Thomas Hobbes (1588 - 1679)

A chave para entendermos Hobbes, é o que ele diz a respeito ao estado de natureza. Como sabemos, Hobbes é um contratualista. Ou seja, antes de firmarem um contrato, os homens, viveriam em um estado de guerra. E só depois desse contrato, o homem, poderia viver em paz.
Para Hobbes, o homem em sua natureza é propício à guerra por causa da sua desconfiança em relação aos outros e também por se achar superior aos outros. Hobbes ainda defende a guerra quando dois homens desejarem a mesma coisa. A guerra para Hobbes á a atitude mais racional que um homem pode adotar. A guerra para Hobbes pode se dar por três motivos: Primeiro, a competição; segundo, a discórdia; e terceiro; a glória.
A competição leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro; a discórdia, a segurança; e a glória, a reputação. Os primeiros, usam a violência para se tornarem senhores  das pessoas, mulheres, filhos e rebanhos dos outros homens; os segundos, para defendê-los; e os terceiros por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião, e qualquer outro sinal de desprezo.
Vale lembrar que para Hobbes, todos os homens são praticamente iguais, mesmo com suas diferenças físicas e espirituais, já que essas diferenças são muito pequenas um homem pode matar outro mais forte se usar de maquinação ou de uma união com outros igualmente fracos que nem ele; a igualdade de espírito para Hobbes, resume-se em prudência que para ele nada mais é do que experiência.
Hobbes, acha que a política só será uma ciência, se soubermos como de fato o homem é, como os homens são praticamente iguais, basta sabermos como somos, ou seja, conhece-te a ti mesmo.
Hobbes deduz que no estado de natureza, o homem tem direito a tudo. E isso é também uma das causas da guerra.
Hobbes, diz que o homem vive basicamente da imaginação. O homem imagina que está sendo perseguido, que tem poder, que é superior, que o outro vai fazer, etc. E essa imaginação também é uma das razões da guerra, e só o Estado pode intervir nessa imaginação à medida que dá segurança ao homem.
Devemos observar as leis da natureza. A lei primeira e fundamental da natureza é, procurar a paz, e segui-la. A segunda é: Que um homem concorde, quando outros também o façam, e na medida em que tal considere necessário para a paz e para a defesa de si mesmo, em renunciar a seu direito a todas as coisas, contentando-se, em relação aos outros homens, com a mesma liberdade que aos outros homens permite em relação a si mesmo. Daí a criação do Estado. A lei do Evangelho é: Faz aos outros o que queres que façam a ti.
Observemos também, o direito de natureza, isto é, por todos os meios que pudermos, defendermo-nos a nós mesmos.
Hobbes defende a criação de um Estado ( dotado da espada, armado, para forçar os homens ao respeito ), pois somente ele será capaz de acabar com esse estado de guerra que é natural do ser humano. Nesse Estado ( que deve ser soberano ), cada pessoa, deve atribuir todos os seus direitos de se auto governar para um Príncipe ou uma Assembléia através do voto. Ou seja, o cidadão perde sua total autonomia para o Príncipe ou Assembléia. Daí a formação do contrato que se dá do vulgo para o vulgo. Note que o governante não participa desse contrato, pois é a partir deste que ele assume o poder. Segundo esse contrato, somente o vulgo tem obrigações com o governante, já que este não promete nada ao povo. Nesse contrato, o povo não tem direito de reclamar de nada a não ser quando uma decisão do Governante ou da Assembléia põem em risco sua vida, já que o Governo o representa, ou seja, quando o povo reclama do príncipe, reclama de si próprio.
Hobbes, define assim a essência do Estado: Uma pessoa de cujos atos numa grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os outros, foi instituída por cada um como autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e defesa comum.
Aquele que é portador dessa pessoa se chama soberano, e dele se diz que possui poder soberano. Todos os restantes são súditos.
Para Hobbes, um homem livre é aquele que, naquelas coisas que graças a sua força e engenho é capaz de fazer, não é impedido de fazer o que tem vontade de fazer.
Hobbes no capítulo XXI de Leviatã reduz a liberdade a uma determinação física, aplicável a qualquer corpo. Com isso, ele praticamente elimina o valor ( a seu ver retórico ) da liberdade como um clamor popular, como um princípio pelo qual homens lutam e morrem.
Segundo Hobbes, a verdadeira liberdade dos súditos é a de proteger sua vida mesmo contra a vontade do soberano, pois este é um direito natural do cidadão. Este não pode ordenar que um súdito se mate ou mutile como pena ou castigo.
Hobbes defende que por natureza, todos os homens são igualmente livres.
Um indivíduo pode deixar de obedecer ao governante quando este não mais o proteger, mas isso não o permite que os outros súditos que ainda contam com a proteção do governante também se rebele.
O governante pode punir seus súditos da maneira que lhe convier, pois está acima das leis. Ao castigado resta a sua liberdade natural.
Hobbes diz que o soberano governa pelo temor que inflige a seus súditos. Porque sem medo, ninguém abriria mão de toda a liberdade que tem naturalmente; se não temesse a morte violenta, que homem renunciaria ao direito que possui, por natureza, a todos os bens e corpos?
Devemos lembrar que o verdadeiro temor está no estado de natureza, não no soberano. Pois no estado de natureza até seu melhor amigo pode o trair, enquanto que no estado soberano, basta seguir as regras para não ser punido.
Para Hobbes a propriedade é competência do poder soberano e é garantida pelas leis civis. Cabe ao soberano dividir a propriedade entre seus súditos ao seu bel-prazer .
O súdito tem todo direito de expulsar outros súditos de sua propriedade, não excluindo o soberano.
Compete também ao soberano a decisão de onde e com quem haverá trocas de mercadorias com outros países. Assim como as mercadorias que devem ser trocadas;
Hobbes subordina a religião ao poder político.
Portanto, Hobbes caracteriza um estado natural, próprio da humanidade como um todo. Sendo intrínseco a todo homem o instinto de autoconservaçăo, o homem é encarado como um ente eminentemente egoísta, que possui como objetivo último a satisfação de suas necessidades pessoais. Assim, a convivência entre os homens processa-se ao modo de uma permanente disputa pelo melhor, marcada pelo desejo de alcançar sempre maior poder: o homem é o lobo do homem. Famosa é, ainda, outra expressão de Hobbes, que caracteriza igualmente esta inclinação: guerra de todos contra todos (bellum omnium contra omnes), e o homem é o lobo do homem. Faz-se necessário, para que a humanidade não pereça em uma guerra incessante, passar a um estado social, onde se estabeleçam contratos que garantam os direitos do próximo. As leis mantenedoras deste contrato, que prescreve uma convivência pacífica com o próximo, provém da elaboração racional como conclusões de caráter universal.

