O Dr. Abílio Garcia de Carvalho

Presidente da Câmara da Póvoa de Varzim e médico da Alexandrina

 

 

No livro de Gabriele Amorth, vem uma fotografia em que o Dr. Abílio Garcia de Carvalho está de cócoras ao lado da Alexandrina, que, em êxtase, revive a paixão. Diz a legenda que o «Dr. Abílio tenta em vão separar as mãos de Alexandrina, unidas no momento da flagelação». A fotografia deve ser de 1938.

Num  relatório de 24/4/45, o P.e Pinho refere assim a actuação do Dr. Abílio de Carvalho junto de Alexandrina:

«Eu mesmo fui o primeiro a ficar perplexo, não sobre os êxtases mas sobre os movimentos (que readquiria no momento da Paixão). Por este motivo interessava-me saber com certeza qual o género da sua paralisia. Falei disso ao Dr. Abílio de Carvalho, que já tinha tratado a doente; interessou-se e levou-a ao Porto, ao Dr. Roberto de Carvalho, em Dezembro de 1938.»

O Dr. Roberto de Carvalho e o Dr. Abílio não eram familiares.

 

Em No Calvário de Balasar, o P.e Mariano Pinho menciona algumas vezes este médico.

Veja-se:

 

Vem aí até uma carta do Prof. Roberto de Carvalho em que fala ao Dr. Abílio sobre a Alexandrina. Ei-la:

 

Quando, em 1939, como Presidente da Câmara poveira, participa na homenagem ao Cónego Vilar, já os unia um interesse comum.

Em Balasar há duas cartas deste Dr. Abílio. Uma dirigida ao P.e Pinho e outra talvez ao Prof. Roberto de Carvalho, trazendo o papel nas duas o timbre da presidência da Câmara. Nelas se mostra deveras interessado em concorrer para o esclarecimento das dúvidas sobre a doença de Alexandrina.

Veja-se a carta ao P.e Pinho:

«Ex.mo Senhor P.e Pinho e meu muito prezado amigo

A minha vida muito trabalhosa e o meu estado de saúde muito precário durante alguns dias, entre os quais os últimos da semana finda, obstaram a que eu pudesse ir na sexta-feira à rua de Santa Catarina, como desejava.

O Dr. Pessegueiro (companheiro de juventude do Dr. Abílio) fez-me a vontade indo ver a doente; acredito porém que a sua observação fosse superficial, porque se não tratava de assunto da sua especialidade; porém, o que eu despejava não era uma opinião sobre os factos, e antes um exame físico tanto quanto possível completo; não interpretou assim, o que foi pena.

Ao falar anteontem com ele, disse-me que na verdade se inclinava para a hipótese de alta histeria; porém, que a doente deveria ser observada com cuidado por especialista no assunto. Também assim o julgo; e por isso acho óptima a ideia de que seja vista pelo prof. Elísio de Moura, incontestavelmente uma das mais altas competências e sumidades no assunto; estou certo que a sua opinião dissipará nossas dúvidas.

Eu não tenho senão relações de cumprimento com S. Ex.a; não deseja V. Rev.a trazê-lo na sexta-feira, 30 do corrente? Eu conto cá estar e, caso V. Ex.a me previna de que vem, eu procuraria também assistir, para trocar impressões.

A radiografia que tenho e da qual envio o relatório (é o único) nada revela, não confirmando as minhas suspeitas de lesão vertebral.

Precisamos caminhar com toda a prudência, e para tal convém sobretudo a opinião do Prof. Elísio de Moura. Ainda bem que ele vem a Braga nas férias. V. Ex.a, se assim o entender, poderá mostrar-lhe esta carta, a fim de que ele faça a caridade de vir dissipar as dúvidas.

Agradecendo a acarta de V. Ex.a, tenho a honra de me subscrever amigo ...

14/12/938

Abílio de Carvalho»

A outra carta é quase um bilhete. Como dissemos, presumimos que o destinatário fosse o Dr. Roberto de Carvalho:

«Meu caro colega

Agradeço as suas notícias.

Entendo que terá a doente de ir ao Porto e lá permanecer dois ou três dias para ser observada. Espero a fineza de me dizer o dia em que ela vai, para eu lá ir com o meu colega num dos dias, a fim de que o Dr. Pessegueiro a veja, se o colega concordar.

Seu amigo e colega,

Abílio de Carvalho.»

