Discurso Sobre a Origem da Desigualdade

Jean-Jacques Rousseau
DISCURSO
SOBRE ESTA QUESTÃO PROPOSTA PELA ACADEMIA DE DIJON:
QUAL É A ORIGEM DA DESIGUALDADE ENTRE OS HOMENS, E SE É AUTORIZADA PELA LEI NATURAL
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO
BIOGRAFIA DO AUTOR
DEDICATÓRIA
À Repúlica de Genebra
PREFÁCIO
DISCURSO SOBRE A DESIGUALDADE
PRIMEIRA PARTE
SEGUNDA PARTE
ADVERTÊNCIA SOBRE AS NOTAS
NOTAS
APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia, (in memoriam)
BIOGRAFIA DO AUTOR
DISCURSO
SOBRE ESTA QUESTÃO PROPOSTA PELA ACADEMIA DE DIJON:
QUAL É A ORIGEM DA DESIGUALDADE ENTRE OS HOMENS, E SE É AUTORIZADA PELA LEI NATURAL
DEDICATÓRIA
À República de Genebra
MAGNIFICOS, MUITO HONRADOS E SOBERANOS SENHORES,
(1)PREFÁCIO
O mais útil e o menos avançado de todos os conhecimentos humanos me parece ser o do homem
(2); e ouso dizer que só a inscrição do templo de Delfos continha um preceito mais importante e mais difícil do que todos os grossos livros dos moralistas. Considero, igualmente, o assunto deste discurso como uma das questões mais interessantes que a filosofia possa propor, e, desgraçadamente para nós, como uma das mais espinhosas que os filósofos possam resolver: com efeito, como conhecer a fonte da desigualdade entre os homens, se não se começar por conhecer os próprios homens? e como chegará o homem a se ver tal como o formou a natureza, através de todas essas transformações que a sucessão dos tempos e das coisas teve de produzir na sua constituição original, e a separar o que está no seu próprio natural do que as circunstâncias e o progresso acrescentaram ou modificaram em seu estado primitivo? Semelhante à estátua de Glauco, que o tempo, o mar e as tempestades tinham desfigurado tanto que se assemelhava menos a um deus do que a um animal feroz, a alma humana, alterada no seio da sociedade por mil causas sempre renascentes, pela aquisição de uma multidão de reconhecimentos e de erros, pelas mudanças verificadas na constituição dos corpos, e pelo choque contínuo das paixões, mudou por assim dizer de aparência, a ponto de ser quase irreconhecível, e nela só se encontra, em vez de um ser que age sempre por meio de princípios certos e invariáveis, em vez dessa celeste e majestosa simplicidade com a qual o seu autor a marcara, o disforme contraste da paixão que julga raciocinar e do entendimento em delírio.Quem te Deus esse
Jussit, et humana qua parte locatus es in re,
Disce.
Persa, Sat., III, V. 74.
DISCURSO SOBRE A ORIGEM E OS FUNDAMENTOS DA DESIGUALDADE ENTRE OS HOMENS
Non in depravatis, sed in his quoe bene
secundum naturam se habent, considerandum est
quid sit naturale.
Aristóteles, Política, livro I, cap. II.
É do homem que tenho de falar; e a questão que examino me
ensina que vou falar a homens; com efeito, não se propõem semelhantes questões
quando se teme honrar a verdade. Defenderei, pois, com confiança, a causa da
humanidade perante os sábios que a tal me convidam, e não ficarei descontente
comigo se me tornar digno do meu assunto e dos meus juizes.
Concebo na espécie humana duas espécies de desigualdade: uma, que chamo de
natural ou física, porque é estabelecida pela natureza, e que consiste na
diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidades do
espírito, ou da alma; a outra, que se pode chamar de desigualdade moral ou
política, porque depende de uma espécie de convenção, e que é estabelecida ou,
pelo menos, autorizada pelo consentimento dos homens. Consiste esta nos
diferentes privilégios de que gozam alguns com prejuízo dos outros, como ser
mais ricos, mais honrados, mais poderosos do que os outros, ou mesmo fazerem-se
obedecer por eles.
Não se pode perguntar qual é a fonte da desigualdade natural, porque a resposta
se encontraria enunciada na simples definição da palavra. Ainda menos se pode
procurar se haveria alguma ligação essencial entre as duas desigualdades, pois
isso eqüivaleria a perguntar, por outras palavras, se aqueles que mandam valem
necessariamente mais do que os que obedecem, e se a força do corpo e do
espírito, a sabedoria ou a virtude, se encontram sempre nos mesmos indivíduos em
proporção do poder ou da riqueza: questão talvez boa para ser agitada entre
escravos ouvidos por seus senhores, mas que não convém a homens razoáveis e
livres, que buscam a verdade.
De que, pois, se trata precisamente neste discurso? De marcar no progresso das
coisas o momento em que, sucedendo o direito à violência, a natureza foi
submetida à lei; explicar por que encadeamento de prodígios o forte pode
resolver-se a servir o fraco, e o povo a procurar um repouso em idéia pelo preço
de uma felicidade real.
Os filósofos que examinaram os fundamentos da sociedade sentiram a necessidade
de remontar até ao estado de natureza, mas nenhum deles aí chegou. Uns não
vacilaram em supor no homem desse estado a noção do justo e do injusto, sem se
inquietar de mostrar que ele devia ter essa noção, nem mesmo que ela lhe fosse
útil. Outros falaram do direito natural que cada qual tem de conservar o que lhe
pertence, sem explicar o que entendiam por pertencer. Outros, dando primeiro ao
mais forte autoridade sobre o mais fraco, fizeram logo nascer o governo, sem
pensar no tempo que se devia ter escoado antes que o sentido das palavras
autoridade e governo pudesse existir entre os homens. Enfim, todos, falando sem
cessar de necessidade, de avidez, de opressão, de desejos e de orgulho,
transportaram ao estado de natureza idéias que tomaram na sociedade: falavam do
homem selvagem e pintavam o homem civil. Não ocorreu mesmo ao espírito da maior
parte dos nossos duvidar que o estado de natureza tivesse existido, quando é
evidente, pela leitura dos livros sagrados, que o primeiro homem, tendo recebido
imediatamente de Deus luzes e preceitos, não estava também nesse estado, e que,
acrescentando aos escritos de Moisés a fé que lhes deve toda filosofia cristã, é
preciso negar que, mesmo antes do dilúvio, os homens jamais se encontrassem no
puro estado de natureza, a menos que, não tenham nele caído de novo por algum
acontecimento extraordinário: paradoxo muito embaraçante para ser defendido e
absolutamente impossível de ser provado.
Comecemos, pois, por afastar todos os fatos, pois não se ligam à questão. É
preciso não considerar as pesquisas, nas quais se pode entrar sobre este
assunto, como verdades históricas, mas, somente como raciocínios hipotéticos e
condicionais, mais próprios, para esclarecer a natureza das coisas do que para
mostrar a sua verdadeira origem, e semelhantes aos que todos os dias fazem os
nossos físicos sobre a formação do mundo. A religião nos ordena a crer que o
próprio Deus, tendo tirado os homens do estado de natureza imediatamente depois
da criação, eles são desiguais porque ele quis que o fossem; proíbe-nos, porém,
de formar conjecturas, tiradas somente da natureza do homem e dos seres que o
rodeiam, sobre o que poderia ter acontecido ao gênero humano se tivesse ficado
abandonado a si mesmo. Eis o que me perguntam e o que me proponho examinar neste
discurso. Como o meu assunto interessa o homem em geral, procurarei uma
linguagem que convenha a todas as nações; ou antes, esquecendo o tempo e os
lugares, para só pensar nos homens a quem falo, suponho-me no liceu de Atenas,
repetindo as lições dos meus mestres, tendo os Platão e os Xenócrates como
juizes e o gênero humano como ouvinte.
Oh homem, de qualquer região que sejas, quaisquer que sejam as tuas opiniões,
escuta: eis a tua história, tal como julguei lê-la, não nos livros dos teus
semelhantes, que são mentirosos, mas na natureza, que não mente nunca. Tudo o
que partir dela será verdadeiro; de falso só haverá o que eu acrescentar de meu
sem o querer. Os tempos de que vou falar são bem remotos: como estás diferente
do que eras! É, por assim dizer, a vida de tua espécie que te vou descrever
segundo as qualidades que recebeste, que tua educação e teus hábitos puderam
depravar, mas que não puderam destruir. Há, eu o sinto, uma idade na qual o
homem individual desejaria parar: tu procurarás a idade na qual desejarias que a
tua espécie parasse. Descontente do teu estado presente pelas razões que
anunciam à tua posteridade infeliz maiores descontentamentos ainda, talvez
quisesses retrogradar; e esse sentimento deve constituir o elogio dos teus
primeiros ancestrais, a crítica dos teus contemporâneos e o espanto dos que
tiverem a desgraça de viver depois de ti.
PRIMEIRA PARTE
Por mais importantes que seja, para bem julgar do estado natural do homem, considerá-lo desde a sua origem e o examinar, por assim dizer, no primeiro embrião da espécie, não seguirei sua organização através dos seus desenvolvimentos sucessivos: não me deterei a rebuscar no sistema animal o que teria podido ser no começo para se tornar enfim o que é. Não examinarei, como o supõe Aristóteles, se suas unhas alongadas não foram primeiro garras aduncas; se não era peludo como um urso; e se, ao andar de quatro patas
(3), o seu olhar dirigido para a terra e limitado a um horizonte de alguns passos não marcaria ao mesmo tempo o caráter e o limite de suas idéias. Eu só poderia formar sobre isso conjecturas vagas e quase imaginárias. A anatomia comparada fez ainda muito poucos progressos, e as observações dos naturalistas são ainda muito incertas, para que se possa estabelecer sobre tais fundamentos a base de um raciocínio sólido: assim, sem recorrer aos conhecimentos sobrenaturais que temos sobre esse ponto, e sem considerar as mudanças que deveriam sobrevir na conformação tanto interior como exterior do homem, à medida que ele aplicava seus membros em novos misteres e que se nutria de novos alimentos, hei de supô-lo sempre tal como o vejo hoje, andando com dois pés, servindo-se de suas mãos como fazemos com as nossas, dirigindo o olhar para toda a natureza e medindo com os olhos a vasta extensão do céu.Mollissima corda
Humano generi dare se natura fatetur,
Quoe lacrymas dedit.
Mandeville sentiu bem que, com toda a sua moral, os homens nunca teriam passado
de monstros, se a natureza não lhes desse a piedade em apoio da razão: mas não
viu que dessa única qualidade decorrem todas as virtudes sociais que quer
disputar aos homens. Efetivamente, que é a generosidade, a demência, a
humanidade, senão a piedade aplicada aos fracos, aos culpados, ou à espécie
humana em geral? Mesmo a amizade e a benevolência são, afinal de contas,
produções de uma piedade constante, fixada sobre um objeto particular: com
efeito, desejar que alguém não sofra, que outra coisa é senão desejar que seja
feliz? Mesmo que fosse verdade que a comiseração não passa de um sentimento que
nos põe no lugar daquele que sofre, sentimento obscuro e vivo no homem selvagem,
desenvolvido mas fraco no homem civilizado, que importaria essa idéia à verdade
do que digo, a não ser para lhe dar mais força? Efetivamente, a comiseração será
tanto mais enérgica quanto o animal espectador se identificar mais intimamente
com o animal sofredor. Ora, é evidente que essa identificação teve de ser
infinitamente mais estreita no estado de natureza que no estado de raciocínio. É
a razão que engendra o amor próprio, e é a reflexão que o fortifica; é ela que
faz o homem cair em si; é ela que o separa de tudo que o incomoda e o aflige. É
a filosofia que o isola; é por ela que ele diz em segredo, ao ver um homem que
sofre: "Morre, se queres; estou em segurança". Só os perigos da sociedade
inteira perturbam o sono tranqüilo do filósofo e o fazem levantar-se do leito.
Pode-se impunemente degolar o semelhante debaixo da janela; é só tapar os
ouvidos e argumentar um pouco, para impedir que a natureza, revoltando-se nele,
o identifique com aquele que se assassina. O homem selvagem não tem esse
admirável talento, e, por falta de sabedoria e de razão, vemo-lo sempre
entregar-se, aturdido, ao primeiro sentimento de humanidade. Nos motins, nas
brigas de rua, a populaça se aglomera, e o homem prudente se afasta; é a
canalha, são as mulheres dos mercados que separam os combatentes e impedem a
gente honesta de se degolar mutuamente.
É, pois, bem certo que a piedade é um sentimento natural, que, moderando em cada
indivíduo a atividade do amor de si mesmo, concorre para a conservação mútua de
toda a espécie. É ela que nos leva sem reflexão em socorro daqueles que vemos
sofrer; é ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de
virtude, com a vantagem de que ninguém é tentado a desobedecer à sua doce voz; é
ela que impede todo selvagem robusto de arrebatar a uma criança fraca ou a um
velho enfermo sua subsistência adquirida com sacrifício, se ele mesmo espera
poder encontrar a sua alhures; é ela que, em vez desta máxima sublime de justiça
raciocinada, Faze a outrem o que queres que te façam, inspira a todos os homens
esta outra máxima de bondade natural, bem menos perfeita, porém mais útil,
talvez, do que a precedente: Faze o teu bem com o menor mal possível a outrem.
Em uma palavra, é nesse sentimento natural, mais do que em argumentos sutis, que
é preciso buscar a causa da repugnância que todo homem experimentaria em fazer
mal, mesmo independentemente das máximas da educação. Embora possa competir a
Sócrates e aos espíritos da sua têmpera adquirir a virtude pela razão, há muito
tempo que o gênero humano não mais existiria se a sua conservação tivesse
dependido exclusivamente dos raciocínios dos que o compõem.
Com paixões tão pouco ativas e um freio tão salutar, os homens, mais ferozes do
que maus, e mais atentos em se preservar do mal que podiam receber do que
tentados a fazê-lo a outrem, não estavam sujeitos a contendas muito perigosas:
como não tinham entre si nenhuma espécie de comércio, e não conheciam, por
conseguinte, nem a vaidade nem a consideração, nem a estima, nem o desprezo;
como não tinham a menor noção do teu e do meu, nem nenhuma verdadeira idéia da
justiça; como encaravam as violências que podiam sofrer como um mal fácil de
reparar, e não como injúria que é preciso punir, e não pensavam mesmo em
vingança, senão talvez maquinal e imediatamente, como o cão que morde a pedra
que lhe atiram, suas disputas raramente teriam tido conseqüências sangrentas, se
não tivessem tido motivo mais sensível do que o alimento. Mas, vejo uma coisa
mais perigosa de que me resta falar.
Entre as paixões que agitam o coração do homem, há uma ardente, impetuosa, que
torna um sexo necessário ao outro; paixão terrível que arrosta todos os perigos,
derruba todos os obstáculos e, em seus furores, parece própria para destruir o
gênero humano, que ela é destinada a conservar. Em que se transformarão os
homens, presas desse furor desesperado e brutal, sem pudor, sem moderação, e se
disputando todos os dias o amor à custa de sangue?
É preciso convir, primeiro, que, quanto mais violentas as paixões, mais
necessárias são as leis para contê-las: mas, além das desordens e dos crimes que
as paixões causam todos os dias entre nós, mostrarem toda a insuficiência das
leis a esse respeito, seria bom examinar ainda se essas desordens não nasceram
com as próprias leis; porque, então, quando estas fossem capazes de as reprimir,
o menos que se deveria exigir delas seria fazer cessar um mal que não existiria
sem elas.
Comecemos por distinguir o moral do físico no sentimento do amor. O físico é
esse desejo geral que leva um sexo a se unir ao outro. O moral é o que determina
esse desejo e o fixa sobre um único objeto exclusivamente, ou que pelo menos lhe
dá, em relação a esse objeto preferido, um maior grau de energia. Ora, é fácil
ver que o moral do amor é um sentimento factício nascido dos costumes da
sociedade e celebrado pelas mulheres com muita habilidade e cuidado para
estabelecerem o seu império e tornar dominante o sexo que deveria obedecer.
Fundado sobre certas noções do mérito ou da beleza, que um selvagem não está em
condições de ter, e sobre comparações, que não está em estado de fazer, deve
esse sentimento ser quase nulo para ele: porque, como seu espírito não pode
formar idéias de regularidade e proporção, o coração também não é suscetível dos
sentimentos de admiração e de amor, os quais, mesmo que não se perceba, nascem
da aplicação dessas idéias: ele escuta unicamente o temperamento que recebeu da
natureza, e não o gosto que não pode adquirir, sendo toda mulher boa para ele.
Limitados somente à parte física do amor, e bastante felizes para ignorar essas
preferências que lhe irritam o sentimento e aumentam as dificuldades, os homens
devem sentir menos freqüente e menos vivamente os ardores do temperamento, e,
por conseguinte, ter entre si disputas mais raras e menos cruéis. A imaginação,
que faz tantos estragos entre nós, não fala a corações selvagens; cada um espera
pacificamente o impulso da natureza, a ele se entregando sem escolha, com mais
prazer do que furor; e, satisfeita a necessidade, todo o desejo se extingue.