Contudo, para que se possa manter tais leis, é preciso um poder unificado, que paire acima dos diferentes grupos e interesses. Este poder é representado pelo absolutismo monárquico, uma vez que onde há mais que um indivíduo, há disputa e choques em função do poder. Este regime absoluto, no entanto, não se instaura por direito divino, mas segundo um pacto social, no qual a comunidade decide votar obediência a seu soberano. Este, contudo, somente se efetua entre os súditos; o soberano não adere ao pacto, de modo que sua vontade é a única livre, capaz de legislar como melhor lhe aprouver. Desta forma, toda a autoridade, mesmo a religiosa, deve ser submetida ao poder temporal unificador. Esta, segundo Hobbes, é a única condição de se manter um estado forte e centralizado.

  Leviată

 Do Domínio Paterno e Despótico - Cap. XX

O Domínio pode ser de dois tipos:

Geração: direito de domínio que o pai tem sobre seus filhos(paterno). Diz respeito ao consentimento do filho (contrato) e não por tê-lo procriado. Mesmo que não haja herdeiros o soberano pode nomear qualquer pessoa para sua sucessão.

Conquista (vitória militar): é o domínio do senhor sobre seu servo. Este domínio é adquirido ao evitar a morte do vencido. Ele promete servir ao vencedor (enquanto sua liberdade e seu corpo permitirem).

"Por Servo, entende-se alguém a quem se permite a liberdade corpórea e que, após prometa não fugir nem praticar violência contra seu senhor, recebe a confiança deste último" (não se trata de encarcerar o servo)

O homem pode escolher entre a morte ou tornar-se súdito do vencedor. Se um homem for mantido na prisão, ou se não lhe for confiada a liberdade de seu corpo, então não estará sujeito ŕ um pacto, podendo, se for capaz, fugir por quaisquer meios que sejam.

"Portanto não é a vitória que confere o direito de domínio sobre o vencido, mas o pacto celebrado por este"

O rei é soberano, e todos devem acatar suas decisões. Hobbes lança mão da alegoria do Gênesis (Adão e Eva) para indicar que os mandamentos daqueles que tem o direito de mandar não devem ser censurados nem discutidos por seus súditos. Hobbes reconhece que podem haver más conseqüências em um poder tão ilimitado, porém, ao se colocar na balança, as conseqüências da falta dele podem ser piores (como a guerra perpétua).

Numa sociedade regida pelo Estado, o homem jamais terá inconvenientes, a menos que desobedeça e rompa os pactos com o Estado.

