28ª Edição
12 a 19
Setembro 2001
Salvador
Bahia - Brasil

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OBRAS DE JORGE AMADO - VERSÕES PARA CINEMA E TV FORAM GRANDES SUCESSOS
(por Luiz Zanin Oricchio - Especial Jorge Amado - Caderno 2 de O Estado de S.Paulo de 07/08/2001)

Novelas como ‘Gabriela’ e ‘Tieta do Agreste’ e filmes como ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’ e ‘Tenda dos Milagres’ contribuíram para fixar os personagens do escritor no imaginário popular.

Deve-se a Jorge Amado a maior bilheteria do cinema nacional e talvez a imagem mais permanente da TV. Não é por acaso que ele será o grande homenageado da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, que será realizada em setembro, em Salvador. Além dos filmes clássicos baseados em sua obra, o festival vai realizar uma retrospectiva completa e deve exibir todos as produções baseadas em seus livros, até mesmo as pouco conhecidas. O longa-metragem Dona Flor e seus Dois Maridos, dirigido por Bruno Barreto, fez o número, hoje impensável, de 12 milhões de espectadores e será relançado em outubro. A novela Gabriela fixou-se para sempre no imaginário popular com a história da morena sensual, que leva à loucura o árabe Nacib (interpretado pelo também inesquecível Armando Bogus).

As histórias foram tiradas de dois dos seus mais populares romances. Ambas foram estreladas por Sônia Braga, tida, na época, como o protótipo da mulher brasileira. Nos dois, filme e novela, estão presentes os ingredientes ficcionais favoritos de Jorge: a sensualidade baiana, a malemolência tropical, a atenção para os cheiros e sabores locais, o carinho pelo povo pobre da Bahia, o horror, adocicado pela veia cômica, pela aristocracia e pelos donos do poder, um traço permanente do velho comunista.

As histórias de Gabriela e Dona Flor se incorporaram à maneira como os brasileiros olham o mundo e a si mesmos. Em Dona Flor, Jorge fala da oscilação da alma feminina entre a segurança e a aventura. Flor fica entre o estróina Vadinho e o sério Teobaldo, o farmacêutico. Um é jogador, cachaceiro, mulherengo – e bom de cama. Outro é sincero, tedioso, seguro e comedido. Se complementam. E a solução, sobrenatural, pois Vadinho volta do além, satisfaz Flor em sua dupla exigência. Gabriela segue outra vertente da alma feminina. Ela não pode ser de um homem só e o erro de Nacib é tentar aprisioná-la. Mas ninguém aprisiona o vento e Gabriela terá de ser amada como é, solta, livre, independente. À sua maneira, ela é uma mulher forte, como Flor.

Ou como Tieta, tirada do romance Tieta do Agreste, que foi novela de sucesso com Betty Faria, e anos depois reapareceu nas telas, dirigida por Cacá Diegues, e tendo Sônia Braga, sempre ela, como protagonista. Tieta é a bem-sucedida prostituta que volta para sua cidadezinha natal depois de enriquecer em outras plagas e enfrenta a hipocrisia e a cobiça dos habitantes.

Dona Flor, Tieta e Gabriela encabeçam uma lista extensa de obras e personagens levadas à tela grande e à pequena a partir dos livros de Jorge Amado, autor que, em adaptações só perde no Brasil para Nélson Rodrigues. Para se ter idéia: a primeira versão de um livro de Jorge para o cinema data de 48 e nem dirigida por brasileiro foi. O filme Terra Violenta, baseado no romance Terras do sem Fim, é assinado pelo norte-americano Eddie Bernoudy, nome que só consta das enciclopédias de cinema mais detalhistas. Em 63, coube a outro estrangeiro, o italiano Alberto d’Aversa, trazer para o cinema o livro Seara Vermelha. E, em 70 surge um filme chamado The Wild Pack, dirigido por Hall Bartlett, americano que ficou conhecido como adaptador de Fernão Capelo Gaivota para a tela. Ah, sim: The Wild Pack é o título em inglês para Capitães de Areia.

