O Venerável Giorgio la Pira
e o Ex-Presidente da República Italiana Óscar Luigi Scálfaro: dois entusiastas
da Alexandrina
G. Amorth
refere-se com estas palavras a Giorgio la Pira:
«Eu, nessa época, conhecia pouco a sua vida (de
Alexandrina): a imobilidade na cama e aquele viver prolongado, somente com a
Eucaristia, que tinha encantado Giorgio La Pira a ponto de falar disso com
entusiasmo num livro seu, «Lettere alle claustrali» (Vita
e Pensiero, 1960, pág. 220-225), e de se ter tornado promotor de subscrições em
favor da sua causa de beatificação.»
Menciona-o ainda ao menos num outro passo do seu
livro, quando escreve, sobre os êxtases da Alexandrina, «que foram uma das suas
características fundamentais e que nos deixaram, por estarem escritos, um rico
património de “excepcional experiência mística”, como gostava de lhe chamar o
Servo de Deus Giorgio La Pira».
E a Óscar Luigi Scálfaro refere-se assim:
«E também sobre ela escreveu o actual presidente da
República da Itália, então deputado Óscar Luigi Scalfaro.»
Isto não seria muito se se não tratasse de dois
grandes homens. O nosso conhecimento porém sobre eles é inteiramente elementar;
vamos por isso transcrever apenas breves excertos das biografias respectivas
que encontrámos na Internet.
Giorgio la Pira nasce em nove de Maio de 1904, no
mesmo ano que a Venerável Alexandrina, de família humilde. Mas há-de formar-se
em Direito. Falecerá em Florença a 5 de Novembro 1977.
Leia-se uma passagem
da biografia deste homem que lutou activamente contra a ditadura fascista de
Mussolini, que teve de fugir para não cair nas mãos da sua polícia secreta, que
foi depois eleito deputado à Assembleia Constituinte em 1946:
«Em 1951 intervém junto de Estaline a favor da
paz na Coreia. No princípio de Julho do mesmo ano, a seis anos do fim da guerra, foi
eleito Presidente da Câmara de Florença. Ele afirmava:
"Um Presidente da Câmara é como um pai de família";
por isso, frente às emergências do tempo, o desemprego, os desalojados, a gente
sem assistência, sobretudo os idosos, os doentes e as crianças, declarava:
"Se há um que sofre,
tenho um dever preciso: intervir de todos os modos, com toda a capacidade que o
amor sugere e que a lei fornece, para que aquele sofrimento seja diminuído ou
suavizado. Outra conduta para o Presidente da Câmara em geral e para um
Presidente da Câmara cristão em particular não há." Opõe-se por isso ao
fecho das fábricas. Dizia efectivamente:
"O pão é sagrado; a casa é sagrada: não se toca
impunemente nem num nem noutra! Isto não é marxismo: é Evangelho!"
Favoreceu a construção das "Casas mínimas", para
dar um alojamento a todos e, utilizando uma lei de 1865, que permitia a
requisição dos alojamentos a favor das vítimas dos terramotos, fez ocupar as
casas abandonadas por quem não tinha casa.
Foi Presidente da Câmara de Florença de 1951 a 1958 e de 1961
a 1965; naquele período foram reconstruídas as pontes destruídas pela guerra, a
ponte às Graças e a ponte à Santíssima Trindade; foi criado um quarteirão
satélite, o Isolotto; foi reconstruído o Teatro Comunal, foi criada a Central
do leite e foi ampliado o número das escolas. Para enfrentar o desemprego, fez
com que a Pignone, com dois mil operários, que deviam ser despedidos, fosse
absorvida pela Eni, e a Fonderia delle Cure, por ele requerida, foi
transformada numa cooperativa; foram salvas do desmantelamento ainda as
Officine Galileo.
Convicto defensor da paz, em plena "guerra fria",
criou os "Colóquios internacionais para a paz e a civilidade cristã"
em 1952.
Ele gostava de recordar a profecia do profeta Isaías:
"As espadas serão transformadas em arados, o leão viverá com o
cordeiro" e dizia que neste objectivo devíamos pôr a nossa acção com todas
as nossas forças e a nossa inteligência. Para isto, em 1955, reuniu em Florença
um encontro dos Presidentes da Câmara das capitais do mundo; assim, a 4 de
Outubro, estiveram juntos o Presidente da Câmara de Paris e o Presidente da
Câmara de Berlim, o de Washington e os de Moscovo e de Pequim. Foi naquela
ocasião que o Presidente da Câmara de Moscovo convidou La Pira a visitar a sua
cidade; o Presidente da Câmara de Florença disse ao Papa Pio XII que iria a
Moscovo como embaixador de Cristo e da Igreja de Cristo, a expensas suas, e que
o mérito era só de Deus e da Igreja de Deus. La Pira conseguiu fazer reunir
Árabes e Judeus, Franceses e Argelinos nos Colóquios para o Mediterrâneo,
enfrentando o tema da liberdade da Argélia e o da paz no Médio Oriente. Graças
ainda a este seu empenho, a Argélia em 1963 conseguia a independência. A 17
Agosto de 1959 La Pira encontrou-se em Moscovo com Krutchev, que ficou muito
impressionado com os colóquios. Em 1965, em plena crise vietnamita, Giorgio La
Pira foi a Hanói onde teve um encontro com Ho Chi Minh; foi tratado o tema da
paz e, depois de algumas tentativas, encontrava-se uma solução, honrosa para
todos, para pôr fim ao conflito; todavia os acordos deviam ficar secretos. Mas
um jornalista difundiu a notícia e tudo acabou. Alguns anos depois seria
conseguida a paz sempre na base do acordo precedente.»
A ideia de promover um encontro dos Presidentes da Câmara
das capitais do mundo por parte de um presidente que nem estava à frente duma
capital leva-nos a recordar a dimensão mundial tão repetidamente presente nos
escritos de Alexandrina, para quem até a sua cruz tinha um «peso mundial».
Já declarado venerável, está naturalmente em curso o seu
processo de beatificação.