 Da Liberdade dos Súditos - Cap. XXI

 Liberdade: livre é o homem que faz o que tem vontade de fazer. Significa não encontrar entraves no que deseja fazer. (tanto criaturas racionais e irracionais tem sua liberdade)

"Todos os atos praticados pelos homens do Estado, por medo da lei, são ações que seus autores tem a Liberdade de não praticar"

Todos os atos que derivam da vontade do homem, derivam da Liberdade, mesmo que tal vontade derive da necessidade.

Para garantir a paz e sua conservação, os homens criaram um homem artificial chamado Estado.

"A soberania é a alma do Estado, e uma vez separada do corpo os membros deixam de receber dela seu movimento"

"Ninguém tem a liberdade de resistir ŕ espada do Estado, em defesa de outrem, seja culpado ou inocente". Porém, tanto o culpado como o inocente tem o direito de preservarem suas vidas.

Há outras liberdades que dependem do silęncio da lei. Nos casos em que o soberano não tenha estabelecido uma regra, o súdito tem a liberdade de fazer ou de omitir, conformemente a sua discrição.

O súdito tem a liberdade de se defender contra uma controvérsia do soberano, desde que tenha atrás de si leis que o apóiem. Porém, se o soberano pedir ou tomar algo em nome de seu poder não poderá ser contrariado. E quem mover uma ação contra o soberano estará movendo-a contra si próprio.

A obrigação dos súditos para com o soberano dura somente enquanto este tem o poder mediante o qual ele é capaz de protegê-los.

"O direito que por natureza os homens tem de defender-se a si mesmos não pode ser abandonado através de pacto algum".

Se um monarca se fizer súdito de outro, seus súditos serão súditos do novo soberano, a menos se o for feito prisioneiro e não dispuser da liberdade de seu corpo.

 Dos Sistemas Sujeitos, Políticos e Privados - Cap. XXII 

Sistema: qualquer número de homens unidos por um interesse ou um negócio.

Sistemas Regulares: aqueles onde um homem ou uma assembléia é instituído como representante de todo o conjunto.

Sistemas Irregulares: todos os outros (sem representantes)

Os limites de poder desses corpos políticos dependem de escritos ou cartas que recebem do soberano ou das Leis do Estado.

"Se for aplicada ao corpo político alguma multa, devido a qualquer ato ilegal, só estão sujeitos a ela aqueles por cujos votos esse ato foi decidido, ou aqueles com cujo auxílio o ato foi executado"

Os grupos sempre devem nomear uma ou duas pessoas para seus representantes para não haverem tumultos.


O homem é o lobo do homem.

É preciso que cada um não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a si.

Todos os homens são naturalmente iguais, mas essa igualdade baseia-se no desejo universal da auto preservação.

Os homens não vivem em cooperação natural, como fazem as abelhas ou as formigas. O acordo entre elas é natural; entre os homens é artificial. Os indivíduos só entram em sociedade quando a preservação da vida está ameaçada.

 

A esperança constante chama-se confiança em si mesmo.

O medo dos poderes invisíveis, inventados ou imaginados a partir de relatos, chama-se religião.          (Leviatã)



Vida, época, filosofia e obras de Thomas Hobbes

Cobra, Rubem Q

Filósofo e cientista político inglês, Thomas Hobbes nasceu em Westport, hoje parte de Malmesbury (Cidade a alguns km a nordeste de Bristol e cerca de 140 km a oeste de Londres), no Wiltshire (Condado), em 5 de abril de 1588, e veio a falecer em 4 de dezembro de 1679.

Filho de outro Thomas Hobbes, sua infância foi marcada pelo medo da invasão da Inglaterra pelos espanhois, ao tempo da rainha Elizabete I (1558-1603).

Seu pai, clérigo anglicano, vigário de Westport, foi um homem turbulento e desapareceu após uma briga na porta de sua própria igreja, abandonando seus três filhos aos cuidados de seu irmão, que tinha um negócio de fabrico de luvas em Malmesbury.

Aos quatro anos foi colocado na escola da igreja de Westport, depois em uma escola privada e finalmente, aos 15 anos, no Magdalen Hall da Universidade de Oxford, onde consagrou a maior parte do tempo a ler livros de viagem e estudar cartas e mapas, e onde formou-se em 1608, já ao tempo de Jaime I (1603-1625).

Thomas Hobbes é outro filósofo cuja vida está vinculada à monarquia inglesa; não menos que a Bacon, a política e as intrigas da Corte afetaram sua existência e, sem dúvida, também seu pensamento filosófico.

Tornou-se preceptor de William Cavendish, que viria depois a ser o segundo duque de Devonshire, ficando amigo da família Cavendish por toda a vida. Como de hábito na época, viajou com seu aluno à França e Itália, onde verificou que a filosofia de Aristóteles que ensinavam em Oxford estava sendo combatida e desacreditada devido às descobertas de Galileo e Kepler.

