O surgimento da Sociologia e o Socialismo
Europa, final da Idade Média, crise do Modo de Produção Feudal. Classicamente, se diz que o Modo de Produção entrou em contradição com os interesses das Forças Produtivas. Naquele caso, embora a densidade demográfica crescesse assustadoramente, de nada adiantava produzir mais porque o excedente não iria para aqueles deles necessitados; iria engordar ainda mais os cofres da Nobreza...
As pessoas começam a se rebelar, fogem dos feudos (a que eram “presas” por laços de honra) e passam a roubar ou com parcos recursos comprar bens baratos a grandes distâncias vendendo-os mais caro onde eram desejados - ressaltem-se as famosas “especiarias” -, ou seja, na Europa. A prática do lucro era condenada pela Igreja Católica, a maior potência do mundo à época. Mas para os fugitivos dos feudos, fundadores de burgos, que serão mais tarde chamados de “burgueses”, não restava outra alternativa exceto a atividade comercial voltada ao lucro, tida como “desonesta” por praticamente todas as culturas e civilizações do mundo a partir de todos os pontos de vista éticos.
O capitalismo era como um pequenino câncer que surgiu no final da sociedade feudal. Foi crescendo, crescendo e hoje, a burguesia e seus interesses comerciais se sobrepõem ao ser humano numa infecção que contamina todo o planeta. Aquelas sociedades que buscam a cura para este mal são “reconvertidas” ao satanismo pagão de holocaustos ao deus-mercado através de diversas formas de pressão e, no limite, uso da força física, como ocorreu no Chile de Salvador Allende e, mais recentemente, no Afeganistão - um com proposta socialista, outro com proposta islâmica; ambos intoleráveis hereges dentro do fundamentalismo de mercado.
Era fundamental reorganizar a sociedade de maneira a que os novos donos da riqueza fossem também os donos do poder. Surge uma nova religião para reforçar uma ética mais consentânea com os tempos cambiantes: surge o protestantismo. Os padres diziam nas missas - embora sua prática fosse bem outra... - ser “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”, reiterando serem pecaminosos aqueles que praticavam a cobrança de juros, lucros... “Usurários”, enfim, eram todos enfileirados no caminho que conduz ao fogo do inferno. Por outro lado começam a surgir ex-padres, agora pastores que passam a informar: “se a mão de Deus estiver sobre a sua cabeça, você prosperará imensamente nesta terra; nisso você verá um sinal de estar sendo por ele abençoado”... Se você tivesse enriquecido à beça na base do comércio lucrativo, ou do empréstimo a juros, preferiria o discurso do padre (vale repetir, em contradição com a sua prática) ou o do pastor? Assim cresceram as seitas protestantes pelo mundo afora.
Politicamente a burguesia endinheirada sentia-se lesada tendo de pagar tributos à antiga nobreza, agora praticamente falida. No início compravam títulos de nobres aos de antiga linhagem - que os discriminavam! - a seguir passaram a pensar em alternativas mais radicais (ser radical é ir à raiz e a burguesia foi radical no período de suas glórias revolucionárias!) como convocar os trabalhadores a uma aliança contra a nobreza e implantar um novo tipo de regime político, muito mais interessante e lucrativo para a burguesia, a “república”. Os burgueses convocaram seus empregados, desempregados e desesperados, superiores em número, para uma aliança contra a nobreza ou “antigo regime” e, após muitos percalços, saem-se vitoriosos. Agora, “duque”, “king” e “marquesa” passam a ser nomes de animais domésticos da burguesia! O passo seguinte foi agradecer e condecorar trabalhadores, desempregados e desesperados e mandá-los de volta a seus trabalhos, a seus desempregos e a seu desespero.
Estes, à medida que se conscientizavam de que foram usados para uma troca de poder que em absolutamente nada lhes beneficiou começam a organizar-se em sindicatos e outras agremiações classistas, por vezes secretas, maçônicas mesmo, por vezes aberta mas sempre e imediatamente proclamadas ilegais ou heréticas e perseguidas por todo o aparato estatal e religioso que a burguesia podia colocar em marcha!
