ALEXANDRINA MARIA DA COSTA

 

 

MEU SENHOR, MEU DEUS!

 

 

Na tradução deste livro intervieram o P.e Pedro Cordovil, cartuxo, que reuniu a quase totalidade das citações da Alexandrina na versão original portuguesa, e o prof. José Ferreira, que traduziu as poucas restantes e o texto original italiano.

 

 

APRESENTAÇÃO  2

PREFÁCIO  4

BREVE BIOGRAFIA  7

“A MINHA ALMA GLORIFICA O SENHOR” 10

“TU EXALTAS, SENHOR, UM CORAÇÃO PENITENTE” 19

“INVOCAI-ME!” 25

I. GENERALIDADES SOBRE A ORAÇÃO DE SÚPLICA DE ALEXANDRINA  26

II. SÚPLICAS PARA NECESSIDADES PARTICULARES  28

“MEU DEUS, EU TE PEÇO POR...” 42

“A TI ME ENTREGO, MEU SENHOR, MEU DEUS” 53

“EIS-ME, SENHOR, MEU AMOR! 62

CUME E FONTE  74

EU NELE E ELE EM MIM  86

INTIMIDADE COM MARIA  100

APÊNDICE  110

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

APRESENTAÇÃO

 

 

Com muito prazer apresento este livro sobre Alexandrina Maria da Costa, preparado pelo casal Signorile, o mesmo que me incitou a escrever a vida de Alexandrina. Nestas páginas toca-se o aspecto mais íntimo da Serva de Deus: a sua relação directa com o Senhor. Penso que será uma leitura muito útil a todos, para encorajar a uma vida de oração mais pessoal, mais contínua, mais alegre.

Como apresentação, desejo repropor a figura da própria Alexandrina. É possível que os leitores nunca tenham ouvido falar dela; ou que conheçam apenas o episódio pelo qual é mais célebre: o facto de Deus a ter escolhido para obter a primeira consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, que foi pronunciada por Pio II em 1942 e que depois teve tantas e tão profundas repetições. Pode haver quem conheça um pouco a vida de Alexandrina, mas deseje refrescar a memória.

Alexandrina nasce em Balasar, no Norte de Portugal, a 30 de Março de 1904. É pobre. Muito boa. Alegre e viva, trabalha muito, reza muito, mas estuda pouco; não porque disso não tenha vontade, mas porque lhe faltam os meios.

Aos 14 anos, no Sábado Santo de 1918, tem lugar o episódio que dá uma volta decisiva à sua existência: para salvaguardar a pureza de mal-intencionados, lança-se da janela. A consequência da queda é irremediável para a sua espinha dorsal: depois de sete anos de contínuos agravamentos, ficará paralisada para o resto da vida, imóvel num leito até à morte que a colhe em 13 de Outubro de 1955. Trinta anos de imobilidade! Todavia o seu espírito afina-se sempre mais. Dá-se conta de estar prisioneira numa cama como Jesus está prisioneiro no sacrário. Inicia uma adoração contínua, dia e noite, para fazer companhia a Jesus Eucarístico. O seu amor pela Eucaristia levá-la-á a viver só daquela pequena Hóstia os últimos 13 anos da sua existência: não poderá mais ingerir qualquer alimento ou mesmo uma gota de água.

Como pode uma rapariga, jovem e bonita, aceitar uma vida de imobilidade e de atrozes sofrimentos? Como pode até fazer dela uma missão e agradecer a Deus? Somente unindo toda a sua cruz à de Cristo e para os mesmos objectivos: a conversão dos pecadores, a salvação da humanidade. E esta união de Alexandrina com a Paixão do Senhor tornar-se-á íntima a ponto de exprimir-se até com o reviver na sua carne, mas também no espírito, todas as sextas-feiras, os vários momentos da Paixão; e o seu corpo ficará assinalado misticamente pelos estigmas, pela coroa de espinhos, pela flagelação, pelo golpe da lança.

Entretanto o Senhor compraz-se em fazer de Alexandrina a sua embaixadora. Desde 1935 começará a pedir-lhe que o mundo seja consagrado ao Imaculado Coração da sua Mãe, e conduzirá os acontecimentos de modo que atinjam o resultado pretendido. Depois quer que Alexandrina seja um instrumento de conversão: no seu humilde quartinho tornar-se-á visitada por uma contínua peregrinação de gente de todas as idades e condições, até 1500-2000 pessoas por dia[1]. Para todos ela sabe dar a resposta justa, o conforto e o conselho apropriado, mesmo nas situações que não são expostas.

Nos últimos sete anos de vida, o seu corpo será todo ligado com faixas a tábuas de madeira, pela deslocação dos ossos. Com toda a propriedade, está crucificada; mas está sempre sorridente, com um sorriso que conquista, que comove mesmo os mais incrédulos, que fica impresso de modo indelével em quantos se avizinham dela.

Nas suas duras condições, não perde nunca a sua união com Deus; mesmo quando fala com a gente, ou de noite, dado que quase não dorme mais. Frequentemente a sua oração é silenciosa; outras vezes é feita em voz baixa; frequentemente é cantada com aquela sua bela voz harmoniosa que desde a adolescência mantinha o coro paroquial.

Certamente a sua vida de oração é o segredo mais profundo da sua força, da sua alegria, da sua santidade. O presente volume apresenta-nos dela uma rica amostra que, estamos certos disso, será de edificação e estímulo aos leitores.

 

P.e Gabriel Amorth

Pentecostes de 1997

(18 de Maio)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFÁCIO

 

 

A verdadeira oração é um contacto do humano com o divino, e é essencialmente amor: um colóquio de amor – feito também de silêncios – entre a criatura e o seu Criador, que é pai: uma mútua presença que leva à união.

 

Alexandrina é toda amor em cada uma das fibras do seu ser, vive concretamente a união com Deus-Amor, é consumida pela sede de amor sempre crescente e morrerá de amor, como lhe prediz Jesus no êxtase de 4 de Junho de 1948:

 

“Minha filha, não é a dor a dar-te a morte: será o amor que ta dará; serás consumida por ele; será o amor que te dará o Céu, a tua pátria no termo deste exílio. A dor é grande, mas é ultrapassada pelo amor.” [2]

 

Por isso Alexandrina é uma «encarnação de amor» em toda a sua oração, como em todo o momento da vida. Sente-se levada à contemplação e à oração desde pequena; atitude devida certamente à sua natureza, mas também cultivada e incentivada pela educação religiosa tida da sua mãe e da atmosfera de religiosidade do ambiente.

Respondendo ao convite do seu segundo director, P.e Humberto Pascoal, Alexandrina descreve brevemente o desenvolver-se da sua vida de oração, ditando no diário de 19 de Julho de 1945:

 

Não tenho forças para orar.

Quando era pequenina orava tanto e amava tanto a oração! Passaram-se os anos, veio a doença e o amor à oração continuou. Não ficava satisfeita se algum dia tinha de deixar algumas orações por fazer.

A doença aumentou. Com a falta de forças tive que as resumir. Mas foi aumentando a minha união com Deus, mas não deixava de sofrer quando tinha de deixar de as fazer.

O que é agora a minha vida de oração? É quase só mental, mas posso dizer que é quase contínua. Digo a Jesus que me entrego em seus braços, é neles que quero orar, é neles que quero sofrer e viver até mesmo durante os meus ligeiros sonos. Quanta vezes as visitas falam junto de mim e a minha oração continua. Desligada da conversa se não me não interessa, fico unida a Jesus, embora que o não sinta, nem o veja com a escuridão das trevas. Mas Jesus sabe que estou com Ele e só quero o que Ele quer.

 

Mas o seu impulso de amor não se limita a Jesus: abraça toda a Santíssima Trindade, de quem se sente templo vivo:

 

Estava a fazer algumas das minhas orações e formulei a minha intenção de estar diante de Jesus sacramentado em todos os sacrários do mundo, mas recordando-me todavia de adorar a Santíssima Trindade na minha alma.

 

Objecto contínuo do seu amor é também Nossa Senhora, que sente como «Mãezinha» no sentido mais completo e mais sagrado e à qual recorre incessantemente para chegar a Jesus.

Uma belíssima síntese da espiritualidade de Alexandrina encontra-se na biografia No Calvário de Balasar escrita pelo seu primeiro director, P.e Mariano Pinho: «A devoção de Alexandrina era eminentemente mariana e sobretudo eucarística. Com Maria, por Maria e em Maria vivia toda por Jesus sacramentado, como vítima de expiação.»

Com o passar dos anos, durante o caminho do seu doloroso e crescente martírio, o seu modo de orar sofre uma evolução, mas só na forma que se faz sempre mais forte, mais dramática; a substância permanece inalterada. As notas fundamentais estão presentes desde os primeiros anos da sua oferta como vítima e perduram ressoando e acentuando-se até ao fim.

Ter-se-ia podido organizar este livro sobre a oração de Alexandrina na base dum estudo sobre tal evolução, coisa certamente interessante. Auguramos que isto venha a ser feito por algum teólogo místico.

Nós, muito modestamente, limitámo-nos aqui a lidar com um escrito facilmente acessível aos leitores de alma simples, a fim de que possam tirar dele exemplos salutares, profícuos e encorajantes, encontrando-se em situações análogas às da grande mística Alexandrina, que é contudo uma alma simples, ao alcance de todos em muitas suas atitudes espirituais.

Por isso extraímos do copioso material à nossa disposição trechos que nos pareceram mais adequados a este objectivo. Subdividimo-los em capítulos segundo a forma que assume a oração: oração de louvor, de arrependimento, de súplica, de oblação, etc. Isto, além de necessário para facilitar a leitura, pode ser útil para o leitor que deseje reler, remeditar um ou outro aspecto, conforme as suas necessidades espirituais do momento.

Naturalmente, a divisão tem apenas um carácter aproximativo pois que, quando se ora com o coração, as várias formas de oração sobrepõem-se, entrelaçam-se, esbatem-se umas nas outras: não existe um corte nítido entre umas e outras. Segue-se daqui que os vários trechos colocados num capítulo poderiam encontrar lugar adequado também noutro.

Reunindo os vários trechos tentou-se fazer uma composição o mais possível logicamente ordenada, coerente. Uma espécie de sucessão de mosaicos, os capítulos.

Segue-se um breve Apêndice onde os trechos não reflectem uma particular forma de oração, mas exprimem a perseverança no orar, mesmo em condições muito desfavoráveis.

Cada capítulo é enriquecido com uma composição floral que simboliza o seu conteúdo, e precedido por uma página introdutória: sob o título colocaram-se alguns versículos da Sagrada Escritura e frases de Alexandrina ligadas ao tema, extraídas do próprio capítulo. Segue depois um preâmbulo ilustrativo em que «balbuciámos» algo do muito que sentimos no coração acerca da verdade da nossa Fé.

Auguramos que o leitor seja estimulado pelas nossas pobres palavras a meditar no íntimo, com coração amante; a meditar desenvolvendo quanto leu: assim ficará preparado a acolher com o maior fruto possível os pensamentos e os sentimentos de Alexandrina que são de um valor imenso.

Muitos trechos que formam estes mosaicos foram já publicados noutros trabalhos do género, em particular na biografia Figlia del dolore, madre di amore, mas a sua importância pediu uma presença também aqui.

Na tradução mantivemos o mais possível a forma de linguagem de Alexandrina, entre outra uma certa «simetria central» cara ao sentido artístico da Autora[3].

É nossa a pontuação, muito escassa nos originais, dado o mínimo grau de instrução não só de Alexandrina mas também da irmã Deolinda, que escreve quase todos os ditados.

Além disso, porquanto hoje na Itália seja frequente o uso do «tu» no diálogo com Personagens celestes, respeitamos o «vós» usado por Alexandrina porque exprime a atitude de grande reverência sentida por ela e por todo o ambiente da época; e ainda porque, em alguns momentos de impulso emotivo particularmente forte, de efusão de amor trasbordante, lhe sai do coração espontâneo o «tu»; assim ficam postos em evidência estes momentos.

As citações deste trabalho foram tiradas em particular dos diários (Sentimentos da alma) e em parte das cartas ao seu primeiro director, P.e Mariano Pinho.

Para não tornar mais pesada a leitura, não vai apresentada a indicação das fontes senão uma ou outra vez, quando a data pode ser interessante para o contexto.

Se há repetições de conceitos, sempre porém com matizes diversos, não há nunca repetições: cada trecho aparece uma única vez.

O texto é precedido duma breve Biografia que pode interessar o leitor não satisfeito com a síntese exposta na Apresentação; além disso ajuda a compreender as situações espirituais donde mana toda a oração, a penetrá-la mais profundamente, a revivê-la.

De facto, a oração nasce da vida e a vida, à sua volta, estava impregnada dela.

 

O casal Signorile

Santíssima Trindade de 1997

(25 de Maio)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BREVE BIOGRAFIA

 

 

Alexandrina Maria da Costa nasce em 30 de Março de 1904 numa freguesia agrícola, Balasar, cerca de 50 km do Porto, para nordeste, e aí morre a 13 de Outubro de 1955.

Passa a infância e a adolescência ajudando a família nos trabalhos de casa e dos campos com o impulso dum temperamento exuberante, mas também com a sensibilidade excepcional para a beleza do criado, que a leva, desde os primeiros anos, a contemplar o céu com forte ansiedade de alcançá-lo.

Cresce com um forte espírito de oração, muito unida a Nossa Senhora e com devoção aos sacrários particularmente sentida.

No Sábado Santo de 1918, aos 14 anos, salta duma janela para o jardim (3,30 m) para salvar a sua pureza, fugindo a três homens mal-intencionados que haviam penetrado com violência na sala onde estava a costurar com a irmã e uma amiga.

Daqui começa uma mielite comprimida na espinha dorsal, com consequente paralisia progressiva que a pregará no leito por mais de 30 anos, até à morte. É portanto mártir da pureza, como Maria Goretti e Pierina Morosini: o martírio de Alexandrina é incruento, mas dolorosíssimo pela duração e pela intensidade sempre crescente.

Aquele «salto» é uma tragédia que a torna impotente, humanamente; mas do ponto de vista divino é ao contrário uma chamada a uma missão dum poder extraordinário para a salvação de muitíssimas almas. De facto Alexandrina tornar-se-á uma das mais eficazes almas-vítimas que, seguindo o caminho indicado – também vivido – por Cristo, se imolam por amor.

Aos sofrimentos físicos juntam-se os económicos, devido à perda dos terrenos e hipoteca sobre a casa[4].

Até estas estimulam a sua generosidade:

 

Tudo que me ofereciam para comer cedia à minha irmã, porque nessa altura ela encontrava-se bastante doente. Eu pensava assim: já que não tenho cura, que ao menos ela possa melhorar.

 

Muitas tribulações e, sobretudo, a falhada cura – tão pedida! – fazem-na perceber que a sua missão é a de vítima de expiação. A chama do seu amor ardente leva-a a uma tal heroicidade nesta oferta a ponto de consentir a Jesus fazer dela uma grande mística: tem visões e êxtases durante os quais contacta com a Realidade celeste[5].

De 1938 a 1942 revive semanalmente a Paixão sofrendo com uma mímica tão expressiva que faz compreender a quem assiste todas as fases daquela tragédia.

Sendo, desde muito jovem, profundamente devota a Nossa Senhora, é escolhida por Jesus também como voz que se une àquelas que pedem ao Papa a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria.

O seu reviver a Paixão com mímica claramente expressiva vem a ser considerado um «sinal» para garantir tal pedido convencendo a Autoridade que os sus fenómenos místicos têm origem divina. No êxtase da Paixão de 13 de Janeiro de 1939, à sua pergunta: “Como devo fazer, Jesus?” ouve responder: “Que tu sofras tudo isto até quando o Santo Padre se decida a fazer o que Jesus pede” (a consagração).

Em 31 de Outubro de 1942 finalmente: «todo o mundo pôde escutar pela rádio em língua portuguesa… as palavras do Santo Padre a consagrar o mundo ao Imaculado Coração de Maria», escreve o P.e Pinho na biografia No Calvário de Balasar.

Desde 1942 até à morte continua a reviver a Paixão, mas sem mover-se do leito, com um sofrimento todo íntimo, ainda mais doloroso; além disso, desde 1947 em diante sofre dia e noite as dores dos estigmas, que por seu desejo ficam ocultos.

Desde o mesmo ano (1942) junta-se o tormento dum jejum absoluto com anúria, que a faz sofrer pela saudade do alimento, por sede ardente, por cólicas e crises de cistite.

Nestes últimos 13 anos Jesus fá-la viver milagrosamente com o alimento da Hóstia consagrada e de algumas gotas do seu divino sangue que lhe ministra mística, mas realmente: basta pensar que por longos períodos perde sangue, sem alimento humano que o regenere…

Na sua missão de salvação sofre o combate de forças demoníacas contra as quais deve manter lutas extenuantes. Não faltam depois as tormentosas dúvidas acerca da verdade da Fé, que a martirizam mais fortemente para o fim da vida.

Deve sofrer exames de teólogos, de médicos, em particular uma estada de 40 dias num hospital do Porto («A Foz») sob vigilância de assistentes para controlar o jejum e a anúria, julgadas mistificações…

A sua saída triunfal do hospital, onde foi reconhecida a verdade, com os hossanas da multidão, não são suficientes para convencer a Autoridade: em 1944 a Comissão nomeada pelo arcebispo, sem um exame sério, deixa-se influenciar por más-línguas locais e emana um veredicto negativo, que a faz sofrer tanto! Maledicências, calúnias, humilhações…

Aumenta com os anos o número daqueles que crêem na origem divina dos seus fenómenos místicos; entre estes, também o secretário do arcebispo. Mas Alexandrina será sempre «sinal de contradição», como o seu divino Modelo.

A imitação de Cristo porém não consiste só no sofrer, mas sobretudo no amar! E

Alexandria ama tanto que transforma todo o seu ser, de modo que os outros vêem irradiar dela a vida divina: do seu olhar, do seu sorriso, das suas palavras cheias de sabedoria e de doçura, de atracção para o céu.

«Cristo transparecia dela como o sol através do cristal», afirmou Mons. Horácio de Araújo na sessão de abertura do Processo Informativo Diocesano.

Tudo isto atrai ao seu leito multidões sempre mais numerosas de visitantes, e cada um deles desce daquele quartinho diferente de quando entrou.

 

«Estás a viver a vida pública de Jesus» (ouve Jesus dizer-lhe num êxtase de 1953).

 

No prosseguimento da sua ascese espiritual, Alexandrina realiza sempre melhor aquela «união transformante» que S. Paulo (Gál 2,20) exprime com a famosa frase: «Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.» De facto, em vários êxtases Jesus afirma-lhe que é Cristo a viver nela e no diário de 15 de Setembro de 1950, sentindo-se imersa num fogo de amor imenso, dita: «Que chamas, que fogo penetrou todo o meu ser: eu não era mais eu, era só Jesus.»

 

Vivendo sepultada entre os quatro muros do seu quartinho sem nenhuma instrução humana de vida espiritual[6], segue perfeitamente as pegadas de S. Teresa de Ávila e de S. João da Cruz, conduzida por directa inspiração de Jesus, pelo qual se deixa docilmente plasmar. Deixa aos vindouros milhares de páginas que são: «documentos de autêntico valor literário, ascético e até teológico de tal interioridade que não é fácil igualar», escreverá o seu primeiro director espiritual na sua biografia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 1º

 

“A MINHA ALMA GLORIFICA O SENHOR”

(louvor e agradecimento)

 

Está em Ti a fonte da vida;

é na tua luz que vemos a luz.                               [7] (Sal 35, 10)

 

Bendiz, ó minha alma, o Senhor

e não esqueças nenhum dos seus benefícios.               (Sal 102, 2)

 

Todo o que respira louve o Senhor!                      (Sal 150, 6)

 

Deixai-vos encher do Espírito.

Sem cessar dai graças por tudo a Deus Pai,

em nome de nosso Senhor.                                (Ef. 5, 18.20)

 

Ao ver as flores, admiro, louvo e adoro o poder de Deus...

A todas as criaturas que louvam o Senhor, peço que O louvem por mim.

 

Fitava o Céu cheia de saudades e dizia:

“Oh! como é belo Aquele que te criou!”

 

Parecia-me desaparecer ainda mais ao contemplar as belezas do Criador.

 

“Obrigada, obrigada, Jesus,

na consolação e na dor, na vida e na morte.

Obrigada, obrigada, meu Jesus, por toda a dor

e por todo o amor que me dais.”

 

 

A criança que se apresenta à vida observa tudo o que a rodeia com espanto alegre.

Também o adulto, prosseguindo com a idade na descoberta das belezas de todo o criado, do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, e das maravilhas que encontra em si mesmo, «fiz-me como um prodígio» (Sal 138), continua a saborear um espanto religioso.

A emoção da descoberta das belezas desemboca na admiração, contemplação, louvor e reconhecimento ao Criador. Quem vive nesta perspectiva deveria ter presente em todo o momento que «se move» no universo criado pelo seu Deus, por isso deveria até com religiosidade calcar a erva do prado, não colher inutilmente uma flor, não pisar com violência sequer uma pedra… deveria sentir «tudo sagrado» em seu redor[8].

Mas no adulto desenvolve-se também uma vida espiritual e, se esta tem uma dimensão religiosa, ele saboreia com vibrações muito mais fortes e elevadas as «belezas» que o Criador opera na sua alma de criatura e nas outras almas irmãs. É por isso levado a dar graças a Deus por estas intervenções.

Comummente o agradecimento sai espontâneo do coração por aquelas «belezas» que lhe são agradáveis.

Para as almas mais elevadas na espiritualidade o significado de «beleza» dilata-se ao ponto de «belo» ser tudo o que serve à salvação das almas, mesmo se doloroso no sentido estritamente humano. Eis que ouviremos Alexandrina agradecer pelas belezas do criado cósmico, pelos acontecimentos alegres ou favoráveis, mas também pelos desfavoráveis, desagradáveis, pelos sofrimentos, pela dor, pois que a entende e a aceita como meio de salvação.

O segredo de conseguir agradecer por situações desagradáveis e até dolorosas está todo no amor: amor aos irmãos e amor a Jesus, que é aliás em substância o mesmo amor.

Amor aos irmãos, porque a dor aceite com amor salva almas. Esta é uma convicção do cristão que tende a adequar-se ao divino Modelo: Cristo, vítima pela redenção do género humano. É um mistério incompreensível, mas fascinante porque é uma realidade que exprime o máximo do amor na união fraterna.

Amor a Jesus, porque a dor aceite, amada com objectivo redentor, nos torna semelhantes a ele, vítima de expiação. E a máxima aspiração do amante é a de tornar-se semelhante ao amado o mais possível, pois esta é a condição para a perfeita união, objectivo último do amor.

Este primeiro capítulo apresenta alguns trechos de oração de louvor e de agradecimento; poucos face aos numerosíssimos disseminados nos escritos de Alexandrina.

Foi dividido em dois parágrafos: louvor e agradecimento. É claro que não se pode fazer uma distinção nítida entre as duas formas de oração referidas, que frequentemente são concomitantes e se esbatem uma na outra, como dissemos no Prefácio.

 

 

 

§ 1º - LOUVOR

 

a) - O botão abre-se

 

Tinha eu seis anos quando, de noite, me entretinha por muito tempo a ver cair sobre mim inúmeras pétalas de flores de todas as cores parecendo chuva miudinha[9].

Isto repetiu-se várias vezes. Eu via cair estas pétalas, mas não compreendia; talvez fosse Jesus a convidar-me à contemplação das suas grandezas.

 

Pelos nove anos, quando me levantava cedo para ir trabalhar nos campos, e quando me encontrava sozinha, punha-me a contemplar a natureza: o romper da aurora, o nascer do sol, o gorjeio das avezinhas, o murmúrio das águas entravam em mim numa contemplação profunda, que quase me esquecia de que vivia no mundo.

Chegava a deter os meus passos e ficava embebida neste pensamento: o poder de Deus! E, quando me encontrava à beira-mar, oh! como me perdia diante daquela grandeza infinita!

À noite, ao contemplar o céu e as estrelas, parecia esconder-me mais ainda para admirar as belezas do Criador!... Quantas vezes no meu jardinzinho, onde hoje é o meu quarto, fitava o céu, escutando o murmúrio das águas e ia contemplando cada vez mais este abismo das grandezas divinas! Tenho pena de não saber aproveitar tudo para começar nesta idade as minhas meditações.

 

b) A flor está aberta

 

Olhava o céu cheia de saudade e dizia: «Oh, como é belo Aquele que te criou!” O céu dava-me que meditar continuamente; teria sido suficiente como oração, mesmo se não tivesse sabido outra oração.

 

À noite fui fazer a minha meditação na varanda. Estava com os olhos fixos no céu enquanto o meu pobre coração sangrava sobre a terra. Era numa extrema agonia de alma que eu fazia subir ao Céu as minhas pobres orações.

Quanto mais admiro as belezas do Criador tanto mais pequena me sinto aos seus olhos divinos.

 

Envolve no louvor todo o criado.

 

Ao ver as flores, admiro, louvo e adoro o poder de Deus...

A todo o ser criado que louva ao Senhor, eu lhes peço para o louvarem por mim...

 

A minha alma continua a exigir a solidão. É ao brilho das estrelas e ao luar que sozinha me ponho a contemplar. Peço a todos os astros que amem Jesus por mim.

 

Estava em frente da janela...

Estava a desfalecer, quando de repente poisaram-se em frente da janela duas avezinhas muito belas. Pus-me a contemplá-las; vi que voavam nos ares um bando delas.

Encostei-me à janela e chamei-as: “Vinde[10], vinde, minhas irmãs em Cristo, louvai ao nosso Autor e Criador, louvai-o também por mim. Como não há-de Ele ser belo para vos criar assim tão belas! Vinde, vinde para eu aprender em vós a meditar no poder de meu Senhor!”

Todas as avezinhas que iam no ar se poisavam à minha frente, abriam as asinhas com faixas de prata; levantavam-se aqui poisavam ali e não saíam de minha frente. Que linda festa! Tantas asinhas a baterem no ar!...

Com as avezinhas esqueci a dor, que antes me fazia sofrer.

 

As avezinhas servem para um ponto meditação. Vejo-as ao frio o à chuva. Umas vezes ensinam-me a tudo sofrer em silêncio, outras vezes aprendo delas a sorrir e a cantar por tudo quanto Jesus me dá, por tudo quanto é dor… Ai, quanto tenho que aprender! Oh, como eu queria amar Nosso Senhor!

 

A oração de louvor encobre frequentemente o próprio sofrimento interior, tão doloroso.

 

Para vencer-me e alegrar a Jesus, no meio da maior angústia, fiz o que já há muito não tinha feito, por não ter forças: cantava baixinho, entoava louvores a Jesus e à Mãezinha.

Assim fui escondendo o meu penoso martírio.

 

 

§ 2º - AGRADECIMENTO

 

a) Agradecimento que nasce da contemplação

 

A primeira atitude que nasce da contemplação é um espanto extático que faz vibrar de reconhecimento todo o nosso ser, pois que este não se sente separado, fora da maravilha que contempla, mas envolto, mesmo sendo um nada no Todo: é um adorar com amor agradecido por tudo, pois que tudo lhe é dado; mas em primeiro lugar por três acontecimentos fundamentais: a Criação, a Encarnação, a Eucaristia.

 

Criação

 

Meditei nas belezas do Céu e caí de joelhos a adorar a seu Autor.

 

Adorei-o no Céu, adorei-o na terra, na santíssima Eucaristia e dizia:

“Ó Jesus, criastes-me para vós e tudo criastes para mim! Obrigada, meu Jesus! Não me basta a eternidade inteira para agradecer-vos.”

 

Levantei-me cega de dor e fui à janela. A noite estava bela.

Tudo dormia; a casa estava em silêncio. Fiquei por longo tempo num acto de agradecimento ao Céu.

Disse a Jesus: “Não Vos vejo, não Vos ouço, mas sei que sois o meu Criador e quando me criastes já sabíeis que hoje devia estar aqui a contemplar as vossas grandezas, já sabíeis que a falta de ar que hoje sinto (estamos num Agosto sufocante) necessitava do vento que me dais. Um eterno obrigada, meu Jesus.”

 

Só as grandezas do meu Criador, o seu poder infinito levantam o meu espírito, mas deixando-me sempre na minha pequenez, na minha profunda miséria.

 

“Jesus, a tua Pátria eleva-me para ti. Saio do meu nada nas tuas coisas: sou grande no que tu criaste. Obrigada, meu Jesus, que tudo fizeste por meu amor.”

 

Encarnação

 

“Ave, Maria, cheia de graça! Eu vos saúdo, ó cheia de graça! Soberana Rainha do Céu e terra, Mãe dos pecadores! Eu a mais indigna de todas as vossas filhas, agradeço-vos de todo meu coração, ó Santa Mãe de Deus, por terdes consentido que o meu amabilíssimo Jesus encarnasse em vossas puríssimas entranhas para redenção da humanidade.

Sim, minha Mãezinha, encarnar, nascer, viver trinta e três anos no mundo e por fim morrer numa cruz pelos miseráveis filhos de Eva! Entenda quem puder tantos excessos de amor.”

 

Eucaristia

 

“Dou-vos graças, Eterno Pai, por me haveres deixado Jesus no Santíssimo Sacramento.

Dou-Vos graças, meu Jesus, e por último peço-vos a vossa santa bênção! Seja louvado a cada momento o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!”

 

b) Agradecimentos por acontecimentos alegres

 

Passaram-se seis anos de aflições e de lágrimas[11].

Jesus ouviu a nossa prece. Foi mesmo de longe, muito de longe, que uma boa senhora veio dar remédio ao nosso mal...

Eu chorei mais de confusão de que de contentamento ao receber tão grande graça de Nosso Senhor. Não sabia como Lhe agradecer.

Parecia que estava louquinha e dizia a Jesus: “Muito obrigada, muito obrigada! […] Ó meu dulcíssimo Jesus, não sei como agradecer-vos por tantos benefícios. Eu que não sou digna de levantar os olhos ao Céu nem de chamar-vos com o dulcíssimo nome de pai, sou tão beneficiada por vós! Muito obrigada, meu Jesus, muito obrigada!”

 

Finalmente, a 13 de Outubro de 1942, na conclusão do jubileu das aparições de Nossa Senhora em Fátima (25 anos desde 1917), todo o mundo pôde escutar pela rádio o Papa Pio XII que, em língua portuguesa, consagra o mundo ao Imaculado Coração de Maria (veja-se a Biografia).

 

Quando por um telegrama (enviado pelo P.e Pinho que estava em Fátima para a celebração) tive conhecimento da consagração do mundo à querida Mãezinha, Jesus deixou-me ter uns rápidos momentos de consolação.

Fora de mim, não sabia como havia de agradecer a Jesus e à Mãezinha. Levantava as mãos ao Céu e dizia: “Bendito Jesus, bendita Mãezinha!”

Parecia-me que ia eu mesma meter o Santo Padre todo inteirinho no Coração de Jesus e da Mãezinha. Que Alegria, que alegria!

 

Reconhecida porque o segundo director lhe pode ainda escrever:

 

Não sei como, num impulso de amor pude ajoelhar-me na cama, levantar as mãos, rezar o «Magnificat», coisa que tenho hábito de fazer quando recebo dons de Jesus, quer venham a ferir-me, quer venham a suavizar o meu sofrimento.

Entoei louvores a Jesus sacramentado e ao seu santíssimo Coração, manifestando-lhes a minha confiança nele como na Mãezinha, à qual elevei um canto de amor, juntamente com a minha irmã e as primas.

 

Muitas vezes sente-se incapaz de exprimir de modo adequado todo o reconhecimento que quer transbordar do coração: pede a ajuda de Maria, dos anjos e dos santos:

 

A última proibição que houve no meu caso, já não há. Depressa acabou[12]... Tudo poderia seguir como antes e eu que não mais pensasse nisso. Foi um peso que saiu de mim, que tanto me oprimia.

Ah! se todos assim compreendessem e zelassem o bom nome do seu semelhante! Eu não sabia, nem sei como agradecer o Senhor. Pedi à Mãezinha para suprir a minha falta, agradecendo-Lhe por mim.

 

“Muitos agradecimentos, meu Jesus, por tantas graças que só tenho recebido. Pedirei à Mãezinha, pedirei aos anjos e aos santos que vos agradeçam por mim. […]

Ó Mãezinha, ó anjos, ó santos, ó Céu, ó Céu, ó todo o Céu, louvai a Jesus a agradecei-lhe por mim de todas as graças que só tenho recebido. Dizei-lhe um obrigada contínuo, um obrigada eterno. ”

 

È Jesus quem vence, é Ele que tem permitido eu não cair no desespero. Queria o mundo inteiro e todo o Céu a agradecer por mim ao Senhor, e todo este agradecimento nada é para a minha gratidão a Jesus.

 

“Aceitai, meu Jesus, o meu coração reconhecido. Muito obrigada pelo fogo divino que me fazeis sentir. Se todas as almas o sentissem!

Parece-me que tenho uma enorme fornalha no peito e no coração.

Como sois poderoso e bom para comigo! Aceitai o meu sofrimento como prova do meu amor e dai-me por ele as almas.”

 

(É a festa da Assunção de 1952)

A minha Rainha, a minha Rainha, a minha Mãezinha, a minha Mãezinha, a minha querida Mãezinha! Todo o Céu está em festa, todo o Céu é amor, todo o Céu é um só hino. O Céu, o Céu, como é belo! Como eu estou unida a tudo isto!