É, pois, coisa incontestável que o próprio amor, como todas as outras paixões,
só na sociedade adquiriu esse ardor impetuoso que tantas vezes o torna funesto
aos homens; e é tanto mais ridículo imaginar os selvagens como se estrangulando
sem cessar para saciar a sua brutalidade, quanto essa opinião é diretamente
contrária à experiência, e os caraibas, de todos os povos existentes o que, até
aqui, menos se afastou do estado de natureza, são precisamente os mais pacíficos
nos seus amores e os menos sujeitos ao ciúme, embora vivendo num clima
escaldante, que parece dar a essas paixões uma atividade cada vez maior.
Relativamente às induções que se poderiam tirar, em várias espécies de animais,
dos combates dos machos que ensangüentam constantemente os nossos terreiros, ou
que, disputando a fêmea na primavera, fazem retumbar as florestas com seus
gritos, é preciso começar por excluir todas as espécies em que a natureza
estabeleceu manifestamente, na potência relativa dos sexos, relações que não há
entre nós: assim, as brigas dos galos não formam uma indução para a espécie
humana. Nas espécies em que a proporção é mais bem observada, esses combates só
podem ter como causa a raridade das fêmeas em relação ao número de machos, ou os
intervalos exclusivos durante os quais a fêmea recusa constantemente a
aproximação do macho, o que eqüivale à primeira causa; porque, se cada fêmea só
suporta o macho durante dois meses do ano, a esse respeito é como se o número
das fêmeas estivesse abaixo de cinco sextos. Ora, nenhum desses dois casos é
aplicável à espécie humana, em que o número de fêmeas ultrapassa, em geral, o
dos machos, em que nunca se observou, mesmo entre os selvagens, que as fêmeas
tenham, como as das outras espécies, épocas de calor e de exclusão. De resto,
entre muitos desses animais, toda a espécie entrando ao mesmo tempo em
efervescência, vem um momento terrível de ardor comum, de tumulto, de desordem e
de combate: momento que não existe para a espécie humana, na qual o amor nunca é
periódico. Não se pode concluir, pois, dos combates de certos animais pela posse
das fêmeas, que a mesma coisa acontecesse ao homem no estado de natureza; e,
ainda mesmo que se pudesse tirar essa conclusão, como essas dissenções não
destroem as outras espécies, deve-se pensar ao menos que não seriam mais
funestas à nossa espécie; e é muito aparente que elas causassem ainda menos
devastação do que na sociedade, principalmente nos países em que, sendo os
costumes ainda contados para alguma coisa, o ciúme dos amantes e a vingança dos
esposos causam todos os dias duelos, assassínios e coisas piores ainda; em que o
dever de uma eterna fidelidade só serve para provocar adultérios, e em que as
próprias leis da continência e da honra estendem necessariamente o deboche e
multiplicam os abortos.
Concluamos que, errando nas florestas, sem indústria, sem palavra, sem
domicílio, sem guerra e sem ligação, sem nenhuma necessidade dos seus
semelhantes, assim como sem nenhum desejo de os prejudicar, talvez mesmo sem
jamais se reconhecerem individualmente, o homem selvagem, sujeito a poucas
paixões e bastando-se a si mesmo, tinha somente os sentimentos e as luzes
próprias desse estado; que não sentia senão as suas verdadeiras necessidades,
não olhava senão o que acreditava ter interesse de ver; e que sua inteligência
não fazia mais progressos do que a sua vaidade. Se, por acaso, fazia alguma
descoberta, podia tanto menos comunicá-la do que nem mesmo reconhecia seus
filhos. A arte perecia com o inventor. Não havia educação nem progresso; as
gerações se multiplicavam inutilmente; e, partindo cada uma sempre do mesmo
ponto, os séculos se escoavam em toda a grosseria das primeiras idades; a
espécie já estava velha, e o homem conservava-se sempre criança.
Se me estendi tanto sobre a suposição dessa condição primitiva, é que, havendo
antigos erros e preconceitos inveterados que destruir, julguei dever cavar até à
raiz e mostrar, no quadro do verdadeiro estado de natureza, como a desigualdade,
mesmo natural, está longe de ter nesse estado tanta realidade e influência como
pretendem os nossos escritores.
Efetivamente, é fácil ver que, entre as diferenças que distinguem os homens,
muitas passam por naturais, quando são unicamente a obra do hábito e dos
diversos gêneros de vida adotados pelos homens na sociedade. Assim, um
temperamento robusto ou delicado, a força ou a fraqueza que disso dependem, vêm
muitas vezes mais da maneira dura ou efeminada pela qual foi educado do que da
constituição primitiva dos corpos. Acontece o mesmo com as forças do espírito, e
a educação não só estabelece diferença entre os espíritos cultivados e os que
não o são, como aumenta a que se acha entre os primeiros à proporção da cultura;
com efeito, quando um gigante e um anão marcham na mesma estrada, cada passo
representa nova vantagem para o gigante. Ora, se se comparar a diversidade
prodigiosa do estado civil com a simplicidade e a uniformidade da vida animal e
selvagem, em que todos se nutrem dos mesmos alimentos, vivem da mesma maneira e
fazem exatamente as mesmas coisas, compreender-se-á quanto a diferença de homem
para homem deve ser menor no estado de natureza do que no de sociedade; e quanto
a desigualdade natural deve aumentar na espécie humana pela desigualdade de
instituição.
Mas, quando a natureza afetasse, na distribuição dos seus dons, tantas
preferências como se pretende, que vantagem os mais favorecidos tirariam disso,
com prejuízo dos outros, em um estado de coisas que não admitiria quase nenhuma
espécie de relações entre eles? Onde não há amor, de que servirá a beleza? De
que serve o espírito a pessoas que não falam, e a astúcia às que não têm
negócios? Ouço sempre repetir que os mais fortes oprimirão os fracos. Mas, que
me expliquem o que querem dizer com a palavra opressão. Uns dominarão com
violência, outros gemerão sujeitos a todos os seus caprichos. Eis, precisamente,
o que se observa entre nós; mas, não vejo como se poderia dizer o mesmo dos
selvagens, a quem seria dificílimo fazer perceber o que é servidão e dominação.
Um homem poderá se apoderar dos frutos colhidos por outro, da caça que o outro
matou, do antro que lhe servia de asilo; mas, como poderá conseguir fazer-se
obedecer? e quais poderiam ser as cadeias da dependência entre homens que não
possuíam nada? Se me expulsam de uma árvore, estou livre para ir para outra; se
me atormentam em um lugar, quem me impedirá de passar para outro? Se encontro um
homem de força muito superior à minha, e, além disso, muito depravado, muito
preguiçoso e muito feroz, para me constranger a prover à sua subsistência
enquanto ele permanece ocioso, é preciso que ele se resolva a não me perder de
vista um só instante, que me deixe amarrado com grande cuidado enquanto dorme,
de medo que eu escape ou que o mate; isto é, fica obrigado a se expor
voluntariamente a um trabalho muito maior do que o que quer evitar, e do que o
que me dá a mim mesmo. Depois de tudo isso, sua vigilância se relaxa por um
momento, um barulho imprevisto fá-lo voltar a cabeça: dou vinte passos na
floresta, meus ferros se quebram, e nunca mais me tornará a ver.
Sem prolongar inutilmente esses detalhes, cada qual deve ver que, sendo os laços
da servidão formados exclusivamente da dependência mútua dos homens e das
necessidades recíprocas que os unem, é impossível sujeitar um homem sem o pôr
antes na situação de não poder passar sem outro homem; situação que, não
existindo no estado de natureza, deixa cada um livre do jugo e torna vã a lei do
mais forte.
Depois de haver provado que a desigualdade é apenas sensível no estado de
natureza, sendo a sua influência quase nula, resta-me mostrar sua origem e seus
progressos nos desenvolvimentos sucessivos do espírito humano. Depois de haver
mostrado que a perfectibilidade, as virtudes sociais e as outras faculdades que
o homem natural recebera em potencial, jamais podiam desenvolver-se por si
mesmas, que para isso tinham necessidade do concurso fortuito de muitas causas
estranhas, que poderiam não nascer nunca, e sem as quais é preciso ficar
eternamente na sua condição primitiva, resta-me considerar e aproximar os
diversos acasos que puderam aperfeiçoar a razão humana deteriorando a espécie,
tornar um ser mau fazendo-o social e, de um termo tão distante, conduzir enfim o
homem e o mundo ao ponto em que os vemos.
Confesso que os acontecimentos que tenho que descrever, tendo podido
manifestar-se de diversas maneiras, não me posso determinar sobre a escolha
senão por conjecturas, mas, além de que essas conjecturas se tornam razões
quando são as mais prováveis que se podem tirar da natureza das coisas e os
únicos meios que se podem ter para descobrir a verdade, as conseqüências que
quero deduzir das minhas não serão por isso conjecturais, pois, que, sobre os
princípios que acabo de estabelecer, não se poderia formar nenhum outro sistema
que me não forneça os mesmos resultados e do qual eu não possa tirar as mesmas
conclusões.
Isso me dispensará de estender minhas reflexões sobre a maneira pela qual o
lapso de tempo compensa o pouco de verosimilhança dos acontecimentos; sobre o
poder surpreendente das causas muito leves, quando agem sem interrupção; sobre a
impossibilidade em que estamos de destruir, de um lado, certas hipóteses, quando
do outro, nos achamos incapazes de lhes dar o grau de certeza dos fatos; sobre o
que, dados dois fatos como reais que ligar por uma série de fatos
intermediários, desconhecidos, ou observados como tais, cabe à história, quando
a temos, dar os fatos que os liguem; cabe à filosofia, na sua falta, determinar
os fatos semelhantes que os podem ligar; enfim, sobre o que, em matéria de
acontecimentos, a similitude reduz os fatos a um número muito menor de classes
diferentes do que se imagina. É-me suficiente oferecer esses objetos à
consideração dos meus juizes; é-me suficiente ter agido de maneira que os
leitores vulgares não tivessem necessidade de os considerar.
SEGUNDA PARTE
O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de
dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastantes simples para o acreditar, foi o
verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios,
misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as
estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: "Livrai-vos
de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de
todos, e a terra de ninguém !". Parece, porém, que as coisas já tinham chegado
ao ponto de não mais poder ficar como estavam: porque essa idéia de propriedade,
dependendo muito de idéias anteriores que só puderam nascer sucessivamente, não
se formou de repente no espírito humano: foi preciso fazer muitos progressos,
adquirir muita indústria e luzes, transmiti-las e aumentá-las de idade em idade,
antes de chegar a esse último termo do estado de natureza. Retomemos, pois, as
coisas de mais alto, e tratemos de reunir, sob um só ponto-de-vista, essa lenta
sucessão de acontecimentos e de conhecimentos na sua ordem mais natural.
O primeiro sentimento do homem foi o de sua existência; o seu primeiro cuidado,
o de sua conservação. As produções da terra lhe forneciam todos os socorros
necessários; o instinto o levou a fazer uso delas. A fome, outros apetites,
fazendo-o experimentar, alternativamente, diversas maneiras de existir, houve
uma que o convidou a perpetuar a sua espécie; e esse pendor cego, desprovido de
todo sentimento de coração, não produzia senão um ato puramente animal:
satisfeita a necessidade, os dois sexos nunca mais se reconheciam e o próprio
filho nada mais representava para a mãe logo que podia passar sem ela.
Tal foi a condição do homem ao nascer; tal foi a vida de um animal, limitada
primeiro às puras sensações e aproveitando apenas os dons que lhe oferecia a
natureza, longe de pensar em lhe arrancar alguma coisa. Mas, logo, surgiram
dificuldades; foi preciso aprender a vencê-las: a altura das árvores que o
impedia de alcançar os frutos, a concorrência dos animais que também procuravam
nutrir-se, a ferocidade dos que queriam a sua própria vida, tudo o obrigou a
aplicar-se aos exercícios do corpo; foi preciso tornar-se ágil, rápido na
carreira, vigoroso no combate. As armas naturais, que são os galhos das árvores
e as pedras, em breve estavam nas suas mãos. Aprendeu a vencer os obstáculos da
natureza, a combater quando necessário os outros animais, a disputar sua
subsistência aos próprios homens, ou a se compensar do que era preciso ceder ao
mais forte.
A medida que o gênero humano se estendia, as penas se multiplicavam com os
homens. A diferença dos terrenos, dos climas, das estações, forçou-os a
estabelecê-la na maneira de viver. Anos estéreis, invernos longos e rudes,
verões escaldantes, que tudo consomem, exigiram deles uma nova indústria. Ao
longo do mar e dos rios, inventaram a linha e o anzol, e se tornaram pescadores
e ictiófagos. Nas florestas, fizeram arcos e flechas, e se tornaram caçadores e
guerreiros. Nos países frios, cobriram-se de peles de animais por eles mortos. O
trovão, um visão, ou qualquer feliz acaso, lhes fez conhecer o fogo, novo
recurso contra o rigor do inverno: aprenderam a conservar esse elemento, depois
a reproduzi-lo, e enfim a preparar nele as carnes, que antes devoravam cruas.
Essa aplicação reiterada de seres diversos a si mesmos e de uns aos outros teve,
naturalmente, de engendrar, no espírito do homem, as percepções de certas
relações. Essas relações, que exprimimos pelas palavras grande, pequeno, forte,
fraco, depressa, devagar, medroso, ousado, e outras idéias semelhantes,
comparadas quando necessário, e quase sem nisso pensar, produziram nele,
finalmente, uma espécie de reflexão, ou antes, uma prudência maquinal que lhe
indicava as precauções mais necessárias à sua segurança. As novas luzes que
resultaram desse desenvolvimento aumentaram a sua superioridade sobre os outros
animais, fazendo-lhe conhecê-la. Exercitou-se em lhes preparar armadilhas,
logrou-os de mil maneiras; e, embora muitos o ultrapassassem em força no
combate, ou em ligeireza na corrida, daqueles que o podiam servir ou prejudicar,
tornou-se com o tempo o senhor de uns e o flagelo de outros. E, assim, o
primeiro olhar que lançou sobre si mesmo lhe produziu o primeiro movimento de
orgulho; assim, mal sabendo ainda distinguir as ordens e contemplando-se como o
primeiro por sua espécie, preparava-se já para pretender o mesmo como indivíduo.
Embora os seus semelhantes não fossem para ele o que são para nós, e embora não
tivesse mais comércio com eles do que com os outros animais, não foram
esquecidos nas suas observações. As semelhanças que o tempo lhe pode fazer
perceber entre eles, sua fêmea é ele mesmo, lhe fizeram julgar das que não
percebia; e, vendo que todos se conduziam como teria feito ele próprio em
circunstâncias semelhantes, concluiu que a sua maneira de pensar e de sentir era
inteiramente conforme à sua. E, essa importante verdade, bem estabelecida em seu
espírito, lhe fez seguir, por um pressentimento tão seguro e mais pronto do que
a dialética, as melhores regras de conduta que, para sua vantagem e segurança,
lhe convinha observar para com eles.
Instruído pela experiência de que o amor do bem-estar é o único móvel das ações
humanas, achou-se em estado de distinguir as raras ocasiões em que o interesse
comum lhe devia fazer contar com a assistência dos seus semelhantes, e as mais
raras ainda em que a concorrência lhe devia fazer desconfiar deles. No primeiro
caso, unia-se a eles em rebanho, ou quando muito por uma espécie de associação
livre que não obrigava a ninguém e que só durava enquanto havia a necessidade
passageira que a havia formado. No segundo, cada qual procurava tirar suas
vantagens, ou pela força aberta, se acreditava poder, ou pela astúcia e
sutileza, se se sentia mais fraco.
Eis como os homens puderam, insensivelmente, adquirir uma idéia grosseira dos
compromissos mútuos e da vantagem de os cumprir, mas somente na medida em que
podia exigi-lo o interesse presente e sensível; porque a previdência nada era
para eles; e, longe de se ocuparem com um porvir afastado, nem mesmo pensavam no
dia seguinte. Se se tratava de pegar um veado, cada qual sentia bem que, para
isso, devia ficar no seu posto; mas, se uma lebre passava ao alcance de algum, é
preciso não duvidar de que a perseguia sem escrúpulos e, uma vez alcançada a sua
presa, não lhe importava que faltasse a dos companheiros.
É fácil compreender que tal comércio não exigia uma linguagem mais refinada do
que a das gralhas ou a dos macacos que se reúnem em bandos mais ou menos
semelhantes. Gritos inarticulados, muitos gestos e alguns ruídos imitativos
deviam compor, durante muito tempo, a língua universal; acrescentem-se a isso,
em cada região, alguns sons articulados e convencionais, cuja instituição, como
já disse, não é muito fácil explicar, e temos línguas particulares, mas
grosseiras, imperfeitas e mais ou menos como as que ainda hoje têm diversas
nações selvagens.