 

A Póvoa tem um grande débito para com o Dr. Abílio de Carvalho, que a ela se dedicou com raro afinco. Mas parece que lhe não perdoou a devoção salazarista.

Por isso anexamos abaixo a elogiosa resenha biográfica que o jornal Ideia Nova sobre ele escreveu em

Temos connosco cópia da intervenção do Dr. Abílio de Carvalho no Congresso Eucarístico Diocesano ocorrido na Póvoa em 1925. Saiba-se que o governo republicano de então proibia levar o Viático aos doentes. Daí a acuidade desta intervenção dum médico católico.

Texto

Maria

 

 

 

O Dr. Abílio Garcia de Carvalho

Presidente da Câmara da Póvoa de Varzim e médico de Alexandrina

 

O livro sobre o Cónego Vilar faz ainda menção de um outro homem que interveio na vida de Alexandrina. Trata-se do presidente da edilidade poveira, o Dr. Abílio Garcia de Carvalho. Vejamos:

«Finalmente levantou-se o Sr. Dr. Abílio Garcia de Carvalho, um trabalhador dedicado e desinteressado a bem da Póvoa de Varzim, sua terra adoptiva..., e outro amigo e admirador do Sr. Cónego Pe­reira Vilar. Perguntou se mais alguém dese­java falar e, como ninguém se erguesse, apre­sentou a S. Rev.a os cumprimentos do Muni­cípio inteiro, ali representado por todos os membros da Câmara.

‘Ex.mo Sr. Cónego Vilar e meus Senhores:

A Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, repre­sentada por todos os seus membros aqui presentes, quis vir de longada até esta cidade para apresentar a V. Ex.a, em nome do concelho da Póvoa, respeitosos cumpri­mentos de admiração e de despedida.

É-nos sumamente grato venerar e prestar homena­gem ao poveiro ilustre que V. Ex. é, em quem o talento e a virtude se associam de tal modo e em comunhão tão íntima que todas as almas boas que um dia tiveram a felicidade de o conhecer tomam para si uma quota-parte dos seus triunfos, das suas alegrias, e também das suas tristezas; por isso aqui estamos, pois não po­diam os edis da terra de V. Ex.a deixar de lhe apresen­tar os cumprimentos de despedida da Póvoa inteira, acompanhando a freguesia de Terroso nesta magnífica homenagem.

Temos como certo, Sr. Cónego Pereira Vilar, que dificilmente o espírito público do nosso concelho nos poderá um dia incumbir de delegação mais distinta e mais unânime; porque se V. Ex.a deixa vivas saudades entre nós, e ao mesmo tempo nos deixa a certeza da falta imensa que nos faz neste momento de graves preo­cupações sociais, em que a actuação da sua personali­dade veneranda, quer pela palavra falada ou escrita, quer pelo trabalho canseiroso do seu apostolado são exemplo vivo e lição proveitosa e constante de que ca­recemos, também em compensação nossas almas sentem justa satisfação por reconhecermos com sumo prazer e honra que Sua Santidade, o insigne Pontífice Pio XII, tem os olhos postos em V. Ex.a, escolhendo-o para mis­são nobre e honrosíssima na Cidade Eterna.

A carreira de V. Ex. será sempre e justissimamente ascencional; e esperamos, Senhor, que a Póvoa será mais honrada ainda quando tiver a dita de contar, en­tre os seus filhos mais queridos, um Prelado sábio e piedoso, tão sábio quanto piedoso.

Que Deus o reconduza de novo à Pátria, para perto da sua ilustre e muito virtuosa família, são os votos que formulamos neste instante em que desejamos a V. Ex.a muito boa viagem e as maiores felicidades no desempenho do alto cargo para que foi justamente es­colhido.’

O   Sr. Cónego Dr. Pereira Vilar agradeceu a homenagem, que muito o sensibilizou por vir da sua terra, e despediu-se de todos com um demorado abraço. Houve lágrimas e ninguém era da Família

Num  relatório de 24/4/45, o P.e Pinho refere assim a actuação do Dr. Abílio de Carvalho junto de Alexandrina:

«Eu mesmo fui o primeiro a ficar perplexo, não sobre os êxtases mas sobre os movimentos (que readquiria no momento da Paixão). Por este motivo interessava-me saber com certeza qual o género da sua paralisia. Falei disso ao Dr. Abílio de Carvalho, que já tinha tratado a doente; interessou-se e levou-a ao Porto, ao Dr. Roberto de Carvalho, em Dezembro de 1938.»