Se a
nossa informação sobre o Venerável Giorgio La Pira já dependia em exclusivo da
Internet, outro tanto se passa com estoutro lutador da liberdade, membro da
Acção católica e militante da democracia-cristã italiana, homem público durante
50 anos.
Nascido a 9 de Setembro de 1918 em Novara, formou-se em Direito
em 1941. Foi repetidas vezes deputado ao parlamento italiano e integrou vários governos, inclusive como
ministro dos
Transportes e Aviação Civil com Aldo Moro, Giovanni Leone, Mariano Rumor e
Giulio Andreotti (1968-1972); da Educação com Andreotti (1972-1973); e do
Interior com o socialista Bettino Craxi (1983-1987). Com a queda do Governo
Craxi, em Março de 1987, o presidente Francesco Cossiga pediu-lhe que formasse um novo gabinete de coalizão
multipartidário, mas face às dificuldades que encontrou deixou essa encargo a
Amintore Fanfani.
Em 24 Abril de 1992, porém, foi eleito Presidente da Câmara
dos Deputados e, a 25 de Maio do mesmo ano, Presidente da República, cargo que
exerceu até 1999.
Com o seu histórico decreto de 16 de Janeiro de 1994 para a
dissolução do Parlamento e convocação de eleições antecipadas, Scálfaro
acelerou o final de cinco décadas de história de Itália e o advento de um novo
regime, com novos partidos e novas regras de jogo políticas.
Em todo este tempo, Scálfaro erigiu-se em autoridade moral e
"paladino da Itália honesta", no último destinatário da confiança de
uma cidadania abalada pela infindável sangria de acusados e detidos por
corrupção, entre eles a flor e a nata da classe política tradicional. Mais
ainda, Scálfaro adoptou uma postura beligerante e animou o poder judicial a
"aplicar o bisturi para sanar a peste bubónica" e "atacar as
patologias que se haviam manifestado na gestão pública", entre outras
inequívocas declarações.
No plano exterior, merece ser destacada a histórica viagem
que Scálfaro realizou à Etiópia em 25 de Novembro de 1997, onde apresentou
desculpas pelas atrocidades cometidas pelo Exército italiano quando invadiu o
país em 1935.
Na Internet é possível ler vários discursos seus perante
auditórios como o parlamento, a NATO ou a ONU. Para o nosso objectivo, tais
discursos pouco interesse têm. Mas o mesmo já se não valerá para alguns
parágrafos como os que vamos transcrever, do discurso da sua tomada de posse
como Presidente da República. Nele se poderia dizer que ecoam palavras e
sentimentos de Alexandrina, se não se tratar antes de uma atitude de ousadia e
humildade mais genericamente cristãs:
«Depois do vosso voto, fechei-me em silêncio a meditar, a
orar, para pedir luz e força e capacidade de sacrifício a Deus, em quem creio
com tanta pobreza de coração. Fechei-me a pedir protecção e coragem àquela que,
humilde e alta, mais que criatura, é Mãe de Deus e do homem. E ali, na
meditação, pensei pedir a todos vós, a todos e a cada um indistintamente, que
me ajudeis a colmatar as minhas
lacunas, a acrescentar a minha vontade, a serdes generosos nos vossos
conselhos, a confortar a minha inabilidade.
Mas exactamente porque exprimi o sentido da minha fé
religiosa, nesta sessão solene, quero manifestar o meu respeito face à fé
religiosa do crente de qualquer outra fé ou frente à escolha de quem não acolhe
no seu espírito pensamentos e valores transcendentes.»
Chegados aqui, podemos concluir que estes dois admiradores
de Alexandrina, Giorgio La Pira e Óscar Luigi Scálfaro, honraram a Igreja e a
Pátria com o seu pensamento e a sua acção, com uma honestidade em que ninguém
ousou pôr mancha. Honraram também decididamente a nossa heroína.

![]()
O Cónego Vilar
Há algum
tempo chegou-nos às mãos um pequeno livro intitulado O Senhor Cónego Vilar;
vem datado de 1939 e foi editado pelo Seminário Conciliar de Braga. Porque se
trata de uma «compilação das homenagens prestadas a S. Rev.cia quando nomeado
Reitor do Colégio Português em Roma», vem sem autor.
Sabendo-se
que foi este jovem cónego quem diligenciou junto de Pio XI com vista à
consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, já se vê que a publicação
interessa para o nosso caso. Ele vai em Março de 1939 para Roma, mas já desde
Janeiro vem em visita oficial a Balasar. O cónego Vilar é um poveiro natural de
Terroso, onde nasceu a 14/9/1903. Uma vez que o livro
pretende homenageá-lo, é natural que o
perpasse um tom encomiástico.
Compõe-se
a publicação de uma primeira parte, com um «escorço biográfico»; uma segunda,
com cartas dos seguintes autores: Arcebispo D. António Bento Martins Júnior,
Deão do Cabido da Sé Bracarense João Cândido Novais e Sousa, Dr. António G.
Molho de Faria, P.e Manuel Lopes da Cruz (o fundador da Rádio Renascença), P.e
J. Martins Torres, P.e José A. Ferreira e P.e Joaquim F. do Souto; e uma
terceira, que contém a homenagem de vários jornais (Correio do Minho, Diário
do Minho, A Voz, etc.), do Seminário, dos Doutores Romanos, da terra
natal e da Confraria do Bom Jesus do Monte. A concluir, vem um posfácio do
compilador.
Sem
esquecer o Cónego Vilar, repare-se que foram mencionados mais dois importantes
intervenientes na vida de Alexandrina, o
Arcebispo D. António Bento Martins Júnior, que era de Arcos, freguesia
vilacondense vizinha de Balasar, e o Dr. António G. Molho de Faria, natural de
Terroso como o homenageado, seu companheiro de infância, de seminário, de
universidade (em Roma) e de magistério – e que não é o incógnito
compilador-autor do livro. Esse foi outro terrosense, o dominicano Fr. António
do Rosário, segundo nos informou o Mons. Manuel Amorim.