Percorri, como um traço, multidões de séculos, forçado pelo tempo que se escoa,
pela abundância das coisas que tenho que dizer e pelo progresso quase insensível
dos começos; porque, quanto mais lentos em se suceder eram os acontecimentos,
tanto mais estão prontos para serem descritos.
Esses primeiros progressos colocaram, finalmente, o homem ao alcance de os fazer
mais rápidos. Quanto mais o espírito se esclarecia, tanto mais a indústria se
aperfeiçoava. Logo, deixando de adormecer na primeira árvore, ou de se retirar
nas cavernas, encontraram-se certas espécies de machados de pedras duras e
afiadas que serviram para cortar a madeira, cavar a terra e fazer cabanas de
galhos, que ocorreu, em seguida, endurecer com argila e barro. Foi a época de
uma primeira revolução que formou o estabelecimento e a distinção das famílias e
que introduziu uma espécie de propriedade, de onde já nasceram, talvez, muitas
rixas e combates. Entretanto, como os mais fortes foram, provavelmente, os
primeiros a fazer alojamentos que se sentiam capazes de defender, é de se
acreditar que os fracos tenham achado mais simples e mais seguro imitá-los do
que tentar desalojá-los: e, quanto aos que já tinham cabanas, cada qual pouco
procurou apropriar-se da do vizinho, menos porque lhe não pertencia do que lhe
era inútil, não podendo apossar-se dela sem se expor a um combate muito vivo com
a família que a ocupava.
Os primeiros desenvolvimentos do coração foram o efeito de uma situação nova que
reunia em uma habitação comum os maridos e as mulheres, os pais e os filhos. O
hábito de viver coletivamente fez nascer os mais doces sentimentos conhecidos
dos homens: o amor conjugal e o amor paternal. Cada família se torna uma pequena
sociedade tanto mais unida quanto o apego recíproco e a liberdade eram os seus
únicos laços; e foi então que se estabeleceu a primeira diferença na maneira de
viver dos dois sexos, que, até então só tinham tido uma. As mulheres tornaram-se
mais sedentárias e se acostumaram a guardar a cabana e os filhos, enquanto o
homem ia procurar a subsistência comum. Os dois sexos começaram também, por uma
vida um pouco mais suave, a perder alguma coisa da sua ferocidade e do seu
vigor. Mas, se cada um, separadamente, se tornou menos capaz de combater os
animais selvagens, em compensação foi mais fácil reunirem-se para lhes resistir
em comum.
Nesse novo estado, com uma vida simples e solitária, necessidades muito
limitadas e os instrumentos que haviam inventado para as prover, os homens,
gozando de bastante lazer, empregaram-no em procurar várias comodidades
desconhecidas dos seus pais; e foi o primeiro jugo que se impuseram sem pensar e
a primeira fonte de males que prepararam para os seus descendentes; porque, além
de continuarem assim a languescer o corpo e o espírito, tendo essas comodidades,
com o hábito, perdido quase todo o seu encanto e, ao mesmo tempo, degenerando em
verdadeiras necessidades, a privação delas se tornou muito mais cruel do que
doce era a sua posse; e, infeliz por tê-las perdido, não se era feliz
possuindo-as.
Aqui se pode ver, um pouco melhor, como o uso da palavra se estabeleceu ou se
aperfeiçoou insensivelmente no seio de cada família, e pode conjecturar-se ainda
como diversas causas particulares puderam desenvolver a linguagem e lhe acelerar
o progresso, tornando-a mais necessária. Grandes inundações ou terremotos
cercaram de águas ou de precipícios cantões habitados; revoluções do globo
desarticularam e cortaram em ilhas porções do continente. Concebe-se que, entre
homens assim aproximados e forçados a viver juntos, havia de se formar um idioma
comum, antes do que entre os que erravam livremente nas florestas da terra
firme. Assim, é muito possível que, após seus primeiros ensaios de navegação, os
insulares nos tenham trazido o uso da palavra; e é, pelo menos, muito verossímil
que a sociedade e as línguas tenham nascido das ilhas e nelas se aperfeiçoado
antes de serem conhecidas no continente. Tudo começa a mudar de face. Os homens,
até então errantes nos bosques, tendo agora situação mais fixa, aproximando-se
lentamente, reúnem-se em diversos grupos e formam, enfim, em cada região, uma
nação particular, unida pelos costumes e pelos caracteres, não pelos
regulamentos e pelas leis, mas pelo mesmo gênero de vida e pelos alimentos, e
pela influência comum do clima. Uma vizinhança permanente não pode deixar de
engendrar, enfim, alguma ligação entre diversas famílias. Jovens de diferentes
sexos habitam cabanas vizinhas; o comércio passageiro que a natureza exige logo
conduz a outro não menos doce e mais permanente pela mútua frequentação.
Adquire-se o hábito de considerar diferentes objetos e compará-los; adquirem-se,
insensivelmente, idéias de mérito e de beleza, que produzem sentimentos de
preferência. À força de se ver, não se pode mais passar sem se ver ainda. Um
sentimento terno e doce se insinua na alma e, pela menor oposição, se transforma
em furor impetuoso: o ciúme desperta com o amor, a discórdia triunfa, e a mais
doce das paixões recebe sacrifícios de sangue humano.
A medida que as idéias e os sentimentos se sucedem, que o espírito e o coração
se exercitam, o gênero humano continua a se domesticar, as ligações se estendem
e os laços se apertam. Adquire-se o hábito de se reunir diante das cabanas ou em
torno de uma grande árvore: o canto e a dança, verdadeiros filhos do amor e da
ociosidade, tornam-se divertimento, ou antes, ocupação dos homens e das mulheres
ociosos e agrupados. Cada um começa a olhar os outros e a querer ser olhado por
sua vez, e a estima pública tem um preço. Aquele que canta ou dança melhor, o
mais belo, o mais forte, o mais destro ou o mais eloqüente, torna-se o mais
considerado. E foi esse o primeiro passo para a desigualdade e para o vício, ao
mesmo tempo: dessas primeiras preferências nasceram, de um lado, a vaidade e o
desprezo e, de outro, a vergonha e a inveja; e a fermentação causada por esses
novos fermentos produziu, enfim, compostos funestos à felicidade e à inocência.
Logo que os homens começaram a se apreciar mutuamente, e que a idéia da
consideração se formou em seu espírito, cada um pretendeu ter direito a ela, e
não foi mais possível faltar com ela impunemente a ninguém. Daí surgiram os
primeiros deveres de civilidade, mesmo entre os selvagens; e daí, toda falta
voluntária tornou-se um ultraje, porque, com o mal que resultava da injúria, o
ofendido via nela também o desprezo à sua pessoa, muitas vezes mais insuportável
do que o próprio mal. Foi assim que, punindo cada qual o desprezo que se lhe
testemunhara de maneira proporcionada ao juízo que de si mesmo fazia, as
vinganças se tornaram terríveis, e os homens sanguinários e cruéis. Eis,
precisamente, o grau a que tinham chegado a maior parte dos selvagens que nos
são conhecidos; e, foi por não terem distinguido suficientemente as idéias e
notado como esses povos já estavam longe do primeiro estado de natureza, que
muitos se apressaram em concluir que o homem é naturalmente cruel e tem
necessidade de polícia para abrandá-lo; ao passo que não há nada tão doce como
ele em seu estado primitivo, quando, colocado pela natureza a distâncias iguais
da estupidez dos brutos e das luzes funestas do homem civilizado, e limitado,
igualmente, pelo instinto e pela razão, a se preservar do mal que o ameaça, é
impedido pela piedade natural de fazer mal a quem quer que seja, não sendo por
nada levado a isso, mesmo depois de o ter recebido. Porque, segundo o axioma do
sábio Locke, não pode haver injúria onde não há propriedade.
Mas, é preciso notar que a sociedade começada e as relações já estabelecidas
entre os homens exigiam neles qualidades diferentes das que tinham em sua
constituição primitiva; que a moralidade, começando a se introduzir nas ações
humanas, e cada um, antes das leis, sendo único juiz e vingador das ofensas
recebidas, a bondade conveniente ao puro estado de natureza não era mais a que
convinha à sociedade nascente; que era preciso que as punições se tornassem mais
severas à medida que as ocasiões de ofender se tornassem mais freqüentes; e que
ao terror das vinganças cabia fazer as vezes do freio das leis. Assim, embora os
homens se tivessem tornado menos tolerantes, e a piedade natural já tivesse
sofrido certa alteração, esse período do desenvolvimento das faculdades humanas,
guardando um justo meio entre a intolerância do estado de natureza e a petulante
atividade de nosso amor-próprio, devia ser a época mais feliz e mais durável.
Quanto mais se reflete sobre isso, mais se acha que esse estado, era o menos
sujeito às revoluções, o melhor para o homem
Attonitus novitate mali, divesqve, miserque,
Effugere optat opes, et quoe modo voverat odit.
Não é possível que os homens não tenham feito, enfim, reflexões sobre uma
situação tão miserável e sobre as calamidades que os afligiam. Os ricos,
principalmente, logo deviam sentir como lhes era desvantajosa uma guerra
perpétua cujas despesas só eles faziam, e na qual o risco de vida era comum,
assim como o dos bens particulares. Aliás, se alguma podiam dar às suas
usurpações, sentiam bastante que não eram estabelecidas senão sobre um direito
precário e abusivo, e que, só tendo sido adquiridas pela força, a força as podia
tirar sem que tivessem razão de se lastimar. Aqueles mesmos que só a indústria
havia enriquecido, não podiam fundar sua propriedade sobre melhores títulos. Bem
podiam dizer: "Fui, eu quem construiu este muro; ganhei este terreno com o meu
trabalho." - "E quem vos deu o material? - poder-se-ia responder-lhes - e em
virtude de que pretendeis ser pagos à nossa custa por um trabalho que não vos
impusemos? Ignorais que uma multidão de vossos irmãos perece ou sofre da
necessidade daquilo que tendes demais, e que precisaríeis de um consentimento
expresso e unânime do gênero humano para vos apropriardes de tudo que na
subsistência comum vai além da vossa?" Destituído de razões válidas para se
justificar e de forças suficientes para se defender; esmagando facilmente um
particular, mas esmagado ele mesmo por tropas de bandidos; só contra todos, e
não podendo, por causa das rivalidades mútuas, unir-se com seus iguais contra
inimigos unidos pela esperança comum da pilhagem, o rico, premido pela
necessidade, concebeu enfim, o projeto mais refletido que jamais entrara no
espírito humano: o de empregar em seu favor as próprias forças daqueles que o
atacavam, de tornar seus defensores os seus adversários, de lhes inspirar outras
máximas e de lhes dar outras instituições que lhe fossem tão favoráveis quanto
contrário lhe era o direito natural.
Tendo isso em vista, depois de expor aos seus vizinhos o horror de uma situação
que os armava a todos uns contra os outros, que lhes tornava as paixões tão
onerosas quanto as suas necessidades, e na qual ninguém se sentia em segurança
nem na pobreza nem na riqueza, inventou facilmente razões especiosas para os
conduzir ao seu objetivo. "Unamo-nos, - lhes disse, - para livrar da opressão os
fracos, conter os ambiciosos e assegurar a cada um a posse do que lhe pertence:
instituamos regulamentos de justiça e de paz, aos quais todos sejam obrigados a
se conformar, que não façam acepção de pessoas e que de certo modo reparem os
caprichos da, fortuna, submetendo igualmente o poderoso e o fraco a deveres
mútuos. Em uma palavra, em vez de voltar nossas forças contra nós mesmos,
reunamo-las em um poder supremo que nos governe segundo leis sábias, que proteja
e defenda todos os membros da associação, repila os inimigos comuns e nos
mantenha em uma eterna concórdia."
Foi preciso muito menos que o equivalente desse discurso para arrastar homens
grosseiros, fáceis de seduzir, que aliás tinham muitos negócios que resolver
entre si para poder passar sem árbitros, e muita avareza e ambição para poder
passar muito tempo sem senhores. Todos correram para as suas cadeias de ferro,
acreditando assegurar a própria liberdade; porque, com bastante razão para
sentir as vantagens de um estabelecimento público, não tinham bastante
experiência para prever os perigos que daí adviriam: os mais capazes de
pressentir os abusos eram precisamente aqueles que contavam tirar partido deles.
E os próprios sábios viram que era preciso se resolverem a sacrificar uma parte
de sua liberdade para a conservação da outra, como um ferido deixa que lhe
cortem um braço para salvar o resto do corpo.
Tal foi ou deve ter sido a origem da sociedade e das leis, que deram novos
entraves ao fraco e novas forças ao rico
Pectore si fratris gladium jugloque parentis
Condere me jubeas, gravidoeque in viscera partu
Conjugis, invita peragam tamen omnia dextra.
Lucan, lib. I, V. 376.
Da extrema desigualdade das condições e das fortunas, da diversidade das paixões
e dos talentos, das artes inúteis, das artes perniciosas, das ciências frívolas,
saíram multidões de preconceitos igualmente contrários à razão, à felicidade e à
virtude: ver-se-ia fomentar pelos chefes tudo o que pode enfraquecer homens
reunidos desunindo-os, tudo o que pode dar à sociedade um ar de concórdia
aparente e nela semear um germe de divisão real, tudo o que pode inspirar às
diferentes ordens uma desconfiança e um ódio mútuo pela oposição dos seus
direitos e dos seus interesses, e fortificar, por conseguinte, o poder que os
contém a todos. É do seio dessa desordem e dessas revoluções que o despotismo,
levantando gradativamente a cabeça hedionda, e devorando tudo o que teria
percebido de bom e de são em todas as partes do Estado, conseguiria finalmente
calcar aos pés as leis e o povo, e se estabelecer sobre as ruínas da república.
Os tempos que precederiam essa última mudança seriam tempos de perturbações e
calamidades; mas, por fim, tudo seria engolido pelo monstro, e os povos não
teriam mais chefes nem leis, porém tiranos exclusivamente. Desde esse instante,
também não se trataria de costumes e virtudes: porquanto por toda parte onde
reina, cui ex honesto nulla est spes, o despotismo não suporta nenhum outro
senhor; desde que ele fala, não há probidade nem dever que consultar, e a mais
cega obediência é a única virtude que resta aos escravos.
Aqui está o último termo da desigualdade, e o ponto extremo que fecha o círculo
e toca no ponto de onde partimos; é aqui que todos os particulares voltam a ser
iguais, porque nada são, e os súditos não tendo mais outra lei senão a vontade
do senhor, nem o senhor outra regra senão as suas paixões, as noções do bem e os
princípios da justiça desaparecem de ora em diante; é aqui que tudo conduz
exclusivamente à lei do mais forte, e, por conseguinte, a um novo estado de
natureza diferente daquele pelo qual começamos, sendo que um era o estado de
natureza na sua pureza, e este último é o fruto de um excesso de corrupção. Há
tão pouca diferença, aliás, entre esses dois estados, e o contrato de governo é
de tal modo dissolvido pelo despotismo, que o déspota não é senhor senão durante
o tempo em que é o mais forte; e, logo que o podem expulsar, não tem que
reclamar contra a violência. A sublevação que acaba por estrangular ou destronar
um sultão é um ato tão jurídico como aqueles pelos quais ele dispunha, na
véspera, das vidas e dos bens dos súditos. Só a força o mantinha, só a força o
derruba; todas as coisas se passam assim, segundo a ordem natural; e, qualquer
que possa ser o advento dessas curtas e freqüentes revoluções, ninguém se pode
queixar das injustiças de outrem, mas somente da sua própria imprudência ou da
sua desgraça.