“Ó Jesus, parece-me que estou junto ao trono da Santíssima Trindade e da querida Mãezinha. Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha, obrigada, minha Trindade divina pelos momentos deliciosos, pelo grande amor, pelo grande conforto que destes à minha alma!”

 

Aqui meditamos sobre o alcance universal do seu agradecimentos e sobre a generosidade do seu amor, que a faz desaparecer ela mesma:

 

Eu agradeço todos os benefícios que recebo, que conheço e não conheço, todos os que recebi e hei-de receber no tempo e na eternidade, que é o Céu. E agradeço os que por meu intermédio são concedidos às almas.

Agradeço por aqueles que não agradecem a Nosso Senhor, pela humanidade inteira. Mas peço a Jesus que não aceite este agradecimento como meu, mas sim como se fosse cada um a agradecer, para assim Jesus não sentir a ingratidão de nenhuma alma.

 

c) Agradecimento por qualquer acontecimento, particularmente doloroso

 

No fim de cada ano eleva louvores de agradecimento:

 

À meia-noite (31.12.1944) agradeci a Jesus por todos os benefícios recebidos durante o ano e por tudo quanto me havia feito sofrer.

Pedi aos meus que rezassem comigo um «Te Deum» de agradecimento. Terminado este, juntei: “Graças por tudo, meu Jesus, por toda a dor e por toda alegria. Perdoai as minhas ingratidões para convosco.

Que me espera agora no novo ano? Mandai-me o que quiserdes, Jesus, que eu tudo aceito, mas não me falteis com a graça necessária e dai-me todo o vosso amor.”

 

 

E no início de cada dia:

 

Todos os dias, pouco depois da Sagrada Comunhão, rezo a “Magnificat” para agradecer as dores ou alegrias de cada dia ainda antes de elas virem.

Tive alegrias, que logo morreram, e espinhos, que sempre me ficaram a ferir.

Tudo recebi como mimos de Jesus, tudo lhe ofereci e agradeci do meu coração.

“Muito obrigada, meu Jesus: fazem-me tão bem à alma as humilhações!

Para mim o vosso divino amor, e para Vós toda a glória, meu Jesus. […] Bendito sejais, meu Jesus. O meu eterno obrigada, sempre, sempre, noite e dia! Obrigada, obrigada, Jesus, na consolação e na dor, na vida e na morte.”

 

Particularmente vibrante é o agradecimento por tudo quanto a faz sofrer (ofereceu-se como vítima de expiação…):

 

No meio das minhas grandes dores e tribulações, a oração que mais me sorri é o «Magnificat».

Agradeci-lhe mais o benefício que me concedia de eu não dormir, pois assim melhor lhe podia fazer companhia e conversar mais a sós com ele, viver mais a vida dele e só com Ele desabafar.

“Eu vejo a minha miséria: graças infindas vos rendo por tão grande graça.”

 

Tanto amor ao sofrimento porque a torna semelhante ao seu Amado:

 

Quanto devo a Jesus por me ter associado aos seus sofrimentos, aos da Mãezinha e por agonizar com Ele!

Quero bendizer Jesus no tempo e na eternidade por me ter escolhido para a dor.

 

“Ó meu Jesus, que grande prova de amor me dais em me fazer sofrer assim!

Quanto tenho que vos agradecer por me assemelhardes tanto a vós. Quisera em troca dos sofrimentos que dais, dar-vos todos os corações do mundo para em meu nome vos amarem e dar-vos todas as línguas para vos louvarem e bendizerem eternamente.

[…] Obrigada, obrigada, meu Jesus, por toda a dor e por todo o amor que me dais. Obrigada, o meu eterno obrigada!”

 

d) Agradecimento de Jesus

 

No diálogo seguinte entre Jesus e Alexandrina vê-se como Jesus agradece à sua querida heroína que se imola com tanto amor, correspondendo perfeitamente ao seu desígnio de salvação.

 

Sinto-me completamente abandonada, sem ninguém.

Quero Jesus, quero Jesus; só Ele me basta. Nesta dor, neste abandono e ansiedade esperei a sua vinda a mim.

Ele veio (na Comunhão)... Uniu-me a ele e disse-me:

“Minha filha, flor mimosa, flor de Paraíso, que, vivendo e florescendo ainda na terra encantas e atrais a ti o Céu: és a alegria do Paraíso celeste. Venho a ti fortificar-te para os sofrimentos que te esperam e agradecer-te a reparação que me deste, as almas que me salvaste e a heroicidade em todo o teu sofrer.

Minha filha, minha filha, grande heroína, a tua dor escondida, os teus desabafos mais comigo que com ninguém foram hinos e incensos, honras, louvores e amor que me deste. Obrigado, obrigado, minha filha.”

“Meu Jesus, meu Jesus, ai como me custa ouvir os vossos agradecimentos! Como podeis Vós, como Deus, agradecer à mais pequenina e indigna das vossas filhas? O que fiz eu, que merecesse os vossos agradecimentos? O que sou eu, sem Vós? Atribuí tudo à vossa grandeza, e nada à minha pequenez. Sou eu, meu doce Jesus, que tenho que agradecer-vos todos os benefícios, graças e riquezas que me destes. Fostes vós, Meu Jesus, o Herói, fostes vós que tudo sofrestes[13] em mim.”

“Nada faria, minha filha amada, sem a tua fidelidade e generosidade, quero agradecer-te...”

 

“Obrigada, meu Jesus! Tenho o vosso sorriso, o sorriso deste colóquio gravado no coração. Fazei que ele seja sempre o sorriso dos meus lábios, a alegria da minha dor, a luz das minhas trevas, a força do meu calvário. Obrigada, obrigada, meu Jesus, sede sempre a minha força!”

 

 

 

 

LA FIGURA DI P.48 ED. ITALIANA (A SINISTRA)

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 2º

 

“TU EXALTAS, SENHOR, UM CORAÇÃO PENITENTE”

 (arrependimento e pedido de perdão)

 

 

Deste aos teus filhos a confortadora esperança de que,

depois dos pecados, concedes o arrependimento.                           (Sab. 12, 19)

 

Escuta e perdoa!                                                        (1Reis 8,30)

 

Não tenho prazer na morte do pecador,

mas antes que ele mude de conduta e viva!                            (Ez 33, 11)

 

Pai, pequei contra Deus e contra ti!

Ainda longe, o pai viu-o e ficou comovido.

Correu-lhe ao encontro e abraçou-o, cobrindo-o de beijos.                 (Lc 15, 18.20)

 

Desprezas as riquezas da sua bondade, tolerância e longanimidade,

desconhecendo que a bondade de Deus te convida à conversão?       (Rm 2, 4)

 

 

Chora, chora, minha alma, que as tuas lágrimas e agonias sejam de dor por não teres amado a Jesus e tanto O teres ofendido.

 

“Jesus, eu já não sou a mesma. Lembras-te do muito que te ofendi?

Agora só quero amar-te...”

 

Tenho tantos desejos de me transformar e corrigir de todos os meus defeitos: ser só aquilo que ele quer que eu seja.

 

“Perdão para os meus pecados! Perdão para todos os pecados da humanidade inteira.”

 

Alexandrina, que é verdadeiramente santa, nota com extrema sensibilidade toda a sua ainda que mínima imperfeição e sofre imensamente por ela, considerando-a uma ofensa a Deus, uma violação do amor perfeito com que quer viver cada momento da sua vida, em qualquer circunstância.

Este capítulo recolhe alguns exemplos, poucos entre muitos, em que a sua oração assume atitude de arrependimento, de propósito de conversão, de pedido de perdão.

 

 

§ 1º - ARREPENDIMENTO

 

Fui muito má ao terminar esta tarde. Desgostei-O (a Jesus) com certeza. Grande pena e dor eu tenho com isso.

É nas mais pequeninas coisas que eu mostro quem sou.

Nem sei como o meu querido Jesus tem tanta paciência comigo.

 

Parece-me que não há ninguém no mundo como eu, que não haja pessoa tão pecadora mo eu, nem que sirva tão mal o Senhor. Parece-me que não tenho nenhum fervor. Se não fossem estes fortes desejos de amar o Senhor, não sei o que seria de mim: ficaria totalmente desencorajada.

 

Chora, chora, minha alma, que as tuas lágrimas e agonias sejam de dor, por não teres amado a Jesus e tanto o teres ofendido.

Chora, minha alma, chora, para que as tuas lágrimas movam Jesus à compaixão de me incendiar no seu divino amor e fazer-me enlouquecer por ele.

 

“Vede, (Jesus) a dor do meu coração só com o receio de vos ofender.

Pago bem caras as minhas maldades: sofro, sofro imenso por ser má.”

Sinto mágoa, não por fazer-me conhecer como aquela que sou, mas por ferir o meu Jesus e dar mau exemplo.

 

“Tenho que ser, quero ser uma outra Madalena junto à cruz. Tenho que chorar e quero chorar as minhas culpas.

A minha alma sente disso necessidade.”

 

Muitas vezes pede ajuda da Mãezinha celeste:

 

“Querida Mãezinha, fazei que eu chore rios de lágrimas de arrependimento pelos meus tantos pecados, e de tantos benefícios recebidos de vós e de Jesus... […] Mãezinha, vejo-me carregada de todos os crimes! (enquanto vítima de expiação) Pedi por mim perdão a Jesus. Dai-me a dor para chorar por eles e detestá-los. Dai-me o vosso amor para eu amar a Jesus, para que ele possa com o amor esquecer tanta maldade.”

 

Uma oração de arrependimento nasce muitas vezes também da meditação sobre o contraste entre a harmonia cósmica que obedece ao Criador e a desordem e a desobediência que reinam na humanidade.

 

Tudo estava em silêncio... o mar cantava e até esse louvava Jesus e lhe obedecia estando lá nos seus confins.

“Meu Deus, tudo vos obedece; só eu me revolto contra vós, vos ofendo e vos magoo!”

 

Ao meditar nas grandezas de Nosso Senhor, no seu poder infinito, no amor que Ele nos tem, não pude conter as lágrimas. E ao ver a minha ingratidão e a ingratidão do mundo dizia: “Ó Jesus, não sei como já não deixaste o Sacrário e voaste para o Céu deixando-nos sozinhos na terra.

O sol obedeceu-vos e escondeu-se; a noite obedeceu-vos e apareceu com o luar e as estrelas. Como tudo isto é belo! E tudo por meu amor.

Tudo vos louva; deixai-me unir a todos os seres que agora Vos louva, quero louvar-vos também.

Que tristeza! Só os homens vos ofendem!

 

Ai! Ai! o que é uma ofensa feita ao meu Senhor! E o que é o mundo, o mundo de pecado contínuo!

Se eu pudesse, à custa do meu sangue, pagá-los todos para alegrar a Jesus e dar-lhe as almas!

 

Desejaria retirar-me para um deserto onde pudesse não ser vista para fazer penitência por aqueles que a deveriam fazer e não fazem... para provar a Jesus que o amo por todos o que não o amam.

 

 

§ 2º - PROPÓSITO DE CONVERSÃO

 

Mas a contrição, o arrependimento, o choro pelo próprio pecado não têm valor se não são seguidos da vontade de emenda de vida.

Alexandrina, é óbvio, sente fortemente esta necessidade.

 

Tenho tantos desejos de me transformar e corrigir de todos os meus defeitos, ser só aquilo que ele quer que eu seja.

 

“Ó Jesus, corrigi-me dos meus defeitos, não me deixeis ofender-vos.”

De repente Jesus responde encorajando-a sobre a eficácia do arrependimento:

“Ó minha filha, enquanto estiveres no mundo, não podes deixar de ter imperfeições. Confia em mim: com elas me consolas.

Não posso repreender-te de tais defeitos ao ver a tua dor, o teu arrependimento.”

 

“Jesus, eu já não sou a mesma. Lembras-te do muito que te ofendi? [14] Agora só quero amar-te, só quero acompanhar-te no caminho doloroso da tua santa Paixão.”

 

 

§ 3º - PEDIDO DE PERDÃO

 

O arrependimento e a vontade de conversão desaguam no pedido de perdão.

Também por esta razão Alexandrina pede muitas vezes a ajuda da Mãezinha celeste.

 

“Ó Mãezinha, pedi perdão a Jesus por mim! Dizei-lhe que é o filho pródigo que volta a casa do seu bom Pai, disposta a segui-lo, a amá-lo, a adorou-lo, a obedecer-lhe e a imitá-lo. Dizei-lhe que não quero mais ofendê-lo.

Ó Mãezinha, obtende-me uma dor tão grande dos meus pecados, que seja tal o meu arrependimento, que eu fique pura, que eu fique um anjo! Pura como fiquei depois do meu Baptismo, para que pela minha pureza mereça a compaixão do meu Jesus, de o receber sacramentalmente todos os dias e de possuí-lo para sempre em mim até dar o último suspiro.”

 

Pede perdão para toda a humanidade, à qual se sente intimamente ligada:

 

“Ó meu Jesus, ó meu Jesus, perdão, perdão, perdão para os meus pecados. Perdão para os pecados da humanidade inteira! […]

Meu querido Jesus, eu queria prostrar-me aos vossos santíssimos pés receber de vós todos os sofrimentos e de vos implorar e obter o perdão e a misericórdia para o mundo.

Não vos posso ver sofrer, nem ver as almas perderem-se. […] Dizeis que sois justiça, mas eu agora só em vós vejo amor! Dizeis que sois justiça, eu agora só sinto que sois misericórdia.

Peço-vos perdão, meu Jesus, para todos quantos vos ofendem, peço-vos perdão, meu Jesus, para todos quantos me ofendem a mim. Perdão, perdão, meu Senhor, perdão e a salvação!”

 

Insiste em particular por aqueles quer a fazem sofrer, pelos quais acrescenta sacrifícios à oração.

 

Rezava o “Pai-nosso” e ao dizer “seja feita a vossa vontade assim na terra como Céu”, no íntimo do meu coração pedia perdão a Jesus por aqueles que me ofendem.

 

Devo rezar por eles: quero que Jesus lhes dê amor, quero que lhes dê o Céu.

“Perdoai-lhes, Senhor, que não sabem o que dizem. […] Sede a luz da minha vida e dai luz a quem não a tem. […] Vede, Jesus, o que desejo para todos aqueles que me fazem sofrer, o que desejo para mim. Vede que sinto não poder mais, mas, ainda assim cruelmente ferida[15], não sinto no meu coração a mais pequena revolta, o mínimo ódio contra eles. Pelo vosso amor, para que se salvem as almas, perdoai-lhes tudo.”

“Vou-me vingar e vou-me vingar com toda a força de todos aquelas que me fizeram sofrer. Sabeis como, meu Amor? Com orações mais fervorosas, com todos os meus sacrifícios a fim de que eles vos conheçam e vos amem. Se Vos amassem como vós quereis, não se teriam comportado assim. Perdoai-lhes, meu Jesus. Eu, sem vós, sem a vossa graça, julgo-me capaz de muito mais do que tudo o que dizem de mim; se vós me deixásseis só um momento, seria suficiente para que eu praticasse os maiores crimes. […] Se não fosse pela vossa graça, as ofensas que me fazem a mim, fá-las-ia eu aos outros; sou tão miserável! Pobre de mim sem vós!”

 

Sente até reconhecimento por aqueles que a fazem sofrer, pois a aproximam mais de Jesus.

 

“Eu não tenho só de agradecer àqueles que me humilham e me ferem: abriram-me um novo caminho para que eu vos siga mais de perto, com maior perfeição e amor. […] Nunca fui ferida tão cruelmente, mas em vez de esfriar na minha fé, na minha confiança, no meu amor para convosco, mais me sinto atraída por vós. Tudo me convida a amar-vos, tudo me inspira a pedir-vos perdão para os que me fazem sofrer. […]

A tudo quero sorrir; e seja sempre e primeiro de tudo para vós este sorriso.”

 

Ai, os homens são tão maus! Rezemos por todos. Talvez sem querê-lo, nos tenham aumentado a glória no Céu!

 

O amor de Jesus é o seu único fim, sempre presente em cada sua atitude.

 

Quantos me odeiam e desprezam! Quantos me caluniam!

Ao interrogar-me a mim mesma dizendo: que mal lhes fiz eu?, logo me vem ao pensamento: que mal nos fez Jesus, a não ser amar-nos e morrer por nos?

E logo me sinto obrigada a perdoar-lhes e a repetir muitas vezes: “Perdoai-lhes, meu Jesus, permiti que se convertam e se abracem no vosso divino amor!”

Ao seu Amado que lhe diz:

“Eu farei que aqueles que te atormentam cheguem a sentir em si horríveis remorsos.”

Responde:

“Meu Jesus, perdoai a todos! Que esses vos amem, não digo como vos amo eu, mas como desejo amar-vos: que todos se apaixonem loucamente por vós, como eu queria apaixonar-me loucamente!”

 

Seguem-se fragmentos do êxtase de 1953, de carácter púbico, em parte cantado; por isso apresentam algumas repetições.

 

“Quantas vezes te ofendi, ó Senhor,

Quantas vezes te ofendi, ó Senhor!

Eis-me aqui aos teus pés,

Eis-me aqui aos teus pés,

Contrito, contrito e humilhado, Jesus!

Perdão, perdão, perdão, ó Senhor!

Perdão, perdão, meu Pai,

Meu Pai e meu Criador!”

 

“Só por teu amor, só por teu amor,

Estou aqui, Jesus, contrito e arrependido.

Dá-me o teu amor, dá-me o teu amor,

Dá-me o teu amor, dá-me o teu perdão!

Dá-me o teu perdão, ó Jesus, ó Jesus, ó Jesus!”

 

“Jesus, Jesus, sei bem, Jesus, sei bem,

Que não sou mais digno do meu Pai, do meu Pai,

Nem de chamar-vos «meu Deus, meu Deus».

Sei que fui, sei que fui um filho indigno,

Indigno: que quis só,

Que quis só entristecer o meu Pai,

Que só soube entristecer o meu Pai.

Perdão, Jesus, perdão, Jesus, perdão,

Jesus, perdão, perdão, Jesus!”

 

KYRIE ELEISON!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPITULO 3º

 

 

“INVOCAI-ME!”

 

A vós suplico, Senhor!

Não sejais surdo para mim

Não suceda que, perante o Vosso silêncio,

Eu seja como aqueles que descem ao túmulo.               (Sal. 27, 1)

 

No dia em que Vos invocar Vós me atendeis,

Acrescentais as forças da minha alma.                          (Sal 137, 3)

 

Os apóstolos disseram ao Senhor:
“Aumenta a nossa fé!”                               (Lc 17, 5)

 

Não vos angustieis com o que quer que seja,

mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus,

com muita oração e preces e com acções de graças.      (Fil 4, 6)

 

“Dai-me, Jesus, luz para sofrer como quereis.

Dai-me força para tudo sofrer...”

 

“Não Te peço que operes em mim maravilhas que se vejam:

peço-Te a maravilha e riqueza do teu amor.”

 

 

Eu pedia à Mãezinha que me desse a sua graça, a sua resignação, o seu amor à cruz e a Jesus.

 

“Ó Mãe de Jesus, dá-me o teu amor para amar com ele o teu e meu Senhor!”

 

Poderá parecer estranho o título: pedido de invocação que parte de Deus mais que do homem.

A oração de súplica brota espontânea do coração do homem, especialmente quando está oprimido pela dificuldade, ferido por dores, atormentado pela incapacidade de decidir, ciente de a não fazer sozinho.

Todavia são numerosíssimos os êxtases em que Alexandrina ouve Jesus que lhe pede que o invoque: invoca-me pelos pecados, invoca-me pelos sacerdotes, invoca-me pela humanidade, invoca-me pelas almas do Purgatório. E o Novo Testamento está cheio de exortações de Jesus à oração de súplica.

Não é certamente Deus que tem necessidade destas nossas orações! Por isso, em rigorosa lógica, nem um verdadeiro cristão deveria ter necessidade de suplicar; de facto Deus conhece ainda melhor que nós as nossas necessidades; além disso, ama-nos, por isso dá-nos tudo para nosso bem, desde que a nossa vontade livre não se oponha.

Mas o rigor da lógica é bem pouca coisa frente às realidades mais profundas que superam a lógica!

Deus sabe como somos feitos e ama-nos, por isso sabe quanto nos é necessária a oração de súplica, quando é bem feita.

De facto, em primeiro lugar coloca-nos na condição de quem pede, por isso torna-nos humildes perante o Criador de quem dependemos, queira-se ou não; depois dá-nos o conforto de nos sentirmos amados com a confiança de sermos ouvidos.

A oração de súplica não é com certeza ser entendida como um pedido que quer forçar Deus a fazer a nossa vontade, a secundar um nosso desejo, qualquer que ele seja. Em tal forma o pedido não é sequer oração! Para ser verdadeira oração, deve ser a expressão duma dependência amorosa da criatura para o Criador com o qual tende a conformar-se, aspirando àquela união que deve ser a meta de todo o cristão.

Deve por isso surgir de um coração humilde e amante que se abre em toda a sua profundidade e se confia ao Pai a quem exprime as suas necessidades, com a confiança de que – no momento oportuno – será favorecido, se isso não estiver em oposição com o Bem sumo, isto é, com a vontade de Deus.

Tal vontade realiza sempre, mas Deus quer que os seus «filhos» participem vivamente, unindo-se, com o pedido, à sua vontade.

 

I. GENERALIDADES SOBRE A ORAÇÃO DE SÚPLICA DE ALEXANDRINA

 

A oração de súplica de Alexandrina é um modelo belíssimo, no sentido de quanto dissemos acima. As suas súplicas dirigidas ao Céu têm todas um fim espiritual, mesmo nos casos de pedidos de cura (veja-se, no capítulo 4º, § 2º), mesmo no caso único de ajuda económica (para livrar a casinha da hipoteca, (veja-se § 2º deste capítulo), todas se orientam para a maior glória de Deus a salvação das almas.

São portanto súplicas «conformes» ao pensamento e ao desejo de Jesus e quase sempre dirigidas a ele como mediador junto do Pai[16]: pode-se pois dizer que tais súplicas são feitas «em nome de Jesus».

Quando aliás não está segura que o seu pedido seja segundo a vontade de Deus, como por exemplo nos casos de cura, a sua súplica assume a forma de um desafogo confiante, de um grito de angústia às vezes, mas termina sempre com «seja feita a vossa divina vontade», segundo o exemplo oferecido pelo divino Mestre, particularmente durante a sua agonia no Getsémani.

Continuando o discurso geral sobre a sua oração de súplica, acrescentamos que nela se notam as seguintes características:

a oferta: quando pede, oferece em troca. No entanto, no seu papel de vítima de expiação, é já toda uma oferta; depois, em casos particulares, oferece sacrifícios suplementares, como veremos;

a humildade de quem se sente pequeníssima, um nada frente Àquele a quem se dirige;

a confiança na misericórdia de Deus, que nasce do amor mútuo;

a insistência no pedir, insistência que é solicitada pelo próprio Jesus, como vemos também no Evangelho.

Tudo isto é posto bem em evidência no fragmento seguinte, tirado do diário de 1 de Fevereiro de 1952:

“Ó Jesus, dai-me tudo, dai-me tudo para eu sofrer, desde que me deis a vossa graça, o vosso Amor, mas atendei às minhas preces, atendei, atendei, Jesus, não olheis a esta pobre, a mais pobre e miserável, que vos pede, mas olhai às vossas divinas promessas e à vossa exigência em me mandardes pedir-vos. Peço, Jesus, peço e confio.”

Jesus responde:

“Pede, pede, minha filha; se tu soubesses o que seria se não sofresses, se não pedisses! Pede-me, pede-me, não desanimes!”

 

Em Alexandrina encontra-se ainda um belíssimo exemplo daquela que é «a comunhão dos santos». De facto sente-se unida quer à Igreja militante quer à Igreja triunfante.

 

Só com as orações do meu paizinho (P.e Pinho) e de todas as almas boas que por mim pedem é que eu posso ter coragem para vencer.

 

Quero levar a minha cruz com perfeição, quero com a mesma perfeição praticar a caridade, fazer o bem, consolar a todos por amor de Jesus, mas não posso senão com a ajuda do Céu e com as orações das almas santas.

 

“Meu Deus, que luta[17] tremenda! Ai de mim sem vós, Jesus. Mãezinha! Valei-me: sou vossa vítima. Ó Santa Teresinha, Santa Gema, São José e santos meus queridos, valei-me! Ó Céu, ó Céu, conto contigo.”

 

Para exprimir a sua intimidade com Jesus e com Maria – realizada às vezes, muitas mais vezes pedida - recorre frequentemente às imagens típicas da linguagem comum (entrar no coração, cruzar os olhares…), que têm poder de expressão compreensível por todos.

 

“Já que na terra me barram todos os caminhos, deixai-me, Jesus, deixai-me, Mãezinha, entrar nos vossos corações amantíssimos. Embora não sinta nada, deixai-me ao menos a certeza de que vivo neles. Ali estou livre de ódio e perseguições; ali estou certa que vos amo e não vos ofendo. […]

Volvei para mim os vossos divinos olhares, que eu quero fixar para sempre os meus nos vossos. Tende compaixão, tende piedade!”

Que dias tristes, que dolorosa amargura, que horas trágicas e de tanto sofrimento! O meu olhar fixo em Jesus e na Mãezinha falava mais que os meus lábios: era para pedir-lhes socorro.”

 

Com os olhos fixos no Céu, o coração gritava pedindo socorro a Jesus e à Mãezinha: era tão pequenino para sofrer tanto!

 

“Ó Jesus, ó Mãezinha, ó Pai, ó Espírito Santo, acolhei os meus pedidos, acolhei as minhas súplicas! Não as nomeio, Jesus, não as nomeio, Mãezinha, não as nomeio, minha Trindade adorável, mas mostro-vos o meu coração: estão lá todas presentes. Acolhei-as!”

 

 

 

II. SÚPLICAS PARA NECESSIDADES PARTICULARES

 

§ 1º - PARA DITAR O DIÁRIO

 

Alexandrina não pode fugir ao martírio sofrido por todos os místicos, obrigados pelos directores espirituais a ditar ou a escrever quanto sentem na alma.

Dois são os motivos de tormento: as condições físicas que lhe tiram as forças e, sobretudo, a impossibilidade de traduzir na linguagem humana certas experiências que têm carácter divino.

 

Faltam-me as forças para falar; todo o meu corpo está moído pela dor. Ó santa obediência, que tudo vence!

 

Venha sobre mim a graça do Senhor, ilumine-me a luz do Espírito Santo para que eu saiba obedecer e ditar alguma coisa do muito que a minha alma sofre!

 

Fico num sofrimento inaudito por não poder descrever neste caderno o que está gravado neste livro sem fim que tenho no coração.

 

“Ó Céu, ó Céu, vinde em meu auxílio, fazei luz na minha cegueira, nas minhas trevas e compreensão nas minhas palavras, que nada dizem por ignorância!”

 

 

§ 2º - PARA SALVAR A CASINHA

 

O único caso de pedido de ajuda económica foi para libertar a casinha da hipoteca[18]. Mas mesmo este pedido tem motivos espirituais: o amor à mãe e à irmã, que ficariam sem lar (quanto a si crê, que esteja perto a morte) e o amor a Jesus, que se exprime através da acção poética da oferta das flores para o altar, cultivadas nos seu jardim.

Transcrevemos aqui um trecho da autobiografia:

 

Eu pedia quase continuamente a Jesus que nos valesse e, no fim da Sagrada Comunhão, dizia a Jesus: “Vós dissestes: pedi e recebereis; batei e abrir-se-vos-á. Eu peço e hei-de ser ouvida; bato e hei-de ser atendida. Ó Jesus, não Vos peço honras, grandezas, nem riquezas, mas peço-vos que nos deixeis a nossa casinha, para que minha mãe e irmã tenham onde viver até ao fim da vida, para que minha irmã tenha onde colher as florinhas para compor o Vosso altar na igreja, aos sábados. Ó Jesus, todas as florinhas são para vós. Jesus, acudi-nos, que perecemos! Levai esta notícia longe[19], a quem nos possa acudir! Não os peço este nem aquele meio, porque não sei! Confio em vós!”

 

 

§ 3º - ESPERANDO OS MÉDICOS E TEÓLOGOS

 

Para que o leitor se dê conta da atitude de Alexandrina frente aos exames do género, escolhemos um trecho (do diário de 26/11/1946) que nos parece exaustivo na sua completude.

 

Tive conhecimento que amanhã, domingo, vou ter um novo exame de médicos e teólogos. Pareceu-me o sangue gelar-me nas veias....

Para ter forças para sofrer (e quem mais precisava delas?) para poder resistir a tudo, dei algumas esmolas e, voltada para o Sagrado Coração de Jesus, disse-lhe: “Dai-nos forças, meu Jesus, dai-nos coragem, dai-nos luz e dai luz aos cegos! A verdade só a verdade, meu Jesus!”

E fiquei muda a contemplá-lo na cruz e ao seu divino Coração. Quanto tinha ali que aprender!...

Chegou o dia 24. Cedo ainda, mobilizei todo o Céu para intercederem por mim junto do trono Divino. Tinha tanto medo!...

Na Santa Comunhão, que fiz o mais possível pura e fervorosa, abandonei-me nos braços de Jesus e nos da Mãezinha; fiz uma entrega total para sofrer ali, para amar ali. Não deixei de pedir-lhes que me dessem forças e me socorressem.

Passavam-se as horas, e eu sem sentir nenhum conforto do Céu! O coração estava como que dentro dum mundo de bronze. Que negra escuridão! Ali ninguém podia entrar...

Que aperto, que opressão que não o deixava respirar em palpitar! E o sangue, de quando em quando, parecia gelado em todo o corpo.

Com o meu espírito firme em Jesus e na Mãezinha, dizia-lhes: “É por vós, venha o que vier, quer gele meu sangue quer não, não saio dos vossos braços: e por quem sois, não permitais que a tempestade me arranque deles.”

 Por vezes sentia-me como que arrastada ao longe pela fúria dos ventos.

Fiz todo o possível por encobrir o meu medo e a minha dor, para não ser causa dos meus sofrerem.

Ao chegarem os que tanto temia, ainda sem os ver, quis respirar e o meu coração não tinha força! Que momento sem vida!

Apontaram-me para a Mãezinha (foi o Dr. Azevedo a apontá-la) e disseram-me: “Coragem!”

Fitei-a e balbuciei: “Mãezinha, valei-me!”

Todo o medo desapareceu. Senti uma vida nova. Em todo o tempo do exame, estive forte e quase me esqueceu que estava a ser observada.

De quando em quando a minha alma queria irromper em cânticos de louvor a Senhor, queria entoar-lhe hinos; algumas vezes parecia-me que faltasse só que se ouvisse a minha voz.

Não perdi a minha união com Deus: no meio de dores quase insuportáveis, não parava de oferecê-las.

 

 

§ 4º - PARA APRENDER A SOFRER BEM

 

No arrebatamento amoroso de vítima, quer dar o máximo: quer viver com perfeita completude o seu martírio, por isso invoca a ajuda de Jesus.

 

“Tende dó (Jesus) de quem sofre e não sabe sofrer, assim como eu! Dai-me luz para sofrer como quereis. Dai-me força para tudo sofrer, só com o fim de Vos salvar as almas e de Vos amar com um amor puro e abrasador como os serafins!... […]

Inventai, Jesus, meios novos com que eu vos ame. A ciência humana descobre tantas invenções para o mundo e para o vosso divino amor eles (os homens) não inventam nada! Jesus, eu quero amar-vos: ensinai-me! Quero viver sempre na escola do amor.

Aqui não posso, aqui não sei amar-vos. Só no Céu, só no Céu compreenderei tudo, só lá poderei amar-vos com o amor que desejo. […] Ó meu Jesus, sois o meu Senhor, sois o meu tudo e eu sou nada e nada quero ser por amor de vós.

Ensinai-me sempre; pelas minhas misérias não sou digna que sejais o meu mestre, mas confio que não desprezais o meu nada e de mim tendes compaixão.

Dai-me a vossa graça, guiai-me sempre pelos vossos caminhos.”

 

Um dos atributos do sofrimento suportado com perfeição é o ocultamento do próprio padecer. E a Alexandrina pede também isto.

 

“Meu Jesus, meu Jesus, ensinai-me a sofrer o mais possível em silêncio e a esconder o mais que puder a minha dor!” […]

Jesus, dai-me as vossas forças divinas: quero esconder a minha dor e sem elas nunca conseguirei.

Chore o meu coração noite e dia, se assim o quereis, mas alegrem-se os meus olhos, sorriam-se os meus lábios.”

 

 

§ 5º - PELA SUA CONVERSÃO

 

Em toda a sua vida terrena, particularmente desde o início da sua vida de doente, é animada do desejo de progredir na ascese espiritual sem interrupção, até se tornar santa.

Naturalmente, bem consciente de o não conseguir sozinha, pede ajuda ao Céu.

 

“Ó minha querida Mãe do Céu, ó Refúgio dos pecadores, dizei a Jesus que quero ser santa! […]

 Jesus, peço-vos para ser santa, como vós o quereis, se o quereis. Peço-Vos para amar-vos tanto como vosso divino Coração deseja. […] Ó meu Amado, transformai os meus gelos no amor mais ardente para que possais ser amado por todos os corações! Transformai a minha dureza em dor de arrependimento a fim de que não possa haver mais corações na terra que tornem a ofender-vos!”

 

Estou tão longe de ser perfeita, de tratar com todos a caridade de Jesus.

“Ajudai-me, meu Amor, a converter-me deveras para vós, assemelhai-me deveras ao vosso divino Coração. Que ânsias eu tenho de vos amar e amar o meu próximo! Que fome de vosso amor, que fome de perfeição, que ânsias do Céu!