Karl Marx
Originário da Renânia, um pedaço da enorme colcha de retalhos que mais tarde constituiria a Nação Alemã, filho de burgueses e educado no mais rigoroso protestantismo, incrivelmente perspicaz, cedo percebeu que enquanto houver neste mundo gente que se alimenta e gente que passa fome, enquanto houver opressores e oprimidos a espécie humana inteira estará refém da insânia. Chegou à conclusão de que somente a partir do ponto de vista de quem não tem absolutamente nada a perder se pode almejar a vislumbrar a verdade. Adotando o ponto de vista dos trabalhadores criou um ferramental intelectual inédito e até hoje imbatido para a compreensão do Real. Com base no socialismo chamado “utópico” dos franceses, da filosofia clássica alemã (em particular o materialismo de Feuerbach e a dialética de Hegel) e a economia clássica inglesa construiu o MATERIALISMO DIALÉTICO, filosofia voltada não apenas à ascensão da classe trabalhadora ao poder, mas à libertação de toda a espécie humana de toda a classe de opressão e exploração.
Dialética
Há muito o que dizer e em que refletir sobre a Dialética; menciono apenas dois pontos...
Movimento: Tudo está em movimento, tudo se transforma, freqüentemente em seu contrário... É como as nuvens no céu: você olha, está de um jeito; olha novamente, a configuração já mudou completamente.
A essência é mais significativa que a aparência: Este postulado fez com que a Dialética ficasse conhecida como “Filosofia Negativa”, pois buscava a compreensão do que está para além da superfície, do “Positivo”, da mera aparência fenomênica de alguma coisa.
Augusto Comte e a “Física Social”
Evidentemente era necessário que a burguesia também produzisse uma teoria em defesa de seus pontos de vista e poucos foram tão brilhantes - e influenciaram tanto a nossa combalida Nação - quanto o positivismo.
Era necessário olvidar a essência e trabalhar com o que é perceptível aos sentidos físicos mais grosseiros e imediatos. Era necessário esquecer a “filosofia negativa” e, voltando ao reino das aparências criar uma filosofia capaz de compreender o social com tanta precisão quanto a matemática ou a física - que hoje sabemos também serem imprecisas...
Eivado de motivos nobres, impregnado de boas intenções, aquelas mesmas que pavimentam todas as estradas do inferno, Comte pregava a necessidade de “libertar o conhecimento social de toda a ingerência filosófica”, como se isso fosse possível... Mas... Se o fosse? Seria desejável? Se a filosofia responde a muitas questões que dizem respeito ao ser do homem no mundo, qualquer ciência que se volte a compreender o homem “afastando a ingerência filosófica” tende mais a falsear a compreensão do ser humano do que a compreendê-lo. Falando claramente: para que uma ciência humana mereça ser chamada de “científica”, tem de ser filosófica! O oposto disso é simplesmente fechar os olhos ao que constitui o SER do homem...
Mas Comte e seus discípulos criaram um sistema “científico” voltado a conciliar o inconciliável: a Luta de Classes. Olvidando totalmente a existência concreta de interesses antagônicos na Sociedade Burguesa, a Luta de Classes, busca integrar a todos em torno do ideal ou meta burguesa - “integralismo”, por sinal, tem esta raiz... -; crescendo por etapas ou degraus seria possível chegar-se a uma precisão “científica”, não filosófica, acerca da sociedade e do ser do homem. Os positivistas contemporâneos, que já percebem as falhas do positivismo clássico, mantêm suas mesmas raízes, suas mesmas motivações - “conciliar Capital e Trabalho”, “que os ricos sejam mais ricos para que, através deles os pobres sejam menos pobres”, e outras idiotices só críveis porque repetidas em altos brados e ad nauseam...
Durkheim e “As Regras...”