Da longa
carta do cónego Dr. Molho de Faria vamos transcrever o que segue:
«O Cónego
Vilar propôs-se um grande ideal que jamais perdeu de vista. Sabia muito bem que
era necessário ao homem, que aspira singrar na vida e fazer alguma coisa acima
da vulgaridade no apostolado das almas, fixar-se em altos ideais. Sabia, pois,
que era necessário procurá-los, concebê-los e encarná-los, para ir até às
últimas consequências na sua realização. Sabia que sem eles o homem nada faria
ou rastejaria mísera e mesquinhamente.
Tudo isto
sabia e — o que é muito mais — quis realizado em si e nos outros, numa
constância bem digna da nossa admiração.
Desde os
primeiros anos que lhe conhecemos uma ânsia: companheiros da Escola e mais
tarde no Seminário e na Universidade, vimo-lo incompreendido, por vezes
malsinado, porque não chegavam a compreender os belos ideais que acalentava.
Nada, porém, o detinha no seu caminho. Bem depressa ganhou o amor dos livros,
qualidade preciosa pela sua raridade nestas épocas em que tão de constante se
vêem empoados e tiranizados nas prisões da estante. A eles se prendia, não tanto
pela classificação final — embora nesta muito quisesse o bem do nome português
— como por uma necessidade de espírito sedento de verdade.
A sua
biblioteca, valiosa no número e muito mais na selecção, mostra-nos bem a sua
grande ambição. Mas o Dr. Vilar não tinha só muitos e bons livros que sempre
fazem o mais belo ornamento da casa do ministro dum Deus que é a Ciência
Infinita. Ele queria-os como auxílio absolutamente indispensável na grande obra
que sonhava e ainda não pôde levar a cabo. Por isso de frequente os manuseava.
Em qualquer questão sentia necessidade de saber e não podia só conduzir-se pela
opinião alheia. Era, pois, fácil vê-lo, após o discutir duma verdade, ir ter
com os seus queridos livros, compulsá-los cuidadosamente.
Aferrado
à sua opinião só razões fortes o faziam vacilar. Este domínio pessoal, esta
personalidade no dizer e sentir, ganhou-a, a custo, no contacto com os livros.
Quando, mais tarde, os cuidados externos e novas responsabilidades lhe
absorviam o tempo, temendo só ao pensar num divórcio com os livros, lá roubava
ao repouso e ao sono momentos fugitivos em que matar saudades. Por vezes lhe
ouvimos santa emulação em que invejava a sorte doutros que podiam passar o dia
entregues à bendita tarefa do engrandecimento do espírito.
Mas Deus
destinava-o a uma obra que, ainda que supunha muita especulação, exigia muito
mais de senso prático.
Já em
Roma dera sinais do muito que se havia a esperar da sua acção em favor dos
outros.
Cheio de prudência
sabia esperar o momento oportuno para tudo dizer e fazer.
O Dr.
Vilar não se deixava levar das primeiras impressões. Odiava o impulsivismo,
como destruidor de tantas obras. Jamais tinha pressas, logo que o assunto
requeresse reflexão, embora isso lhe custasse por vezes apreciações injustas.
Cheio de
constância, chegava sempre onde desejava.
Procurava,
sempre o auxílio de Deus e o concurso dos seus colegas. Depois, bem amadurecido
o seu plano, levava-o até ao fim. Não se atemorizava com as dificuldades nem
ainda se apoucava perante a grandiosidade da empresa. Só assim compreendemos a
grande obra que realizou na reorganização dos Seminários e reforma dos seus
estudos.
Mas
conhecemos bem o segredo de tudo isto. É que o Sr. Dr. Vilar era cheio de piedade
e delicadeza para com Deus... o seu exemplo pregava aos seus tanto ou mais que
a sua palavra. Quer na Aula quer na Capela, no Seminário ou na sua casa, para
com as almas ou subordinados, para com os amigos ou estranhos, o Dr. Vilar era
sempre o mesmo. Identidade de pensar e de palavras e de vistas e de
simplicidade e de delicadezas. Uma vez falado tinha o condão de atrair. Mas,
quando necessário, sem mostras, maneiras de tragédia ou de comédia, sabia dizer
as coisas mais sérias, colocar no seu lugar assuntos complicados.
Se as
paredes do Seminário pudessem falar, quanto de realidades belas nos pregariam,
obtidas em longas e esquecidas tardes ou em tristes noites tenebrosas!?...»
O Cónego Vilar era apenas um ano mais velho
que a Venerável e morre logo adiante, de cancro, oferecendo a sua vida pela
santificação dos sacerdotes, sem conseguir concluir a missão junto da Santa Sé,
de levar Pio XI a
fazer a consagração do mundo ao Imaculado
Coração de Maria.
Nas suas
visitas a Balasar, usou de grande delicadeza. Em certo sentido, ele parecia
irmão de Alexandrina, apesar da sua formação universitária e méritos
intelectuais.
À altura,
dirigia a doente de Balasar o P.e Mariano Pinho. É portanto da Vítima da
Eucaristia que vamos extractar alguns excertos que nos deixam uma simpática
imagem do Cónego Vilar.
«Depois
de levar a Balasar dois colegas para presenciarem os fenómenos e, ouvido o seu
parecer, o director espiritual da doente escreveu directamente a Pio XI, a 24
de Outubro de 1938. O resultado foi ser de novo examinada a doente por mandado
da Santa Sé. Desta vez é encarregado dessa incumbência o falecido Cónego Manuel
Pereira Vilar, Reitor do Seminário de Braga. Ela mesma nos narra resumidamente
como foi esse exame:
“Em 5 de
Janeiro de 1939 recebi a visita do nosso Sr. Abade, acompanhado pelo Ex.mo Sr.
Cónego Vilar que, depois de me ser apresentado, ficou a sós comigo. Falámos de
várias coisas de Nosso Senhor, cerca de duas horas, para depois entrarmos
verdadeiramente no assunto que o trouxe aqui. Sua Rev.cia disse-me assim:
— A
Alexandrina deve estranhar a minha visita, não me conhece... — Sorri-me,
respondendo: Eu sei com certeza ao que V. Rev.cia vem aqui. Ao que ele disse:
— Diga,
diga, Alexandrina.