Tenho medo de mim mesma, temo-me em tudo e por tudo.”

 

"Meu Deus, meu Deus, que luta, que sofrimento, que combate entre mim e o ter que ser. A minha natureza a revoltar-se e a ansiedade de só querer a vontade do meu Senhor!

Eu chamo, eu chamo por Jesus e pela Mãezinha, peço-lhes a doçura, a mansidão, a paciência dos seus divinos Corações. Peço ao divino Espírito Santo que me ilumine e me assista.

E, apesar disto, ó meu Deus, quantas impaciências, quantas imperfeições, o que tenho em mim de defeitos!

 

“Ai, Jesus, quanto custa querer aceitar a cruz e todo o martírio pelo vosso divino amor e não ter forças para tudo abraçar! Quero, quero e amo a dor, mas sinto que já não é para mim o sofrer, não tenho forças, desfaleci: a dor foi muito mais além do que o meu poder.

Eu sou, meu Jesus, a maior miséria, o mais pequenino nada e nada posso sofrer sem vós e sem vós mover-me para bem algum.

Vencei, meu Amor, sofrei em mim com a vossa perfeição, movei o meu coração à vossa caridade, fazei-me humilde, assemelhai-me ao vosso!”

 

 

§ 6º - PEDE AMOR, GRAÇA E FORÇA

 

O seu desejo de amar não pode ser satisfeito só pelas suas capacidades humanas: intui que o verdadeiro, puro amor do homem é uma centelha do amor divino, por isso pede a Jesus que lhe dê o seu amor e o amor de Nossa Senhora, com o qual só poderá amar de modo menos adequado e poderá ainda ter força e a coragem para levar a sua pesada cruz com alegria espiritual.

As suas expressões «peço amor», «dai-me amor», dirigidas a Jesus e a Maria, quase nunca têm o sentido de que quer ser amada, mas que pede capacidade para amar em sumo grau, pede capacidade de amor para derramar de novo sobre o Céu e sobre a humanidade.

 

Queria dar todo o meu sangue… para receber de Jesus o mais pequeno raio do seu amor divino. Suspiro, suspiro noite e dia por este amor.

Fixo os meus olhos por muito tempo no Coração santíssimo de Jesus, peço-lhe confiante mas cheia de vergonha pela minha miséria: “Meu Jesus, daria a terra, daria o Céu somente para amar-vos.”

Mas a minha oração parece não ser ouvida. Tenho que pedir tão insistentemente até vencer o Coração de Deus. Ele, num instante, pode fazer tudo: transformar o nada em qualquer coisa, a frieza no seu amor divino.

 

“Jesus, tem dó, compadece-te de mim, enriquece este meu nada, enche-me do teu amor!

Não te peço que operes em mim maravilhas que se vejam: peço-te a maravilha e riqueza do teu amor. […]

Dai-me, ó Jesus, o fogo do vosso santíssimo Coração. Sede a minha força, dai-me a vossa paz!”

 

Vou para a janela para contemplar a noite, o sacrário[20]: “Ó Jesus do sacrário, ó Jesus do Paraíso, vale-me, acode à tua filhinha! eu quero amar-te e não tenho amor. Dá-me o amor que Te prendeu ao sacrário, dá-me o amor que te levou a tudo criares para mim, dá-me o amor da Mãezinha, dá-me o amor de todo o Céu: é com esse amor que Te quero amar e é com esta dor imensa que quero consolar e desagravar o teu amante Coração... […]

Eu adoro-te no teu trono, no Paraíso e nos sacrários, nas tuas prisões de amor.

E tu inclina-te para mim, compadece-te do meu pobre coração e abraça-o mais de momento para momento nos raios do teu amor. Quero que nasçam, de momento a momento, do meu coração para o teu, raios de amor em tanta abundância como a água que continuamente nasce das fontes.”

 

Pede também a graça divina, que lhe dê força sem a qual lhe é impossível resistir no seu crescente martírio.

 

“Quem poderá viver assim, meu Jesus? Dai-me vossa graça sem a qual a vida neste exílio é desespero, é morte. […]

Meu Jesus, sofro tudo sem condições excepto a do vosso amor, da vossa graça e força: sozinha não posso; tenho medo, meu Jesus! […]

 Aqui me tendes, Jesus, para tudo, para tudo. Vós sabeis bem que não sou capaz de sofrer sem a vossa graça e força: dai-ma com os sofrimentos!”

 

Quando a minha alma está desalentada, nos momentos mais tristes e dolorosos, vou quase a dizer a Jesus: não posso mais. Não chego a completar a frase, logo que reflicto o que vou a dizer: sai-me do coração um impulso fortíssimo que me obriga logo a bradar: “Posso, posso, meu Jesus, posso tudo com a vossa graça. Dai-me mais dor ainda, se vos apraz, com ela dai-me o amor e a vossa graça e força. Só em vós espero, só com vós conto.”

Quero, entre os espinhos e dores, abrir um caminho para que venham a vós todas as almas.

Sou vossa, Jesus. Não recuseis o amor; com a vossa graça prometo-vos não recusar mais a dor. […]

Jesus, dai-me a graça de vos ser fiel, dai-me a graça de corresponder ao vosso divino amor! […] Meu Jesus, não me falteis! Fazei que vos seja fiel até à morte.”

 

 

§ 7º - PEDE AUXÍLIOS PARA A CRUCIFIXÃO

 

Porquanto o fenómeno místico do reviver fases da Paixão de Jesus se repita periodicamente, a natureza humana sofre cada vez repugnância e terror: certamente não há habituação!

Assim, todas vezes Alexandrina invoca a ajuda divina.

 

“Corre para mim a sexta-feira a passos de gigante! Bem-vindo seja o que é por Vós.

Velai por este nada, compadecei-vos desta miséria, miséria sem igual! Sou sempre a vossa vítima, meu Amor.”

 

Dentro do meu peito está gravado o Calvário: é dolorosíssimo todo o sofrimento dele.

Mas os meus lábios só querem balbuciar: “mais, mais, meu Jesus, mais.”

A vontade vai louca a aproximar-se da crucifixão; o corpo, a pobre natureza arrepiante quer retirar-se, não tem coragem para tanto. A hora aproxima-se. “Sede vós, ó Jesus, toda a força da vossa filhinha que aparentemente se sente de tudo e de todos abandonada. […] Meu bom Jesus, meu doce Amor, tenho chorado com o medo à minha crucifixão. Ai de mim e pobre de mim, sem

vós! Não me falteis, por quem sois, com a vossa força divina: eu não tenho força, a minha vida está perdida...

Aceito por vosso amor, aceito pelas almas. Revesti-vos de mim, vivei em mim, movei o meu corpo sem vida[21].

Está próxima a crucifixão: não me falteis, meu Jesus, dai-me graça, força e amor!”

(Depois da crucifixão)

Jesus, não me falteis com as vossa forças para que eu possa descrever o melhor possível o que sofrestes na vossa Santa Paixão e a vossa protecção e amor para esta pobrezinha. É para vossa maior glória e proveito de todas as almas.”

 

 

§ 8º - PARA AS LUTAS CONTRA SATANÁS

 

Alexandrina teve de lutar contra forças demoníacas durante toda a sua vida de martírio, com intervalos mais ou menos tormentosos.

O seu temor foi sempre o de pecar por falta de forças para resistir às tentações.

 

O demónio vem perto de mim como para me assaltar, ameaça-me dizendo-me: “Hei-de destruir o teu corpo”, e acrescenta muitas coisas feias....

“Meu Jesus, o pai da mentira não me deixa! É meu inimigo, mas também vosso.

Preciso de amparo: dai-me coragem, não me deixeis pecar.

Sou muito pobre: dai-me a vossa riqueza; sou cega: dai-me a vossa luz. Sou vossa, Jesus, e sou das almas.”

 

O demónio anda como os ladrões a formar os seus assaltos; atormenta-me sem dó nem piedade. Nem posso pensar nas coisas que ele me diz, tão feias, tão criminosas, contra mim, contra as pessoas da minha maior estima e contra Jesus, que é o que mais me aflige...

Não sei como o coração não me abre o peito, com tanta força que bate.

Quando me parece morrer é que eu chamo mais facilmente por Jesus e pela Mãezinha; se não é com os lábios é com o coração e com o pensamento. Mas é ao terminar da luta, ao fim do perigo, pois antes o maldito raras vezes me deixa.

Quem poderá acudir-me? Que socorro posso esperar, a não ser do Céu? Pobre de mim!”

 

“Não pecarei, meu Jesus? Tirais por acaso disto algumas consolações para vós, algum proveito Para as almas? Eu sou a vossa vítima. Guardai para vós o meu coração, o meu corpo e a minha alma. Tende piedade de mim, meu Jesus!”

 

“Via Satanás como rei sentado em meu coração: era o senhor dele, era senhor das minhas paixões, senhor de tudo. Assim entregue a ele, sentia que não fazia o mais pequenino esforço para dele me libertar. Que horror!

Jesus, Mãezinha, sede Vós Senhores do meu corpo, da minha alma e da minha vontade, para que só a Vós pertença e não Vos ofenda.

Não quero pecar, não quero pecar, ó Jesus, ó Mãezinha valei-me; quero ser só a vossa vítima.”

 

Jesus sossega-a sempre: é uma forma de reparação que não ataca a sua pureza.

 

“É grande o martírio, é, minha filha, eu bem sei: é martírio de amor, é martírio de reparação.

Só podia receber da tua alma bela e pura, só podia do teu corpo virginal receber esta consolação[22], esta reparação.

Custa-te muito? Só assim é que me dás tudo. Coragem, tu não me ofendes.”

[…] “Minha filha, entre ti e o demónio há uma grande distância: no meio de vós estou Eu....”

Coragem, minha amada, minha pomba bela. És minha, toda minha, o teu corpo é puro, é inocente, é imaculado para mim.”

 

 

§ 9º - PARA QUE O P.e PINHO VOLTE A DIRIGI-LA

 

Em 7 de Janeiro de 1942 tem lugar a visita de despedida do seu director P.e Mariano Pinho, impedido pelos seus superiores de dirigi-la.

A separação provoca um dos sofrimentos maiores, mas suscita também impulsos elevadíssimos de generosidade na imolação, de amor a Jesus.

 

Ia recordando (são 20.2.1942) a retirada que me fizeram do meu pai espiritual...

“Meu Jesus, dexai-me repetir convosco: «A minha alma está triste até à morte». Perdi a luz, perdi tudo.

A tua bênção e o teu perdão, meu Amor! […] Perdoai, meu Jesus, àqueles que me fazem sofrer e dai-me o meu pai espiritual ao menos na hora da minha morte, a fim de que pela última vez lhe abra a minha alma. Confio, Jesus, que não esquecereis o meu pedido…

Perdoai-me, Jesus, dai-me a vossa bênção!”

 

Em Dezembro de 1945, ouve falar do possível envio do P.e Pinho para o exílio.

 

Lágrimas, oferta de vítima, “Magnificat”, louvores ao Senhor, era o meu entretimento de todas as horas.

Mas, ai! Em quantas me parecia vacilar, desesperar!

Por grande espaço de tempo repetia sempre: “Jesus, Mãezinha, tende dó, valei, valei à vossa pobrezinha! […] Jesus, sabeis bem que toda a minha preocupação, todo o meu martírio é para vós, é para as almas, não é para mim[23].

Passasse eu pelo que passasse, mas não sofresse a vossa divina Causa, não sofressem as almas!

Jesus, aceitai tudo isto a fim de que o meu pai seja libertado, devolvido à minha alma, devolvido às almas.

Jesus, Jesus, não me deixeis vacilar! Pobre de mim, não tenho ninguém, não tenho luz, não há quem me console!

Jesus, mandai-me alguém para conforta da minha alma!”

Eu pedia consolação não para minha alegria, mas para vencer sem desagradar a Jesus.

 

Em 20 de Fevereiro de 1946, o P.e Pinho parte para o Brasil, seu lugar de exílio, onde morrerá sem mais voltar.

No diário de 26 do mesmo mês lê-se:

 

“Os meus olhos não podem estancar as suas lágrimas, lágrimas de conformidade, lágrimas de paz, lágrimas de amor. Enquanto os olhos choram, a alma levanta-se, prostra­-se diante de Jesus, une-se a Ele, sorri-lhe e é como se tivesse braços, estende-os para se deixar crucificar e na maior tranquilidade, da melhor vontade, diz a Jesus: “Quero, aceito a imolação, o sacrifício por vosso amor. Faça-se, ó meu Deus, a vossa vontade divina e salvai as almas!

Quero esconder a minha dor o mais possível; basta que ela seja vista e conhecida por vós.

Jesus, Jesus, sinto-me tão sozinha, sem apoio, sem um auxílio amigo: parece que todos me fugiram envergonhados de mim.

E o que posso eu temer, se vos tiver a vós? Para quem vivo? Para quem é que eu sofro senão por vós?

Não me falteis, Jesus, amparai-me sempre com a querida Mãezinha!”

 

Na noite de Natal deste ano (1946) escreve com seu próprio punho, com enorme sofrimento de corpo e alma, uma carta ao menino Jesus. Eis alguns extractos:

 

“Doce e querido Jesus, em espírito prostrada humildemente, sentindo o vosso presépio, venho adorar-vos e entregar-me inteiramente a vós, para mesmo aqui, neste momento, morrer para mim e para o mundo. Oh, sim! Quero Jesus, para viver inteiramente para vós, para dar-vos a prova não do amor com que vos amo, porque é tão pouco, mas sim daquele com que vos queria amar. Jesus, fazei que tudo quanto se dirá sobre mim, seja de louvor, seja de desdém, eu o tome como se não me dissesse respeito: que eu fique como um cadáver que não fala, não ouve, não sente[24].

Se os médicos com suas experiências me abreviarem os dias de vida, eu aceito contente e perdoo-lhes de todo coração.

O que vós quiserdes é o que eu quero, meu Jesus. A vossa vontade, a vossa glória e vosso amor. Vós, só vós, meu Jesus.”

 

Não cessará nunca a necessidade de ter ajuda do P.e Pinho, antes aumentará. Eis alguns breves fragmentos do diários de 1955, último ano de vida terrena.

 

"Tende piedade do meu nada (Jesus)! Não vos esqueçais de todos os meus pedidos. Fazei que me seja devolvido o meu pai espiritual. Sinto-me desfalecida, não posso mais: são exigência da alma, não minhas, sabei-lo bem. Creio, Jesus, espero em vós. […] Ó Jesus, alegrai-vos vós e dai-me a mim a tristeza. Perdoai ao mundo, perdoai aos meus amigos e aos meus inimigos, perdoai a todos e devolvei-me o meu pai. Vedes bem que é ainda por vós e para as almas que eu o peço; não é por mim, não é por mim. Meu Jesus, meu Jesus, a minha alma não desiste das suas e exigências. Tende piedade dela! Ouvi, ouvi as minhas súplicas!” (dois meses antes da morte; e não será ouvida).

 

§ 10º - SOZINHA, SEM GUIA

 

Em 1948, privada até do seu segundo director espiritual, sente-se terrivelmente só, sem qualquer guia! Além disso é atormentada por novo sofrimento: parece-lhe estar espiritualmente abandonada mesmo dos seu amigos, parece-lhe ser-lhes um incómodo e que agora assistem com esforço. Tortura tremenda!

 

O maior sofrimento ainda é a alma ter olhos que parecem ver o futuro que a espera. Ó meu Deus, o que ela tem que atravessar! Que trevas tão dolorosas, e sozinha, sem ninguém! Nunca verá luz, nem num guia sentirá amparo ou apoio, sem que, seja quem for, surja donde surgir ao encontro destas trevas. Pobre alma, firma-te em Jesus, chama-o, grita por ele em tão prolongada viagem.

“Jesus, se não vindes ao meu auxílio, o pavor mata-me. Mas ai, meu Jesus, oh! Como é doce sofrer e morrer por vós!

É nada tudo isto, é nada, para Quem tanto nos amou. […] Ai, meu Jesus, dexai-me a força para levar a cruz, dai-me coragem para enfrentar com perfeição este meu viver tão pavoroso para a minha alma!”

Tudo sinto perder: os meus amigos queridos, a família, enfim tudo, tudo, sinto-me sozinha.

Não importa: quero Jesus, só Jesus.

Ninguém me vale: os que podem não querem; os que querem não podem. Parece que não tenho ninguém por mim.

“Sede bendito por tudo, meu Senhor. Sede vós o meu Amigo justo e infalível.

Confio no vosso amor e misericórdia infinita, apesar de profundamente ver o meu nada e saber que nada vos mereço.

Não me falteis, não me falteis vós, meu Jesus, porque estou tão sozinha!

Não vos chamo para gozar nem receber consolação, não vos chamo para que me deis alegria ou alivieis os sofrimentos; chamo-vos sim, meu Jesus, para estardes comigo, para me ajudardes a sofrer, para que eu faça tudo com perfeição e sofra com amor. Quero amar-vos, quero amar-vos, voar para vós, no vosso divino amor me queimar e nele desaparecer.

Ó meu Jesus, viver ferida por vosso amor é bem doce! Mas pobre de mim, se me abandonais! Não posso suportar a dor, não posso levar a cruz. Quero seguir-vos, quero imitar-vos, mas sustende-me com a vossa mão divina.

Guiai a ceguinha que nada vê; não a deixeis cair nem errar o caminho: é o Céu que eu procuro. […] Não afasteis de mim o vosso Rosto! Ó meu Jesus, não me deixeis só por um instante: este só bastaria para me levar ao desespero.”

 

Mesmo os êxtases com a presença de Jesus ou de Maria não lhe tiram o martírio de se sentir abandonada.

 

Com o passar das horas (depois do êxtase,) já tudo fugiu.

Sinto-me no cimo do meu calvário, a gritar ao Céu: “Estou só, estou só! Segurai-me, Jesus, protegei-me, Mãezinha! Não me deixeis cair! […] Ó meu Deus, vai o meu espírito navegando nas trevas, e quase desesperadamente. Piedade, piedade, meu Jesus, peço-vos piedade.”

          

No último diário (de 2/9/1955), a quarenta dias da morte, invoca ainda – e mais que nunca – a graça de Jesus para suportar a sua desolante solidão.

 

“Jesus, só com a vossa graça é que eu serei corajosa e não Vos direi que não. Sinto-me no auge da dor, sozinha, sozinha. Sou vossa, sou vossa, a vossa vítima.”

 

 

§ 11º - PARECE-LHE QUE NÃO É OUVIDA

 

Para reviver, no modo mais completo possível a uma criatura, o padecer de Jesus-Vítima, Alexandrina deve experimentar também a angústia de sentir-se abandonada mesmo pelo Céu, do qual apenas esperava um pouco de auxílio.

 

Quando me parecia vacilar e cair no desânimo ou no desfalecimento, logo levantava o meu brado ao Céu; os meus lábios não cessavam de chamar por Jesus e pela Mãezinha para virem em meu auxílio. Mostrava a Jesus quanto temia a minha miséria, a minha fragilidade; meu Deus, tudo e parecia inútil: estava tudo perdido! Nem o Céu nem a terra tinham para mim vida; já tudo jazia num sepulcro para sempre, para nunca mais viverem para mim.

“Jesus, poderei viver? Resistirei? Só convosco. Ajudai-me, dores da Mãezinha, chagas do meu Jesus! […] Ajudai-me, ajudai-me, meu Jesus, escutai o meu grito aflito e contínuo. Vede que o meu espírito vai como a abelha de flor em flor à procura de néctar que a satisfaça. Ela voa, voa, pousa aqui, pousa acolá e as mais das vezes não sabe onde pousar, não encontra satisfação, não encontra onde repousar. Estou cansada, meu Jesus, de vos procurar sem vos encontrar: parece-me que me enganei no caminho. Morro sem vos ver, sem vos possuir! Vinde socorrer-me, apressai-vos, meu Jesus!”

 

Eu não tinha corpo: era apenas um pouco de espuma do mar.

Dos profundos abismos da minha cegueira, clamei fortemente ao Senhor, clamei, mas não fui ouvida!

O meu brado abafa-se com tanta dor e parece não chegar ao Céu. Quem poderá socorrer-me? Quem poderá valer-me?

 

 “Jesus, compadecei-vos da minha miséria e não permitais que a perda que sinto de vós seja a realidade! Sede a luz do meu espírito, pois bem sabeis que outra não tenho.”

 

Meu Deus, meu Deus, tantos espinhos, tantos suspiros, tanta dor, tanto brado ao Céu! E ele fechado para mim: parece que a Mãezinha, Jesus e toda a Pátria celeste morreu. “Valei-me, Jesus, valei-me!”

 

Invoco Jesus e a Mãezinha tantas vezes para que venham em meu auxílio. Mas eu não sou digna de ser escutada e parece-me que não sou deles, que não lhes pertenço.

 

Concluamos com um parágrafo com este «grito» de 5/11/1954:

 

Jesus escondeu-se (terminado o êxtase). “Onde estais, onde fostes, meu Jesus? Tende piedade de mim. O meu abatimento é grande, o meu grito é doloroso. Creio, Jesus, creio! Amo-vos, espero e confio.”

 

 

§ 12º - INVOCAÇÕES A MARIA  

As invocações que Alexandrina eleva à Mãezinha estão presentes em quase todas as orações de súplica: dirigindo-se a Jesus, vem-lhe espontâneo recorrer também à Mãe, mediadora, inseparavelmente unida ao Filho.

Neste parágrafo são recolhidas algumas invocações dirigidas exclusivamente a Maria. Um desenvolvimento mais amplo da ligação entre Alexandrina e Nossa Senhora constitui o capítulo 9º.

 

“Ó Mãe de Jesus, dá-me o teu amor para amar com ele o teu e meu Senhor!”

 

No primeiro dia de Maio quantas coisas pedi à Mãezinha para me alcançar no seu mês bendito!

Consagrei-me a ela para ela me consagrar a Jesus.

Entre muitas outras coisas pedi-lhe força para o meu sofrimento. Meu Deus, e quanto necessito eu de auxílio do Céu, da força da querida Mãezinha, para aguentar com o peso de tão grande cruz!

De repente no segundo dia recebi um dom do Céu, dom que feriu muito o meu coração, uma espinha que o dilacerou todo. Agradeci logo à Mãezinha, aceitei-o e ofereci-o como prova do meu amor e para que ela o oferecesse por mim a Jesus. Tudo é dor em mim!

 

“Mãezinha querida, não sou digna, sei que o não sou, de vos chamar pelo dulcíssimo nome de Mãe. Valei-me, acudi-me, acudi ao mundo, acudi a todos os filhos vossos e fazei com que eu prove, com a minha vida perfeita e o com amor a Jesus, ser vossa filha. Escondei-me ajudai-me a desaparecer, a perder-me em Jesus, a ser louca por Jesus!”

 

No dia11 de Fevereiro[25] tive uma grande tribulação, uma das maiores que tive na minha vida[26].

Apertava contra o meu peito a imagem de Nossa Senhora dizendo-lhe: “Fostes vós, Mãezinha, fostes vós que no vosso dia me trouxestes este dom: ajudai-me, ajudai-me, dai-me conforto!”

 

Pede a Nossa Senhora das Dores amor à Cruz.

 

Caminhava para o Calvário (revivendo a Paixão) e sentia que Jesus ia dentro de mim, e dentro do seu divino Coração levava também a Mãezinha. Não sei como podia sentir que a Mãezinha, dentro do seu Santíssimo Coração, levava também a Jesus.

Era uma união de dor e amor: não podiam separar-se.

Eu pedia à Mãezinha que me desse a sua graça, a sua resignação, o seu amor à cruz e a Jesus.

 

 

 

LA FIGURA DIP. 102 Ed. ITALIANA CAPITULO 4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 4º

 

“MEU DEUS, EU TE PEÇO POR...”

(intercessão)

 

 

Abraão aproximou-se do Senhor e disse-lhe:

“Fareis o justo perecer com ímpio?”

Talvez haja 50 jutsos na cidade […] Talvez 40 […]

Talvez 30 […] Talvez 20 […] Talvez 10 […]

“Não destruirei a cidade em atenção a esses 10.”  (Gén 18, 22-32)

 

Moisés inclinou-se apressadamente para a terra, prostrou-se e disse:

“[…] Sim, é um povo de cabeça dura, mas perdoai-nos as nossas iniquidades e os nossos pecados.”                                            (Ex 34, 8-9)

 

Senhor, tem piedade do meu filho, porque é epiléptico e sofre muito.

                                                             (Mt 17, 15)

 

Peço-te por eles.

Pai santo, guarda-os no teu nome que me deste.   (Jo 17, 9.11)

 

 

“Peço-vos por todos os que me são mais queridos e por toda a minha família: os que andam por caminho errado, convertei-os e os que estão em graça, afervorai-os e incendiai­-os no vosso amor...

 

“Jesus, se não é contrário à salvação da sua alma, deixa-a ainda um ouço de tempo junto de mim!

Dá-me outros sofrimentos […] Peço-vos por todos, pelos fiéis e pelos infiéis… Peço-vos pelo Santo Padre. […]”

 

 

Também a oração de intercessão é uma súplica: súplica pelos outros. Muitas vezes parte de necessidades pessoais, depois se alarga, como aparece no seguinte trecho:

 

“Benditos sejam o vosso amor e misericórdia comigo!

Estreito-Vos ao meu coração e peço-vos, meu bom Jesus, que dentro do vosso estreiteis aqueles que eu amo, todos os que me rodeiam e me pertencem e todos os filhos vossos. Estreitai, Jesus, a humanidade inteira; perdoai-lhe, perdoai-lhe sempre!”

 

Às vezes é solicitada pelo próprio Jesus.

Em 14 de Abril de 1950 completa-se o 25º ano em que está no leito: as suas bodas de prata com o leito! É uma sexta-feira, portanto tem lugar o êxtase da Paixão. Depois, de Jesus ressuscitado, ouve dizer:

 

“Feliz a alma que sofre e ama a cruz… Enche-te de mim, quero encher-te de amor: é o prémio do teu grande martírio. E neste dia pede-me para ti, pede-me para todos quantos quiseres.”

Alexandrina responde:

 “Meu Jesus, não busco a minha glória, mas a vossa, não vos peço consolação, mas quero consolar-vos...

Para mim Jesus, peço-vos graça e força para sofrer com perfeição o que Vos aprouver enviar-me. Sou tão imperfeita!

Peço-Vos pelo meu director espiritual que retiraram de mim, mas vós não o retirastes da minha alma; dai-lhe todas as graças!

Peço-vos por todos os que me são queridos e por toda a minha família: os que andam por caminho errado, convertei-os e os que estão em graça, afervorai-os e incendiai­-os no vosso amor.

Peço-vos pelo Santo Padre, Pai de toda a humanidade; dai-lhe coragem, luz, vida e amor.

Peço-vos pelo Sr. Cardeal, pelo Sr. Arcebispo e por todos os Arcebispos e Bispos. Peço-vos por todos os sacerdotes da humanidade, pelos que mais me estimam e por aqueles que mais me aborrecem, porque por querer ou sem querer, com os sofrimentos causados, mais me aproximaram de vós. Pela vossa infinita misericórdia, não me faltou a resignação.

Peço-vos por todos os aflitos em toda espécie, que de mim se têm aproximado.

Peço-vos por todos os que se me recomendam e pelos que se querem recomendar.

Peço pelo mundo inteiro, fiéis e infiéis, como o nosso Salazar e os nossos governantes.

E agora, meu Jesus, peço-vos pelas alminhas do Purgatório[27].”

 

Seguem alguns parágrafos, em cada um dos quais é indicado por quem Alexandrina intercede

 

§ 1º - PELOS MAIS QUERIDOS

 

Temos presente que um grande sofrimento para ela é também aquele que deriva do envolvimento dos seus queridos na sua vida de martírio. Pede por isso graça e força para eles.

 

“Quero sofrer tudo pelo vosso divino amor, mas custa-me ao máximo ser causa de grande sofrimento, de grande dor para os outros.”

 

“Ah! Se eu sofresse sozinha! Mas oh, quantos sofrem por minha causa!

 

“Ó Mãezinha, eu confio em vós. Sede a minha força e a força dos meus! Ó Jesus, em Vós espero! Não me abandoneis, não me abandoneis. Dai-nos graça, força e conforto!”

 

Pedi tantas coisas a Jesus! Pedi-lhe tudo o que era dele para os que me são mais queridos, para minha família, para todos os que às minhas pobres orações se recomendam, e por fim para o mundo inteiro.

 

A mais íntima de todos é a irmã, Deolinda, que compartilha o seu sofrimento em cada momento do dia e da noite: entrega-a aos corações de Jesus e de Maria.

 

Hoje foi um dia de lágrimas para mim... No meio destas lágrimas, agonia e angústia, fiz o que gostava de fazer no momento da minha morte: consagrei a minha querida irmã aos Corações divinos de Jesus e de Maria. Pedi-lhes que não a levassem à minha frente[28], que deixassem para depois este anjo que me confiaram. Pedi-lhes, que fossem eles a consolá-la depois de minha morte (que aconteceu três meses depois), porque só neles poderia esperar e só Eles a compreenderiam.

Ah, quanto sofri nesta oferta, enquanto falava assim aos queridos Amores: “Creio firmemente, creio eternamente!”

Não havia Céu, não havia nada: eu devia confiar no meu Senhor.

 

 

§ 2º - PELA CURA DOS DOENTES

 

Já dissemos que Alexandrina, quando pede, oferece sempre também. Em particular quando pede pela cura dos doentes, oferece um aumento do seu padecimento com aquele fim.

Naturalmente o seu pedido é sempre submetido à vontade de Deus; de facto acrescenta: «[…] se isto não é prejuízo para a sua alma», «se é para glória de Deus […]».

Por isso não é sempre atendida. E quantos pedidos tinha feito pela sua cura, juntamente com os seus, quando, jovem, tinha começado o caminho para o calvário!

O desígnio de Deus sobre ela era bem outro. Mas o seu pedido de ser missionária foi ouvido, e com potência centuplicada!

Escolhemos três textos que parecem exemplares para o comportamento dum verdadeiro cristão:

 

a)

Por pessoa que grande lugar ocupa no meu coração, foi-me recomendada a saúde de um grave enfermo. Meu Deus, o que já sofri, me sacrifiquei e orei por ele! Ofereci-me como vítima de Jesus; disse-lhe que, durante um mês, descarregasse sobre meu corpo e alma todos os sofrimentos que lhe aprouvesse, em cima dos que eu já tinha, contanto que ele e a Mãezinha fossem comigo, para eu poder sofrer, mas que me desse a vida daquele enfermo, sem prejuízo da sua salvação e da glória de Deus.

Era grande, muito grande, a dor e a angústia da minha alma, quando assim falava a Jesus …

Jesus, na sua bondade infinita, muito doce e suavemente disse: “Quero-o para mim, quero coroá-lo do meu divino amor, da minha glória.”

Alexandrina insiste, aumenta a cota do seu sacrifício de um mês para três, mas prevê que o doente morrerá, como de facto aconteceu.

Sentia no meu íntimo a noite e o silêncio da morte. Eu queria o milagre, mas já orava pela boa morte do moribundo.”

b)

“Entrou no meu quarto o filho extremoso do meu médico a dar-me a notícia de que sua mãezinha se encontrava às portas da morte. Não sei como fiquei!

Com a lâmpada e velas acesas, todos os que estavam ajoelharam.

Ofereci a Nosso Senhor o meu corpo e a minha alma como vítima da enferma; pus todo o Céu em movimento.

Nos intervalos em que me respondiam às orações, eu dizia (intimamente) a Nosso Senhor: “Deixai-a, deixai-a, Jesus, para acabar de criar os seus filhinhos; provai-me agora o amor que me tendes!”

“Sossega, minha filha, não morre, não morre, confia em mim, eu te afirmo, eu te afirmo, não te nego o que me pedes; confia no amor misericordioso do meu divino Coração. Sou eu, Jesus a afirmar-te, a prometer-te. Prova agora a tua confiança.”

Entra numa longa luta com o demónio que lhe afirma ser o fruto da sua imaginação, a afirmação de Jesus.

Quando o demónio me repetiu as suas mentiras, eu repetia com o coração: “Sagrado Coração de Jesus, eu tenho confiança em vós!”

Enquanto possuía a luz, parecia-me ter em mim duas vidas: o meu espírito estava mergulhado, muito unido à dor e tristeza dos estes queridos da doente e a alma entoava, ao mesmo tempo, hinos jubilosos ao bom Jesus. Não sei como podia sofrer tanto e a alma tão forte cantar ao mesmo tempo....

Era já noite (do dia seguinte), muito de noite, e soube que realmente estava melhor. Não sabia como agradecer a todo o Céu![29]

 

c) Perto do fim de 1949, a mãe de Alexandrina adoece muito gravemente. Do diário do 2/12/1949 extraímos o seguinte diálogo entre Alexandrina e Jesus:

 

“[…] Mas eu não sofro com perfeição, não é verdade, meu Jesus? Vós estais triste por eu chorar?”

“Não, minha filha, não! Também eu chorei e minha bendita Mãe chorou. Conheço tudo.

Diz-me uma coisa. Se eu te pedia a tua mãezinha, não ma davas de boa vontade?”

“Dou, dou, meu Jesus; mas não vo-la dou sem lágrimas, não posso; isso não prometo.”

Obrigada, não sei como, a pedir a cura da minha mãe, disse:

“O Jesus, se não é contra a salvação da sua alma, deixai-ma mais algum tempo junto de mim. Dai-me mais, mais sofrimentos, sobrecarregai-me a mim mais e aliviai-a. E, se não é bem para a alma dela, quero perder tudo, mas que a alminha dela se salve.

