Relacionamento Pais e Filhos Adolescentes: O Diálogo como Equilíbrio entre o Autoritarismo e a Permissividade

 

Por Dionéia Foschiani Helbel1

 

 

Resumo: A educação dos filhos, principalmente dos adolescentes, constitui-se uma tarefa árdua para a maioria dos pais, que despreparados diante de tantas transformações pelas quais a sociedade passa, não sabem lidar com situações conflitantes e nem com suas próprias emoções.

        Nesse contexto, este estudo visa mostrar que é a insegurança e a culpa que levam os pais a tomarem atitudes autoritárias para fazerem valer o seu poder, ou simplesmente se tornam permissivos, adotando uma postura passiva diante dos filhos.

        Para amenizar toda a problemática que envolve a relação parental, é imprescindível que os pais não abdiquem de seu papel, que é o de autoridade máxima dentro da família e façam isso através de muito diálogo e amor.

É importante que saibam estabelecer limites, mas que as regras sejam discutidas de forma não-repressiva para que os filhos possam aceitá-las como uma forma de orientação.

 

Palavras-chave: insegurança, culpa, autoritarismo, permissividade, autoridade, diálogo.

 

 

Introdução

 

         Relacionamento pais e filhos adolescentes: o diálogo como equilíbrio entre o autoritarismo e a permissividade abordará, através de estudos bibliográficos, a delicada questão relacional familiar.

        Muitos pais não sentem-se seguros quanto ao manejo educacional mais adequado e nem como tomar atitudes austeras na hora certa, sem contudo, serem autoritários, haja vista estarem vivendo num momento de grandes transformações sociais, que afetam o comportamento do jovem de maneira direta.

        Dessa forma, conhecer mais sobre  o período da adolescência e como lidar com os conflitos familiares, é um modo de aprender a ser democrático em suas relações e acreditar no diálogo para orientar os filhos  a serem pessoas emocionalmente independentes.

 

 

Relacionamento Pais e Filhos Adolescentes: O Diálogo como Equilíbrio entre o Autoritarismo e a Permissividade

 

Educar filhos é uma tarefa da qual não se pode tirar férias, pelo contrário, é contínua e exige persistência e dedicação. Cada nova etapa do desenvolvimento da criança é um desafio aos pais, tanto pela cobrança social quanto pelos filhos.

Nas últimas décadas uma série de informações sobre a educação dos filhos até então restrita apenas a profissionais, passou a ser difundida através dos meios de comunicação e tornou-se acessível a pessoa leigas: os pais.

A partir daí, educar os filhos, em especial o adolescente, transformou-se num exercício de extremo esforço dos pais, que ora seguem suas convicções e tomam atitudes relacionadas à educação que receberam, ora tentam se encaixar num novo padrão parental de maneira insegura e confusa. Zagury afirma que “[...] é uma mudança inquietante e surpreendente esta que vem ocorrendo [...]” (1991, p.17), pois com todas as contribuições positivas que esses conhecimentos trouxeram, vieram também os questionamentos de quase tudo que se fazia antes, provocando uma lacuna no ponto de referência para se estipular um manejo educacional.

 Os pais de hoje não querem fazer as mesmas coisas que seus pais fizeram, mas não sabem ao certo como agir. Segundo Dias  “[...] a maneira pela qual nossos pais foram educados diverge dos valores do grupo social no qual vivemos” (1992, p. 45).

 As dificuldades que esta geração de pais enfrenta deve-se também ao estilo moderno e liberal imposto pela sociedade. A tendência de democratização chegou ao relacionamento familiar, mas a questão dos deveres não foi discutida e aplicada como deveria.

A partir desses fatos, o que se percebe é uma inversão de papéis na família, na qual os pais passam por uma prova, conforme, declara Zagury “[...]eles deixaram de ser senhores da relação[...]” (1991, p. 21), exatamente o oposto da situação de quando eles foram adolescentes.

Um outro fator que tem desnorteado os pais quanto ao relacionamento com o filho, principalmente o adolescente, é o tempo que passam fora de casa, no trabalho ou outras atividades.

 Em muitos lares os filhos ficam o dia todo à mercê de influências perniciosas advindas da internet, vídeo-game e até da televisão. Para compensar a distância e o tempo perdidos, muitos pais tornam-se permissivos, transformando seus jovens em consumidores compulsivos e autoritários.