Discípulo genial de Comte, Émile Durkheim sistematizou algumas de suas idéias e foi o primeiro a usar efetivamente a expressão “Sociologia” para referir-se ao estudo em pauta, que seu mestre ainda chamava de “Física Social”.
O que é fato social? Tudo o que é coletivo, exterior ao indivíduo e coercitivo, em linhas gerais.
Como compreender o fato social? Primeiro passo: “Afastar sistematicamente as pré-noções”. Como se fosse possível ao ser humano estar acima de todos os sentimentos, emoções, e “juízos de valor”... Como se a própria colocação da questão - seja ela qual for - não traga nela embutidos os juízos ou as pré-noções... Posição hoje indefensável, Durkheim tem contudo enorme valor para a Sociologia contemporânea.
Weber - a jaula de ferro do capitalismo...
Max Weber, um dos maiores gênios do século XX, filho de pastor evangélico, lutou na Primeira Guerra Mundial como capitão do exército prussiano chegou à conclusão de que é necessário não tomar partido, separar o “lugar da teoria” do “lugar da prática” em ciência política. Segundo o capitão evangélico, a inteligência deve ser livre de vínculos (em alemão, Freischwebend Intelligenz). Sua posição de professor conservador, liberal, militar e evangélico talvez explique os motivos do “acidente de trabalho” que o conduziu a uma profundíssima crise depressiva que durou quatro longos anos em que até a alimentação era levada à sua boca pela esposa. Quatro anos em que, consta, não pronunciou uma única palavra, não escreveu uma única linha. De repente, o gênio adormecido desperta para o espanto de todos e compõe uma das mais geniais obras sociológicas do século XX - “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”.
Georg Lukács
Húngaro, o mais notável discípulo de Weber, percebe-lhe as limitações e conduz os avanços sociológicos que esta corrente positivista havia logrado atingir ao marxismo, a que se alinha com muito maior conforto. O Clássico “História e Consciência de Classe” é um leitura obrigatória a todo aquele que queira compreender o ser humano vivendo em sociedade. O peso de sua erudição não tira o interesse do trabalho, ao contrário. Foi um dos últimos brilhos a ir mais longe que Marx dentro do pensamento marxista.
Escola de Frankfurt
É fundamental citar o lugar dos teóricos de Frankfurt, particularmente Herbert Marcuse, que resgata a Dialética Materialista com grande ênfase à Dialética. Sua grande obra ainda é “Razão e Revolução”. É nela que se defende que o grande critério a submeter o Real é a Razão Humanista. O Capital é irracional: desiguala os semelhantes e equaliza os dessemelhantes. Você vale o quanto é capaz de produzir e é avaliado não pela grandeza de sua alma e de seus valores humanos, mas do quanto você tem em bens materiais. Isso é a Destruição da Razão (em alemão, “Zerstorung der Vernunft”).
Teologia da Libertação
Segundo os grandes filósofos europeus contemporâneos, esta é a grande contribuição da América Latina em geral e do Brasil em particular ao Saber Universal. O revolucionário em busca de um mundo melhor, como Che Guevara ou o padre Camilo Torres é equiparado aos primeiros cristãos. O comunismo nascente comparado ao cristianismo também em processo de parturição no Império Romano. Assim como o Império Romano negou o cristianismo por quase 400 anos, proclamando-lhe extinto, acabado, morto e era aterrorizado pelo fantasma de seu cadáver insepulto o Capital proclama reiteradas e repetidas vezes a “morte do comunismo”. O que Weber chamava de “jaula de ferro” os Teólogos da Libertação chamam de “pessimismo defensivo” da burguesia. Em síntese, eles dizem: “não tem jeito”. “Sempre foi e sempre será assim” - preenchendo o futuro como se houvesse uma linha invisível a ligar todos os tempos, como se a Vontade humana não houvesse sido capaz de proezas memoráveis como a transformação do Império Romano num Império Cristão; a travessia do “Mar Tenebroso” que todos “sabiam” intransponível e a chegada ao Novo Mundo; os exemplos se multiplicam.
