Que é isto - A Filosofia?

Martin Heidegger
Tradução: Ernildo Stein
Copyright: Domínio Público
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QU’EST-CE QUE LA PHILOSOPHIE?1
COM ESTA questão tocamos um tema muito vasto. Por ser vasto,
permanece indeterminado. Por ser indeterminado, podemos tratá-lo sob os mais
diferentes pontos de vista e sempre atingiremos algo certo. Entretanto, pelo
fato de, na abordagem deste tema tão amplo, se interpenetrarem todas as
opiniões, corremos o risco de nosso diálogo perder a devida concentração.
Por isso devemos tentar determinar mais exatamente a questão. Desta maneira,
levaremos o diálogo para uma direção segura. Procedendo assim, o diálogo é
conduzido a um caminho. Digo: a um caminho. Assim concedemos que este não é o
único caminho. Deve ficar mesmo em aberto se o caminho para o qual desejaria
chamar a atenção, no que segue, é na verdade em caminho que nos permite levantar
a questão e respondê-la.
Suponhamos que seríamos capazes de encontrar um caminho para responder mais
exatamente à questão; então se levanta imediatamente uma grave objeção contra o
tema de nosso encontro. Quando perguntamos:
Que é isto - a filosofia?, falamos sobre a filosofia. Perguntando desta maneira,
permanecemos, num ponto acima da filosofia e isto quer dizer fora dela. Porém, a
meta de nossa questão é penetrar na filosofia, demorarmo-nos nela, submeter
nosso comportamento às suas leis, quer dizer, “filosofar”. O caminho de nossa
discussão deve ter por isso não apenas uma direção bem clara, mas esta direção
deve, ao mesmo tempo, oferecer-nos também a garantia de que nos movemos no
âmbito da filosofia, e não fora e em torno dela.
O caminho de nossa discussão deve ser, portanto, de tal tipo e direção que
aquilo de que a filosofia trata atinja nossa responsabilidade, nos toque (nous
touche),2 e justamente em nosso ser.
Mas não se transforma assim a filosofia num objeto de nosso mundo afetivo e
sentimental?
‘Com os belos sentimentos faz-se a má literatura.” “C’est avec les beaux
sentiments que l’on faít la mauvaise litterature.” Esta palavra de André Gide
não vale só para a literatura; vale ainda mais para a filosofia. Mesmo os mais
belos sentimentos não pertencem à filosofia. Diz-se que os sentimentos são algo
de irracional. A filosofia, pelo contrário, não é apenas algo racional, mas a
própria guarda da ratio. Afirmando isto decidimos sem querer algo sobre o que é
a filosofia. Com nossa pergunta já nos antecipamos à resposta. Qualquer uma terá
por certa a afirmação de que a filosofia é tarefa da ratio. E, contudo, esta
afirmação é talvez uma resposta apressada e descontrolada à pergunta: Que é isto
- a filosofia? Pois a esta resposta poddemos contrapor novas questões. Que é isto
- a ratio, a razão? Onde e por quem foii decidido o que é a razão? Arvorou-se a
ratio mesma em senhora da filosofia? Em caso afirmativo, com que direito? Se
negativa a resposta, de onde recebe ela sua missão e seu papel? Se aquilo que se
apresenta como ratio foi primeiramente e apenas fixado pela filosofia e na
marcha de sua história, então não é de bom alvitre tratar a priori a filosofia
como negócio da ratio. Todavia, tão logo pomos em suspeição a caracterização da
filosofia como um comportamento racional, torna-se, da mesma maneira, também
duvidoso se a filosofia pertence à esfera do irracional. Pois quem quiser
determinar a filosofia como irracional, toma como padrão para a determinação o
racional, e isto de um tal modo que novamente pressupõe como óbvio o que seja a
razão.
Se, por outro lado, apontamos para a possibilidade de que aquilo a que a
filosofia se refere concerne a nós homens em nosso ser e nos toca, então poderia
ser que esta maneira de ser afetado não tem absolutamente nada a ver com aquilo
que comumente se designa como afetos e sentimentos, em resumo, o irracional.
Do que foi dito deduzimos primeiro apenas isto: é necessário maior cuidado se
ousamos inaugurar um encontro com o título: “Que é isto - A Filosofia?”
Um tal cuidado exige primeiro que procuremos situar a questão num caminho
claramente orientado, para não vagarmos através de representações arbitrárias e
ocasionais a respeito da filosofia. Como, porém, encontraremos o caminho no qual
poderemos determinar de maneira segura a questão?
