exigiram atentas análises às feridas e
controlaram mais vezes o peso e a temperatura corpórea. Ao fim de quinze dias
os médicos declararam a autenticidade dos estigmas e confirmaram que nenhuma
substância tinha sido ingerida pela mulher durante o período de análise. Todos
os que tiveram modo de conhecê-la não encontraram em Teresa alguma forma de
histeria, de auto-sugestão o de assim chamado "bigotismo" que,
segundo o parecer de alguns "entendidos" seriam a explicação das
chagas sangrentas de Cristo no corpo da mulher. Uma vez, em resposta a uma tal
insinuação, a Resl disse: "Se o Senhor imaginar que é um boi, pensa que
lhe cresceriam os cornos?"
Teresa de Konnersreuth era uma rapariga devota, inteligente
e serena, capaz de viver eventos extraordinários sem por isto renunciar a ser
uma pessoa come todas as outras, com as suas qualidades e os seus defeitos.
Reviveu a Paixão de Cristo sob a forma de visão cerca de setecentas vezes e
suportou na carne a dor da flagelação, da imposição da coroa de espinhos, da
caminhada para o Calvário e da crucifixão. "Quem pôde assistir a esta
visão", disse o Dr. Johannes Steiner na intenção de descrever a mulher
durante as visões da Paixão e morte de Jesus, "guardou dela a imagem de um
martírio perfeito e impressionante, todavia sempre nobre, comovente e composto.
Viam-se as mãos a mover-se em redor da fronte, como para afastar os espinhos,
os dedos das mãos contrair-se no espasmo doloroso dos pregos da crucifixão, a
língua que procurava humedecer os lábios secos..."
A Paixão é vivida por cada místico com particularidades
próprias. Não há que admirar que nem tudo aqui evoque as vivências de
Alexandrina.
O que se segue é ainda de grande interesse quer para a
aproximação entre Teresa Neumann e a Alexandrina quer para avaliar como a
Igreja pode ser reticente em admitir
manifestações sensíveis do sobrenatural. É evidente que é necessário usar de
todas as cautelas.

«Em razão destes e doutros sofrimentos a
estigmatizada não foi nunca ouvida a lamentar-se, sempre feliz por poder fazer
a vontade de Deus e por tornar-se instrumento de exemplo ao seu próximo. E amava
o suo próximo, tanto que desde da rapariguinha manifestou o desejo de partir
per a África como missionária, uma vez que a sua ajuda em casa não deixasse de
ser indispensável. Teresa, de facto, começou bem cedo a ocupar-se dos irmãos e
dos afazeres domésticos e já com a idade de treze anos contribuía, trabalhando,
para o orçamento familiar. A jovem Resl foi obrigada por isso a deixar os
estudos apenas terminada a escola obrigatória e por isso a facilidade com que
falava correctamente grego, latim, francês e aramaico, durante as visões,
espantou os entendidos como o professor de filologia semítica Johannes Bauer, o
orientalista e papirólogo vienense prof. Dr. Wessely e o arcebispo católico de
Ernaculum na Índia, Dr. Jos. Parecatill. Os três concordavam em afirmar que
Teresa si exprimia na língua que se falava na Palestina ao tempo de Jesus.
Isto é muito curioso, dada a sua escassa erudição escolar.
Quem lhe sugeria por isso as frases que pronunciava? Quem lhe dava a força para
suportar a dor, a faculdade de ler os pensamentos, a possibilidade de viver sem
ingerir nem alimento nem água?
Perguntas estas às quais a racionalidade humana não pode
dar uma resposta. Os multíplices e fascinantes aspectos da vida humana e
espiritual de Teresa Neumann, uma das mais importantes figure místicas do nosso
século, convidam-nos a abrir, a conduzir as nossas consciências para uma
realidade que, se apenas o quiséssemos, poderia revelar-nos o verdadeiro
significado da vida.»
O articulista fala de
seguida das visões de Teresa e de um pormenor, digamos, filológico
sumamente interessante. Acompanhemo-lo:
«E é indubitavelmente
impressionante o espectáculo que se apresentava aos olhos dos numerosos das
feridas ensopava-lhe as vestes enquanto a expressão do seu vulto testemunhava
um profundo sofrimento físico e espiritual. A Resl, além da dor das chagas
sangrentas sofria com ver o "Salvador", como gostava de chamar a
Jesus, insultado e torturado e não deixava de exprimir com vivacidade a sua
ira. Come já precedentemente sugerido, durante os êxtases místicos ela
costumava pronunciar palavras em línguas que não tinha nunca tinha estudado.
