A VENERÁVEL ALEXANDRINA
Para começar
A série
de artigos que terminámos há um mês neste jornal significou, por um lado, a
nossa surpresa ao fazer a descoberta da Venerável e, por outro, aquela base a
partir da qual é possível aprofundar o seu estudo. Agora pretendemos iniciar
uma outra série, a princípio quinzenal depois só mensal, mas que se prolongue
ao menos até ela ser declarada bem-aventurada - que é o que quer dizer a
palavra «beata», palavra que na nossa língua tem uma conotação tão negativa.
(Noutras línguas, não é assim. Em inglês, por exemplo, a palavra que lhe
corresponde é blessed, que se usa na expressão Blessed Sacrament,
Santíssimo Sacramento. )
Há várias
razões para nos aventurarmos à nova série. Pudemos verificar que o que
escrevemos – muitas vezes o que apenas reproduzimos – causou autêntica
admiração, tal era o desconhecimento (ou esquecimento?) que vigorava sobre o
assunto. Mas também nos consta que há a vontade de, em definitivo, encarar de
frente a situação, lançando as bases para tornar Balasar naquilo que já há
muito devia ser, isto é, promovendo a divulgação da Venerável e tornando os
lugares a que esteve ligada um verdadeiro centro de irradiação da sua mensagem.
Consta-nos. Tornar isso realidade será empreendimento trabalhoso. Se isto que
nos propomos fazer por gosto der algum alento ao projecto, já terá valido a
pena.
Por outro
lado, é do conhecimento público que, ultimamente, o processo de Alexandrina
conheceu novos desenvolvimentos, com a constituição do tribunal que em Braga
há-de examinar o milagre que é atribuído à sua intervenção, e que, a
confirmar-se, faria com que esse processo se encaminhasse em definitivo para o
fim desejado.
Hoje
começamos transcrevendo um artigo que escreveu o Pároco de Balasar dos tempos
da Alexandrina, P.e Leopoldino Mateus. É um In Memoriam que saiu no «Ala
Arriba» semana e pouco após a sua morte (22/10/1955), quando todos dela
guardavam viva memória mas ainda não havia livros que lhe fixassem a biografia:
À Memória de Alexandrina
Maria da Costa
Na
freguesia de Balasar deste concelho baixou à paz do túmulo Alexandrina Maria
da Costa “Vicente”, tão conhecida, pelo menos de nome, em quase todo o País.
Nasceu a
30 de Março de 1904 e faleceu a 13 de Outubro de 1955, isto é, nasceu no ano de
Nossa Senhora (ano do 50.º aniversário da definição dogmática da Imaculada
Conceição) e faleceu no dia da mesma Senhora, no dia último das suas aparições
aos pastorinhos de Fátima.
Recebeu a
primeira Comunhão na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Póvoa de
Varzim e recebeu os ú1timos Sacramentos administrados por um sacerdote poveiro,
o seu pároco.
Diz-se de
Nosso Senhor no seu Evangelho que passou a vida fazendo bem; da saudosa
Alexandrina também se pode garantir que passou a sua vida espalhando
benefícios.
De todos
os donativos que alguns visitantes lhe deixavam espontaneamente, nada queria
para si, distribuía-os pelas igrejas e pelos necessitados e pelas Missões.
É conhecida
a história da sua vida; era uma humilde pastorinha do campo quando, qual outra
Goretti, perseguida para fins criminosos, não encontrou outro meio de escapar
do crime do que lançar-se de uma janela ao quintal, o que lhe ocasionou uma
doença que a prendeu ao leito da dor perto de 40 anos e sofrendo com a maior
resignação.
Era uma
alma de Deus toda entregue ao sacrifício pela conversão dos pecadores, salvação
dos moribundos e alívio das almas do Purgatório.
O segredo
da sua resignação cristã estava na Vida Eucarística, pois que recebia
diariamente o Pão dos Anjos com fervor edificante e piedade singular.
A Sagrada
Comunhão já há bastantes anos era a sua única comida, porque não tomava
alimento algum. Nas últimas horas de sua vida, já mais do Céu que da terra,
quando a sua família chorava e soluçava, assegurava-lhes: «Não chorem, que eu
vou para o Céu.»
Sim,
Alexandrina contava ir para o Céu, mas como os desígnios de Deus são
insondáveis, é bom sufragá-la para lhe apressar o seu triunfo, se carecer de se
purificar.
O seu
funeral, a que assistiram cerca de 40 sacerdotes - e mais viriam se soubessem
ou pudessem - foi um triunfo, uma apoteose. O seu cadáver inumado por entre
lágrimas e suspiros na terra fria, tem ainda a visita de muitos admiradores. É
uma romagem constante para sua sepultara, uns a chorar outros a suplicar graças
à Sacrificada que já não vêem mas que acreditam estar no Céu.
Aqui
deixamos estas linhas à memória daquela que foi modelo da vida cristã.
Os escritos do P.e
Leopoldino Mateus
O
conhecimento que hoje podemos ter de Alexandrina é diferente do que tiveram os
seus contemporâneos. Hoje podemos conhecê-la nos segredos íntimos que ela tão
zelosamente queria guardar. Por outro lado, muito nos escapa da sua pessoa.
Quando o P.e Humberto diz que o que mais extraordinário havia nela era a sua
bondade, que ela «era a bondade em pessoa», isso não podemos nós
experimentá-lo.
Como quer que seja, o P.e Lepoldino Mateus,
seu pároco, que durante dezoito anos lhe levou diariamente a Eucaristia – e
sabemos o
supremo lugar que a Eucaristia teve no seu
percurso de santificação -, que viveu de perto as polémicas que se geraram em
seu redor, que lidou com os seus directores espirituais, com os seus familiares,
foi dela um observador especialmente colocado. Tinha boas razões para recordar
aquela que lhe pusera a paróquia nas bocas do mundo, que ali trouxera tantos
milhares de visitantes, alguns bem ilustres; tinha razões para lhe estar grato. Mesmo de um ponto de vista
inteiramente pessoal. Eis estas palavras do seu artigo de 13/10/56 no «Ala
Arriba»:
«Um dia, sentindo que as forças me iam
definhando, disse-lhe:
Alexandrina, parece-me que vou deixar-vos,
porque me não sinto com alento para o pesado ónus desta longa freguesia.
A doente calou-se, mas, volvidos alguns dias,
antes de lhe dar o Pão da Vida, ao abeirar-me do seu leito, diz-me:
“Senhor Abade, não receie perder o vigor para
deixar a freguesia; porque pedi a Nosso Senhor que eu morresse antes de V.
Rev.cia nos deixar e Ele prometeu-me que sim, e a sua palavra não falta.”
E assim sucedeu.»
O P.e Leopoldino deixou a paróquia em Outubro
de 1956, um ano após Alexandrina ter «voado para o Céu».