Então
disse eu:
— Vem de
mando da Santa Sé —, pois era o que eu sentia na minha alma; nesse momento, Sua
Rev.cia confirmou:
— É isso
mesmo —, e apresentou os documentos que tinham vindo de Roma. Fez-me várias
perguntas a que respondi.
Não falei
da «Crucifixão», falou-me ele, dizendo:
— Parece
que há mais qualquer coisa que se passa há meses — apontando-me a «Paixão», mas
mostrando vontade de vir assistir, como veio logo na primeira sexta-feira
seguinte.
Falando
disto ao meu Director Espiritual, este aconselhou-me a que lhe falasse com toda
a franqueza. Visitou-me quatro vezes mas só duas foram obrigatórias (quer
dizer, por dever de oficio). Se me não engano, logo da primeira vez disse-me:
— Olhe,
Alexandrina, gostava há muito de a ter conhecido, mas não queria ter vindo como
vim...”
Alexandrina
termina a narrativa dizendo:
“Chorei,
quando Sua Rev.cia se despediu de mim, na partida para Roma. Prometeu
escrever-me de lá, dizendo-me que ficaria a ser a sua intercessora na terra.
Recebi algumas cartas dele, em que mostrava ter em mim inteira confiança.
Respondi-lhe e ajudávamo-nos mutuamente com orações a Nosso Senhor.”
De facto
temos em nossa mão os originais de sete cartas de Mons. Vilar para a
Alexandrina, que são um esplêndido testemunho a seu favor. Não vamos copiá-las todas;
alguns excertos ao menos, a provarem o que afirmamos. Logo quatro dias depois
de chegar a Roma escrevia-lhe e entre outras coisas diz:
“Recordo-a
todas as vezes que entro na capela a visitar Jesus ou sempre que pego no meu
terço, no qual coloquei a recordaçãozinha que me ofereceu a última vez: dentre
tantas é talvez a que mais estimo. E todos os dias na Santa Missa, faço um
«memento» especial por si, pedindo ao Senhor todas as graças de que necessita,
para realizar a sua missão. Ainda não fui recebido pelo Santo Padre; mas logo
que seja expor-lhe-ei todos os desejos de Nosso Senhor.”
A
2-VI-1939, escreve-lhe:
“Boa
Alexandrina: É hoje a primeira sexta-feira de Junho e está a fazer um mês que
recebi a sua estimada cartinha. Esperava, ao escrever esta, poder-lhe dar
alguma boa notícia acerca da nossa consagração do mundo ao Imaculado Coração de
Maria, tão insistentemente pedida por Jesus,
mas infelizmente ainda nada de positivo lhe posso dizer. As coisas em Roma
contam-se em comparação com a eternidade e, por isso, nunca têm pressa.
Continuemos, porém, a rezar e a trabalhar para que, por fim, os santíssimos
desejos de Jesus sejam realizados. Esta manhã, ao recordar-me de si na Santa
Missa, como costumo fazer, recordei-me
da sua paixão e ofereci tudo a
Nosso Senhor. Encontrei assim um meio de desagravar a Justiça divina pelas
minhas tão numerosas e tão graves infidelidades... Procuro ser bom para com
todos, e só para Jesus continuo a ser assim infiel! E depois disto, ainda Ele
vem dizer-me que me ama e que me compreende. Quando li estas palavras, as
lágrimas saltaram-me aos olhos; e sua carta lá ficou aos pés do meu crucifixo
até hoje... Jesus ouviu-a: mais uma grande graça. Mas compreendo que o Amor
seja hoje para si ao mesmo tempo o algoz, o amparo e forca, a consolação e
felicidade. Mas deixe: esse Artista divino sabe realizar obras admiráveis; e se
ele a levar até à imolação heróica, maior será a glória do Senhor, mais
completa a reparação, mais bela a recompensa. É isso o que Ele pede, não é
verdade? Mas nem admira. Nesta hora de desvario, Jesus tem necessidade de
vítimas que com Ele desarmem a Justiça divina.”»
À margem
do nosso tema principal, lembramos que o tribunal que em Braga apreciou o
alegado milagre obtido pela intervenção da Venerável concluiu os trabalhos e já
enviou para Roma a documentação, estando assim ultrapassada uma importante
etapa na caminhada para a beatificação. Lembramos também que no próximo domingo
ocorre o aniversário da morte de Alexandrina, pelo que se espera que a afluência
a Balasar seja enorme.
Em
Balasar há duas páginas dactilografadas respeitantes à correspondência do
Cónego Vilar, batidas à maquina certamente pelo P.e Humberto Pascoal. A
classificação de confidencial que nelas se lê visava sem dúvida desviá-las de
olhares menos bem intencionados que pudessem interpretar mal o tão cordial
entendimento que havia entre este doutor pela Universidade Gregoriana e a
Doente do Calvário. O próprio Cónego Vilar de resto escreve assim a 2/6/39:
«Fará o
que entender das minhas cartas. O que não queria era que viessem amanhã a ser
conhecidas. Não aproveitam nem edificam a ninguém. Antes têm pedaços que me
saem espontâneos, pela muita confiança que em si deposito, mas que doutra forma
não escreveria. E mesmo, não sendo compreendidas, poderiam fazer mal.
Os meus
respeitosos cumprimentos para sua mãe e irmã.
Creia-me
muito dedicado em Jesus: M. Pereira Vilar.»
Vamos contudo ver o que se lê na primeira página,
que se intitula «Correspondência do Monsenhor Vilar»:
«Existem
de Monsenhor Pereira Vilar para Alexandrina Maria da Costa, Póvoa de Varzim,
sete cartas, uma
escrita de Braga e as outras seis de Roma.
Delas se
conclui o seguinte:
1 - A
grande estima que Monsenhor Vilar tinha pela doente e a confiança absoluta que
nela depositava. Citemos algumas frases:
“A
Alexandrina peça-lhe a graça de eu lhe ser de uma vez fiel para sempre, sim?