E agora, o que fazer?
Como o saudoso Capitão Luís Carlos Prestes, morrerei convicto do Futuro Comunista da Humanidade! Não é possível saber como vamos suplantar esta situação amarga em que “o homem é o lobo do homem”. Não é crível que a espécie humana tenha de ser condenada ao inferno capitalista pelo resto da eternidade. O escravismo antigo não foi eterno (durou alguns milhares de anos), tampouco o foi o feudalismo (que durou cerca de um milênio). O capitalismo existe no mundo aí há uns quinhentos anos. No início como um pequenino carcinoma que hoje tomou conta do planeta todo. Mas o poder regenerativo do Humano surpreende mesmo aos médicos e, mesmo sem saber como será a Sociedade do Futuro, caso o próprio nome “comunismo” tenha se tornado pouco palatável do ponto de vista do marketing político, seguramente capitalista não será!
Lázaro Curvêlo Chaves - 20/01/2004
A DIMENSÃO SOCIAL DA EDUCAÇÃO
Sigrid Rönfeld
A dimensão social da educação está presente nas várias instâncias educacionais. Tanto na família, sendo a primeira instância socializadora, como na escola, outro agente socializador de extrema importância, o indivíduo entra em interação com outros, e é através desta interacção social que a educação se realiza. A educação tem a sua origem na sociedade ou num grupo social e não na vontade individual dos membros. A escola como segunda instância socializadora, é o local onde o aluno adquire as normas e atitudes, os conhecimentos e comportamentos da sua sociedade.
Dentro da instituição escolar existem diversas relações em que as pessoas deste sub-sistema da sociedade que é a escola, desempenham diferentes papéis: professores e alunos, diretores de instalações, delegados de disciplina, órgãos coletivos, pessoal de apoio e outros funcionários. O aluno estabelece relações educativas diretas em primeiro lugar com o professor (referência primordial no 1º ciclo) ou vários professores (a partir do 2º ciclo) e com os restantes alunos.
Fora e acima da instituição escolar existem igualmente entidades que intervêm na educação escolar, assim como as autoridades de educação, os governos e os parlamentos que legislam e definem as políticas de educação e outros grupos ou indivíduos que estudam e desenvolvem metodologias e conteúdos didáticos.
Ao nível da instituição escolar ainda existem várias entidades intervenientes e influentes como a família, os partidos políticos, a comunicação social, entre outras, discutindo, criticando ou sugerindo questões educativas.
AS FUNÇÕES DA INSTITUIÇÃO ESCOLAR NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS
A educação
Inicialmente, o objetivo da educação é possibilitar à pessoa um acesso consciente à cultura nas suas diversas manifestações, o que permite desenvolver uma compreensão abrangente do mundo e da sua própria posição. Deve habilitar os indivíduos para poderem agir de forma autodeterminada e para a cooperação na sociedade. Nesta perspectiva a educação é sempre educação da cultura geral, com um forte significado social, e vai para além da suas pretensões básicas que são a aprendizagem e o conhecimento. Hoje a educação torna-se cada vez mais uma educação parcial, e obtêm o caráter de um produto do ponto de vista da economia do mercado. Pode ser adquirida por meio de dinheiro, pode ser acumulada e transformada em certificados.
A Socialização
A educação (não só a educação institucionalizada) nas sociedades contemporâneas tem uma função social, a função de transmissão cultural. É através da instituição ‘escola’ que a sociedade organiza a socialização (conceito utilizado pela primeira vez por Durkheim) das suas gerações novas.
Essa socialização é um processo de aprendizagem, i.e. os indivíduos das novas gerações interiorizam e integram os valores e as normas da sociedade. Aprendem as condutas, aprendem a adaptar-se e a integrar-se na sociedade. Adaptação social significa a conformação a normas exteriores incluindo a capacidade de criar novas situações, onde o indivíduo possa existir. Segundo Boudon entende-se por adaptação social os mecanismos através dos quais o indivíduo se torna apto a pertencer a um grupo. Integração social designa os mecanismos através dos quais a sociedade recebe um novo membro.