Pelo relato de um antiquário seu contemporâneo, sabe-se que Hobbes, em certas ocasiões entre 1621 e 1625, secretariou Bacon ajudando-o a traduzir alguns de seus Ensaios para o latim.

Decidiu-se então pela vida intelectual. O principal fruto dos estudos clássicos a que agora se dedica foi a tradução da obra de Tucididas, - historiador grego analista político e moral da guerra do Peloponeso. A escolha desse autor e a publicação de sua tradução em 1629 provavelmente deveu- se a preocupações de Hobbes com a agitação política na Inglaterra e representaria um alerta seu contra a democracia que teria enfraquecido a antiga Atenas.

Com a morte do seu aluno o segundo duque de Devonshire, Hobbes voltou a viajar agora em companhia do filho de Sir Gervase Clifton. Durante sua estada na França, entre 1629 e 1631, ele estudou Euclides e tornou-se especialmente interessado em matemática. Mas foi chamado de volta à Inglaterra para se tornar o preceptor de outro William Cavendish, filho do primeiro discípulo.

Durante uma terceira viagem ao continente, com o jovem Cavendish, de 1634 a 1637, ele encontrou-se com Marin Mersenne, um reputado matemático e teólogo e, em 1636, com Galileu e René Descartes, cuja ciência e filosofia o impressionaram.

Hobbes recorda em sua autobiografia que por esta ocasião, numa roda de intelectuais, alguém perguntou "O que é o sentido"? e ninguém soube responder.

Então lhe ocorreu que se as coisas materiais e todas as suas partes estivessem em repouso ou movimento uniforme, não poderia haver distinção de nada e conseqüentemente nenhuma percep ção: assim a causa de tudo está na diversidade do movimento. Lançou essa idéia em seu primeiro livro filosófico, "Uma Curta Abordagem a respeito dos Primeiros Princípios". Ele então planejou uma trilogia filosófica: De Corpore, demonstrando que os fenômenos físicos são explicáveis em termos de movimento e que seria publicado em 1655; De Homine, tratando especificamente do movimento envolvido no conhecimento e apetite humano, que seria publicado em 1658, e De Cive, a respeito da organização social, que seria publicado em 1642.

Em 1637 Hobbes retornou à Inglaterra que se achava às vésperas da guerra civil. Decidiu publicar primeiro o trabalho que pensava publicar por último, o De Cive. Este circulou em cópia manuscrita em 1640 com o título "Elementos da Lei Natural e Política", parte I sobre o homem e parte II sobre a cidadania. Continham sua doutrina (vide abaixo) que depois seria publicada impressa em De Cive e "O Leviatã". O manuscrito irritou os monarquistas porque falava em um contrato social e os parlamentaristas porque pregava o absolutismo.

Quando a crise se tornou aguda em 1640, Hobbes, temendo por sua segurança, retirou-se para Paris, onde reintegrou-se no círculo de Mersenne, escreveu "Objeções às idéias de Descartes" e em 1642 publicou o De Cive.

Em 1646 o príncipe de Gales(1630-1685), depois Carlos II, refugiou-se em Paris, e Hobbes, estando naquela capital, aceitou o convite para ensinar-lhe matemática. Isto levou-o ao círculo político, e aos temas políticos. Em 1650 publicou o antigo manuscrito "Elementos da Lei" em duas Partes: "Natureza Humana" e "Do Corpo Político".

Em Paris Hobbes escreveu sua obra prima, "O Leviatã"; ou "Matéria, Forma e Poder da Comunidade Eclesiástica e Civil", um estudo filosófico sobre o absolutismo político que sucedeu a supremacia da Igreja medieval. A obra foi publicada no ano seguinte, 1651, englobando todo o seu pensamento. No final do livro colocou que os súditos tinham o direito de abandonar o soberano que não mais os podia proteger em favor de um novo soberano que pudesse fazê-lo. Esta posição foi considerada como ofensa ao herdeiro Carlos II, exilado em Paris enquanto a república sucedia a Carlos I na Inglaterra. Hobbes foi olhado como oportunista e repudiado pelos exilados de Paris, ao mesmo tempo que o governo francês o tinha sob suspeita devido a seus ataques ao papado. Em fins do mesmo ano de 1651 Hobbes voltou à Inglaterra procurando estar em paz com o novo re gime.

Tendo retornado à Inglaterra aos 63 anos Hobbes por mais vinte manteve sua energia e combatividade, envolvendo-se em várias polêmicas no campo científico e religioso. Quatro anos depois, em 1655, publicou seu De Corpore ("A respeito do corpo") no qual ele reduzia a filosofia ao estudo dos corpos em movimento. No ano seguinte, 1656, publicou Questions Concerning Liberty, Necessity, and Chance, onde elaborava uma teoria de determinismo psicológico.

