ANO III  Nº 27 JUNHO 2000
Director : Armando Moreira Fernandes

 


 

 

O GRITO

Antero da Silva Santos

Durante quase  uma dúzia de anos, pode dizer-se sempre a remar contra a(s) maré(s) tivemos o Festafidelis. Com efeito, completaram-se em 3 de Junho passado mais cinco semanas de teatro amador, o teatro que é feito por quem o ama, e que este ano, como os outros, primou pela variedade e pela diversidade. Deve lembrar-se que o Festafidelis é uma organização da Rádio Clube de Penafiel, que conta, tem contado, com algum suporte financeiro da Câmara Municipal, que, por esse facto, tem direito a figurar nos cartazes ou nos prospectos de propaganda com o rótulo de patrocinador.

Este compacto da arte de Talma, de periodização penta-semanal consecutiva por ano, tem  vindo a enganar a fome de teatro de muitos penafidelenses que  continuarão, porém, a tê-la (a fome) pois não se vislumbra a breve prazo que o problema das condições dignas para a prática de um teatro digno sejam alteradas, pese muito embora as que são oferecidas pelo CCC ( Clube de Convívio e Cultura de Penafiel ). Repito, não obstante as condições oferecidas pelo CCC, que são as que tem e quem oferece o que tem a outra coisa não é obrigado, pelo contrário, será sempre de salientar o significado desta voluntária oferta, não  obstante as precárias condições do palco do CCC para a prática teatral, dizia, deve-se entender que elas são mínimas, pelo que deveriam envergonhar as instâncias superiores da cidade de Penafiel, que até agora nada fizeram para alterar essas condições. E não é que falte espaço digno para que o teatro, em Penafiel, possa ser interpretado e oferecido aos penafidelenses com suma dignidade. Direi mesmo que existe esse espaço privilegiado, e nenhum outro existe nas restantes cidades do Vale do Sousa que se lhe iguale ou se aproxime sequer, mas a realidade é que todas as outras cidades do Vale do Sousa têm espaços dignos de representação teatral e Penafiel, que tem um excelente espaço para  essa prática representativa, isto é, que tem uma excelente sala de teatro, que vem já do século XIX, não tem, neste momento, um espaço digno para a representação teatral, e não o tem tido e não o teve ainda este ano para a realização do Festafidelis. Refiro-me ao belo teatrinho, que hoje chamaríamos de bolso, da Rua Direita, frente à Igreja Matriz, que todos os penafidelenses conhecem por Recreatório, nome que até pode prevalecer como local ideal de recreio, porque o teatro é também recreio.

O Recreatório tem todas as condições para que o teatro se represente com toda a dignidade que merece. E se outrora já cumpriu como teatro a sua função, já iniciou o seu destino, não se vislumbram razões plausíveis para que o não possa cumprir agora, para que não possa cumprir o destino que iniciou, porque será de muito mau gosto alguém pensar que, pelo facto de o Recreatório ser um espaço centenário, já cumpriu , ou seja, já concluíu o seu destino. Não, o que o Recreatório precisa para concluir é ser restaurado, é, como se diz na vox populi, precisa de obras. E é precisamente a-qui nesta falta horrorosa de vontade e determinação políticas que junto a minha voz ao grito do mentor do Festafidelis que num balanço do festival deste ano se insurgiu, mais uma vez, contra as instâncias superiores por permitirem que Penafiel seja a única cidade do Vale do Sousa onde não existe um espaço digno para a representação digna dessa arte mais nobre entre as nobres que conhecemos por teatro.


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Jornal o Arrifana - A vez e a voz dos penafidelenses
Penafiel - Junho 2000

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