Isto deixava espantados os estudiosos entre os quais figuravam nomes ilustres
como o do prof. Wutz. Este ficou
surpreendido com palavra "As-che", que significa "tenho
sede". Até àquele momento os estudiosos do Novo Testamento tinham
significado aquele conceito com o termo "sachena".
Após um estudo aprofundado e depois de ter consultado um
considerável numero de textos e dicionários entre os mais antigos que conhecia,
o Dr. Wutz descobriu que Jesus na cruz se dirigiu aos seus algozes pronunciando
exactamente a palavra "As-che".
"É inexplicável", comentou em seguida o Dr.
Wesseley, "como é que Teresa tinha podido pronunciar uma frase até agora
não conhecida dos orientalistas que a escutavam, e mesmo assim absolutamente
correcta?"
Este caso, que não foi único, é uma das provas mais
convincentes na defesa da natureza sobrenatural das visões de Teresa.»
Que
saibamos, a Igreja não considera Teresa Neumann tão pouco venerável, isto é,
ainda se não deixou convencer por esta panóplia de fenómenos extraordinários
que nela se verificaram ao longo de tão largo período. Aliás, no processo de
beatificação e canonização de Santa Gemma Calgani, que foi estigmatizada, os
estigmas não foram tidos em conta... Daqui se conclui sobre quanto tiveram que
lutar, especialmente o P.e Humberto Pascoal e o Dr. Azevedo, até conseguirem
impor a Alexandrina como merecedora de atenção. E também se vê quanto foi
indispensável que ela tivesse sido examinada por médicos tão exigentes e tão
pouco dados a crendices como o Dr. Elísio de Moura ou o Dr. Araújo.
Três livros
Se o
leitor se quer iniciar no conhecimento da Venerável de um modo mais sistemático,
saiba que há três livros que podem ajudar muito bem a essa iniciação. São eles Sob
o Céu de Balasar, de Humberto Pascoal, Por detrás de um Sorriso, de
Gabriele Amorth e A Vítima da Eucaristia de Mariano Pinho.
Dêmos uma
olhadela a cada um. O do P.e Mariano Pinho é o mais antigo. Publicado
no Brasil, como No Calvário de Balasar, foi aí bem recebido, como
de resto também em Portugal, e mereceu ser traduzido para francês e alemão,
como já aqui informámos.
Este
jesuíta não pôde acompanhar a Venerável
nos seus derradeiros treze anos, por ter sido injustamente castigado com o
exílio para o Brasil. Mas o seu ascendente sobre Alexandrina era grande, e ela
considerou-o sempre o seu pai espiritual. O segundo pai, o P.e Humberto, a quem
ela também estimou imenso, nunca substituiu no seu coração o primeiro. De
resto, ela esperou sempre regresso do P.e Mariano Pinho e manteve com ele
contínua correspondência, pelo ele que esteve sempre informado do que de mais
importante com ela se passou.
Vejam-se
os títulos dos capítulos da A Vítima da Eucaristia:
«Primeiros
anos», «A sua doença», «Na escola da dor», «A sua piedade», «A sua humildade»,
«A sua pureza de alma», «Espírito de mortificação», «A sua missão sobre a
terra», «Treva cerrada», «Em luta com o inferno», «Preparação imediata para a
crucifixão», «Na cruz», «A Alexandrina e a Consagração a Nossa Senhora», «No
jejum perpétuo», «Os seus escritos» e «Consummatum est!»
Antes de
ler o que o P.e Mariano Pinho escreve sobre as vexações diabólicas de que a Alexandrina
foi vítima, convém saber que ele era um homem muito culto, autor de vários
livros, tradutor, director da Brotéria durante alguns anos, que frequentou
universidades estrangeiras (na Bélgica e na Áustria). Um dia referir-nos-emos à
sua biografia mais demoradamente. Ouça-se agora este trecho:
«Num
desses momentos mais violentos, interroguei
eu, em latim, ao demónio quem era. Respondeu-me imediatamente, sem
hesitação alguma: “Sou Satanás e odeio-te”. Para maior certeza, dei outra volta
à frase, sempre em latim, e a resposta foi também imediatamente esta: “sou eu,
sou, não duvides”.
