Um discurso do Dr. Azevedo

 

Não sabemos ainda avaliar a extensão do labor que à Alexandrina dedicou este médico de Ribeirão. Mas foi enorme. Seria preciso um livro para o registar e sobretudo para recolher o que escreveu.

Quem foi o Dr. Azevedo, este pai de 14 filhos, cuja vinda até junto de Alexandrina foi verdadeiramente providencial?

Ouçamos hoje este seu discurso, que transcrevemos do «Ala-Arriba» de 7/4/56, e que ele proferiu em Balasar, em 28/1/56, no descerramento de um retrato em homenagem a Alexandrina:

«Neste acto de gratidão e homenagem àquela que com carinho chamávamos a Doentinha de Balasar, sinto o dever de dizer algumas palavras de saudade, de parabéns e de agradecimento.

Palavras de saudade, porque a verdade é que, com o decorrer do tempo, parece ir-se avivando, cada vez mais, a tristeza pela falta da nossa querida Alexandrina, pois já não ouvimos a sua voz angélica a aconselhar-nos nas nossas dúvidas, a animar-nos no cumprimento do dever, amando mais e mais a Deus e ao próximo, numa palavra, a termos uma vida mais digna e cristã. E esta saudade de Alexandrina só nos pode ser suavizada por sabermos que os sofrimentos de vítima de nossos pecados e de pecados do mundo, nos últimos tempos, já não podiam ser maiores e hoje gozará, por prémio das suas virtudes heróicas, a maior felicidade, aquilo que S. Paulo, num êxtase sublime e inegável, viu e depois definiu como sendo «o que os olhos humanos nunca viram, os ouvidos nunca ouviram, nem o coração do homem imagina o que Deus tem preparado para aqueles que o amam».

Palavras de parabéns. Sim, mereceis esses parabéns pelos vossos sentimentos e actos, desde o falecimento da Alexandrina e pelo descerramento do retrato daquela que tanto alindou a vossa igreja. Logo após o falecimento dela, vós mostrastes a vossa dor  e a vossa esperança.

Dor pela falta dessa figura extraordinária, a maior glória de Balasar, em todos os tempos, glória que o futuro dirá ser de Portugal e do mundo inteiro.

Vós não sabeis, nós não sabemos, o que Deus criou e acumulou de graças no lugar do Calvário desta freguesia, mas, depois de volvido algum tempo (sem eu querer antecipar qualquer decisão definitiva da Igreja), dir-se-á que foi uma alma mística extraordinária, uma vítima propiciatória, daquelas a quem se referia Jesus falando a uma religiosa nos seguintes termos:

“O Pai celeste olha-as com especial agrado. São o encanto dos Anjos e dos homens. São muito poucas. Destinam-se a servir de defesa diante da justiça do Pai Celeste e a obter misericórdia para o  mundo.”

Mostrastes, senhoras e senhores, a vossa esperança, porque se o funeral da Alexandrina foi uma autêntica glorificação da sua vida heróica e santa, quereríeis significar com isso que tínheis a certeza da sua valiosa intercessão por vós lá no Céu.

Sim, aquele sorriso angélico da Alexandrina nos está dizendo que contemos com ela e que não desanimemos nas tribulações da nossa vida. Já dizia o nosso maior poeta que o “caminho da virtude” era “alto e fragoso, / mas no fim, doce alegre e deleitoso”. Para o Céu só há um caminho, o do dever, o do arrependimento, o das tribulações e cruzes, e a vida e o sorriso de Alexandrina nos estimulam a segui-lo e a  abraçá-lo.

Estejamos certos desta intercessão a nosso favor, perante Deus, a quem tanto adorava, e perante a Virgem Imaculada, a quem tão ardentemente amava.

Palavras de agradecimento para vós e para a vosso pároco. O Sr. abade, durante a vida da Alexandrina, foi incansável em dar-lhe diariamente o que ela desejava, o seu querido Jesus (seu único alimento durante treze anos e meio) e, desde o seu falecimento, tem sido incansável em manifestar, por belos artigos na Imprensa e por conversas, as virtudes dessa alma heróica e angelical, que foi a nossa querida e abençoada Doentinha. Deus lhe dê muitos anos de saúde e vida para continuar a dar-nos luz, a fim de que se saiba onde está a verdade e onde está a mentira, para continuar a fazer justiça, porque é um acto de justiça dizer ao  mundo quem foi a Alexandrina.

E vós todos, que dum ou doutro modo respeitais e acarinhais a memória da Alexandrina, ficai certos de que ela no Céu não vos esquecerá e, grata como sempre foi, nada vos ficará a dever. Pedi nas vossas dores e alegrias a sua intercessão e, do bom resultado dela, por dever e gratidão, continuai a dar conta ao senhor abade, a quem a autoridade eclesiástica confiou o registo das graças recebidas.»

No final do seu livro Alexandrina o P.e Humberto alude ao episódio do descerramento do retrato; é na página 366 da 6ª edição. Vale a pena ler o que então escreve:

«A seis meses da sua morte, durante uma solene manifestação, a figura de Alexandrina sorri a todos no grande quadro que foi inaugurado no salão paroquial de Balasar, como um sinal de estima e gratidão por quanto ela havia feito em vida pela terra natal.»

Diz-nos o Sr. P.e Francisco que o retrato de que aqui se faz menção será certamente o que se pode ver, muito envelhecido, sobre a cama, na casa que foi sua.

 

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