 

 

Lactário de S. Tarcísio: o P.e Abílio Correia falou de S. Tarcísio e da sua relação com a Eucaristia. Este nome evoca...

 

Já há uma «carta»

 

Em Balasar há duas cartas deste Dr. Abílio. Uma dirigida ao P.e Pinho e outra talvez ao Dr. Roberto de Carvalho (que não era seu irmão, apesar do apelido), trazendo o papel nas duas o timbre da presidência da Câmara. Nelas se mostra deveras interessado em concorrer para o esclarecimento das dúvidas sobre a doença de Alexandrina.

Veja-se a carta ao P.e Pinho:

«Ex.mo Senhor P.e Pinho e meu muito prezado amigo

Cuadro de texto: Fragmento duma carta do Dr. Abílio de CarvalhoA minha vida muito trabalhosa e o meu estado de saúde muito precário durante alguns dias, entre os quais os últimos da semana finda, obstaram a que eu pudesse ir na sexta-feira à rua de Santa Catarina, como desejava.

O Dr. Pessegueiro (companheiro de juventude do Dr. Abílio) fez-me a vontade indo ver a doente; acredito porém que a sua observação fosse superficial, porque se não tratava de assunto da sua especialidade; porém, o que eu despejava não era uma opinião sobre os factos, e antes um exame físico tanto quanto possível completo; não interpretou assim, o que foi pena.

Ao falar anteontem com ele, disse-me que na verdade se inclinava para a hipótese de alta histeria; porém, que a doente deveria ser observada com cuidado por especialista no assunto. Também assim o julgo; e por isso acho óptima a ideia de que seja vista pelo prof. Elísio de Moura, incontestavelmente uma das mais altas competências e sumidades no assunto; estou certo que a sua opinião dissipará nossas dúvidas.

Eu não tenho senão relações de cumprimento com S. Ex.a; não deseja V. Rev.a trazê-lo na sexta-feira, 30 do corrente? Eu conto cá estar e, caso V. Ex.a me previna de que vem, eu procuraria também assistir, para trocar impressões.

A radiografia que tenho e da qual envio o relatório (é o único) nada revela, não confirmando as minhas suspeitas de lesão vertebral.

Precisamos caminhar com toda a prudência, e para tal convém sobretudo a opinião do Prof. Elísio de Moura. Ainda bem que ele vem a Braga nas férias. V. Ex.a, se assim o entender, poderá mostrar-lhe esta carta, a fim de que ele faça a caridade de vir dissipar as dúvidas.

Agradecendo a acarta de V. Ex.a, tenho a honra de me subscrever amigo ...

14/12/938

Abílio de Carvalho»

A outra carta é quase um bilhete. Como dissemos, presumimos que o destinatário fosse o Dr. Roberto de Carvalho:

«Meu caro colega

Agradeço as suas notícias.

Entendo que terá a doente de ir ao Porto e lá permanecer dois ou três dias para ser observada. Espero a fineza de me dizer o dia em que ela vai, para eu lá ir com o meu colega num dos dias, a fim de que o Dr. Pessegueiro a veja, se o colega concordar.

Seu amigo e colega,

Abílio de Carvalho.»

O Dr. Abílio, que posteriormente foi nomeado governador civil de Angra do Heroísmo, falecerá em 1941, pelo que as suas intervenções no caso da Alexandrina terão terminado pouco tempo adiante.

 

 

Nós demo-nos a investigar um pouco sobre o Dr. Abílio Garcia de Carvalho. E bafejou-nos a sorte pois descobrimos um grande homem, um homem com estofo de santo, um lutador, um homem que não sendo poveiro fez muito pela Póvoa, um homem que se exprimia muito bem por escrito, que assumiu desde muito cedo e com determinação e saber a sua condição de católico, e um homem em cuja vida, estamos em crer, o salazarismo deixou uma mancha bem lamentável. (Manchas deste tipo há muitas e muito mais lamentáveis...)

O Dr. Abílio Garcia de Carvalho nasceu em Mouquim, Vila Nova de Famalicão, em 1890. Estudou primeiro em Guimarães, no seminário-liceu, depois no Porto. Matriculou-se em Medicina nesta cidade e acabou o curso em Lisboa.

