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Páscoa dos Povos contra as multinacionais
Pe. Mário de Oliveira
Derrubar duma vez por
todas o sistema neoliberal das multinacionais e dar corpo a uma verdadeira
alternativa global que abra as portas a uma Ordem económica mundial
outra, progressivamente constituída na justiça e na equitativa
partilha dos bens entre os povos, sem exclusão de nenhum, e, ao
mesmo tempo, impulsionar, de forma irreversível, o desenvolvimento
duma única Humanidade universal, que inclua todos os povos sem excepção,
feita de irmãs e irmãos e constituída na liberdade
e na comunhão, eis a Páscoa mais relevante que, neste início
do terceiro milénio do Cristianismo, é legítimo esperar
que os povos do mundo protagonizem sem demora, nomeadamente, os povos que
aquele mesmo sistema neoliberal mantém condenados à inumana
e sacrílega condição dos antigos escravos hebreus
no Egipto dos faraós - cerca de cinco biliões de pessoas,
no total de seis biliões que tem, hoje, o nosso planeta - e cujos
clamores, como os deles, outrora, não podem deixar de estar a subir,
continuamente, até Deus, nosso Pai / Mãe universal.
Mas para que esta Páscoa
2000 chegue a ser acontecimento efectivo, na História, faz falta
que todas as Igrejas, a começar pela católica romana, abandonem
de vez as estéreis rotinas religiosas e cúlticas em que,
preguiçosamente, se instalaram, e corram a fazer corpo com a Ruah
ou Espírito de Deus que, desde o princípio, está a
trabalhar na história, para levar a bom termo a obra da criação
do mundo e do ser humano, obra essa que, embora se tivesse iniciado sem
nós, já não pode, desde que nós aparecemos,
feitos à imagem e semelhança de Deus, prosseguir e consumar-se
sem a nossa livre e inteligente cooperação.
Das Igrejas, a Ruah ou Espírito
de Deus espera este importante serviço maiêutico. Nomeadamente,
para que elas sejam, nas nações e com elas, não uma
humanidade à parte e privilegiada, como hoje, infelizmente, ainda
sucede, mas sim uma fecunda e discreta presença, bem ao jeito de
inteligente fermente na massa, de vigoroso sal da terra e de verdadeira
luz do mundo, quaisquer que sejam os riscos que uma tal missão possa
inevitavelmente acarretar a quem a protagoniza.
Só que tão
importante e decisivo serviço maiêutico, para poder ser prestado
com fecundidade e eficiência, por parte das Igrejas, exige que elas,
em lugar de conceberem a liturgia, em que devem ser peritas, como rotineiras
celebrações simbólicas e ritualizadas, ao jeito dos
velhos cultos do Paganismo e das suas múltiplas religiões,
onde tudo é faz-de-conta, a concebam como a efectiva e gratuita
entrega das suas vidas e das vidas dos seus membros, a todos os povos do
mundo que, hoje, se vêem na condição do pobre Lázaro
da parábola lucana, isto é, sistematicamente excluídos
da mesa dos bens produzidos e daquele nível de dignidade humana
que só o acesso a essa mesa dos bens produzidos pode efectivamente
proporcionar e realizar. E que tudo isto as Igrejas o façam, sempre
no imprescindível contexto duma relação fraternal
e solidária, de cariz fecundamente subversivo, com todos esses povos
excluídos, e de serviço, lucidamente consciencializador e
libertador, e nunca no contexto duma relação de mera beneficência
ou de caridadezinha, como elas quase sempre têm preferido.
Infelizmente, não
é ainda por aqui que a generalidade das Igrejas se mostra disposta
a avançar, hoje. Filhas, quase todas elas, do sistema neoliberal,
e não de Ruah ou Espírito de Deus, e instaladas nos privilégios
que esse mesmo sistema e as suas cruéis multinacionais, prodigamente,
lhes garantem - até financiam a construção dos seus
locais de culto, os seus centros sociais e paroquiais, as suas residências
e palácios episcopais e celebram concordatas com elas onde os privilégios
são garantidos, preto no branco! - as Igrejas têm-se assumido,
sobretudo, como continuadoras das religiões do Paganismo, por isso,
promotoras de tradicionais e sumptuosos cultos religiosos nos templos,
quando deviam assumir-se como lúcidas e corajosas parteiras junto
dos povos condenados à condição dos antigos escravos
do Egipto dos faraós, pior, à condição de povos
sacrilegamente excluídos da mesa dos bens produzidos e da dignidade
que só essa mesma mesa, se for aberta a todos, como verdadeira Eucaristia,
pode garantir e alimentar.
Vai daí, os povos,
em lugar de se tornarem povos progressivamente evangelizados e ilustrados,
o mesmo é dizer, povos progressivamente de olhos abertos e conscientes
das causas do mal de que padecem - por isso, povos cada vez mais mobilizados
e organizados contra o mal de que padecem, numa luta duélica e pascal
sem cedências, ao jeito da luta que Jesus de Nazaré travou
até à ressurreição - eis que, muito pelo contrário,
continuam a ser levados a pensar que o mal de que padecem é o castigo
dos seus pecados, é o resultado da sua incapacidade natural, é
uma fatalidade inevitável que eles têm de suportar e sofrer
com resignação, numa palavra, é um mal que ninguém
sabe ainda explicar e muito menos sabe como ser vencido e superado de vez.
Por isso, são povos ainda tão, politicamente, desmobilizados
e desorganizados.