Bem sabe que Ele amorosamente a constituiu minha protectora, e por isso não
saberei viver senão muito unido no seu Coração Divino. Recordo-a todas as vezes
que entro na capela a visitar Jesus, ou sempre que pego no meu terço, no qual
coloquei a recordaçãozinha que me ofereceu a última vez: dentre tantas é talvez
a que mais estimo. E todos os dias na Santa Missa faço um memento (uma
oração) especial por si pedindo ao Senhor todas as graças que necessita
para realizar a sua obra” (Carta de Roma, 19/4/39)
“Considero-a
como a colaboradora providencial que Jesus me deu e por isso quero-a
participante de toda a minha vida... “ (Roma, 6/8/39)
2 - A
persuasão de que Nosso Senhor a tinha escolhido para vítima de expiação:
acreditava nos sofrimentos especiais por que ela passava nas sextas-feiras, ou
seja, a Paixão do Senhor:
“Considero-a como a colaboradora providencial
que Jesus me deu e por isso quero-a participante de toda a minha vida e
ofereço-lhe todos os dias os seus sacrifícios e mortificações por mim e pela
Obra que Ele me confiou, pela manhã, na Santa Missa, sobretudo nas
sextas-feiras, lá a ofereço com a minha vida, na patena ao Eterno Pai, por
mim...” (Roma, 6/8/39)
“Esta
manhã (era sexta-feira) ao recordar-me de si na Santa Missa, como
costumo fazer, recordei-me da sua paixão (quer dizer: os sofrimentos
extraordinários das sextas-feiras) e ofereci tudo a Nosso Senhor. Encontrei
assim um meio de desagravar a Justiça Divina...” (Roma 2/6/39)
“Durante
este tempo, tenho continuado bem unido a si como à cooperadora mais fiel que
Jesus me deu. E todos os dias no Santo Altar a recordo e sinto bem perto de
mim, oferecendo a Jesus e com Jesus todos os seus sofrimentos e sacrifícios,
principalmente nas sextas-feiras. O Senhor aceitará tudo e tudo saberá utilizar
para a realização da sua obra.”
(Referindo-se à hora presente:) “O que vale é o
Grande Mediador Jesus e as almas que Ele associa à sua mediação reparadora.
Nobre missão aquela a que Jesus a chamou.” (Roma, 26/11/39)
3 -
Julgava de Deus o pedido que Nosso Senhor fazia da consagração do mundo ao
Coração Imaculado de Maria e por isso não se descuidou de o transmitir ao Santo
Padre:
“Ainda
não fui recebido pelo Santo padre, mas logo que seja expor-lhe-ei os desejos de
Nosso Senhor.” (Roma, 19/4/39)
“ Já fiz
chegar tudo às mãos de quem de direito e estou à espera que o Santo Padre me
conceda a audiência que me foi prometida, para lhe falar pessoalmente...
Entretanto vamos cumprindo a nossa missão, certos de que Jesus realizará a sua
obra. E continuemos bem unidos no Coração Divino...” (Roma, 6/8/39)
“Em
princípios de Junho alguém falou ao Santo Padre na Consagração do mundo a Nossa
Senhora; mas o momento é tão incerto que só Deus sabe o que será. Nós
continuemos a rezar na certeza de que a Sua Santíssima vontade um dia se
realizará plenamente (era o que Nosso Senhor afirmava constantemente à
Alexandria, como Monsenhor estava inteirado). (Roma, 5/7/40)
Este
reconhecimento da autenticidade do factor sobrenatural manifestado na
Alexandrina é anterior à borrasca que vai eclodir alguns anos à frente com a
intervenção do P.e Terças e da comissão espiscopal. E é um reconhecimento que
não vem dum qualquer, mas de um colega bem aproveitado do Cónego Molho de
Faria.
As cartas
do Cónego Vilar à Alexandrina fazem-nos lembrar algumas cartas da Doutora da
Igreja S.ta Teresinha de Lisieux, que aliás
a mesma Alexandrina considerava sua «irmã gémea». Por isso, apesar da
vontade expressa em contrário do seu autor, vamos transcrever na íntegra a de
2/6/39 (já na maior parte aqui
publicada). Tenha-se presente que ela é do tempo do P.e Pinho, de antes
da chegada do P.e Humberto, e que a consideração por Alexandrina que nela se
expressa é a mesma que estes seus directores lhe votaram. A carta é de resto
modelar.
«Roma,
2/6/39
Boa
Alexandrina
É hoje a
primeira sexta-feira de Junho e está a fazer um mês que recebi a sua estimada
cartinha. Esperava, ao escrever esta, poder dar-lhe alguma notícia acerca da
nossa Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, tão insistentemente
pedida por Jesus, mas infelizmente ainda nada de positivo lhe posso dizer. As
coisas em Roma contam-se em comparação com a eternidade, e por isso nunca têm
pressa. Continuaremos porém a rezar e a trabalhar para que por fim os
santíssimos desejos de Jesus sejam realizados.
Este
manhã, ao recordar-me de si (é sexta-feira) na santa Missa, como costumo
fazer, recordei-me da sua paixão
(quer dizer: os sofrimentos extraordinários
das sextas-feiras) e ofereci
tudo a Nosso Senhor. Encontrei assim um meio de desagravar a Justiça Divina
pelas minhas tão numerosas e tão graves infidelidades. E já tenho feito
assim muitas vezes. Olhe: isto é só
para si: se soubesse como tenho sido mau e ingrato para com Jesus... procuro
ser bom para com todos e só para Jesus continuo a ser assim infiel! E, depois
disto, ainda Ele vem dizer-me (por meio de Alexandrina a quem Nosso Senhor o
revelou) que em ama e me compreende. Sabe? Quando li estas palavras, as
lágrimas saltaram-me aos olhos; e a sua
carta lá ficou aos pés do meu crucifixo até hoje. A Alexandrina peça muito
perdão a Jesus por mim e diga-lhe que tenha pena da minha miséria e que acabe
de uma vez por todas com a minha teimosa resistência.
Se
soubesse a tortura íntima que tenho suportado este mês, mas por minha culpa.
