A professora Angelina Ferreira

 

A prof.ª do ensino primário Angelina Ferreira (30/3/1911-1/12/1993) foi certamente o principal interveniente secundário da vida da Alexandrina. Isto é, se colocarmos no grupo dos intervenientes principais os P.es Pinho e Humberto, o Dr. Azevedo, a Deolinda e a professora Çãozinha, ela virá logo depois. Ela foi visita frequente da casa da Alexandrina e acabou por ser testemunha de factos que ninguém mais presenciou. Cremos aliás que, quando, aí pelos 16 anos, a Alexandrina veio para tratamento à Póvoa, foi em casa da família desta professora que se instalou juntamente com a mãe. Tudo isso justificou o lugar que desempenhou em Braga no processo de beatificação. Por isso, ela é citada com frequência pelo P.e Humberto, mormente no livro Voleba chiudere l’Inferno, traduzido para português com o título Eis a Alexandrina. De justiça é pois que dela falemos.

Cuadro de texto: Esta conhecida fotografia é apenas um recanto de uma fotografia maior, onde se vêem também a sua mãe e sua irmã. É nela que a Alexandrina tem uma pose mais bonita.A família da professora Angelina Ferreira facultou-nos um pequeno dossiê com textos seus. Constituem-no quatro discursos. Um é de 1938, de quando se celebrava o 10.º aniversário do 28 de Maio. É um documento histórico, pois regista a irrecusável devoção que o regime salazarista então merecia de gente sem dúvida honesta e inteligente. Veja-se este excerto, cujo entusiasmo, com certeza excessivo, percorre o discurso e não era de longe só desta admiradora do Estado Novo. A autora começa a falar do «ressurgimento nacional» a partir dum quadro ilustrador:

«Não havia portos. O governo não cuidava da sua conservação nem tratava de construir os de extrema necessidade para proteger a vida dos pescadores. Hoje a situação é diferente. Salazar tem consagrado elevadas quantias para o desassoreamento e apetrechamento dos portos, especialmente aqui o grande melhoramento do porto de Lisboa, onde os maiores vapores já podem entrar. Mas temos mais, e para não ir mais longe, aqui muito perto de nós, na vizinha Póvoa, só Salazar pôde realizar a mais justa pretensão dos poveiros, meus conterrâneos.

A barra do mar da Póvoa devorou vidas e vidas de valentes e robustos poveiros. A cada passo se voltavam ao tentar transpor essa perigosa barra, e o luto, a viuvez e a orfandade entravam em muitos lares que, despojados do braço forte do chefe de família, se viam em luta com a maior miséria.

Mas Salazar, que é justo e bom, acudiu a proteger os pobres pescadores poveiros.»

Outro data de 25/7/48 e foi motivado pelas Bodas de Ouro sacerdotais do P.e José Cascão, capelão da Sra. das Dores desde Agosto de 1898 e que aí estabeleceu e dirigiu a Pia União das Filhas de Maria. Nele já não há patriotismos inflamados. Veja-se o seu parágrafo inicial:

«Dizem, e com razão, que há momentos de tanta emoção que só com o silêncio conseguimos manifestar os sentimentos que nos inundam a alma. Parece isto um paradoxo e contudo é simplesmente a verdade.»

A conclusão não é menos engenhosa:

«E agora, Sr. P.e José, não dizemos como é costume, que esta data se repita por muitos anos e que todos nós possamos assistir ainda às Bodas de Diamante de V. Rev.cia. Os nossos votos vão mais longe, os nossos desejos são mais perduráveis.

Desejamos e queremos, isso sim, que o dia de hoje tenha a sua plenitude no Paraíso, onde todos nós com V. Rev.cia possamos dar, por toda a Eternidade, a glória devida a Deus e o louvor merecido à nossa Mãe do Céu.»

(O P.e Leopoldino Mateus, condiscípulo do P.e José Cascão, publicou, na Ideia Nova de 25/7/48,  um artigo alusivo e estas Bodas de Ouro com uma elogiosa resenha biográfica).

Um terceiro, de que não fixámos a data, rejubila pela colocação do crucifixo nas escolas. O quarto data da Festa de Cristo-Rei de 1945 e é dirigido ao «Rev.mo Sr. Arcipreste, Ex.mas Senhoras e Membros da Acção Católica». Veja-se o fecho:

«Cristo, Rei e Senhor Nosso, espera em nós, confia em nós. Saibamos dizer-lhe sempre e em tudo «presente».

Presente na dor e na alegria, no trabalho e no descanso, no entusiasmo e no desalento, nos êxitos do apostolado e na ineficácia da nossa acção. Presente, nós, a tudo quanto Ele nos pedir nesta vida, para que depois O tenhamos presente, a Ele, por toda a eternidade, juntamente com todas as almas que por nós forem salvas. Disse.»

Estes discursos não falam de Balasar, mesmo que algum talvez lá fosse lido ou relido; mas permitem-nos reconhecer algumas facetas da autora. Por exemplo, ficámos a saber que ela concebia muito bem os planos dos seus textos, que tinha arte no seu dizer, em suma, que se exprimia com clareza e com conteúdo, e que vivia empenhadamente o seu catolicismo, e que fora, como muitos seus coevos, dedicada salazarista.

A professora Angelina deixou ao arquivo da Alexandrina não só os originais das cartas que dela recebeu, mas também um conjunto de jornais onde a Alexandrina fora notícia. Se o nosso registo está certo, são os seguintes: Jornal de Notícias de 1/7/53 e 30/6/53 (com informação desfavorável à Alexandrina), de 17/10/53 (onde escreve o Dr. Azevedo); Diário do Norte de 30/6/53 (onde escreve igualmente o Dr. Azevedo); A Voz do Pastor de 18/9/65; O Comércio da Póvoa de Varzim de        19/03/66 e 21/1/67; e o Ala Arriba de 28/1/67.

 

 

 

Depoimento, cartas

 

 

Os jornais da professora Angelina Ferreira:

Jornal de Notícias        30/6/53 (diz mal

Id.                               1/7/53 (contra)

Jornal de Notícias                    17/10/53 (Dr. Azevedo)

Diário do Norte                       30/6/53 (Dr. Azevedo)

 

A Voz do Pastor                                 18/9/65

 

Ala Arriba                                           28/1/67

Comércio da Póvoa de Varzim            19/03/66 e 21/1/67

 

 

 

 

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