Os seus
artigos foram muitas vezes de teor elogioso. Elogiou a Alexandrina pela sua
devoção à Eucaristia, pela sua vida de sofrimento reparador, pela sua caridade
para com os carenciados, etc. Ao seguinte achamos um atractivo particular por
fazer um aproveitamento jornalístico-litúrgico dos seus escritos. Infelizmente,
ele é só a primeira parte de um trabalho que não chegou a ter conclusão. Data
de 25/3/56.
«Estamos
no tempo santo em que a Igreja nos convida a meditar nos sofrimentos de Cristo
na Cruz. A Cruz é o instrumento de suplício e o púlpito do Mestre. Nela
pronunciou sete palavras e com o clamor violento que levantou antes de exalar o
último suspiro, Cristo mostrou que morreu voluntariamente porque tinha forças
para viver ainda mais tempo. Pela mesma razão, inclinou primeiro a cabeça e só
depois é que exalou o espírito.
A Cruz
não é, apenas, o instrumento do suplício – é também a cátedra do ensino de
Cristo – diz Santo Agostinho. Foi o que ele revelou à Alexandrina, num dos seus
êxtases:
“- Minha
filha, aqui estou com o Meu Divino Coração aberto pelos pecadores, aberto com a
maldade do Mundo. Este coração não tem, como no Calvário, um só soldado que o
abra, que lhe crave a lança; agora são milhares de pecadores que assim Me
ferem. Alexandrina, sofre, repara por amor; é Jesus, o teu esposo, que te pede.
-
Meu Jesus, -
responde ela – eu não sei sofrer nem reparar e nada valem os meus sofrimentos.
Tudo tenho sofrido por Vosso amor e vejo-Vos sempre ferido. São, com certeza,
as minhas maldades!
-
-
Filha –
continua Jesus – sossega. Faço isto, mostro-me assim para te fazer compreender
que o Mundo crucifica-me continuamente; mas não sou Eu que sofro, revesti-me de
ti, é Cristo em ti. É o teu coração que é aberto pela lança, é a tua cabeça que
é coroada de espinhos, são os teus pés e mãos chagados, é o teu corpo açoitado,
és tu a vitima imolada, a vítima do Rei Divino.
-
Criei-te
para a dor, para reparares; criei-te e fiz de ti um instrumento de salvação
para as almas. Eu não sofro senão em ti. Sou o teu Guia, prometi-te ser o teu
Director, não falto.
Aproxima-se
o teu Céu, a tua Pátria divisa-se claramente.
Olha o
que é o Paraíso eterno, a alma na posse do seu Deus, embebida no Amor Divino.
Que alegria ao veres a grande multidão, milhões e milhões de pecadores, que
salvaste e com o teu sofrimento levaste ao gozo eterno!”
Não nos
queremos despedir sem registar que quer o «Póvoa Semanário», quer o «Diário do
Minho» escreveram recentemente sobre a Venerável. Apreciámos o que publicou o
semanário poveiro. Os artigos do cónego Silva Araújo são diferentes porque são
de um teólogo, mas, até ao momento, ainda lhe está a escapar o que há de mais
interessante na Venerável.
A Alexandrina e os homens
do mar
No livro do P.e Humberto que intitulara Alexandrina
e que agora foi rebaptizado para Venerável Alexandrina, vem transcrito
um artigo que o P.e Leopoldino de Mateus publicado, em 14/1/56, no «Ala
Arriba», sob o título de «Alexandrina Maria da Costa e os homens do mar».
Curiosamente, a versão do livro é bastante diferente da do jornal. Não nas
ideias gerais, que são as mesmas, mas na
forma, no tratamento do estilo. A alteração
não foi certamente devida unicamente à tradução para italiano e à nova tradução
para português, se é que as coisas se passaram assim. Parece-nos antes que terá
resultado de acordo entre o autor do artigo e o autor do livro. Vejamos a
versão deste:
«Alexandrina,
na idade de seis, e Deolinda, na de nove anos, não havendo em Balasar uma escola
para meninas, foram postas na pensão de um carpinteiro da Póvoa de Varzim.
Quando as tempestades marítimas tornam difícil o desembarque nas nossas praias,
a gente do mar, com fortes gritos, invoca os santos da sua devoção para
intercederem em seu auxílio sobre os barcos em viagem de volta da pesca.
Os gritos
das mulheres e das famílias inteiras de pescadores causam uma dolorosa e
inapagável impressão sobre a população inteira, que se dirige para a praia para
assistir, demasiadas vezes, a gravíssimas catástrofes.
A nossa
Alexandrina, ainda pequena e não habituada àqueles espectáculos, porque oriunda
duma aldeia do interior, ficava de tal modo impressionada que não resistia ao
pensamento dos sofrimentos em que andavam os homens do mar. Comovia-se com isso,
como se se tratasse de pessoas de família.
Por esse
motivo quando, então prisioneira do seu leito, era visitada pelos pescadores,
sabia dizer-lhes palavras de afecto, de conforto e de encorajamento, que
dificilmente saberemos reproduzir.
Nas suas
conversas, não deixava nunca de aconselhar-lhes a devoção a Nossa Senhora, (à
Mãezinha, como costumava dizer), Estrela do Mar, Senhora dos Navegantes e de
todos aqueles que viajam por mar. Este seu afectuoso interesse pelos homens do
mar tornou-se proverbial, a ponto de a maior parte dos pescadores de bacalhau,
das praias da Póvoa até Nazaré, não partirem nunca para os longínquos mares do
Norte sem irem saudar Alexandrina e recomendarem-se as suas orações.
Faziam a
mesma coisa quando regressavam à Pátria.
A peregrinação,
então tradicional, não se interrompeu depois da morte da Alexandrina.
Há dias,
uma camioneta conduzia a Balasar 43 pessoas, as famílias dos pescadores da
Gafanha de Nazaré, que vinham em visita ao túmulo florido e iluminado da
Alexandrina.
Ajoelhados
sobre essa terra, rezaram em comum o Terço. Apenas acabaram esse acto de
devoção, aproximámo-nos do chefe da comitiva, Mateus Casoilo, casado, de 44
anos, residente na Gafanha. Informou-nos ele que, embarcado no navio
«Ilhavense», carregado de bacalhau, encontrava-se a 15 de Agosto perto da ilha
das Flores.
Devido a
um curto circuito ocorrido a bordo, o navio incendiou-se e toda a tripulação
foi obrigada a abandonar o barco, apinhando-se nos pequenos salva-vidas.
Durante umas 13 horas estiveram em gravíssimo perigo por causa das ondas
alterosas.
Naquela
tremenda emergência, ele e os companheiros de trabalho recorreram à boa
Alexandrina, como eles lhe chamavam, a fim de que os recomendasse a Deus.
Quando
menos o esperavam, apareceu, finalmente, um navio americano que os recolheu a
todos e os transportou para Boston, donde uma companhia de aviação os conduziu
incólumes até Lisboa.
Aquela
piedosa peregrinação queria ser a acção de graças de todos os pescadores e das suas
famílias à grande benfeitora.