Mas o que eu quero, ó Jesus, é que a leveis direitinha para o Céu; isso não dispenso[30].”

“Pede, pede, minha filha; nada te será negado, a não ser que seja de prejuízo para as almas. Prometo-te, quando chamar a mim a tua mãe, levá-la direitinha para Céu, para minha glória[31].”

Ficámos em silêncio uns momentos, eu nos braços de Jesus, a ser por ele acariciada. “Minha filha, eu amparo-te, velo por ti...”

Jesus continua a falar-lhe enquanto lhe transmite a gota do seu sangue (veja-se a Biografia); depois Alexandrina diz:

“Eu não vos compreendi bem, nem quero compreender: aceito o que me deres, quero só a vossa divina vontade. Sou a vossa vítima.

Obrigada, meu Jesus, por tudo um eterno obrigada!”

 

 

§ 3º - PELA SALVAÇÃO DE ALGUMAS ALMAS

 

No capítulo 6º considerar-se-á a sua obra de vítima pela salvação das almas em geral. Aqui são transcritos alguns trechos dos seus escritos em que se trata da sua intervenção como mediadora nalguns casos particulares.

 

a) Pede luz para almas não crentes

 

No diário de 25/10/1944, a propósito de um dos vários interrogatórios que deve suportar, logo depois de jejum começado em 1942, lê-se:

 

“Então, não come nada?”

Eu não sabia se estava a falar com pessoas religiosas. Mas, sem respeito humano respondi:

“Comungo todos os dias.”

Um silêncio profundo por uns momentos se travou entre todos; nem um gesto, nem um sorriso.

Pouco depois retiraram-se muito delicadamente e respeitosamente.

“Ó Jesus, ó Mãezinha, Divino Espírito Santo, dai a vossa santa luz a estas almas; fazei que sejam só vossas e sigam os vossos caminhos.

Que as minhas humilhações e sacrifícios sirvam para a salvação de todos!

Ó Jesus, quero viver para vos amar e para a salvação das almas.”

 

b) Pergunta a Jesus se estão salva duas almas por quem tinha rezado.

 

Tinha rezado e oferecido sofrimentos por um mendigo que vinha à sua porta e que, atravessando a pé uma torrente, tinha escorregado afogando-se.

 

“Meu Jesus, salvou-se a alma daquele homem que caiu ao rio?”

“Sim, minha filha, foi às 11 e meia da noite que compareceu na minha divina presença. Como foi belo e encantador, quando ele me viu diante de si, ainda antes de eu lhe pedir contas[32]!

“Disse-me: perdoai-me, perdoai-me, meu Jesus! Só vós sois o meu Senhor. Perdoei-lhe e foi salvo.”

 

Tinha pedido em particular também por um outro, do qual se não sabe nada. Pergunta ainda:

 

“E também o outro, meu Jesus?”

“Sim, minha filha, e muitos mais ainda; e salvos por ti, pelos teus sofrimentos. Ora muito por eles. Eu sou cheio de compaixão...

Minha filha, minha filha, minha alegria, luz e vida da humanidade!...

És vida de luz e de salvação, porque por ti as almas são iluminadas e caem nos laços de amor de meu divino Coração...

Minha filha amada, como é inigualável a tua dor, é inigualável o teu amor e o teu poder sobre elas (as almas).”

 

c) Um caso exemplar

 

O episódio seguinte é exemplar pelo amor que a leva a insistir no pedido de salvação por uma alma que Jesus mantém mito distante.

É uma insistência análoga à de S. Gema Galgani, que consegue arrancar a Jesus a salvação dum grande pecador[33].

Ambas as jovens recorrem ao auxílio de Maria.

Na carta (de 10 de Outubro de 1940) de Alexandrina ao seu primeiro director, lê-se:

 

Para obedecer, não porque sentisse coragem para o fazer, pedi a Nosso Senhor pela alma que o meu Paizinho bem sabe. Fi-lo com repugnância; tremia de medo. E, por fim, não me atrevia a rogar a Jesus por ela. Sentia em mim que Nosso Senhor se retirava dela e a repelia. Ela estava em negra prisão e bem enraizada com as raízes do pecado.

Fiz novas tentativas para rogar a Jesus por ela; nada consegui. Estava presa, nem ao menos uma prece em favor dela podia dirigir a Jesus.

Tentei de novo e sempre consegui dizer: “Jesus permiti que aquela alma se salve.”

E Nosso Senhor respondeu-me severamente:

“Não, mil vezes não[34]!”

Caí em grande desânimo sem poder mais proferir palavra.

Passaram-se uns momentos. Com muito custo, quase como quem caminha de rastos com um enorme peso, recorri à Mãezinha. Queria saber a sorte definitiva daquela alma.

“Mãezinha, vinde comigo, vinde em meu nome pedir a Jesus para que aquela alma se salve.

E então ouvi uma voz melodiosa, cheia de doçura, dizer:

“Ouve, meu Filho, os rogos da tua Mãe.”

E Nosso Senhor ainda lhe respondeu:

“Não posso, tem-me ofendido muito.”

Voltou a Mãezinha:

“Ouve, meu Filho, os rogos da tua Mãe e da tua amada e da minha.”

E Jesus, mais meigamente, respondeu:

“Sim, minha Mãe, não vos posso negar nada.”

E a Mãezinha estreitando-me em seus braços maternos, acariciou-me e disse-me:

“Vai, minha filha, pedir de novo a Jesus por ela[35]. Já podes ir; toma conforto que te dá a tua Mãe.”

Senti que a Mãezinha passava para mim não sei o quê que me encheu o coração e a alma. Fiquei forte e capaz de tudo dizer a Jesus. Disse-lhe então:

“Meu Jesus, pela vossa cruz, dai-me aquela alma, permiti que ela se salve.” E Nosso Senhor, embora com brandura, de novo respondeu:

“Não, mil vezes não: tem-me ofendido muito.”

Mas eu, cheia de coragem, confiada que pela Mãezinha tudo ia conseguir, pedi outra vez:

“Meu Jesus, pelas dores que a Mãezinha sofreu ao pé da cruz, pela minha crucifixão, pelo vosso amor, etc..., permiti que esta alma se converta[36] e venha para o vosso Santíssimo Coração. Eu sei que vós se pudésseis, morreríeis de novo por ela. Mas já, que não podeis, deixai-me morrer a mim, deixai-me por ela dar o meu sangue!”

E Nosso Senhor então, com toda bondade, amor e misericórdia, disse:

“Sim, minha filha, ela será salva, mas quero por ela muitas orações; tem que sofrer muito, tem muito para reparar.”

Fiquei em paz. Pouco a pouco o sofrimento foi-me tornando mais leve. Mas sentia meu corpo cansado como se viera duma longa jornada.

A dor foi o meu descanso de toda a noite.

 

 

§ 4º - PELA HUMANIDADE EM GERAL

 

Aqui são recolhidos alguns pedidos que têm por objectivo principal a humanidade inteira, sem referências particulares:

 

Vejo que o mundo é noite, que todo o mundo é revolta

Quero acudir-lhe, quero salvá-lo e não posso. Como é grande a minha dor!... Quero levá-la com alegria: “Jesus, vinde e vencei em mim!”

 

Deixo as minhas tristezas, dores e amarguras: vou pedir por todos os que amo, vou pedir pelo mundo inteiro.

 

Não só oração, mas também sofrimento.

 

Eu tanto queria falar a todas (as almas)! Eu tanto queria preveni-las que Jesus põe tempo para lhes perdoar.

Mas já que não posso dizer-lhes, vou orar, vou sofrer para que Jesus se compadeça sempre das suas almas.

 

Chegou a noite de Natal (de 1947).

Sem o poder, tudo ofereci a Jesus e tudo lhe pedi para mim, para os meus mais queridos e por fim para o mundo inteiro, pelo qual tenho uma fome insaciável de salvação.

 

“Ó Jesus, não vos esqueçais de todos os meus pedidos, de todos, de todos: e neles entra a humanidade inteira. Não posso esquecê-la. Ah, não posso deixar de rezar e de sofrer nem que seja por uma só alma. Quero sofrer, quero sofrer para conseguir salvá-la. […] Ó Jesus, perdoai ao mundo! Vou sofrer, vou esforçar-me por sofrer com perfeição....”

 

Num martírio dolorosíssimo de alma e de corpo, durante as três horas de agonia (ao reviver a Paixão) fixei o Coração divino do meu Jesus. Como era o dia do seu Coração divino, pedi-lhe o amor do mesmo coração, todo o amor, todas as graças, toda a protecção e as bênçãos não só para mim mas para todos aqueles que me são mais queridos, para toda a minha família, para todos aqueles que se recomendam às minhas orações e enfim pelo mundo inteiro.

Como é belo sofrer, e sofrer tanto, e ao mesmo tempo fazer súplicas a Jesus!

 

Mesmo em êxtase, enquanto goza da presença divina, não esquece os outros.

 

“Não quero deixar, nestes momentos de tanta felicidade (em êxtase sente-se acariciada por Jesus e Maria), de lembrar aos vossos Santíssimos Corações, todos os corações que eu amo, todos os corações que me pertencem, todos os corações amigos e inimigos, conhecidos e não conhecidos, fiéis e infiéis, o mundo inteiro.”

 

Para estimular a condescendência de Jesus, faz vibrar a corda da sua paternidade.

 

“Ó Jesus, ó meu doce Amor, não vos esqueçais que sois Pai. Ó Jesus, ó meu doce Amor, chamai mais, convidai, convidai sempre com o vosso convite amoroso! Eu não sei o que pressinto, Jesus; não sei o que cai sobre mim. Venha o que vier, seja o que for. Eu sou e serei sempre a vossa vítima!

Mas peço-vos, meu Jesus, com toda a minha alma, com todo o meu coração: perdoai, perdoai, perdoai! Ah, fazei que o mundo se converta. Se não poupais os corpos à justiça de vosso Divino Pai, poupai ao menos as almas às penas eternas do inferno. O que virá, meu Jesus? Eu estou apavorada. […]

Perdoai, meu Jesus, perdoai, perdoai! É vossa a humanidade, são vossos os pecadores, meu Jesus; sou vossa eu também. Que é que eu fui e que é que eu sou, meu Jesus? Sede Pai, sede Pai! Sede misericórdia que não esquece, mas que ama!”

 

Suplica a Jesus como mediador junto do Pai Eterno.

 

“Recordai-vos, Jesus, do vosso sangue derramado na cruz e perdoai ao mundo: pedi ao vosso Pai Eterno que perdoe. […] Pedi ao vosso e meu Eterno Pai perdão e misericórdia para toda a terra culpada. Perdão, Jesus, e misericórdia pelas dores da Mãezinha e pelos méritos da vossa Santa Paixão. Pedi ao Eterno Pai, pedi, pedi perdão para o mundo!”

 

Para cooperar na salvação da humanidade pede que desabrochem santas vocações sacerdotais.

 

Eu não me esqueço (escreve ao P.e Pinho) de recomendar a Jesus e à querida mãezinha as intenções que me recomendou, a fim de que haja aí muitas vocações.

 

Promove também algumas Missões na paróquia.

 

Está a decorrer a santa Missão (1950). Só com os olhos em Jesus e nas almas, só para a salvação destas e para a glória do Senhor, fiz tudo para obter esta graça para a paróquia.

E o prémio por este meu esforço foi uma dor tormentosa para o meu corpo e para a minha alma. Meu Deus, meu Deus, não sei exprimir-me.

“Ó meu Jesus, sou a vossa vítima: aceitai-me tudo isto pela santificação desta freguesia, para que dê fruto esta Missão.”

 

 

§ 5º - PELAS ALMAS DO PURGATÓRIO

 

O Senhor pede-me que o invoque muito pelo alívio (redução da pena) das almas do Purgatório.

“Tu és a enamorada louca das almas que se purificam nas chamas do Purgatório; alivia-as, alivia-as, para que rapidamente subam ao Céu a louvar-me eternamente.”

 

“Meu Jesus, peço-vos pelas alminhas do Purgatório: pelas minhas obrigações, pelas que me estão recomendadas, pelas que estão mais perto de ir para o Céu, pelas mais abandonadas, que não têm quem peça por elas, e por todas em geral. Apressai a hora de vossa glória!”

Neste momento, num deserto de fogo, principiei a ver subir, subir grandiosas chamas, até que estacionaram, não subiram mais e por entre elas saíram uma chuva de almas, impossíveis de contar. Que muitas delas!

Levantei as mãos para Jesus e disse-lhe: “As chamas, as chamas de fogo! Como as almas saem delas! Obrigada, meu Jesus, o meu eterno obrigada!”

“Subiram para a glória milhares e milhares delas; já cantam hinos eternos; é o prémio da tua dor, minha filha. […] Já gozam das delícias celestes milhares e milhares de almas que firam libertadas do Purgatório pelos teus sofrimentos, orações e boas obras: foste tu que aceleraste a sua glória.”

 

Jesus insiste sobre a importância das orações pelas almas do purgatório.

 

“O teu sofrimento, as tuas orações com o voto perpétuo que fizeste[37] de tudo, a entrega filial a minha Mãe bendita, arrancou do Purgatório tantas e tantas almas. […]

Faz, minha filha, que muitas pessoas façam este voto de tudo quanto fizerem, orarem e sofrerem, ser pelas almas do Purgatório; e que essa entrega seja feita à Mãe Celeste, à Rainha de todas as almas.

É o que mais consola e alegra o seu Coração Santíssimo, é pedir-lhe pelos pecadores e pelas almas do Purgatório.

Não tira valor à oração, que for feita pelos pecadores, ser oferecida em sufrágio das almas. Não o perde, mas dá-lhe valor. Prometo com maior facilidade a conversão dum pecador, quando me for pedida em nome dessas almas, que suspiram, que anseiam gozarem e amarem-me eternamente.”

 

Nossa Senhora confirma, aparecendo-lhe sob o aspecto de “Nossa Senhora do Carmelo”[38].

 

“Minha filha, fala às almas[39]; diz-lhes que todas as coisas que sejam pedidas a Jesus no meu nome e em nome das almas do Purgatório, todas, tidas, mesmo a conversão dos pecadores, serão concedidas.”

 

 

 

 

 

 

 

LA FIGURA DIP. 128 ED. ITALIANA (A SINISTRA)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPITULO 5º

 

“A TI ME ENTREGO, MEU SENHOR, MEU DEUS”

(abandono)

 

 

 

Em silêncio, abandona-te ao Senhor

e põe nele a tua esperança.                                                 (Sal 36, 7)

 

Os que confiam no Senhor

são como o monte Sião:

não vacila e é ternamente firme.                                            (Sal 124, 1)

 

Pois que se uniu a mim, eu o livrarei.                            (Sal 90, 14)

 

Sei em quem pus a minha confiança.                                    (2Tim 1, 12)

 

Aproximemo-nos pois confiadamente do trono da graça,

a fim de alcançar misericórdia

e ser ajudados no momento oportuno.                                   (Heb 4, 16)

 

 

 

“Jesus, só por vós e para vós tenho vivido.

Só em Vós tenho confiado. […]

Veja eu destruir-se a terra e até o firmamento, mas não deixe de ter confiança em vos.”

 

“Confio que com Jesus tudo vencerei e que o mundo e o demónio nada poderão contra mim.

 

Deus, só Deus, é o único a quem me entrego, pelas mãos da querida Mãezinha. […]

Jesus o quer, eu o quero.

 

O amor a Deus, o verdadeiro amor, ardente, profundo, exclusivo a Deus, leva à confiança nele, nele só; daí o abandono no Amado, do qual nos sentimos também amados.

Dele brota uma forma de oração que exprime este estado de confiante abandono em Deus: a oração de abandono, exactamente, com a segurança de que a súplica será escutada no melhor modo, ainda que se diversamente das expectativas.

Orações de súplica auxiliadas e valorizadas pela confiança, pela Fé, encontram-se em muitos passos do Evangelho. Pensamos, por exemplo, no milagre durante as bodas de Caná (Jo 2, 3-5).

«Não têm mais vinho.»

«Não chegou ainda a minha hora.»

 

Tal resposta devia tirar à Mãe a esperança de ser ouvida; ao contrário, confiante no amor do seu Jesus e na sua solicitude para todas as necessidades humanas, mais que no seu poder, disse sem mais aos servos: «Fazei o que vos disser.» E o milagre cumpre-se!

Também a oração de Alexandrina, que com o seu amor a Deus atinge os cumes mais elevados, está toda repassada de confiança, que a leva a abandonar-se «entre os braços divinos».

Daí consegue um amoroso e generoso impulso de oferta da própria vontade, identificando-a com a do Amado.

O capítulo foi dividido em dois parágrafos. O 1º põe especialmente em evidência a confiança, a entrega total; o 2º, o consequente desinteresse do desejo das coisas terrenas e o anseio de ser exclusivamente, totalmente de Deus, com a própria vontade fundida na sua.

 

 

§ 1º - CONFIANÇA, ENTREGA

 

“Só por vós e para ós tenho vivido. Só em vós tenho confiado.

Nunca, nunca confiei em mim. Para vossa graça, nunca, nunca, nada a mim atribuí.”

 

A alma, pesarosa pelas próprias debilidades e misérias, sente-se confortada e reergue-se do abatimento pela confiança na misericórdia de Deus.

 

“Vós destes-me a graça de eu conhecer o abismo da minha miséria, mas ao mesmo tempo vejo que maior, infinitamente maior, é o abismo do vosso amor, a vossa misericórdia e compaixão. Confio cegamente em vós e em vós espero.[…]

Ai Jesus, tende compaixão de mim que sou a criatura mais miserável, mas que podeis transformar toda em vós, no vosso divino amor; e confio que assim há-de ser, meu Jesus: que me haveis de fazer santa. Num momento podeis fazê-lo (estamos em Maio de 1939). […] É verdade, meu Jesus, meu Jesus, que sou só miséria e nada mais, mas sou vossa filha, custei o vosso sangue.

Quando os pais amam verdadeiramente os seus filhos e se entre eles tem um diferente de todos, doente, cheio de chagas, sem poder mover-se, eles redobram de carinho e de compaixão, dispensam-lhe todo o amor.

E é nesta confiança que eu quero viver. Duvido de mim, temo-me a mim mesma, mas confio e espero em vós. […] Meu Jesus, vós sois luz e eu sou treva; vós sois amor e eu sou frieza; vós sois tudo e eu sou nada. Mas confio: o vosso divino Coração é meu, é a minha morada.”

 

Está sempre atormentada, mesmo com dúvidas sobre os seus fenómenos místicos. Jesus, às vezes dá-lhe luz clara que a convence da realidade da sua experiência mística, às vezes ajuda-a de modo mais velado fazendo-a sentir confiança, mas as mais das vezes deixa-a na escuridão completa.

Toda a vida é sofrida na dramática alternância: a confiança ora é afirmada, ora ansiosamente pedida.

 

“Valei-me, Senhor, valei-me! Fazei que a minha confiança chegue até vós.

Veja eu tudo contra mim, seja total o meu abandono, veja eu desfazer-se a terra e até mesmo o firmamento, mas não deixe de confiar em vós!”

 

O desânimo teima comigo, quer vencer, mas eu confio que só Jesus vencerá. Ele hoje não me falou e eu sofri, sofri muito.

Andava perdida no mar, abandonada, sem esperança de salvação. Não fazia já mais nenhum esforço para salvar-me, mas tinha esperança que as ondas me deitariam no porto de salvação.

 

Vem uma luz ao meu coração, como sol que ilumina toda a terra. Atraída por aquela luz, senti-me subir, subir até que encontrei Jesus com o seu divino Coração aberto, rodeado de tantos raios de luz que eram outros tantos sóis: ali encontrei tudo.

“Minha filha, sobe, entra, vem repousar em mim. Acreditas que sou eu, o teu Jesus, eu, o teu Pai, eu, o teu esposo? Diz-me, crês que sou eu? Crês que esta luz é a minha?”

“Sim, Jesus; agora confio e nesta luz, neste fogo que me queima posso confiar. Assim não custa. Confio e confio sempre até na dor, na cegueira, nas trevas. Mas então, meu Jesus, então isto custa! Só com a vossa graça posso confiar.”

 

Apagou-se por completo a luz de todas as minhas esperanças. Foram as minhas trevas a causa de todo este mal.

“Poderei viver assim, meu Jesus, arrastada só pela cadeia da confiança em vós? Mas ai, quantas vezes, até essa, me parece perder!

Mas eu confio, meu Jesus, confio, mesmo contra tudo, contra toda a morte das minhas esperanças. Espero em vós, Senhor, e não serei confundida. […] Mas como poderei encontrar-vos, meu Deus, eu que lutando, caminhando noite e dia à vossa procura, não vos encontro?

Graças ao amor misericordioso do vosso Coração, existe ainda em mim a confiança, aquela confiança que me obriga a não desistir da minha viagem, custe o que custar; espero chegar até vós para vos possuir eternamente.”

Os caminhos são áridos, pedregosos, ladeados de espinhos, sem nenhuma luz, mas ao fim deles está Jesus, o Suspirado da minha alma.

E não tenho um guia que rompa comigo, por entre as minhas pavorosas trevas!

Todo o meu corpo é uma massa de sangue, mas nada disto importa: Jesus atrai-me a ele. Resta-me esta confiança: com esta atracção caminho sem guia, até que Jesus se digne dar-mo[40]. Não quero desesperar.

Mãezinha, sede comigo! Que luta a da minha vida! O que seria de mim, se no meio disto não conservasse a paz, aquela que o mundo não tem, que só Jesus sabe dar?”

 

Pede e afirma a confiança mesmo sobre as vexações da parte do demónio.

 

“Meu Jesus, permiti, que a minha confiança em vós vá tão longe quanto pode ir, para que eu possa convencer-me sempre, sempre, sempre que não vos ofendo (durante as lutas com o demónio). Não permitais, meu doce Amor, que eu duvide um só momento da vossa palavra divina (a qual lhe afirma que não o ofende quando repara desta forma). 

[…] Confio, meu Jesus, que não é nada assim do que o demónio disse e que não é comigo o que vós me dizeis (ameaça da justiça divina).

Sede comigo, Jesus, dai-me força: convosco venço tudo, não temo todo o Inferno e não temo ser a vítima por toda a humanidade. ”

 

Confio que com Jesus tudo vencerei e que o mundo e o demónio nada poderão contra mim.

 

Mesmo no seu papel de mediadora entre a humanidade e Jesus reafirma a sua confiança na misericórdia do Salvador, que ultrapassa a justiça.

 

Causava pavor ver todo o Céu aberto em fendas de fogo, e caíam para a terra... “É a justiça divina de meu Pai: cai, cai para vir castigar. É o castigo pelos crimes, pelas iniquidades.”

“Perdão, perdão, eu ainda confio, Jesus, apesar de ver tudo isto, ainda confio. Vós ides perdoar, o Eterno Pai vai perdoar.

Fazei, Jesus, que em vez deste fogo de justiça caia o vosso fogo de amor.”

 

Num êxtase ouve Jesus dizer-lhe:

 

“Olha, fala das ameaças de meu Pai, fala ao mundo da sua tremenda justiça. Vê como é rigorosa e tremenda a sua justiça.”

Tudo se escureceu. Fiquei num bosque aterrorizada: tudo eram fragores. Parecia que as nuvens se chocariam e se rasgariam para incendiar a terra. “Ó Jesus – gritei – eu creio, no meio deste terror, creio e confio no vosso perdão. Pedi ao vosso Eterno Pai que afaste a sua justiça!”

 

Outra dúvida angustiosa nasce do medo de não amar Jesus.

 

“Quero multiplicar a minha confiança em vós, confio cegamente. O que eu quero é amar-vos; e confio que vos amo sem sentir amor, sem sentir um coração para vos amar.

Creio, creio, meu Jesus!”

 

As dúvidas estão teimosas a parecer-me que não faço outra coisa senão mentir...

Jesus, hoje, ao recebê-lo (na Eucaristia) não me deu alívio.

Eu, no meio da minha frieza e esquecimento, teimava a dizer-lhe: “Amo-vos, meu Jesus, e sei que vós me amais. Afirmo que sou vossa e vós que sois meu!”

 

Nos trechos seguintes emerge com particular evidência a sua entrega a Jesus e à Maria, entrega total, sem reservas.

 

Quanto mais sofro e me sinto de todos abandonada, mais aperto contra o meu peito o crucifixo e a querida Mãezinha, e vou-lhes segredando: “Tenho de confiar: não posso ser abandonada por aqueles em que só tenho confiado, a quem me entreguei totalmente, alma e corpo e todo o ser.

Jesus, Mãezinha sou vossa e vós meus.”

 

Venha o mundo inteiro, venha o próprio Inferno. Eu sou e serei sempre de Jesus: a ele dei o meu coração e todo o meu ser.

Não posso consentir em pensar que Jesus me deixe abandonada vendo, como sei que vê, que o único fim da minha ida é ele.

 

Entreguei a Jesus e à Mãezinha a minha vida incompreensível: Eles, na sua sabedoria divina que tudo compreendem, ma aceitem.

A mim compete-me só sofrer e segui-los mesmo às cegas. Seja em tudo feita a vontade do Senhor!

 

Resolvi com Jesus procurar viver simples como a criancinha e sem nenhuma preocupação do meu futuro[41]. Venha o que vier, curvo-me e aceito alegremente...

Quando o meu desfalecimento e fraqueza me levam a não poder resistir e a ter que me preocupar, logo tudo atiro para Jesus e esforço-me por tudo desviar de mim como se fora um mau pensamento.

Sou de Jesus, Jesus é meu. Ele em mim tudo vence.

Custa tanto viver assim! É preciso força e força do Céu para aguentar com esta resolução tomada.

 

Confio só no meu Jesus: ao ver-me assim tão pequena e fraca, inclinar-se-á sobre mim e me ajudará.

“Jesus, quero sempre pequena para andar sempre ao vosso colo, para ficar sempre entre os vossos braços divinos. Assim não temo nenhuma caída. Convosco posso levar a cruz.”

 

Anseio viver só a vida de Jesus, ser sua, só sua.

A ele me entreguei e é neste abandono que me deixo levar por Alguém, que não sou eu. Vou com confiança. Sou em segurança. Não correrei perigo: a vida que me leva é sólida, é sábia, tem força, em poder infinito.

 

A confiança é ajudada pela consciência do valor do seu sofrimento aceite por amor.

E a confiança por sua vez ajuda a suportar o próprio sofrimento.

 

Na minha dor abandono-me entre os braços de Jesus e da querida Mãezinha, confiante em que estes santíssimos Corações terão compaixão de mim. Eu sofro para os consolar, sofro para amá-los: estou certa que serei por escutada, que sou por eles amada.

 

Confio em Jesus cegamente, plenamente. Sei que não me deixará recuar frente a tantos sofrimentos que me uniram a ele e que continuarão a unir-me até à morte e eternamente.

 

“A dor não a temo convosco, Jesus: é por vosso amor que eu sofro; eu confio que vós, por meu amor, me dais força para tudo vencer.”

 

§ 2º - SÓ JESUS E A SUA VONTADE

 

a) Combate entre a vontade e a natureza.

 

Ó meu Jesus, o meu pobre coração levanta-se louco, bate as asas, voa sem destino na ansiedade de vos encontrar e de, ao vosso divino Coração e ao da Imaculada Mãezinha, se abandonar.

Deus, só Deus é o único a quem me entrego pelas mãos da querida Mãe.

Deus, só Deus é Senhor de todo meu ser: sou dele e a ele busco em todas as coisas. Sou dele e por ele quero sofrer e ser humilhada, desprezada e perseguida.

A vontade brada: quero a Jesus, quero a cruz como martírio. A natureza odiante não quer nada, só a morte total a satisfaz. Desfaleceu, morreu para o bem, para toda a vida de Jesus, para tudo o que a ele pertence.

Meu Deus, o que eu sou, se não viveis em mim!”

 

b) Afastamento das coisas da terra.

 

“Por Vós (Jesus e Maria) o meu coração, a minha vida e todo o meu ser.

Não quero ter outros desejos senão os de vos possuir; não quero outra vida, a não ser a do vosso amor. […]

Jesus, cortai em mim tudo o que é terreno: quero só esperar em vós. […] Fazei que os meus olhos não vejam outra coisa a não ser Vós, que os meus ouvidos não oiçam senão as coisas do Céu, que minha língua e os meus lábios não se movam a não ser para falar de vós e das vossas coisas e louvores, que o meu coração não tenha outros sentimentos que não sejam os do amor e da dor: o amor para vos amar, e a dor para vos consolar e reparar.”

 

Não quero o mundo; quero desaparecer dele, morrer para ele; não quero o mundo, nem nada que lhe pertença.

Quero as almas, quero as almas todas que nele habitam, porque essas sim, essas só a Jesus pertencem...

Eu não quero o amor das criaturas; quero o amor do meu Jesus.

Quero viver e não viver, isto é, viver só a vida de Jesus, estar aqui (na terra) como se não estivesse aqui, viver aqui como se não vivesse e nunca tivesse existido aqui[42]. Jesus, só Jesus é tudo para mim.

 

Quero viver dentro deste corpo que não existe, quero viver lá tão dentro da vida interior, a vida íntima com Deus Pai, Filho, Espírito Santo, que não quero sair cá fora, cuidar do exterior sem deixar sempre de viver no interior.

“Meu Jesus, meu Jesus, não deixeis que o mundo me separe de vós!”

 

c) Conformidade total com a divina vontade.

 

Quando estou mais aflita tenho o hábito de dizer: “Meu Deus, faça-se em tudo e sempre a vossa santíssima vontade. Confio em vós!”

 

Como é bela e consoladora a oração do Padre-nosso: “Faça-se a sua vontade assim na terra como no Céu”! Seja esta a minha maior consolação: saber que estou a fazer a vontade do meu querido Jesus, que tanto tem amado esta pobre e miserável pecadora.

 

Custa-me tanto, tanto, suportar a dor que me abate, os espinhos que tão dolorosamente penetram no íntimo do coração e da alma! Um “sim”, um “faça-se a vossa vontade” ao meu Jesus vai saindo do coração, embora abafado pelo peso que o oprime.

 

“Quero só o que vós quereis, mesmo que se para isto eu deva ficar sempre a arrastar-me à volta da terra como mais pequeno vermezinho. […] Faça-se a vossa vontade divina.

Sou a vossa vítima, vítima até dos meus desejos. Fazei, Jesus, que eu morra para mim e para todos: viva só para vós e para as almas.”

 

A Jesus que lhe pergunta se quer assemelhar-se a ele, responde:

 

“Ó meu Jesus, eu quero tudo, tudo quanto a vós agrada. Quero consolar-vos quero amar-vos com um amor que me mate. Quero fazer em tudo, em tudo, a vossa santíssima vontade.”

 

Não só se adequa à vontade divina, mas faz a oblação da sua própria vontade, identificando-a com a de Jesus.

 

“Eu não tenho outra vontade senão a vossa, nem outros desejos senão os vossos.”

 

Estou a viver segundo a vontade do Senhor, que é também a minha. Mas custa tanto!

 

Em certos dias encontro fervor nas minhas orações, estou animada; noutros, tudo me desaparece. Beijo o crucifixo e parece-me não beijá-lo com amor; quando sei que em certo dia comungarei, digo: em tal dia receberei o Senhor, mas parece-me não dizer isto com o coração. E assim em frente! Mas seja feita a vontade do meu Jesus!

 

“Não me importa o terror para a minha vida, nem o sentir se vos amo, se sofro por vós, se vivo para vós. O que importa é querer o que vós quereis, abraçar tudo quanto me dais.”    

 

Está sobre mim a noite mais tempestuosa e triste. Mas o meu coração murmura: “Jesus o quer, eu o quero.”

 

Tudo o que faço, tudo o que penso é só por Jesus e pela sua glória. Não é com fim do prémio que me espera. Quero ser só o que Nosso Senhor quer, nem desejo ir mais um passo para a frente na perfeição, sem que Nosso Senhor o queira.

 

O ter feito a Jesus a oblação da sua própria vontade leva-a a sentir-se sua «escrava» por amor.

 

Jesus, só Jesus e a sua vontade divina. E, já que ela se cumpre aceitando com alegria o que dele vem, o que ele me manda, não me escondo, não quero fugir à cruz.

“Eis aqui, Senhor, a vossa escrava! Aceito tudo por amor de Vós, oferecendo-vos, dia a dia, momento a momento, os meus pequeninos nadas, as minhas contrariedades e sacrifícios. […]

Que a minha vida seja a vossa, Jesus; a vossa divina vontade, a minha.”

 

 

 

 

 

 

 

LA FIGURA DI P. 148 ED. ITALIANA (A SINISTRA)

CAPITULO 60

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 6º

 

 

“EIS-ME, SENHOR, MEU AMOR!

(oblação)

 

 

O castigo que nos salva pesou sobre ele,

fomos curados nas suas chagas.

Oferecendo a sua vida em sacrifício expiatório,

terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias,

E a obra do Senhor prosperará nas suas mãos.                               (Is 53, 5.10)

 

Ele é a propiciação pelos nossos pecados,

E não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.           (Jo 2,2)

 

Ele deu-se a si mesmo por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniquidade

e de adquirir para si, purificando-o, um povo zeloso de boas obras.     (Tt 2, 14)

 

 

“Descarregai sobre mim tudo, tudo, não deixeis nada para os pecadores, a não ser ternura, amor e compaixão.”

 

“Ó almas, ó almas quanto e preciso sofrer para vos salvar!

Ó Jesus, ó Jesus, quanto custa a conquista do vosso amor!”