O caminho para o qual desejaria apontar agora está imediatamente diante de nós.
E precisamente pelo fato de ser o mais próximo o achamos difícil. Mesmo quando o
encontramos, movemo-nos, contudo, ainda sempre desajeitadamente nele.
Perguntamos: Que é isto - a filosofia? Pronunciamos assaz freqüentes vezes a
palavra “filosofia”. Se, porém, agora não mais empregarmos a palavra “filosofia’
como um termo gasto; se em vez disso escutarmos a palavra “filosofia” em sua
origem, então, ela soa philosophía. A palavra ‘filosofia” fala agora através do
grego. A palavra grega é, enquanto palavra grega, um caminho. De um lado, esse
caminho se estende diante de nós, pois a palavra já foi proferida há muito
tempo.De outro lado, ele já se estende atrás de nós, pois ouvimos e pronunciamos
esta palavra desde os primórdios de nossa civilização. Desta maneira, a palavra
grega philosophía é um caminho sobre o qual estamos a caminho. Conhecemos,
porém, este caminho apenas confusamente, ainda que possuamos muitos
conhecimentos históricos sobre a filosofia grega e os possamos difundir.
A palavra philosophía diz-nos que a filosofia é algo que pela primeira vez e
antes de tudo vinca a existência do mundo grego. Não só isto - a philosophía
determina também a linha mestra de nossa história ocidental-européia. A batida
expressão “filosofia ocidental-européia” é, na verdade, uma tautologia. Por quê?
Porque a ‘filosofia” é grega em sua essência - e grego aqui significa: a
filosofia é nas origens de sua essência de tal natureza que ela primeiro se
apoderou do mundo grego e só dele, usando-o para se desenvolver.
Mas a essência originariamente grega da filosofia é dirigida e dominada, na
época de sua vigência na Modernidade Européia, por representações do
cristianismo. A hegemonia destas representações é mediada pela Idade Média.
Entretanto, não se pode dizer que por isto a filosofia se tornou cristã, quer
dizer, uma tarefa da fé na revelação e na autoridade da Igreja. A frase: a
filosofia é grega em sua essência, não diz outra coisa que: o Ocidente e a
Europa, e somente eles, são, na marcha mais íntima de sua história,
originariamente “filosóficos”. Isto é atestado pelo surto e domínio das
ciências. Pelo fato de elas brotarem da marcha mais íntima da história
ocidental-européia, o que vale dizer do processo da filosofia, são elas capazes
de marcar hoje, com seu cunho específico, a história da humanidade pelo orbe
terrestre.
Consideremos por um momento o que significa o fato de caracterizarmos uma era da
história humana de “era atômica”. A energia atômica descoberta e liberada pelas
ciências é representada como aquele poder que deve determinar a marcha da
história. Entretanto, a ciência nunca existiria se a filosofia não a tivesse
precedido e antecipado. A filosofia, porém, é: he philosophía. Esta palavra
grega liga nosso diálogo a uma tradição historial. Pelo fato de esta tradição
permanecer única, ela é também unívoca. A tradição designada pelo nome grego
philosophía, tradição nomeada pela palavra historial philosophía, mostra-nos a
direção de um caminho, no qual perguntamos: que é isto - a filosofia?
A tradição não nos entrega à prisão do passado e irrevogável. Transmitir,
delivrer¹ é um libertar para a liberdade do diálogo com o que foi e continua
sendo. Se estivermos verdadeiramente atentos à palavra e meditarmos o que
ouvimos, o nome “filosofia” nos convoca para penetrarmos na história da origem
grega da filosofia. A palavra philosophía está, de certa maneira, na certidão de
nascimento de nossa própria história; podemos mesmo dizer: ela está na certidão
de nascimento da atual época da história universal que se chama era atômica. Por
isso somente podemos levantar a questão: Que é isto - a filosofia?, se começamos
um diálogo com o pensamento do mundo grego.
Porém, não apenas aquilo que está em questão, a filosofia, é grego em sua
origem, mas também a maneira como perguntamos, mesmo a nossa maneira atual de
questionar ainda é grega.
Perguntamos: que é isto...? Em grego isto é: ti estin. A questão relativa ao que
algo seja permanece, todavia, multívoca. Podemos perguntar, por perguntar, por
exemplo: que é aquilo lá longe? Obtemos então a resposta: uma árvore. A resposta
consiste em darmos o nome a uma coisa que não conhecemos exatamente.
