|
 |
O
GRITO
Antero da Silva Santos
Durante
quase
uma dúzia de anos, pode dizer-se
sempre a remar contra a(s) maré(s) tivemos o Festafidelis. Com efeito,
completaram-se em 3 de Junho passado mais cinco semanas de teatro amador, o
teatro que é feito por quem o ama, e que este ano, como os outros, primou pela
variedade e pela diversidade. Deve lembrar-se que o Festafidelis é uma organização
da Rádio Clube de Penafiel, que conta, tem contado, com algum suporte
financeiro da Câmara Municipal, que, por esse facto, tem direito a figurar nos
cartazes ou nos prospectos de propaganda com o rótulo de patrocinador.
Este compacto
da arte de Talma, de periodização penta-semanal consecutiva por ano, tem
vindo a enganar a fome de teatro de muitos penafidelenses que
continuarão, porém, a tê-la (a fome) pois não se vislumbra a breve
prazo que o problema das condições dignas para a prática de um teatro digno
sejam alteradas, pese muito embora as que são oferecidas pelo CCC ( Clube de
Convívio e Cultura de Penafiel ). Repito, não obstante as condições
oferecidas pelo CCC, que são as que tem e quem oferece o que tem a outra coisa
não é obrigado, pelo contrário, será sempre de salientar o significado desta
voluntária oferta, não obstante
as precárias condições do palco do CCC para a prática teatral, dizia,
deve-se entender que elas são mínimas, pelo que deveriam envergonhar as instâncias
superiores da cidade de Penafiel, que até agora nada fizeram para alterar essas
condições. E não é que falte espaço digno para que o teatro, em Penafiel,
possa ser interpretado e oferecido aos penafidelenses com suma dignidade. Direi
mesmo que existe esse espaço privilegiado, e nenhum outro existe nas restantes
cidades do Vale do Sousa que se lhe iguale ou se aproxime sequer, mas a
realidade é que todas as outras cidades do Vale do Sousa têm espaços dignos
de representação teatral e Penafiel, que tem um excelente espaço para
essa prática representativa, isto é, que tem uma excelente sala de
teatro, que vem já do século XIX, não tem, neste momento, um espaço digno
para a representação teatral, e não o tem tido e não o teve ainda este ano
para a realização do Festafidelis. Refiro-me ao belo teatrinho, que hoje
chamaríamos de bolso, da Rua Direita, frente à Igreja Matriz, que todos
os penafidelenses conhecem por Recreatório, nome que até pode
prevalecer como local ideal de recreio, porque o teatro é também recreio.
O Recreatório
tem todas as condições para que o teatro se represente com toda a dignidade
que merece. E se outrora já cumpriu como teatro a sua função, já iniciou o
seu destino, não se vislumbram razões plausíveis para que o não possa
cumprir agora, para que não possa cumprir o destino que iniciou, porque será
de muito mau gosto alguém pensar que, pelo facto de o Recreatório ser um espaço
centenário, já cumpriu , ou seja, já concluíu o seu destino. Não, o que o
Recreatório precisa para concluir é ser restaurado, é, como se diz na vox
populi, precisa de obras. E é precisamente a-qui nesta falta horrorosa de
vontade e determinação políticas que junto a minha voz ao grito do mentor do
Festafidelis que num balanço do festival deste ano se insurgiu, mais uma vez,
contra as instâncias superiores por permitirem que Penafiel seja a única
cidade do Vale do Sousa onde não existe um espaço digno para a representação
digna dessa arte mais nobre entre as nobres que conhecemos por teatro.
|