 

“Estou pronta, ó Jesus, para tudo sofrer e amar.”

 

“Aceitai, ó Pai Eterno, o meu nada unido ao tudo!”

 

“Tu salvas com a dor,

salvas com o amor.”

 

 

A espiritualidade de Alexandrina é toda centrada na aceitação amorosa da vontade de Deus e na oferta de si mesma, vítima pela salvação das almas.

A sua oração é por isso toda permeada de um espírito de oblação que nasce do seu amor ardente e generoso, heróico.

Eis alguns exemplos, ordenados em parágrafos, que reflectem as várias implicações da sua missão de vítima de expiação.

 

 

§ 1º -  A OBLAÇÃO

 

A sua oferta é total e sem hesitações ao longo dos anos.

 

“Sem um momento de arrependimento por me ter oferecido a Vós como vítima, renovo a minha oferta.

Descarregai sobre mim tudo, tudo, não deixeis nada para os pecadores, a não ser ternura, amor e compaixão! […]

Não cesseis, meu Jesus, a minha imolação, para que não cesse para ele (o mundo) a vossa graça e o vosso perdão. […]

Ó meu Jesus, meu Jesus, vinde depressa, procurai nesta pobrezinha alguma coisa que vos agrade, que vos console, que vos possa pagar a dívida da humanidade. Tomai tudo, tudo: pago-vos com o que é vosso.

Tende dó dos pobrezinhos, dai-lhes luz para as almas porque eles estão cegos, não vêem nada.

Estou pronta para dar a vida, quero dar todo o meu sangue, mas quero que eles se salvem. […]

Coloco-me no altar do sacrifício, deixo-me imolar por vosso amor e pelas almas, seja qual for a imolação.”

 

Não devemos pensar que esta oblação seja fácil para Alexandrina porque «é santa». Pensemos antes que «é santa» justamente porque essa oferta lhe custa muita dor. Mas tudo é superado pelo amor que quer salvas as almas e pela confiança na ajuda de Jesus.

 

“Custa-me muito sofrer, meu bom Jesus, mas custa muito mais a vós verdes as almas irem para o inferno.

Dai-me a vossa força bendita: com ela não temo o sacrifício.”

 

“Ó almas, ó almas, quanto é preciso sofrer para vos salvar!

Ó Jesus, ó Jesus, quanto custa a conquista do vosso amor!”

 

É por ti, mundo, que eu sofro, é a ti, mundo, que eu quero salvar: vejo em ti o meu Deus, vejo em ti o sangue do meu Jesus.”

 

São tantas as ânsias de dar-me a Jesus, são tantas e tão grandes as ânsias de amá-lo e salvar-lhe as almas que por esta razão queria ver este mísero corpo reduzido a um esqueleto desfeito, sem sangue, sem carne, sem vida.

“Meu Jesus, não sei o que é que quero, não sei o que é que sofro, não sei o que é que vivo. […]

 “Eu sei, meu Senhor, que por mim nada mais podia sofrer e nada teria sofrido. Eu sei, meu Sumo Bem, que seria capaz de vos negar tudo, se não tivesse sempre o vosso «sim» no meu coração e nos meus lábios. Eu quero sofrer, e sofrer tudo, mas já sabeis, Jesus, só com a vossa graça, força e amor posso resistir a tanto. Ó Jesus, compadecei-vos de mim! Sinto que não posso e sinto que devo poder porque vós o quereis. Como hei-de, meu Jesus, remediar este mal? Não posso e devo poder!”

Jesus responde:

“Sossega, sossega, minha filha querida. Não podes por ti, mas podes por mim. Tu não podes e queres por meu amor; eu posso e quero por amor das almas.”

 

Tenhamos presente que Jesus lhe pede consentimento todas as vezes, antes de a fazer reviver a Paixão.

A resposta é sempre pronta e generosa.

 

Sim, Jesus, dai-me muito (para sofrer e amar) para que muito eu tenha para dar-vos: dai-me muito para que muito tenhais para distribuir; dai-me tudo para que eu tudo vos possa dar. Não quero ter nada em mim que vos não pertença.

Dai-me toda a dor, todo o amor para poder salvar os pobrezinhos. Dai-lhes o meu sangue para lhes matar a sede, dai-lhes a minha carne para os alimentar.”

 

 

§ 2º - CARREGADA COM OS PECADOS DOS IRMÃOS

 

Qual vítima de expiação, à imitação do divino Modelo, Alexandrina deve sentir adossados a si os pecados das muitas almas que quer salvar: tem a sensação de viver a mesma vida dos pecadores, por isso experimenta ódio e rebelião contra Deus. Todavia há nela como que um desdobramento: enquanto vítima, invoca o auxílio divino

 

Horas horrorosas de triste confusão! Morre a minha alma.

Ó horror, ó horror, tremendo horror! Meu Deus, como é isto? Morreu a minha alma, morreu tudo o que me pertencia!

Foram as misérias, as maldades, os crimes vergonhosos do meu pobre corpo que lhe causaram a morte. Sem alma, sem vida, sem nada, como posso estar aqui?... Ai, que triste confusão, é quase um desespero.

“Ó Jesus, ó Mãezinha, o que será de mim, se não vindes em meu auxílio? Se me faltais vós, quem poderá acudir-me? Sangue de Jesus, dores da Mãezinha, sede a minha força neste martírio: estou nele por vosso amor, estou nele pelas almas.

Não posso conformar-me com a morte da minha alma; sinto querer revoltar-me contra vós. Lembro-me dos condenados do inferno. O que será este martírio toda a eternidade?!”

 

Jesus, o meu querido Amor não pode alegrar-se comigo: parece que eu não vivo para ele, só vivo para o pecado, e o pecado vive em mim.

A podridão prendeu-me ao lodo, escusado é formar voo para Jesus.

No meio de tudo isto rompe o brado aflitíssimo da minha alma e do meu coração; rompe e chama por Jesus e pela Mãezinha.

“Dou-me a vós, meus queridos Amores, assim como me encontro; a vós me abandonei, de vós tudo espero. Valei-me, valei-me, não me deixeis perecer! […]

Ó meu Deus, ó meu Deus, não me abandoneis! Ai de mim, sem a vossa força, neste estado de alma em que me encontro! Sofro a dor da vossa perda, mas não desisto da minha revolta e ódio contra Vós.

Valei-me Jesus, valei-me Mãezinha! Só a vossa força e o amor dos vossos Corações suporta a minha cruz.”

“Sinto que estou do Céu e da terra abandonada.

 

Não vivo mais eu: vive a minha inutilidade, a minha eternidade que é um mundo de terror, um ódio invernal, desesperante, blasfemador contra o Céu.

“Ó Jesus, ajudai-me, ó Mãezinha, ajudai-me e mostrai-me que sois mãe!” Quantas vezes repito isto na maior das minhas angústias, no maior tormento!

 

 

§ 3º -  SOFRE OS EFEITOS DA JUSTIÇA DIVINA

 

Quanto mais Alexandrina se sente esmagada pela justiça divina, tanto mais refulge o heroísmo do seu amor.

 

Sentia a justiça do Eterno Pai a destruir-me: ficava como reduzida a pó.

“Meu Deus, ó meu Jesus, ser nada por teu amor é ter a felicidade na terra. Sofrer para vos consolar e salvar as almas é a minha alegria, mesmo que não permitais que eu a sinta.

Eu convosco venço. Deixai-me viver esmagadinha; eu quero dar-vos a prova do meu amor, mas não sei como: não tenho que vos dar.

Dar-Vos o meu corpo? Já há muito que vos pertence (estamos em Maio de 1940). Dei-vo-lo inteirinho para ser martirizado e crucificado.

Dar-vos o meu sangue? Oh, esse já vosso é também. Ainda que de nada mais sirva, seja ele a tinta que escreve em toda a terra a palavra AMOR, amor para e só para Jesus.

Dar-vos a minha vida? Já não é minha, Vossa é também. Vós morrestes por mim, para me salvar e eu morro por vosso amor e para salvar-vos as almas.

Jesus, Jesus, que mais vos hei-de dar? Quero que a minha vontade seja vossa para que a Vossa seja sempre a minha.

Aceito tudo quanto me enviardes pelo vosso amor... […]

Meu Jesus, tirai de mim, se possível, todas as reparações necessárias.”

 

Assim principiei a madrugadinha de hoje. Chegava a hora do dia, mas a luz não aparecia.

Em grande combate e com muito custo me preparei para receber a Jesus (eucarístico).

Depois de o receber, senti-me num bosque tão medonho e escuro e todo enredado: não tinha saída. E que desgraça a minha! Não podia voltar atrás, já não via o caminho que tinha seguido. Mais e mais se fazia sentir a desesperação.

Principiou Nosso Senhor a dizer-me assim:

“Já não és minha filha: desprezaste-me e preferiste Satanás; a ele pertences. Vendestes-me pelos prazeres e paixões.” […]

Eu fiquei no mesmo desespero e sem querer ouvir a voz de Nosso Senhor.

“Não digais mais a alma nenhuma: «Já não és meu filho!»

Para que assim seja, meu Jesus, serve-vos o meu corpo, o meu sangue e a minha vida? Tomai tudo. Não quero, não posso ver mais o vosso divino Coração amargurado. Não choreis; consolai-vos! Eis aqui a vossa filha que por qualquer alma quer dar a vida. […]”

 

 

§ 4º - AMOR E REPARAÇÃO PARA TODOS

 

“Ó Jesus, eu aceito (reparar). Quero sofrer por quem quer que seja, amigos ou inimigos, não me importa: são filhos do vosso amor divino. Eu quero salvá-los todos. Sou a vossa vítima. Quero reparar sem saber por quem. […]

Ó Jesus, fico na minha dor, na minha cruz, fico em trevas horrorosas: que tudo isto cicatrize o vosso Corarão divino, que todo este sofrimento atraia sobre as almas as graças e que têm necessidade, atraia tudo quanto vos tenho pedido e quanto não sei pedir-vos; que todo este sofrimento arranca ao vosso Pai o perdão, a misericórdia, a salvação para o mundo inteiro. […]

Amor, Amor, meu Amor, quero dar-vos tudo pelo mundo e por ele sofrer tudo sem excluir ninguém. […]

Eu vos amo, meu Jesus, e tudo aceito a fim de que a humanidade vos ame.”

 

Em participar a Alexandrina sofre pelos sacerdotes indignos, pelos quais Jesus chora, acenando com o castigo divino.

 

“Ó meu Jesus, eu quero que sobre mim venha toda a justiça divina, mas quero que eles se salvem e se voltem deveras para vós e se encham todos do vosso divino amor para que possam incendiar as almas numa só chama de amor por vós.”

 

 

§ 5º - INSTRUMENTO NA MÃO DIVINA

 

Na sua obra de vítima, Alexandrina não atribui a si nenhum mérito. Fez oblação total da sua pessoa, incluída a vontade, como vimos no capítulo precedente, por isso sente-se «instrumento na mão divina» usado para a salvação das almas.

Esta sua atitude espiritual exprime-se com comparações várias: bolinha com que Jesus brinca, cacho de uvas espremido, tambor sobre que Jesus bate, bigorna sobre que Jesus forja os vários instrumentos de salvação.

 

Fito os olhos no crucifixo, no Coração divino de Jesus e, em espírito no Céu, digo:

“Estou aqui, Jesus, para fazer a vossa divina Vontade. Fazei-a vós, em mim e por mim!

Brincai, manejai com este inútil instrumento, como vos aprouver. A alma chora, o coração sangra; o meu calvário chega da terra ao Céu.

Mas quero, quero a dor, as humilhações, os desprezos e tudo o mais, todos os espinhos que me trespassam, tudo quanto me leva à agonia e à morte.

Quero porque o quereis vós; quero porque amo as almas que são vossas; quero porque vos amo mesmo sem sentir o vosso amor. Creio, creio, espero e confio! […]

Jesus, eu sou vossa. Tomai o meu corpo: quero que ele seja instrumento de reparação, quero com os meus sofrimentos evitar o pecado e impedir que caiam almas no inferno.

Quero todos os povos do mundo inteiro numa guerra desabrida, numa loucura de amor por vós: que todos corações vos pertençam e vos amem.

Para isso quer sofrer tudo a vossa Alexandrina. […] Aqui tendes o meu corpo, que todo ele é vosso. Fazei dele a vossa bolinha[43] de entretimento e amor, para que tudo possais esquecer. Jogai-a, calcai-a até que fique esmigalhada; mas é sempre a vossa bolinha. […] Não vos canseis de jogar a vossa bolinha; brincai, brincai, brincai! E se me virdes cansada pelo sofrimento, vinde ajudar-me; dai-me força.

É bem doce sofrer pelo vosso amor! Não quero outro fim no meu sofrimento senão dar-vos as almas, consolar o vosso divino Coração.” […]

 

Eu sou de Jesus e vivi sempre para ele. A minha vida tem sido de muitos e variados brinquedos para Jesus.

“Brincai, Jesus, brincai! Espremei bem vosso cachinho, tirai-lhe todo o sumo! […]

Ó Jesus, o vosso tamborinho está às ordens: batei, batei, alegrai-vos, e jogai à vossa divina vontade. Não deixais um só momento de vos entreterdes comigo para poder esquecer a gravidade com que vos ofendem.”

 

“Eu sou um cepo ou mesa de ferreiro, como lhe queiram chamar. Estou no lugar onde me colocaram. Aceito todas as pancadas que me quiserem dar. Sois vós, Jesus, o artista. Fazei toda a variedade de instrumentos e espalhai-os pela humanidade inteira. Sabeis o que a cada um convém. Trabalhai, Jesus, trabalhai; batei, Jesus, batei sobre vosso cepo; a fornalha é o vosso divino Coração; o fogo, o vosso amor. Tudo é por vós, tudo é para as almas.”

 

O «instrumento» contudo sofre tanto na sua parte menos espiritual, por isso precisa sempre da ajuda divina: Jesus torna-se a sua mesma força, o seu mesmo amor.

 

“Eu estou pronta, ó Jesus, para tudo sofrer e amar; pronta para vos deixar trabalhar em mim, à vontade.

Manejai o meu corpo como vos aprouver, contanto que sempre em mim estejais vós, para com a vossa força sofrer, para com o vosso amor eu amar.”

“És vítima, sempre vítima” (diz-lhe Jesus).

“Jesus, sede sempre a minha força para que eu continue a sofrer com amor e sofra com alegria. Quero dar-vos almas, quero reparar o vosso divino Coração e o da Mãezinha... Quero sofrer com alegria para vos alegrar a vós e a ela, meu Jesus; quero sofrer com fortaleza para aplacar a justiça do vosso Eterno Pai.”

Jesus conforta-a afirmando:

“Salvas com a dor, salvas com o amor. Tens em ti o poder de Jesus.”

 

 

§ 6º - AMOR PESSOAL A JESUS HOMEM – DEUS

 

O amor aos irmãos, que leva Alexandrina a desejar sempre mais sofrimentos para salvar o maior número de almas resgatando-as com o seu martírio, é em substância o amor a Jesus no seu Corpo místico (dimensão horizontal).

Mas em muitos momentos espirituais o amor a Jesus assume a forma de Amor a Jesus como pessoa, como Esposo da alma (dimensão vertical). E neste amor intenso quer arrastar todos os corações da humanidade inteira.

A união esponsal de Alexandrina com o seu Jesus é objecto do capítulo 8º; os fragmentos aqui transcritos reflectem de modo particular a sua atitude de vítima.

 

“Meu Deus, vejo as almas tão cheias de podridão! E os corpos a desfazer de lepra, consequências do pecado.

Que luz esta que me obriga a ver tudo! Como está o mundo!

E, vós, doce Jesus, o vosso divino Coração já não pode mais.”

Lá estou entre o mundo e Jesus para evitar que as maldades dos homens vão ferir mais o seu Coração tão amante. Vêm bater a mim os açoites, os espinhos, todos os maus-tratos....

 

“É bem unida à cruz, ferida com os mais agudos espinhos que eu quero bradar sem cessar:

«Amo-vos, Jesus!» Fazei que este brado de amor ecoe no mundo inteiro para que ele só conheça o amor e dele desapareça tudo que é ofensa para vós! […] O vosso sangue divino regou a terra, abriu o Céu. Permiti que vá, agora, o meu, lavar as almas dos pobres pecadores. Permiti que o meu sangue possa incendiar por toda a terra o vosso amor, para que possamos dizer, todas as almas da terra, duma só voz: «Reina o amor de Jesus em todos os corações, arde o mundo numa só chama por amor de Jesus. Morreu o pecado, já não existe. Jesus já não é mais ofendido: na terra já só há amor, amor, amor!»” […]

“Contai comigo, meu Jesus: estou pronta para sofrer e para amar-vos. É com a minha dor e com meu amor que eu vos hei-de fazer amado. Esquecei os desprezos, as ofensas e o esquecimento de todos. Olhai para mim: lembrai-vos que nem um só momento quero deixar de estar imolada para que venha a nós o vosso reino e para que todas as almas vão de encontro ao vosso Coração divino, ao vosso Coração de amor, ao vosso Coração de Pai. […]

Jesus, não quero ter alegria na terra enquanto nela houver pecado. Desejo ver só amor em todos os corações. […]

Ligai, meu Jesus, o meu coração ao vosso; que nada haja que nos possa separar. Ligai também a vós os corações do mundo inteiro: não quero que haja outra coisa nesta pobre humanidade a não ser amor, amor puro ao vosso Coração divino. Queria arrancar o meu coração e entregá-lo às chamas mais fortes e do mais ardente amor para que o façam arder e poder-vos dizer: «Este é o amor de toda a humanidade, este é o amor de todos os vossos filhos.»”

 

Vimos que a Alexandrina sente em si a dor de Jesus e quer consolar o seu Amado salvando almas com o seu martírio. Mas nisto reconhece, na sua humildade, que é inferior às outras almas-vítimas.

 

“Jesus, Jesus, vós estais triste? Eu sinto a vossa tristeza e as lágrimas dos vossos olhos divinos caiem sobre o meu coração.

Que fazer, Senhor? Que fazer, Senhor? Que fazer, meu Jesus?”

Jesus chorava e fazia-me sentir a amargura que ele sentia. O meu coração parecia partir-se e morrer de dor.

Eu dizia: “Não choreis, Jesus!” Ele disse-me: “Deixa-me chorar. São lágrimas de dor e de amor: purificam o mundo.”

“Jesus, deixai-me chorar e gemer, que sou pecadora e pelos meus pecados mereço o inferno. Inventai novos sofrimentos para vossa vítima, assim como o mundo ingrato inventa crimes para ofender-vos. […]

Meu Jesus, quero alegrar-vos, quero consolar-vos. Não quero que choreis. Dou-vos o meu pobre coração com o meu frio amor; dou-vos todo o meu corpo para toda a imolação. Seja tudo isto, que não é nada, o estanque das vossas lágrimas. Consolar-vos, Jesus, consolar-vos, Jesus, com todas as almas vítimas que vos amam mais do que eu vos amo e sabem sofrer melhor do que eu sofro.

Consolai-vos com os meus desejos que tenho de amar-vos e de evitar todo o pecado; consolai-vos com as minhas ânsias devoradoras de reparar por todas as ofensas feitas ao vosso Coração divino, cometidas conta a Majestade divina. […]

... Se eu sou vossa esposa fiel e amante, não poderei consolar-vos?

Não poderei tomar para mim todo o sofrimento, para não vos deixar sofrer mais?

Que esposa sou eu, se isso não faço? Onde está o meu amor? Eu não quero ser esposa só de nome, mas sim de verdade: quero ser esposa de alma e coração.

Jesus, morrem os meus lábios de sede e de fome[44], e de sede morre a alma. Sois vós não permitir que eu não possa saciar a sede do meu corpo.

Ofereço-vos o sacrifício: aceito-o por amor para que possais vós saciar a sede que tendes dos corações.”

 

 

§ 7º - UNIÃO DE TODAS AS DORES – AMOR

 

Não esqueçamos que todos os padecimentos de Jesus continuam a ser operantes nos séculos.

As dores de quem – na sua esteira – sofre para expiar por todos adquirem grande valor para a obra da redenção se oferecidos com amor em união aos da mesma Vítima divina, como fez Maria, a maior cooperadora para a salvação da humanidade.

Como é preciosa e fascinante a união, a fusão de todas as dores-amor do único Corpo místico de Jesus! E Alexandrina sente-o bem. Está tão consciente da gravidade e vastidão do mal que devasta a humanidade que sente insuficientes os seus sofrimentos, mesmo que grandes; recorre por isso à oferta do seu padecer em união ao do redentor e das outras almas-vítimas, de Nossa Senhor antes de tudo.

 

 

“Jesus, revesti os meus pobres sofrimentos e tudo o que possa servir de reparação, com os vossos infinitos sofrimento. […]

Meu Jesus, dou-vos a minha dor, a minha pobre dor, que em si nada vale. E sempre às dores da Mãezinha que eu a uno e pelas suas santíssimas mãos que vo-la ofereço.

Juntai tudo aos méritos da vossa sagrada Paixão, entregai esse valor infinito ao vosso Eterno Pai: pedi-lhe, meu Jesus, pedi-lhe vós que perdoe ao mundo, que não o castigue já, que espere a sua conversão!”

 

Jesus diz-lhe:

“Sentes que os teus sofrimentos e todo o teu viver nada valem; mas em mim, junto aos merecimentos da minha sagrada Paixão, valem bem tudo. Confia: nada da tua vida se perde, mesmo das coisas mais pequeninas.”

 

Às vezes dirige-se directamente a Deus Pai.

 

Eu sofro tanto e sofro ainda mais por não poder sofrer mais. O que sofro não basta, não me satisfaz. Eu queria mundos e mundos de sofrimentos para juntar aos meus, mas é pouco ainda.

“Meu Deus, como reparar a vossa justiça divina?

Aceitai os merecimentos infinitos de Jesus, a sua Paixão e Morte unidos às dores e lágrimas da Mãezinha; satisfazei-vos com isso. Eu não tenho nada para vos dar. Sofro e nada sofro. Queria possuir sofrimentos infinitos para reparar um Deus infinito. […]

Pai Eterno, Pai Eterno, aceitai o Sangue divino do vosso Filho Jesus. A ele junto as dores da Mãezinha e depois a minha entrega total, a minha imolação contínua.

Aceitai, ó Pai Eterno, o meu nada, unido ao Tudo[45]! Afastai a vossa justiça. Perdoai, perdoai o mundo!”

 

Alexandrina, no seu papel de vítima de expiação que revive a Paixão, tem o desejo, mesmo a necessidade espiritual, de participar profundamente ao vivo também das dores da «primeira» vítima de expiação a seguir ao Redentor: Nossa Senhora das Dores.

 

Elevo os meus olhos à querida Mãezinha e digo-lhe: “Mãezinha querida, acompanhai-me junto à cruz do vosso e meu querido Jesus, deixai-me sofrer convosco: quero sentir a vossa dor. Permiti que o meu coração esteja sempre trespassado com as espadas do vosso. […]

Ó Mãezinha, dai-me a vossa dor, a que sentistes ao pé da cruz; dai-me o amor da santíssima Trindade e de todos os anjos e santos do Céu. Oferecei tudo a Jesus para tirá-lo de tão grande sofrimento.”

 

A própria Santíssima Virgem continua a convidá-la a participar na sua vida de dor-amor.

 

Depois de ter recebido da Mãezinha muita vida, muito conforto e muito amor, não sei como, o seu coração saiu à superfície do peito; estava rodeado de espinhos entrelaçados uns com os outros. Começaram a desenrolar-se do coração da Mãezinha e a enrolar-se em volta do meu.

“Aceitas, minha filha, unir estes espinhos ao punhal que já te trespassa o coração? Sei que não me dizes que não: são os espinhos que ferem o coração de Jesus e o meu: são os crimes do mundo; foi o fogo da paixão a produzi-los. Alivia as nossas dores!

Eu quero que vivas unida a mim, na mesma dor, no mesmo amor, como eu e meu Filho Jesus. Sofremos tanto! Sofre connosco: é grave a hora da humanidade! É tremenda a justiça divina que vem a cair sobre ela!...”

“Ó Mãezinha, ó Mãezinha, toda a minha alegria está em sofrer por Jesus e por Vós[46]. Aceito tudo; dai-me força!

Mas não os esqueçais, apresentai-vos com todo o vosso poder junto de Jesus, implorai ao Pai Eterno, para o mundo, misericórdia e compaixão.”

 

Um outro exemplo do diário de 3/9/1954:

 

De repente apareceu a Mãe das Dores. Trazia nos braços Jesus morto. Pô-lo sobre o meu colo, acariciou-me levemente e sentou-se a meu lado.

Os meus olhos não paravam mais de contemplar Jesus, enquanto ouvia o que a Mãezinha dizia: “Aceita, minha filha, à semelhança de mim no Calvário! A mim foi dado Jesus morto pela humanidade; a ti dou a humanidade morta pelo pecado, mas nela há sempre Jesus. Vê-o em todas as almas, contempla-o em todos os pecadores, contempla-o na humanidade inteira.

Aceita as minhas flechas, aceita os meus espinhos! Sofre, filha, sofre, tem coragem! Eu, juntamente com o teu Jesus, não te abandono. És a predilecta do Céu.”

“Ó Mãezinha, ó Mãezinha, ajudai-me! Tudo me foge. Quero consolar-vos e dar a Jesus todas as almas.”

Sem um sorriso, sem uma carícia, desapareceu, assim como Jesus morto.

 

 

§ 8º - “CRÊ QUE ME AMAS, OUE SOFRES COM PROVEITO”

 

Concluamos este capítulo com um diálogo entre Jesus e Alexandrina. A nossa mártir teme não saber sofrer bem e Jesus assegura-lhe: ela sabe sofrer bem e amar.

 

Depois de haver revivido a Paixão, o êxtase continua e Alexandrina ouve Jesus ressuscitado.

Ele veio com a sua nova vida, deu-ma e disse-me: “Ama-me, ama-me, ama-me, minha filha, minha pomba, minha esposa querida. Repara-me, repara-me, repara-me, vítima minha! Eu quero ser amado e reparado; faz que eu o seja por muitas almas. Eu quero apresentar ao Pai Eterno uma grande reparação.”

“É bem pouco o que me pedis: amor e dor. Eu amo-vos com o amor do vosso Coração; o meu está tão frio, tão gelado, bem o sabeis. É vós que me pedis amor: é com certeza porque eu não vos amo; vós que me pedis tanta dor: é talvez por eu não saber sofrer. É, meu Jesus? Dizei-me!...”

“Eu fiz da tua vida um conjunto de toda a minha vida: tornei-te muito semelhante a mim para que eu em ti e tu comigo continuássemos a obra de salvação, a obra de redenção. Enche-te de mim, enche-te do meu amor: é a força, é a coragem para a tua cruz.”

Foi tal o fogo que eu senti dentro do meu peito e depois em todo o corpo que me senti sufocar…

“Ó Jesus, o vosso divino amor queima-me. Se o meu vos queimasse a vós! Se eu vos amasse muito, penso que me esqueceria daquilo que sofro.”

“Tem a certeza que me amas e que cumpres fielmente a minha divina vontade e desempenhas a nobre missão que te confiei. […]

 

“Amas-me, minha filha, amas-me loucamente, com o maior amor. Eu peço-te para ir às tuas ânsias de mais me amares, e com mais perfeição, buscar consolação e delícias para meu divino Coração.

Eu peço-te dor, sempre mais dor, porque assim o exigem os crimes da humanidade, mas não é porque tu possas sofrer mais nem com maior perfeição.

Quero lembrar-te sempre que estás na cruz, que a dor não te pode deixar, e que são o amor e a dor o maior bálsamo para o meu sofrimento, a moeda mais cara e mais preciosa para o resgate dos pecadores. Estou no teu coração; confia que me amas, confia que sofres bem.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LA FIGURA DIP. 178 ED. ITALIANA (A LA SINISTRA)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 7º

 

 

CUME E FONTE[47]

(devoção à Eucaristia)

 

 

Fez descer sobre eles o maná como comida

e deu-lhes o pão do céu.                   (Sal 77, 24)

 

Reconfortado com aquela comida,

Elias caminhou por 40 dias e 40 noites

até chegar ao Horeb, o monte de Deus.       (I Re 19,8)

 

Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.         (Jo 6, 51)

 

O pão que nós partimos

não é a comunhão do corpo de Cristo?        (I Cor 10, 16)

 

 

 

Vi o doce Jesus abençoar o pão e, naquele momento de amor e de maravilha sem igual, senti que o mundo era outro:

Jesus dava-se a ele em alimento.

 

Oh, os seus desejos que vivêssemos dele e para ele!

 

Senti Jesus a inundar a minha alma com a sua presença real.

 

“Tu suspiravas por me teres em teu coração,

e eu suspirava por todo o teu possuir.”

 

Em 1934, Alexandrina canta, inspirada:

 

“Seja a minha morada

viver na Eucaristia

e viver no vosso amor,

toda a minha alegria!”

 

No mesmo ano, em êxtase, ouve Jesus dizer-lhe:

 

“Amar o meu Coração, amar-me crucificado é bom; mas amar-me nos meus sacrários, onde me podes contemplar, não com os olhos do corpo mas com os olhos da alma e do espírito, onde estou em corpo e alma e divindade, como no Céu!... Escolheste o que há de mais sublime.”

 

“O que há de mais sublime.” De facto na Hóstia e no Vinho consagrados há a presença do Homem-Deus, há «Jesus inteiro», como diz Alexandrina no diário de 20/5/1949, descrevendo o êxtase da Paixão no momento da Ceia[48].

 

Como ele amou, como ele ama! Os seus desejos que vivêssemos dele e para ele! Recebemos Jesus inteiro; e ele é sempre Jesus, desfeito em amor: um Céu de amor.

 

O Amor que abraça a terra! O contacto do divino com o humano, ou melhor, o humano assumido pelo divino, o infinitésimo pelo infinito; ali há o humano, ali há o divino, ali há o Tudo.

O cristão crê pela Fé nesta sublime realidade.

Em tal contemplação não sabe fazer outra coisa senão adorar e agradecer, mesmo operando no mundo. Os santos conseguem viver sem interrupção nesta atmosfera de adorante reconhecimento, mesmo vivendo na vida quotidiana entre ocupações ainda que materiais.

Alexandrina, com amor crescente – e que nunca a satisfaz – vive assim «o dom daquele que com a sua humanidade infunde incessantemente a vida divina nos membros do seu Corpo» (Eucaristicum Mysterium).

 

Por este seu amor tão ardente, Jesus escolhe-a também como mensageira para difundir a seguinte prática devocional em honra exactamente da Eucaristia, análoga à das primeiras sextas-feiras e dos primeiros sábados do mês.

No êxtase de 25 de Fevereiro de 1949 diz-lhe, entre outras coisas:

 

“Minha filha, minha esposa querida, faz que Eu seja amado, consolado e reparado na minha Eucaristia. Diz em meu nome que todos aqueles que comungarem bem, com sinceridade e humildade, fervor e amor em seis primeiras quintas-feiras seguidas e junto do meu sacrário passarem uma hora de adoração e íntima união comigo, lhes prometo o Céu. É para honrarem pela Eucaristia as minhas santas Chagas, honrando primeiro a do meu sagrado ombro tão pouco lembrada.

Quem isto fizer, quem às santas Chagas juntar as dores da minha Bendita Mãe, e em nome delas nos pedir graças, quer espirituais, quer corporais, eu lhas prometo, a não ser que sejam de prejuízo à sua alma. No momento da morte trarei comigo minha Mãe Santíssima para defendê-lo.”

 

Pode-se dizer que Alexandrina «vive da Eucaristia»; e nos últimos 13 anos esta afirmação entende-se em sentido global, isto é, mesmo no campo físico, pois que alimenta exclusivamente da Hóstia consagrada: Jesus é vida da sua vida.

No êxtase de 27 de Março de 1953 (recordemos que o jejum total começou em Abril de 1942) ouve Jesus dizer-lhe:

 

“Tirei-te o alimento: Fiz, faço-te viver só de mim.

Sabes para quê, minha filha? Para mais e mais luz. Para mais provar aos homens o meu poder, a minha existência.

Ai daqueles que não querem ver! Bem-Aventurados os que vêem e crêem!”

 

E um ano depois:

“Faço que vivas só de mim para mostrar ao mundo o valor da Eucaristia e o que é a minha vida nas almas. És luz e salvação para a humanidade. Ditosos os que se deixam iluminar!”

 

A espiritualidade eminentemente cristocêntrica de Alexandrina emerge de cada página dos seus escritos. Neste capítulo recolhem-se alguns fragmentos que evidenciam de modo particularmente forte o seu amor a Jesus sacramentado.

 

 

§ 1º - PRIMÓRDIOS

 

A sua devoção eucarística é vivida desde criança, tanto que consegue obter a recepção da primeira Comunhão pelos sete anos, idade inferior à das suas companheiras.

E desde aquele momento sente o coração «preso» por Jesus. Na Autobiografia lê-se:

 

Quando comunguei, estava de joelhos apesar de pequenina, e fitei a sagrada Hóstia que ia receber, de tal maneira que me ficou tão gravada na alma, parecendo-me unir a Jesus para nunca me separar dele. Parece-me que me prendeu o coração[49]. A alegria que eu sentia era inexplicável. A todos dava a boa nova.

 

Quanto ao Crisma, lamenta-se de não saber encontrar palavras adequadas para descrever a enchente dos sentimentos que a invadem. Sempre na Autobiografia está escrito:

 

Lembro-me muito bem desta cerimónia: recebi-o com toda a consolação. No momento em que fui crismada, não sei o que senti em mim: pareceu-me ser uma graça sobrenatural que me transformou e me uniu cada vez mais a Nosso Senhor.