Descobrindo e seguindo assim as estradas esquecidas e perdidas que do estado
natural deviam ter conduzido o homem ao estado civil; restabelecendo, com as
posições intermediárias que acabo de notar, as que o tempo limitado me faz
suprimir, ou que a imaginação me não sugeriu, todo leitor atento deverá ficar
impressionado com a distância imensa que separa esses dois estados. É nessa
lenta sucessão das coisas que verá a solução de uma infinidade de problemas de
moral e de política que os filósofos não podem resolver. Sentirá que o gênero
humano de uma idade, não sendo o gênero humano de outra idade, a razão por que
Diógenes não encontrava um homem, é que ele procurava entre os seus
contemporâneos o homem de um tempo que não existia mais. Catão, dirá ele,
pereceu com Roma e a liberdade porque esteve deslocado no seu século, e o maior
dos homens não fez senão assombrar o mundo que ele tivesse governado quinhentos
anos mais cedo. Em uma palavra, explicará como a alma e as paixões humanas,
alterando-se insensivelmente, mudam por assim dizer de natureza; porque as
nossas necessidades e os nossos prazeres mudam de objeto com o tempo; porque, o
homem original desvanecendo-se gradativamente, a sociedade não mais oferece aos
olhos do sábio senão um ajuntamento de homens artificiais e de paixões factícias
que são obra de todas essas novas relações, e não têm nenhum verdadeiro
fundamento na natureza. O que a reflexão nos ensina sobre isso, a observação o
confirma perfeitamente: o homem selvagem e o homem policiado diferem de tal modo
no fundo do coração e nas inclinações, que o que faz a felicidade suprema de um
reduziria o outro ao desespero. O primeiro só respira o repouso e a liberdade;
só quer viver e ficar ocioso, e a própria ataraxia do estóico não se aproxima da
sua indiferença profunda por qualquer outro objeto. Ao contrário, o cidadão,
sempre ativo, sua, agita-se, atormenta-se sem cessar para buscar ocupações ainda
mais laboriosas; trabalha até à morte, corre mesmo em sua direção para se pôr em
estado de viver, ou renuncia à vida para adquirir a imortalidade; faz a corte
aos grandes que odeia e aos ricos que despreza; nada poupa para obter a honra de
o servir; gaba-se orgulhosamente de sua baixeza e de sua proteção; e, vaidoso de
sua escravidão, fala com desdém daqueles que não têm a honra de a partilhar. Que
espetáculo para um caraiba os trabalhos penosos e invejados de um ministro
europeu! Quantas mortes cruéis não prefereria esse selvagem indolente ao horror
de vida semelhante, que muitas vezes nem mesmo é compensada pelo prazer de fazer
o bem! Mas, para ver o fim de tantos cuidados, seria preciso que as palavras
poder e reputação tivessem um sentido em seu espírito; que aprendesse que há uma
espécie de homens que contam para alguma coisa com os olhares do resto do
universo, que sabem ser felizes e contentes consigo mesmos com o testemunho de
outrem mais do que com o seu próprio. Tal é, com efeito, a verdadeira causa de
todas essas diferenças: o selvagem vive em si mesmo; o homem sociável, sempre
fora de si, não sabe viver senão na opinião dos outros, e é, por assim dizer,
exclusivamente do seu julgamento que tira o sentimento de sua própria
existência. Escapa ao meu tema mostrar como de tal disposição nasce tanta
indiferença pelo bem e o mal, com tão belos discursos de moral; como,
reduzindo-se tudo às aparências, tudo se torna factício e representado, honra,
amizade, virtude, e muitas vezes até os próprios vícios, cujo segredo de se
glorificar finalmente se encontra; como, em uma palavra, perguntando sempre aos
outros o que somos, e não ousando jamais interrogar-nos sobre isso nós mesmos,
no meio de tanta filosofia, humanidade, polidez, máximas sublimes, não temos
senão um exterior enganador e frívolo, honra, sem virtude, razão sem sabedoria,
e prazer sem felicidade. Basta-me ter provado que esse não é o estado original
do homem, e que só o espírito da sociedade e a desigualdade que ela engendra
modificam e alteram, assim, todas as nossas inclinações naturais.
Tratei de expor a origem e o progresso da desigualdade, o estabelecimento e o
abuso das sociedades políticas, tanto quanto essas coisas se podem deduzir da
natureza do homem pelas luzes exclusivas da razão, e independentemente dos
dogmas sagrados que dão à autoridade soberana a sanção do direito divino.
Resulta do exposto que a desigualdade, sendo quase nula no estado de natureza,
tira a sua força e o seu crescimento do desenvolvimento das nossas faculdades e
dos progressos do espírito humano, tornando-se enfim estável e legítima pelo
estabelecimento da propriedade e das leis. Resulta ainda que a desigualdade
moral, autorizada unicamente pelo direito positivo, é contrária ao direito
natural todas as vezes que não concorre na mesma proporção com a desigualdade
física. Essa distinção determina suficientemente o que se deve pensar, nesse
sentido, da espécie de desigualdade que reina entre todos os povos policiados,
pois é manifestamente contra a lei de natureza, de qualquer maneira que a
definamos, que uma criança mande num velho, que um imbecil conduza um homem
sábio, ou que um punhado de pessoas nade no supérfluo, enquanto à multidão
esfomeada falta o necessário.
ADVERTÊNCIA SOBRE AS NOTAS
Acrescentei algumas notas a esta obra, segundo o meu costume preguiçoso de
trabalhar com interrupções. Essas notas, às vezes, se afastam muito do assunto,
para que devam ser lidas com o texto. Transportei-as, pois, para o fim do
Discurso, no qual procurei seguir, tanto quanto me foi possível, o caminho mais
acertado. Os que tiverem coragem de recomeçar poderão divertir-se novamente
embrenhando-se na mata e tentando percorrer as notas: quanto aos outros, pouco
mal haverá em que de todo não as leiam.
NOTAS
(1). - Dedicatória. - Conta Heródoto que, após o assassínio do falso Esmerdis,
os sete libertadores da Pérsia, estando reunidos para deliberar sobre a forma do
governo que dariam ao Estado, Otanés opina fortemente pela república. Essa
opinião era tanto mais extraordinária na boca de um sátrapa quanto, além da
pretensão que ele podia ter ao império, os grandes temem mais do que a morte uma
espécie de governo que os force a respeitar os homens. Otanés, como bem se pode
crer, não foi ouvido; e, vendo que se ia proceder à eleição de um monarca, ele,
que não queria obedecer nem mandar, cedeu voluntariamente aos outros
concorrentes o seu direito à coroa, pedindo como única indenização que fosse
livre e independente com sua posteridade, o que lhe foi concedido. Quando
Heródoto não nos dissesse qual a restrição feita a esse privilégio, seria
necessário supô-la. Do contrário, Otanés não reconhecendo nenhuma espécie de lei
e não tendo que prestar contas a ninguém, teria sido poderoso no Estado e mais
poderoso do que o próprio rei. Mas, não havia aparência de que um homem capaz de
se contentar, em semelhante caso, com tal privilégio, fosse capaz de abusar
dele. Com efeito, não se vê que esse direito tenha causado jamais a menor
perturbação no reino, nem pelo sábio Otanés, nem por nenhum dos seus
descendentes.
(2). - Prefácio. - Desde os meus primeiros passos, eu me apoio, confiante, em
uma dessas autoridades respeitáveis para os filósofos, porque elas vêm de uma
razão sólida e sublime que só eles sabem encontrar e sentir.
"Algum interesse que tenhamos em nos conhecer a nós mesmos, não sei se não
conhecemos melhor tudo o que não somos. Providos pela natureza de órgãos
unicamente destinados à nossa conservação, não os empregamos senão para receber
as impressões estranhas: não procuramos senão nos expandir e existir fora do
nós: demasiado ocupados em multiplicar as funções dos nossos sentidos e em
aumentar a extensão exterior de nosso ser, raramente fazemos uso desse sentido
interior que nos reduz às nossas verdadeiras dimensões, e que separa de nós tudo
quanto não está em nós. Entretanto, desse sentido é que devemos servir-nos se
queremos conhecer-nos; é o único pelo qual podemos julgar-nos. Mas, como dar a
esse sentido sua atividade e toda a sua extensão? como desprender nossa alma, na
qual ele reside, de todas as ilusões do nosso espírito? Perdemos o hábito de
empregá-la, ficando ela sem exercício no meio do tumulto das nossas sensações
corporais e consumindo-se pelo fogo das nossas paixões. O coração, o espírito,
os. sentidos, tudo trabalhou contra ela." (HIST. NAT., Da Natureza do Homem.)
(3). - Discurso. - As transformações que um longo hábito de caminhar sobre dois
pés pode produzir na conformação do homem, as relações que ainda se observam
entre os seus braços e as pernas anteriores dos quadrúpedes, e a indução tirada
de sua maneira de andar, puderam fazer nascer dúvidas sobre .a que nos devia ser
mais natural. Todas as crianças começam a andar de quatro pés e têm necessidade
do nosso exemplo e das nossas lições para aprender a se manter de pé. Há mesmo
nações selvagens, tais como os hotentotes, que descuidam muito das crianças o as
deixam caminhar com as mãos tanto tempo que depois têm muita dificuldade em se
levantar. Assim também acontece com os filhos dos caraibas, nas Antilhas. Há
diversos exemplos de homens quadrúpedes, e eu poderia citar, entre outros, o da
criança que foi encontrada em 1344, perto de Hesse, onde havia sido nutrida por
lobos, e que dizia depois, na corte do príncipe Henrique, que, se não fosse
este, teria preferido voltar para junto deles a viver entre os homens. Adquirira
de tal modo o hábito de andar como esses animais que foi preciso lhe amarrarem
peças de maneira que a forçassem a se manter de pé e equilibrando-se nos dois
pés. Aconteceu o mesmo com a criança que foi encontrada em 1694 nas florestas da
Lituânia, e que vivia entre ursos. Não dava, diz Condillac, nenhum sinal de
razão, caminhava com pés e mãos, não possuía nenhuma linguagem e formava sons
que em nada se assemelhavam aos do homem. O pequeno selvagem de Hanovre, que foi
conduzido há muitos anos para a corte da Inglaterra, teve todos os sofrimentos
do mundo ao se sujeitar a caminhar sobre os dois pés; e encontraram-se, em 1719,
dois outros selvagens nos Pireneus, que corriam pelas montanhas à maneira de
quadrúpedes. Quanto ao que se poderia objetar, que é privar-se do uso das mãos
do que tiramos tantas vantagens, além do exemplo dos macacos que nos mostra que
a mão pode muito bem ser empregada das duas maneiras, isso provaria somente que
o homem pode dar a seus membros um destino mais cômodo do que o da natureza, e
não que a natureza destinou o homem a andar de modo diferente do que ensina.
Mas, há, ao que me parece, muito melhores razões para sustentar que o homem é um
bípede. Primeiramente, quando alguém fizesse ver que ele podia primeiro ser
conformado diferentemente do que o vemos e, entretanto, tornar-se finalmente o
que é, isso não seria o bastante para se concluir que foi assim, porque, depois
de haver mostrado a possibilidade dessas transformações, seria preciso ainda,
antes de as admitir, mostrar ao menos a sua verossimilhança. De resto, se os
braços do homem parecem ter podido servir-lhe de pernas quando necessário, é a
única observação favorável a esse sistema, sobre um grande número de outras que
lhe são contrárias. As principais são: que a maneira pela qual a cabeça do homem
está ligada ao corpo, em vez de dirigir sua vista horizontalmente, como todos os
outros animais e como ele mesmo caminhando de pé, teria, caminhando de quatro
pés, os olhos diretamente fixados no chão, situação muito pouco favorável à
conservação do indivíduo; que a cauda que lhe falta, e com a qual nada tem que
fazer caminhando com dois pés, é útil aos quadrúpedes e nenhum deles é dela
privado; que os seios da mulher, muito bem situados para um bípede, que carrega
o filho nos braços, ficariam tão mal para um quadrúpede que nenhum os tem
colocados dessa maneira; que a parte traseira, sendo de altura excessiva
proporcionalmente às pernas da frente, o que faz que, caminhando de quatro pés,
nos arrastemos sobre os joelhos, faria um animal mal proporcionado e caminhando
pouco comodamente; que, se o homem pousasse os pés inteiramente como as mãos,
teria nas pernas posteriores uma articulação menos do que os outros animais, a
saber, a que une a cana à tíbia; e que, só pousando a ponta do pé, como sem
dúvida seria constrangido a fazer, o tarso, sem falar da pluralidade dos ossos
que o compõem, pareceria muito grosso para ficar no lugar da cana, e as suas
articulações com o metatarso e a tíbia muito próximas para dar à perna humana,
nessa situação, a mesma flexibilidade que têm as dos quadrúpedes. O exemplo das
crianças, tomado numa idade em que as forças naturais ainda não estão
desenvolvidas, nem os membros consolidados, nada conclui; eu gostaria também de
dizer que os cães não estão destinados a caminhar, porque só se arrastam algumas
semanas depois do nascimento. Os fatos particulares têm ainda pouca força contra
a prática universal de todos os. homens, mesmo das nações que, não tendo tido
nenhuma comunicação com as outras, nada tinham podido imitar delas. Uma criança
abandonada em uma floresta antes do poder andar, e nutrida por qualquer animal,
terá seguido o exemplo de sua nutriz, exercitando-se a caminhar do mesmo modo; o
hábito lhe terá podido dar facilidades que não teve da natureza; e, assim como
os manetas conseguem, à força de exercício, fazer com os pés tudo quanto fazemos
com as mãos, ela conseguirá finalmente empregar as mãos em lugar dos pés.
(4). - Se, entre os meus leitores houvesse um físico bastante mau para me criar
dificuldades sobre a suposição dessa fertilidade natural da terra, eu lhe
responderia com a passagem seguinte:
"Como os vegetais tiram para a sua nutrição mais substâncias do ar e da água do
que da terra, acontece que, apodrecendo, restituem à terra mais do que dela
tiraram; aliás, uma floresta determina as águas da chuva detendo os vapores.
Assim, em um bosque conservado muito tempo sem ser tocado, a camada de terra que
serve para a vegetação aumentaria consideravelmente; mas, os animais, dando
menos à terra do que tiram dela, e os homens, consumindo enorme quantidade de
madeira e de plantas para o fogo e outros usos, resulta que a camada de terra
vegetal de um país habitado deve sempre diminuir o tornar-se enfim como o
terreno da Arábia Pétrea e como o de tantas províncias do Oriente, que é
efetivamente o clima mais antigamente habitado, onde só se encontram sal e
areia: porque o sal fixo das plantas e dos animais fica, ao passo que todas as
outras partes se volatilizam." (HIST. NAT, Provas da Teoria da Terra, art. 7.).
Pode-se acrescentar a isso a prova de fato pela quantidade de árvores e plantas
de toda espécie de que estão cheias quase todas as ilhas desertas, descobertas
nestes últimos séculos, e pelo que a história nos ensina das florestas imensas
que foi preciso abater em toda a terra à medida que se povoou e foi policiada
Sobre isso, farei ainda as três observações seguintes: a primeira é que, se há
uma espécie de vegetais que possam compensar o desperdício de matéria vegetal
que fazem os animais, segundo o raciocínio de Buffon, são principalmente os
bosques, cujas copas e folhas reúnem e possuem mais águas e vapores do que as
outras plantas; a segunda é que a destruição do solo, isto é, a perda da
substância própria à vegetação, deve acelerar-se à proporção que a terra é mais
cultivada, e que os habitantes mais industriosos consomem em maior abundância as
suas produções de toda espécie; e a terceira e mais importante observação é que
os frutos das árvores fornecem ao animal uma nutrição mais abundante do que os
outros vegetais. A experiência foi feita por mim mesmo, ao comparar os produtos
de dois terrenos iguais em grandeza e qualidade, um coberto de castanheiros e
outro semeado de trigo.
(5). - Entre os quadrúpedes, as duas distinções mais universais das espécies
vorazes se tiram, uma da forma dos dentes; e a outra da conformação dos
intestinos. Os animais que vivem exclusivamente de vegetais têm todos os dentes
chatos, como o cavalo, o boi, o carneiro, a lebre; mas, os vorazes os têm
pontudos, como o gato, o cão, o lobo, a raposa. E, quanto aos intestinos, os
frugívoros têm alguns, assim como o cólon, que não se encontram nos animais
vorazes. Parece, pois, que o homem, tendo os dentes e os intestinos como os têm
os animais frugívoros, deveria naturalmente ser incluído nessa classe; e não
somente as observações anatômicas confirmam essa opinião, mas os monumentos da
antigüidade lhe são ainda mais favoráveis. "Dicearco, diz São Jerônimo, refere,
nos seus livros das antigüidades gregas, que, sob o reino de Saturno, em que a
terra era ainda fértil, por si mesma, nenhum homem comia carne, mas viviam todos
de frutas e legumes que cresciam naturalmente." (Liv. II, adv. Jovinian.) Essa
opinião pode apoiar-se ainda nas narrativas de muitos viajantes modernos.
François Corréal testemunha, entre outros, que a maior parte dos habitantes das
Lucaias, que os espanhóis transportaram para as ilhas de Cuba, de São Domingos e
alhures, morreram por haver comido carne. Por aí se pode ver que negligencio
muitas vantagens que poderia fazer valer. Porque, sendo a presa quase o único
motivo de combate entre os animais carniceiros, e vivendo os frugívoros entre
eles em uma paz contínua, se a espécie humana fosse deste último gênero, claro
que teria tido muito mais facilidade de subsistir no estado do natureza, e muito
menos necessidade e ocasião de sair dele.
(6). - Todos os conhecimentos que pedem reflexão, todos os que só se adquirem
com o encadeamento das idéias e só se aperfeiçoam sucessivamente, parecem estar
inteiramente fora do alcance do homem selvagem, pela falta de comunicação com os
seus semelhantes, isto é, por falta do instrumento que serve para essa
comunicação e das necessidades que a tornam necessária. Seu saber e sua
indústria se limitam a saltar, correr, bater-se, lançar uma pedra, subir em uma
árvore. Mas, se só sabe essas coisas, em compensação as sabe muito melhor do que
nós, que não temos a mesma necessidade dela que ele. E, como dependem unicamente
do exercício do corpo, não sendo suscetíveis de nenhuma comunicação nem de
nenhum progresso de um indivíduo para outro, o primeiro homem pode ser nisso tão
hábil quanto os seus descendentes.
