ANO III  Nº 24  MARÇO 2000
Director : Armando Moreira Fernandes

 


 

 

A Páscoa dos Povos contra as multinacionais

Pe. Mário de Oliveira

Pe. Mário de OliveiraDerrubar duma vez por todas o sistema neoliberal das multinacionais e dar corpo a uma verdadeira alternativa global que abra as portas a uma Ordem económica mundial outra, progressivamente constituída na justiça e na equitativa partilha dos bens entre os povos, sem exclusão de nenhum, e, ao mesmo tempo, impulsionar, de forma irreversível, o desenvolvimento duma única Humanidade universal, que inclua todos os povos sem excepção, feita de irmãs e irmãos e constituída na liberdade e na comunhão, eis a Páscoa mais relevante que, neste início do terceiro milénio do Cristianismo, é legítimo esperar que os povos do mundo protagonizem sem demora, nomeadamente, os povos que aquele mesmo sistema neoliberal mantém condenados à inumana e sacrílega condição dos antigos escravos hebreus no Egipto dos faraós - cerca de cinco biliões de pessoas, no total de seis biliões que tem, hoje, o nosso planeta - e cujos clamores, como os deles, outrora, não podem deixar de estar a subir, continuamente, até Deus, nosso Pai / Mãe universal.

Mas para que esta Páscoa 2000 chegue a ser acontecimento efectivo, na História, faz falta que todas as Igrejas, a começar pela católica romana, abandonem de vez as estéreis rotinas religiosas e cúlticas em que, preguiçosamente, se instalaram, e corram a fazer corpo com a Ruah ou Espírito de Deus que, desde o princípio, está a trabalhar na história, para levar a bom termo a obra da criação do mundo e do ser humano, obra essa que, embora se tivesse iniciado sem nós, já não pode, desde que nós aparecemos, feitos à imagem e semelhança de Deus, prosseguir e consumar-se sem a nossa livre e inteligente cooperação.

Das Igrejas, a Ruah ou Espírito de Deus espera este importante serviço maiêutico. Nomeadamente, para que elas sejam, nas nações e com elas, não uma humanidade à parte e privilegiada, como hoje, infelizmente, ainda sucede, mas sim uma fecunda e discreta presença, bem ao jeito de inteligente fermente na massa, de vigoroso sal da terra e de verdadeira luz do mundo, quaisquer que sejam os riscos que uma tal missão possa inevitavelmente acarretar a quem a protagoniza.

Só que tão importante e decisivo serviço maiêutico, para poder ser prestado com fecundidade e eficiência, por parte das Igrejas, exige que elas, em lugar de conceberem a liturgia, em que devem ser peritas, como rotineiras celebrações simbólicas e ritualizadas, ao jeito dos velhos cultos do Paganismo e das suas múltiplas religiões, onde tudo é faz-de-conta, a concebam como a efectiva e gratuita entrega das suas vidas e das vidas dos seus membros, a todos os povos do mundo que, hoje, se vêem na condição do pobre Lázaro da parábola lucana, isto é, sistematicamente excluídos da mesa dos bens produzidos e daquele nível de dignidade humana que só o acesso a essa mesa dos bens produzidos pode efectivamente proporcionar e realizar. E que tudo isto as Igrejas o façam, sempre no imprescindível contexto duma relação fraternal e solidária, de cariz fecundamente subversivo, com todos esses povos excluídos, e de serviço, lucidamente consciencializador e libertador, e nunca no contexto duma relação de mera beneficência ou de caridadezinha, como elas quase sempre têm preferido.

Infelizmente, não é ainda por aqui que a generalidade das Igrejas se mostra disposta a avançar, hoje. Filhas, quase todas elas, do sistema neoliberal, e não de Ruah ou Espírito de Deus, e instaladas nos privilégios que esse mesmo sistema e as suas cruéis multinacionais, prodigamente, lhes garantem - até financiam a construção dos seus locais de culto, os seus centros sociais e paroquiais, as suas residências e palácios episcopais e celebram concordatas com elas onde os privilégios são garantidos, preto no branco! - as Igrejas têm-se assumido, sobretudo, como continuadoras das religiões do Paganismo, por isso, promotoras de tradicionais e sumptuosos cultos religiosos nos templos, quando deviam assumir-se como lúcidas e corajosas parteiras junto dos povos condenados à condição dos antigos escravos do Egipto dos faraós, pior, à condição de povos sacrilegamente excluídos da mesa dos bens produzidos e da dignidade que só essa mesma mesa, se for aberta a todos, como verdadeira Eucaristia, pode garantir e alimentar. 

Vai daí, os povos, em lugar de se tornarem povos progressivamente evangelizados e ilustrados, o mesmo é dizer, povos progressivamente de olhos abertos e conscientes das causas do mal de que padecem - por isso, povos cada vez mais mobilizados e organizados contra o mal de que padecem, numa luta duélica e pascal sem cedências, ao jeito da luta que Jesus de Nazaré travou até à ressurreição - eis que, muito pelo contrário, continuam a ser levados a pensar que o mal de que padecem é o castigo dos seus pecados, é o resultado da sua incapacidade natural, é uma fatalidade inevitável que eles têm de suportar e sofrer com resignação, numa palavra, é um mal que ninguém sabe ainda explicar e muito menos sabe como ser vencido e superado de vez. Por isso, são povos ainda tão, politicamente, desmobilizados e desorganizados.