Sobre isto queria exprimir-me melhor, mas não sei.

 

 

§ 2º - COMUNHÃO ESPIRITUAL

 

Alexandrina persevera no seu empenho de oração e meditação.

 

Não deixava dia nenhum de rezar a estação ao SS. meditando, quer fosse na igreja quer em casa ou até pelos caminhos, fazendo sempre a comunhão espiritual assim:

“Ó meu Jesus, vinde ao meu pobre coração! Ah! Eu desejo-vos; não tardeis! Vinde enriquecer-me das vossas graças; aumentai-me o vosso santo e divino amor. Uni-me a vós! Escondei-me no vosso sagrado Lado (chaga do costado)! Não quero outro bem senão a vós.

Dou-vos graças, Eterno Pai, por haverdes deixado a Jesus no Santíssimo Sacramento. Dou-vos graças, meu Jesus, e por último, peço-vos a vossa santa bênção! Seja louvado a cada momento o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!” […]

Gostava muito de fazer meditações ao Santíssimo Sacramento e à Mãezinha e, quando não podia fazê-las de dia, fazia-as de noite, às escondidas de todos, reservando uma vela, que escondia, para esse fim.

 

Com o passar dos anos, a sua ardente paixão por Jesus Sacramentado dilata-se sempre mais; todo o acto de amor aos sacrários lhe parece insuficiente e não a satisfaz. O seu amor abrasado, incontido, transbordando do coração cheio, irrompe num estupendo Cântico de Oferta.

 

“Meu Jesus, eu quero que cada dor que sentir, cada palpitação do meu coração, cada vez que respirar, cada segundo das horas que passar,

sejam actos de amor para os vossos sacrários.

Eu quero que cada movimento dos meus pés, das minhas mãos, dos meus lábios, da minha língua, cada vez que abrir os meus olhos ou fechar, cada lágrima, cada sorriso, cada alegria, cada tristeza, cada tribulação, cada distracção, contrariedade ou desgosto,

sejam actos de amor para os vossos sacrários.

Eu quero que cada letra das orações que reze, que ouça rezar, cada palavra que pronuncie ou ouça pronunciar, que leia ou ouça ler, que escreva ou veja escrever, que cante ou ouça cantar,

sejam actos de amor para os vossos sacrários.

Eu quero que cada beijinho que vos der nas vossas imagens, nas da vossa e minha querida Mãezinha, nos vossos santos e santas,

sejam actos de amor para os vossos sacrários.

Ó Jesus, eu quero que cada gotinha de chuva que cai do céu para a terra, que toda a água que o mundo encerra, oferecida às gotas, todas as areias do mar e tudo o que o mar contém,

sejam actos de amor para os vossos sacrários.

Eu vos ofereço as folhas das árvores, todos os frutos que elas possam ter, as florzinhas, oferecidas folhinha a folhinha, todos os grãozinhos de sementes e de cereais que possa haver no mundo e tudo o que contêm os jardins, campos, prados e montes, ofereço tudo

como actos de amor para os vossos sacrários.

Ó Jesus, eu vos ofereço as penas das avezinhas, o gorjeio das mesmas, os pelos e as vozes de todos os animais,

como actos de amor para os vossos sacrários.

Ó Jesus, eu vos ofereço o dia e a noite, o calor e o frio, o vento, a neve, a lua, o luar, o sol, a escuridão, as estrelas do firmamento, o meu dormir, o meu sonhar,

como actos de amor para os vossos sacrários.

Ó Jesus, eu vos ofereço tudo o que o mundo encerra, todas as grandezas, riquezas e tesoiros do mundo, tudo quanto se passar em mim, tudo quanto tenho costume de oferecer-vos, tudo quanto se possa imaginar, como actos de amor para os vossos sacrários.

Ó Jesus, aceitai o céu e a terra e o mar, tudo, tudo quanto neles se encerra, como se este tudo fosse meu e de tudo pudesse dispor e oferecer-vos,

como actos de amor para os vossos sacrários!”

 

Eis alguns trechos que exprimem o seu desejo ardente de estar espiritualmente junto aos sacrários a consolar Jesus e a receber força com Comunhões espirituais.

 

“Ó Jesus, sabeis bem todos os meus desejos, que são: estar sempre presente nos vossos sacrários, não me esquecer deles nem um momento.

Dai-me força, bom Jesus, para assim o fazer. […]

Meu Jesus, eu não vos quero sozinho nem por um instante do dia ou da noite, em todos os sacrários do mundo, em todos os lugares onde habitais sacramentado. Quero viver sempre unida a vós.”

 

Estou sempre a fazer-lhe companhia e dúzias e dúzias de vezes a recebê-lo espiritualmente. No correr das horas, quantas vezes o recebo! A minha loucura é a Eucaristia!

 

“Meu Jesus, eu me uno em espírito neste momento e, desde este momento, para sempre, a todas as santas Hóstias da terra, em cada lugar onde habitais sacramentado. Aí quero passar todos os momentos da minha vida, constantemente, de dia e de noite, alegre ou triste, só ou acompanhada, sempre a consolar-vos, a adorar-vos, a louvar-vos e a glorificar-vos! […]

Vinde, meu Jesus, e vivei em mim como eu desejo viver convosco; operai em mim tantas graças como se eu vos recebesse sacramentalmente. […]

Meu Jesus, eu queria que o meu coração fosse uma lâmpada sempre a arder em cada um dos vossos sacrários; e dentro do meu próprio peito, queria a mesma lâmpada de amor a alumiar as Personagens Divinas, às quais só quero pertencer. Permiti que nada haja que possa apagar as lâmpadas[50] do meu amor, que dia e noite, sem interrupção de só um momento, quero a arder junto de vós.”

 

Sem nenhum momento de consolação, eu vou vivendo no meio de trevas e abandono, mas sempre nos braços de Jesus, a fazer-lhe sentinela aos seus sacrários em toda a parte onde ele habita sacramentado.

 

Rezei algumas coisas, cantava tão baixinho que ninguém me ouvia (era noite), o “Tantum ergo” e vários cânticos e pedi a Nosso Senhor, que me desse a bênção de todos os sacrários do mundo.

 

“Estais nos sacrários, Jesus: deixai-me ir a vosso encontro, deixai-me viver aí. Deixai a minha dor, já mais que moribunda, deixar junto de vós o seu último sopro de vida! […]

 

Ó Jesus, ó Jesus, ó Jesus, ó meu Amor, a minha alma vê, a minha alma vê o vosso divino Coração feito sacrário. Estão abertas as portas de par em par. Os raios, as chamas devoradoras que dele saem vêm ao meu encontro: queimai-me, Jesus, queimai-me! Consumi-me. Fazei-me desaparecer em vós. Fazei, fazei, Senhor que todas as almas se abeirem e vivam do sacrário, sempre só do sacrário.”

 

Aqui aparece claro como é o próprio Jesus que suscita tais desejos, que estimula à Comunhão. Chamou insistentemente e continua a chamar as almas a aproximar-se, ao menos espiritualmente, dos sacrários, a fazerem frequentes Comunhões espirituais. Por exemplo, no diário e 2/10/1948, lê-se:

 

Ouvi a sua voz divina dizer-me assim:

 

“[…] Eu quero, filha querida, que fales da cruz, do amor ao sofrimento, porque é dele que vem a salvação e da Eucaristia, que é prova de amor infinito, é o alimento das almas.

Dize às almas minhas amantes que vivam nos seus trabalhos unidas a mim. E, a sós, dentro dos seus aposentos, muitas vezes, quer de dia, quer de noite, se ajoelhem, de cabeça inclinada, e digam:

“Jesus, eu vos adoro em todo o lugar onde habitais sacramentado; faço-vos companhia pelo que vos desprezam; amo-vos pelos que não vos amam; desagravo-vos pelos que vos ofendem. Vinde ao meu coração!

Estes momentos serão para Mim de grande alegria e consolação. Quantos crimes se cometem contra mim na Eucaristia!”

 

Muitas vezes Alexandrina exprime a sua ânsia de receber Jesus sacramentado, não se contentando com Comunhões espirituais:

 

“Meu Jesus, mais uma semana de imenso sacrifício: tenho que passar sem vós, ainda não vos recebo. Tende piedade de mim, vede como estou abandonada: parece-me que não tenho ninguém a meu lado. Não olheis ao número das minhas misérias, à minha indignidade, ao meu nada: tende compaixão de mim! […]

Vinde a mim, reinai no meu coração: sede vós e só vós o alimento da minha alma. Dai-me a vida da graça, dai-me o vosso amor! […] Olhai a minha alma, Jesus: vai apaixonada à procura de vós nos sacrários. Quero receber-vos, quero possuir-vos!”

 

Ansiava tanto, tanto o dia do Sagrado Coração de Jesus! (para receber a Eucaristia)

Tenho fome dele. Queria comê-lo mais e mais.

 

 

§ 3º -  À ESPERA

 

Alexandrina prepara-se para receber Jesus sacramentado sempre com muito recolhimento, mas às vezes parece-lhe inadequado para um evento tão sublime.

 

É no meu calvário que eu sofro, é na minha cruz que eu anseio, noite e dia, ser pura e amar loucamente o meu Jesus....

Nesta ânsia de bem e muito amar e de tudo sofrer por Jesus, preparei-me para o receber.

 

Nesta manhã, quando me preparava para receber o meu Jesus, sentia na minha alma um vazio tão grande que nem o mundo inteiro seria capaz de me encher. Tinha fome, queria encher-me. Mas a minha fome não era de pão nem de coisa da terra: o coração ansiava e suspirava por Jesus.

 

Sentia a tristeza que o mundo havia de sentir, mas que infelizmente não sente, sentia a loucura em que Ele anda nas paixões.

“Pobre Jesus, como sois desgostado e ofendido! Que pena eu tenho de não poder consolar-vos!”

Com estes sofrimentos e algumas orações fui-me preparando para receber Jesus.

 

Fiz a minha preparação para receber Jesus, mas ai, como a fiz! Tão triste e amargurada.

 

Na iminência de receber a Hóstia, fixa-a com tal intensidade que às vezes se sente invadida por uma força sobrenatural: desce da cama, ajoelha-se (ela, paralisada!). Isto acontece habitualmente durante a Santa Missa.

 

Principiou a Santa Missa. Tive forças para me conservar todo o tempo sem estar na cama. Parecia-me que estava toda mergulhada em Jesus e contemplava com alegria as sagradas Hóstias que estavam sobre o altar.

Que contentamento: uma delas ia ser alimento da minha alma!

 

Que grande dita! Ele baixar do Céu à terra por meu amor! No momento de o receber, senti impulsos de me lançar à sagrada Hóstia, abraçá-la, devorá-la.

 

Ao celebrar-se o Santo Sacrifício da Missa, já a minha a alma experimentava paz, suavidade e doçura. Oferecia-me a Jesus pelas mãos da Mãezinha para ser imolada com ele.

À elevação senti impulsos para levantar-me e voar para Jesus-Hóstia. Venci-me e esperei o momento de ele vir a mim. Então, não pude resistir mais: tive que ajoelhar-me e num estreito abraço demorei-me com ele. Ansiava por o amar e só lhe dizia: “Quero amar-vos, Meu Jesus, quero morrer de amor!”

 

O diário de 12 de Outubro de 1944 oferece uma cena onde o impulso de amor atinge o cume.

 

De manhã, já tinha feito a minha preparação para receber a Jesus, quando chegou o meu pároco[51] e, colocando o Suspirado da minha alma sobre a mesa, depois de acender as velas, disse-me:

“Aqui, tens Nosso Senhor a fazer-te um bocadinho de companhia: Vem aí o Sr. Padre Humberto e dá-to.”

Logo que ele se retirou, uma força vinda não sei de onde obrigou-me a levantar-me. Ajoelhei-me à frente de Jesus, inclinei-me sobre ele: o meu rosto e o meu coração nunca tinham estado tão pertinho dele. Que felicidade a minha! Gozar tão perto a minha loucura! Segredei-lhe muitas coisas minhas, de todos os que me eram queridos e do mundo inteiro. Sentia-me arder naquelas chamas divinas.

Jesus falou-me também: “Ama, ama, ama, minha filha, não tenhas outra preocupação a não ser a de amar-me e dar-me almas. Onde está Deus está tudo, há triunfo, há vitória.”

Pedi aos anjos para virem louvar e cantar a Jesus comigo e cantei sempre, até que fui obrigada pelo Sr. Padre a ir para a minha cama. Presa e abrasada no amor divino, comunguei.

 

 

§ 4º - COMUNHÃO SACRAMENTAL

 

Entre os vários êxtases em que Alexandrina revive as fases da Paixão, muitos dizem respeito à Ceia e ao «momento de amor e de maravilha sem igual», a instituição da Eucaristia: «o maior dos meus Sacramentos, o maior milagre da minha sabedoria», diz-lhe Jesus. Alexandrina exprime o seu significado mais profundo e vasto. Não podemos deixar de registar aqui ao menos um exemplo, mesmo para que se compreenda melhor a sua atitude de orante em presença de tal milagre.

 

(Do diário de 2/8/1946)

Vi o doce Jesus abençoar a pão e, naquele momento de amor e de maravilha sem igual, senti que o mundo era outro. Jesus dava-se a ele em alimento; e partia para o Céu e com ele ficava. Aquele amor estendeu-se por toda a humanidade.

 

Nos fragmentos que se seguem, Alexandrina tenta descrever o que experimenta, logo que recebe o Suspirado da sua alma. São sentimentos diversos, segundo o momento: da sua situação existencial e da vontade de Jesus.

Alguns servem-nos de exemplo, outros de conforto, encontrando-nos nós mesmos em situações análogas.

 

Depois da sagrada Comunhão, sentia uma grande união com Nosso Senhor; depois, um forte calor e uma força que me abraçava. Assim passei alguns momentos e por fim falava-me Nosso Senhor:

“Eu venho a ti para que te unas toda a mim. Para quê tanto desânimo? “

 

No fim da sagrada Comunhão, como eu me sentia bem com Nosso Senhor! Que união tão grande!

Eu dizia ao meu querido Jesus: “Como é consoladora a vossa paz! como é consolador amar-vos!” E assim me entretive algum tempo com o meu Jesus.

 

O dia de hoje raiou para mim tristíssimo. Ao receber a Jesus, a minha dor suavizou-se, a tristeza desapareceu. Estive por um pouco de tempo num estreito abraço com Jesus, sem que me dissesse nada. Mas o coração e a alma sentiam-se bem com ele.

 

Mas não sente sempre esta consolação.

 

Causa-me tristeza e dor a maneira como o recebi. Esqueci-me logo da sua visita divina e não tenho amor para ele.

 

Recebi a Jesus com gelo, mas gelo que gela tudo.

O meu coração e a minha alma torcem e destorcem com a aflição. Eu tenho medo deste abismo de misérias: tenho medo do meu nada.

Hoje, depois que recebi a Nosso Senhor, fiquei por muito tempo num estado aflitivo. Era a morte completa que reinava em mim. Eu dizia a Nosso Senhor: “Que eu sofra a morte, mas que viva o mundo!”

 

O pároco fez-me uma hora de adoração. Foi muito bonita. Cantavam tão bem! Fazia-me recordar o Céu.

O meu coração queria voar para a Hóstia consagrada, mas esta morte que sinto em mim não me permitias mover-me.

O meu Jesus não me concedeu ter um momento de consolo nem de alívio. Tudo era tristeza e trevas em mim e ao redor de mim. E eu, no íntimo do meu coração, murmurava a Jesus: “Tomai toda a consolação para vós; a minha tristeza seja a vossa alegria; a minha dor, o vosso alívio. Ó meu Jesus, eu quero só amar-vos na dor mais cruciante. Creio e confio que vos amo e que, com a vossa graça, caminharei e vencerei. Que me importa que a morte me roube tudo, se vos possuo a vós? Vós sois toda a minha riqueza; nada mais quero do mundo.”

 

Quando sente em si a presença real da Hóstia consagrada, tira daí forças para resistir no seu martírio.

 

Senti Jesus a inundar a minha alma com a sua presença real, dando-me força para durante a tarde cantar e rezar. E sempre nos mais vivos anseios de dar-me a Jesus e à Mãezinha, amando-os sempre mais.

 

Hoje finalmente comunguei: bendito seja Jesus! Senti-me tão louca de amor ao recebê-lo! Senti por alguns momentos a grandeza do seu amor e a sua união íntima comigo.

 

Foi de joelhos, num ímpeto de amor que o recebi. Não consegui resistir à força que me obrigou a levantar-me (da cama).

Passaram-se uns momentos e eu em grande união com ele! Se o mundo conhecesse as ternuras de Jesus, só buscava o seu amor e só para ele viveria.

 

Esperei o meu Jesus com tanta ansiedade: nunca mais chegava a hora de o receber! Veio enfim, baixou ao meu pobre e indigno coração, fez-me logo sentir que era ele. Encheu-me. O meu coração fez-se tão grande! Parecia não me caber no peito: estava como se tivesse em mim toda a abóbada do Céu.

 

Continua a alternância entre luz e treva.

 

Ele veio: apesar da minha miséria, não recusou entrar. Mas demorou a fazer-me sentir a sua presença sacramental. Parecia-me que não tinha coração e sentia-me distante, muito distante de Jesus. Quanto mais o seguia e corria à sua procura, tanto mais sentia que Jesus fugia de mim e desaparecia.

E assim, nesta ansiedade, passaram alguns minutos. Quanto Jesus achou suficiente ver-me correr à sua procura, mostrou-me que eu tinha verdadeiramente o coração e que ele lá morava. Disse-me; “Minha filha, minha filha, a alma que corre à procura de Jesus, sem esperar que lhe venha ao encontro, dá-lhe maior prova de amor. Eu não me separei de ti. Não sabes com que ansiedade me procuravam para encontrar-me a minha Mãe santíssima e o meu pai putativo S. José? Eu tinha-os deixado e tinha ficado com eles; tinha-me ausentado e tinha ficado presente.”

 

Jesus veio, entrou no meu coração com tanta doçura, luz e amor que me deixavam numa paz celeste e como adormentada[52], mas ouvia a sua voz divina dizer-me: “Aqui está Jesus, minha filha, que faz do teu coração um Paraíso na terra. Dorme, dorme o sono dos anjos, imersa na vida e no amor de Cristo. Todo o teu ser está imerso em mim[53]; este é o sono, a vida dos eleitos do Senhor. Dorme, dorme[54] na minha paz, no meu amor.”

“Ó Jesus, ó Jesus, logo que vos recebi senti-me como adormentada, mas num sono de luz, num sono de amor. Sejais bendito e louvado por tudo!”

 

Mas «a participação no Corpo e Sangue e Cristo outra coisa não faz que nos mudemos naquele que tomamos[55]». E Alexandrina, em certas Comunhões, chega a sentir exactamente isto.

 

Entrou o Hóspede Divino e, sem olhar a tanta miséria e indiferença, não recusou, deu entrada no meu coração.

Momentos depois eu era outra. O Céu inclinou-se para mim, ficou unido à terra, absorveu-me nele: a minha alma iluminou-se: eu era grande, grande como Deus,

E Jesus, dentro do meu coração, falou-me: “Minha filha, minha filha, estás mergulhada, embebida no amor de Jesus.” 

 

Veio o meu Jesus; logo que entrou em mim, dissipou as trevas; todo o meu interior ficou iluminado com o seu amor, com a sua paz.

Fiquei outra; agora bem podia dizer: “Não sou (eu) que vivo, mas sim Jesus[56].”

 

Concluamos o capítulo com dois fragmentos que põem em evidência como, não só a alma anseia pela união com o seu Amado, mas o próprio Jesus tem ânsias de amor e anseia por unir-se à criatura, por possuí-la inteiramente[57].

 

Um dia levam-lhe inesperadamente a Eucaristia.

É indizível a alegria que senti e ao mesmo tempo a confusão por tantos dons recebidos. Como Jesus é bom! Não se recusa avir ao meu nada, à minha miséria.

Logo que Ele entrou no meu coração, falou-me assim: “Minha filha, minha filha, não posso viver sem a morada do teu coração. É certo que habito sempre em ti, mas vim agora mais real, em corpo e em espírito.” 

 

Recebi-o em meu coração e ele logo me confortou por estas palavras:

“Que amor, que amor, que excessos de amor, que prodígios de amor eu tenho para contigo, minha filha! Tu suspiravas por me teres em teu coração e eu suspirava por todo o teu possuir[58].”

L.      (12. 9. 41) 199

 

 

 

LA FIGURA DIP.208 ED. ITALIANA (A SINISTRA)

 

 

 

 

 

CAPITULO 8º

 

 

EU NELE E ELE EM MIM

(oração do coração)

 

 

O meu coração e a minha carne

gritam de alegria em Deus vivo!                                    (Sal 83, 3)

 

O meu amado, ei-lo que vem.

O meu amado é para mim e eu sou para ele!                                   (Cânt. 2, 8.16)

 

Se alguém me ama, guardará a minha palavra;

o meu Pai o amará e nós viremos a ele e faremos nele morada.         (Jo 14, 23)

 

Como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti,

também eles sejam em nós uma coisa só.                            (Jo 27, 21)

 

Eu trabalho,

combatendo com a força que ele me dá,

a qual opera poderosamente em mim.                                   (Col 1, 29)

 

 

 

Sentia umas ânsias de me desfazer em fogo divino e nesse amor infundir os corações e as almas.

 

Todo o meu ser é um sopro mergulhado na vida divina.

 

Fiquei nele e ele em mim, como se fôramos um só.

 

Eu era Jesus e Jesus era eu; nós os dois éramos a mesma oferta ao Céu.

 

Toda a alma que ama profundamente a Deus, que chegou a um certo grau de elevação espiritual, que está suficientemente despojada das coisas vãs, liberta dos impedimentos devidos à vida terrena, vive momento em que experimenta a união com o Amado. Passa através de diversas experiências.

 

1) Eu n’Ele. A alma anseia pertencer ao Amado, a entregar-se totalmente. Considera a sua pequenez de criatura e a infinita imensidade do Criador, mas não se sente assustada porque sabe que é amada, por isso é levado pelo impulso de amor que supera toda a distância, que quer uni-la indissoluvelmente ao Amado e «lança-se» nele, sente-se «abraçada» por ele, «afunda-se» nele, sente-se «desaparecer» nele como que absorvida, sente-se «possuída».

Recordemos: «a água unida ao vinho seja sinal da nossa união com a vida divina d’Aquele que quis assumir a nossa natureza humana» (da liturgia eucarística).

Alexandrina disse, por exemplo:

 

Fitando o seu divino Coração, digo-lhe: “Deixai-me, Jesus, entrar nessa chaga divina, nesse Coração de amor: quero esconder-me, desaparecer, derreter neste fogo, como o gelo que derrete com o sol e desaparece escondido na terra.”

 

2) Ele em mim. A alma «abraça» o Amado, aperta-o a si até fazê-lo penetrar em si, «absorve-o», sente «possuí-lo».

Alexandrina diz que sente vontade de «devorá-lo»:

 

Tenho fome, tenho sede de possuir Jesus: não cessa, é devoradora!

 

Quer incorporar em si todo o divino:

Queria agarrar-me à santíssima Trindade, ao Coração divino de Jesus sacramentado e crucificado, à querida Mãezinha e devorá-los. Creio que se pudesse apertá-los todos entre os meus braços teria para eles fúrias de amor mais fortes que as feras furiosas.

 

3) Eu n’Ele e Ele em mim[59]. Nos dois momentos citados temos respectivamente a alma no Amado e o Amado na alma, a alma possuída e a alma que possui, a alma que diz «sou vossa» e o Amado que diz «sou teu».

Quando houvesse a coexistência dos dois momentos, dos dois estados existenciais, ter-se-ia uma mútua pertença, uma «mútua absorção» como diz Courtois[60], uma compenetração total.

 

“Minha filha, amor, amor, amor! O teu coração e o Meu são um só: estás toda transformada em mim. Eu sou a tua vida: tu não tens a vida humana, tens a vida divina, não tens a vida da terra, vives a vida do Céu.” 

 

É o estado da «união transformante[61]».

 

4) Fé cega e pura. Noutros momentos, porém, a alma esposa de Jesus deve fazer a experiência amarga da aridez mais absoluta, de sentir-se abandonada por Deus, ou verdadeiramente de duvidar da sua existência. Deve avançar repetindo «creio» sem sentir que crê.

Jesus diz a Alexandrina:

 

“Repete teu «creio». Tens que viver da Fé sem Fé, do amor sem nenhum sentimento de amor. Só quero de ti o teu «creio», a tua firmeza na cruz, a tua generosidade heróica, sempre heróica.”

 

Mas aquele sentir-se abandonada não quer dizer que indique uma diminuição da união, da fusão esponsal.

De facto, a alma esposa de Jesus participa em toda a vida do Esposo, por isso também em todos os seus sofrimentos, entre os quais o atroz de sentir-se abandonada até de Deus, como Jesus nos momentos culminantes da sua Paixão e agonia.

Eis porque, na famosa «súplica» às almas consagradas, Jesus diz: “Eu, Esposo crucificado, desposo crucificando[62]”.

 

O presente capítulo foi subdividido em quatro parágrafos, correspondentes aos momentos atrás referidos.

 

 

§ 1º - EU N’ELE

 

a) A alma entrega-se a Jesus

 

É impossível, por vezes, resistir a tanta ânsia, a tantos desejos de me dar a Jesus, de ser só dele, de toda lhe pertencer, de o amar e em tudo ver o seu divino amor.

 

Sou de Jesus na alegria, sou de Jesus na tristeza, sou de Jesus nas trevas, nas horríveis tribulações, na pobreza, no abandono total.

 

“Mais uma vez quero dizer-vos: sou vossa no tempo e vossa serei na eternidade: só a vós me dou e só a vós quero pertencer. […]

Ó Jesus, ó Jesus, eu sou vossa e para vós é todo o meu viver.”

 

b) A alma mergulha no amor divino

 

“Jesus, quero amar-vos e perder-me na imensidade do vosso amor. […] “Amar-vos, meu Jesus, esconder-me em vós, em vós desaparecer para sempre!”

 

Sinto que o coração, de quando em quando, tenta abandonar o meu corpo, tenta voar no alto, muito no alto. Vai sequioso, vai louco de amor; sobe à semelhança do fumo que desaparece no alto.

O coração quer desaparecer, quer esconder-se numa grandeza incomparável; são mundos, são céus de grandeza ilimitada e ele quer ir e ficar para sempre naquela grandeza que o atrai, naquela grandeza pela qual só suspira.

Queria exprimir os sentimentos da minha alma; é impossível. A minha língua não consegue mover-se para falar de tal grandeza: a grandeza de Deus, o poder de Deus, a bondade e o amor de Deus!

“Sede bendito, meu Jesus, porque me fizeste conhecer tudo isto!”

Ah, queria que todo o mundo conhecesse esta grandeza! Não há línguas que possam descreve-la nem corações que possam senti-la. É necessário um poder supremo para suportá-la.

Que é uma ofensa feita a esta grandeza suprema! E como são tantas as ofensas que se cometem! Se o mundo as compreendesse!

Possuo uma luz que me não pertence, que me faz ver e compreender tudo com clareza. Sinto a necessidade de chorar por não poder exprimir estas verdades!

 

O fogo do meu coração … faz-me ter umas ânsias tão grandes, tão infinitas de amar a Jesus, a sua lei e tudo o que é dele; de amar a Mãezinha e toda a Santíssima Trindade. Quero só pertencer-lhe inteiramente, consumir-me, desaparecer nesta divindade!

 

Sempre mais consumidor é o desejo de «perder-se» no Amado, em particular quando os tormentos a martirizam com maior violência.

 

Sofro, sofro muito. De repente lanço-me em espírito nos braços de Jesus e, muito aferrada a ele, digo-lhe:

“O que eu quero é amar-vos, meu Jesus, e vencer a minha dor com a vossa graça. Eu sou vossa, meu Jesus, e não vos largarei.”

E com esta força de vontade de me não separar do meu Jesus, passa toda a tormenta furiosa, passam os ventos desastrosos que tentam arrancar-me e destruir-me.

 

“Jesus … morro, morro, só por me perder em vós e só no vosso divino amor me consumir. […]

Consumi-me nas vossas chamas divinas, queimai-me nelas até que eu morra. Só assim ficarei contente.”

 

 

c) O Amor acolhe e responde

 

“Louquinha por vós, lanço-me para vossos divinos braços e sinto que vós com todo o amor me estreitais e acolheis.”

Com Jesus, toda a amargura é doce, toda a dor se torna suave. Ah! Se todos conhecessem o amor de Jesus!

 

Jesus espera-me de braços abertos para me receber; espera-me cheio de sorriso e de amor. Quer possuir-me, quer abrasar a minha frieza na fornalha do seu Coração divino.

 

Que união tão íntima eu sinto com o Senhor! Que paz tão grande! Parecia-me não ser deste mundo.

Um calor queimava-me tanto e uma força interior apertava-me tanto. O Senhor chamou-me «seu amor».

 

Dizia-me: 

“És minha, toda minha, só minha, não és de mais ninguém! Criei-te para isto: és o meu amor, és a minha vítima.”

 

d) Agradecimento

 

“Ó Jesus, que perfume angelical! Que vida, que vida tão celeste!

Parece que nem tenho corpo! Todo o meu ser é um sopro mergulhado na vida divina. Bendito sejais, meu Jesus! O meu eterno obrigada, sempre, sempre, noite e dia.”

 

Do coração de Alexandrina irrompe o canto:

 

“Nadar no teu amor

é força da cruz.

Quero amar-te sempre,

quero amar-te sempre

sempre sofrer, sempre sofrer,

sempre sofrer por ti, Jesus,

por ti, Jesus!”

 

 

§ 2º - ELE EM MIM

 

a) Jesus fala-lhe da inabitação

 

 “Filha, tu não te cansas de me dizer que habite em ti, e eu não me canso de em ti viver[63]. […]

Repete sempre a oração que há tantos anos te ensinei: «Ó meu Jesus, eu creio que estais em mim presente; eu vos adoro e confio que não me abandonais nem por um instante.»”

“Habito em ti, mas não habito só: habito com a Trindade Divina e a tua Mãezinha querida não pode deixar de nos acompanhar! […]

Está quase completo o meu trabalho divino em tua alma (estamos em Agosto de 1948). Trabalhei com o meu Pai e o Divino Espírito Santo. Que grandes maravilhas e numerosos prodígios operamos em ti! […]

És o vaso aromático, o teu coração é o trono de amor, de pureza, de delícias de toda a Trindade. Em ti habita, a enriquecer-te sempre com toda a graça e riquezas divinas. Vai com a força do teu Jesus ditar tudo para nada ficar oculto.”

 

 

b) Alexandrina está consciente da inabitação

 

“Jesus, é do nada que Vós fazeis tudo e encheis o que está vazio. Enchestes-me das vossas grandezas, da vossa pureza e do vosso amor. Adornastes-me de tudo o que é vosso e da vossa querida Mãezinha....”

 

Faço para viver sempre, sempre o mais possível, dentro da minha alma. E como vivo eu? De joelhos (espiritualmente), de mãos postas, cabeça inclinada, a adorar e a amar a Santíssima Trindade.

Adoro, amo só com os meus desejos: com a minha miséria nada mais posso fazer.

Se eu conseguisse que todas as almas vivessem a vida íntima com este tesouro divino e o adorassem e amassem!

 

De noite, vigiando:

 

Assim passavam as horas, e eu entrava em mim para falar com as Personagens divinas da minha alma. Sinto, por tantas vezes, a sua realeza divina dentro de mim.

Gosto tanto de viver na solidão e no silêncio com estas Personagens!

Sinto que o Divino Espírito Santo […] me irradia com o seu amor, dá -me efusões do seu fogo divino, leva-me a santas inspirações, move-me a praticar obras boas, obras de caridade e tantas vezes com tanto sacrifício. Para quantas coisas sinto a sua acção divina!

 

c) O sofrimento das almas-vítimas

 

As almas-vítimas que cooperam na redenção padecem uma parte dos infinitos sofrimentos de Cristo e são ajudadas pelo seu poder divino.

Jesus diz à Alexandrina:

 

“Em tudo te tornei semelhante a mim: é a crucifixão oculta, é a crucifixão mística[64]. O sangrar do teu coração e da tua alma é sofrimento meu, o sangrar do teu coração e da tua alma revela a nossa união indissolúvel. Foste escolhida só para o sublime, só para as coisas grandes!”

 

Senti o desfalecimento do corpo (está a reviver a Paixão) e disse:

“Jesus, sede comigo, não tenho forças para terminar!”

“Tem coragem, minha filha: a tua força é divina, porque sou eu que estou em ti.”

 

Eu não vivo, mas há em mim outra vida que vive e ama, que vive e possui tudo. Queria viver esta vida, amá-la, perder-me nela, enlouquecer por ela. Ó meu Deus, ó meu Deus, eu quero que as minhas loucuras sejam só para Jesus e para as almas. Sinto que esta vida é ferida, ultrajada, calcada aos pés de ingratos. Eu não posso consentir em tal; quero remediar este mal e não posso!

 

Ouve de Jesus:

“O mundo ofende-me muito: a minha dor é imensa. Eu sofro milhões e milhões de vezes mais dor do que a que te faço sentir.

Tu sofres muito, meu anjo, sofres ao ponto de não poderes sofrer mais, mas sou eu que sofro em ti. Tu sofres, mas eu revesti-me do teu corpo para que tu pudesses caminhar com a cruz e subir o teu calvário. Vences com a força divina.”