Existem casos em que os pais, para não competirem com a TV, tiram uma peça do aparelho ao saírem para o trabalho, alegando que seus filhos não fazem a tarefa porque se distraem, mas na verdade estão negando o seu fracasso como autoridade, pois como declara Zagury “[...] a presença física dos pais nunca foi necessária para que a autoridade deles exista de fato” (1997, p.38.

Entretanto, para que as regras sejam obedecidas, os pais devem ser firmes. Se ficam fora em tempo integral, podem verificar se os filhos fizeram as atividades que lhes foram incumbidas à noite, quando chegam do trabalho. Ainda citando Zagury “[...] é preciso [...] que haja disponibilidade por parte dos pais desde os primeiros anos [...]” (1997, p.41.

Existe também o questionamento quanto à autonomia dos filhos. Na ânsia de protegê-los da violência, dos erros e das frustrações, os pais os colocam, numa redoma de vidro e se posicionam como super seres, capazes de mantê-los longe do mal.

 Para Waddell “[...] os pais precisam, eles próprios de confiança para deixar seus filhos expor-se aos riscos, cometer erros, sofrer as conseqüências, mas dentro de uma fronteira de limites conhecidos e negociados” (1995, p. 73), haja vista que é a adolescência a fase em que o indivíduo tem a chance de projetar-se socialmente através do auto-conhecimento, que só pode ser conquistado se os pais tiverem maturidade emocional suficiente para se desprenderem dos filhos permitindo que eles vivam suas próprias experiências e aprendam a crescer como seres humanos.

Entretanto, na maioria dos lares brasileiros, onde predomina a cultura protecionista, o que se observa é o autoritarismo nas relações entre pais e filhos. Para não perderem o poder, os pais impõem-se através do seu papel de mantenedor.              Em contrapartida, o adolescente sente-se desafiado a provar que já pode conduzir sua vida independentemente de sua família. Aí surgem os conflitos.

Vale ressaltar que, a adolescência é realmente um período muito conturbado, principalmente se na infância o indivíduo não recebeu afeto, compreensão e limite.

Essa etapa da vida, caracteriza-se por ser uma fase de transição entre a infância e a juventude. É uma etapa extremamente importante do desenvolvimento humano, com características muito próprias e indefinidas.

Além das transformações físicas e, conseqüentemente sexuais, existe um conflito social permanente, como declara Souza “[...] se o adolescente quer trabalhar, não encontra emprego com facilidade; se quer estudar, depara-se com programas defasados” (1999, p.9), sendo assim, muitas vezes, sem a devida orientação, têm comportamentos fora do padrão tido como normal pela sociedade.

Também são relevantes os avanços intelectuais, que permitem ao adolescente um aperfeiçoamento da capacidade de pensar de forma abstrata, fazer diferenciações mais precisas e desenvolver o raciocínio hipotético-dedutivo e simbólico.

Diante de tantas transformações, o adolescente não consegue agir como se fosse uma criança. Ao chegar a essa fase, as modificações sociais são muito apelativas. O grupo de amigos passa a ter papel fundamental e, para desespero de alguns pais, a tendência à imitação se acentua novamente, mas agora o modelo não são eles,e sim o grupo.

Como forma de amenizar os problemas dos pais na relação com o adolescente, o diálogo, a conversa aberta e a negociação dos limites aparecem como o equilíbrio entre a indiferença, a permissividade e o autoritarismo, pois ser aberto a um bom diálogo, ser flexível de vez em quando, não tira a autoridade paterna, pelo contrário, dá crédito à relação.

Para Osório “[...] o exercício das funções familiares não é uma via de mão única e sim um constante processo de trocas, mutualidades e interações afetivas” (1996, p.98) uma vez que é nesse caráter interativo que reside a psicodinâmica que configura o perfil da família.

        Dessa forma, tratar os filhos com autoridade não implica em suprimir o diálogo da relação, pelo contrário, é perfeitamente possível uma pessoa ser democrática e ter autoridade ao mesmo tempo.

        Zagury diz que “[...] autoridade relaciona-se com o fenômeno do poder. É inegável que, na família, o pai e a mãe ocupam uma função que por si só lhes dá poder” (1997, p.67), por isso, quanto mais os pais dialogarem e imporem limites, melhor.