Hermínio
da Silva, também presente, confirmou a narração do primo Mateus e acrescentou
que, durante a pesca, havendo-se encontrado em perigo no seu barco com os seus
homens, invocaram a Alexandrina e foram todos salvos.
Assim
faziam também os Apóstolos quando, no meio das ondas ameaçadoras do lago de
Genesaré, invocavam o Divino Mestre, só do qual esperavam a salvação».
Só para verificar a distância que
separa os dois textos (o do jornal do do livro), vejam-se alguns dos períodos
originais para comparação:
«Quando a
maresia altera a nossa costa, dificulta a passagem das embarcações na barra e
chama atenção das pessoas da classe piscatória, começam em altos brados a invocar os Santos da sua devoção para acudir
aos tripulantes no perigo da travessia.
Os gritos
das mulheres e famílias dos pescadores alteram a tranquilidade e serviço de
outras pessoas que correm pressurosas ao fieiro ou areal para presenciar aquela
cena perigosa e dolorosa que muitas vezes se converte em catástrofe.»
Gabriele Amorth, o mais
recente biógrafo da Venerável
O mais
recente biógrafo da Venerável Alexandrina é Gabriele Amorth, o autor de Dietro
un sorriso, Alexandrina Maria da Costa, já traduzido para português com o
título Por detrás de um sorriso, Alexandrina Maria da Costa.
Sobre o
caminho que o levou a Alexandrina, conta no prefácio:
«Escrevi,
no passado, alguns pequenos artigos sobre a Alexandrina. Dirigia a revista
mariana “Madre di Dio” e tinha interesse em conhecer o papel importante que a
Alexandrina desempenhara na primeira consagração do mundo ao Imaculado Coração
de Maria, feita por Pio XII em 1942.

A seguir,
fui algumas vezes a Balasar. Ali, juntamente com o grupo do Exército Azul que
organizara a viagem, rezei sobre a campa da Alexandrina e visitei a sua casa.
Mas quando vi a primeira fotografia dela, não fiquei encantado.»
Nascido em 1925, em Módena, Itália, o P.e Gabriele
Amorth, da Pia
Sociedade de São Paulo, é muito apreciado pelos seus livros sobre Nossa Senhora
e pela sua actividade jornalística – o seu programa na Radio Maria peninsular
conta com 1.700.000 ouvintes. Tornou-se mundialmente conhecido com o lançamento
de sua obra Um exorcista conta-nos, em 1990. Tal obra alcançou notável
êxito editorial na Itália, tendo a sua tradução portuguesa obtido várias
edições no Brasil. A partir de então, a imprensa internacional tem estado
atenta à actuação desse sacerdote, nomeado Presidente da Associação
Internacional dos Exorcistas. Possui
um largo espaço na Internet.
Na
apresentação do livro Mio Signore, Mio Dio!, organizado pelo casal
Signorile, Gabriele Amorth lembra que foi este casal que o animou a escrever Por
detrás de um sorriso:
«Com
muito prazer apresento este novo livro sobre Alexandrina Maria da Costa,
preparado pelos cônjuges Signorile, os mesmos que me incitaram a escrever a
vida de Alexandrina.»
Em
Balasar há dois exemplares de um número da revista Madre di Dio, onde
por sinal vem um artigo sobre a consagração de 1942; na rápida leitura que dele
fizemos, não encontrámos lá o nome de Alexandrina. Por isso limitemo-nos a
ouvir um extracto expressivo do seu bem informado livro:
Primeira experiência da «Paixão»
«Ao P.
Mariano Pinho foi também concedido ir a Balasar passar uns dias de retiro
espiritual. Deste modo, pôde estar presente naquele primeiro acontecimento do
dia 3 de Outubro. No dia anterior, a Alexandrina foi advertida, pela voz divina
interior, de que passaria através das várias fases da Paixão, desde o Horto das
Oliveiras até ao Calvário e que, depois, sofreria novamente aquela mesma Paixão
todas as Sextas-Feiras, desde o meio-dia até às três horas da tarde. Jesus
perguntou-lhe se aceitava. Inútil será dizer que o consentimento da Alexandrina
foi total; manifestou somente o desejo de que, se fosse possível, tudo
acontecesse ocultamente, de modo que ninguém se apercebesse de nada. Mas isto
não estava nos planos de Deus, se bem que o facto de reviver a Paixão de um
modo sensível viesse a ser causa de contrastes e duma autêntica perseguição.
A
Alexandrina reviveu a Paixão de Cristo de uma forma sensível de tal modo que os
presentes podiam seguir as várias fases — desde 3 de Outubro de 1938 até 27 de
Março de 1942, ou seja, por 182 vezes. Dado que o facto se divulgou
imediatamente, podemos imaginar quanta gente teve ocasião de assistir.
Note-se
que quem assistia, além de ver e ouvir, podia tomar apontamentos, pelo que há
muitíssimas relações que descrevem este fenómeno. O êxtase de 29 de Agosto de
1941 foi filmado e a película conserva-se no arquivo paroquial de Balasar. Um
sacerdote dos Padres do Espírito Santo, P. José Terças, enquanto assistia
escreveu um relatório muito pormenorizado. Ficou tão impressionado e comovido
que publicou a sua relação, pensando que um facto tão extraordinário merecesse
ser conhecido e suscitasse uma edificação geral. O efeito, pelo contrário, foi
desastroso para a pobre Alexandrina, como teremos ocasião de ver.
De 27 de
Março de 1942 em diante, a enferma continuará a viver a Paixão até a morte, mas
de uma forma invisível, ou seja, sem qualquer sinal exterior. Em contrapartida,
desde o dia em que reviveu pela última vez a Paixão com movimentos sensíveis,
teve início para ela um novo sofrimento, sensível, controlável e sem explicação
humana. Começará o jejum total, com anúria completa, até ao dia 13 de Outubro
de 1955, dia da sua morte. Viverá, portanto, somente da Eucaristia durante 13
anos e 7 meses.»
«Escola de toda a
humanidade»
O artigo
de hoje é diferente dos anteriores e dos que se lhe hão-de seguir. São textos
como os que vamos transcrever que justificam as paixões que a Alexandrina é
capaz de suscitar. Porque neles está o melhor dela, porque estão lá as palavras
sublimes que ela ditou.
Em15/4/49,
Jesus, num dos invulgares elogios que lhe faz, chama-lhe «escola de toda a
humanidade»:
«Minha
filha, escola de toda a humanidade, quanto deve ela aprender aqui:
escola da vida de Cristo, escola da ciência do Altíssimo! Que aprendam aqui os
pequenos, os grandes, os ignorantes e os sábios!»
Já aqui transcrevemos uma vez aquela citação
de 18/5/1945, onde ela é elevada a «minha doutora das ciências divinas»:
«Vem o
Jardineiro divino ao seu jardim a ver as maravilhas que nele operou e o fruto
de tantas canseiras. Vem o Rei ao palácio da sua esposa, o Redentor divino à
sua redentora, à nova salvadora da humanidade.
