O que combate o estresse

Infelizmente, a maioria das pessoas s� procura ajuda quando a sa�de j� est� comprometida. No entanto, o tratamento do estresse vai al�m de consultas ao especialista na doen�a que ele produziu. Muitas vezes, � preciso fazer psicoterapia para aprender a lidar com os agentes estressores. "T�cnicas de relaxamento, alimenta��o balanceada e atividade f�sica s�o os outros tr�s pilares do tratamento", diz Marilda Lipp, do Centro Psicol�gico de Controle do Stress, em Campinas. Os exerc�cios estimulam a produ��o de endorfina, subst�ncia respons�vel pela sensa��o de bem-estar. Mexer o corpo tamb�m ajuda a liberar a energia acumulada por causa da presen�a da adrenalina. A dieta equilibrada por sua vez rep�e as energias consumidas pelo estresse. �s vezes � preciso fazer suplementa��o com c�psulas porque durante a fase cr�nica ocorre perda de nutrientes (por isso, o cabelo cai e as unhas ficam fracas). A sugest�o � evitar �lcool e bebidas com cafe�na, que s�o estimulantes, e refor�ar o consumo de ferro (ovos, f�gado e verduras), c�lcio (leite e derivados), magn�sio (peixes, carnes e frutos do mar) e vitamina C (frutas c�tricas) e do complexo B (amendoim, espinafre e f�gado de boi), nutrientes que s�o consumidos mais rapidamente durante o estresse.

Junte-se ao inimigo


Entender que a percep��o dos fatos influi sobre a maneira como reagimos a eles � a chave para lidar com o estresse. Al�m do efeito dos fatores externos, ele pode ser criado por emo��es e pensamentos negativos � e esses voc� pode controlar. Est� comprovado que pessoas muito ansiosas, exigentes consigo mesmas e com os outros s�o as maiores v�timas. "Quem se disp�e a n�o se irritar com coisas que n�o pode mudar neutraliza v�rios estressores", ensina o psiconeuroimunologista Esdras Vasconcellos, do Instituto Paulista de Stress. Quem fica atento para manter a situa��o sob controle tamb�m sai ganhando. Ent�o: respeite seus limites. N�o tente resolver tudo ao mesmo tempo. Realize as tarefas por ordem de prioridade e n�o leve t�o a s�rio aquela m�xima de n�o deixar para amanh� o que pode fazer hoje. Aproveite a presen�a da adrenalina, j� que ela inicialmente aumenta a performance f�sica e mental. Por exemplo: se no dia seguinte voc� tem uma reuni�o com o chefe, a ansiedade provavelmente vai deix�-la com dificuldade de pegar no sono. Ent�o, tire vantagem desse pique para se preparar e depois v� dormir. Em outras palavras: use o estresse a seu favor.

Conte com estes aliados

Estas t�cnicas podem evitar que o estresse comprometa sua sa�de. Acupuntura � A coloca��o de agulhas em alguns pontos do corpo estimula o sistema nervoso e favorece a libera��o de subst�ncias como endorfina e serotonina, que relaxam e trazem bem-estar. "Cerca de 40% dos pacientes que v�m me procurar relatam sintomas ligados ao estresse", diz o cl�nico geral Hong Jin Pai, do Centro de Dor do Hospital das Cl�nicas, em S�o Paulo. Segundo ele, em m�dia, depois de tr�s semanas de tratamento (com duas sess�es semanais) a pessoa se sente bem melhor. Massagem � Um tipo espec�fico, o tchikong, utilizado pela medicina chinesa, funciona de maneira semelhante � acupuntura, s� que os est�mulos s�o mais suaves. Mas tome muito cuidado com o profissional escolhido. "Sair da sess�o deprimida ou com dores no corpo pode ser um ind�cio de que n�o foram trabalhados os pontos certos", avisa o massoterapeuta Jos� Luiz Ferreira, de S�o Paulo. Existem outros tipos de massagem que tamb�m ajudam a relaxar e a combater o estresse, como o shiatsu, o do-in ou a tui-n�. Medita��o � Estudos com monges budistas mostraram que durante a medita��o ocorre uma altera��o nas ondas cerebrais que reduz o metabolismo e produz um relaxamento profundo. "Al�m disso, meditar aumenta a concentra��o e a capacidade de enxergar os problemas do tamanho que eles s�o. O mundo nos oferece est�mulos o tempo todo e a medita��o nos ajuda a tomar decis�es mais acertadas e com menos estresse", explica o cl�nico geral Norvan Leite, do Instituto Brasileiro de Pesquisa Hol�stica em Medicina, em S�o Paulo. Segundo ele, o ideal � meditar pelo menos 5 minutos por dia e aumentar o tempo at� conseguir fazer duas sess�es di�rias de 20 minutos. Sente-se em uma posi��o confort�vel, em um ambiente silencioso, feche os olhos e respire profundamente, mantendo a mente vazia de pensamentos.