Afinal, dei tudo a Jesus e só não acabo de me dar a mim.
A
Alexandrina há-de me conseguir ainda esta graça, sim? Quando acabamos por nada
mais ter neste mundo que nos prenda, é evidente que não podemos pensar no céu
sem profundas saudades, e a própria vida só é compreensível como um contínuo
acto de amor. Jesus ouviu-a; foi mais uma grande graça. Mas compreendo que o
amor seja hoje para si ao mesmo tempo o algoz, o amparo e força, a consolação e
felicidade. Mas deixe: esse Artista divino sabe realizar obras adoráveis; e se Ele a levar à imolação heróica
(parece profético), maior será a glória do Senhor, mais completa a
reparação, mais bela a recompensa.
E é isto
o que Ele lhe pede, não é verdade? Mas nem
admira. Nesta hora de desvario, Jesus tem necessidade de vítimas que com
Ele desagravem a Justiça Divina.
E agora
talvez gostasse de saber alguma coisa da obra que Deus me confiou (de
dirigir o Colégio Português de Roma), já que a confiou também a si. Olhe:
está apenas a começar e por enquanto tenho ido muito devagar, procurado com
bondade desfazer as desconfianças que encontrei. Há boas vontades que parecem
despertar; e as outras virão vindo também. De resto, Nosso Senhor tem ido
aplanando o caminho. A Alexandrina não deixe de continuar a considerar como sua
esta obra tão importante e tão necessária à Igreja em Portugal. Continuaremos
assim muito unidos no Coração Divino e trabalhando juntos. Tenha a certeza que
uma e muitas vezes me lembra aos pés do altar.
Fará o
que entender das minhas cartas. O que não queria era que viessem amanhã a ser
conhecidas. Não aproveitam nem edificam a ninguém. Antes têm pedaços que me
saem espontâneos, pela muita confiança que em si deposito, mas que doutra forma
não escreveria. E mesmo, não sendo compreendidas, poderiam fazer mal.
Os meus
respeitosos cumprimentos para sua mãe e irmã.
Creia-me
muito dedicado em Jesus: M. Pereira Vilar.»
Não deixa
de ser interessante sublinhar a associação de Alexandrina à tarefa do Cónego Vilar
à frente do Colégio Português de Roma, ela que há-de vir a ser chamada por
Jesus «doutora das ciências divinas», ela onde deverão aprender «os pequenos,
os grandes, os ignorantes e os sábios»... Parece por outro lado que a santidade
da Venerável atraiu a si uma verdadeira constelação de santos, onde este
notável monsenhor tem um lugar cimeiro.
Viagem ao Porto
«Pedi
durante um mês, escreveu Alexandrina, mas, quanto mais luz pedia mais em trevas
ficava, tornando-se assim a dor da minha alma cada vez mais profunda, não
sabendo o que havia de fazer; até que Nosso senhor me disse que era sem dúvida
vontade dele que eu fosse ao Porto.»
É o
relato desta viagem, ocorrida em 15/07/1941, que hoje vamos ter. É sempre um
texto de uma grande mística, mesmo parecendo tratar-se de coisa tão banal. Além
do mais, ele vai-nos permitir publicar uma fotografia pouco vulgar, tirada na
passagem pela Trofa. A Venerável não está no quarto, nem está deitada. Por
isso, deve ser caso único. A Alexandrina já acamara há dezena e meia de anos.
Como ela própria afirma, trata-se dum milagre. Nós já procurávamos há tempos a
fotografia, mas só conhecíamos uma cópia bastante fraca. Um acaso feliz
levou-nos a descobrir um original de qualidade.
A viagem
é já a segunda ao Porto e levava-a ao consultório do neurologista Dr. Gomes de
Araújo. O Dr. Azevedo pretendia esclarecer a sua situação clínica e os seus
movimentos durante
a Paixão.
Continuou
a Venerável:
«O
meu estado físico era muito grave. Receavam tirar-me do leito para tão longa
viagem. Eu mesma temia, e muito: se só tocar-me era causa de tamanho
sofrimento, como podia ir tão longe?... Encorajada pelas palavras do Senhor,
confiava nele e sob a acção da sua graça divina preparei-me para partir na
manhã de 15 de Julho de 1941. Às quatro, já tinha feito as minhas orações. Para
fingir que estava contente, chamei a minha irmã dizendo-lhe que íamos à cidade:
só para manter ignorada a minha dor. Enquanto dizia isto, senti um automóvel
que chegava perto da nossa casa.
Entrou no
meu quarto o Dr. Azevedo com um senhor amigo (António Sampaio, da Trofa).
Depois de breve conversa, enquanto a minha irmã se vestia, preparámo-nos para
sair. Partimos às 4h30, para não alarmar o povo; era ainda escuro; de facto
saímos da freguesia sem encontrar ninguém.
Em que silêncio
ia a minha alma! Mergulhada num abismo de tristeza, sem interromper a minha
união com Jesus, ia-lhe pedindo sempre coragem para o exame que me esperava e
oferecendo o meu sacrifício pelo seu divino amor e pelas almas. Chamava pela
Mãezinha e pelos santos e santas a quem mais amava.
Não
reparava em nada e tudo quanto via me causava profunda tristeza. Entretanto
interrompiam o meu silêncio para me perguntar se ia bem; agradecia sem sair do
abismo em que ia mergulhada.
Era dia
quando chegámos à Trofa, à casa do senhor que nos acompanhava: ali devia
repousar e receber o meu Jesus, enquanto esperava retomar a viagem para o
Porto.
Antes de
continuar a viagem, fui levada ao jardim e, ajudada pela acção divina, cheguei
até a algumas florzinhas que colhi, pensando: - Quando o Senhor criou estas florinhas, já sabia que hoje as ia
aqui recolher.
Depois,
fui fotografada em dois lugares diferentes e, dum ao outro, desloquei-me por
meu pé, o que nunca mais tinha feito depois que acamei; lá nem sequer me tinha
voltado sozinha. Só um milagre divino, porque sem ele não me mexia, porque sem
ele nem sequer consentia que me tocassem.