As minhas
maravilhas em ti não ficam ocultas, não consinto no seu escondimento. Hão-de brilhar!
São a minha glória; são salvação das almas. Tudo será conhecido, minha
doutora das ciências divinas, tudo será conhecido no livro da tua vida.
És a
heroína do amor, a heroína da dor, a heroína da reparação, a heroína dos
combates, a rainha dos heroísmos.»
Vejam-se
mais algumas citações onde o inaudito dos elogios tem teor semelhante:
«Minha
filha, a tua vida muda e morta fala e dá vida. A tua vida, o teu amor à cruz, o
teu amor ao sofrimento falam. A tua vida ensina mais que os sacerdotes e
doutores da Igreja; o teu martírio converte mais almas que milhares, milhões de
sacerdotes.» (22/10/48)
«A tua
vida, quanto acontece em ti, é uma lição para ao mundo; é a vida que mais se
assemelha à vida de Cristo. É Cristo nos teus olhares, sobre os teus lábios,
nos teus pensamentos, no teu coração e na tua alma. É Cristo que vive e age em
todos os teus movimentos, em todo o teu viver...» (8/4/49)
«Oh, que
agonia será a tua! Assim ficarão escritas no livro da tua vida todas as
maravilhas e as ciências divinas, livro que nunca teve igual.
Podem vir
todos ao jardim que Eu cultivei, para colherem flores de virtude, flores de
pureza, flores de graça, flores de caridade, flores de heroísmo, flores de toda
a variedade. Vinde todos, colhei, são flores celestes!» (23/3/40)
É claro
que se pode, cómoda e gratuitamente, recusar tudo isto. O mais sensato, porém,
é estudá-lo, porque o que estas palavras anunciam é quando é que já se ouviu. E
estes textos já foram todos lidos e aprovados em Roma...
Nós
copiámos em Balasar, do primeiro volume dos Sentimentos da Alma, páginas
110-111, a parte principal do colóquio do dia da Imaculada Conceição de 1944.
Trata-se de um dos mais ousados que lá se encontram. Ei-lo:
«Ele (Jesus)
veio, e veio cheio de amor:
-
Vem, minha
filha, louca de dor e amor, ao meu encontro. É dor que salva as almas, é
loucura de amor por Mim.
-
Se o
mundo conhecesse esta vida de amor, esta união conjugal de Jesus com a alma
virgem, com a alma que escolhe para sua esposa!
Mas não
conhece, e porque não conhece, calunia-a, despreza-a, persegue-a.
Ó minha
pomba bela, tu és esposa e és mãe, mãe que não deixa de ser virgem; és mãe dos pecadores,
são filhos da tua dor, filhos do teu sangue que vais perdendo gota a gota,
filhos do teu amor.
Minha
filha, lá do Céu muitas vezes ouvirás da terra muitos pecadores chamarem-te,
aclamarem-te pelo doce nome de mãe. Aclamar-te-ão aqueles que se viram livres
das garras do demónio e conheceram que foram livres por ti, aproximando-se
assim do Meu Divino Coração.
Grande
amor, ditosa dor que te levou a mereceres de Jesus tão honrosos e elevados
títulos!
-
Meu Jesus, Meu
Jesus, que envergonhada e confundida estou! Se eu pudesse ocultar tudo isto! Se
fosse só para Vós e para mim! Confunde-me ouvir isto e ver a minha miséria!
-
-
Já sabes que
necessito da tua miséria para esconder em ti as Minhas grandezas e
omnipotência.
-
Escreve
tudo, escreve, minha filha. Se o que te digo ficasse oculto, de nada valeria ao
mundo.
Mãe dos
pecadores, nova redentora, salva-os, salva-os! És a nova redentora escolhida
por Cristo!
Nunca
houve nem voltará a haver vítima desta forma imolada, porque nunca houve tanta
necessidade como hoje, nunca o mundo pecou assim.
Dezanove
séculos são passados que Eu vim ao mundo e trouxe agora a nova redentora
escolhida por Mim para relembrar ao mundo o que Cristo sofreu, o que é a dor, o
que é o amor e loucura pelas almas.
És a nova
redentora que vens salvá-los, és a nova redentora que incendeias na humanidade
o amor de Jesus. Nova redentora que serás falada enquanto o mundo for mundo.
Minha
filha, livro onde estão escritos com dor e sangue, letras de oiro e pedras
preciosas, todas as ciências divinas! Coragem, amada, não temas a tempestade,
não temas o estrondo do trovão que traz consigo nuvem que orvalha graças, amor
e maná celeste.
Enche-te,
minha filha: é de amor e maná que vives. Enche-te para dar às almas.
-
Obrigada, meu Jesus!
Senti-me
mergulhada no amor de Jesus com tanta intensidade que, terminado o colóquio,
pensei não aguentar o fogo que me devorava o coração.»
Ainda há
muita coisa a esperar de Balasar e é urgente publicar os escritos da Venerável para
que as pessoas («a humanidade») possam ler as quase quatro mil páginas dos seus
invulgares, extraordinários escritos. Até para que não continuem a procurar em
publicações italianas como se se tratasse de originais.
No caminho da beatificação
Há algumas
boas razões para crer que a Venerável Alexandrina vá ser beatificada ainda este
ano. Daí já, há meses, os artigos do Cónego Dr. Silva Araújo no «Diário do
Minho», daí mais recentemente dois artigos do jesuíta P.e Fernando Leite,
saídos em órgãos de uma circulação invulgarmente grande: um na «A Voz de
Fátima» (que tem uma tiragem mensal de 120.000 exemplares), outro na «Cruzada»
(com uma tiragem de quase 130 000 exemplares). Estas tiragens, no panorama da
imprensa periódica portuguesa, são muito significativas, pois estão mesmo no
topo. A «Cruzada», e com a «Voz de Fátima» há-de suceder outro tanto, está
muito presente junto dos emigrantes portugueses, pelo que tem assinantes em 82
países.
O artigo
da «Cruzada» traz informação bastante comum (a tentativa de violação aos 14
anos, outra posterior menos explícita, o «testamento» aos pecadores). O da «Voz
de Fátima» é mais interessante. Desenvolve o tema da consagração de 1942.
Disse-nos o P.e Francisco que o que o autor aí escreveu representa uma evolução
do seu pensamento sobre o assunto. Isto é, o P.e Fernando Leite, noutros
tempos, minimizaria ou negaria o papel da Alexandrina e agora perfilha a
posição dos P.es Humberto Pascoal e Mariano Pinho. O artigo traz por título «O
Mundo Consagrado aos Coração de Jesus e de Maria». Tomamos a liberdade de o
transcrever, para honra da Alexandrina e porque nos permite introduzir outros
temas:
«As
instâncias ao Senhor para que o mundo inteiro fosse consagrado, tanto ao seu
Coração, como ao Imaculado Coração de Maria, partiram de Portugal. Quanto à
Consagração ao Coração de Jesus, a intermediária dos pedidos do Céu foi a Irmã
Maria do Divino Coração (1863-1899), religiosa alemã, actualmente beatificada,
na altura Superiora do recolhimento do Bom Pastor, em Paranhos, Porto. Por três
aparições ou visões, em 1897 e 1898, recebeu ordem do Céu para escrever ao Papa
Leão XIII, pedindo-lhe que se dignasse aceder ao convite que lhe era dirigido.