Lembro-me
que nesse dia, disse lá Missa e ofereci, sem previamente a avisar a ela, o
Santo Sacrifício, em primeira intenção, para que Nosso Senhor a livrasse
daquelas vexações diabólicas. No fim da missa, aproximei-me do seu leito e
declara-me ela, sem mais: “Nosso Senhor disse-me que não podia conceder o que
V. R. lhe pediu; que precisa destes meus sofrimentos para acudir aos
pecadores”.
Interroguei-a
então: “mas que é que eu pedi a Nosso Senhor?” — Respondeu-me: “naturalmente
que me livrasse destes ataques do demónio...” — E não quer que peça isso a
Nosso Senhor, para que Ele lhe mude o sofrimento para outro? — Não, meu Padre,
peça antes que se faça em tudo a vontade de Nosso Senhor”.»
Por muito
importante que A Vítima da Eucaristia seja para o conhecimento da
Venerável, ainda é o livrinho Sob o Céu de Balasar que de um modo
simples e rápido melhor nos dá uma síntese do percurso biográfico e místico de
Alexandrina. O P.e Humberto devia ser um homem mais extrovertido, sem deixar de
ser culto ou de possuir uma vivência religiosa merecedora de admiração.
Conhecemos um livro seu sobre a mãe de S. João Bosco, criou no Porto as Edições
Salesianas e uma outra editora na Itália...
Estaria melhor vocacionado para a luta em que teve de se empenhar, para
defender a Alexandrina e para a divulgar no mundo.
Como
responsável maior que era de tudo quanto à Venerável respeitava (o P.e Mariano
Pinho falecera em 1963), o autor, que terá escrito este livro já em data
avançada, tem o cuidado de, no final, fornecer algumas informações relativas ao
processo de Alexandrina. Mesmo que já largamente ultrapassadas, merece apenas
fazer-se o seu registo:
«Alexandrina
já vai a caminho dos aliares. A Cúria de Braga, em 1967, iniciou o processo
sobre a sua fama de santidade e heroicidade das suas virtudes.
Foram
interrogadas 48 testemunhas que conheceram a Serva de Deus.
Em 1973
encerrou-se o processo diocesano, e toda a documentação passou às Congregações
Romanas.
Em
Dezembro de 1976 foram aprovados todos os seus escritos.
Em 1977,
imprimiram-se os testemunhos do processo em quatro grossos volumes para o juízo
final do tribunal romano.
Enfim, do
Boletim Salesiano de Maio de 1981, extraímos as últimas notícias a este
respeito:
“Também a
Causa de Alexandrina Maria da Costa, Cooperadora salesiana, fez um notável
progresso: foram apresentados o «Sumário» e uma «Informação» que recolhem os
principais testemunhos sobre as suas virtudes, além da rica série das «Cartas
Postulatórias» em seu favor, e por fim uma dúplice memória sobre os pontos mais
importantes da sua vida.
O exame
dos escritos da Serva de Deus teve um êxito lisonjeiro, e isto é particularmente
importante tratando-se de escritos de carácter místico. Mais: foi precisamente
em vista do sério e apreciado juízo favorável formulado pelos Censores dos
Escritos que se pôde obter a dispensa de novo exame da parte dos especialistas
em mística e psicologia, — que é quase de norma nestes casos”.»
Finalmente,
Por detrás de um Sorriso do P.e Gabriele Amorth. O encanto especial
desta obra, que já aqui mais que uma vez citámos e por isso não o faremos hoje,
está na destreza com que o autor desfia a narrativa, no seu conhecimento
minucioso dos factos, numa interpretação fiel dos mesmos, até numa maior
desenvoltura com que faz as críticas. Depois é um livro com visual um pouco
mais moderno, mesmo que as fotografias não tenham saído especialmente bem.
Os outros
dois precisam de uma edição muito mais atraente.