Retomámos
a viagem: a minha alma sofria horrivelmente.
A seis
quilómetros do Porto Jesus retirou a sua acção divina. Principiei a sentir os
costumados sofrimentos físicos que tornaram tormentoso o resto da viagem;
disse, não porque soubesse a distância que faltava mas porque o meu estado o
fez dizer: - Estamos já perto do Porto. – Alguém respondeu: - Estamos, estamos!
– Porque tinha (o acompanhante) visto que faltavam só os seis
quilómetros que referi.
A ida de
carro para o consultório foi o que há de mais doloroso: martírio do corpo,
agonia da alma; parecia-me que morria.
Antes de
entrar na sala de consultas, disse a quem me levava nos braços: - Pousai-me,
pousai-me, mesmo no chão! – De repente apareceu o médico que me fez estender
sobre a cama de observações, enquanto esperei a consulta. Algum momento antes
de entrar no consultório, Jesus livrou-me da agonia da alma e deixou-me só as
dores físicas, de modo que pude resistir melhor.
A
consulta foi muito dolorosa e demorada. Enquanto me despiam, encorajavam-me e,
recordando que o tinham feito a Jesus, disse para mim: - Despiram também Jesus
–, e não pensei em mais nada.
O Dr.
Gomes de Araújo, ainda que um pouco brusco, foi prudente e delicado.
Durante o
regresso a casa, Jesus exercitou sobre mim as sua acção divina, para que
resistisse à viagem, mas deu-me novamente as agonias da alma.
Chegados
a Ribeirão, fizeram-me repousar na casa do Dr. Azevedo para esperar pela noite
e poder reentrar na freguesia sem ninguém perceber.
Tanto em
casa do Sr. Sampaio como na do médico fui tratada com todas as atenções; mas
nada me dava conforto, mesmo que sorrisse a todos para esconder o mais possível
a minha dor.
Retomámos
a viagem, que era já noite; tudo me convidava a um silêncio sempre mais
profundo. Estava alheia a tudo. Durante o trajecto não vi senão as flores do
jardim de Famalicão, porque mas indicaram.
Chegámos a
casa à meia noite, conseguindo assim que ninguém desse pela nossa saída.
Depois
daquela viagem aumentaram bastante as dores físicas.»
A
propósito destas mesmas dores, escreveu ela ao P.e Pinho:
«Nas
horas de maior angústia, Jesus disse-me:
- Eis,
minha filha, os teus sofrimentos pelos sacerdotes. Sofre por eles. A dor
repara. Os ardores que te queimam são os ardores das suas paixões. Servi-me do
exame médico para te fazer sofrer por eles.»
A sua devoção eucarística
Pode-se
escrever quase indefinidamente sobre a Venerável Alexandrina deixando o
fundamental por dizer. O fundamental que neste caso será o mais difícil. Hoje
passamos a palavra ao P.e Humberto para ele desenvolver um desses temas
nucleares. Trata-se dum capítulo da Venerável
Alexandrina, colhido na 6ª edição,
páginas 82-84:
«Toda a
ciência tem a sua escola. Os sacrários serão a escola da Alexandrina. A escola
deve visar a vida, isto é, a missão que toda a criatura deve cumprir neste
mundo. A missão da Alexandrina ficou desenhada claramente na sua primeira
juventude: sacrários e almas. E Jesus virá a confirmar esta sua vocação:
«A missão que te confiei são os meus
sacrários e os pecadores: Eu
elevei-te a tão alto grau. É o meu
Amor! (20-12-34).
Os
sacrários, sede da sua escola, tornar-se-ão a sua vida, como a escola se torna
vida para aquele que é chamado a ensinar os outros, a muitas gerações: aquilo
que era lugar de aprendizagem,
tornar-se-á cátedra de ensino.
As almas,
a que Alexandrina se havia votado, como que por instinto, nos primeiros anos da
sua imobilidade, tomam de ora em diante, um nome: os pecadores.
Mas a
escola tem um Mestre, e as suas lições serão tanto mais eficazes quanto mais
transmitirem exemplos, de preferência a palavras.
Foi
sempre este o melhor método. Jesus usou-o desde o princípio:
«Dei-vos o exemplo; assim como Eu fiz, fazei vós também».
Os
escritos da Alexandrina nem sempre são explícitos sobre este ponto, e é bom
esclarecê-los para bem se compreenderem.
«Como
Madalena, escolheste a melhor parte.
Amar o meu Coração! Amar-Me crucificado é bom, mas amar-me nos meus sacrários, onde Me podes contemplar, não com
os olhos do corpo mas com os olhos da alma e do espírito, onde estou em Corpo,
Alma e Divindade como no Céu, escolheste
o que há de mais sublime» (8-11-34).
«Anda para a minha escola, - diz-lhe Jesus – aprende com o teu Jesus a
amar o silêncio, a humildade, a
obediência e o abandono» (15-10-34).
«Contempla
hoje muito os meus sacrários! Repara o que Eu lá faço; é o que Eu quero tu faças» (14-1-35).
«Ama a
solidão. Anda para os meus sacrários. É lá onde aprendes. É lá onde ela é mais
praticada anos e séculos» (9-12-34).
Se a
Alexandrina, desde há anos – diremos que por uma disposição secreta se sentia
atraída para este lugar, a sua presença aí torna-se agora para ela uma
necessidade. Em certa ocasião fala assim ao Senhor:
«Falai, ó
meu Jesus, falai que a Vossa filhinha Vos escuta... Sinto ânsia de ser
instruída na Vossa escola».
E Jesus
responde-lhe, iluminando-a sobre o conceito por nós acima expresso: os
sacrários serão a sua missão na terra... São estas as palavras do Dilecto:
«Eu anseio que aprendas todos as minhas
lições. Tenho muito que te ensinar
e tu muito que aprender, para que
por ti venham muitos a aprender as mesmas lições, calcar as mesmas pegadas e seguir-te nos teus caminhos» (1-11-34).