As narrativas dos viajantes estão cheias de exemplos da força e do vigor dos
homens nas nações bárbaras e selvagens; não gabam menos sua destreza e
agilidade; e, como basta ter olhos para observar essas coisas, nada impede que
nos mereça fé o que é certificado por testemunhas oculares. Tiro, ao acaso,
alguns exemplos dos primeiros livros que me vêm às mãos.
"Os hotentotes, diz Kolben, conhecem melhor a pesca do que os europeus do Cabo.
Sua habilidade é igual na rede, no anzol e no dardo, nas enseadas como nos rios.
Não apanham menos habilmente o peixe com a mão. São de destreza incomparável
para nadar. Sua maneira de nadar tem qualquer coisa de surpreendente e que lhes
é totalmente própria. Nadam com o corpo direito e as mãos estendidas para fora
d'água, de sorte que parecem andar na terra. Na maior agitação do mar e quando
as ondas formam montanhas, eles dançam de certo modo sobre o dorso das vagas,
subindo e descendo como um pedaço de cortiça. "Os hotentotes, diz ainda, o mesmo
autor, são de uma destreza surpreendente na caça, e a ligeireza de sua carreira
ultrapassa a imaginação." Admira que não façam mais freqüentemente um mau uso de
sua agilidade, o que contudo acontece algumas vezes, como se pode julgar pelo
exemplo que dá.
"Um marinheiro holandês, desembarcando no Cabo, encarregou, diz ele, um
hotentote de o acompanhar à cidade com um rolo de tabaco de cerca de vinte
libras. Quando os dois estavam a alguma distância da multidão, o hotentote
perguntou ao marinheiro se ele sabia correr. "Correr? - responde o holandês, -
sim, e muito bem.." - "Vejamos", respondeu o africano, e, fugindo, com o tabaco,
desapareceu quase imediatamente. O marinheiro, confundido com essa maravilhosa
rapidez, nem pensou em segui-lo, e nunca mais viu o tabaco nem o seu portador.
Têm eles a vista tão pronta e a mão tão certa que os europeus nem se aproximam.
A cem passos, acertam, com uma pedrada, num alvo do tamanho de meio soldo. E o
que há de mais espantoso é que, em vez de fixar como nós os olhos no alvo, fazem
movimentos e contorções contínuas. Parece que sua pedra é arremessada por uma.
mão invisível."
O padre Du Tertre diz, sobre os selvagens das Antilhas, mais ou menos as mesmas
coisas que se acabam de ler sobre os hotentotes do Cabo da Boa Esperança.
Exalta, sobretudo, a sua precisão em atirar com suas flechas em pássaros voando
e em peixes na água, que agarram, em seguida, mergulhando. Os selvagens da
América setentrional não são menos célebres pela força e destreza, e eis um
exemplo que poderá servir para avaliar a dos índios da América meridional.
No ano de 1746, um índio de Buenos Aires, tendo sido condenado às galés em
Cádiz, propôs ao governo resgatar sua liberdade expondo a vida em uma festa
pública. Prometeu que atacaria sozinho o mais furioso touro sem outra arma nas
mãos além de uma corda, e que o derrubaria, o seguraria com a corda pela parte
que fosse indicada, o selaria, por-lhe-ia freio, montaria nele e combateria,
montado, dois outros touros dos mais furiosos tirados do touril, matá-los-ia um
após outro no instante que isso lhe fosse ordenado e sem o auxílio de ninguém.
Foi atendido. O índio cumpriu a palavra e saiu-se bem em tudo quanto havia
prometido. sobre a maneira como se portou e detalhes do combate, pode-se
consultar o primeiro tomo in-12 das Observações sobre a História Natural, de
Gautier, de onde esse fato foi tirado, pag. 262.
(7). - "A duração da vida dos cavalos, diz Buffon, é, como em todas as outras
espécies de animais, proporcional à duração do tempo do seu crescimento. O
homem, que leva catorze anos a crescer, pode viver seis ou sete vezes esse
tempo, isto é, noventa ou cem anos, O cavalo, cujo crescimento se faz em quatro
anos, pode viver seis ou sete vezes tanto, isto é, vinte e cinco ou trinta anos.
Os exemplos que poderiam ser contrários a essa regra são tão raros que não devem
mesmo ser olhados como exceção de onde se possam tirar conclusões; e, como os
grandes cavalos crescem mais depressa do que os pequenos, vivem também menos
tempo, e ficam velhos com quinze anos." (HISTÓRIA NATURAL, Do Cavalo.)
(8). - Entre os animais carnívoros e os frugívoros, creio ver outra diferença
ainda mais geral do que a que referi na nota 5, pois se estende também aos
pássaros. Essa diferença consiste no número dos filhos, que não excede nunca de
dois de cada vez para as espécies que não vivem senão de vegetais, e que
ordinariamente ultrapassa esse número nos animais vorazes. É fácil conhecer, a
esse respeito, o destino da natureza pelo número das maminhas, duas em cada
fêmea da primeira espécie, como o jumento, a vaca, a cabra, a corça, a ovelha,
etc., e que é sempre de seis ou de oito nas outras fêmeas, como a cadela, a
gata, a loba, a onça, etc. A galinha, a gansa, a pata, que são todos animais
vorazes, assim como a águia, o gavião, o mocho, põem também e chocam grande
número de ovos, o que não acontece jamais com a pomba, a rola, nem com os
pássaros que só comem grãos, os quais não põem nem chocam mais de dois ovos de
cada vez. A razão que se pode dar a essa diferença é que os animais que só vivem
de ervas e plantas estão quase o dia todo pastando, e, sendo forçados a empregar
muito tempo a se nutrir, não dariam conta da nutrição dos seus filhotes, ao
passo que os vorazes, fazendo seu repasto quase em um instante, podem mais
facilmente e mais vezes ver os filhos e ir à caça, e reparar o gasto de uma
grande quantidade de leite. A respeito de tudo isso, haveria muitas observações
particulares e reflexões que fazer, mas não há aqui lugar para isso e me basta
haver mostrado, nesta pequena parte, o sistema mais geral da natureza, sistema
que fornece uma nova razão de tirar o homem da classe dos carnívoros e de o
colocar entre as espécies frugívoras.
(9). - Um autor célebre, calculando os bens e os males da vida humana, e
comparando as duas somas, achou que a última ultrapassa muito a primeira, e que
tomando o conjunto, a vida era para o homem um péssimo presente. Não fiquei
surpreendido com a conclusão; ele tirou todos os seus raciocínios da
constituição do homem civilizado. Se subisse até ao homem natural, pode-se
julgar que encontraria resultados muito diferentes; porque perceberia que o
homem só tem os males que se criou para si mesmo, o que à natureza se faria
justiça. Não foi fácil chegarmos a ser tão desgraçados. Quando, de um lado,
consideramos o imenso trabalho dos homens, tantas ciências profundas, tantas
artes inventadas, tantas forças empregadas, abismos entulhados, montanhas
arrasadas, rochedos quebrados, rios tornados navegáveis, terras arroteadas,
lagos cavados, pantanais dissecados, construções enormes elevadas sobre a terra,
o mar coberto de navios e marinheiros, e quando, olhando do outro lado,
procuramos, meditando um pouco as verdadeiras vantagens que resultaram de tudo
isso para a felicidade da espécie humana, só podemos nos impressionar com a
espantosa desproporção que reina entre essas coisas, e deplorar a cegueira do
homem, que, para nutrir seu orgulho louco, não sei que vã admiração de si mesmo,
o faz correr ardorosamente para todas as misérias de que é suscetível e que a
benfazeja natureza havia tomado cuidado em afastar dele.
Os homens são maus, uma triste e contínua experiência dispensa a prova;
entretanto, o homem é naturalmente bom, creio havê-lo demonstrado. Que será,
pois, que o pode ter depravado a esse ponto, senão as mudanças sobrevindas na
sua constituição, os progressos que fez e os conhecimentos que adquiriu? Que se
admire quanto se queira a sociedade humana, não será menos verdade que ela
conduz necessariamente os homens a se odiar entre si à proporção do crescimento
dos seus interesses, a se retribuir mutuamente serviços aparentes, e a se fazer
efetivamente todos os males imagináveis. Que se pode pensar de um comércio em
que a razão de cada particular lhe dita máximas diretamente contrárias àquelas
que a razão pública prega ao corpo da sociedade, e em que cada um tira os seus
lucros da desgraça do outro? Não há, talvez, um homem abastado ao qual os seus
herdeiros ávidos, e muitas vezes seus próprios filhos, não desejem a morte,
secretamente. Não há um navio no mar cujo naufrágio não constituísse uma boa
notícia para algum negociante; uma só casa que um devedor de má fé não quisesse
ver queimada com todos os documentos; um só povo que não se regozijasse com os
desastres dos vizinhos. É assim que tiramos vantagens do prejuízo dos nossos
semelhantes, e que a perda de um faz quase sempre a prosperidade do outro. Mas,
o que há de mais perigoso ainda é que as calamidades públicas são a expectativa
e a esperança de uma multidão de particulares: uns querem as moléstias, outros,
a mortalidade; outros, a guerra; outros, a fome. Vi homens horrorizados chorando
de dor ante as aparências de um ano fértil; e o grande e funesto incêndio de
Londres, que custou a vida e os bens a tantos desgraçados, fez a fortuna de mais
de dez mil pessoas.
Sei que Montaigne lastima o ateniense Dêmades por ter feito punir um operário
que, vendendo muito caro os caixões, ganhava muito com a morte dos cidadãos;
mas, sendo a razão que Montaigne alega a de que seria preciso punir toda a
gente, é evidente que confirma as minhas. Que se penetre, pois, através de
nossas frívolas demonstrações de benevolência, no que se passa no fundo dos
corações, e que se reflita no que deve ser um estado de coisas em que todos os
homens são forçados a se acariciar e a se destruir mutuamente, e em que nascem
inimigos por dever e velhacos por interesse. Se me respondem que a sociedade é
assim constituída, que cada homem ganha em servir aos outros, replicarei que
isso estaria muito bem se não ganhasse ainda mais para prejudicá-lo. Não há
proveito tão legítimo que não seja ultrapassado pelo que se pode fazer
ilegítimo, e o mal feito pelo próximo é sempre mais lucrativo que os serviços.
Não se trata, pois, senão de achar os meios de assegurar a impunidade, e é para
isso que os poderosos empregam todas as suas forças, e os fracos toda a sua
astúcia.
O homem selvagem, quando acabou de comer, está em paz com toda a natureza, e é
amigo de todos os seus semelhantes. Se, algumas vezes, tem de disputar seu
alimento, não chega nunca ao extremo sem ter antes comparado a dificuldade de
vencer com a de encontrar noutro lugar sua subsistência; e, como o orgulho não
se mistura ao combate, ele termina por alguns socos. O vencedor come o vencido
vai procurar fortuna noutra parte, e tudo está pacificado. Mas, no homem da
sociedade, é tudo bem diferente; trata-se, primeiramente, de prover ao
necessário, depois, ao supérfluo. Em seguida, vêm as delícias, depois as imensas
riquezas, e depois súditos e escravos. Não há um momento de descanso. O que há
de mais original é que, quanto menos as necessidades são naturais e prementes,
tanto mais as paixões aumentam, e o que é pior, o poder de as satisfazer. De
sorte que, após longas prosperidades, depois de haver devorado muitos tesouros e
desolado muitos homens, meu herói acabará por tudo arruinar, até que seja o
único senhor do universo. Tal é, abreviadamente, o quadro moral, senão da vida
humana, pelo menos das pretensões secretas do coração de todo homem civilizado.
Comparai, sem preconceitos, o estado do homem civilizado com o do homem
selvagem, e investigai, se o puderdes, como além da sua maldade, suas
necessidades e suas misérias, o primeiro abriu novas portas à miséria e à morte.
Se considerardes os sofrimentos do espírito que nos consomem, as paixões
violentas que nos esgotam e nos desolam, os trabalhos excessivos de que os
pobres estão sobrecarregados, a moleza ainda mais perigosa à qual os ricos se
abandonam, uns morrendo de necessidades e outros de excessos; se pensardes nas
monstruosas misturas de alimentos, na sua perniciosa condimentação, nos
alimentos corrompidos, nas drogas falsificadas, nas velhacarias dos que as
vendem, nos erros daqueles que as administram, no veneno do vasilhame no qual
são preparadas; se prestardes atenção nas moléstias epidêmicas oriundas da falta
de ar entre multidões de seres humanos reunidos, nas que ocasionam a nossa
maneira delicada do viver, as passagens alternadas de nossas casas para o ar
livre, o uso de roupas vestidas ou despidas sem precauções, e todos os cuidados
que a nossa sensualidade excessiva transformou em hábitos necessários, e cuja
negligência ou privação nos custa imediatamente a vida ou a saúde; se puserdes
em linha de conta os incêndios e os tremores de terra que, consumindo ou
derrubando cidades inteiras, fazem morrer os habitantes aos milhares; em uma
palavra, se reunirdes os perigos que todas essas causas acumulam continuamente
sobre nossas cabeças, sentireis como a natureza nos faz pagar caro o desprezo
que temos dado às suas lições.
Não repetirei aqui o que já disse da guerra em páginas anteriores. Mas,
desejaria que as pessoas instruídas quisessem ou ousassem dar em público os
detalhes dos horrores cometidos, nos exércitos, pelos empresários dos víveres e
dos hospitais: veríamos que suas manobras, não muito secretas, pelas quais os
mais brilhantes exércitos se fundem em menos do que nada, fazem morrer mais
soldados do que os ceifa o ferro inimigo. E ainda um cálculo não menos espantoso
o dos homens que o mar engole todos os anos, pela fome, pelo escorbuto, pelos
piratas, pelo fogo, pelos naufrágios. É claro que também é preciso assinalar por
conta da propriedade estabelecida, o como conseqüência da sociedade, os
assassínios, os envenenamentos, os roubos avultados, as próprias punições desses
crimes, punições necessárias para prevenir maiores males, porém que, pelo
assassínio do um homem, custando a vida a dois ou mais, não deixam de dobrar
realmente a perda da espécie humana. Quantos meios vergonhosos de impedir o
nascimento dos homens e de enganar a natureza: ou por esse gosto brutal e
depravado que insulta a sua mais encantadora obra, gosto que os selvagens e os
animais jamais conheceram, e que só nasce nos países policiados e da imaginação
corrompida; ou por meio de abortos secretos, dignos frutos do deboche e da honra
viciosa; ou pela exposição ou o assassínio de uma multidão de crianças, vítimas
da miséria dos pais, ou. da vergonha bárbara das mães; ou, enfim, pela mutilação
desses desgraçados, dos quais uma parte da existência e toda a posteridade são
sacrificadas a vãs canções, ou, o que é ainda pior, ao brutal ciúme de alguns
homens, mutilação que, neste último caso, ultraja duplamente a natureza, pelo
tratamento que recebem aqueles que a suportam e pelo uso a que são destinados!.
Mas, não há milhares de casos mais freqüentes e mais perigosos ainda, em que os
direitos paternos ofendem abertamente a humanidade? Quantos talentos enterrados
e inclinações forçadas pelo imprudente constrangimento dos pais! quantos homens
ter-se-iam distinguido em um estado apropriado, que morrem desgraçados e
desonrados em outro estado para o qual não tinham nenhuma aptidão nem gosto!
quantos casamentos felizes, mas desiguais foram rompidos ou perturbados, e
quantas esposas castas desonradas, por essa ordem de condições sempre em
contradição com a da natureza! quantas outras uniões esquisitas formadas pelo
interesse e desaprovadas pelo amor e pela razão! quantos esposos honestos e
virtuosos mutuamente se proporcionam suplícios por se terem escolhido mal!
Quantas jovens e desgraçadas vítimas da avareza dos pais mergulham no vício ou
passam seus tristes dias chorando e gemendo dentro desses laços indissolúveis,
que o coração repele e só o ouro formou! Felizes aqueles cuja coragem e virtude
os arrebatam à vida, antes que uma violência bárbara os force a passar ao crime
ou ao desespero! Perdoai-me, pai e mãe para sempre deploráveis: com pesar
aumento vossas dores; mas, possam elas servir de exemplo eterno e terrível a
quem quer que ouse, em nome mesmo da natureza, violar o mais sagrado dos seus
direitos!