Uma das funções mais importantes da escola é a qualificação. A escola deve transmitir todas as qualificações, i.e. conhecimentos e capacidades, que são necessários para permitir aos alunos a participação e integração na vida social. Os programas e os conteúdos são estruturados de forma a qualificar os alunos , em particular para as suas futuras atividades profissionais. Por isso é que abrange também a transmissão de valores como dedicação, disposição para a aprendizagem, flexibilidade e mobilidade, importantes atitudes para a vida profissional. O sistema cultural duma sociedade, composto por conhecimentos e capacidades como a leitura, a escrita e a matemática, i.e. o saber acadêmico, deve ser reproduzido pela função de qualificação.
Os programas e os conteúdos permitem uma seleção na escola. A instituição escolar funciona pelo princípio do aproveitamento e da capacidade.
Como meios de seleção funcionam os diversos diplomas e certificados, testes de ingresso e de candidatura e outros critérios seletivos.
Havendo cada vez mais desemprego e concorrência entre finalistas de escolas e cursos, a luta pelos empregos existentes e pelas vagas que permitem a continuação dos estudos, a seleção influencia fortemente os processos educativos. Continuamos perante as desigualdades das oportunidades, porque as oportunidades dos grupos já desfavorecidos agrava-se com a formação de licenciados e finalistas do 12º ano. Empregos anteriormente ocupados por pessoas com qualificações mais baixas são cada vez mais preenchidos por pessoas com formação mais elevada.
A Legitimação
O sistema de ensino tem de cumprir uma função estabilizadora perante a sociedade. As estruturas de uma sociedade são legitimadas através da interiorização dos valores e das normas sociais. Trata-se de legitimar a distribuição desigual dos bens, i.e. a ordem social capitalista, e de aceitar as instâncias políticas existentes.
FUNÇÕES SOCIAIS DA ESCOLA ATRIBUÍDAS PELAS DIFERENTES CORRENTES TEÓRICAS DA SOCIOLOGIA
Para Émile Durkheim (1858-1917), um dos fundadores da sociologia, a educação é por natureza social e tem a função de desenvolver as competências e capacidades necessárias para preservar a sociedade. Vê a sociedade como um todo e não dá importância as ações dos membros individuais. Durkheim atribui à educação duas funções simultâneas, a de homogeneizar e a de diferenciar. Afirma, que a sociedade só se poderá perpetuar se renovar continuamente as condições da sua própria existência, e que essa renovação é feita através da educação, em que as gerações adultas atuam sobre as mais jovens. Homogeneíza transmitindo valores e normas básicas e comuns; diferencia especializando para as diversas tarefas no mundo do trabalho. Durkheim vê a educação essencialmente tendo como função a integração e a conservação.
Max Weber (1864-1920), fundador da sociologia alemã, tem como objeto de estudo a ação social. Entende por ação social todo o comportamento intencional que se desenvolve num sistema de interação ou interdependência social entre a sociedade e o indivíduo. A perspectiva de Weber tem o nome de Individualismo metodológico, uma vez que valoriza as ações do indivíduo, estando esse na base dos fenômenos estudados, e critica conceitos coletivizantes que ignoram as ações das pessoas. O Individualismo metodológico não reduz a pessoa a uma mera expressão da sociedade como um todo, mas tenta compreender as pessoas no seu contexto social. Pretende compreender o indivíduo no seu contexto dos condicionamentos em que se situa para poder explicar e perceber os comportamentos intencionais que conduzem às diversas relações e fenômenos.
Entendem-se melhor as diferentes abordagens sociológicas de Weber e Durkheim, tendo em consideração o ambiente cultural da época na Alemanha e em França. Na Alemanha a sociologia desenvolve-se entrosada com a história, a economia e a psicologia, enquanto em França o positivismo de Comte influencia fortemente Durkheim, que toma como modelo científico a física clássica, distanciando-se das influências da psicologia.