Cuadro de texto: No primeiro plano desta fotografia, que data de Setembro de 1933, aos lados da senhora ao centro, que é a D. Virgínia Campos e a anfitriã, estão Salazar e o Dr. Abílio de Carvalho. No segundo plano vêem-se vários poveiros.O Porto foi o primeiro espaço onde manifestou a sua dedicação à Igreja. Estava-se nos anos subsequentes à implantação da República. O meio académico era hostil à religião, mas Abílio de Carvalho, em resposta, cria então com outros colegas o centro Académico da Democracia Cristã, o C. A. D. C.. Juntos e organizados aguentaram melhor o combate. Foram perseguidos, o Centro chegou a ser incendiado, mas os lutadores ficaram.

Terminado o curso de Medicina, teve de ir prestar serviço militar na I Guerra Mundial, em França. Foi pouco o tempo, mas a sua saúde ressentiu-se. Regressado, casou e mais adiante veio para a Póvoa, donde era natural a esposa.

«Uma vez instalado na Póvoa, imediatamente iniciou a sua carreira de médico sabedor e honesto, tendo granjeado larga clientela e impondo-se desde logo como grande trabalhador no campo social e cristão. E neste campo, com o Dr. José Luís Ferreira, distinto prof. do nosso Liceu,  e os Rev.os P.es Aurélio de Faria, e Meira Veloso, zelosos sacerdotes locais, fundou, em 1923, um importante núcleo de Escutismo. Com estes valiosos colaboradores e com o auxílio e trabalho de todos, conseguiu que o «escutismo» poveiro se impusesse, atingindo 100 o número de escutas repartido por três sedes.

Aqui realizou uma brilhante festa escutista, no Estádio de Gomes de Amorim, que ficou memorável e na qual participaram inúmeros filiados de vários pontos do país, honrando-a também com a sua presença o saudoso Arcebispo Primaz, Senhor D. Manuel Vieira de Matos.

Em virtude do muito que trabalhou em prole do escutismo, foi o Dr. Abílio de Carvalho agraciado, pelo Comissário nacional, com a «Cruz de agradecimento e bons serviços», de ouro, e noemado Comissário Geral Marítimo.» (Ideia Nova, 20/01/1940)

Em 1925 fez-se na Póvoa o que sabemos que foi feito noutras terras de maior dimensão, um congresso eucarístico. (A Venerável Alexandrina ainda fora, com grande custo, ao de Braga, no ano anterior). O Dr. Abílio participou com sucesso notável. A sua intervenção foi publicada na íntegra em jornais portugueses, espanhóis e franceses. Por fim, publicou-a, fazendo-a preceder, a modo de introdução, duma carta do eminente matemático Dr. Gomes Teixeira.

«No “Congresso Litúrgico”, propôs o Dr. Abílio de Carvalho, aos ilustres Prelados aí reunidos, a criação, em Portugal, do «Secretariado Nacional do Apostolado dos Doentes», que, embora não oficialmente, existia já, com sede na Póvoa, mercê da sua actividade e do valioso auxílio dos Rev.os Padres Meira Veloso e Manuel da Costa Gomes, e de outros.

Tal sugestão foi aceita e transformou-se em realidade, contando hoje mais de 2.000 associados em todo o País.

A sede desta prestante instituição é na Póvoa de Varzim, estando a sua chefia confiada ao zelosíssimo abade de S. José de Ribamar, Rev.o P.e Costa Gomes – verdadeiro apóstolo dos doentinhos.

Mas não terminou aqui a acção apostólica do Dr. Abílio de Carvalho.

Como médico escolar do Liceu de Eça de Queirós, tem desenvolvido uma intensa actividade neste vastíssimo sector da medicina pedagógica, dedicando aos seus alunos uma profícua assistência e procurando sobretudo, descobrir neles as más inclinações, antes que ecludam, para lhes corrigir os defeitos natos por uma sábia actuação de ordem moral e psíquica.

É pois um médico escolar competentíssimo, como a moderna pedagogia o exige.

O sei estudo, apresentado ao concurso para médicos escolares dos Liceus, em 1934 – “Desvios Morais dos Alunos sob o ponto de vista genital” - que a revista «Acção Médica» publicou na íntegra, em separata, devia ser lido em meditado por todos os educadores.» (Ibidem)

«Para não falarmos noutras, não serão obras estruturalmente cristãs a «Cozinha Económica», o «Lactário de S. Tarcísio» e o «Patronato-Oficina de S. José», instituições em feliz hora fundadas pela Câmara da sua ilustre presidência e englobadas todas na «Casa Poveira de Acção Social»?

