O JOVEM E A CORRUPÇÃO

 

 

 

 

73% dos estudantes estão indignados com a onda de escândalos que envolve políticos e 95% defendem penas mais severas do que a simples perda do mandato.

 

 

Eles podem estar silenciosos, em nada lembrando os caras-pintadas que há treze anos saíram ruidosamente às ruas no final do governo Fernando Collor de Mello. Mas engana-se quem pensa que eles estão desatentos ou indiferentes à onda de denúncias de corrupção que varre o país. Ao contrário, os estudantes da safra 2005 revelam inesperada maturidade e uma postura exemplarmente rigorosa na punição aos eventuais culpados, numa saudável manifestação de apreço à ética.

Se fossem escolhidos para julgar os corruptos, 40% optariam por enviá-los à prisão, 38% os obrigariam a devolver o dinheiro público desviado e 17% os condenariam à perda dos direitos políticos. E a perda do mandato não seria uma pena adequada? Somente para menos de 6% dos entrevistados. Aqui, a maioria concorda com os políticos pilhados em flagrante e que preferem renunciar a enfrentar o risco de condenação mais severa. Afinal, a história recente mostra que o ostracismo provavelmente durará poucos meses, só até a eleição seguinte - basta conferir os políticos que foram reconduzidos ao poder pelo voto após renúncias motivadas pelo envolvimento em escândalos, no conhecido efeito memória curto dos eleitores.

Olhar atento na TV. Esse perfil jovem brota das respostas dos 573 estudantes que responderam à pesquisa que o CIEE realizou em seu portal na internet, no período de 18 a 25 de julho, em pleno andamento do escândalo deflagrado pelas denúncias do deputado Roberto Jefferson, envolvendo vários políticos, vários partidos e várias empresas. Divididos igualmente entre homens e mulheres (51% e 49%), apenas 2% se confessam desinformados. A esmagadora maioria de 98% está bem informada (50%) e mais ou menos informada (48%), acompanhando a evolução dos acontecimento principalmente pela televisão (64%).

O CIEE decidiu detectar a reação dos estudantes à atual onda de escândalos pois, entre as muitas análises e discussões sobre suas conseqüências, poucos se preocupam com os efeitos negativos que poderá ter entre os jovens, que vivem a fase delicada de consolidação de princípios e valores de vida. A amostra de opinião levantada entre os estudantes cadastrados no banco de dados do CIEE aponta para um sintoma que justifica essa apreensão: 21% se declaram desanimados diante do que presenciam. Só que desânimo não é exatamente a reação esperada dos jovens, geralmente identificados com atitudes contestadoras e apaixonadas. Mesmo que eles façam parte de uma geração marcada pelo individualismo e com pouco gosto pela política, tanto que apenas 3% participam do grêmio escolar e outros 3% são filiados a partidos políticos, enquanto 67% não participam de qualquer organização e 16% integram grupos de jovens nas igrejas.

Na raiz do problema. A expressiva maioria dos entrevistados, num total de 73%, está indignada com as denúncias de corrupção e apenas 6% se dizem indiferentes. Numa outra prova de maturidade, rara no conjunto da opinião pública, apenas 12% dos jovens acham que a corrupção é própria da natureza dos políticos - um voto e tanto de confiança no cenário atual. Outras causas, cujo somatório é endossado por especialistas e pelo bom-senso, são identificadas por 88% como a raiz dessa pandemia que contamina, em maior ou menor grau, políticos de todo o mundo: leis insuficientes (28%), falta de fiscalização da sociedade (26%), falta de transparência do governo (20%) e má qualidade da educação (14%).

Descrentes da eficácia das investigações e processos em andamento (64%) ou da orientação ideológica dos partidos (76%) para coibir a corrupção, os entrevistados revelam boa dose de pragmatismo ao apontar soluções. E mais, não se furtam a assumir a sua responsabilidade pela predominância da ética na política, tanto que apenas 6% acham que somente as autoridades competentes são responsáveis por apurar as denúncias e punir os culpados. Aliás, o mesmo pequeno número acredita que a saída esteja na filiação a um partido político, que seria uma forma de combater o mal pelo lado de dentro. Um grupo de 21% tem fé na força dos protestos e manifestações públicas dos estudantes, quase o mesmo percentual (19%) que opta pela participação em organizações não governamentais que orientem a sociedade sobre política. A maioria (48%), entretanto, aposta na maior arma que o cidadão possui para participar da administração pública nas democracias: a escolha cuidadosa do candidato e o voto consciente em seus representantes.

 

   

Qual seu nível de informação sobre as denúncias de corrupção no governo?

Bem informado

      50%

Informado

    48%

Desinformado

      2%

Qual sua reação diante da onda de denúncias de corrupção?

Indignado

  73%

Desanimado

  21%

Indiferente

  6%

 

Por que ocorrem casos de corrupção no governo?

As leis são insuficientes para punir

  28%

A sociedade não fiscaliza os políticos eleitos

  26%

Falta transparência no governo

  20%

Falta qualidade na educação brasileira

  14%

É da própria natureza de nossos políticos

  12%

Não sei

  0,87%

 

As CPI's e outras investigações oficiais são suficientes para conter a corrupção no governo?   Qual a punição justa para quem, comprovadamente, tenha se envolvido em casos de corrupção?
 

 

   

Escolher com cuidado seus candidatos nas próximas eleições

48%

Participar/Organizar manifestações públicas de protesto

21%

Participar de Ong's que orientem a sociedade sobre a política

19%

Ter maior participação, filiando-se a partidos políticos

6%

Somente as autoridades são responsáveis por apurar e punir os envolvidos

6%

Nota: Algumas das somas poderão ultrapassar os 100%, em função de arredondamentos dos percentuais.

 

 

 

 
         
 

IDADE

 

GRAUS DE INSTRUÇÃO

 
     
         
         
 

REDE DE ENSINO

 

ESTAGIA OU TRABALHA?

 
     
         
         

RENDA FAMILIAR (Salário mínimo)

   
         
 

PARTICIPA DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL OU POLÍTICA?

 

 

Fonte: Agitação, Jul/Ago 2005.  p. 14-16.


 

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