Ora, povos, assim, são povos em tudo semelhantes àquele homem que nasceu cego, do Evangelho de João (cap.9), ou como o povo da cidade de Nínive, do tempo do profeta Jonas, que não sabem ainda distinguir entre a direita e a esquerda políticas, não sabem sequer o que é a política, tão pouco sabem para que nasceram e qual a missão histórica que lhes cabe protagonizar, neste mundo do neoliberalismo total e das suas cruéis multinacionais. São, por isso, povos resignados, conformados, infantilizados, dominados, oprimidos, controlados, manipulados, que as elites privilegiadas levam para onde querem e até os levam a apoiar e a votar as causas e os interesses corporativos delas.

Uma prova inequívoca de que os caminhos que as Igrejas hoje percorrem ainda se situam nos antípodas do que delas pretende a Ruah ou Espírito de Deus, é a forma como elas continuam a celebrar, concretamente, o natal e a páscoa de Jesus de Nazaré, seu mestre e líder, ressuscitado, vai para dois mil anos e, por isso, constituído, desde então, como o único Senhor da História, sempre em guerra aberta contra todos os senhores / deuses do mundo, sejam imperadores ou papas / bispos / clérigos com poder absoluto, sejam as multinacionais do nosso tempo ou os seus ilegítimos donos.

Ao natal, confundem-nos com a festa pagã de deus Sol, hoje, festa do deus Consumo, e todos os anos fazem de conta que Jesus volta a nascer em Belém, no meio de hossanas de anjos, e fantasiosas visitas de pastores e de reis magos. Ou seja, dois mil anos depois, as Igrejas ainda nem sequer caíram na conta do que, a propósito de natal ou nascimento de alguém, também do de Jesus, proclama solenemente o último dos quatro Evangelhos canónicos (Jo 3): - o primeiro natal de alguém, só por si, não vale nada, porque o que nasceu da carne é carne. O que conta verdadeiramente, é o natal ou nascimento do Alto, da Ruah ou Espírito de Deus, e esse é que é preciso reconhecer, acolher, valorizar, viver, pois é o único que nos liberta da condição de mulheres e homens alienados e cegos, coxos e infantilizados, estéreis e ingénuos, que o sistema neoliberal e os donos das suas cruéis multinacionais querem que sejamos e tudo fazem para que sejamos. Ao ponto de até financiarem Religiões e Igrejas, na condição, é claro, de que umas e outras não saiam das suas rotinas e dos seus cultos sem profecia e sem Ruah ou Espírito de Deus!

Quanto à Páscoa, confundem-na com a chamada Semana Santa, feita de folclóricas procissões dos passos, para turista ver e tevês divulgarem em directo; com cerimónias religiosas da Paixão dentro dos templos, onde sobressaem as solenes proclamações litúrgicas dos primitivos e inalterados relatos evangélicos da Paixão de Jesus; com ritos pagãos de bênção do lume novo e da água; com ritos de baptismo realizados com a água acabada de benzer; com uma certa tristeza-faz-de-conta, em Sexta-feira santa, e uma certa alegria-faz-de-conta, no Sábado pascal. A que se junta, no dia de páscoa, propriamente dito, o compasso ou visita pascal às casas das pessoas, Cristo-ressuscitado- Aleluía-Boas-Festas-Aleluía, acompanhado do estrelejar de muitos foguetes, de muitos comes e bebes, sobretudo, de muitos bebes, e, evidentemente, de um chorudo folar em dinheiro para os senhores abades, que a tudo presidem, no mesmíssimo papel dos seus antepassados sacerdotes das velhas religiões do Paganismo.

Deste modo, Jesus crucificado / ressuscitado - que as primeiras comunidades cristãs ousaram apresentar ao mundo e a todas as nações da terra, como o ser humano exemplar, o Homem integral e por antonomásia, em quem a Ruah ou Espírito de Deus sempre habitou, o Homem que, em lugar de se submeter à Ordem mundial que o Templo de Jerusalém e o Império romano canonizavam e impunham como a Ordem mundial querida por Deus, ousou desmascará-la, enfrentá-la e derrubá-la com a força, não das armas e da violência, mas com a força da Verdade que liberta, e, por causa disso, foi condenado à morte pelos sacerdotes e demais poderosos da época, e executado sob o poder de Pôncio Pilatos - é, hoje, completamente descaracterizado pelas Igrejas cristãs, descarnado, deshistoricizado, reduzido a mero figurante duma representação de teatro religioso de muito mau gosto, a levar à cena todos os anos e sempre da mesma maneira, para plateias alienadas e resignadas, que já sabem de cor as cenas e o enredo, mas fazem de conta que ainda vão ser surpreendidas!
Alerta, pois, povos de toda a terra: Se as Igrejas persistirem em vos adormecer e paralisar, em lugar de vos acordar e mobilizar, fujam delas, quanto antes, porque é sinal de que deixaram de ser Igrejas de Jesus crucificado /ressuscitado e passaram a ser Igrejas das multinacionais e do seu demoníaco sistema neoliberal. Mas não se limitem a isso. Deixem que a Ruah ou Espírito de Deus, que fez de Jesus de Nazaré, o Cristo, também se apodere de vós e vos leve a enfrentar e derrubar a Ordem económica mundial das multinacionais, de modo que, em seu lugar, seja criada uma outra, na qual vós sejais chamados a ocupar os primeiros lugares e ninguém mais tenha de ficar de fora!
 
 

 


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