Em 1660 Carlos II volta com a restauração da monarquia e os inimigos de Hobbes, principalmente matemáticos e cientistas que se opunham ao seu método dedutivo no De Corpore. O matemático John Wallis acusou-o então de haver escrito "O Leviatã" para apoiar o líder puritano Oliver Cromwell abandonando seu rei na desgraça. A carta de resposta de Hobbes foi publicada sob o título "Mr. Hobbes sob o aspecto de sua lealdade, religião, reputação e maneiras", em 1662, contando certas histórias do período revolucionário que envolviam John Wallis e que foram suficiente para emudecê-lo.

Apesar de toda crítica, Carlos II manteve Hobbes na corte e lhe deu uma pensão generosa, e tinha seu retrato nos aposentos reais. Mas o parlamento votou uma lei contra o ateísmo em 1666 que o colocou em perigo. Hobbes, então com 80 anos, queimou os papeis que poderiam incriminá-lo. A lei contra o ateísmo foi desfeita pelo Parlamento, mas desde então Hobbes não pode obter permissão para imprimir nada relacionada à conduta humana, aparentemente porque o Rei condicionou sua proteção a que Hobbes não fizesse mais nenhuma provocação. Vários trabalhos escritos então somente foram publicados anos depois.

Hobbes morreu em 1679, famoso no exterior, apesar de detestado por muitos inimigos na Inglaterra. Sua reputação foi logo superada pela de John Locke. Somente no século XVIII seu pensamento ganhou nova importância, dada pelos utilitaristas seguidores de Jeremy Bentham. É hoje considerado um dos grandes pensadores políticos da Inglaterra.

PENSAMENTO:

Hobbes é empirista e racionalista; põe em prática o empirismo nas suas observações e conclusões sobre a natureza humana, mas faz uma análise das palavras e do raciocínio que é dedutiva, racionalista, principalmente em ciência política.

Contestando Descartes, pergunta: de onde viria o conhecimento da proposição "eu penso"? Como não podemos conceber qualquer ato sem seu sujeito, assim também não podemos conceber o pensamento sem uma coisa que pense... Donde se segue "que uma coisa que pensa é alguma coisa de corporal"

Descartes respondeu-lhe que existem "atos que chamamos corporais, como a grandeza, a figura, o movimento"; esses atos "residem" em corpos. Porém, diz Descartes, há outros atos que chamamos intelectuais como o "querer, imaginar, etc... esses atos "residem" em uma coisa que pensa, tenha ou não esta coisa o nome de espírito, pouco importa, "conquanto não a confundamos com a substância corporal, uma vez que os atos intelectuais não tem qualquer afinidade com os atos corporais". Em suma, o pensamento difere totalmente da extensão"

Conatus. Na sua concepção de natureza humana é básico o conceito de conatus, a força genética do comportamento. É um impulso original ou "começo interno" do movimento animal para se aproximar do que lhe causa satisfação ou para fugir do que lhe desagrada. Esse conatus impulsiona o homem a vencer sempre. A vida começa com o conatus positivo, o desejo. Em termos de vida social, ultrapassar o outro é fonte primordial de satisfação, por isso estar continuamente ultrapassado é miséria enquanto ultrapassar continuamente quem está adiante é felicidade. É da sua natureza o egoísmo, constituído por "um perpétuo e irrequieto desejo de poder e mais poder que só termina com a morte" .

O conatus provoca "guerra de todos contra todos", é o estado natural em que vivem os homens, antes de seu ingresso no estado social. O homem é governado por suas paixões e tem como direito seu conquistar o que lhe apetecer. Como todos os homens seriam dotados de força igual (pois o fisicamente mais fraco pode matar o fisicamente mais forte, lançando mão deste ou daquele recurso), e como as aptidões intelectuais também se igualam, o recurso à violência se generaliza .

Instinto de conservação. Mas, além do conatus, governa o homem também o instinto de conservação e este leva ao desejo da paz. Deixado meramente a si mesmo, o instinto de conservação é abertura para a vio lência enquanto esta não é um risco, e, ao mesmo tempo, para a paz tática que prometa conservação. Assim se define o campo da lei natural de sobrevivência.

Por isso o instinto de conservação é peça tão fundamental na filosofia de Hobbes quanto sua idéia do conatus, porque para ele, ao contrário do pensamento aristotélico que tem o homem como um animal social, os indivíduos entram em sociedade só quando a preservação da vida está ameaçada. E estaria ameaçada pelos próprios indivíduos, se cada qual tudo fizesse para exercer seu poder sobre todas as coisas. A paz é a dimensão mais compatível com o instinto de conservação.