Nem sempre faz t�o mal

Se em vez de se separar do marido, voc� ganhar uma promo��o no trabalho, a resposta do seu organismo ser� diferente. Quando o estresse � gerado por emo��es positivas, ele n�o � t�o prejudicial � sa�de, mesmo que a resposta inicial seja igual � provocada por fatos negativos. Tudo se passa muito r�pido: 10 milion�simos de segundo ap�s a identifica��o do estressor a adrenalina j� est� no sangue. A consci�ncia do fato s� vem 24 milion�simos de segundo depois dessa percep��o. Ou seja, o alerta vem antes de a pessoa compreender o que est� ocorrendo. A hist�ria � assim: voc� v� um homem suspeito vindo em sua dire��o e fica atenta, preparada para um assalto. Assim que ele chega mais perto, percebe que, na verdade, � o seguran�a da rua fazendo a ronda. "Imediatamente, o c�rtex cerebral, a parte do c�rebro respons�vel pelo racioc�nio, manda suspender a produ��o de adrenalina e restabelecer o equil�brio", explica o psiconeuroimunologista Esdras Vasconcellos, do Instituto Paulista de Stress


A mulher sofre mais

Como o estresse sempre foi associado �s press�es da vida profissional, os especialistas acreditavam que os efeitos do desgaste f�sico e emocional eram compartilhados em p� de igualdade por homens e mulheres. Um estudo brasileiro mostra, pela primeira vez, que a realidade � outra. Quando as tens�es do dia-a-dia se acumulam e o organismo d� o seu sinal vermelho, s�o as representantes do sexo feminino que mais sofrem. Pesquisa realizada em conjunto pelo Centro Psicol�gico de Controle do Stress e pela Pontif�cia Universidade Cat�lica, PUC, de Campinas, apurou que, da idade escolar � aposentadoria, elas baqueiam mais do que eles. Em algumas faixas et�rias, a diferen�a entre os dois sexos � espantosa. Dos 23 aos 45 anos, idade em que a vida profissional est� a todo vapor, o estresse afeta quase o dobro de executivas em compara��o aos homens com responsabilidade similar. A partir dos 15 anos, as mulheres tamb�m apresentam n�veis significativamente mais elevados de estresse: do total de estressados, 65% s�o mulheres que j� enfrentaram um ataque de nervos, contra 35% de homens. Os n�meros do estudo, coordenado pela psic�loga Marilda Lipp, professora de p�s-gradua��o da PUC-Campinas, impressionam. At� ent�o, nenhum outro havia apontado tanta desigualdade entre os dois sexos. A literatura m�dica diz que nos Estados Unidos 25% da popula��o tem sinais de estresse, mas a distribui��o entre homens e mulheres � igual. A suspeita de que as mulheres brasileiras eram mais vulner�veis �s situa��es tensas surgiu numa pesquisa feita com 1.800 pessoas em 1996, em S�o Paulo. Trinta e dois por cento dos entrevistados tinham sintomas de estresse. Desse contingente, 60% eram mulheres. Naquela ocasi�o, o dado chamou a aten��o da equipe de psic�logos, que arriscou uma explica��o. Na faixa et�ria dos entrevistados � de 40 a 50 anos �, o estresse feminino poderia ser decorrente das mudan�as hormonais ocasionadas pela menopausa. "Mesmo assim, seria de esperar que os homens continuassem mais abalados, j� que eles s�o considerados a cabe�a do casal e da fam�lia", diz Marilda Lipp. Para tirar a d�vida, mais entrevistas no decorrer de tr�s anos. Dessa vez, abrangendo homens e mulheres de faixas et�rias diversas. Resultado: dos 7 aos 55 anos, s�o elas, de fato, as maiores v�timas do estresse.