Apenas em 1975 um brasileiro iria se aventurar a verter para cinema as imagens saborosas presentes nos textos de Jorge. E seria justamente Bruno Barreto, muito jovem ainda, filho do produtor Luiz Carlos Barreto, quem comandaria a façanha de realizar Dona Flor e Seus Dois Maridos. Doze milhões de espectadores não é apenas um número abstrato. Significa que todo mundo, pelo menos de um certo estrato social para cima, tinha visto aquele filme charmoso, de elenco afiado e embalado por uma música muito inspirada de Chico Buarque de Holanda.

O Brasil vivia tempos difíceis, enroscado em uma ditadura militar que parecia não acabar nunca. Estreando sob a vigência do Ato Institucional n.º 5, aquele filme, que pelo menos de maneira direta nada tinha de político, parecia trazer uma certa leveza, alguma liberdade, uma alegria que não se encontrava no dia-a-dia. Quer dizer, era político, à sua maneira. Mas, acima de tudo, fornecia diversão de primeira. Saía-se do cinema de alma lavada, ainda que nem Jorge Amado, em seu texto, nem muito menos Bruno Barreto, em sua adaptação, quisessem enfrentar militares ou atos institucionais. O papo era outro e o filme simplesmente falava das coisas do Brasil e mostrava que elas podiam ser boas. Era uma reconciliação necessária entre uma camada de espectadores e um país que tendia a ser repudiado com o regime político que nele vigorava. O público entendeu Brasil de um lado, e governo de outro, eram coisas diferentes. Um dia aquela gente estranha que habitava o Planalto passaria e o País iria continuar.

Na televisão – A presença de Jorge Amado na televisão começou em 1961 com a primeira adaptação de Gabriela, feita pela extinta TV Tupi. Apenas em 1975 veio a versão da Globo, a Gabriela clássica, de Walter George Durst, com Sônia Braga no papel. Durst mostrou-se um especialista em Jorge Amado, adaptando, também para a Globo, Terras do sem Fim, outra novela de sucesso. Jorge Amado oferecia para a TV, em especial para a Globo, essa mistura de ingredientes que caiu no gosto do espectador brasileiro. As tramas nordestinas, com mulheres desenvoltas e coronéis autoritários, em geral foram e são sinônimos de ibope generoso. As histórias vinham prontas. Saíam dos livros e iam à telinha.

Na esteira desses sucessos veio Tenda dos Milagres, uma adaptação de Aguinaldo Silva para a Globo. A história de Pedro Arcanjo, um defensor da miscigenação, tinha potencial para fazer a cabeça dos telespectadores. Já fora testada no cinema, com assinatura do mestre Nelson Pereira dos Santos, em um dos seus trabalhos mais inspirados. Certo: Tenda não pode ser comparado a duas das obras-primas de Nelson, Vidas Secas e Memórias do Cárcere (ambas tiradas de livros de Graciliano Ramos), mas é filme a que se assiste com imenso prazer. O mesmo Aguinaldo Silva levou para a tela pequena o romance Tieta do Agreste, que depois seria filmado por Cacá Diegues.

Como se vê, o atrativo audiovisual da obra de Jorge Amado é tamanho que vários dos seus livros ganharam versão dupla: para TV e cinema. Às vezes dava certo num veículo e não em outro. É o caso de Gabriela, a novela, que marcou época, mas não o filme. Por incrível que pareça, o longa-metragem foi dirigido por Bruno Barreto, o mesmo cineasta que acertou em cheio com Dona Flor. Tinha a mesmíssima Sônia Braga no papel principal, mas inventou de trazer ninguém menos que Marcello Mastroianni para o papel que fora de Armando Bogus. Bem, não se pode culpar o grande Marcello, ator fetiche de Fellini e um dos maiores do século, pelo fracasso de Gabriela versão cinema. Mas o fato é que o filme não teve público, não marcou época e foi rapidamente esquecido. Fracasso de bilheteria e de crítica. Simplesmente não tem clima. Não dá liga e toda a magia da história se perde.