Contrato de segurança interna e externa. Pode-se então supor algo como um contrato tácito entre os homens, implicando em que contêm os seus ânimos, como defesa interna, e que, reunidos, formarão um povo, de modo a que a multidão dos associados seja tão grande que possa garantir a defesa externa, tirando a esperança de seus adversários de que um pequeno número baste para assegurar-lhes a vitória.

Ética. A vontade obedece à razão, segundo o racionalismo clássico. Porém, para Hobbes, é apenas apetite. Um determinismo mecanicista regeria não só os movimentos do universo como também a atividade psicológica do homem. O livre arbítrio não passaria de ilusão: seria apenas uma ex pressão destinada a ocultar a ingnorância das verdadeiras causas das decisões humanas. Porém, qualquer que seja seu fundamento, a contenção interna implica uma ética. No nível das relações morais, é preciso que cada um - segundo Hobbes - "não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a si"; é preciso evitar a in gratidão, os insultos, o orgulho, enfim, tudo o que prejudique a concórdia .

As leis não são deduzidas por Hobbes de um instinto natural, nem de um consentimento universal, mas da razão que procura os meios de conservação do homem; elas seriam imutáveis por constituírem conclusões tiradas do raciocínio. Tal postulado faz de Hobbes um pioneiro do Utili tarismo, porque justificava a obediência moral como meio para uma "vida social, pacífica e confortável".

Finalidade do governo. As leis, no entanto, careceriam de um reforço como garantia de seu cumprimento em salvaguarda do pacto social. Torna-se indispensável um governo que fosse seguido por todos os componentes do corpo social, e isto haveria de requerer que esse governo tivesse toda a força, porque somente seria capaz de corresponder à sua finalidade se exercido despoticamente. Levando em conta o desejo de ultrapassar a todos presente em cada um, sempre existiriam pessoas que, acreditando saber mais do que as outras, poderiam desencadear guerras civis a fim de conquistar o poder só para elas.

Absolutismo. Esta é a justificativa para o absolutismo, que Hobbes não deriva o absolutismo de um direito divino, como os teólogos políticos de sua época, mas das exigências do pacto social. Hobbes não admite um governo misto como a monarquia constitucional, acreditando que esta permite competições comprometedoras da paz entre os vários detentores do poder .

O soberano não precisa dar satisfações de sua gestão, sendo responsável apenas perante Deus "sob pena de morte eterna". Não submetido a qualquer lei social, o soberano absoluto é a própria fonte legisladora. A obediência a ele deve ser total, a não ser que ele se torne impotente para assegurar paz durável e prosperidade. A fim de cumprir sua tarefa, o soberano deve concentrar todos os poderes em suas mãos: "Os pactos sem a espada não passam de palavras" .

Hobbes teme a eloqüência, o que hoje se chamaria de demagogia. "É a loucura do vulgo e a eloqüência que concorrem para a subversão dos Estados", diz Hobbes. Por isso ele prefere um rei, assessorado por um conselho secreto de homens escolhidos.

Religião do Estado. Ao soberano absoluto deve pertencer, também, segundo Hobbes - todo poder de decisão em matéria religiosa. "Não há quase nenhum dogma referente ao serviço de Deus ou às ciências humanas de onde não nasçam divergências que se continuam em querelas, ultrajes e, pouco a pouco, não originem guerras; o que não sucede por falsidade dos dogmas, mas porque a natureza dos homens é tal que, vangloriando-se de seu suposto saber, querem que todos os demais julguem o mesmo". Hobbes não vê solução para esses conflitos a não ser pela entrega de toda autoridade religiosa ao soberano absoluto; caso contrário a religião ameaçaria a paz civil.

O Estado deve instituir um culto único e obrigatório: "porque, caso contrário, seriam encontradas em uma mesma cidade as mais absurdas opiniões referentes à natureza divina e as mais impertinentes e ridículas cerimônias jamais vistas".

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Thomas Hobbes. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 1997. ("Geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)


O Empirismo - Hobbes

 Texto de Hobbes - O Estado Natural e o Pacto Social

Tomás Hobbes

Tomás Hobbes nasceu em Westport, em 1588. Filho de clérigo, Hobbes, em 1608, sai da Universidade de Oxford e se torna preceptor do filho de Lord Cavendish. Durante toda sua vida, ele será o amigo devotado dos Stuarts. Antes mesmo da revolução de 1648, que vai suprimir o poder real, ele foge da Inglaterra, onde se sente ameaçado por causa de suas convicções monarquistas. Viajará por diversos países da Europa, notadamente pela Itália (encontrará Galileu em Florença) e sobretudo pela França (encontrará o padre Mersenne em Paris). Retornará à Inglaterra por ocasião da restauração de Carlos II em 1660.