        Administrar conflitos é  uma arte e um exercício de paciência. Não há resultados rápidos. O antigo ditado popular “ensinar é repetir” assume,na relação com os filhos, uma dimensão infinita.

        É difícil e até penoso repetir,dia após dia, quase as mesmas coisas, lembrar, relembrar. Muitas vezes o adolescente tende a testar o auto-controle dos pais. E tudo isso fica mais sério com o medo que os pais têm de errarem na educação de seus filhos, tornando-os inseguros e confusos quanto ao seu papel.

        A tarefa de educar realmente é complexa, principalmente quando os pais sentem-se culpados por não conseguirem desenvolver o diálogo. Insegurança e culpa: dois aliados perfeitos e eficazes para complicar de forma total a vida de pais e filhos.

        Impasses e conflitos não podem ser eliminados dos relacionamentos, mas como afirma Maldonado “[...] a maneira de se lidar com as situações conflitantes é que determinam a qualidade da relação” (2000, p59), por isso, para que a convivência seja harmoniosa, para que os problemas possam ser resolvidos sem grandes transtornos, é preciso que pais e filhos cresçam juntos, pois a cada etapa do desenvolvimento é necessário fazer ajustes na maneira de lidar com as situações que surgem.

        Entre pais e filhos não pode haver abismo maior que o silêncio, a omissão e a indiferença. O que afasta o filho não é o limite, a autoridade paterna, mas sim o descaso e o autoritarismo, pois segundo Gavaldon “[...] quando o ‘não’ é colocado de maneira não-repressiva, mas como fator de orientação, constitui-se um ato de amor” (1998, p. 96).

  

 

CONCLUSÃO

 

        Ser responsável pela educação de alguém é, sem dúvida, uma das tarefas mais difíceis que o ser humano pode realizar, uma vez que para isso, vai estar o tempo todo lidando com emoções.

        Se é complicado para o indivíduo entender a si mesmo, o grau de complexidade aumenta muito quando se trata dos sentimentos de uma outra pessoa e que está passando por uma nova etapa de sua vida, na qual busca sua verdadeira identidade.

        Não são raros os casos de pais que cometem os erros mais absurdos com a melhor das intenções. Tratam os filhos adolescentes como crianças totalmente dependentes e não aceitam que eles já tem suas idéias próprias sobre a vida que os envolve.

        Assim, o diálogo é o que servirá de ponto de equilíbrio nas relações. É através da comunicação aberta, franca e a nível visceral que as regras devem ser estabelecidas e cobradas.

        Dialogar não consiste simplesmente em conversar sobre coisas agradáveis, pedir desculpas ou explicar um atraso. Vai além do bate-papo na hora do almoço ou durante o trajeto para a escola.

Manter um diálogo saudável com os filhos significa dar uma bronca com firmeza, sem ser irredutível, mas mantendo a palavra, caso seja testado. É elogiar, é ter percepção  para descobrir quando os filhos estão pedindo ajuda com apenas um olhar. É entender que os pais não são perfeitos e que de vez em quando também podem errar, mas acima de tudo, é reconhecer que o maior abismo que pode existir na relação parental é o silêncio.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1. DIAS, Maria Luiza. Vivendo em Família: relações de afeto e conflito. São Paulo: Moderna: 1994.   

2. MALDONADO, Maria Teresa. Comunicação entre Pais e Filhos: e linguagem dosentir. 25 ed. São Paulo: Saraiva, 2000.

3. OSÓRIO, Luis Carlos. Família Hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. 

4. SOUZA, Ronald Pagnoncelli de. O Adolescente do Terceiro Milênio. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999.

5. TIBA, Içami. Disciplina: limite na medida certa. 14 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

6. ZAGURY, Tania. Educar sem Culpa. 14 ed. Rio de Janeiro: Record, 1999.

7. ________. O Adolescente por Ele Mesmo.  9 ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.

8. ________. Sem Padecer no Paraíso. Rio de Janeiro: Record, 1997.

 

1Dionéia Foschiani Helbel é Professora de Língua Portuguesa, Literatura e Técnicas de Redação no Colégio Adventista de Ji-Paraná/RO. Formada em Pedagogia pela ULBRA de Ji-Paraná/RO e Pós-Graduada em Psipedagogia pelo Instituto Cuiabano de Educação.

 

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