Revolução Russa


    Momento histórico de extraordinário impacto mundial, a revolução russa marcou o fim de um dos últimos impérios de monarquias hereditárias e absolutistas do mundo. Com ela, o socialismo ascendeu pela primeira vez ao poder e a ideologia comunista passou a exercer profunda influência no cenário internacional e mesmo na vida interna de todas as nações.
Revolução russa é a designação que se dá ao processo que, em dois momentos no mesmo ano de 1917, derrubou o governo imperial da Rússia e instalou o comunismo no poder. O primeiro momento deu-se com a revolução de fevereiro, que promoveu a queda do czarismo e a instalação de um governo da burguesia, democrático e liberal; o segundo, com a revolução de outubro, marcou o momento da tomada do poder pelos bolcheviques marxistas, início da história de um novo país que se chamou União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Pelo calendário gregoriano, usado na maioria dos países, inclusive no Brasil, esses movimentos ocorreram em março e novembro de 1917, mas tornaram-se datas históricas segundo o calendário juliano, que conta as datas com atraso de 13 dias em relação ao gregoriano e vigorou na Rússia até fevereiro de 1918.
    Ao longo da segunda metade do século XIX, a Rússia viveu uma crise profunda em conseqüência de fatores que exerciam influências recíprocas e divergentes sobre todos os setores da vida social e política do país. Vigorava no império um sistema político de monarquia autocrática que se chocava com o modelo econômico de capitalismo moderno, em que as relações de produção entrelaçavam-se com as do tipo feudal. Havia insustentáveis desigualdades econômicas e sociais entre a poderosa e privilegiada classe de nobres proprietários de terras e uma imensa população de camponeses, grande massa de maioria analfabeta que até 1861 viveu em regime de servidão. A burguesia, numerosa e influente, estava insatisfeita com as dificuldades para exercer suas atividades comerciais e industriais, e o crescente operariado, formado geralmente de camponeses expulsos do campo por falta de condições de sobrevivência, estava submetido a condições de vida e trabalho extremamente duras e que não mais existiam nos países europeus industrializados. Apenas os nobres, com seus imensos privilégios, estavam satisfeitos com a situação do país.


 Revolução de 1905. A situação social explodiu com violência em 1905, desencadeada pela derrota militar na guerra russo-japonesa. As manifestações e rebeliões que eclodiram em todo o país puseram em evidência a insatisfação que se avolumava entre a burguesia, as massas camponesas, o proletariado urbano e setores militares. Em 22 de janeiro de 1905, uma grande concentração pacífica para reivindicar reformas sociais, realizada na capital, São Petersburgo, foi dissolvida a tiros pelas tropas do czar. No episódio, conhecido como "domingo sangrento", mais de mil pessoas foram mortas.
    A indignação cresceu e a tendência à revolução ganhou amplitude. Sucederam-se greves, atentados e motins que se propagaram aos núcleos industriais e às nações submetidas ao império czarista, como a Geórgia, Polônia e Finlândia. Aderiram ao movimento alguns setores das forças militares, como os marinheiros do encouraçado Potemkim, fundeado no porto de Odessa.
    A situação foi controlada, mas pela primeira vez o poder czarista ficou seriamente abalado. O czar Nicolau II prometeu reformar as instituições políticas e permitiu a criação de uma assembléia, a duma. Porém, assim que a ordem foi restaurada, o czar rejeitou as reformas e dissolveu a duma, impedindo a evolução em direção à monarquia liberal. O movimento de contestação ao regime, porém, reagrupou forças e a insatisfação cresceu mesmo entre os setores mais moderados. Os operários aprenderam a organizar-se em sovietes, ou conselhos operários, e revolucionários na clandestinidade viram crescer sua influência.
    A burguesia dividiu-se em dois partidos legais, os constitucionais democratas (cadetes, das iniciais K.D.), que defendiam uma democracia liberal, e os outubristas, favoráveis a uma monarquia moderada. Os revolucionários, reunidos no clandestino Partido Social Democrata dos Trabalhadores Russos, de inspiração marxista, fortaleceram-se. O agrupamento ilegal não-marxista dos socialistas revolucionários (SR) separou-se depois de 1905 em duas alas, uma das quais juntou-se ao bloco liberal, enquanto outra adotava o terrorismo como método básico de luta.
    O movimento de 1905 acentuou as divergências entre duas tendências do Partido Social Democrata dos Trabalhadores Russos, provocadas por problemas de organização e de doutrina: os mencheviques (minoria) e os bolcheviques (maioria) dividiram-se em partidos separados. Os mencheviques, marxistas ortodoxos, acreditavam que uma revolução burguesa devia preceder a proletária; os bolcheviques, liderados por Lenin, pensavam que seria possível acelerar a evolução histórica e saltar diretamente da sociedade pré-capitalista russa para a socialista.
    A irrupção da primeira guerra mundial favoreceu o movimento de contestação ao regime czarista. A Rússia aliou-se ao grupo de países que combatiam a Alemanha e a Áustria-Hungria mas, despreparada para a guerra, dependia dos aliados para o equipamento do Exército, formado basicamente por camponeses. A incompetência dos chefes militares, a escassez de armamentos modernos e a corrupção levaram os exércitos russos a contínuas e avassaladoras derrotas. A crise de abastecimento na retaguarda agravou-se no rigoroso inverno de 1916-1917 e acelerou-se o processo de desagregação do império. Nas trincheiras, os soldados desertavam em massa. Eclodiram em São Petersburgo (na época, Petrogrado) manifestações e greves motivadas contra a escassez de alimentos, o autoritarismo e guerra.