A Teoria do Sistema
A teoria do sistema designa a perspectiva e interpretação da sociedade como sistema, com estruturas e processos definidos, e das suas funções.
A primeira fase da teoria do sistema foi a teoria estrutural-funcional, que ligava uma teoria do sistema a uma teoria da ação numa terminologia muito abstrata. Esta primeira fase acentuava na análise das estruturas sociais e daí deduzia as suas funções.
Na segunda fase do desenvolvimento da teoria do sistema a abordagem foi contrária: qual a função que algo tem ou devia ter na sociedade. A partir daí são procurados e designados as estruturas que possibilitam e permitem essas funções.
A designação Funcionalismo advém da importância atribuída à análise funcional, i.e. a explicação dos fatos sociais pelas funções que desempenham.
Nesta perspectiva determinista, a continuidade duma sociedade depende do sucesso da socialização dos novos membros. Cada membro é indispensável para manter o equilíbrio e a harmonia da sociedade. O consenso é um aspecto fundamental para a harmonia do conjunto e os conflitos são vistas como tensões ou disfunções. A integração da criança nas estruturas, nos papéis e ideologias existentes na sociedade assegura a continuação da mesma.
O Funcionalismo estrutural de Parsons
A teoria de Talcott Parsons (1902-1979) procura formular regularidades gerais da ação individual e social, analisando os processos sociais, que garantem a estabilidade de sistemas sociais. Cada situação é analisada para concluir se contribui para a manutenção do sistema (então é funcional) ou se afeta a eficácia do sistema (então é disfuncional).
Parsons vê a escola como subsistema dentro do sistema sociedade. O sistema social não se compõe de unidades homogêneas, mas de estados, processos e interação social. O conceito estrutura define o aspecto estático de um sistema, o conceito função o aspecto dinâmico. O subsistema escola contribui para a estabilização do sistema global, i.e. a sociedade. As funções sociais da escola são a qualificação, a seleção, a integração e legitimação e a transmissão cultural. Os alunos integram na escola o sistema de valores da sua sociedade. Para além do aspecto de socialização, Parsons considera a seleção como outra função principal do sistema educativo. Segundo esta teoria funcionalista, a função da escola define–se como a preparação das pessoas para as diferentes posições existentes na sociedade. Alunos com qualificações e currículos escolares diferentes terão posições distintas na sociedade, tanto no sistema econômico como no sistema social. Parsons fala da função de ‘allocation’ que designa a colocação de certos indivíduos em certas posições sociais. A ‘allocation’ encontra-se inseparavelmente ligada à seleção, enquanto houver mais pretendentes a posições vistas como ambicionáveis do que posições disponíveis. Como dados de seleção funcionam os diversos diplomas e certificados, testes de ingresso e de candidatura e outros critérios seletivos. A perspectiva de Parsons inclui a idéia da turma como outro subsistema, analisando a diferenciação dos alunos dentro da classe.
Críticas feitas a teoria de Parsons alertam para que esse esquema, baseado em equilíbrio, integração e estabilidade dos elementos, mais o consenso e a conseqüente falta de conflitos, impossibilita a abordagem dos problemas de domínio e de mudança social. A sociedade tem assim como princípio único a manutenção da estabilidade e funcionalidade das estruturas sociais existentes.
O Funcionalismo de Robert K. Merton
Merton distingue função manifesta de função latente. As dimensões de adaptação, existentes em qualquer uma delas, nas funções manifestas são conscientes; nas funções latentes, são involuntárias. Para Merton a socialização é uma das funções manifestas da escola. Critica Parsons, afirmando que este sobre-estimou as funções sociais integrantes, porque muitas destas funções são fontes de conflito e não de integração. Merton aprofunda nas suas idéias os conceitos ‘papel’ e ‘status’ e faz uma distinção entre o grupo de origem, i.e. a que se pertence, e o grupo de referência.