Depois de diligente investigação, a 25 de Maio de 1899, publicou o Papa a
Encíclica Annum Sacrum, mandando celebrar um Tríduo de orações na
principal igreja de cada localidade, nos dias 9, 10 e 11 de Junho, para que,
nesta última data, todos os católicos, em união com ele, se consagrassem ao
Coração Divino do Senhor. Como o próprio Papa declarou: “Vou praticar o acto
mais glorioso do meu pontificado”.
E assim o
fez, como preparação para o Ano Santo com que se ia inaugurar o século XX. A
intermediária para a Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, não
foi propriamente a Irmã Lúcia, como por vezes se afirma, mas a Alexandrina
Maria da Costa, que esperamos este ano ver elevada aos altares, com o título de
Beata.
O
salesiano italiano Padre Humberto Pasquale, segundo director espiritual da
Serva de Deus, e que também frequentes contactos teve com a Irmã Lúcia, escreve
a este propósito: “Por amor da verdade, deve rectificar-se o que anda errado no
julgamento de muitas pessoas, que atribuem à Irmã Lúcia o pedido do Céu para
esta consagração. Tendo eu visitado a Vidente de Fátima no seu Carmelo de
Coimbra, no dia 4 de Agosto de 1978, dirigi-lhe propositadamente a seguinte
pergunta: Gostava que me dissesse, se o puder fazer, se alguma vez Nossa
Senhora lhe pediu a Consagração do mundo ao seu Imaculado Coração. E logo a
Irmã Lúcia: “Nossa Senhora nunca me pediu essa Consagração. Só me pediu a
consagração da Rússia”.
A mesmo
resposta deu ao monfortino holandês Padre Huberto Iongen, nas suas entrevistas
de 3 e 4 de Fevereiro de 1946. Tendo-lhe este feito a pergunta: “Não falou (Nossa
Senhora) na Consagração do mundo? - Não”. Foi a resposta textual que
recebeu. Por isso o especialista de Fátima, o claretiano espanhol, encarregado
do estudo científico da mensagem, Padre Joaquim Maria Afonso, dá este
testemunho:
“Em Fátima,
propriamente, não foi pedida pela Virgem mais do que a Consagração da Rússia,
como meio eficaz da sua conversão e da paz do mundo”. Nos anos de 1935 e 1936,
a “doentinha de Balasar” sacrificou-se e imolou-se para que fosse concedida ao
mundo a graça da consagração. Tais pedidos foram transmitidos à Santa Sé por
meio do Padre Mariano Pinho, sacerdote eminente da Companhia de Jesus.
O facto é
confirmado oficialmente pela Congregação para a Causa dos Santos no perfil
biográfico da Venerável Alexandrina. Tal documento proclama:
“No ano
de 1936, por ordem de Jesus, Alexandrina Maria da Costa pediu, ao Santo Padre,
por meio do Padre Mariano Pinho, a Consagração do Mundo ao Coração Imaculado de
Maria. Este pedido foi renovado mais vezes no ano de 1941, pelo que a Santa Sé
interrogou três vezes o Arcebispo de Braga acerca da Alexandrina: e no fim a
consagração foi feita por Pio XII em Roma, no dia 31 de Outubro de 1942”.
Poucos
dias depois da sua eleição para o Sumo Pontificado, isto é, a 20
de Março de 1939, diz-lhe
o Senhor a respeito do novo Vigário de Cristo: “Será este o Papa que fará a
Consagração”.
Nos fins
do mês de Maio de 1942, o Senhor fala-lhe em tom de festa: “Glória, glória, a
Jesus! Honra e glória a Maria! O coração do Papa, o coração de ouro (Pio
XII) está resolvido a consagrar o mundo ao Coração de Maria! Que dita, que
alegria para o mundo ser consagrado, pertencer mais que nunca à Mãe
de Jesus! Todo o mundo pertence ao Coração Divino de Jesus; todo vai pertencer
ao Coração Imaculado de Maria” (22.05.1942).
Passados
cinco meses, a 31 de Outubro de 1942, Pio XII, falando para Portugal, na nossa
língua, pronunciou estas palavras:
“A Vós,
ao Vosso Coração Imaculado, nós, como Pai comum da grande família Cristã, como Vigário
de Cristo, Aquele a quem foi dado todo o poder no Céu e na terra, e de quem
recebemos a solicitude de quantas almas remidas com o seu sangue povoam o mundo
universo; a Vós, ao vosso Coração Imaculado... confiamos, entregamos,
consagramos, não só a Santa Igreja... mas também todo o mundo...”.
Esta
Consagração, ainda que não explicitamente pedida em Fátima está plenamente
dentro do seu espírito. Também nela teve alguma influência a Irmã Lúcia, como esperamos esclarecer noutra
altura.»
Nada de
escritos da Venerável.
um artigo do conhecido jesuíta P.e Fernando
Leite sobre a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, ocorrida em
1942. O artigo, além se apresentar num órgão de grande divulgação, significa da
parte do autor o reconhecimento de um dos grandes méritos de Alexandrina, o de
ter sido escolhida para mensageira de Jesus Cristo com vista à mencionada
consagração. O P.e Fernando Leite, especialista de Fátima, colocou-se assim ao
lado dos P.es Mariano Pinho e Humberto Pascoal, para só referir aqueles que
desde o princípio mais se bateram na defesa dos méritos da Venerável. A nós,
que vamos aqui republicar o referido artigo, ele vai-nos ajudar a introduzir
dois temas que era intenção nossa tratar um dia, o da bem-aventurada Maria
Dröste zu Vischering e o da S.ta Margarida Maria Alacoque; com indiscutível
razão vários autores relacionam as revelações que elas ambas receberam com as
que foram feitas à Alexandrina.
O mesmo P.e Fernando Leito fez sair na
«Cruzada» (tiragem de 120 000 exemplares) um outro artigo, mais popular,
digamos, sobre A Alexandrina. Conta a tentativa de violação aos catorze anos e
algo mais.
Cruzada: Pensada, inicialmente, para as crianças e jovens, acabou por
encontrar o sucesso junto de
leitores de todas as idades. A
confirmá-lo está a tiragem mensal de 127 000 exemplares,
Muito presente junto dos emigrantes portugueses, tem assinantes
em 82 países.
A bem-aventurada Maria
Dröste zu Vischering
ou Maria
do Divino Coração
O
percurso biográfico desta Bem-aventurada tem aspectos bastante próximos do da
Alexandrina. Infelizmente porém não possuímos sobre ela qualquer livro (apesar
de ela ser em parte portuguesa), pelo que só podemos recorrer à Internet.