Ora, povos, assim, são
povos em tudo semelhantes àquele homem que nasceu cego, do Evangelho
de João (cap.9), ou como o povo da cidade de Nínive, do tempo
do profeta Jonas, que não sabem ainda distinguir entre a direita
e a esquerda políticas, não sabem sequer o que é a
política, tão pouco sabem para que nasceram e qual a missão
histórica que lhes cabe protagonizar, neste mundo do neoliberalismo
total e das suas cruéis multinacionais. São, por isso, povos
resignados, conformados, infantilizados, dominados, oprimidos, controlados,
manipulados, que as elites privilegiadas levam para onde querem e até
os levam a apoiar e a votar as causas e os interesses corporativos delas.
Uma prova inequívoca
de que os caminhos que as Igrejas hoje percorrem ainda se situam nos antípodas
do que delas pretende a Ruah ou Espírito de Deus, é a forma
como elas continuam a celebrar, concretamente, o natal e a páscoa
de Jesus de Nazaré, seu mestre e líder, ressuscitado, vai
para dois mil anos e, por isso, constituído, desde então,
como o único Senhor da História, sempre em guerra aberta
contra todos os senhores / deuses do mundo, sejam imperadores ou papas
/ bispos / clérigos com poder absoluto, sejam as multinacionais
do nosso tempo ou os seus ilegítimos donos.
Ao natal, confundem-nos com
a festa pagã de deus Sol, hoje, festa do deus Consumo, e todos os
anos fazem de conta que Jesus volta a nascer em Belém, no meio de
hossanas de anjos, e fantasiosas visitas de pastores e de reis magos. Ou
seja, dois mil anos depois, as Igrejas ainda nem sequer caíram na
conta do que, a propósito de natal ou nascimento de alguém,
também do de Jesus, proclama solenemente o último dos quatro
Evangelhos canónicos (Jo 3): - o primeiro natal de alguém,
só por si, não vale nada, porque o que nasceu da carne é
carne. O que conta verdadeiramente, é o natal ou nascimento do Alto,
da Ruah ou Espírito de Deus, e esse é que é preciso
reconhecer, acolher, valorizar, viver, pois é o único que
nos liberta da condição de mulheres e homens alienados e
cegos, coxos e infantilizados, estéreis e ingénuos, que o
sistema neoliberal e os donos das suas cruéis multinacionais querem
que sejamos e tudo fazem para que sejamos. Ao ponto de até financiarem
Religiões e Igrejas, na condição, é claro,
de que umas e outras não saiam das suas rotinas e dos seus cultos
sem profecia e sem Ruah ou Espírito de Deus!
Quanto à Páscoa,
confundem-na com a chamada Semana Santa, feita de folclóricas procissões
dos passos, para turista ver e tevês divulgarem em directo; com cerimónias
religiosas da Paixão dentro dos templos, onde sobressaem as solenes
proclamações litúrgicas dos primitivos e inalterados
relatos evangélicos da Paixão de Jesus; com ritos pagãos
de bênção do lume novo e da água; com ritos
de baptismo realizados com a água acabada de benzer; com uma certa
tristeza-faz-de-conta, em Sexta-feira santa, e uma certa alegria-faz-de-conta,
no Sábado pascal. A que se junta, no dia de páscoa, propriamente
dito, o compasso ou visita pascal às casas das pessoas, Cristo-ressuscitado-
Aleluía-Boas-Festas-Aleluía, acompanhado do estrelejar de
muitos foguetes, de muitos comes e bebes, sobretudo, de muitos bebes, e,
evidentemente, de um chorudo folar em dinheiro para os senhores abades,
que a tudo presidem, no mesmíssimo papel dos seus antepassados sacerdotes
das velhas religiões do Paganismo.
Deste modo, Jesus crucificado
/ ressuscitado - que as primeiras comunidades cristãs ousaram apresentar
ao mundo e a todas as nações da terra, como o ser humano
exemplar, o Homem integral e por antonomásia, em quem a Ruah ou
Espírito de Deus sempre habitou, o Homem que, em lugar de se submeter
à Ordem mundial que o Templo de Jerusalém e o Império
romano canonizavam e impunham como a Ordem mundial querida por Deus, ousou
desmascará-la, enfrentá-la e derrubá-la com a força,
não das armas e da violência, mas com a força da Verdade
que liberta, e, por causa disso, foi condenado à morte pelos sacerdotes
e demais poderosos da época, e executado sob o poder de Pôncio
Pilatos - é, hoje, completamente descaracterizado pelas Igrejas
cristãs, descarnado, deshistoricizado, reduzido a mero figurante
duma representação de teatro religioso de muito mau gosto,
a levar à cena todos os anos e sempre da mesma maneira, para plateias
alienadas e resignadas, que já sabem de cor as cenas e o enredo,
mas fazem de conta que ainda vão ser surpreendidas!
Alerta, pois, povos de toda
a terra: Se as Igrejas persistirem em vos adormecer e paralisar, em lugar
de vos acordar e mobilizar, fujam delas, quanto antes, porque é
sinal de que deixaram de ser Igrejas de Jesus crucificado /ressuscitado
e passaram a ser Igrejas das multinacionais e do seu demoníaco sistema
neoliberal. Mas não se limitem a isso. Deixem que a Ruah ou Espírito
de Deus, que fez de Jesus de Nazaré, o Cristo, também se
apodere de vós e vos leve a enfrentar e derrubar a Ordem económica
mundial das multinacionais, de modo que, em seu lugar, seja criada uma
outra, na qual vós sejais chamados a ocupar os primeiros lugares
e ninguém mais tenha de ficar de fora!
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