Em 1642, ele publica em Paris o De Cive e, em 1651, faz publicar em Londres o Leviatã ou matéria, forma e autoridade de uma comunidade eclesiástica e civil. O Leviatã será traduzido para o latim em 1688, em Amsterdam, mas nunca foi integralmente traduzido para o francês.

Hobbes é um empirista inglês e nele encontramos os temas fundamentais que serão sempre os da escola. A origem de todo conhecimento é a sensação, princípio original do conhecimento dos próprios princípios: a imaginação é um agrupamento inédito de fragmentos de sensação e a memória nada mais é do que o reflexo de antigas sensações.

Todavia, Hobbes crê na possibilidade de uma lógica pura, de um raciocínio demonstrativo muito rigoroso. Ao lado de uma indução empírica aproximativa, que da experiência passada conclui, sem prova decisiva, o que se passará amanhã (e que não tem outro fundamento além da associação de idéias, the trayan of imagination), Hobbes admite a existência de uma lógica pura, perfeitamente racional. Mas a essa lógica só concernem símbolos, palavras (Hobbes é nominalista). Se definirmos rigorosamente as palavras e as regras do emprego dos signos, podemos chegar a conclusões rigorosas, isto é, idênticas aos princípios de que partimos. Mas trata-se de um jogo do pensamento, estranho às realidades concretas.

A filosofia de Hobbes é materialista e mecanicista. Assim como a percepção é explicada mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro, assim a moral se reduz ao interesse e à paixão. Na fonte de todos os nossos valores, há o que Hobbes denomina endeavour, em inglês, e conatus, em latim, isto é, o instinto de conservação ou, mais exatamente, de afirmação e de crescimento de si próprio; esforço próprio a todos os seres para unir-se ao que lhes agrada e fugir do que lhes desagrada (esse tema do conatus será reencontrado no spinozismo).

É partindo de tais fundamentos psicológicos que Hobbes elabora sua justificação do despotismo. O absolutismo da época de Hobbes geralmente se apóia na teologia (Deus teria investido os reis de seu poder absoluto). Hobbes, ao justificar o poder absoluto do soberano, descobre-lhe uma origem natural.

Para ele, o direito, em todos os casos, reduz-se à força; mas distingue dois momentos na história da humanidade: o estado natural e o estado político. No estado natural, o poder de cada um é medido por seu poder real; cada um tem exatamente tanto de direito quanto de força e todos só pensam na própria conservação e nos interesses pessoais. Para Hobbes, o homem se distingue dos insetos sociais, como as abelhas e as formigas; por isso, o homem não possui instinto social. Ele não é sociável por natureza e só o será por acidente.

Para compreender como o homem se resolve a criar a instituição artificial do governo, basta descrever o que se passa no estado natural; o homem, por natureza, procura ultrapassar todos os seus semelhantes: ele não busca apenas a satisfação de suas necessidades naturais, mas sobretudo as alegrias da vaidade (pride). O maior sofrimento é ser desprezado. Assim sendo, o ofendido procura vingar-se, mas - observa Hobbes, antecipando aqui os temas hegelianos - comumente não deseja a morte de seu adversário e deseja seu cativeiro a fim de poder ler, em seu olhar atemorizado e submisso, o reconhecimento de sua própria superioridade.

É claro que esse estado, em que cada um procura senão a morte, ao menos a sujeição do outro, é um estado extremamente infeliz. As expressões pelas quais Hobbes o descreve são célebres: "Homo homini lupus", o homem é o lobo do homem; "Bellum omnium contra omnes", é a guerra de todos contra todos. Não pensemos que mesmo os homens mais robustos desfrutem tranqüilamente as vitórias que sua força lhe assegura. Aquele que possui grande força muscular não está ao abrigo da astúcia do mais fraco. Este último - por maquinação secreta ou a partir de hábeis alianças - sempre é o suficientemente forte para vencer o mais forte. Por conseguinte, ao invés de uma desigualdade, é uma espécie de igualdade dos homens no estado natural que faz sua infelicidade. Pois, em definitivo, ninguém está protegido; o estado natural é, para todos, um estado de insegurança e de angústia.

Assim sendo, o homem sempre tem medo de ser morto ou escravizado e esse temor, em última instância mais poderoso do que o orgulho, é a paixão que vai dar a palavra à razão. (Essa psicologia da vaidade e do medo é, em Hobbes, uma espécie de laicização da oposição teológica entre o orgulho espiritual e o temor a Deus ou humildade.) É o medo, portanto, que vai obrigar os homens a fundarem um estado social e a autoridade política.