O mais significativo dos pontos que tem em
comum com a Venerável é que também ela foi mensageira de Jesus para uma
consagração do mundo, a que se fez ao Sagrado Coração de Jesus em 1899, como já
referiu o P.e Fernando Leite. (A Basílica poveira dedicada esta invocação
iniciou-se por essa altura, integrada certamente na movimentação que então se
gerou.)
A
Bem-aventurada Maria Dröste zu Vischering nasceu em 8 de Setembro de 1863 em
Münster, Alemanha, na católica família de sete filhos do Conde e da Condessa
Clement Dröste zu Vischering. Neste aspecto, que diferença do que se passou com
Alexandrina!
A menina
cresceu no ambiente saudável do Castelo de Darfield. Aos 15 anos foi para a
escola de um convento dirigido pelas Irmãs do Sagrado Coração em Riedenburg. Aí
desenvolveu um ainda maior amor ao Sagrado Coração.
Aos 18
anos sentiu o chamamento à vida religiosa e oito anos mais tarde integrou-se
nas Irmãs do Bom Pastor, que cuidavam de raparigas em situação difícil. O seu
nome religioso foi Maria do Divino Coração e tomou votos perpétuos com 28 anos.
Vindo ao
confronto com a nossa Venerável, deve ficar bem claro que a Alexandrina nunca
foi freira e por isso não deve ser chamada «Irmã Alexandrina»; ela é irmã apenas
no sentido da fraternidade que une todos os cristãos.
Maria do
Divino Coração foi bem sucedida no seu trabalho com as jovens e atribuía tudo
isso ao Sagrado Coração de Jesus. Dizia: "Quando se pede ao seu Divino
Coração por uma alma, Ele nunca recusará, embora às vezes peça muita oração,
sacrifício e sofrimento."
Em 1894
foi enviada a Lisboa e em Maio para o Porto, onde se tornou Madre Superiora do
convento. Foi então que Jesus lhe apareceu em visões, fazendo-lhe saber que
queria que o Papa consagrasse o mundo inteiro ao Seu Sagrado Coração (a mais
significativa aproximação à Alexandrina).
Ela deu
conhecimento desta mensagem especial a Leão XIII em Junho de 1898 e em Janeiro
de 1899. Em Maio deste ano o Papa escreveu a encíclica Annum Sacrum, que
incluía o desejada consagração ao Sagrado Coração.
A 8 de
Junho, a Madre Maria recebia pessoalmente duas cópias da Encíclica enviadas
pelo Santo Padre. Faleceu horas depois, após recitar as Primeiras Vésperas que
davam início à Festa do Sagrado Coração. Durante os últimos três anos sofreu
muito de uma doença na espinha que a levou a uma progressiva paralisia. (Mais
uma aproximação à caminhada de Alexandrina.)
Depois de
um Tríduo solene a nível mundial, o Papa Leão consagrou toda a humanidade ao
Coração de Jesus em 11 de Junho de 1899, um sábado. Afirmou então: "Este é
o maior acto do meu pontificado!"
O Papa
recebera antes os pais da Madre Maria e disse-lhes:
"Dizei
à vossa filha que a consagração do mundo ao Sagrado Coração que me pediu será
feita em todas as catedrais e igrejas do mundo; e dizei-lhe que isto é
consequência do que ela me informou e que eu espero daqui as maiores graças
para o mundo inteiro."
Por
desejo seu, o seu corpo não foi levado para a terra natal, pois isso «para uma pobre
freira não interessa”.
A
Bem-aventurada Madre Maria está sepultada na Igreja do Convento do Bom Pastor
em Ermesinde, Porto. Quarenta e cinco anos após a seu falecimento, o corpo da
Madre Maria foi encontrado incorrupto! Foi declarada Venerável pela Igreja em
1964 e beatificada pelo Papa Paulo VI em 1975.
Um
esclarecimento: a algumas pessoas poderá não soar muito a Evangelho esta
devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. O Evangelho fala de pessoas,
não das suas componentes «viscerais».
Trata-se com certeza do que literariamente se chama sinédoques, isto é, de
tomar a parte pelo todo. Falando do coração, fala-se da pessoa, acentuando a
sua faceta de dedicação, amorosa. Ora Deus é amor, o amor é a norma do cristão,
porque antes é a própria essência do Absoluto.


Lembrar a Deolinda
É um dever lembrar Deolinda, a irmã da
Alexandrina. Ela foi um caso bem especial na constelação de pessoas que
rodearam de estima a Venerável.
Nascida a
21/10/1901, o P.e Pinho dizia dela que era «muito inteligente, mas bastante
tímida e delicada». Quanto a virtude, não sabia dizer qual das duas irmãs fosse
melhor: «são duas almas santas».
Comecemos
por ouvir esta sua carta, que é um documento relevante. Nela se informa o P.e
Pinho, de uma maneira muito viva, muito próxima, sobre como a Alexandrina viveu
um dia a Paixão (parte dela, certamente):

«Ai meu
bom padre, o que foi o dia de Sexta-Feira Santa! É bem Sexta-Feira da Paixão!
Antes de principiar, oh como se via nela (na Alexandrina) cara de
aflição! Ela temia passar este dia e dizia-me: “Ai, se eu vejo este dia
passado!...” Eu confortava-a quanto podia e acariciava-a, apesar de estar
também cheia de medo e muito aflita.
Durante a
Paixão, eu não podia passar sem chorar e vi correr lágrimas pelas faces de
quase todos os assistentes. Que espectáculo tão comovedor!
A agonia
no Horto foi muito demorada e aflitiva... Ouviam-se gemidos muito profundos e
por vezes via-se o soluçar. Mas a flagelação e a coroação de espinhos, isso é
que foi! Os açoites foram tomados de joelhos, com as mãos como que atadas. Eu
cheguei-lhe uma almofada para debaixo dos joelhos e ela retirou-se dela, não
quis. Tem os joelhos em mísero estado. Os açoites não tinham conta! Levaram
tanto tempo! Ela desfalecia tanto! Os golpes na cabeça (com a cana na coroa de
espinhos) foram também inumeráveis.
Vomitou
duas vezes durante a Paixão: era água porque mais nada tinha que vomitar. O
suor era tanto que os cabelos estavam empastados e, ao passar-lhe a mão por
cima de toda a roupa, ficava molhada. Quando acabou a coroação de espinhos, ela
parecia um perfeito cadáver.
O Sr.
Cónego Borlido (de Viana do Castelo) veio assistir com mais duas
pessoas. Também veio o Sr. Dr. Almiro de Vasconcelos (de Penafiel) com a
esposa e a irmã Judite.»
A paixão
era assim, com ar de coisa real, não para entreter. O programa que lhe fora
proposto de «sofrer, amar, reparar» ia sendo executado cada dia. E foi-o até à
morte. A Alexandrina queria assemelhar-se a Jesus...