Efeitos no cora��o

Os resultados perversos dos altos n�veis de estresse em mulheres j� haviam sido percebidos nos consult�rios de cardiologia. At� a d�cada de 60, doen�a cardiovascular era coisa de homem. Nos �ltimos anos, a entrada maci�a da mulher no mercado de trabalho acabou criando um padr�o de vida quase masculino entre elas. Passaram a fumar demais, deixar de lado as atividades f�sicas e, por for�a da agenda, a trocar uma alimenta��o balanceada pelos fast foods. "Aconteceu a feminiza��o do infarto", diz o cardiologista Antonio de P�dua Mansur, coordenador do N�cleo de Estudos e Pesquisas do Cora��o da Mulher do Instituto do Cora��o, de S�o Paulo. "E o que � pior: atualmente j� se sabe que, at� os 50 anos, quando ele ocorre, mata duas vezes mais mulheres do que homens." Quando o assunto � cora��o, os m�dicos fazem um alerta severo �s mulheres. Acreditava-se que elas estariam naturalmente protegidas contra as doen�as card�acas at� a menopausa. Ou seja, em rela��o aos homens, elas teriam um intervalo de prote��o de sete a dez anos. Isso por causa da a��o do horm�nio estr�geno, que ajuda na produ��o de subst�ncias vasodilatadoras e, conseq�entemente, evita o ac�mulo de placas de gordura nos vasos. "Hoje j� se sabe que, a partir dos 35 anos, a prote��o hormonal come�a a cair e os riscos para os homens e mulheres se assemelham", explica Ant�nio de P�dua Mansur. "Por causa desse novo estilo de vida, a prote��o caiu para dois anos." � nessa fase pr�-menopausa que mora o perigo. As mulheres modernas vivem num c�rculo vicioso, em que todos os fatores de risco interagem. Nesse cen�rio, o estresse aparece como detonador do gatilho para o aparecimento de doen�as, minando a resist�ncia do organismo aos poucos. Foi assim com a advogada Renata von Glehn, 40 anos, de S�o Paulo. H� oito anos, ela fugiu do caos da capital e foi morar em Santa B�rbara d'Oeste, no interior do Estado de S�o Paulo. Acreditava que numa cidade menor conseguiria lidar melhor com as tens�es di�rias. N�o aconteceu. "Ganhei em qualidade de vida, mas continuei com 1 milh�o de atividades para dar conta", explica. Renata sentia-se dividida entre a organiza��o da casa e os problemas do trabalho. Profissional dedicada, ficava incomodada com as dificuldades dos clientes. "Sou movida a adrenalina e me entrego demais a cada caso", justifica. "O resultado � que at� esses contatos interpessoais se transformam em momentos extremamente estressantes para mim." Casada com um m�dico, come�ou a dar sinais de exaust�o h� tr�s anos. Quando se viu �s voltas com uma dor cr�nica nos quadris, noites maldormidas e agressividade � flor da pele, resolveu procurar ajuda. Na terapia especializada, descobriu como organizar a agenda, aprendeu a dar a aten��o merecida aos clientes e rendeu-se �s t�cnicas de relaxamento. "Continuo com casa, marido e trabalho para cuidar, mas fa�o as coisas com mais tranq�ilidade."