Revolução de fevereiro. Em 12 de março (27 de fevereiro pelo calendário juliano) de 1917, o centro de Petrogrado foi invadido por manifestantes e o movimento adquiriu caráter insurrecional. As tropas se recusaram a obedecer às ordens para reprimi-lo e se juntaram aos revoltosos, que assumiram o controle da capital. A Duma formou um comitê executivo provisório e o soviete dos operários e camponeses constituiu outro, que se erigiu como poder paralelo. Em 15 (2, pelo calendário juliano) de março, o czar renunciou e seis dias depois foi preso com a família.


 
  Governo de Kerenski. O comitê executivo da duma instalou o primeiro governo provisório, formado por democratas burgueses liderados pelo primeiro-ministro, príncipe Georgi Lvov, que conquistou o apoio do soviete dos operários e camponeses. Apenas um dos ministros, Aleksandr Kerenski, que ocupou a pasta da Justiça, era socialista revolucionário.
    O governo provisório, dividido, foi incapaz de corresponder às aspirações do povo, que exigia acima de tudo o fim da guerra. Multiplicavam-se no país os sovietes locais, apoiados pelos bolcheviques. Lenin voltou do exílio em abril e assumiu a direção do partido bolchevique, apoiado por diversos líderes revolucionários, como Leon Trotski. Lenin divulgou as "teses de abril", em que declarava que a primeira etapa da revolução, que dera o poder à burguesia, devia ceder lugar à segunda etapa, que passaria "o poder às mãos do proletariado e dos camponeses mais pobres". Dessa forma, colocavam-se os bolcheviques em oposição frontal ao governo provisório, com a palavra de ordem "Todo o poder aos sovietes."
    A política externa foi responsável pela primeira crise séria do governo provisório. O ministro do Exterior, Pavel Miliukov, queria continuar a guerra, apesar do crescente sentimento popular a favor de uma "paz democrática sem anexações nem indenizações".     A divulgação de uma nota de Miliukov, prometendo a solidariedade russa aos aliados, precipitou as manifestações de massa de abril. Sucederam-se choques armados entre manifestantes e tropas do governo. Miliukov e o ministro da Guerra, Aleksandr Guchkov, demitiram-se. Retiravam-se assim do governo os representantes dos dois partidos moderados: cadetes e outubristas. Formou-se um governo de coalizão com os socialistas moderados e os mencheviques e Kerenski assumiu a pasta da Guerra. O novo governo, entretanto, não teve maior êxito que o anterior na tentativa de conter o movimento de massa.
    Em junho, o Primeiro Congresso de Sovietes de toda a Rússia se reuniu, para que os delegados de sovietes locais de todo o país definissem seu programa. Foram adiadas as decisões de maior importância até a eleição de uma assembléia constituinte que elaborasse uma constituição democrática para a Rússia. Lenin lançou o programa imediato de "paz, terra e pão". No dia 18 (3) de junho, uma gigantesca manifestação com mais de 300.000 pessoas, exigindo a paz e a entrega do poder aos sovietes, revelou o apoio popular às palavras de ordem dos bolcheviques.
    Apesar da manifesta oposição popular, a Rússia continuava a participar da guerra. A notícia de mais uma derrota contribuiu para aumentar a revolta em todo o país. Em julho, Petrogrado foi cenário de uma tentativa de tomada de poder por parte de grande massa de operários e soldados, que foi violentamente reprimida pelo governo provisório. Pouco depois, os líderes bolcheviques receberam ordem de prisão. Trotski foi preso e Lenin refugiou-se na Finlândia.
    Formou-se um novo gabinete em julho e Kerenski tornou-se primeiro-ministro. Nos dois meses seguintes, surgiu uma reação dos conservadores, enquanto o partido bolchevique decidia-se pela preparação da insurreição armada. Alguns militares de alto escalão resolveram implantar no país uma ditadura chefiada pelo general Lavr Kornilov, que em setembro marchou sobre Petrogrado com um corpo de cavalaria. O repúdio à conspiração foi pronto e vigoroso e Kerenski buscou o apoio das forças de esquerda. As divergências entre socialistas revolucionários e mencheviques, de um lado, e bolcheviques de outro, foram superadas e juntos eles organizaram a resistência. A tentativa de golpe fracassou e os bolcheviques ganharam mais poder, com a conquista dos sovietes das principais cidades e centros industriais.
    Em setembro foi convocada uma conferência democrática, com a participação de todas as forças políticas da nação. Dela resultou um novo órgão, o conselho da república, repudiado pelos bolcheviques, que conclamaram as massas a ouvirem somente os sovietes e as organizações revolucionárias. Pela palavra de Trotski, libertado e já investido como segundo homem do partido, ressoou de novo o lema: "Todo o poder aos sovietes." Kerenski formou novo governo de coalizão, que durou apenas um mês, e o país se dividiu radicalmente entre esquerda e direita. Sucediam-se greves, como as dos operários das indústrias têxteis e das ferrovias da região de Baku. Os camponeses, cansados de esperar as medidas legais, passaram a invadir e pilhar as propriedades.     Entre os povos que faziam parte do império russo ampliava-se também o movimento revolucionário.