A socialização na escola na perspectiva do Materialismo histórico
As seguintes idéias sobre a escola são baseadas nas teorias de Karl Marx (1818-1883) e de Friedrich Engels (1820-1895). Inicialmente não houve grande aderência a estas teorias marxistas no âmbito da sociologia, mas com os movimentos estudantis e em conseqüência dos primeiros sintomas de crise econômica e de conflitos entre vários grupos sociais nos finais dos anos 60, surgiram idéias fundamentadas no Marxismo e em oposição às teorias funcionalistas baseadas no consenso da ordem social. Estes autores marxistas analisam a base conflitual da ordem social e a função de reprodução social através da educação de uma perspectiva muito crítica.
Nesta perspectiva não é tanto o indivíduo, i.e. o aluno, mas o sistema à volta, que é o centro de interesses, i.e. trata-se de uma sociologia muito próxima da de Durkheim. Observa-se uma dada classe social ou relacionam-se as diversas classes sociais umas com as outras. Um elemento importante é a economia e o seu efeito no aluno como força produtiva.
A teoria da correspondência direta é uma teoria estruturalista que defende a idéia de que a sociedade e a escola são ambas capitalistas e existir uma correspondência direta entre essas duas estruturas.
Em França os representantes mais importantes desta corrente são Baudelot e Establet; nos Estados Unidos, Bowles e Gintis.
Bowles e Gintis afirmam que a educação americana tem como característica estrutural essencial a correspondência entre a organização da escola e a do trabalho, e que existe uma desigualdade na escola que reproduz a divisão social do trabalho. As escolas funcionam de forma a legitimar as divisões de classe, contribuindo para a criação de uma força de trabalho que responde em cada momento às necessidades do capital. Afirmam que «a visão tecnocrática da produção e a concepção meritocrática da distribuição dos postos de trabalho possuem um corolário importante». Os autores criticam as economias capitalistas por estas sugerirem que uma divisão hierárquica do trabalho é tecnicamente necessária e que a distribuição dos postos de trabalho é feita de forma justa e igualitária.
Christian Baudelot e Roger Establet
Também Baudelot e Establet, visando em primeiro lugar a escola primária, afirmam que a instituição escolar serve para reproduzir as relações sociais de produção. A escola serve para estabelecer uma divisão social e insinuar a ideologia burguesa.
O sistema de ensino organizado em duas vias, liceu e escola técnica, destina os alunos a trabalhos diferentes, ou intelectuais ou manuais, e conseqüentemente a futuros distintos e até antagônicos. Mas afirmam também, que o ensino unificado não traz outra coisa a não ser também o processo de divisão de classes.
O Individualismo metodológico
O Individualismo metodológico assenta na idéia de ‘individualismo’ para compreender a ação do indivíduo, pois não é através de dados estatísticos que se torna possível explicar a ação. A pessoa é vista como “homo oeconomicus”, i.e. age por intenções e expectativas subjetivas de proveito ou de utilidade.
Raymond Boudon (nasc. em 1934), um dos principais sociólogos franceses contemporâneos, inspirado nas idéias de Weber, estuda os fenômenos macrossociais, quer dizer que analisa os desenvolvimentos e modificações, as igualdades e diferenças no contexto de grandes sistemas sociais.
Para Boudon os indivíduos diferenciam-se no âmbito da herança cultural e segundo as posições que ocupam no sistema de estratificação social. O êxito escolar está fortemente ligado à posição social, de uma forma recíproca, porque as posições são atribuídas aos indivíduos baseado em dois critério: a origem social e o nível escolar.
As teorias de Pierre Bourdieu
A teoria culturalista de Pierre Bourdieu (nasce em 1930) está ligada a uma sociologia de dominação social.