Os homens, portanto, vão se encarregar de estabelecer a paz e a segurança. Só haverá paz concretizável se cada um renunciar ao direito absoluto que tem sobre todas as coisas. Isto só será possível se cada um abdicar de seus direitos absolutos em favor de um soberano que, ao herdar os direitos de todos, terá um poder absoluto. Não existe aí a intervenção de uma exigência moral. Simplesmente o medo é maior do que a vaidade e os homens concordam em transmitir todos os seus poderes a um soberano. Quanto a este último, notemo-lo bem, ele é o senhor absoluto desde então, mas não possui o menor compromisso em relação a seus súditos.

Seu direito não tem outro limite que seu poder e sua vontade. No estado de sociedade, como no de natureza, a força é a única medida do direito. No estado social, o monopólio da força pertence ao soberano. Houve, da parte de cada indivíduo, uma atemorizada renúncia do seu próprio poder. Mas não houve pacto nem contrato, o que houve, como diz Halbwachs, foi "uma alienação e não uma delegação de poderes". O efeito comum do poder consistirá, para todos, na segurança, uma vez que o soberano terá, de fato, o maior interesse em fazer reinar a ordem se quiser permanecer no poder. Apesar de tudo, esse poder absoluto permanece um poder de fato que encontrará seus limites no dia em que os súditos preferirem morrer do que obedecer. Em todo caso, esta á a origem psicológica que Hobbes atribui ao poder despótico. Ele chama de Leviatã ao seu estado totalitário em lembrança de uma passagem da Bíblia (Jó XLI) em que tal palavra designa um animal monstruoso, cruel e invencível que é o rei dos orgulhosos.

Finalmente, o totalitarismo de Hobbes submete - apesar de prudentes reservas - o poder religioso ao poder político. Assim é que ele exclui o "papismo" e o "presbiterianismo" por causa "dessa autoridade que alguns concedem ao papa em reinos que não lhe pertencem ou que alguns bispos, em suas dioceses, querem usurpar".

O Estado Natural e o Pacto Social

Leviatã, 1.ª parte: Do Homem

Cap. XIII

... O Estado de natureza, essa guerra de todos contra todos tem por conseqüência o fato de nada ser injusto. As noções de certo e errado, de justiça e de injustiça não têm lugar nessa situação. Onde não há Poder comum, não há lei; onde não há lei, não há injustiça: força e astúcia são virtudes cardeais na guerra. Justiça e injustiça não pertencem à lista das faculdades naturais do Espírito ou do Corpo; pois, nesse caso, elas poderiam ser encontradas num homem que estivesse sozinho no mundo (como acontece com seus sentidos ou suas paixões). Na realidade, justiça e injustiça são qualidades relativas aos homens em sociedade, não ao homem solitário. A mesma situação de guerra não implica na existência da propriedade... nem na distinção entre o Meu e o Teu, mas apenas no fato de que a cada um pertence aquilo que for capaz de o guardar. Eis então, e por muito tempo, a triste condição em que o homem é colocado pela natureza com a possibilidade, é bem verdade, de sair dela, possibilidade que, por um lado, se apóia na Paixões e, por outro, em sua Razão. As paixões que inclinam o homem para a paz são o temor à morte violenta e o desejo de tudo o que é necessário a uma vida confortável... E a Razão sugere artigos de paz convenientes sobre os quais os homens podem ser levados a concordar.

Cap. XIV

... O direito natural que os escritores comumente chamam de Jus naturale é a Liberdade que tem cada um de se servir da própria força segundo sua vontade, para salvaguardar sua própria natureza, isto é, sua própria vida. E porque a condição humana é uma condição de guerra de cada um contra cada um... daí resulta que, nessa situação, cada um tem direito sobre todas as coisas, mesmo até o corpo dos outros... Enquanto dura esse direito natural de cada um sobre tudo e todos, não pode existir para nenhum homem (por mais forte ou astucioso que seja) a menor segurança...

Cap. XV

... Antes que se possa utilizar das palavras justo e injusto, é preciso que haja um Poder constrangedor; inicialmente, para forçar os homens a executar seus pactos pelo temor de uma punição maior do que o benefício que poderiam esperar se os violassem, em seguida, para garantir-lhes a propriedade do que adquirem por Contrato mútuo em substituição e no lugar do Direito universal que perdem. E não existe tal poder constrangedor antes da instituição de um Estado. É o que também resulta da definição que as Escolas dão geralmente da justiça, a saber, que a justiça é a vontade de atribuir a cada um o que lhe cabe pertencer; pois, quando nada é próprio, ou seja, quando não há propriedade, não há injustiça; e onde não há Poder Constrangedor estabelecido, em outras palavras, onde não há Estado, não há Propriedade e cada homem tem direito a todas as coisas. Por conseguinte, enquanto não há Estado, nada há que seja Injusto.

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