Reforma do Estado: incertezas, impasses e perspectivas.
Milton C. Farias Filho *
A reestruturação estatal vem impondo sacrifícios pulverizados a setores menos favorecidos da sociedade e concentrando os benefícios em setores privilegiados econômica e socialmente. Tal processo se apresenta como uma nova necessidade para a consolidação democrática de estados recém saídos de regimes ditatoriais, aliado a uma nova fase do capitalismo dominado pela globalização da economia, que modifica as relações Estado-mercado, colocando no eixo das discussões políticas duas visões ou ideologias em confronto, isto é, a visão tradicional e a moderna.
No confronto de ideologias estão, em primeiro, os defensores de um Estado como promotor do bem público e dos interesses gerais da nação, da forma como se processou desde a implantação do modelo urbano-industrial, quando imperava as políticas de substituição de importações, com o nacionalismo e o desenvolvimentismo sendo foco central, portanto uma visão tradicional de desenvolvimento.
&nnbsp; Na outra ponta do confronto ideológico está a visão das elites que tentam impor ao Estado mudanças de cunho estritamente econômico, com primazia das normas de mercado como solução para o impasse crescente entre Estado e sociedade, a partir da lógica da eficiência no setor público associada a redução das funções, agências, cargos e funcionários estatais, visando maximizar os ganhos, reduzir os custos e racionalizar o processo decisório, permitindo ao Estado
agir de forma eficiente, portanto uma visão moderna que coloca a eficiência em primeiro lugar, impondo ao Estado a lógica do mercado.
O acumulo de demandas herdadas dos períodos autoritários que, além de fragilizar instituições estatais e não-estatais, anulou as práticas de participação política dos diversos setores sociais, comprometeu o processo decisório, descredibilizou as ações estatais, aumentando os problemas advindos das desigualdades sociais, mergulhando o país numa profunda crise política, social e econômica, nas duas últimas décadas.
Portanto, diante do impasse do Estado brasileiro em “administrar” os conflitos sociais e políticos existentes na sociedade, o que se verifica é uma tendência de superposição de um projeto de reforma do Estado conservador e centralizado, seja durante o processo decisório, seja na implantação de políticas públicas, uma vez que não tem se verificado a participação da sociedade, em virtude da “anulação” das instituições representativas que levaram à “falta” de participação em todas as etapas do processo de governo, o que me parece condição básica para o amadurecimento das instituições e de práticas democráticas.
Uma idéia do que está sendo a reforma do Estado nos países latino-americanos e, sobretudo no Brasil, pode ser tirada se comparadas as principais tendências em alguns países, como Brasil, Argentina, Colômbia, Chile, Bolívia, Costa Rica e México. Nestes países o que vem se verificando é o sistema de proteção social se deteriorando sem que as principais atividades do sistema de proteção tenha definitivamente saído das esferas estatais, pois o Estado ainda se apresenta como um demandante de bens e serviços.
&nnbsp; Então o que se processa nestes países é a busca pela não universalização de direitos e benefícios patrocinados pelo Estado. Nesse sentido as políticas de saúde, previdência, educação, etc. são as que mais sofrem com as tentativas de redução dos benefícios e/ou diminuição da esfera estatal, no diz respeito ao intervencionismo. Logo diante de crises cíclicas por que têm passado os países latino-americanos, uma das saídas tem sido a criação de mecanismos de financiamento de programas sociais via recursos fiscais temporários que tão logo vencido seus prazos
passam a ser permanentes. Isso pode ser verificado em países como o Brasil (o caso da CPMF) e Bolívia para financiar a manutenção de programas de saúde e educação já que a crise dos estados latino-americanos tem se caracterizado por deficiências econômicas para manter o fundo público de financiamento de políticas públicas, sobretudo políticas sociais.
