NOSSA AVALIAÇÃO DA GREVE

      Após mais de 90 dias de paralisação, encerra-se mais uma greve dos servidores públicos federais, sendo esta a maior já ocorrida na história do país. Iniciada no dia 22 de agosto de 2001 e encerrada em 27 de novembro, reivindicava principalmente o reajuste de 75,48% no salário, defasado pela inflação após sete anos sem aumento, e a contratação de 8000 docentes pelo RJU, entre outros pontos de pauta.
      A paralisação foi marcada pela unidade do movimento entre servidores técnico-administrativos, docentes e estudantes de todo o país, por uma série de vitórias adquiridas e pela intransigência desastrosa do governo nas negociações, nunca denunciada na imprensa oficial, que fez com que o impasse se estendesse por tanto tempo.
      Paulo Renato, ao mandar suspender o salário de setembro dos grevistas em meio às negociações, mostrou sua falta de disposição para o diálogo. Em meados de novembro, quando um acordo com o ANDES só precisava ser assinado, o governo recuou na última hora alegando que os recursos necessários haviam sido remanejados para outras áreas, suspendendo assim o pagamento de outubro.
      O reitor Vilhena, de forma autoritária, irresponsável e criminosa, desrespeitou as decisões do CEG e CONSUNI, colegiados superiores da UFRJ, de adiar as datas das provas do vestibular. Desta forma, ameaçou prejudicar o ingresso dos alunos das instituições federais de ensino médio que estavam há dois meses sem aulas e os exames foram prestados em meio a um clima tenso, com o embate entre polícia e manifestantes que em nenhum momento haviam tentado barrar a entrada dos vestibulandos. Devido ao caos reinante no dia do vestibular, cerca de 10% dos candidatos não conseguiram realizar a prova, um índice desastroso. Muitos do que as realizaram o fizeram em péssimas condições psicológicas, em um concurso já naturalmente tenso.
      A pressão da sociedade, os atos da greve por democracia na UFRJ e a opinião pública reverteram esse quadro, levando a anulação das provas e garantindo novas datas para realização do vestibular. Este movimento levou a suspensão de mais da metade dos vestibulares de todo o país, um fortalecimento da greve e a o apoio da opinião pública.
       Na penúltima semana de paralisação, o governo lançou um pacote anti-greve que simplesmente proíbe este que é um dos mais importantes instrumentos de pressão para garantir os direitos dos trabalhadores perante o governo neoliberal de FHC. O pacote, entre outras medidas, determina medidas judiciais contra quem fizer greve por mais de 30 dias, e a contratação de funcionários substitutos.
      As derrotas quanto ao vestibular e ao pagamento dos salários provocaram um desgaste no governo, inviabilizando as candidaturas de Paulo Renato à presidência da república, e de Vilhena a reeleição da reitoria. Ambos apostaram em uma postura inflexível como demonstração de força, e só perderam com isto.
      Em outubro, os servidores conseguiram um bom acordo, com a incorporação da GAE ao salário e voltaram às atividades. Pensou-se que a partir daí, as reivindicações dos docentes perderiam força, mas o movimento se manteve forte até a vitória final. A ameaça de saída unilateral da UFRJ do movimento, ao fim da greve, foi afastada, mantendo-se a unidade. Os docentes conseguiram um reajuste entre 12 e 14% no salário base e mais a a contratação de 2000 professores pelo RJU a partir do ano que vem.
      Os estudantes também lutaram pela sua própria pauta de reividicações, representados por um comando próprio encabeçado pela UNE. O Governo prometeu reajustar as bolsas do programa PET e liberar valores no orçamento para projetos de assistência estudantil, como a construção de bandejões e moradias universitárias, previstos em R$ 46 milhões.
      A mobilização foi grande em diversos atos, como a passeata unificada dos SPFS que ocorreu dia 12 de setembro no Rio de Janeiro, que colocou 10000 pessoas nas ruas, ou a marcha em Brasília do dia 2 de outubro. Na UFRJ, a primeira assembléia dos estudantes da greve lotou o auditório do CT, contando com um número em torno de 800 estudantes.
      A sociedade precisa sempre procurar analisar as razões que levaram determinada categoria profissional a entrar em greve. Precisa observar a natureza das reivindicações, a maneira que o governo tem cuidado da categoria, sua disposição para negociações e a maneira como o movimento é conduzido. Para se formar uma opinião concreta sobre quaisquer movimentações políticas, contra ou a favor, é preciso se informar constantemente, participar das assembléias, observar as manifestações, ouvir todos os lados e se manter aberto ao diálogo ao invés da intransigência.
       Cabe aos movimentos grevistas, em contrapartida, agirem de forma responsável e coerente. Ter sempre a noção das conseqüências graves que se formam a cada passo tomado, e os transtornos inevitáveis que causam, efeitos colaterais de um remédio amargo, porém muitas vezes necessário quando a categoria é abandonada às traças pelo governo.
      Os acordos dos grevistas com o governo só serão efetivados no início do 2002, e o presidente quase descumpriu o que tinha acertado com os trabalhadores do INSS. Este informativo continuará atento e presente nas lutas da sociedade brasileira, sendo mais uma ponta de uma rede alternativa de comunicação à grande mídia, que se liga aos interesses das classes dominantes. Aqui se encontra um espaço de veiculação de diversas opiniões e que busca coerência e clareza nas análises a serviço das lutas sociais. Agradecemos as colaborações recebidas e esperamos ter colaborado para a difusão de informação e como canal de expressão de opinião sobre os fatos ocorridos durante esta que foi a maior greve dos SPFs de todos os tempos.

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