 

Quanto mais doloroso é o meu martírio, mais eu lhe quero e mais reconheço a minha miséria e o meu nada.

Nunca, nunca eu seria capaz de tanto, eu que já nem um vermezinho da terra sou, eu que já nem sou sombra nem sou nada, como poderia resistir a tanto, se não fosse Jesus a sofrer, a lutar e a vencer em mim?

Ah, sim! É ele, só ele com a querida Mãezinha que são a força do meu calvário.

 

d) Alexandrina deve revelar Jesus que vive nela

 

A presença de Jesus na criatura deve transparecer de todas as suas atitudes, de modo que os outros se apercebam da vida divina que possui. Assim se exprime Jesus dirigindo-se a Alexandrina:

 

 “Quero que tudo o que é meu em ti transpareça: quero que os teus olhares tenham a pureza dos meus; quero que os teus lábios tenham o sorriso, a doçura dos meus; quero que o teu coração tenha a ternura, a caridade e o amor do meu; em suma: quero que em tudo me imites, quero-te semelhante a mim; quero que todo o teu corpo seja o Corpo de Jesus, um outro Cristo. […] Eu sou a luz dos teus olhos, o movimento dos teus lábios, o amor e o Senhor do teu coração. […]  Muitos há que em ti só vêem a mim. E é bem verdade que não é a Alexandrina que vive: é Jesus que vive nela.”

 

e) Deve também irradiar Jesus

 

Não basta que os outros se apercebam da vida divina que está nela: é preciso que dela se tornem participantes.

Alexandrina sente-se toda invadida por Deus; mas esta riqueza de amor divino deve transbordar dela para a humanidade. Chega a possuir Deus, mas para dá-lo aos irmãos.

Jesus diz-lhe:

 

“O vazio que fiz em ti é para encher-te das minhas riquezas, dar-te a pureza, a doçura e o amor que tanto anseias. Consolo-me muito ao ver-te à minha procura nestas ânsias dolorosas. Enche-te, porque tudo isto é a força da tua dor. Tudo isto quero que dês às almas; sou louco por elas. […]

Escuta-me: tens no teu coração o Céu, a Trindade Divina, que não veio mas sempre em ti habita. Ela toda se delicia quando falas dela. Que glória, que glória por ti lhe é dada[65]! Quantas almas vivem a vida interior, a vida da Santíssima Trindade por teu intermédio! […]

Fala em ti o Pai, com o seu poder e sabedoria, o Filho com a sua redenção e amor, o Espírito Santo com a sua luz. Tudo é em favor das almas: de ti tudo transparece e nelas se infunde. […]

Estás transformada em Cristo, vives a vida de Cristo, dás às almas a vida de Cristo.”

 

 Este seu papel de mediadora está maravilhosamente sintetizado na exortação de Jesus.

 

“Enche-te para encheres,

abrasa-te para abrasares!”

 

A Alexandrina de facto sempre pediu que todos fossem repletos.

 

A este martírio de querer encher o vazio que em mim tenho, junta-se outro mais doloroso ainda: são ânsias infinitas, não de encher-me, mas de encher; são ânsias infinitas de possuir o mundo para o enriquecer, para o salvar.

Estas ânsias infinitas são superiores às minhas forças: só Jesus pode resistir a elas.

 

“Oh! Que vos queria dizer, meu Jesus! Fale-vos o meu coração! Enchei-o de vós. Enchei-me todos os que me são queridos. Enchei o mundo inteiro!”

 

 

§ 3º -  EU NELE E ELE EM MIM

 

a) Pertença mútua

 

O sentimento de pertença mútua está claramente expresso nas citações seguintes. Num êxtase Alexandrina canta.

 

Jesus é meu,

eu sou de Jesus.

Jesus é meu,

eu sou de Jesus.

Só por seu amor

eu abraço a cruz,

Só por seu amor

eu abraço a cruz.

 

O Senhor, dizia-me:

“Minha filha, minha filha, dizes-me que és toda minha e eu sou todo teu: já tomei posse de ti, sou Rei e Senhor do teu corpo e da tua alma e tu és a minha esposa, és a minha rainha.”

Eu era acariciada por Nosso Senhor e dizia-me ele:

“Como é suave, como é doce a minha união!”

Ó como eu me sentia bem com o meu querido Jesus! Eu não o podia deixar e disse-lhe: “Ó meu Jesus, eu não vos posso deixar!”

E disse-me o meu amado Jesus:

“Vai filhinha, Eu não me ausento de ti: vives em mim e eu em ti. […] 

A Alexandrina está toda em Jesus e Jesus está todo na Alexandrina. Amo-te tanto! […]

Vive sempre em união comigo, para que eu só possa viver em união contigo.”

 

Recebi o meu Jesus (sacramentado). Fiquei nele e ele em mim como se fôramos um só. Oh! como é doce a vida do amor! O que será a vida do Céu?! Pouco depois dizia-me o Senhor: “A loucura do amor de Jesus enche os corações, irradia as almas.”

 

Muitas vezes a união é simbolizada na fusão dos dois corações.

 

Ouvi a sua voz, a voz do meu Desejado, que me dizia:

“Minha filha, minha filha, és toda minha: é meu o teu coração. Fundi-o em mim; são os dois num só. […]

Uniram-se os nossos corações pelo amor, pela dor, pela vida. […]

Que união a dos nossos corações! Nada há que nos separe. Sofremos na mesma dor, amamos do mesmo amor.”

 

Mas nem sempre Alexandrina sente esta realidade. Muitas vezes deve crer nela pela Fé.

 

Unia-me a Jesus repetindo muitos actos de Fé para crer que Ele estava em mim eu nele, que éramos inseparáveis um do outro.

 

A mútua pertença algumas vezes é sentida com toda a Santíssima Trindade.

 

Enquanto sozinha repete o seu «creio» com a impressão de mentir:

Jesus veio de repente; trouxe consigo o Pai e o Espírito Santo. Tinha luz, tinha paz.

“Abrasa-te, inebria-te neste Espírito Divino, ó esposa querida. Vives em nós e nós em ti. És o tabernáculo da Santíssima Trindade. […] Vives esta vida e faze-la viver.”

 

b) Transformação

 

A união estreita, íntima, profunda leva à mútua absorção, à transformação de um no outro[66]. Esta pode ser expressa de modo dúplice: Jesus transformado em Alexandrina ou Alexandrina transformada em Jesus, mas é sempre a mesma coisa em substância. Nos colóquios, Jesus adopta ora uma ora outra expressão.

 

“Minha filha, loucura de amor pelas almas, loucura de amor por Mim. És louca pelas almas à minha semelhança. Assemelhei o teu calvário ao meu. A tua vida é a vida de Cristo: vive Cristo transformado em ti. […]

Tu vives, minha filha, vives em Cristo, vives com Cristo, vives a vida de Cristo, vives a vida de vítima, a vida da salvação.

Confia: estás transformada em mim, vives para mim e pelas almas.”

 

A união tem assim por fim a salvação das almas. A mútua transformação se realiza no papel de Hóstia comum aos dois.

 

“Jesus, eu estou convosco em cada lugar onde habitais sacramentado.

Ouvi, Jesus, é como se lá estivesse em corpo, alma e coração.

Mais ainda, estou convosco na píxide; mais, Jesus, mais, estou convosco em cada Hóstia onde habitais sacramentado.”

 

Nesta estreita união (depois da transfusão da gota de sangue), depois de um pouco de silêncio, enquanto que as labaredas continuavam a abrasar-me, ele disse-me: “É fogo, é fogo, é amor, amor divino, minha filha. Dois corações num só coração, duas vidas numa só vida. É Jesus pela sua crucifixão (revivida na Alexandrina) a salvar o mundo.

Acode-lhe, acode-lhe, esposa querida; acode-lhe que é teu, entreguei-to; salva-o.”

 

Eis, em belíssima síntese, a essência da sua espiritualidade:

 

“Sentia umas ânsias de me desfazer em fogo divino e nesse amor infundir os corações e as almas.”

 

E ouvimos Jesus falar ainda desta identificação

 

“Que mundo, que mundo de pecado! Que mundo, que mundo, que horroroso mundo de vícios!

O meu Divino Coração sofre através do teu coração; o meu Divino Coração ama através do teu amor. Amo eu e amas tu. Tu amas com o meu amor. Tu dás-te por meu amor.

Tu gastas-te, tu consomes-te pelo meu amor e pelas almas. […]

Ó minha filha, ó minha esposa querida, tu és a hóstia que comigo se imola, tu és a hóstia que as almas comigo comungam. Vives comigo na Eucaristia, vives a minha vida.

Nesta imolação contínua (estamos em Janeiro de 1955), nesta união inseparável, nesta vida tão mística e divina, as almas por ti me recebem. […] Eu sou um contigo. Vivo em ti a mesma vida que vivo com o Pai. […] Vim pelo Pai, em nome do Pai, à terra para resgatar o mundo. Tu, em meu nome, em mim e por mim, continuas a minha obra salvadora.”

 

Revivendo a agonia no Horto:

Jesus dentro de mim tomava o cálice da amargura e frequentes vezes o oferecia ao Eterno Pai.

Eu era Jesus e Jesus era eu: nós os dois éramos a mesma oferta ao Céu.

 

Depois da Paixão Jesus conforta-a:

Fiquei com a minha cabeça pousada sobre o seu seio: parecia-me estar no centro duma fogueira de amor imensa, infinita.

Aquelas chamas, aquele fogo penetrou em todo o meu ser. O meu coração e a minha alma tomaram uma vida nova: eu não era mais eu, era só Jesus.

Jesus dentro do meu coração, falou-me: “Minha filha, minha filha, estás mergulhada, embebida no amor de Jesus....”

 

Terminamos este parágrafo com um flash do momento final da Paixão.

 

Cheguei ao cimo da montanha, fiquei na cruz crucificada: Jesus tomou a minha carne despedaçada, os meus ossos, todos os meus membros. Todo o meu ser foi Cristo crucificado.

O seu brado ao Pai passava pelo meu coração e pelos meus lábios. Perto de Jesus expirar, passou sobre mim uma onda de fogo. Jesus dizia:

“Venceu o amor, venceu o amor! Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”

 

 

§ 4º -  FÉ CEGA E PURA.

 

“Sou vossa, Jesus, na minha dor, na minha ignorância, nas minhas trevas, na minha morte; sou vossa sem viver e sem nada vos dar: sou a vossa vítima.

Fale-vos, Jesus, a minha ignorância, falem-vos as minhas ânsias insuportáveis de só a vós pertencer e melhor vos conhecer.”

 

Nada valiam as minhas ânsias: tudo perdido! Sentia-me num cemitério imenso e a minha dor quase sem vida, mesmo como se ela já não estivesse a mexer-se, apenas coberta de cinzas, lembrando-me aqueles bichos que nos pinhais fazem a sua casa sob montezinhos de terra e de madeira moída.

No meio disto, é sempre a minha oferta a Jesus como vítima e receio sempre de O ofender. É um combate tremendo e quase contínuo. Vivo sem viver, sofro sem sofrer, amo sem amar[67].

 

Do meu íntimo sai um grito de profunda aflição e de extrema agonia. Não sou ouvida! Com as mãos elevadas ao Céu, mais vezes imploro socorro. De nada valem os meus gritos. Não existe quem possa ter compaixão da minha agonia.

Aterrorizada, louca de dor, sinto-me em cima da mais alta montanha, sem ver nada porque a escuridão é das mais densas trevas. Continuo: “Socorro, socorro!” Socorro donde, se nada existe, se tudo está morto na terra e no Céu?

 

De nada valiam os actos de fé que eu fazia. Estava no profundo abismo do Inferno, a sofrer todos os tormentos.

A alma fitava os olhos para o Alto, a ver se conseguia ver a Deus; não podia conformar-se em o ter perdido! Que pavor, meu Deus, que inigualável pavor! “Perdi a Deus, perdi a Deus para sempre!”, bradava o meu coração.

Jesus veio, pegou-me pela mão, sentou-se, fez que a minha cabeça reclinasse sobre os seus joelhos.

“Não perdeste a Deus, não perdeste a Deus, minha filha, nem jamais o perderás. Descansa: estou aqui para tua paz, para teu conforto.

Ó grande ciência e sabedoria de Deus! Aqui está tudo. Tu reparas por toda a variedade de crimes. És vítima por mim escolhida. Sofres a pena do dano, que as almas sofriam, se as não salvasses.”

 

Mas nem sempre a Alexandrina tem a visão que a conforta.

 

Tenho tantas dúvidas, tantas dúvidas: toda a minha vida é de enganos e desilusões: minto a mim mesma, minto ao mundo inteiro. […]

Não sei orar nem elevar o meu pensamento a Deus. Se me esforço por unir-me a ele, logo me nasce a repugnância pela oração, a Deus e a tudo quanto é seu.

Quase não posso orar: a minha união com os meus tão queridos Amores parece cortada. Não me poso unir ao que não há, nem me posso unir ao que não tenho.

 

“Ó Jesus, eu não vos vejo, eu não vos sinto, mas quero confiar que sois vós.”

“Colóquio de fé, colóquio de dor e de amor, minha filha: foi o que te disse Jesus: sim, sem o amor, sem a tua loucura de amor não podias ser vítima de reparação, não podias assim sofrer e viver da fé sem a sentires. Confia, confia!”

 

Deve crer sem luz, sem Fé[68].

 

“Coragem, minha filha, coragem nas tuas dúvidas, nas tuas trevas!

Tu, esposa, vítima amada, não terás o sentimento real da minha presença em ti. Tens que acreditar sem amor, sem luz, sem fé.

Coragem! Coragem! Crê, crê! O mundo tudo exige.”

 

“Creio em todas as coisas, creio na vida eterna: juro-vos que creio, ainda que me pareça que não.

E assim vou caminhando sem mar nem terra, apenas sobre um sopro falso que sempre me deixa precipitar nos abismos.

Valei-me, Jesus! Valei-me, Mãezinha!...

Tende dó do abismo, do meu nada! Tudo vos dou e nada tenho para vos dar. Ai, a minha vida sem vós e sem fé!”

“Coragem, coragem! Tens fé e tens amor e dás-me tudo. Que encantadora e prodigiosa é a tua vida!

Tu fazes subir as almas para mim. Tu vais à frente. Subiste tanto, subiste tanto! Chegaste ao Infinito, vives do Infinito, falas do Infinito.

Oh, vida de Deus nas almas! Oh, prodígios de Deus nas almas!

Vai, vive de fé, repete o teu «creio». Sofre e ama, sofre e ama!”

 

 “Jesus, creio, creio sem fé. Perdoai-me, meu Jesus, perdoai-me!”

“Coragem, coragem! Os teus últimos êxtases (a quatro meses da morte) hão-de ser mesmo acreditar sem veres, sem sentires. Eu passo como se não passasse.”

 

 

 

 

LA FIGURA DI P. 240 ED. ITALIANA (A SINISTRA)

CAPITULO 90

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 9º

 

 

INTIMIDADE COM MARIA

(Devoção à Santíssima Virgem)

 

 

Eu porei inimizade entre ti e a mulher,

entre a tua descendência e a descendência dela.                    (Gén 3, 15)

 

És toda bela, ó minha amada:

e em ti não há mancha!                                               (Cânt 4, 7)

 

De hoje em diante todas as gerações

me proclamarão bem-aventurada!                                         (Lc 1, 48)

 

Não têm mais vinho.                                                           (Jo 2, 3)

 

Eis a tua mãe!                                                                    (19, 27)

 

 

 

 

A Mãe de Jesus ser minha Mãe também,

que prova de Amor!

 

A Mãezinha é a minha vida…

a Mãezinha é luz, a Mãezinha é força.

 

Minha querida Mãezinha, dai-me a vossa bendita mão:

é por Jesus que eu combato.

 

“Dai-me a vossa pureza e coragem

para cumprir a vontade do meu Senhor!”

 

“Purificai-me o corpo, o coração e a alma: preparai-me para a visita de Jesus!”

 

“Ensinai-me a amar a Jesus!”

 

 

Na espiritualidade de Alexandrina o papel de Nossa Senhora é muito importante: todos os seus escritos estão permeados da «presença» de Maria, a Mãezinha por excelência.

E como a uma mãezinha, mais íntima e mais poderosa que a mãe terrena, Alexandrina dirige-se-lhe para exprimir o seu amor, para pedir ajudas nas suas numerosas e dolorosíssimas contingências, para pedir a sua mediação.

 

Este capítulo está dividido em dois parágrafos:

1º - A Maria, no louvor e na entrega, onde ressalta de modo particular o impulso da filha que irrompe em transbordante gratidão, que invoca ajuda e se abandona em entrega confiante;

2º - A Maria, no pedido de mediação. Tal pedido é frequentíssimo: Alexandrina sente espontaneamente o impulso para Maria para chegar a Jesus, impulso devido ao seu amor intenso pela Mãezinha celeste, à consciência do seu poder, mais que da própria indignidade, que a faz invocar a obra de Maria como «ponte» para Jesus.

Note-se que esta forma de intercessão a que recorre não tira nada à sua intimidade com Jesus, ao seu sentir-se «unida» a Jesus até à «comunhão transformante», ao seu sentir-se «habitação» da santíssima Trindade, como vimos no capítulo precedente. Por isso, para Alexandrina, a «posição» de Nossa Senhora está perfeitamente conforme com quanto ensina o magistério da Igreja católica. A este respeito, recordamos quanto o P.e Mariano Pinho escreveu na biografia No Calvário de Balasar: veja-se o Prefácio, p. 4.

 

 

§ 1º - A MARIA, NO LOUVOR E NA ENTREGA

 

Alexandrina revive as fases do ano litúrgico e, muito intensamente, as datas que dizem respeito a Nossa Senhora.

 

11 de Fevereiro

 

No êxtase vê Nossa Senhora como apareceu em Lourdes a S. Bernardete, em 11 de Fevereiro de 1858.

 

“Mãezinha, Mãezinha de Lourdes, és toda bela, és toda bela, minha querida Mãezinha! Faz-me pura, pura. Assemelha-me a ti, Mãezinha! Minha Mãezinha, como estou bem no teu amantíssimo regaço!”

 

25 de Março

 

No dia da Anunciação, 25 de Março (1953), depois de receber muitas centenas de pessoas sem sentir cansaço[69], pus-me a pensar como Nosso Senhor criou a Mãezinha pura e bela para ser a Mãe de Jesus. Agradeci-lhe o ela ter aceitado, porque se assim não fora, não tínhamos Jesus, não tínhamos a Eucaristia.

Saí fora de mim para outro mundo; rompi em cânticos até altas horas da noite. Cantei num amor e numa alegria deslumbrante.

 

A importância que o próprio Jesus atribui a este dia resulta de quanto está escrito na Carta de 8/12/1939 ao P.e Pinho a propósito da Consagração do mundo a Nossa Senhora:

 

“Se ele quiser desde já anunciar ao mundo e determinar o dia da consagração, o dia 25 de Março[70], que grande dia!

Dia da Anunciação, dia em que principiaram a abrir-se as portas do Céu que estavam ainda fechadas. A minha Mãe bendita triunfou sobre Satanás e triunfará ainda hoje sobre os satanases humanos, que em guerra diabólica se desencadeassem. Ela há de humilhá-los, há-de vencê-los.

Se nesse dia lhe for consagrado o mundo, eu prometo acabar a guerra.”

 

Maio

 

Ao cair da noite, fiz o mês da querida Mãezinha. Cantei com entusiasmo, pois ela é a minha Mãe.

 

No dia13 de Maio de 1945, à costumada devoção para o 13 de Maio[71] juntou o agradecimento pelo fim da 2ª Guerra Mundial.

 

Nunca, em ano nenhum, no dia 13 de cada mês, passei tanto tempo em Fátima como no dia 13 deste mês de Maio. Não sei porquê; o meu coração desfazia-se e desfaz-se ainda em agradecimento diante da Mãezinha querida. Passo lá tanto tempo! Quero amá-la, louvá-la e não cessar de lhe agradecer a paz tão desejada. Seria este o motivo por que Jesus me uniu tanto, desta vez, às manifestações da Cova da Iria e me fez sentir todo aquele entusiasmo e preces fervorosas de tantos corações agradecidos?

Bendito seja o Senhor! Que ele continue a dispensar à terra a sua paz divina e não demore a dá-la às Nações que a não têm ainda, para que em toda a humanidade reine ele, só ele!”

 

15 de Agosto

 

Na festa em honra do dogma da querida Mãezinha, quis do meu leito associar-me a ela. Ouvi as aclamações que na igreja se faziam.

Em união com os assistentes, também eu lhe dei os meus vivas e queria acenar-lhe com o meu lencinho branco. Não pude! Rompi em lágrimas (paralisada também dos braços, coisa que acontecia periodicamente).

Pedi ao Céu, pedi às avezinhas da terra e a todos os seres que a glorificassem e bendissessem por mim.

 

8 de Setembro

 

Em 8/9/1933, escrevi nas costas de um retrato meu, assim:

“Ave, Maria, eu vos saúdo, ó minha Mãe Santíssima! Ó minha querida Mãezinha, que hei-de eu dar-vos no dia do vosso aniversário? Não tenho mais nada que vos dar: dou-vos o meu corpo e a minha vida.

Quero ser toda vossa. Não rejeiteis a minha oferta, ó minha querida Mãe!”

 

8 de Dezembro

 

Ontem, dia da sua Imaculada Conceição, consagrei-me a ela o melhor que soube. Tanto mais Lhe queria dizer, menos sabia. Sentia-me à frente dela tão mesquinha, tão nada, que me parecia infundir na terra.

A Mãe de Jesus ser minha também, que prova de amor!

 

Advertindo, na sua finíssima sensibilidade, mesmo a mais pequenina falta e considerando-a uma grave ofensa a Deus, Alexandrina pede a Maria que a torne pura, semelhante a ela.

 

Se eu tivesse força para corrigir-me e emendar-me para sempre! Vejo os defeitos em mim e não sou capaz, não tenho forças para não cair.

Tantas vezes invoco o nome de Jesus, tantas vezes chamo pela Mãezinha e lhe peço que me faça pura, obediente e humilde, que me encha de tudo o que é dela, para que Jesus em mim só a ela veja!

 

 “Ó Mãezinha, ó Mãezinha, como tu és bela! Fazei, Mãezinha, fazei, Mãezinha, que eu seja bela também e que esta beleza e que esta pureza, eu as possa dar às almas!”

 

Muitas vezes pede a Nossa Senhora que a ajude a preparar-se para receber de forma menos indigna Jesus sacramentado.

 

Ao preparar-me para receber o meu Jesus, pedi à querida Mãezinha que me enchesse de amor e me revestisse da sua graça e pureza; que me desse um coração puro como quando vim do meu baptismo: que queria nascer no primeiro do ano novo só para amar o meu Jesus e nunca o ofender.

 

Esta manhã, quando me preparava para a visita (eucarística) do meu Amado, sentia-me triste e amargurada.

“Meu Deus, receber-vos assim, tão cheia de misérias! Tende dó de mim, Jesus!

Ó Mãezinha, purificai o meu coração, o meu corpo e a minha alma: preparai-me para a visita de Jesus!”

 

Alexandrina sente inadequada a sua participação na Santa Missa – exactamente ela que, toda vibrante de amor por Jesus, experimenta em cada fibra do seu ser a Santa Paixão! – e recorre a Nossa Senhora para que supra à sua incapacidade.

O seu exemplo nos estimule a uma participação menos superficial, mais intensa, mais sofrida! E também nos conforte quando as nossas condições físicas ou psíquicas não nos consintam viver a vida espiritual, por isso também a Santa Missa, como quereríamos.

 

Esta manhã tive o santo Sacrifício da Missa. Não foi só a ignorância que fez que eu não soubesse assistir a ela: o sofrimento físico (estamos em 1951) concorreu também.

Fiz como de costume: pedi à Mãezinha para assistir por mim, com os mesmos sentimentos que ela assistiria se estivesse no meu lugar. No momento da Sagrada Comunhão, pedi-lhe para eu comungar como ela comungaria, se fosse receber Jesus.

 

Voltei a ter a Santa Missa no quarto. Recorri à Mãezinha para que assistisse por mim, já que cheguei ao ponto de não saber de facto assistir. Pedi-lhe que me fizesse sentir o que sentiu ela junto à cruz.

Ela veio depor Jesus, morto, no meu coração e fez-me sentir a sua agonia e chorar as suas lágrimas.

 

Para levar a sua pesada e dolorosíssima cruz, para fazer sempre a vontade de Deus com amor, Alexandrina pede ajuda Àquela que de modo perfeito soube sempre cumpri-la com heroicidade.

 

“Mãezinha, minha querida Mãezinha, dai-me a vossa bendita mão! É por Jesus que eu combato, é para lhe dar as almas, mas não posso sozinha.

Socorre-me, ó Mãezinha querida, tem dó da pobre filhinha, que sempre te amou e em ti confia. […]

Ó Mãezinha, fazei que eu seja fiel a vossas graças. Dai-me o vosso amor, a vossa pureza e coragem para cumprir a vontade do meu Senhor! Temo-me, temo-me[72], mas confio em vós. […]

Não me abandoneis, não permitais que eu entristeça Jesus, fazei que eu possa levar a minha cruz, fazei que todos nós possamos levar a nossa cruz com o maior amor, com a maior perfeição!”

 

Num êxtase (Abril de 1951) ouve a Mãezinha dizer-lhe:

 

“Eu serei, minha filha, junto do teu calvário, o que fui outrora no Calvário de Jesus, junto à cruz.

Sê sempre heróica e generosa; não negues nada a Jesus. As almas assim o exigem. Tu vives a Sua vida: Eu em ti vejo a ele.”

 

E muitas vezes Alexandrina sente a Sua ajuda.

Durante o dia, no meio da minha amargura, levantava os olhos para o sagrado Coração de Jesus e para a querida Mãezinha e nunca olhei para ela que não me parecesse que Ela me sorria com bondade.

E é já de noite e ainda me parece que aquele sorriso me está gravado na alma e no coração. Minha Mãe, minha bendita Mãe, oh, como eu quero amá-la!

O que teriam sido estes longos anos de cama, se ela não velasse por mim e não me ajudasse!”

 

Ontem, quinta-feira, estava louca de dor e de medo e cega com as trevas. […]

Andava no ar perdida como a avezinha à procura de lugar para poisar.

Nada encontrava para meu repouso.

Atirei-me para os braços da Mãezinha e disse-lhe que oferecia a minha dor para que viesse a paz ao mundo (estamos em Outubro de 1941). Senti uns momentos de alívio. Ai de mim, se naquele momento a Mãezinha não me acudia! Eu já não podia mais.

 

De tarde rezei as orações à querida Mãezinha (é Maio). Durante elas, a minha alma viu-se livre dum enorme peso que a carregava e entrou em paz e suavidade. Ao terminar, ouvi uma voz tão terna e doce que me chamava: «Filha, minha filha.»

A minha alma sentiu-se ainda mais levantada. Passaram alguns momentos e a mesma voz tornou a chamar-me com ternura e carinho: «Minha filha, minha filha, vem ao meu colo; convido-te a repousar entre os meus santíssimos braços. Reclina-te sobre o meu coração de mãe. Toma conforto na tua dor; coragem!

Eu ajudar-te-ei sempre. És a predilecta de Jesus, és a predilecta de Maria. Oh, como os nossos corações te amam!»

Eu sentia-me, entre os braços da Mãezinha, beijada, acariciada e coberta de toda a ternura. Não se podem comparar o carinho e a ternura da mãe da terra com os da Mãe do Céu.

 

«Minha Mãezinha, a vossa ternura, o vosso conforto encheram-me tanto, tanto o coração: não está mais no peito. Eu não sou digna de beijar-vos, mas sedes vós digna, ó Mãezinha, que eu corresponda ao vosso amor.

Mãezinha, Mãezinha, muito obrigada pelas carícias, pelo amor, pela luz que me destes...” (durante um êxtase de Junho de 1953).

 

(canta)

“O teu caminho, Mãe de Jesus,

dá-me conforto para levar a cruz,

para levar a cruz nesta amargura

por entre trevas, em tanta secura.”

 

Mesmo que nem sempre sinta tal ajuda, Alexandrina conserva todavia confiança na sua Mãezinha celeste, à qual se entrega cegamente.

 

Sinto-me abandonada e abandonei-me; sinto-me morta sem luz e sem guia, e entreguei-me, abandonei-me nos braços da Mãezinha.

E assim vou seguindo os negros caminhos, espinhosos e difíceis que me traçou a Providência. Assim, entregue a este abandono, torna-se mais suave este penoso viver.

Quando sofro pela morte que sinto em mim, digo: «A Mãezinha é a minha vida.» Quando não tenho luz nem força para sofrer, repito: «A Mãezinha é luz, a Mãezinha é força.» Quando sinto ser toda a minha vida um engano e que minto a mim mesma, murmuro: «Não me importo, a Mãezinha não se engana, Ela é a verdade.»

E em todas as coisas vou repetindo o mesmo: quero o que a Mãezinha quer, vou para onde Ela for.

 

Mas Alexandrina não pensa somente sem si mesma: em Maria, refúgio seguro, quer que se repare toda a humanidade.

 

“Mãezinha, quero ao vosso abrigo todos os que amo, todos os que me pertencem, todos os que me ferem, toda a humanidade. Guardai-os amparai-os: todos são filhos vossos.”

 

E eis quase uma resposta:

 

A Mãezinha tirou dos seus santíssimos ombros o manto e colocou-o sobre os meus. Jesus ajudou.

Nessa ocasião, eu senti como se o Mundo inteirinho estivesse à sombra daquele manto celeste. Num impulso de amor, bradei: “Ó Mãezinha, ó Mãezinha! Ó Jesus, ó Jesus não o deixeis daqui sair: só assim será poupado, só assim não corre perigo. Perdão, Jesus, perdão Mãezinha!”

 

 

§ 2º - INVOCA MARIA COMO MEDIADORA

 

Todas as manhãs, depois de várias orações, Alexandrina dirige-se directamente a Nossa Senhora, mas o fim último é sempre Jesus.

 

“Mãezinha, eu vos consagro os meus olhos, meus ouvidos, minha boca, meu coração, a minha alma, a minha virgindade, a minha pureza, a minha castidade... Consagro-vos o meu presente e o meu futuro, a minha vida e a minha morte, tudo quanto me derem a mim, rezarem por mim e oferecerem por mim.

Ó Mãezinha, abri-me os vossos santíssimos braços, tomai-me sobre eles, estreitai-me ao vosso santíssimo Coração, cobri-me com o vosso manto e aceitai-me como vossa filha muito amada, muito querida e consagrai-me toda a Jesus.

Fechai-me para sempre no seu divino Coração e dizei-lhe que o ajudais a crucificar-me (pois já sabe que a sua missão é a de vítima) para que não fique no meu corpo nem na minha alma nada por crucificar (será ouvida totalmente neste pedido!)

Ó Mãezinha, fazei-me humilde, obediente, pura, casta na alma e no corpo. Fazei-me pura, fazei-me um anjo!

Transformai-me toda em amor, consumi-me toda nas chamas do amor de Jesus!” (e verdadeiramente será transformada em amor, toda consumida naquele fogo divino!)

 

Muitas vezes, ao repetir a sua oferta a Jesus, passa através de Maria, mesmo para que a torne mais digna.

 

“Meu Jesus, meu amor, mais uma vez, me entrego a vós, mas quero ir pela Mãezinha. Mais uma vez, me ofereço como vítima, mas pelos seus lábios. Mais uma vez me submeto à vossa divina vontade, mas sempre com ela.

Quero viver com ela, quero sofrer com ela. Com ela quero fazer a vossa divina vontade e ser imolada como vos aprouver.”

 

“Ó Mãezinha, ó Mãezinha, sou filha das vossas dores; vencei comigo, tomai-me em vossos braços, passai-me deles para os de Jesus e não permitais que ele veja em mim tanta miséria: revesti-me de vós!”

 

É belo meditar sobre como Alexandrina sente unidos num só Coração os dois Corações de Jesus e de Maria:

 

Nos momentos mais angustiosos, eu digo à querida Mãezinha do Céu: “Mostrai que sois minha Mãe, que eu provarei ser vossa filha.

Atiro-me para o vosso santíssimo Coração: por ele quero ir para o de Jesus e ficar nos dois ao mesmo tempo.”

 

Pede sempre à Mãezinha celeste para apresentara ao Céu as suas orações, valorizando-as, pois acha-as muito pobres, indignas de serem ouvidas.

 

As minhas pobres orações não chegam ao Céu. Quero-as fazer ricas e valiosas, mas não posso. Peço à querida Mãezinha para falar ela a Jesus e oferecer-lhe tudo, dizer-lhe tudo e invocar por mim.

 

“Mãezinha, falai no meu coração e nos meus lábios, fazei mais fervorosas as minhas orações e mais valiosos os meus pedidos! […]

Ó Mãezinha, ó Mãezinha, pela vossa Imaculada Conceição vos imploro: acolhei as minhas orações, todas, todas as minhas orações; apresentai-as a Jesus e fazei que sejam acolhidas favoravelmente.”

 

As tribulações do seu martírio envolvem as pessoas que lhe são mais vizinhas: recorre também a Nossa Senhora pedindo também por elas.

 

 Vou-Lhe (à Mãezinha) pedir muito que Ela nos alcance de Jesus um amor santo e puro, um amor sem limites que nos faça levar a cruz, as tribulações e angústias que Jesus nos enviar. Mas levá-las com alegria e amor, com confiança cega, que em tudo fazemos a sua santíssima vontade.