Se não falei senão desses nós mal formados que são a obra da nossa polícia,
pensa-se que aqueles a que o amor e a simpatia presidiram estejam isentos de
inconvenientes? E se eu empreendesse mostrar a espécie humana atacada na sua
própria fonte, e até no mais sagrado de todos os laços, em que não se ousa mais
escutar a natureza senão depois de haver ouvido a fortuna, e em que, a desordem
civil confundindo as virtudes o os vícios, a continência se torna uma precaução
criminosa, e a recusa de dar a vida a seu semelhante um ato de humanidade! Mas,
sem despedaçar o véu que cobre tantos horrores, contentemo-nos de indicar o mal
ao qual outros devem trazer remédio.
Que se acrescente a tudo isso essa quantidade da ofícios malsãos que abreviam os
dias e destroem o temperamento, tais como os trabalhos das minas, as diversas
preparações dos metais, dos minerais, principalmente do chumbo, do cobre, do
mercúrio, do cobalto, do arsênico, do rosalgar; esses outros ofícios perigosos
que todos os dias custam a vida de uma porção de operários, uns entelhadores,
outros carpinteiros, outros pedreiros, outros trabalhadores de pedreira; que se
reunam, repito, todos esses objetos, e se poderão ver, no estabelecimento e
perfeição das sociedades, as razões da diminuição da espécie, observada por mais
de um filósofo.
O luxo, impossível de prevenir entre os homens ávidos de suas próprias
comodidades e da consideração dos outros, acaba logo o mal que as sociedades
começaram; e, sob o pretexto de fazer viver os pobres, o que não era preciso,
empobrece todo o resto e despovoa o Estado, cedo ou tarde.
O luxo é um remédio muito pior do que o mal que pretende curar; ou antes, é ele
mesmo o pior dos males, em qualquer Estado, grande ou pequeno, e que, para
nutrir as multidões de criados e de miseráveis que fez, acabrunha e arruina o
trabalhador e o cidadão: como esses ventos escaldantes do sul que, cobrindo as
ervas e verduras de insetos devoradores, tiram a subsistência dos animais úteis
e levam a fome e a morte a todos os lugares em que se fazem sentir.
Da sociedade e do luxo que ela engendra, nascem as artes liberais e mecânicas, o
comércio, as letras, e todas essas inutilidades que fazem florescer a indústria,
enriquecem e perdem os Estados. A razão desse deperecimento é muito simples. É
fácil ver que, pela sua natureza, a agricultura deve ser a menos lucrativa de
todas as artes, porque, sendo o seu produto de uso mais indispensável para todos
os homens, o preço deve estar proporcionado às faculdades dos mais pobres. Do
mesmo princípio pode-se tirar a regra de que, em geral, as artes são lucrativas
na razão inversa da sua utilidade, e de que as mais necessárias, finalmente,
devem tornar-se as mais negligenciadas. Por ai se vê o que se deve pensar das
verdadeiras vantagens da indústria e do efeito real que resulta dos seus
progressos. Tais são as causas sensíveis de todas as misérias em que a opulência
precipita, finalmente, as nações mais admiradas. À medida que a indústria e as
artes se estendem e florescem, o cultivador desprezado, carregado de impostos
necessários à manutenção do luxo, e condenado a passar a vida entre o trabalho e
a fome, abandona o campo para ir procurar na cidade o pão que devia levar para
lá. Quanto mais as capitais impressionam de admiração os olhos estúpidos do
povo, tanto mais seria preciso lastimar o abandono dos campos, as terras
incultas e as estradas cheias de cidadãos desgraçados transformados em mendigos
ou ladrões, e destinados um dia a acabar a sua miséria pelos caminhos ou sobre
um monte de esterco. É assim que o Estado se enriquece por um lado, e se
enfraquece e se despovoa, por outro, e que as mais poderosas monarquias, após
muitos trabalhos para se tornarem opulentas e desertas, acabam por se tornar a
presa de nações pobres que sucumbem à funesta tentação de as invadir, e que são
invadidas e enfraquecem por sua vez, até que elas mesmas sejam invadidas e
destruídas por outras.
Que se dignem explicar-nos o que teria podido produzir essas nuvens de bárbaros
que, durante tantos séculos, inundaram a Europa, a Ásia e a África. Seria à
industria de suas artes, à excelência do sua polícia, que deviam essa prodigiosa
população? Que os nossos sábios nos digam porque, longe de ir a tal ponto, esses
homens ferozes, brutais, sem luzes, sem freio, sem educação, não se
estrangulavam todos a cada instante, para disputar o alimento ou a caça. Que nos
expliquem como esses miseráveis tiveram somente a ousadia de olhar em face tão
hábeis pessoas como somos, com tão bela disciplina militar, tão belos códigos e
tão sábias leis. Enfim, porque, depois que a sociedade se aperfeiçoou nos países
do Norte e se teve tanto trabalho para ensinar aos homens seus deveres mútuos e
a arte de viver agradável e pacificamente em conjunto, não se vê mais nada sair
de semelhante a essas multidões de homens que produziam outrora. Receio muito
que alguém se lembre, por fim, de me responder que todas essas grandes coisas, a
saber, as artes, as ciências e as leis, foram muito sabiamente inventadas pelos
homens como uma peste salutar para prevenir a excessiva multiplicação da
espécie, com medo de que este mundo acabasse se tornando muito pequeno para os
seus habitantes.
Pois bem! será preciso destruir as sociedades, aniquilar o teu e o meu, e voltar
a viver nas florestas com os ursos? conseqüência à maneira dos meus adversários,
que prefiro prevenir a lhes deixar a vergonha de a concluir. Oh vós, para quem a
voz celeste não se fez ouvir, e que não reconheceis para vossa espécie outro
destino senão o de acabar em paz esta curta vida; vós, que podeis deixar no meio
das cidades vossas funestas aquisições, vossos espíritos inquietos, vossos
corações corrompidos e vossos desejos desenfreados, retomai, pois que depende de
vós, vossa antiga e primeira inocência; ide para os bosques perder a vista e a
memória dos crimes dos vossos contemporâneos, e não receeis aviltar vossa
espécie renunciando às suas luzes para renunciar aos seus vícios.
Quanto aos homens semelhantes a mim, cujas paixões destruíram para sempre a
original simplicidade, que não podem mais nutrir-se de ervas e de sementes, nem
passar sem leis e sem chefes; àqueles que foram honrados em seu primeiro pai com
lições sobrenaturais; àqueles que hão de ver, na intenção de dar primeiro às
ações humanas uma moralidade que não tivessem adquirido de há muito, a razão do
um preceito indiferente por si mesmo e inexplicável em qualquer outro sistema;
àqueles, eis uma palavra, que estão convencidos de que a voz divina chamou todo
o gênero humano para as luzes o para a felicidade das celestes inteligências, -
todos esses tratarão de merecer, pelo exercício das virtudes que se obrigar, a
praticar aprendendo a conhecê-las, o prêmio eterno que devem esperar;
respeitarão os sagrados laços das sociedades, de que são membros; amarão seus
semelhantes e os servirão com todo o seu poder; obedecerão escrupulosamente às
leis e aos homens, que são os seus autores e ministros; honrarão principalmente
os bons e sábios príncipes que saberão prevenir, curar ou fazer desaparecer essa
multidão de abusos e de males sempre prestes a nos acabrunhar; animarão o zelo
desses chefes dignos, mostrando-lhes sem temor e sem adulação a grandeza de sua
tarefa e o rigor do seu dever; mas, não desprezarão menos uma constituição que
não se pode manter senão com o auxílio de tanta gente respeitável que em geral
se deseja mais do que se obtém, e da qual, apesar de tantos esforços, nascem
sempre mais calamidades reais do que vantagens aparentes.
(10). - Entre os homens que conhecemos, ou por nós mesmos, ou pelos
historiadores, ou pelos viajantes, uns são negros, outros brancos, outros
vermelhos; uns têm cabelos longos, outros apenas uma lã frisada; uns são quase
completamente peludos, outros nem mesmo têm barba. Houve, e há ainda, talvez,
nações de homens de altura gigantesca; e, pondo do parte a fábula dos pigmeus,
que bem pode não passar de exagero, sabe-se que os lapões, e principalmente os
groenlandeses, estão muito abaixo do talhe médio dos homens. Pretende-se mesmo
que há povos inteiros com caudas, como os quadrúpedes. E, sem acreditar
cegamente nas narrativas de Heródoto e de Ctésias, pode-se pelo menos deduzir a
opinião muito verossímil de que, se se tivessem podido fazer boas observações
nos velhos tempos em que os diversos povos seguiram maneiras de viver mais
diferentes entre si do que hoje, ter-se-iam também notado, no rosto e na
compleição do corpo, variedades muito mais impressionantes. Todos esses fatos,
de que é fácil fornecer provas incontestáveis, só podem surpreender os que estão
acostumados a olhar somente os objetos que os rodeiam, ignorando os poderosos
efeitos da diversidade dos climas, do ar, dos elementos, da maneira de viver,
dos hábitos em geral, e principalmente a força espantosa das mesmas causas,
quando atuam continuamente sobre longas séries de gerações. Hoje, que o
comércio, as viagens e as conquistas reúnem mais os diversos povos, e que suas
maneiras de viver se aproximam sem cessar pela freqüente comunicação, percebe-se
que certas diferenças nacionais diminuíram; e, por exemplo, cada qual pode
observar que os franceses de hoje não são mais aqueles grandes corpos brancos e
louros descritos pelos historiadores latinos, embora o tempo, com a fusão dos
francos e normandos, brancos e louros, também devesse restabelecer o que a
frequentação dos romanos tivesse podido tirar à influência do clima, na
constituição natural e cor dos habitantes. Todas essas observações, sobre as
variedades que milhares de causas podem produzir e efetivamente produziram na
espécie humana, me fazem duvidar se diversos animais semelhantes aos homens, que
os viajantes sem mais exame tomaram como animais, ou por causa de algumas
diferenças que haviam notado na conformação exterior, ou somente porque esses
animais não falavam, não seriam de fato verdadeiros homens selvagens, cuja raça,
dispersa remotamente nos bosques, não tivera ocasião de desenvolver nenhuma de
suas faculdades virtuais, nem adquirira nenhum grau de perfeição, achando-se
ainda no estado primitivo de natureza. Demos um exemplo do que quero dizer.
"Encontra-se, diz o tradutor da Histórias das Viagens, no vêem-se duas espécies
de monstros, sendo os maiores chamados orangotangos nas Índias orientais, que
constituem como que o meio termo entre a espécie humana e os babuínos. Battel
conta que, nas florestas de Maiomba, no reino de Loango, vêem-se duas espécies
de monstros, sendo os maiores chamados pongos e os outros enjocos. Os primeiros
assemelham-se exatamente ao homem, mas são muito mais corpulentos e de talhe
muito alto. Com rosto humano, têm olhos muito fundos. As mãos, faces e orelhas
não têm pêlo, à exceção das sobrancelhas, que a têm muito longas. Embora tenham
o resto do corpo muito peludo, o pêlo não é muito espesso, e sua cor é castanha.
Enfim, a única parte que os distingue dos homens é a perna, que não tem barriga.
Andam direitos, segurando com a mão o pêlo do pescoço; seu esconderijo é nos
bosques; dormem acima das árvores e fazem para si uma espécie de teto que os
resguarda da chuva. Alimentam-se de frutas e nozes silvestres. Jamais comem
carne. Os negros que atravessam as florestas costumam acender fogos durante a
noite; notam que de manhã, quando partem, os pongos tomam-lhes o lugar em torno
do fogo, só se retirando quando o fogo se extingue; porque, embora tenham muita
habilidade, não têm bastante senso para o entreter pondo nele a lenha.
"Andam algumas vezes em rebanho, e matam os negros que atravessam as florestas.
Atacam até os elefantes que vão pastar nos lugares por eles habitados, e os
maltratam tanto com murros e pauladas que os forçam a fugir soltando gritos.
Jamais se pegam pongos vivos, porque são tão robustos que dez homens não seriam
bastantes para os segurar: mas, os negros apanham muitos dos mais novos, depois
de matar-lhes a mãe, ao corpo da qual o menorzinho se agarra fortemente. Quando
um desses animais morre, os outros lhe cobrem o corpo com uma porção do ramos e
folhagens. Purchase acrescenta que, conversando com Battel, dele soubera que um
pongo lhe roubara um negrinho, o qual passou um mês inteiro na sociedade desses
animais; porque não fazem nenhum mal aos homens que surpreendem, pelo menos
quando estes não os olham, como o negrinho observou. Battel não descreveu a
segunda espécie de monstros.
"Drapper confirma que o reino do Congo está cheio desses animais conhecidos nas
Índias pelo nome de orangotangos, isto é, habitantes dos bosques, o que os
africanos chamam de quojas morros. Esse animal, diz ele, é tão semelhante ao
homem que alguns viajantes se convenceram de que poderia ser filho de uma mulher
e de um macaco: quimera que os próprios negros rejeitam. Um desses animais foi
transportado do Congo para a Holanda e apresentado ao príncipe de Orange,
Frederico Henrique. Era da altura de uma criança de três anos, de gordura
medíocre, mas quadrado e bem proporcionado, muito ágil e muito vivo, as pernas
carnudas e robustas, toda a frente do corpo sem pêlos, mas com as costas
cobertas de pêlos negros. A primeira vista, seu rosto assemelhava-se ao de um
homem, mas tinha o nariz chato e recurvado; as orelhas eram também as da espécie
humana; o seio, pois era uma fêmea, era carnudo, o umbigo profundo, os ombros
bem juntos, as mãos divididas em dedos e com polegar, a barriga da perna e os
calcanhares gordos e carnudos. Caminhava, muitas vezes, direito, sobre as
pernas, e era capaz de levantar e carregar fardos muito pesados. Quando queria
beber, pegava com uma das mãos a tampa do vaso e com a outra o fundo, e em
seguida enxugava graciosamente os lábios. Para dormir, deitava a cabeça em um
travesseiro, cobrindo-se tão bem que podia ser tomado por um homem no leito. Os
negros contam estranhas histórias desse animal: asseguram não somente que ele
força as mulheres e as raparigas, mas que ousa atacar homens armados. Em uma
palavra, há muita aparência de que seja o sátiro dos antigos. Merolla só faia
talvez desses animais quando conta que os negros, nas suas caçadas, pegam
algumas vezes homens e mulheres selvagens." No terceiro tomo da mesma História
das Viagens, fala-se ainda dessa espécie de animais antropomorfos, sob o nome de
beggos e mandrills: mas, atendo-nos às narrativas precedentes, encontram-se, na
descrição desses pretensos monstros, conformidades impressionantes com a espécie
humana e diferenças menores do que as que se poderiam assinalar de homem para
homem. Não se vêem, nessas passagens, as razões nas, quais os autores se fundam
para recusar aos animais em questão o nome de homens selvagens; mas, é fácil
conjecturar que é por serem estúpidos e por não falarem; são razões fracas para
os que sabem que, embora o órgão da palavra seja natural ao homem, a própria
palavra não lhe é contudo natural, e para os que sabem até que ponto sua
perfectibilidade pode ter elevado o homem civilizado acima do seu estado
original. O pequeno número de linhas que contêm essas descrições nos pode fazer
julgar como esses animais foram mal observados e com que preconceitos foram
vistos. Por exemplo, são qualificados de monstros, e entretanto, concorda-se que
reproduzem. Em um lugar, Battel diz que os pongos matam os negros que atravessam
as florestas; em outro, Purchass acrescenta que não fazem nenhum mal, mesmo
quando os surpreendem, pelo menos quando os negros não se ponham a olhá-los. Os
pongos reúnem-se em torno de fogos acesos pelos negros quando estes se retiram,
e se retiram por sua vez quando o fogo se extingue; eis aí o fato; e agora, eis
o comentário do observador: porque têm muita habilidade; mas não têm bastante
senso para o entreter pondo nele a lenha. Eu desejaria adivinhar como Battel, ou
Purchass, seu compilador, pode saber que a retirada dos pongos era um efeito de
sua estupidez e não de sua vontade. Em um clima como o de Loango, o fogo não é
coisa muito necessária aos animais; e, se os negros o acendem, é menos contra o
frio do que para espantar os animais ferozes: é, pois, muito simples que, depois
de se divertirem um pouco com as chamas, ou de se aquecerem, os pongos se
aborreçam de ficar sempre no mesmo lugar e saiam para pastar, o que exige mais
tempo do que se comessem carne. Aliás, sabe-se que a maior parte dos animais,
sem excetuar o homem, são naturalmente preguiçosos e se recusam a toda sorte de
cuidados que não sejam de absoluta necessidade. Enfim, parece muito estranho que
os pongos, cuja habilidade e força se exaltam, os pongos, que sabem enterrar os
mortos e fazer tetos de ramagens, não saibam pôr lenha no fogo. Lembro-me de ter
visto um macaco fazer essa mesma manobra que se pretende que os pongos não
possam fazer: é verdade que, não se tendo minhas idéias voltado para esse lado,
cometo também a falta que censuro nos viajantes e me descuidei de examinar se a
intenção do macaco era com efeito entreter o fogo, ou simplesmente, como creio,
imitar a ação do homem. Seja como for, está bem demonstrado que o macaco não é
uma variedade do homem, não somente porque é privado da faculdade de falar, mas
principalmente porque é certo que sua espécie não tem a de se aperfeiçoar, que é
o caráter específico da espécie do homem: essas experiências parecem não ter
sido feitas sobre o pongo e o orangotango com bastante cuidado para se poder
tirar a mesma conclusão. Haveria, contudo, um meio pelo qual, se o orangotango
ou outros fossem da espécie humana, os observadores mais grosseiros poderiam
certificar-se disso, mesmo com demonstração; mas, além de que uma só geração não
bastaria para essa experiência, ela deve passar por impraticável, porque seria
preciso que aquilo que é apenas uma suposição fosse demonstrado como verdadeiro,
antes que a prova que deveria constatar o fato pudesse ser tentada
inocentemente.