Se Gabriela, no cinema, foi marcada pelo desacerto, o mesmo não se pode dizer de Tieta, que ganhou uma versão interessante da parte de Cacá Diegues. Sônia Braga voltou dos Estados Unidos especialmente para trabalhar no filme – o que causou ciúmes em Betty Faria que, por ter feito o papel na TV, considerava-se sua proprietária. Mas são intrigas de bastidor. O fato é que a novela marcou profundamente sua época e fixou-se na memória das pessoas. Daí, talvez, a dificuldade em visitar outra versão, mesmo que competente, mesmo que estrelada por uma atriz da qual se supunha o público tivesse saudades, com música de Caetano Veloso, etc. Tieta, de Cacá, não foi tão bem de público como poderia ter ido e houve quem interpretasse isso como a interferência longínqua da novela no imaginário do público em potencial. O curioso é que o projeto de Tieta do Agreste foi longamente acalentado pela italiana Lina Wertmuller, que queria Sophia Loren para o papel. Felizmente não foi realizado, pois provavelmente teria o mesmo destino da Gabriela de Mastroianni.

O megaêxito de Dona Flor no cinema não deixou de atrair a atenção da TV. Mas a Globo entendeu que não caberia fazer uma novela para repetir o filme de sucesso e que o formato da minissérie seria o mais adequado. Quem a escreveu foi outro baiano ilustre, Dias Gomes, que escalou Edson Celulari, Giulia Gam e Marco Nanini para viver o triângulo formado por Vadinho, Dona Flor e Teobaldo. Também Capitães da Areia, o comovente romance de Jorge sobre os meninos carentes da Bahia, foi para a TV sob o formato minissérie, dirigida por um craque do cinema, Walter Lima Jr. (diretor de Menino de Engenho e A Ostra e o Vento).

As adaptações para TV não pararam por aí. Em 1992, Vicente Sesso fez a versão televisiva do romance Teresa Batista Cansada de Guerra, dirigida por Paulo Afonso Grisoli e, que entre outros méritos, teve o de revelar a atriz Patrícia França. A Manchete, em seus melhores tempos, conseguiu enfrentar a Globo com Tocaia Grande, adaptação de Duda Rachid para esse que é um dos últimos romances de Jorge Amado, e não dos melhores, diga-se. E agora mesmo Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares apresentam Porto dos Milagres, inspirado em dois livros de Jorge, Mar Morto e A Descoberta da América pelos Turcos.

Ao todo são nove longas-metragens e 11 produtos para TV (entre novelas e minisséries) saídos da obra de Jorge Amado. Algumas dessas adaptações não deram tão certo, como é o caso de Jubiabá, de Nelson Pereira dos Santos, uma co-produção entre Brasil e França que se ressente da falta de química entre os personagens. Outras caíram no esquecimento, como Otália da Bahia, filme baseado em Os Pastores da Noite e dirigido por Marcel Camus, francês apaixonado pelo Brasil e realizador de Orfeu Negro, ganhador de Cannes e do Oscar.

Mulheres – O que há de melhor nessas adaptações? Isso, de certa forma, depende da memória afetiva de quem responde. Mas, neste caso em particular, convém ficar com o gosto do público que, acertadamente, fez do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos e da novela Gabriela dois grandes sucessos. Foram este filme e este produto televisivo que melhor conseguiram captar e transpor o universo rico, terno e engraçado de Jorge Amado para os seus respectivos veículos. No cinema, talvez Tenda dos Milagres merecesse melhor sorte. Ou, na TV, Tieta pode ter marcado época tanto quanto Gabriela. Mas são as duas personagens vividas por Sônia Braga, Dona Flor e Gabriela, que ficam no imaginário do público como as mulheres exemplares de Jorge Amado.

Na soma, falta um filme, que seria o décimo. Mas este não é uma adaptação e sim um documentário sobre adaptações – Jorjamado no Cinema, de Gláuber Rocha. Assim mesmo: “Jorjamado”, que era como um baiano de gênio chamava o outro. (Colaborou Maria do Rosário Caetano)

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