Deste modo o que se tem como perspectivas para o caso dos países latinos, em especial o Brasil, é a palavra descentralização como uma das mais importante políticas de Estado. Entretanto, mesmo com as várias tentativas de reduzir a ação do Estado, restringindo-se este a atuar nas chamadas “funções de Estado”, isto é, a retirada sistemática do aparelho estatal, seja através de privatização ou da terceirização de serviços. Logo, o que temos é uma não efetivação de mudanças no padrão de gestão de benefícios sociais, com exceção do Chile que
tomou medidas profundas. Portanto, “dificilmente se poderá afirmar terem sido plenamente reformados os programas sociais latino-americano” (Draibe, p. 239) ou ainda não se verificou uma verdadeira reestruturação na administração pública nestes estados. Logo o chamado neoliberalismo, pelo menos nos países latino-americanos, ainda está engatinhando.
Referências Bibliográficas.
DINIZ, Eli. Crise, Reforma do Estado e Governabilidade. Rio de Janeiro: FGV, 1997. (Cap. 5).
DRAIBE, Sônia. “A Política Social na América Latina: o que ensinam as experiências recentes de reformas”. In: DINIZ, Eli & AZEVEDO, Sérgio de (Orgs.). Reforma do Estado e Democracia no Brasil. Brasília: UnB/ENAP, 1996. (p. 213-258).
* Miltom Cordeiro Farias Filho é Cientista Político Doutorando do NAEA/UFPA (2003) Belém/Pará
A SOCIEDADE SE DEFENDE
A crise do Estado ocidental decorre dos problemas de financiamento produzidos
pelas mudanças na economia global e das dificuldades para se adaptar às modernas
transformações tecnológicas, políticas e informacionais. Isto produz uma perda
progressiva de legitimação perante a sociedade e o conseqüente crescimento das
tendências antiestatais: de um lado, as correntes que preconizam um "Estado
mínimo"; do outro, o anarquismo nas suas formas mais ou menos civilizadas.
Sociologicamente, percebe-se um descrédito profundo a respeito do que possam ser ou fazer o Estado e os governos. E a sociedade tentam por diversos caminhos, recuperar as atribuições historicamente delegadas às estruturas estatais e que estas não estão conseguindo bom desempenho.
É nesse contexto que operam as reflexões de Nuria Cunil Grau. Com densidade a erudição, a socióloga chilena radicada na Venezuela produz uma contribuição valiosa destinada a esclarecer, a partir de uma profunda incursão teórica, os novos rumos da organização política da sociedade. Ela se inspira nas idéias de Habermas, Norberto Bobbio, Norbert Lechner, Adam Przeworski, Joan Prats, Jean Cohen, Luiz Carlos Bresser Pereira e outros pensadores, para formular suas proposições a respeito dos Estado latino-americanos. Tarefa difícil, já que a discussão teórica gira em torno da problemática do Estado nos países centrais, afetados pela crise do Welfare State.
A situação é bem diferente na nossa parte do mundo, caracterizada, nas palavras de Nuria Cunill, por uma matriz estadocêntrica, permeada do autoritarismo, nepotismo e corporativismo, e na qual nunca existiu um Estado de bem-estar (talvez com as exceções temporárias de Uruguai, Costa Rica e, numa outra versão política, Cuba).
Nuria propõe uma nova matriz centrada na sociedade que privilegie a cidadania, agindo por intermédio do autogoverno e da auto-organização. O conjunto de movimentos sociais, instituições sem fins lucrativos e outras ONGs, e os mecanismos de controle social gerariam uma esfera pública não-estatal em condições de conviver com uma administração pública focalizada no cidadão controlada para evitar sua apropriação pelos interesses privados.
A autora entende que o Plano de Reforma do Estado implementado pelo atual governo brasileiro prefigura a transformação substancial do aparelho estatal a partir de um enfoque sociocêntrico.
O professor Bresser Pereira afirma, no prólogo da obra comentada, que "estamos diante de um livro extraordinário. Um livro em que a filosofia política, a sociologia crítica e a administração pública se integram, nos aspectos contraditórios da crise do Estado e da amplificação da esfera pública".
___________________________
Enrique Saraiva é professor do
Quadro Permanente da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação
Getulio Vargas (EBAP/FGV).