Do alguns
bilhetes sem data, salvos como tantos outros, aprendamos o seu ardor em
manter-se unida ao Divino Prisioneiro:
«Quereria
estar convosco, ó Jesus, dia e noite e a toda a hora. Mas agora não posso vir,
bem o sabeis... estou ligada de mãos e pés: mas mais ligada quereria estar,
unida a Vós nos sacrários, e não ausentar-mo um só momento.»
Se presa
ao leito não pode peregrinar até ao centro das suas únicas aspirações, torna-se
genial e não falta ao ordenado por Jesus: «Vós conheceis os meus desejos, que
são estar na Vossa presença no Santíssimo Sacramento; mas já que não posso,
mando-Vos o meu coração, a minha inteligência para aprender todas as vossas
lições; mando-Vos os meus pensamentos para que eu pense só em Vós, ó meu Amor,
porque Vos amo só a Vós, só a Vós eu busco, só por Vós suspiro, só Vós, Jesus,
em tudo e por tudo» (Sem data).
Subjugada
por esta atracção na sua alma infundida pelo Amado, que a encadeou de um modo
irresistível, amará com predilecção tudo quanto se relacionar com a Eucaristia.
E mais
que a tudo amava ela as quintas-feiras:
«Que belo
dia a quinta-feira! – deixou escrito em 11 de Outubro de 1934 - É o dia em que o Senhor instituiu o SS. Sacramento!»
Preferirá
sempre escrever as suas cartas e o seu diário em tal dia, porque, custando-lhe
muito, tanto a escrever por seu punho como a ditar à Deolinda, tinha maneira de
provar ao seu Jesus Eucarístico toda a sua paixão por Ele.
Quantas
vezes não lhe sairá da pena este grito de alma: «É quinta-feira: é o meu dia!»
(20-12-34).
E Jesus
lhe dirá:
«Hoje
é o teu dia, o grande dia, a tua Paixão:
dia do meu Sacramento. Diz que me procurem almas que Me amem no meu Sacramento
de amor, as quais te substituam à tua partida para o Céu» (24-3-38).
«Com a
alma inebriada por este ideal eucarístico, reivindica zelosamente para si esta
sua preciosa herança, recebida das mãos de Jesus. Em 23 de Julho de 1938
exclamará: «Pertence-me esta missão: dar
almas a Jesus, viver alerta na Eucaristia, sempre alerta, alerta com Jesus.
Como a borboleta para as chamas, como o pastor para o cordeiro!»
E em 1934
cantará com uma música inspirada:
Seja a minha
morada
Viver na Eucaristia
E viver no Vosso Amor,
Toda a minha alegria!»
Ouçamos
ainda este bem importante trecho, de quando Jesus dispensou intermediários na
direcção de
Alexandrina, conduzindo-a Ele apenas.
Traduzimo-lo do italiano, sem termos tido ainda oportunidade de verificar a
tradução pelo original. E insistimos nisto para chamar a atenção para a
necessidade da publicação dos seus escritos. Porque a Venerável está muito
italianizada. Quem procurar na Internet, poderá verificar que houve uma revista
alemã que traduziu para alemão a autobiografia de Alexandrina – talvez o Cristo
Gesù in Alexandrina – e fê-lo a partir não dos originais portugueses, mas
do italiano... Finalmente, o texto:
«Ouvi a
sua (de Jesus) voz divina dizer-me:
-
Minha filha,
sempre na cruz comigo, sempre comigo na Eucaristia.
-
A cruz é redenção,
a Eucaristia é amor.
Quero,
querida filha, que tu fales da cruz, do amor ao sofrimento, porque é dele que
vem a salvação.
Fala da
Eucaristia, prova do amor infinito: é o alimento das almas.
Diz às
almas que Me amam que vivam unidas a Mim durante o seu trabalho.
Nas suas
casas, seja de dia seja de noite, ajoelhem-se muitas vezes em espírito e com a
cabeça inclinada digam:
“Jesus,
eu Vos adoro em todo o lugar onde habitais sacramentado;
faço-Vos
companhia pelos que Vos desprezam,
amo-vos
pelos que não Vos não amam;
desagravo-Vos
pelos que Vos ofendem.
Jesus,
vinde ao meu coração!»
Estes
momentos serão para Mim de grande alegria e consolação.
Que
crimes se cometem contra Mim na Eucaristia!
Sou
horrivelmente mais ofendido neste sacramento de amor por aquelas almas que se
dizem piedosas e pelos sacerdotes que pelos grandes pecadores.
Estes
cometem grandes sacrilégios pela grande ignorância, enquanto os outros com
conhecimento do mal que fazem.
Repara,
minha filha; vive a vida da cruz, vive a vida da Eucaristia.» (2/10/48)
A
Alexandrina é apaixonante, para quem lhe conhece os escritos. Veja-se este
fragmento de uma data próxima do anterior:
«- Não
terás mais na terra nem consolação nem alegria.
Com isto não
quero dizer que não terás mais motivos que te possam dar alegria, mas o teu
estado de espírito não os aceitará.
E sabes
porquê? A alma que atingiu as esferas mais altas sofreu da minha parte um golpe total; basto-lhe Eu, só
por Mim suspira, alegras-se só em Mim e nas minhas coisas.
Tudo o
que te acontecer te deixará indiferente…
Nos teus
lábios terás o meu sorriso, no teu coração a dor do meu divino Coração.
Não
poderás cessar de sofrer como não cessarás ainda de amar.
-
Ó meu Jesus, eu
sei que com a Vossa Graça poderei vencer tudo. Não ma deixeis faltar, para que
eu possa sofrer tudo e suportar o meu nada.
-
-
A luz do
Espírito Santo ilumina-te sempre e mais facilmente vês o que és e toda a tua
miséria.
-
Alegra-te,
minha filha. Não é verdade que a vista humana, quanto mais fortes e luminosos
são os raios do sol e mais os fixa de perto, menos vê, não pode suportá-los?
A alma
que sobe, que sobe até chegar-se a Mim vê que não é nada, que não tem nada e
que só em Mim pode repousar.
Apoia-te
sobre o Meu divino Cotação, repousa-te um pouco nele.» (15/10/48)
José Ferreira