 

Os combates que Alexandrina deve travar contra Satanás deixam-na sempre na angústia do temor de ter pecado. Também por este martírio invoca Maria.

 

“Mãezinha, Mãezinha! Entregai-me a Jesus como vítima: quero dar-lhe consolo, quero reparar, mas não quero pecar. Entregai-me a ele como escrava: quero servi-lo, quero amá-lo e dar-lhe almas. Pecar nunca, ó Jesus, ó Mãezinha! Sou vítima, sou vítima! […]

Mãezinha, Mãezinha, pede ao teu Jesus luz para a tua filhinha, pede conforto para a minha alma!”

 

O seu desejo abrasador de amar Jesus sempre mais, desejo nunca apagado, leva-a a pedir ajuda à Mãezinha.

 

“Mãezinha querida, vinde à terra e tomai a vossa filhinha para os vossos santíssimos braços: quero dar-vos o coração; só vós o podeis encher com o vosso amor para eu poder amar a Jesus.”

Mas não falta a perspectiva universal:

“Incendiai-me com raios tão fortes de amor que eu possa incendiar o mundo.

Jesus não é amado! Com a minha dor e o vosso amor, hei-de fazer que ele seja amado. Estou certa que assim também eu hei-de amar.

Mãezinha, Mãezinha, como há de ser belo ver todos os corações a arder por Jesus num só raio de amor!”

E voltando a si mesma:

“Mãezinha, querida Mãezinha, ensinai-me a amar a Jesus! Eu amo-o com o teu amor e amo-te com o seu.”

 

Desejando oferecer a Jesus o máximo mesmo da dor, pede:

 

“Querida Mãezinha, vede se encontrais no meu nada algumas migalhinhas (de sofrimento) que sirvam para transformardes em flores para oferecerdes por mim ao meu Jesus.”

 

Depois dum exame médico dolorosíssimo:

“Mãezinha, estou pronta para mais sacrifício e mais amor. Dizei isto por mim a Jesus. Fazei que eu sofra, fazei que eu ame. Eu quero morrer de amor!”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

APÊNDICE

 

(perseverança na oração)

 

Recolhem-se aqui alguns fragmentos que, como dissemos no Prefácio, não reflectem uma particular forma de oração da nossa Alexandrina, mas a sua fidelidade, o seu esforço de orar mesmo em condições muito desfavoráveis. Apresentam-se-nos como um exemplo que pode ser de conforto e de encorajamento para todos nós.

 

 

Unida a Deus, mesmo sem forças…

 

Às vezes parece-lhe não poder orar pela intensidade dos seu sofrimentos de toda a espécie, mas realmente cada seu momento é todo uma oração e no mais profundo continua a união íntima com Deus.

 

O que sofreu o meu pobre corpo nestes dias só Jesus o sabe. As agonias e torturas de minha alma só ele as pode compreender.

Este martírio de alma e corpo impediu-me de poder orar, de poder meditar na Paixão de Jesus (era sexta-feira).

Fitava-O na cruz rapidamente e só dizia: o que sofreu Jesus por meu amor! Sofreu tanto que morreu por mim!

E terei eu coragem de negar algum sofrimento de alma ou de corpo?

“Oh, não, meu Jesus! Com a vossa graça, eu nada vos negarei. Sou a vossa vítima, noite e dia.”

“Oh, Mãezinha, pelas vossas dores, pelo que sofrestes junto à cruz do vosso e meu Jesus, permiti que me associe a vós e dai-me coragem e amor para meu sofrimento.”

 

O sofrimento do meu corpo é tão agudo e doloroso que me leva a não poder rezar, a não poder unir-me intimamente ao meu Jesus na Eucaristia, à minha Trindade adorável, como tão ardentemente desejo e suspiro. Não posso fazer o mais pequeno esforço para esta união. Acontece mesmo em mim como num fio eléctrico fechado, mas sem força eléctrica: segundo o que sinto, não há nada, nada de união com Deus.

Não tenho rezado quase nada por cauda dos meus sofrimentos, por causa de tão doloroso martírio. Tenho estado quase completamente esquecida das coisas do Céu.

Disse a Jesus e à Mãezinha que isto não quer dizer diminuição do meu amor, mas é devido ao meu muito padecer (estamos em 1954).

 

Outras vezes tem consciência de que, apesar de tudo, a sua união com Deus continua a manter-se.

 

A minha oração vocal tem sido quase nenhuma, mas o meu espírito no meio da labareda do sofrimento não se desuniu de Jesus, não deixou de lhe oferecer o nada de meu nada.

 

Passei a noite de vigília. Sofri muito. Não podia rezar. Só de longe em longe, uma jaculatória podia dizer; mas estive sempre unida a Jesus e sempre era a sua vítima.

 

Frequentemente toda a sua alma se exprime através do olhar.

 

Ai, quanto sofre este pobre corpo que nem farrapo é!

Não sei e não posso falar para o meu bom Jesus e para a querida Mãezinha. Olho para eles com o fim do meu olhar lhes dar e pedir tudo.

Ai, pobre de mim! Que penoso viver para o corpo e para a alma!

 

 

… e nas dúvidas acerca da Fé!

 

Peço a Jesus o amor do seu divino Coração. Contemplo-o na cruz crucificado. Pela sua Paixão e Morte peço-lhe amparo e conforto e a graça de não vacilar.

Nem Jesus, nem a Mãezinha, dão vida à minha morte; nem todo o Céu me vale!

Tenho horrorosas tentações contra a Fé: tudo me parece mentira.

“Creio em Deus Pai todo-poderoso. Jesus, eu creio em vós; Jesus, eu em vós confio.”

Estou num mar tão furioso; as ondas negras em que combato chegam ao Céu...

 

Continua a invocar Jesus, a Mãezinha, todo o Céu.

 

A minha vida é dor e trevas sem interrupção de um só momento...

Toda a outra vida (espiritual) se apagou, morreu, até mesmo o nome de Jesus e da Mãezinha. O Céu, a Pátria bendita, tudo se apagou, tudo desapareceu: parece que estes doces nomes não existem. Jesus, a Mãezinha, o Céu com a Trindade divina, a quem tanto amava, morreram para mim.

Sinto isto, mas não deixo de invocar de alma e coração: “Jesus, Mãezinha, valei-me: sou vossa! Ó Céu, ó Céu, vem em meu auxílio!”

Assim brado eu no auge da minha dor. E, sem nada sentir nem ouvir de conforto e alegria, curvo-me para receber a cruz e repito sempre: “Jesus, sou vossa vítima!”

 

É tal a aflição que parece que todo o meu ser se “estrancinha”.

Então chamo a Jesus, por aquele Jesus que sinto ter perdido com a Mãezinha, por aquele Jesus em que sinto não acreditar.

Pois quantas vezes, meu Deus, me parece ter perdido a fé e não acreditar nas verdades da santa Igreja, nem na vida eterna!

Mesmo com o sentimento de nada acreditar, invoco o Céu para poder resistir. Vou repetindo o «creio na vida eterna».

“Amo-vos, Jesus, amo-vos. Sou a vossa vítima. Só quero que em mim se faça sempre a vossa vontade.”

 

Sobre tudo predomina sempre o amor.

 

“Ó Jesus, na incerteza de que vós existis, eu quero amar-vos, nunca deixar de amar-vos.

Na certeza de ir para o Inferno, condenar-me eternamente, não queria deixar de sofrer e amar-vos na terra, para suprir aquilo que no inferno não posso fazer: nem sofrer (de modo redentor), nem amar.

Eu creio, Jesus! Valei-me Mãezinha! Valei-me meu Amor!” […]

“Jesus, compadecei-vos de mim! Tudo quero sofrer e não sei sofrer. Tudo quero dar e nada tenho. Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim! Quanto mais vos busco, maior é a perda que sinto de vós e da Mãezinha. Valei-me, valei-me!”

Quando dizia «valei-me», já me encontrava na trevas (acabado o êxtase), sem a presença de Jesus e quase na certeza de nunca o ter encontrado.

Repetindo o meu «creio» muitas vezes, fiquei ali sozinha.

 

A insónia tornou-se quase total e sempre mais dolorosa, quer na esfera física quer na espiritual; sobre isso dizem alguma coisa estes dois fragmentos de Março de 1955.

 

Nas minhas noites de vigília, oro, oro, uno-me aos meus Amores, ofereço-lhes as minhas lágrimas, mas nada vale. É em vão todo o meu esforço.

Repito o meu “creio”, creio na Igreja católica, mas parece-me uma mentira constante. Só sinto a morte com o desaparecimento de tudo.

Senhor, Senhor, tantas dúvidas!

 

Continuo a passar as noites a velar. Passo algumas noites em que durmo alguns minutos, se aquilo que durmo se pode chamar dormir.

Oro, oro, falo muito com o Céu, sem dele receber conforto. Todo o meu orar não chega a aparecer.

Toda a minha vida se apagou como se em mim nada houvesse. O Céu são trevas, a terra são trevas, e trevas em mim.

É um combate, é uma luta a viver sem alma, a viver sem fé! Ó meu Deus, ó meu Deus, não tenho guia, nem luz que me alumie!

O meu abandono faz-me recordar o vosso!

O combate é renhido, os meus sentimentos tentam negar todas as coisas, como: Deus, a existência da alma e a eternidade. Esforço-me para orar como se tudo existisse; e a minha ansiedade é infinita em me dar a Jesus, em me dar às almas.

Nunca soube nem saberei dizer quanto sofro, nem o que é a minha vida de martírio.

 

Mas o que a alma sente não é partilhado pelo coração: obstina-se a agarrar-se à Fé, mesmo se lhe parece vão o seu martírio, vã a sua luta contra a natureza recalcitrante.

 

“Creio, meu Deus, creio mesmo que este meu «creio» me parece sempre mentiroso.” Repeti-o hoje tantas vezes! Tantas vezes chamei por Jesus e pela Mãezinha.

“Olhai para o meu coração e não para o meu sentimento! O coração não mente. Tudo é por vós, pelo vosso amor e para as almas. Creio, creio! Valei-me, valei-me Jesus!”

 

A natureza geme e sucumbe. Para dar ao Céu, chamar por Jesus e pela Mãezinha é o mesmo que nada fazer.

“Meu Deus, meu Deus! Não haverá alguém que se compadeça da minha dor e venha em meu auxílio?

Não haverá alguém que me levante do abismo e me eleve para vós?

Ó Deus, ó Céu, ó eternidade, que pareceis não existir de modo nenhum! Vivo a minha vida enganando-me, enganando todos numa mentira contínua

 

“Eu creio, meu Deus, eu creio mesmo mentindo. Eu creio, juro-vos que creio!”

Seguem-se dois fragmentos de 1955: um de 1 de Julho e outro de 2 de Setembro (último diário!)

 

Quero orar, unir-me ao Senhor, e não posso. Mantenho esta união o melhor possível. Ofereço-lhe todos os espinhos que, vindos dum lado e de outro, me atingem e me fazem sangrar.

Mas como, Senhor, como oferecer tanta coisa na inutilidade?

Nas trevas e na morte e sobretudo sem fé? Meu Deus, que horror!

 

Numa angústia lancinante repeti os meus actos de fé:

“Creio, Jesus, creio que foi para mim o vosso nascimento, a vossa morte, o vosso calvário. Creio, Jesus, creio!”

Os meus abismos são tão negros e profundos que só um Deus podia penetrar neles. Foi assim que Jesus fez. Desceu à minha profundeza, trouxe à superfície e iluminou o meu pobre ser com uns raiozinhos da sua luz:

“Vem cá, minha filha, luz e farol do mundo!

Tu que és treva inigualável, és luz que brilha, farol que tudo ilumina.

A treva é para ti, a luz é para as almas.

Vem cá, luz de quem eu sou luz, farol de quem eu sou farol!

Não posso eu fazer-te brilhar com o meu brilho?

Não posso eu fazer que sejas farol como eu sou farol?”

 

 



[1] Não há exagero: as pessoas tinham de passar em grupos que paravam por pouco tempo junto dela. Veja-se a vasta biografia Figlia del dolore, madre di amore, MIMEP-DOCETE, Pessano (MI) 1990.

[2] A margem esquerda mais larga indica que o trecho é tirado dos escritos de Alexandrina.

[3] Como exemplos de tal simetria central apresentamos as seguintes frases: Todo o céu estava em festa, e em festa está o teu coração (disse Jesus). – Quero sofrer convosco e convosco quero fazer a vontade divina (dirigido a Nossa Senhora). – Eu sou nada e nada quero ser. – Sou vossa e vossas quero tornar todas as almas.

[4] A mãe fizera-se fiadora duma dívida contraída por um seu irmão. Terminado o tempo para a restituição, o devedor não pôde pagar, por isso a mãe de Alexandrina teve de vender as poucas terras e pedir por sua vez um empréstimo, com hipoteca sobre a casa.

[5] Tem até a graça de receber algumas vezes a Hóstia santa das mãos dum anjo ou do próprio Jesus (quando tem dela necessidade e não há sacerdote disponível). Este fenómeno místico verificou-se com algumas santas. Por exemplo, S. Verónica Giuliani (Il diario, ed. Cantagalli, Siena 1970, p. 532) e S. Gema Galgani (Biografia di p. Germano de S. Stanislao, Tipografia Editrice Pio IX, Roma 1915, p. 385).

[6] Frequentou só os primeiros 18 meses de escola primária, suficientes para aprender a ler e a escrever: faltava escola feminina na sua freguesia e teve de ir morar, juntamente com a irmã, com uma família na Póvoa de Varzim.

[7] A numeração dos Salmos é a da Vulgata.

[8] Recorde a expressão de S. Paulo (Act 17, 28): «Nele vivemos, nos movemos e existimos.»

[9] Refere-se à queda das pétalas das árvores do seu quintal, tocadas pela brisa da tarde.

[10] Este envolvimento de todo o criado no elevar louvores a Deus faz recordar a poesia «Prière» de Lamartine:

«Tudo se cala: só o meu coração fala neste silêncio.

A minha inteligência é a voz do universo.

Sobre os raios da tarde, sobre as asas do vento,

Ela eleva-se a Deus como um perfume vivo.

E, dando uma linguagem a toda a criatura,

Empresta a minha alma à natureza para adorá-lo.»

Mas os pontos de vista são opostos: Lamartine parte de si mesmo, empresta a sua inteligência ao criado para louvar o Criador: Alexandrina, na sua humildade, acha-se incapaz de elevar um louvor adequado; «sente» que o criado tem aquele poder, e pede para ser associada ao coro universal de louvor.

[11] Pelas grandes restrições económicas e pelo medo, sobretudo, de perder a casinha, hipotecada! Veja-se a Biografia e, no capítulo 3º, o § 2º. Uma senhora de Lisboa (muito longe), por intercessão do P.e Pinho, deu a soma necessária para tirar a hipoteca.

[12] Estamos pelo fim de Novembro de 1952. A Cúria, na sequência de pedidos insistentes da parte de sacerdotes de vários lugares, volta a autorizar a família Costa a receber visitas que se apinham ao redor de Alexandrina, desde que têm autorização da própria Cúria.

[13] Para este «sentir» que Jesus sofre nela, veja-se no capítulo 8º o § 2º.

[14] Recordamos, como foi dito no Prefácio, que em certo momentos de particular ardor Alexandrina usa o «tu» para Jesus e para Nossa Senhora. Para tratamento mais ampla das aspiração à conversão, veja-se o capítulo 3º § 4º.

[15] Maledicências e calúnias várias, também pesadas, humilhações da parte dos adversários. Além disso, o exílio no Brasil do primeiro director, P.e Mariano Pinho: estamos em 1946.

[16] Recordemos: «Se pedirdes algumas coisa ao Pai em meu nome, ele vo-la concederá» (Jo 16, 23).

[17] Encontra-se no meio da tempestade suscitada pelo Veredicto da Comissão examinadora. Veja-se a Biografia.

[18] Veja-se a Biografia.

[19] De Lisboa veio uma ajuda, como se viu no capítulo 1º no § 2º, b.

[20] Da janela do seu quarto vê-se a torre da igreja paroquial, indicadora do sacrário.

[21] Nesta sexta-feira, 27 de Março de 1942, tem lugar o último êxtase da Paixão na primeira forma, ou seja, com movimentos que exprimem as várias fases; movimentos humanamente inexplicáveis numa paralisada.

[22] Consolação para Jesus não é com certeza o permitir que sofra tanto! A sua consolação está na salvação de muitas almas, graças à missão de vítima de expiação.

[23] O comportamento dos superiores do P.e Pinho, com o seu envio para o exílio, poderia induzir muitos a não crer na verdade da vida – tão excepcional – de Alexandrina. Isto tornaria vãos os benéficos frutos do seu exemplo e da missão de vítima, com prejuízo de muitas almas, portanto da Causa de Jesus.

[24] Esta é em substância a mesma invocação dirigida à Santíssima Trindade por S. Isabel da Trindade no início da sua famosa, belíssima «Elevação»:

«Meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer inteiramente, para fixar-me em ti, imóvel e quieta como se a minha alma estivesse já na eternidade. Nada possa perturbar a mina paz nem fazer-me sair de ti, ó meu Imutável…»

[25] Dia da aparição de Nossa Senhora em Lurdes.

[26] O jesuíta P.e Veloso publicara na revista “Brotéria” um artigo em que Alexandrina era chamada «visionária».

[27] Veja-se no § 5º um desenvolvimento mais amplo sobre as almas do Purgatório.

[28] Deolinda morreu depois de Alexandrina, precisamente em 6.12.1982.

[29] A doente, que tinha tantos filhos pequeninos, curou-se. Morrerá somente em 21 de Fevereiro de 1986.

[30] Não pareça muito ousada esta pretensão. Recorde-se que S. Catarina de Sena, pela morte do pai, fez o mesmo pedido a Jesus e, depois dum pouco de insistência, obtém a graça. Veja-se: Raimondo da Capua, Santa Caterina de Siena, ed. Cantagalli, Siena 1952, pp. 279-280.

[31] A mãe de Alexandrina morrerá depois dela e precisamente em 24 de Janeiro de 1961.

[32] Note-se que o pedido de perdão foi dirigido a Jesus «ainda antes» da morte real e do imediato juízo divino.

[33] Veja-se, por exemplo, P.e Germano, Biografia della Serva di Dio Gemma Galgani, capítulo 14º.

[34]  É claro que esta recusa é provocada pelo manter-se o pecador no seu estado de obstinado apego às «raízes do pecado». Jesus quer todos salvos e desejava também a salvação daquela alma. Com aquela sua negação inicial quer pôr em evidência a gravidade do pecado, a severidade da justiça divina e quer estimular o arrependimento do interessado de cuja liberdade depende a escolha da própria salvação. Jesus quer ainda pôr à prova a fé de quem intercede e, como em Caná, glorificar o poder mediador da sua Mãe.

[35] Nossa Senhora teve já a resposta positiva: mas a graça deve ser pedida por Alexandrina: é ela que deve fazer o esforço e oferecer sofrimentos, ainda que com o auxílio de Maria.

[36] «Permiti que se converta»: a conversão depende da nossa vontade, mas deve ser ajudada pela graça divina, que nunca falta quando é pedida.

[37] A Alexandrina, provavelmente em 1936, deve ter feito o acto heróico de renunciar aos seus méritos em favor das almas do Purgatório; do presente êxtase deduz-se que deve ter confirmado aquele acto com voto perpétuo (nota do P.e Humberto Pascoal).

[38] “Nossa Senhora do Carmelo”. O monte Carmelo, que domina o mar Mediterrâneo do golfo de Haifa, é o berço da Ordem Carmelita: na segunda metade de 1100 retiraram-se para o seu cume em solidão contemplativa alguns monges e daí nasce um Fraternidade que em 1200, transferida para a Europa, se chama já “Ordem de Santa Maria do monte Carmelo”.

Em 1251, ao Superior dos Carmelitanos, S. Simão Stock, Nossa Senhora teria aparecido prometendo o seu auxílio (para a sobrevivência da Ordem) e particular protecção na hora da morte. Como «sinal» da sua intercessão teria dado «o Escapulário» (duas pequenos rectângulos de pano, um com a sua efígie e o outro com a do Sagrado Coração) que, trazido com devoção, significa uma particular consagração a Maria, com o empenho de viver à sua imitação.

A devoção ao Escapulário difundiu-se na Igreja pela confiança que os fiéis têm de ser ajudados por Nossa Senhora mesmo depois da morte. De facto tal devoção, se bem vivida, cria as melhores disposições para obter a misericórdia de Deus e uma redução das penas do Purgatório. A liturgia exprime a fé da Igreja na intervenção de Nossa Senhora a favor das almas do Purgatório invocando-a na Missa «pelos parentes, amigos e benfeitores defuntos», na confiança de obter uma solícita libertação do Purgatório.

Quando é venerada como «Nossa Senhora do Carmelo», ou «do Carmo», é representada a entregar o Escapulário; é por isso reconhecível na visão tida por Alexandrina.

[39] Estamos em Novembro de 1954 e os visitantes passam em grupos junto à Alexandrina, que está a viver a vida pública de Jesus, ensinando multidões (veja-se a Apresentação, p. )

[40] Estamos em Junho de 1949. Desde Setembro de 1948 veio-lhe a faltar mesmo o segundo director, P.e Humberto Pascoal. Até à morte será auxiliada pela esperança de reaver o P.e Pinho, que ao contrário não virá mais (veja-se o capítulo 3º, § 5º).

[41] Ocorre muitas vezes nos escritos de Alexandrina a comparação com a criança entre os braços da mãe. Vem espontaneamente o confronto com o famoso Salmo 130, 2: «[…] como uma criança saciada  no colo de sua mãe.»

[42] Veja-se S. Paulo 1Cor 7, 29-31.

[43] Recordamos que S. Teresinha de Lisieux fez a mesma comparação.

[44] Para o jejum, veja-se a Biografia.

[45] Recordamos que, na linguagem matemática, o infinitésimo não é um nada, mas uma quantidade variável que se torna sempre mais pequena, que tende a zero. Assim a criatura que adora sente-se sempre mais pequena na medida m que avança na sua ascese para o Criador, porque se torna sempre mais consciente da imensidade da Grandeza divina; tende por isso a sentir-se um nada, em comparação.

[46] «Toda a minha alegria está em sofrer.» À primeira vista pode parecer incompreensível ou ao menos exagerada esta afirmação. Todavia, quando uma alma chegou a uma elevação tal que se torna semelhante a Jesus – objecto do seu amor, que quer por isso imitar o mais completamente possível – experimenta verdadeiramente uma alegria sublime em padecer pela salvação dos irmãos.

S. Teresa de Ávila diz que «desejos irresistíveis de dar-se a grandes sofrimentos começam logo a ocupá-la (a alma) sem que saiba libertar-se deles e suspira com ardor por abandonar-se à penitência…» (Castello Interiore, Quinte Mansioni, cap. 2º).

Tenhamos pois presente que o divino Modelo abraçou a cruz durante toda a sua vida terrena e esperava com desejo ardente a hora da sua Paixão conclusiva: «Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa.» (Lc 22, 15)

[47] O Concílio Vaticano II considera o Sacrifício Eucarístico «culmen et fons» de toda a vida cristã (cap. 2º, 11 b). Veja-se também o Catecismo da Igreja Católica, parte 2ª, secção 2ª, artigo 3º.

[48] No Catecismo da Igreja Católica (parte 2ª, secção 2ª, artigo 3º, pág.) lê-se:

«No Santíssimo Sacramento da Eucaristia contém-se verdadeiramente, realmente, substancialmente o Corpo e o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, com a Alma e a Divindade e, por isso, Jesus inteiro

Um esclarecimento do conceito «Cristo todo inteiro» encontra-se, por exemplo, no livro Che cos’è l’Eucaristia do teólogo René Laurentin (Ed. Queriniana, Bréscia, pp. 23-24):

«O que Cristo realiza na Eucaristia é uma presença total. Não concebamos esta presença de modo redutivo: as palavras “Isto é o meu Corpo…” não nos dão só o Corpo físico de Jesus lá onde há uma Hóstia, porque o Corpo glorioso de Cristo não está separada da sua Alma, como o esteve durante os três dias da sua morte. Jesus ressuscitou. Ele é um. Com o Corpo está pois o seu Sangue, a Alma e a Pessoa de Cristo. E com ele, inseparavelmente, as outras duas Pessoas com as quais condivide totalmente o Ser e a Vida. Em síntese, é Cristo todo inteiro, Deus todo inteiro.»

É belo recordar aqui que a grande mística S. Verónica Giuliani viveu a experiência desta verdade. No seu diário de facto lê-se:

«Pareceu-me ver no Santíssimo Sacramento Deus, como num trono, Deus Trino e Uno: o Pai com a sua omnipotência, o Filho com a sua sabedoria, o Espírito Santo com o seu amor. Todas as vezes que comungamos, a nossa alma e o nosso corpo tornam-se morada da Santíssima Trindade e, vindo a nós Deus, vem-nos todo o Paraíso. Vendo como Deus está fechado na Hóstia sacrossanta, estive todo o dia fora de mim pela alegria que experimentei.» (Diario III, Città di Castello 1973, pp. 928, 1048).

[49] O P.e Pinho, seu primeiro director espiritual, comenta:

«Jesus quer deixar bem impresso este seu primeiro encontro sacramental com aquela que viria a ser na terra uma das almas mais eucarísticas, das mais apaixonadas por Jesus sacramentado (No Calvário de Balasar, p. 14).

[50] Neste ano de 1946 o segundo director, P.e Humberto Pascoal, inscreveu-a no Movimento Eucarístico “Lâmpadas Vivas”, com sede em Milão.

[51] O pároco tinha levado Jesus sacramentado também a outra doente; tinha de se apressar para não perder o comboio. Tudo isto acontece segundo plano divino; de facto, Jesus no êxtase dirá:

“São maravilhas, são provas dadas por mim. Diz, filha, ao meu querido P.e Humberto que fui eu a permitir tudo.”

A atitude de Alexandrina nesta ocasião, o êxtase com canto inspirado, belíssimo, exprimindo o seu impulso de amor a Jesus, decidiram o P.e Humberto a aceitar a direcção daquela alma excepcional.

[52] É um sono espiritual. S. Teresa de Ávila chama-lhe «sono das potências» (veja-se Relações, 5, 5).

[53] «Todo o teu ser está imerso em mim»: este tema será desenvolvido no capítulo 8º.

[54] A repetição está no texto: quase um embalo.

[55] S. Leão Magno, Serm. 63, 7, in Migne, P.L. 54, 357C, citado na Lumen Gentium, n. 26.

Mais conhecida é a frase de S. Agostinho (Oração depois da S. Comunhão, na Missa de S. Agostinho): «Ó Pai, a participação no teu Sacramento insira-nos como membros vivos em Cristo teu Filho, para que sejamos transformados naquele que recebemos.»

[56] Recordemos a famosa afirmação de S. Paulo (Gál 2, 20), já citada: «Não sou mais eu que vivo, mas Cristo que vive e mim.»

[57] Um novo exemplo do ímpeto de Jesus para a criatura que o recebe encontra-se em quanto acontecia S. Catarina de Sena:

«Muitas pessoas dignas de fé, que se encontravam a escutar a S. Missa quando a Virgem recebia o Corpo do Senhor, me asseguraram que viram a Hóstia consagrada libertar-se dos dedos do sacerdote e voar para a boca de Catarina; e dizem também ter visto sair a partícula dos meus dedos enquanto lha entregava…» Isto se lê na Vida de S. Catarina escrita pelo P.e Raimundo de Cápua (ed. Cantagalli, Siena 1952, p. 396).

[58] S. Verónica Juliani ouve Jesus dizer-lhe quase as mesmas palavras:

«Tu desejas receber-me e unir-te a mim e eu anseio ardentemente unir-me a ti.»

[59] Recordamos que Jesus disse ao Pai: «Tu, Pai, estás em mim e eu em ti (Jo 17, 21). Confronte-se ainda com A Imitação de Cristo (IV, 13): “Tu em mim e eu em ti”.

É pois belíssimo o final da “Elevação” de S. Isabel da Trindade: “Ó meus Três… sepultai-vos em mim para que eu me sepulte em vós.”

Recordamos também que num manuscrito de S. Teresinha de Lisieux se lê: “L’Amour me pénètre e m’environne”: O Amor penetra-me (Ele em mim) e envolve-me (eu n’Ele).

[60] Gaston Courtois no seu livro Quando il Maestro parla al cuore, ed. Paoline, Cinisello Bálsamo, 1988, p. 118.

[61] S. João da Cruz, no livro Chama viva de amor, expõe a sua experiência pessoal do mais alto estado de união com Deus que uma criatura possa atingir nesta vida, estado que ele chama «união transformante». Característica peculiar de «união transformante» é «a actividade intensíssima do amor divino» que o Espírito Santo acende na alma: «À alma sucede – escreve o santo (“Chama”, 3) – como à lenha que, compenetrada pelo fogo pelo qual foi transformada e unida a si, quanto mais arde mais se torna inflamado e incandescente, até gerar faúlhas.»

As almas chegadas a este estado – que é dom puro de Deus – experimentam já na terra alguma amostra da beatitude celeste, na qual bem rapidamente Deus as introduz.

[62] Veja-se: Cum clamore valido do P.e Monier-Vinard (Ed. Marietti, 1951).

[63] Em relação ao anseio de Deus de unir-se à criatura, recordamos a última citação do capítulo 7º.

Aqui, considerando uma união não vinculada à Eucaristia, transcrevemos a seguinte frase que o místico Gaston Coutois ouve dizer a Jesus: «Soubesses tu o que é um Deus que anseia dar e dar-se, penetrar, invadir, enriquecer, impregnar um ser amado, conformá-lo ao plano de amor do Pai, aspirá-lo, assumi-lo, inspirá-lo, tomá-lo a seu cargo, unir-se-lhe, identificar-se-lhe!» (Quando il Maestro parla al cuore, p. 39).

 

[64] Estamos em 1954: Alexandrina revive as fases da Paixão sem manifestações externas, ao contrário do que aconteceu até 1942 (veja-se a Biografia).

[65] Estamos já em Julho de 1955. Alexandrina tem muitos êxtases públicos (veja-se a Biografia), por isso são muito os visitantes que acolhem as suas mensagens e por elas se transformam.

[66] Significativa e belíssima é a expressão de S. João da Cruz: «Cada um parece ser o outro e ambos não são senão um.»

[67] «Vivo sem viver, sofro sem sofrer, amo sem amar.» Alexandrina tem a impressão de não ter vida espiritual e aprece-lhe que o seu sofrer não exista como sofrimento de resgate pelas almas. Um dos tormentos maiores da sua vida de vítima foi o de sentir a inutilidade de todo o seu padecer, a inutilidade da sua oferta. Pensamos na infinita dor de Jesus ao sentir que para muitos seria inútil a sua Paixão.

«Amo sem amar.» Confronte-se com S. Catarina de Génova: «Sinto-me morrer de amor e não sinto amor; encontro-me abismada no amor e não conheço o amor. Sinto o amor operar em mim e não compreendo a operação do amor: o meu coração incendeia-se de amor e este fogo de amor não o sei explicar.» (Diálogos, 3º, 2)

[68] «Crer… sem Fé» quer dizer sem a consolação da Fé; não obstante as enormes dificuldades que se opõem à sua Fé, Alexandrina deve crer igualmente. E multiplica os seus «actos de Fé», mesmo se lhe parece que não servem de nada: vejam-se, por exemplo, o 2º, o 3º e 4º fragmento deste parágrafo, tirados respectivamente dos diários de 28/9/1944, 23/11/1944, 5/3/1954. Com uma vontade firmíssima, sempre reatiçada pelo fogo do seu amor a Jesus, obstina-se em repetir o seu «creio», mesmo que sem convicção: «Juro-vos que creio, mesmo se me parece que não» (diário de 1/4/1955). É uma luta mantida como reparação pelos não crentes: «O mundo exige tudo», por isso também reparação por falta de Fé.

Esta prova tão dolorosa atingiu muitos crentes, mesmo grandes santos e santas. Conhecidíssimo é o caso de S. Teresinha do Menino Jesus. Em História duma alma (ed. Postulazione Generale dei Carmelitani Scalzi, Roma, 1979, p. 259, n. 279-280) lê-se: « […] mesmo não tendo o gozo da Fé, procuro ao menos fazer as suas obras: creio ter feito mais actos de Fé de um ano a esta parte que em toda a minha vida. Digo-lhe (a Jesus) que sou feliz em não sentir alegria (com o pensamento) do Paraíso estando nesta terra a fim de que Ele se digne abri-lo para toda a eternidade aos pobres incrédulos».

E pouco mais adiante: «Quando canto a felicidade do Paraíso, a posse eterna de Deus, não sinto nenhuma alegria porque canto simplesmente aquilo em que quero crer.»

 

[69] Não há exagero. Veja-se a Apresentação, p. 9.

[70] É bem recordar que em 1984 o Papa João Paulo II escolheu exactamente o dia 25 de Março para renovar a entrega do mundo a Nossa Senhora.

[71] A 13 de Maio de 1917 teve lugar a primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, precisamente na Cova de Iria (localidade onde se levantou o grande Santuário). Muitos portugueses, a 13 de Maio de cada mês, recordam aquele memorável 13 de Maio. Todos os anos, pois, em 13 de Maio se fazem peregrinações a Fátima, com particular solenidade.

Recordamos que a 13 de Outubro de 1917 ocorreu a última daquelas aparições, com o fenómeno do vorticoso movimento solar. Alexandrina desejava morrer num dia 13 e voou ao Céu exactamente num dia 13 de Outubro (1955)!

[72] A repetição está no texto original.

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