 Revolução de outubro. Em 20 (7) de outubro, Lenin chegou secretamente a Petrogrado e redigiu os chamados Conselhos de um ausente, em que traçava a estratégia a ser adotada pelas lideranças revolucionárias. Recomendava a concentração das forças no lugar e momento decisivos, considerando como ação principal o cerco e isolamento de Petrogrado, mediante ação combinada da esquadra, do Exército e do comitê revolucionário.
    A insurreição foi precipitada por uma tentativa fracassada de repressão do governo, que enviou tropas na manhã de 6 de novembro (24 de outubro) para fechar o jornal do partido bolchevique O Caminho Operário e ocupar o Instituto Smolny, onde se reunia o comitê central comunista. Destacamentos leais aos revolucionários reabriram o jornal, que voltou a circular horas depois. Lenin enviou instruções, prontamente obedecidas, para se intensificarem os preparativos para a insurreição. No final do dia, praticamente toda a cidade estava em poder dos bolcheviques. Na manhã de 7 de novembro (25 de outubro), Lenin instalou-se no Instituto Smolny. O palácio de Inverno, sede do governo provisório, rendeu-se na noite de 7 para 8 de novembro (25 para 26 de outubro) e foi ocupado pela Guarda Vermelha, que prendeu os ministros. Kerenski conseguiu fugir e mais tarde se exilou.
    Em 8 de novembro (26 de outubro), o II Congresso Nacional dos Sovietes ratificou a vitória dos bolcheviques e designou o primeiro governo soviético. Lenin tornou-se presidente do Conselho dos Comissários do Povo e Trotski, ministro das Relações Exteriores. O governo soviético aprovou de imediato uma série de decretos revolucionários. Entre outras providências, aboliu a propriedade privada da terra e entregou-a aos camponeses que a trabalhavam e exigiu um armistício imediato e a paz "sem anexações ou indenizações" entre todas as nações em guerra.
    A tomada do poder pelos bolcheviques em Petrogrado foi seguida por movimentos semelhantes por parte dos sovietes locais em toda a Rússia, mas em muitas regiões houve resistência. Configurou-se, assim, um estado de guerra civil desde o começo do governo dos sovietes, que colocou em campos opostos os "brancos" e os "vermelhos". A luta interna só terminou com a vitória soviética em novembro de 1920.
    Depois da revolução, a União Soviética tornou-se o centro do comunismo internacional. Movimentos revolucionários posteriores, em  suas tentativas de transformar as condições econômicas, sociais e políticas em diversos países, tomaram como modelo a revolução russa.

(Texto retirado da ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.)

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