Crise nervosa

O estresse nada mais � do que uma rea��o natural do organismo a situa��es desconhecidas. � uma bomba que, quando explode, deixa o corpo todo em alerta. Algumas vezes, ocorrem surtos passageiros, como os necess�rios para que um profissional consiga entregar um trabalho no prazo. Em outras, acontece um descompasso entre a adapta��o f�sica e psicol�gica e a import�ncia real da situa��o. � a� que os surtos se transformam em colapsos emocionais e o estresse mostra sua face mais cruel. "A maioria da popula��o estressada encontra-se nessa fase, a da resist�ncia", diz Marilda Lipp, do Centro Psicol�gico de Controle do Stress, em Campinas. Nesse est�gio, continua-se produzindo, mas � comum sentir apatia e irrita��o, n�o conseguir se concentrar e ter lapsos de mem�ria. O caso da executiva de marketing Luciana Zanetti, 24 anos, � cl�ssico e engrossa dados da pesquisa que mostra que 41% das executivas t�m o problema, contra 21% dos executivos. Luciana n�o ag�entou as press�es do trabalho e est� em tratamento psicol�gico h� quatro meses. Reclama que tem muita coisa para fazer, em pouqu�ssimo tempo, e sem possibilidade de negociar prazos. Al�m de responder a um superior, ela � respons�vel por outras sete pessoas. Em casa, mais cobran�a dos pais, que controlam seus hor�rios."Pensava em trabalho at� na academia de gin�stica e acordava ansiosa por causa do que teria de fazer ao longo do dia,", diz. O estresse foi t�o grande que Luciana teve problemas de est�mago, enxaqueca, cistos no ov�rio e uma inevit�vel queda de produtividade. "N�o posso mudar os outros, mas posso ter outra postura diante das cobran�as", reconhece. A hip�tese para explicar a maior incid�ncia de estresse em mulheres n�o tem nada de misterioso. Entre as crian�as, acreditam os psic�logos, isso decorre do tratamento diferente dado pelos pais. Enquanto os meninos brincam mais soltos, as meninas t�m de se preocupar com o modo de falar, de sentar e de agir. Mais tarde precisam conciliar a jornada de trabalho com os afazeres dom�sticos. Para entender n�meros t�o surpreendentes, os psic�logos falam at� numa terceira jornada, que aconteceria depois que filhos e marido foram dormir. � nessa hora que a mulher coloca em ordem o material de trabalho que ficou pendente no decorrer do dia. Da�, dorme menos, produz menos e leva ainda mais trabalho para casa na noite seguinte. "Engana-se quem acha que as press�es diminuem para a mulher que trabalha fora porque ela fica mais tempo longe de casa", observa Marilda Lipp. "O homem quer ser paparicado, as crian�as precisam de aten��o, a casa deve funcionar e o rendimento precisa ser no m�nimo igual ao dos colegas para lhe garantir reconhecimento profissional." Essa cobran�a por resultados afeta as mulheres muito antes de elas, de fato, come�arem a trabalhar. Aos 17 anos, a estudante Beatriz Ferreira pifou. �s v�speras do vestibular, tentou conciliar a escola com o cursinho. N�o ag�entou passar tantas horas em cima dos livros. No in�cio do ano, era vista chorando pelos cantos, sem �nimo e questionando o tempo inteiro sua capacidade. "Estava muito confusa e com medo de falhar", conta. Beatriz freq�enta sess�es de psicoterapia uma vez por semana e j� se sente mais segura. Mas a id�ia fixa na carreira, vire-e-mexe, faz com que os sintomas do estresse apare�am novamente. "Aprendi a controlar a ansiedade, mas n�o abro m�o da minha futura profiss�o", afirma. "N�o quero dinheiro. Quero realiza��o." � a receita do estresse.

Pequenas estressadas


O alto grau de casos de estresse entre crian�as n�o � surpresa � mas ningu�m esperava que, na idade infantil, o fen�meno j� fosse mais intenso entre as meninas. Na avalia��o de alunos matriculados na 1� e 4� s�ries de escolas do interior paulista, as pequenas revelaram n�veis de estresse espantosamente altos. Entre os baixinhos estressados na 1� s�rie, 76% eram meninas. Na 4� s�rie, o �ndice subiu para 84%. Estresse infantil � semelhante ao dos adultos em muitos aspectos. O que muda s�o as causas. Para a psic�loga Marilda Lipp, do Centro Psicol�gico de Controle do Stress, em Campinas, essa avalanche de meninas com sintomas do problema � fruto da educa��o diferente por sexo. Enquanto os meninos em idade escolar s�o estimulados a ir para a rua, fazer amigos e iniciar paquerinhas, as meninas ouvem dos pais, o tempo inteiro, que devem sentar direito, falar baixo e ter cuidado com as amizades. "Por outro lado, a erotiza��o na inf�ncia � uma realidade", diz Marilda. "Cada vez mais cedo, as meninas despertam para a sensualidade, competem com as coleguinhas e preocupam-se com a est�tica."
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