Os julgamentos precipitados, que não são o fruto de uma razão esclarecida, estão
sujeitos a cair no exagero. Nossos viajantes fazem, sem cerimônia, animais sob o
nome de pongos, mandrills, orangotangos, desses mesmos seres dos quais, sob o
nome de sátiros, faunos, silvanos, os antigos faziam divindades. É possível que,
depois de muitas pesquisas, se descubra que não são nem animais nem deuses, mas
homens. Enquanto se espera, parece-me haver tanta razão em recorrer a Merolla,
religioso letrado, testemunha ocular, e que, com toda a sua ingenuidade, não
deixava de ser homem de espírito, como ao negociante Battel, a Drapper, a
Purchass e aos outros compiladores.
Que juízo se pensa que tenham feito semelhantes observadores sobre a criança
encontrada em 1694, de que já falei atrás, que não dava nenhum sinal de razão,
caminhava sobre os pés e sobre as mãos, não tinha nenhuma linguagem e formava
sons que em nada se pareciam com os de um homem? Levou muito tempo, continua o
mesmo filósofo que me fornece este fato, para poder proferir algumas palavras, e
ainda assim o fez de maneira bárbara. Logo que pode falar, interrogaram-na sobre
o seu primeiro estado; mas, lembrava-se tanto dele quanto nós do que nos
aconteceu no berço. Se, desgraçadamente para ela, essa criança caísse nas mãos
dos nossos viajantes, não se pode duvidar de que, depois de notar o seu silêncio
e a sua estupidez, decidiriam fazê-la voltar para o mato ou encerrá-la em uma
jaula; depois, em belas narrativas, falariam dela, sabiamente, como de um animal
muito curioso que se parecia com o homem.
Há trezentos ou quatrocentos anos que os habitantes da Europa inundam as outras
partes do mundo, e publicam sem cessar novas narrativas de viagens o relatórios,
e estou persuadido de que só conhecemos homens europeus; ainda parece, diante
dos ridículos preconceitos que não desapareceram mesmo entre os homens letrados,
que cada qual, sob o nome pomposo de estudo do homem, faz apenas o dos homens do
seu país. Os particulares podem ir e vir, mas parece que a filosofia não viaja,
de tal maneira a de cada povo é pouco apropriada para outro. A causa disso é
manifesta, pelo menos para as regiões afastadas: só há quatro espécies de homens
que fazem viagens de longo curso: os marinheiros, os comerciantes, os soldados e
os missionários. Ora, não se pode esperar que as três primeiras forneçam bons
observadores; e, quanto aos da quarta, ocupados com a vocação sublime que os
chama, quando não estivessem sujeitos a preconceitos de estado como todos os
outros, devo-se crer que não se entregariam de boa vontade a pesquisas que
parecem de pura curiosidade e que os desviariam dos trabalhos mais importantes
aos quais se destinam. Aliás, para pregar utilmente o Evangelho, não é preciso
senão zelo, dando Deus o resto; mas, para estudar os homens, é preciso ter
talentos que Deus não se compromete a dar a ninguém e que nem sempre confere aos
santos. Não se abre um livro de viagens em que não se encontrem descrições de
caracteres e de costumes; fica-se, porém, admirado de ver que as pessoas que
descrevem tantas coisas só tenham dito o que todos já sabiam, só tenham
percebido, no outro extremo do mundo, o que só a elas seria dado notar sem sair
da sua rua, e de que esses traços verdadeiros que distinguem as nações, e que
impressionam os olhos feitos para ver, tenham quase sempre escapado aos seus.
Daí veio o belo adágio de moral, tão repetido pela turba filosófica, de que os
homens são os mesmos em toda parte, tendo em toda parte as mesmas paixões e os
mesmos vícios, sendo bastante inútil procurar caracterizar os diferentes povos.
Ora, isso é raciocinar quase tão bem como se se dissesse que não se poderia
distinguir Pedro de Tiago, porque ambos têm nariz, boca e olhos.
Será que não veremos mais renascer esses tempos felizes em que os povos não se
metiam a filosofar, mas em que os Platão, os Tales, e os Pitágoras, tomados de
um desejo ardente de saber, empreendiam as maiores viagens unicamente para se
instruírem, indo sacudir longe o jugo dos preconceitos nacionais, aprender a
conhecer os homens pelas suas conformações e pelas suas diferenças, e adquirir
esses conhecimentos universais que não são os de um século ou de um país
exclusivamente, mas que, sendo de todos os tempos e de todos os lugares, são,
por assim dizer, a ciência comum dos sábios?
Admira-se a magnificência de alguns curiosos que fizeram ou mandaram fazer, com
grandes despesas, viagens ao Oriente, com sábios e pintores, para aí desenhar
pardieiros e decifrar ou copiar inscrições; mas, custa-me conceber como, num
século em que todos se jactam de belos conhecimentos, não se encontrem dois
homens bem unidos, ricos, um de dinheiro, outro de gênio, ambos amando a glória
e aspirando à imortalidade, que sacrifiquem, um vinte mil escudos de sua
fortuna, e o outro, dez anos de sua vida, numa célebre viagem ao redor do mundo,
para estudar, nem sempre pedras e plantas, mas, por uma vez; os homens e os
costumes, e que, depois de tantos séculos empregados em medir e considerar a
casa, se lembrem enfim de procurar conhecer os seus habitantes.
Os acadêmicos que percorreram as partes setentrionais da Europa o meridionais da
América tinham por objeto visitá-las mais como geômetras do que como filósofos.
Entretanto, como ao mesmo tempo eram uma coisa e outra, não se podem olhar como
absolutamente desconhecidas as regiões que foram vistas e descritas pelos La
Condamine e os Maupertuis. O joalheiro Chardin, que viajou como Platão, nada
deixou que dizer sobre a Pérsia. A China parece ter sido bem observada pelos
jesuítas. Kempfer dá uma idéia passável do pouco que viu no Japão. Excetuadas
essas narrativas, não conhecemos os povos das Índias orientais, freqüentados
unicamente por europeus mais curiosos de encher as suas boinas do que as suas
cabeças. A África inteira e os seus numerosos habitantes, tão singulares pelo
caráter como pela sua cor, estão ainda por examinar; toda a terra está coberta
de nações das quais só conhecemos os nomes, e nos metemos a julgar o gênero
humano! Suponhamos um Montesquieu, um Buffon, um Diderot, um Duclos, um
d'Alembert, um Condillac, ou homens dessa têmpera viajando para instruir seus
compatriotas, observando e descrevendo, como sabem fazer, a Turquia, o Egito, a
Barbaria, o império de Marrocos, a Guiné, - o país dos cafres, o interior da
África e suas costas orientais, os malabares, a Mongólia, as margens do Ganges,
os reinos do Sião, de Pegú, e de Ava, a China, a Tartária e, principalmente, o
Japão; depois, no outro hemisfério, o México, o Peru, o Chile, as terras
magelânicas, sem esquecer os patagões verdadeiros ou falsos, o Tucumã, o
Paraguai, se possível, o Brasil; enfim, os caraibas, a Flórida, e todas as
regiões selvagens (seria a mais importante de todas as viagens, e a que deveria
ser feita com mais cuidado). Suponhamos que esses novos Hércules, de volta
dessas carreiras memoráveis, terminassem em seguida, com vagar, a história
natural, moral e política do que tivessem visto; veríamos sair um novo mundo de
baixo de sua pena, e aprenderíamos assim a conhecer o nosso. Repito que, quando
semelhantes observadores afirmassem que tal animal é um homem e um outro uma
besta, seria preciso crer; mas, seria grande ingenuidade proceder do mesmo modo
com viajantes grosseiros, sobre os quais se é tentado, às vezes, a colocar a
mesma questão que eles se metem a resolver sobre outros animais.
(11). - Isso me parece a última evidência, e eu não poderia conceber de onde os
nossos filósofos podem fazer nascer todas as paixões que pretendem no homem
natural. Excetuado apenas o necessário físico, que a própria natureza pede,
todas as nossas outras necessidades só o são pelo hábito, antes do qual não eram
necessidades, ou pelos desejos, e não se deseja o que não se está em estado do
conhecer. Daí resulta que, como o homem selvagem só deseja as coisas que conhece
e como só conhece aquelas cuja posse está ao seu alcance, ou é fácil adquirir,
nada devo ser tão tranqüilo como a sua alma e nada tão limitado como o seu
espírito.
(12). Encontro, no Governo Civil, de Locke, uma objeção que me parece muito
especiosa para que me seja permitido dissimulá-la. "Como o fim da sociedade
entre o macho e a fêmea, diz esse filósofo, não é simplesmente procriar, mas
continuar a espécie, essa sociedade deve durar, mesmo após a. procriação, pelo
menos tanto tempo quanto é necessário para a nutrição e conservação dos
procriados, isto é, até que eles mesmos sejam capazes de prover às suas
necessidades. Vemos que essa regra, que a sabedoria infinita do Criador
estabeleceu sobre as obras de suas mãos, é constantemente observada e com
exatidão pelas criaturas inferiores ao homem. Nos animais que vivem de ervas, a
sociedade entre o macho e a fêmea não dura mais tempo do que o ato da copulação,
porque, sendo as maminhas da mãe suficientes para nutrir os filhos até que sejam
capazes de pastar as ervas, o macho se contenta em gerar e não se preocupa,
depois disso, com a fêmea nem com os filhotes, para cuja subsistência em nada
pode contribuir. Mas, em relação aos animais de presa, a sociedade dura mais
tempo, porque, não podendo a mãe bem prover à sua própria subsistência e ao
mesmo tempo nutrir os filhos somente com sua presa, o que é uma maneira de
nutrir-se não só mais trabalhosa como mais perigosa do que a de se nutrir de
ervas, a assistência do macho é absolutamente necessária para a manutenção de
sua família comum, se se pode usar esse termo. Os filhos, enquanto não puderem
procurar alguma presa, só podem subsistir pelos cuidados do macho e da fêmea.
Nota-se a mesma coisa entre todos os pássaros, salvo alguns pássaros domésticos
que se encontram em lugares nos quais a contínua abundância de nutrição isenta o
macho de nutrir os filhotes. Vê-se que, enquanto os filhotes, ainda no ,ninho,
têm necessidade de alimento, o macho e fêmea para ai o levam até que possam voar
e prover à sua subsistência.
"Nisso, a meu ver, consiste a principal, se não a única razão por que o macho e
a fêmea, no gênero humano, são obrigados a uma sociedade mais longa do que a que
mantêm as outras criaturas. Essa razão é que a mulher é capaz de conceber e, de
ordinário, ficar grávida outra vez e ter um novo filho antes que o precedente
esteja em condições de dispensar o auxílio dos pais e prover às suas
necessidades. Assim, um pai, sendo obrigado a cuidar durante muito tempo
daqueles que gerou, é também obrigado a continuar a viver na sociedade conjugal
com a mesma mulher de quem os teve, e a ficar nessa sociedade muito mais tempo
do que as outras criaturas, cujos filhos podendo subsistir por si mesmos antes
de chegar o tempo de nova procriação, o laço da fêmea e do macho se rompe
naturalmente e ambos se encontram em plena liberdade, até que a estação que
costuma solicitar os animais a se juntarem os obrigue a escolher novas
companhias. E, nisso, nunca admiraríamos bastante a sabedoria do Criador, que,
tendo dado ao homem qualidades próprias, para prover tão bem ao futuro quanto
presente, quis e fez de maneira que a sociedade do homem durasse muito mais
tempo do que a do macho e da fêmea entre as outra criaturas, a fim de que, desse
modo, a indústria do homem e da mulher fosse mais excitada e os seus interesses
mais unidos, com o objetivo de fazer provisões para os filhos e lhes deixar
bens, nada podendo ser mais prejudicial às crianças do que uma conjunção incerta
e vaga, ou uma dissolução fácil e freqüente da sociedade conjugal"
O mesmo amor à verdade, que me faz expor sinceramente essa objeção, me leva a
acompanhá-la de algumas notas, se não para resolvê-la, ao menos para
esclarecê-la.
1. Observei, primeiro, que as provas morais não têm grande força em matéria de
física, e que servem antes para explicar fatos existentes do que para constatar
a existência real desses fatos. Ora, tal é o gênero de prova que Locke emprega
na passagem que acabo de citar; porque, embora possa ser vantajoso para a
espécie humana que a união do homem e da mulher seja permanente, não se segue
que isso tenha sido estabelecido pela natureza. Do contrário, seria preciso
dizer que ela instituiu também a sociedade civil, as artes, o comércio, e tudo
que se pretende que seja útil aos homens.
2. Ignoro onde Locke descobriu que entre os animais de presa a sociedade do
macho e da fêmea dura mais tempo do que entre os que vivem de ervas, e que um
ajuda o outro a nutrir os filhos; com efeito, não se vê o cão, o gato, o urso ou
o lobo reconhecerem a fêmea melhor do que o cavalo, o carneiro, o touro, o
veado, ou quaisquer outros animais quadrúpedes. Parece, ao contrário, que, se o
socorro do macho fosse necessário à fêmea para conservar os filhos, assim o
seria sobretudo nas espécies que só vivem de ervas, porque é preciso muito tempo
à mãe para pastar, sendo forçada, durante todo esse intervalo, a se descuidar da
prole, ao passo que a presa de uma ursa ou de uma loba é devorada em um
instante, tendo ela, sem sofrer a fome, mais tempo para amamentar os filhos.
Esse raciocínio é confirmado por uma observação sobre o número relativo de mamas
e de filhos que distingue as espécies carnívoras, e de que já falei na nota 8.
Se essa observação é justa e geral, só tendo a mulher dois seios, e um filho de
cada vez, eis mais uma forte razão para duvidar que a espécie humana seja
naturalmente carnívora; de sorte que parece que, para tirar a conclusão de
Locke, seria necessário raciocinar de modo absolutamente contrário. Não há mais
solidez na mesma distinção aplicada às aves. Porque quem poderá se persuadir de
que a união do macho e da fêmea seja mais durável entre os abutres e os corvos
do que entre as rolas? Temos duas espécies de aves domésticas, o pato e o pombo,
que nos fornecem exemplos diretamente contrários ao sistema desse autor. O
pombo, que só vive de grãos, fica unido à fêmea, e nutrem os filhos em comum. O
pato, cuja voracidade é conhecida, não reconhece nem a fêmea nem os filhos, e em
nada auxilia sua subsistência. E, entre as galinhas, espécie que não é menos
carnívora, não se vê o galo incomodar-se com a ninhada. Se, em outras espécies,
o macho partilha com a fêmea o cuidado de nutrir os filhos, é que as aves, que a
princípio não podem voar e a mãe não pode aleitar, estão muito menos em
condições de passar sem a assistência do pai do que os quadrúpedes, aos quais
basta a maminha da mãe, pelo menos durante algum tempo.
3. Há muita incerteza sobre o fato principal que serve de base a todo o
raciocínio de Locke: porque, para saber, como ele pretende, se, no puro estado
de natureza, a mulher fica, de ordinário, grávida outra vez e tem um novo filho
muito tempo antes que o precedente possa prover suas necessidades, seriam
necessárias experiências que seguramente Locke não fez e que ninguém tem
facilidade em fazer. A coabitação contínua do marido e da mulher é uma ocasião
tão próxima de se expor ela a uma nova gravidez, que é bem difícil acreditar que
o encontro fortuito ou o simples impulso de temperamento produza efeitos tão
freqüentes no puro estado de natureza como no da sociedade conjugal. Essa
lentidão contribuiria, talvez, para tornar os filhos mais robustos, e poderia,
aliás, ser compensada pela faculdade de conceber, prolongada a uma idade mais
avançada nas mulheres que não tenham abusado dela na juventude. Em relação às
crianças, há muitas razões para crer que as suas forças e os seus órgãos se
desenvolvem, entre nós, mais tarde do que no estado primitivo de que falo. A
fraqueza original herdada da constituição dos pais, os cuidados tomados para
envolver e estorvar todos os seus membros, a moleza na qual são educadas, talvez
o uso de outro leite que não o de sua mãe, tudo contraria e retarda nelas os
primeiros progressos da natureza. A aplicação que são obrigadas a dar a mil
coisas sobre as quais se fixa continuamente sua atenção, ao passo que não só dá
nenhum exercício às suas forças corporais, pode ainda causar um desvio
considerável no seu crescimento; de sorte que, se, em vez de lhes sobrecarregar
e fatigar a princípio o espírito de mil maneiras, se deixasse que exercitassem o
corpo nos movimentos contínuos que a natureza parece reclamar, é de se crer que
estariam muito mais cedo em condições de andar, de agir e de prover às suas
necessidades.