Se outros méritos não tivesse aquele a quem o Santo Padre se dignou conceder a elevada mercê de o nomear Comendador-Cavaleiro da Ordem de S. Gregório Magno, estes que acabamos de mostrar em apressada síntese, eram suficientes para o imporem à consideração de todas as pessoas de boa vontade e de são e honesto carácter.» (Ibidem)

Veja-se agora esta síntese da sua obra à frente do município:

«A sua acção como administrador dos negócios municipais foi fecunda e progressiva. Desenvolveu o turismo, a grande fonte de vida e receita da Póvoa, promovendo visitas dos municípios vizinhos, que se realizaram com grande afluência e entusiasmo, como referimos. Administrou com inteligência e com largueza de vistas a fazenda municipal, promovendo muitos e notáveis melhoramentos na sede do concelho e nas freguesias. Em todos os sectores da actividade municipal foi notável o seu trabalho, mas a obra que mais o impõe à gratidão dos poveiros é, sem dúvida, o abastecimento de água à vila. Foi este o seu maior serviço àquela linda terra, que tantos outros lhe deve.» (Ideia Nova, 01/02/1941)

Interveio também na concretização da obra do porto da Póvoa.

É sintomático que nas duas resenhas biográficas que citamos, da autoria de amigos, se ignore a sua colagem salazarista.

 

 

 

 

Dr. Abílio Garcia de Carvalho

 

Tenho para mim que o Dr. Abílio Garcia de Carvalho – que foi médico escolar do liceu poveiro ao tempo em que ele estava na Fábrica do Gás, que foi também presidente da Câmara e que fez muitas outras coisas pela Póvoa – tenho para mim, repito, que ele foi um grande homem. Até mais do que apenas um grande homem, um santo, no genuíno sentido da palavra. Um homem que me ocorre aproximar a um antigo presidente da Câmara de Florença, o Venerável Giorgio la Pira. Entre outros aspectos que os unem há um bem específico, o da admiração pela Venerável Alexandrina.

Este médico nasceu na freguesia famalicense de Mouquim em 18 de Julho de 1890, de gente abastada: a sua família está na origem da fábrica de relógios «A Boa Reguladora». Feita a aprendizagem secundária em Braga e no Porto, encontrámo-lo em 1911 a frequentar a Escola Médica, igualmente no Porto. E é aí que pela primeira vez aflora o seu  feitio lutador.

Naqueles tempos incendiários do início da primeira República, funda com alguns amigos o CADC, o Centro Académico da Democracia-Cristã. O Centro vai ter uma vida difícil. Os seus membros são enxovalhados na escola e a sede chega a ser incendiada. Mas esta experiência da luta em pé de desigualdade ficou e há-de frutificar.

Abílio Garcia de Carvalho concluirá a sua formatura em Lisboa. Depois segue para a França, para a Grande Guerra. Mas esta estava a chegar ao seu termo e por isso em breve regressa. Entretanto casa em Arco de Baúlhe com uma jovem de ascendência poveira. Contudo é ainda sob a tutela militar enviado para Barcelos como médico para debelar a epidemia de peste pneumónica. A sua acção granjeou-lhe o apreço dos barcelenses. Veio para a Póvoa em 1919.

«Com o Dr. José Luís Ferreira, distinto prof. do nosso Liceu,  e os Rev.os P.es Aurélio de Faria, e Meira Veloso, zelosos sacerdotes locais, fundou, em 1923, um importante núcleo de Escutismo», escreveu em 1939 o jornal poveiro Ideia Nova. O mesmo jornal acrescenta: «Em virtude do muito que trabalhou em prole do escutismo, foi o Dr. Abílio de Carvalho agraciado, pelo Comissário nacional, com a «Cruz de agradecimento e bons serviços», de ouro, e nomeado Comissário Geral Marítimo.»

Um site escutista conserva disto alguma menção.

Em 1925, participa activamente no Congresso Eucarístico Diocesano que teve lugar aqui na então vila da Póvoa de Varzim.