Parte da existência e da importância das classes nas sociedades ocidentais contemporâneas. Trata-se de um conceito de classes mais amplo e também mais subtil do que o conceito marxista de classes, que Bourdieu entende como sendo muito restrito e às vezes equívoco. Prefere, por isso, usar o conceito de campo social. A ‘nova’ teoria de classes define a classe não só pela sua posição econômica, mas igualmente pelo seu consumo cultural. É o acesso à cultura e o dispor de capital cultural que estratifica uma sociedade. O capital cultural tem uma função central para a compreensão de estratégias de reprodução social das classes. As instituições escolares conferem diplomas e certificados, e numa fase posterior títulos acadêmicos, e é através desta concretização, que o capital cultural se torna institucionalizado. O sistema educativo ganha assim importância, porque possibilita a conversão do capital cultural em capital econômico, dependente dos títulos académicos. O capital cultural institucionalizado é uma legitimação, uma vez que se trata de conhecimentos examinados e reconhecidos pelo estado. Para além do capital econômico e do capital cultural, Bourdieu fala ainda de capital social, que está ligado às noções de capital anteriormente explicadas, e também de capital simbólico. No caso do capital social trata-se de recursos para a integração em grupos sociais. Por capital simbólico entende-se a forma perceptível e reconhecida como legítima dos outros três capitais, geralmente designada com prestígio ou renome. O capital cultural institucionalizado por exemplo é uma manifestação do capital simbólico, porque um título acadêmico traz uma certa consideração social.
A escola limita-se a transmitir uma cultura que se aparenta em particular com a cultura da classe dominante, os símbolos que usa e veicula são símbolos desta classe. Esta cultura impõe-se como a cultura por excelência.
Outro instrumento importante para explicar a reprodução social é o ‘habitus’. Este conceito já foi usado por outros sociólogos e filósofos, mas Bourdieu aproxima-se dessa ideia de uma forma única. A teoria de habitus parte do princípio que cada pessoa é moldada e se caracteriza socialmente. O habitus abrange a apreensão, o pensamento e as ações que são esquematizados dentro da formação social. Bourdieu dá o nome de esquemas de disposição, que podem ser interpretados como um sentido de orientação, que ajuda a pessoa a guiar-se nos diversos campos sociais. Esta teoria está em forte oposição com as idéias do homem livre, que decide e age livremente. Bourdieu afirma, que nós agimos mecanicamente em ¾ das nossas ações. O habitus é transmitido desde a nascença através da socialização, i.e. depende fortemente da posição social e das condições gerais de vida da família. O habitus é incorporizado e torna-se algo evidente e ‘natural’. A relação entre habitus e campo social é muito estreita, uma vez que as estruturas incorporadas pelos indivíduos das diversas classes diferem bastante. Relativamente à escola e às desigualdades sociais percebe-se então a posição de Bourdieu, que afirma só existir formalmente uma igualdade entre os estudantes face à aquisição da cultura escolar, mas que essa aquisição difere segundo o meio de origem dos alunos.
A educação e o sistema educativo são fatores principais para a divisão de posições sociais, enquanto outros instrumentos reprodutivos (como por exemplo o direito de herança e o mercado de trabalho) são negligenciados.
Em relação à mobilidade social, o habitus tem um significado importante. Uma vez que este é definido pela situação social do indivíduo, determina as estratégias da reprodução social. Por as pessoas de uma dada classe disporem de um habitus semelhante, e também de estratégias reprodutivas semelhantes, as subidas individuais são raras. Mais comum é a subida no âmbito de uma classe como conjunto.
Bibliografia:
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Eurico Lemos Pires, A.Sousa Fernandes e João Formosinho, A Construção Social da Educação Escolar, Col. Biblioteca Básica de Educação e Ensino, Edições Asa, 1991
Sérgio Grácio, Sacuntala de Miranda e Stephen Stoer, Sociologia da Educação I e II, Livros Horizonte, Biblioteca do Educador Profissinal, 1982
Adelino Torres, Sociologia e Teorias Sociológicas, Ed. Regra do Jogo, Lisboa, 1980
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