D. António Bento Martins
Júnior (I)
Santos da
porta não fazem milagres. Senão, D. António Bento Martins Júnior (Arcos, Vila
do Conde, 5.5.1881 - Braga, 19.8.1963), nascido ali ao lado de Balasar, não deveria
ser pessoa especialmente capacitada para compreender e valorizar o que
acontecia com a Alexandrina?

Fica-nos
a impressão de que a pobreza e a pouca cultura escolar dela desarmou muitos
doutores, que não só este Arcebispo licenciado em Dogmática pela Universidade
Gregoriana de Roma ou o Cónego Molho de Faria, igualmente aí formado. Não
tomariam a sério a pobreza de Jesus Cristo e a sua opção pelos simples.
Já vimos
porém que Jesus, que um dia chamou à Alexandrina «minha doutora das ciências
divinas» (18/5/45), lhe assegurou noutra ocasião em tom de paradoxo (22/10/48):
«Minha
filha, a tua vida muda e morta fala e dá vida. A tua vida, o teu amor à cruz, o
teu amor ao sofrimento falam. A tua vida ensina mais que os sacerdotes e os
doutores da Igreja; o teu martírio converte mais almas que milhares, milhões de
sacerdotes.»
Como a
verdade tem só um caminho, de modo nenhum queremos diminuir o mérito deste
arcebispo bracarense, que «desenvolveu uma notabilíssima acção pastoral:
completou os edifícios dos três Seminários, reorganizou os estudos, promoveu
vários congressos (nacionais e diocesanos) e cursos de actualização pastoral
para o clero. Reestruturou o ensino da catequese, da Acção Católica,
Escutismo, incrementando todas as obras católicas. Colaborou em vários jornais
e outras publicações, publicou notáveis pastorais.» (Enc. Verbo)
Relativamente
ao nosso caso, não é muito o que conhecemos. Sabemos da sua intervenção em
tempos do Cónego Vilar, com vista à consagração do mundo, altura em que se mostra
tão prudente como compreensivo; sabemos que foi ele quem nomeou a comissão a
que presidiu o Cónego Molho, que devia estudar a Alexandrina, e sabemos que foi
ele que, em consequência do relatório daí resultante, fez ler nas igrejas da
Diocese a proibição de visitá-la; sabemos, por fim, que, com o passar dos anos,
com a insistência do Dr. Azevedo, do P.e Humberto Pascoal, certamente com a do
P.e Dr. Sebastião Cruz e outros, se terá deixado abalar nas suas certezas a
ponto de propor novo exame.
Vejamos,
em tradução nossa do italiano, o famigerado documento que foi lido e comentado
de quase todos os púlpitos da Diocese:
«Havendo
encarregado uma Comissão de pessoas prudentes, doutas e especializadas em ciências
filosóficas e teológicas de estudar o que se passou com Alexandrina Maria da
Costa, ela emanou o seguinte parecer e voto:
“Em
atenção ao longo relatório feito, este Comissão sente o dever de dizer que não
encontrou nada que ateste qualquer coisa de sobrenatural, extraordinário ou
miraculoso no caso de Alexandrina Maria da Costa. Ousa assim acrescentar que há
sintomas seguros para afirmar o contrário... Faz por isso votos que o Prelado
tome todas aquelas medidas necessárias para maior glória de Deus e
tranquilidade das almas.”
Tendo
presente este iluminado parecer e voto, determinamos o seguinte:
que se
faça silêncio sobre os presumidos factos extraordinários atribuídos à sobredita
doente e de que ela se afirma protagonista, os quais não devem ser expostos nem
comentados em público, mas que se mantenha tudo no âmbito mais estritamente
privado;
que se
recomende aos sacerdotes que não alimentem, antes combatam, de modo caridoso, a
curiosidade que à volta da doente e por motivos religiosos se possa ainda
manifestar, visto que tal curiosidade não pode ser sã e bem fundada, nem
louvável;
que a
mesma recomendação se faça de modo discreto a todos os nossos diocesanos todas
as vezes que seja possível;
que ao
pároco de Balasar se comunique que o encarregamos além disso de vigiar que a
doente e a sua casa não sejam molestadas por visitas importunas, feitas a
título de observação dos pretensos fenómenos extraordinários aos quais se
atribua carácter religioso ou intenção religiosa.»)
José Ferreira