Agora o
texto de notável beleza que é a seguinte carta da Alexandrina à Deolinda:
«Minha
querida e muito amada irmãzinha, estou triste, muito triste, por não ter nada
para oferecer-te neste dia do teu aniversário. Mas, como Jesus se contenta com
os bons desejos dos nossos corações, eu estou certa que tu, à Sua semelhança,
aceitas também a minha boa vontade como uma rica prenda que eu te desse.
Não sei
por que razão eu senti em mim grandes desejos de te escrever umas linhas. Não é
para te dizer que te amo muito, porque tu bem sabes o quanto os nossos corações
se amam e sempre têm amado. Não é para te felicitar, porque já o fiz nesta
manhã. Não é para te dizer que comunguei, oro e sofro por ti neste teu
aniversário que passa, porque já sabes que, desde há muitos anos, o tenho
feito. Por que será então a razão de eu te querer escrever? Jesus o sabe. Mas
é, com certeza, para agradecer-te o teu carinho, o teu cuidado, o teu amparo e
companhia que me tens feito no meu tão triste e doloroso calvário. Quanto
sofremos as duas!... Quantas lágrimas, quantos suspiros sufocados, quantas tristezas
encobertas! ... Só Jesus pode avaliar tanto sofrer, só Ele conhece os nossos
desejos de sofrer por Ele e pelas almas.
E tu,
minha irmãzinha querida, com que amor extremoso tens rodeado o meu leito
durante estes longos anos de martírio! Meu Deus! Tens sido prisioneira comigo,
sendo a minha companheira extremosa quase de todos os dias, quase de toda a
vida de sofrimento.
Perdoa-me
as minhas impertinências, perdoa-me todas as minhas faltas que tive para
contigo. Fui por vezes tão má! Tantas faltas de paciência! Afligi-te tantas
vezes! Ó Jesus, perdoai-me! Ó minha irmãzinha, perdoa-me!»
«Não
ponho dúvida que este meu desejo em te escrever é para, por escrito, te deixar
a minha profunda gratidão, o meu mais sincero agradecimento por tudo que tens
feito em meu favor e vais ainda fazer até ao fim da minha vida, que sinto não
estar longe porque o mal aumenta e, por essa razão, não devo perder tempo enquanto
que Jesus me deixa, pelo poder da santa obediência, escrever alguma coisa, o
que não será por muito tempo. Mas não te aflijas, porque eu, lá do Céu, vou ser
muito tua amiga. Hei-de pagar-te como paga Jesus: cento por um. Podes ter a
certeza que em tudo te hei-de assistir. Tenho toda a confiança que Jesus me vai
deixar, pois Ele gosta tanto que sejamos agradecidos para com os que nos fazem
bem! E tu fizeste-me tanto!... Que bem me fazem à alma estas recordações!
Choro, sem querer chorar!
Leva com
muita paciência e amor a tua cruz de cada dia, para mais e melhor consolares e
reparares a Jesus e à Mãezinha. Ai, quanto sofrem os Seus Divinos Corações! Tem
pena d’Eles!
Sê muita
amiga, como sempre tens sido, da nossa mãe. Devemos-lhe muito, pela santa educação
que nos deu. Faz tudo que puderes pelo padrinho e primas Laura e Maximina, e
não esqueças o Joaquim. Sê sempre grata e amável para com todos os que nos são
queridos e a quem tanto devemos; e perdoa a todos os inimigos.
E agora, por
último? Muita coragem! O Céu, pela graça de Deus, é para nós. Lá, havemos de
amar muito, mas muito a Jesus e à Mãezinha.
Muitos
beijinhos de parabéns da tua pobre irmã.
Alexandrina Maria da Costa».
Veja-se
agora este trecho do Diário de Julho de 1955, de alguns meses antes da morte da
Alexandrina, que está a ditar à irmã, como fez tantas vezes. De modo indirecto,
mas nobre e delicado, prepara-a para o afastamento:
«Para mim
hoje foi um dia de lágrimas, lágrimas de alegria e de paz. Oferecia-as a Jesus
sacramentado como acto de amor. Entre estas lágrimas, com angústia mortal, fiz
o que gostaria de fazer no momento da minha morte: consagrei aos Corações
divinos de Jesus e de Maria a minha querida irmã. Pedi-Lhes que a não levassem
antes de mim: que deixassem para depois este anjo que me entregaram. Pedi que
fossem Eles os seus consoladores depois da minha morte, porque só neles poderá
esperar e só Eles a compreenderão.»
Um dia a
Deolinda viveu um indizível embaraço. Já uma vez fizemos alguma referência ao
caso. Fora a Fátima e a amiga de Alexandrina D. Maria Sommer de Andrade
ofereceu-se para lhe dar agasalho no Entroncamento. A ela e a outros
familiares.
Datam de
então aqueles períodos em que Alexandrina se dirige nestes termos ao P.e
Humberto:
«A Deolinda
chegou há pouco a casa e, como para a festa nenhum tem perna manca, já está
tudo resolvido e cá estou a dizer a Vossa Reverência o que combinámos. Agora,
pedia a Vossa Reverência o favor de tirar seis bilhetes: para as quatro
Madalenas, para o padrinho (que, se não vai, coitadinho, passa um desgosto!) e
para essa nossa tia de que a Deolinda falou a Vossa reverência... A menina
Mariazinha também me disse para não levarem farnel. Não será vergonha demais?
Não será abuso da bondade delas? E ainda levar mais gente do que contavam? Por
caridade informe-me de tudo. Sim? Não é preciso incomodar com camas; um quarto
chega para todo o regimento, a não ser para o comandante (era o tio Joaquim)».
Deolinda
não podia suspeitar que esta Mariazinha, «pessoa culta, equilibrada e de
profunda espiritualidade e de grande sentido da fraternidade cristã» (P.e
Humberto), era riquíssima e vivia num castelo, em Cardiga. Ela conhecia-a de a
receber em Balasar, onde D. Maria Sommer se adaptava perfeitamente ao viver da
casa, não desdenhando mesmo as tarefas mais humildes. Quando entrou no castelo,
achou-se num ambiente de luxo, com
muita criadagem de libré. Imagina-se
o seu constrangimento.
A
Alexandrina viu-se na necessidade de escrever à sua amiga. Dizia-lhe:
«Sentimos
vergonha: se tivéssemos sabido quem a Senhora é, não teríamos ousado tanto! Mas
a expressão “oh, se tivéssemos sabido” chega sempre tarde... Que se não tenha
sentido humilhada por receber os meus em sua casa é verdadeiramente digno de
admiração. Jesus lhe pague quanto fez pela minha família. Só poderá ser
recompensada disso no céu.»
À margem
do nosso tema, informamos que foi criado um site para o Arciprestado, com o
endereço de arciprestado.no.sapo.pt. Lá se encontra naturalmente espaço para a
nossa candidata à beatificação. Aliás, é possível que a Alexandrina venha a ter
o seu site próprio.