4. Finalmente, Locke prova, quando muito, que poderia bem haver no homem um
motivo de ficar ligado à mulher quando ela tem um filho; mas, não prova, de modo
algum, que ele lhe deva ficar ligado antes do parto e durante os nove meses de
gravidez. Se tal mulher é indiferente ao homem durante esses nove meses, se se
torna mesmo desconhecida para ele, porque socorrê-la depois do parto? porque
ajudá-la a criar um filho que ele sabe que não pertence somente a ele, e cujo
nascimento não resolveu nem previu? Locke supõe, evidentemente, o que está em
discussão, porque não se trata de saber a razão pela qual o homem ficará ligado
à mulher depois do parto, mas, pela qual se ligará a ela depois da concepção.
Satisfeito o apetite, e homem não tem mais necessidade de tal mulher, nem a
mulher de tal homem. Este não tem a menor preocupação, nem talvez a menor idéia
das conseqüências do sua ação. Um vai para um lado, e o outro para outro, não
havendo aparência de que, após nove meses, tenham lembrança de se terem
conhecido; porque essa espécie de lembrança, pela qual um indivíduo dá
preferência a outro indivíduo para o ato da geração exige, como provo no texto,
mais progressos ou corrupção no entendimento humano do que se pode supor existir
no estado de animalidade de que tratamos. Uma outra mulher pode, pois, contentar
os novos desejos do homem tão comodamente quanto aquela que ele já conheceu, e
outro homem contentar do mesmo modo a mulher, supondo-se que ela seja premida
pelo mesmo apetite durante o estado de gravidez, do que razoavelmente se pode
duvidar. É que se, no estado de natureza, a mulher não sente mais a paixão do
amor após a concepção do filho, o obstáculo à sua sociedade com o homem se torna
ainda muito maior, pois que então ela não tem mais necessidade nem do homem que
a fecundou, nem de nenhum outro. Não há, pois, no homem nenhuma razão para
procurar de novo a mesma mulher, nem na mulher nenhuma razão para procurar de
novo o mesmo homem. O raciocínio de Locke cai, pois, em ruínas, e toda a
dialética desse filósofo não o livrou do erro que Hobbes e outros cometeram.
Eles tinham que explicar um fato do estado de natureza, isto é, de um estado em
que os homens viviam isolados, e em que um homem não tinha nenhum motivo para
permanecer ao lado de outro, nem talvez os homens nenhum motivo para permanecer
ao lado uns dos outros, o que é muito pior, e não pensaram em se transportar
para além dos séculos de sociedade, isto é, além desses tempos em que os homens
têm sempre uma razão para permanecer perto uns dos outros, e em que um homem tem
muitas vezes uma razão para ficar ao lado de outro homem ou de outra mulher.
(13). - Terei bem cuidado em me não comprometer nas reflexões filosóficas que
seria necessário fazer sobre as vantagens e os inconvenientes dessa instituição
das línguas: não é a mim que se permite atacar os erros vulgares, e o povo
letrado respeita demais os seus preconceitos para suportar pacientemente os meus
pretensos paradoxos. Deixemos, pois, falar as pessoas às quais não imputamos o
crime de tomarem algumas vezes o partido da razão contra as opiniões da
multidão. Nec quidquam felicitati humani generis decederet, si, pulsa tot
linguarum peste et confusione, unam artem callerent mortales, et signis,
motibus, gestibusque, licitum foret quidvis explicare. Nunc vero ita comparatum
est, ut animalium quoe vulgo bruta creduntur melior longe quam nostra hac in
parte videatur conditio, utpote quoe promptius, et forsan felicius, sensus et
cogitationes suas sine interprete significent, quam ulli queant mortales,
proesertim si peregrino utantur sermone.(Is. Vossius, De Poemat. Cant. et
Viribus Rhythmi, pag. 66.)
(14). - Platão, mostrando quanto as idéias da quantidade discreta e de suas
relações são necessárias nas menores artes, ridiculariza com razão os autores do
seu tempo que pretendiam que Palamedes inventara os números no cerco de Tróia,
como se, diz o filósofo, Agamemnon pudesse ignorar, até então, quantas pernas
tinha. Efetivamente, sente-se a impossibilidade de que a sociedade e as artes
tivessem chegado aonde estavam já no tempo do cerco do Tróia, sem que os homens
tivessem usado os números e os cálculos: mas, a necessidade de conhecer os
números, antes de adquirir outros conhecimentos, não torna a sua invenção mais
fácil de imaginar. Uma vez conhecidos os nomes dos números, é fácil
explicar-lhes o sentido e excitar as idéias que esses nomes representam; mas,
para os inventar, foi preciso, antes de conceber essas mesmas idéias, estar por
assim dizer familiarizado com as meditações filosóficas, exercitado em
considerar os seres só por sua essência e independentemente de qualquer outra
percepção. Essa abstração é muito penosa, muito metafísica, muito pouco natural,
e, no entanto, sem ela, essas idéias nunca teriam podido se transportar de uma
espécie ou de um gênero a outro, nem os números tornarem-se universais. Um
selvagem podia considerar separadamente sua perna direita e sua perna esquerda,
ou as olhar em conjunto sob a idéia indivisível de um par, sem jamais pensar que
tivesse duas; porque uma coisa é a idéia representativa que nos pinta um objeto,
e outra coisa a idéia numérica que o determina. Menos ainda podia ele calcular
até cinco, e, embora aplicando as mãos uma sobre a outra, pudesse notar que os
dedos se correspondiam exatamente, estava bem longe de pensar na sua igualdade
numérica; não sabia mais a soma dos seus dedos que a dos seus cabelos; e, se,
depois de lhe haver feito entender o que são os números, alguém lhe dissesse que
ele tinha tantos dedos nos pés quanto nas mãos, talvez tivesse ficado
surpreendido, comparando-os, de ver que era verdade.
(15). - É preciso não confundir o amor-próprio e o amor de si mesmo, duas
paixões muito diferentes por sua natureza e por seus efeitos. O amor de si mesmo
é um sentimento natural que leva todo animal a velar por sua própria
conservação, e que, dirigido no homem pela razão e modificado pela piedade,
produz a humanidade e a virtude. O amor-próprio é apenas um sentimento relativo,
factício e nascido na sociedade, que leva cada indivíduo a fazer mais caso de si
do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem
mutuamente, e que é a verdadeira fonte da honra. Bem entendido isso, repito que,
no nosso estado primitivo, no verdadeiro estado de natureza, o amor-próprio não
existe; porque, cada homem em particular olhando a si mesmo como o único
espectador que o observa, como o único ser no universo que toma interesse por
ele, como o único juiz do seu próprio mérito, não é possível que um sentimento
que teve origem em comparações que ele não é capaz de fazer possa germinar em
sua alma. Pela mesma razão, esse homem não poderia ter ódio nem desejo de
vingança, paixões que só podem nascer da opinião de alguma ofensa recebida. E,
como é o desprezo ou a intenção de prejudicar, e não o mal, que constitui a
ofensa, homens que não sabem se apreciar nem se comparar podem fazer-se muitas
violências mútuas para tirar alguma vantagem, sem jamais se ofenderem
reciprocamente. Em uma palavra, cada homem, vendo seus semelhantes apenas como
veria os animais de outra espécie, pode arrebatar a presa ao mais fraco ou ceder
a sua ao mais forte, sem encarar essas rapinagens senão como acontecimentos
naturais, sem o menor movimento de insolência ou de despeito, e sem outra paixão
que a dor ou a alegria de um bom ou mau sucesso.
(16). - É uma coisa extremamente notável que, após tantos anos que os europeus
se atormentam para conduzir os selvagens de diversas regiões do mundo à sua
maneira de viver, não tenham podido ainda ganhar um só item mesmo a favor do
cristianismo; porque os missionários têm feito algumas vezes cristãos, mas
jamais homens civilizados. Nada pode sobrepujar a invencível repugnância que têm
eles em tomar os nossos costumes e em viver à nossa maneira. Se esses pobres
selvagens são tão desgraçados como se pretende, por que inconcebível depravação
de julgamento recusam constantemente policiar-se como nós, ou aprender a viver
felizes entre nós, quando se lê, em milhares de passagens, que os franceses e
outros europeus se refugiaram voluntariamente nessas nações e nelas passaram a
vida inteira sem poder mais deixar tão estranha maneira de viver, e quando se
vêem até missionários sensatos ter saudades dos dias calmos e inocentes que
passaram entre povos tão desprezados. Se se responde que eles não têm bastantes
luzes para julgar de maneira sã o seu estado e o nosso, replicarei que a estima
da felicidade é menos negócio da razão que do sentimento. Aliás, essa resposta
pede voltar-se contra nós com mais força ainda; porque as nossas idéias estão
mais longe da disposição de espírito necessária para conceber o gosto que
encontram os selvagens na sua maneira de viver do que as idéias dos selvagens
das que lhes podem fazer conceber a nossa. Com efeito, depois de algumas
observações, é-lhes fácil ver que todos os nossos trabalhos se dirigem para dois
únicos objetivos, a saber: as comodidades da vida para si, e a consideração para
os outros. Mas, para nós, qual é o meio de imaginar a espécie de prazer que um
selvagem tem em passar a vida só no meio das florestas, ou pescando, ou soprando
em uma péssima flauta, sem jamais saber tirar dela um único som e sem se
importar de aprendê-lo?
Muitas vezes, têm-se trazido selvagens a Paris, a Londres e a outras cidades, e
tido pressa em lhes expor o nosso luxo, as nossas riquezas e todas as nossas
artes mais úteis e mais curiosas: tudo isso lhes despertou uma admiração
estúpida, sem o menor movimento de cobiça. Lembro-me, entre outras, da história
de um chefe de alguns americanos setentrionais levados à corte da Inglaterra, há
uns trinta anos: fizeram-lhe passar milhares de coisas diante dos olhos, para
lhe fazerem presente do que lhe pudesse agradar, sem que se achasse nada que
parecesse impressioná-lo. Nossas armas lhe pareciam pesadas e incômodas, nossos
sapatos lhe feriam os pés, nossas roupas o incomodavam, e tudo ele recusava.
Finalmente, percebeu-se que, tendo tomado um cobertor de lã, parecia sentir
prazer em envolver com ele os ombros. - "Convence-se ao menos, -
perguntaram-lhe, - da utilidade disso," - "Sim, - respondeu, - isso me parece
quase tão bom como uma pele de animal". Mas, nem isso diria se tivesse levado as
duas coisas à chuva.
- Dir-me-ão, talvez, que é o hábito que,, ligando cada um à sua maneira de viver,
impede os selvagens de sentir o que há de bom na nossa: e, sendo assim, deve
parecer ao menos bem extraordinário que o hábito tenha mais força para manter os
selvagens no gosto de sua miséria do que os europeus no gozo de sua felicidade.
Mas, para dar a essa última objeção uma resposta para a qual não haja uma
palavra que replicar, sem alegar todos os jovens selvagens que inutilmente se
tem procurado civilizar e sem falar dos groenlandeses e dos habitantes da
Islândia, que se tentou educar e nutrir na Dinamarca, e que morreram todos de
tristeza e desespero, ou por causa do langor, ou no mar, porque tentaram fugir a
nado, contentar-me-ei de citar um só exemplo bem atestado, e que dou aos
admiradores da polícia européia para examinar.
"Todos os esforços dos missionários holandeses do Cabo da Boa Esperança jamais
foram capazes de converter um só hotentote. Van der Stel, governador do Cabo,
tendo tomado um desde a infância, fê-lo educar nos princípios da religião
cristã, e na prática dos usos da Europa. Vestiram-no ricamente, ensinaram-lhe
diversas línguas, e seus progressos corresponderam muito bem aos cuidados
tomados com sua educação. O governador, esperando muito de seu espírito,
enviou-o às Índias com um comissário geral que o empregou utilmente nos negócios
da companhia. Ele voltou ao Cabo depois da morte do comissário. Poucos dias
depois da sua volta, em uma visita que fez a uns hotentotes sem parentes, tomou
a decisão de se despojar dos seus ornamentos europeus para se vestir com uma
pele de carneiro. Voltou ao forte nesses novos trajes, carregando um pacote
contendo as suas roupas; e, apresentando-as, ao governador, lhe disse:
Tende a bondade, senhor, de prestar atenção a que renuncio para sempre, a todo
esse aparelhamento; renuncio também, para toda a vida, à religião cristã; minha
resolução é viver e morrer na religião, maneiras e usos dos meus ancestrais. A
graça único que vos peço é deixar-me o colar e o cutelo que trago; eu os
guardarei por amor a vós. Logo que acabou de falar, sem esperar a resposta de
Van der Stel, saiu em fuga, e jamais foi visto no Cabo." (História das Viagens,
tomo V, pag. 175.)
(17). - Poderiam objetar-me que, em uma semelhante desordem, os homens, em vez
de se degolarem mútua e obstinadamente, se dispersariam, se não houvesse limites
à sua dispersão; mas, primeiramente, esses limites seriam pelo menos os do
mundo; e, se se pensa na excessiva população que resulta do estado de natureza,
julgar-se-á que a terra, nesse estado, não tardaria a ser coberta de homens
assim forçados a se manter reunidos. Aliás, eles se dispersariam se o mal fosse
rápido, e se a mudança fosse feita da noite para o dia: mas, nasciam sob o jugo;
tinham o hábito de o conduzir, quando lhe sentiam o peso, e se contentavam em
esperar a ocasião de o sacudir. Enfim, já acostumados a mil comodidades que os
forçavam a se manter reunidos, a dispersão não era assim tão fácil como nos
primeiros tempos, em que, ninguém tendo necessidade senão de si mesmo, cada qual
tomava seu partido sem esperar o consentimento do outro.
(18). - O marechal de Villars contava que, em uma de suas campanhas, as
excessivas ladroeiras de um comissário de víveres tendo feito sofrer e murmurar
o exército, ele o repreendeu rudemente e o ameaçou de mandar enforcá-lo. "Essa
ameaça nada tem que ver comigo, - respondeu-lhe ousadamente o velhaco, e me é
muito fácil dizer-lhe que não se enforca um homem que dispõe de cem mil
escudos." -- "Não sei como foi, - acrescenta ingenuamente o marechal, - mas, com
efeito, ele não foi enforcado, embora tivesse merecido cem vezes o castigo."
(19). - A justiça distributiva se oporia mesmo a essa igualdade rigorosa do
estado de natureza, quando fosse praticável na sociedade civil; e, como todos os
membros do Estado lhe devem serviços proporcionais aos seus talentos e às suas
forças, os cidadãos, por sua vez, devem ser distinguidos e favorecidos à
proporção dos seus serviços. É nesse sentido que é preciso compreender uma
passagem de Isócrates na qual louva ele os primeiros atenienses por terem sabido
bem distinguir qual era a mais vantajosa das duas espécies de igualdade, uma das
quais consiste em conceder as mesmas vantagens a todos os cidadãos
indiferentemente, e a outra em distribuí-las segundo o mérito de cada um. Esses
hábeis políticos, acrescenta o orador, banindo essa injusta igualdade que não
estabelece nenhuma diferença entre os maus e os bons, apegaram-se
inviolavelmente àquela que recompensa e pune cada um segundo o seu mérito. Mas,
primeiramente, jamais existiu sociedade, por maior que tenha sido o grau de
corrupção a que tivesse podido chegar, na qual não se fizesse nenhuma diferença
entre os maus e os bons; e, em matéria de costumes, em que a lei não pode fixar
medida bastante exata para servir de regra ao magistrado, é muito sabiamente
que, para não deixar a sorte ou a posição dos cidadãos à sua discrição, ela lhe
não permite o julgamento das pessoas, para só lhe deixar o das ações. Não há
costumes tão puros, como os dos antigos romanos, que possam suportar censores; e
semelhantes tribunais logo teriam transtornado tudo entre nós. Cabe à estima
pública estabelecer a diferença entre os maus e os bons. O magistrado só é juiz
do direito rigoroso: mas, o povo é o verdadeiro juiz dos costumes, juiz íntegro
e mesmo esclarecido sobre esse ponto, do qual se abusa algumas vezes, porém que
jamais se consegue corromper. As posições dos cidadãos devem, pois, ser
reguladas, não segundo o seu mérito pessoal, o que seria deixar ao magistrado o
meio de fazer uma aplicação quase arbitrária da lei, mas segundo os serviços
reais que prestam ao Estado, e que são suscetíveis de uma estimação mais exata.