Um tapinha n�o d�i... Cheguei a uma conclus�o neste carnaval: sou mesmo um homem do s�culo passado. Depois de ouvir pela mil�sima vez refr�es como "Um tapinha n�o d�i", "Vou te jogar na cama e te dar muita press�o" e "Entra e sai, na porta da frente e na porta de tr�s", acompanhados de coreografias pra l� de sugestivas, a sensa��o que tenho � de que chegamos ao limite da baixaria. Simplesmente, n�o temos mais pra onde ir. Sei que o fen�meno do funk � interessante do ponto de vista antropol�gico, que ele reflete um entrela�amento positivo entre o morro e o asfalto, uma dilui��o promissora das fronteiras entre as classes socias, etc. Mas gostaria que algu�m intelectualmente "preparado" me dissesse o que passa pela cabe�a de uma adolescente de fam�lia, que rebola e responde "Au, au!" quando ouve refr�o "Cachorra!" A virada do mil�nio jogou muita coisa na lata de lixo da Hist�ria e acho que neste processo foi junto a nossa capacidade de indigna��o. Tiveram o mesmo destino, para o bem ou para o mal, diversas conquistas das feministas, que depois de lutarem durante d�cadas contra a opress�o do macho, devem estar vendo, consternadas, suas filhas embarcarem no bonde do Tigr�o. � intrigante, ali�s, a inexist�ncia absoluta de rea��o, por parte das mulheres pensantes do pa�s, ao processo em curso de vulgariza��o radical da imagem feminina, que j� ultrapassou todos os limites da imagina��o. Mas o mais intrigante mesmo � a quest�o moral, ou melhor, a aus�ncia da moral como quest�o. N�o se trata mais de uma invers�o de valores, mas da elimina��o total de qualquer valor relacionado � conduta sexual: todo comportamento � legitimado, e o que no passado era motivo de esc�ndalo hoje pode ser assimilado, maquiado e at� incentivado pela m�dia, em hor�rio nobre. Um exemplo desse fen�meno � o novo status de uma varia��o da profiss�o mais antiga do mundo: a garota de programa. Hoje, a julgar pela m�dia, esta � uma atividade natural que n�o contraria as normas da vida em sociedade nem estigmatiza quem a pratica. Sem alicerces morais, sem no��o de certo e errado e com exemplos como este, o que impedir� uma menina bonita de usar seu corpo para ascender socialmente, num mundo que a estimula permanentemente a se transformar num bem de consumo para que ela pr�pria possa consumir outros bens? Ou, para n�o irmos t�o longe, o que a convencer� de que o sexo deve ser vinculado ao amor, e n�o transformado num instrumento de explora��o m�tua, num mundo regido pelas apar�ncias e pelo dinheiro, onde um carro importado vale mais que a honestidade e o car�ter? N�o se trata de defender uma sociedade repressiva, mas o fato � que essa total ausencia de freios explica a prolifera��o de orgulhosas "cachorras" e "preparadas" em todas as frestas do tecido social. � claro que elas sempre existiram, mas antes pelo menos havia um pudor em rela��o as apar�ncias que as confinava simbolicamente a uma margem, a uma periferia simb�lica da vida cotidiana. Numa palavra: havia vergonha. Este pudor e esta vergonha desparecem, e hoje a cidade mais parece um faroeste, e sua vida noturna o cen�rio de uma ca�a desesperada ao prazer e � grana. E isto durante o ano inteiro: o Carnaval s� torna mais evidente essa din�mica. Um tapinha pode n�o doer, mas o que ele representa � doloroso, pelo menos para algu�m do s�culo passado. Luciano Trigo .. e outra, o mais impressionante s�o os Djs e Empres�rios que ap�iam tudo isso sabendo (ou n�o?) que est�o "proliferando" a ess�ncia do mal"... � como se estivessem vendendo a alma para o diabo.. um dj, produtor, etc.. que tem talento e possibilidade de mostrar para todo um pa�s uma alegria em forma de arte... est� equivocado... Pra mim, funciona da seguinte maneira. Imagine um dono de uma f�brica. Ele cria um produto e consegue vender milh�es. Pois �.. s� que para esse produto ser feito, as chamin�s de sua f�brica soltam um g�s invis�vel que provoca o c�ncer por toda a regi�o... ser� que ele n�o sabe disso?!? Prefiro acreditar que n�o... porque est� fazendo mal � ele tamb�m... Eduardo Mendes (M�sico e Compositor) *Mat�ria publicada no jornal O GLOBO no dia 06/03/2001 - Contribui��o de Iza Rainbow e Laura Leite |
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