«Uma das maiores santas da
Igreja»
O P.e
Humberto, que residia em Mogofores, Aveiro, entregou, em 10/10/44, ao Dr.
Azevedo, para ser enviado ao Arcebispo, um longo relatório sobre o que pensava
de Alexandrina. Dele vamos copiar vários parágrafos que nos parecem mais
importantes. O autor já conhecia bem a Venerável, já falara com o P.e Pinho,
acabara de passar em Macieira de Cambra para se entender com alguns membros da
comunidade jesuíta que aí residia. O que ele pretendia era esclarecer a
verdade. Crê poder afirmar que na Alexandrina está «uma das maiores santas da
Igreja»; isto onze anos antes da sua morte. Ouçamos o escrito:
«(...)
sinto-me antes de mais nada na obrigação moral de chamar a atenção de quem quer
estudar o caso de Alexandrina para não prescindir nunca do estudo das suas
virtudes, que, segundo o meu parecer, são a coisa mais extraordinária e digna
de apreço, e que, segundo o testemunho de todos os bons mestres, são o
barómetro sobre que se baseia sempre o juízo da Igreja: e ainda para que se não
pesem separadamente factos e palavras.
S.
Francisco de Sales ensina:
“Quando se vê que uma pessoa tem arroubos na
oração e não tem êxtases na vida, isto é, não leva uma vida elevada e unida a
Deus, com a negação das ambições humanas e a mortificação dos desejos e
inclinações naturais expressas numa doçura íntima, simplicidade, humildade e
sobretudo numa contínua caridade, acreditem-me que tais arroubos são sumamente
para duvidar e não merecem
grande crédito ...”
Conheço
hoje “intus et cute” pela vizinhança “ex professo” de dias e através de um
estudo diligente e conversas confidenciais e preparadas, hoje, repito-o,
conheço a Alexandrina e devo afirmar que nunca encontrei uma alma tão perfeita
e que nunca como agora senti perto de mim «o santo». Ouvi da boca de várias
pessoas: — A sua santidade toca-se e vê-se. — Sacerdotes cultos confirmam-no.
Por minha
conta, quando se julgar necessário, poderei fornecer elementos preciosos para o
provar. Habituado (pelo ministério que a obediência me impôs neste noviciado
– que dirigia em Mogfores) a cultivar as ciências espirituais e a direcção
das almas, sinto que na Alexandrina devo dirigir uma alma de eleição
excepcional. Muitas vezes penso que já não vou até ela para dar mas para
receber.
A sua
profundíssima humildade, a convicção da sua miséria e do seu nada só se podem
explicar através do seu contacto íntimo e contínuo com a Divindade, e dá-me a
impressão que não haverá prova de estima a seu respeito que a possa comover;
isto leva-me a concluir que o temor de que seja visitada prejudica só os
outros, que, hoje mais que nunca, precisam das lições de um bom exemplo.
Concordo
que se devem sempre usar reservas, e foram usadas, mesmo que Alexandrina, muito
sabiamente, afaste de si a curiosidade supersticiosa do povo e corrija com
maravilhosas lições ideias erradas sobre a religião e palavras honrosas para
com a sua pessoa, etc.
Não temo
afirmar, submetendo-me no entanto ao juízo da autoridade, que temos em Portugal
uma grande santa e, sem dúvida, uma das maiores santas da Igreja.
A
doutrina de santa Teresa e de S. João da Cruz é vivida por ela em plenitude.
Digo mais: quem a dirige encontra nela coisas que não vêm nos livros e
convenço-me finalmente que ela será a
grande mestra das almas vítimas. O
tempo o dirá. Continuo a lamentar que tenham afastado dela o seu director, o
qual, com uma assistência diligente, poderia, nas conversas e contactos, tomar
nota dos princípios vividos da mais alta ascética, os quais, amanhã, seriam
elementos preciosos para tal ciência e luz para os directores de almas.»
O
relatório continua ainda por muitas páginas, mas não vamos transcrevê-lo mais.
Ouçamos agora o mesmo P.e Humberto, que se encontra em Balasar em casa da
Alexandrina. Fala na terceira pessoa, mas é ele mesmo a escrever:
«Entregue
o relatório, o P.e Humberto tomou-se de uma autêntica angústia e pânico,
pressentindo as consequências desta tomada de posição pública. Disse à
Alexandrina, que ignorava tudo, que se ausentava para rezar o breviário. Em vez
disso refugiou-se num pinhal vizinho para poder aliviar-se, chorando e tremendo;
de joelhos, disse atormentadamente ao Senhor: “Tu sabes o objectivo da minha
vinda a Balasar. Tenho direito a um sinal que me confirme que a causa é
verdadeiramente Tua...”».
Note-se
que estes temores, que poderão parecer exagerados, reflectem antes o empenho
com que o autor vivia os problemas da sua comunidade religiosa e o receio de a
prejudicar. Recorde-se o que acontecera com o P.e Pinho...
As coisas
assombrosas que se seguem passam-se dois dias após a entrega do relatório, no
dia 12, que não era dia de êxtase. Mas é então que num êxtase vem a resposta à
súplica do P.e Humberto. Tenha-se em conta, há que repeti-lo, que a Alexandrina
não estava a par da situação e que antes, tendo em casa Jesus sacramentado, que
ia receber, apesar de paraplégica, num arroubo, se levantara, caíra em joelhos
e cantara em voz belíssima. Ouçamo-la agora:
«Alguns
minutos depois, Jesus disse-me:
— São maravilhas, são provas dadas por Mim.
Diz, minha filha, ao meu querido P.e Humberto que fui Eu que tudo permiti. Da
minha parte mais nada é preciso. Agora é só necessário lutar, lutar, combater
com os olhos postos em Mim. A causa é minha, é divina!
—
Pobres
homens que imolam assim as minhas vítimas! Pobres almas que assim ferem o meu Coração
divino! Consolo-me no amor desta pomba inocente, desta vítima amada, senhora
dos meus tesouros e de toda a minha riqueza. Vem, ó mundo inteiro, vem depressa
a esta fonte beber. É água que lava e purifica, é fogo que ateia e santifica.»
«O P.e Humberto (volta a ser o próprio a contar)
contemplava-a, depois, ainda em
êxtase, quando sentiu passar-lhe pela mente o seguinte pensamento: “Gostaria de saber o que se passa
entre os dois (Jesus e Alexandrina)”. E imediatamente a Alexandrina começou a
falar. O P.e Humberto tremia emocionado ao fixar num caderno as palavras
pronunciadas durante o êxtase e atrasou-se na escrita; mentalmente, por três
vezes, disse a Jesus: “Atrasei-me”.
E Jesus por três vezes repetiu, de modo que pôde escrever tudo.»
Isto,
contado assim um pouco fora do contexto, poderá não conciliar grande crédito.
Visto porém no entrecho próprio da biografia de Alexandrina, ganha uma
credibilidade que não dá margem para dúvidas.
José
Ferreira