Este congresso aconteceu no seguimento do Congresso Eucarístico Nacional que realizara em Braga no ano anterior. A levantar os ânimos dos poveiros, foi previamente publicado um livrito. Vem já nele colaboração do nosso médico. No congresso participou com a tese que teve certamente o maior aplauso, apesar de também lá ter estado, por exemplo,  o candidato à beatificação P.e Abílio Correia.

Dissertou o Dr. Abílio de Carvalho sobre A Eucaristia e a Medicina. A actualidade e oportunidade do tema vinha-lhe do facto de o governo republicano proibir que se levasse a comunhão – o Viático – aos doentes. O Dr. Abílio rebate no seu texto qualquer base que sustentasse tão descabelada proibição. O sucesso da comunicação foi tal que mereceu que jornais portugueses, espanhóis e franceses a publicaram integralmente.

 Por usa vez, o Dr. Abílio publicou-a em livro. Pediu a Braga o imprimatur, isto é, a verificação de que o seu conteúdo estava de acordo com o ensino oficial da Igreja. O censor bracarense concedeu-lhe mais do que o pedido, pois complementou o imprimatur com os dizeres: comendoque lectionem, isto é, imprima-se e recomendo a leitura. O livrinho vem precedido duma breve carta do matemático Gomes Teixeira, que também apresentara comunicação no congresso.

Estes congressos tinham duas vertentes, uma mais devocional e popular, com oração comunitária, procissões e missa campal, e uma outra mais erudita. A primeira centrou-se na Matriz poveira e a segunda na Basílica do Sagrado Coração de Jesus, então ainda em fase de construção, devido aos atropelos vindos dos republicanos.

Na sequência da sua intervenção no Congresso Eucarístico, propôs o Dr. Abílio de Carvalho, no “Congresso Litúrgico” (de Vila Real?), «aos ilustres Prelados aí reunidos, a criação, em Portugal, do «Secretariado Nacional do Apostolado dos Doentes», que, embora não oficialmente, existia já, com sede na Póvoa, mercê da sua actividade e do valioso auxílio dos Rev.os Padres Meira Veloso e Manuel da Costa Gomes, e de outros.

Tal sugestão foi aceita e transformou-se em realidade, contando hoje mais de 2.000 associados em todo o País.» (Ibidem)

O Apostolado dos Doentes havia de ficar depois ligado à Paróquia de S. José, então aos cuidados do citado padre Manuel da Costa Gomes. Para este apostolado, criou o Dr. Abílio uma Carta, pequena publicação a ser enviada mensalmente aos doentes, que só se extingui passados quase 75 anos. A Venerável Alexandrina pertenceu a este apostolado.

A partir da sua intervenção no congresso eucarístico, o Dr. Abílio foi solicitado para fazer palestras em muitas ocasiões e lugares. Esteve no Congresso Mariano de Braga em 1926, apresentando um texto intitulado - «Maria e a Medicina». «Seguem-se, em 1927, as comunicações aos congressos «Nacional do Apostolado da Oração» e «Litúrgico Nacional», em que foram versadas as teses: «A Oração e a Medicina» e a «A Extrema Unção e a Medicina».» (Ibidem)

Saltando agora vários anos à frente, em 1934, o Dr. Abílio candidata-se a médico escolar do Liceu da Póvoa (coube-lhe também então abrir o ano lectivo do Liceu com a «Oração de Sapiência»). Para o efeito da candidatura, teve de apresentar um trabalho. Intitulava-se ele Desvios Morais dos Alunos sob o Ponto de Vista Genital e saiu depois na revista «Acção Médica». É um trabalho que nos parece notável pelo saber – já cita Freud, por exemplo – e onde se dá grande realce aos aspectos morais, o que evidentemente era e continua a ser da maior oportunidade educativa.

Em 1936, o Dr. Abílio Garcia de Carvalho passa a ocupar a cadeira da presidência da câmara. Parece-nos que foi aplicadíssimo e inovador na sua acção e que conseguiu resultados foi muito positivos. Coube-lhe realizar a obra do abastecimento de água à Póvoa a partir do rio Ave, empenhou-se na promoção turística da então vila, na concretização da obra do porto de pesca, criou o Lactário de S. Tarcísio, o Patronato de S. José, a Cozinha Económica, etc.

O lactário destinava-se a ajudar as parturientes pobres e as suas crianças. E cumpriu a sua função. O modo como se obtinha o leite é curioso. Os lavradores das redondezas da Póvoa abasteciam de leite muitas famílias poveiras. Mas esse leite tinha de ser analisado, para o que era necessário recolher amostras. O Dr. Abílio mandou então aumentar a quantidade da amostra e era assim que podia depois fornecer um complemento alimentar gratuito a quem  ele tanta falta fazia. A Cozinha Económica foi também um sucesso.

Este período da vida do Dr. Abílio está bem documentado. Por uma preocupação de transparência, publicou logo ao fim de seis meses o relatório Seis meses de Administração Municipal. Dois anos adiante, sai outro relatório, Dois Anos de Administração Municipal. A custas suas publicou o Dr. Abílio o opúsculo constituído por quatro discursos Política do estado Novo na Póvoa de Varzim. E  há ainda as Festas de homenagem a Braga, Barcelos, Guimarães e Famalicão.

A dinâmica inovadora e criativa que impôs à gestão municipal não conseguiu silenciar os detractores. Ouça-se o que lhe dirige a este propósito, em 1939, o amigo Pedro Correia Marques no prefácio das Festas de homenagem a Braga, Barcelos, Guimarães e Famalicão:

«Quanto às vilanias que topares pelo teu caminho, lembra-te daque­las palavras que o grande Camilo escreveu a respeito do Conde de Azevedo:

“Era um homem de bem. Para lhe chamarem nas ga­zetas facínora, caipira, besta e ladrão, foi necessário que gover­nasse o distrito de Braga em 1845. Desde que esquivou na poltrona da sua biblioteca o osso sacro aos pontapés da política, volveu a ser, por comum assentimento de todos os partidos, um espírito recto, muito esclarecido e digno de exercer os cargos superiores do Estado.”

Tudo te hão-de chamar, Abílio, tudo farão para te desgostarem do trabalho, para te aborrecerem da obra que estás a realizar com tanto desvelo e tanto amor ao Bem Comum, ao Bem da Nação.

Que fazer?

Trabalhar sempre da mesma forma, prosseguir numa acção que tem tanto de meritória, como deste livro, que vai publicar-se, e do «Seis meses de Administração Municipal», que a Câmara da tua presidência publicou, e do «Política do Estado Novo na Póvoa de Varzim», que tu publicaste, se vê.»

Por esta altura, vamos encontrar o Dr. Abílio a prestar cuidados médicos à Venerável Alexandrina. Um livro escrito originalmente em italiano, intitulado na tradução portuguesa Alexandrina Maria da Costa, Por detrás de um Sorriso, traz mesmo uma fotografia em que o Dr. Abílio se encontra ao lado da Alexandrina, quando esta revive a paixão.

Não é fácil determinar o momento em que ele chegou a Balasar. Supondo mesmo que foi apenas quando o P.e Mariano Pinho precisou de pedir aos médicos esclarecimento sobre o facto extraordinário de a Alexandrina readquirir os movimentos após tantos anos de paralisia quando revivia a paixão, isso não é pouco.

Em Balasar conservam-se duas cartas do Dr. Abílio. O P.e Mariano Pinho transcreve uma que o médico portuense Roberto da Carvalho dirigiu ao mesmo Dr. Abílio e em que se trata naturalmente do caso da Alexandrina. Mas o que me parece notável é que o Dr. Dias de Azevedo surja em Balasar só após a morte do Dr. Abílio. Isto é, ele vem substituí-lo, parece concluir-se. A importante tarefa que o Dr. Dias de Azevedo continuou estava antes a ser desenvolvida, e sem dúvida com competência, pelo Dr. Abílio.

Talvez devido ao cerrado das oposições, o Dr. Abílio Carvalho abandona a Câmara poveira cremos que no final de 1939. É entretanto nomeado governador civil de Hangra do Heroísmo. Ainda chega a ir à Ilha Terceira, mas o cancro que o afectava acaba por prostrá-lo no leito. Fina-se em Janeiro de 1941.

A Ideia Nova renova-lhe então os elogios.

Aproximámos no princípio o Dr. Abílio Garcia de Carvalho do Venerável Giorgio la Pira. Sabemos que a acção deste presidente da Câmara de Florença chegou a ter um alcance que se pode dizer universal. Mas o zelo do bem comum era semelhante nos dois. Depois, há a Alexandrina. Um estudou-a como médico, o outro como mística.

E não foi por acaso que o Papa o nomeou Comendador-Cavaleiro da Ordem de S. Gregório Magno.

 

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