Podemos, entretanto, questionar mais: que é aquilo que designamos “árvore"? Com
a questão agora posta avançamos para a proximidade do ti estin grego. E aquela
forma de questionar desenvolvida por Sócrates, Platão e Aristóteles. Estes
perguntam, por exemplo: Que é isto - o belo? Que é isto - o conhecimento? Que é
isto - a natureza? Que é isto - o movimento?
Agora, porém, devemos prestar atenção para o fato de que nas questões acima não
se procura apenas uma delimitação mais exata do que é natureza, movimento,
beleza; mas é preciso cuidar para que ao mesmo tempo se dê uma explicação sobre
o que significa o “que’, em que sentido se deve compreender o ti. Aquilo que o
‘que’ significa se designa o quid est, tò quid: a quidditas, a qüididade.
Entretanto, a quidditas se determina diversamente nas diversas épocas da
filosofia. Assim, por exemplo, a filosofia de Platão é uma interpretação
característica daquilo que quer dizer o ti. Ele significa precisamente a idéia.
O fato de nós, quando perguntamos pelo ti, pelo quid, nos referimos à “idéia”
não é absolutamente evidente. Aristóteles dá uma outra explicação do ti que
Platão. Outra ainda dá Kant e também Hegel explica o tí de modo diferente.
Sempre se deve determinar novamente aquilo que é questionado através do fio
condutor que representa o ti, o quid, o “que”. Em todo caso: quando,
referindo-nos à filosofia, perguntamos: que é isto?, levantamos uma questão
originariamente grega.
Notemos bem: tanto o tema de nossa interrogação: “a filosofia”, como o modo como
perguntamos: “que é isto...?” - ambos permanecem gregos em sua proveniência. Nós
mesmos fazemos parte desta origem, mesmo então quando nem chegamos a dizer a
palavra “filosofia’. Somos propriamente chamados de volta para esta origem,
reclamados para ela e por ela, tão logo pronunciemos a pergunta: Que é isto - a
filosofia? não apenas em seu sentido literal, mas meditando seu sentido
profundo.
[A questão: que é filosofia? não é uma questão que uma espécie de conhecimento
se coloca a si mesmo (filosofia da filosofia). A questão também não é de cunho
histórico; não se interessa em resolver como começou e se desenvolveu aquilo que
se chama “filosofia”. A questão é carregada de historicidade, é historial, quer
dizer, carrega em si um destino, nosso destino. Ainda mais: ela não é ‘uma”, ela
é a questão historial de nossa existência ocidental-européia.]
Se penetrarmos no sentido pleno e originário da questão: Que é isto - a
filosofia? então nosso questionar encontrou, em sua proveniência historial, uma
direção para nosso futuro historial. Encontramos um caminho. A questão mesma é
um caminho. Ele conduz da existência própria ao mundo grego até nós, quando não
para além de nós mesmos. Estamos - se perseverarmos na questão - a caminho, num
caminho claramente orientado. Todavia, não nos dá isto uma garantia de que já,
desde agora, sejamos capazes de trilhar este caminho de maneira correta. Já
desde há muito tempo costuma-se caracterizar a pergunta pelo que algo é, como a
questão da essência. A questão da essência torna-se mais viva quando aquilo por
cuja essência se interroga, se obscurece e confunde, quando ao mesmo tempo a
relação do homem para com o que é questionado se mostra vacilante e abalada.
A questão de nosso encontro refere-se à essência da filosofia. Se esta questão
brota realmente de uma indigência e se não está fadada a continuar apenas um
simulacro de questão para alimentar uma conversa, então a filosofia deve ter-se
tornado para nós problemática, enquanto filosofia. É isto exato? Em caso
afirmativo, em que medida se tornou a filosofia problemática para nós? Isto
evidentemente só podemos declarar se já lançamos um olhar para dentro da
filosofia. Para isso é necessário que antes saibamos que é isto - a filosofia.
Desta maneira somos estranhamente acossados dentro de um círculo. A filosofia
mesma parece ser este círculo. Suponhamos que não nos podemos libertar
imediatamente do cerco deste círculo; entretanto, é-nos permitido olhar para
este círculo. Para onde se dirigirá nosso olhar? A palavra grega philosophía
mostra-nos a direção.
Aqui se impõe uma observação fundamental. Se nós agora ou mais tarde prestamos
atenção às palavras da língua grega, penetramos numa esfera privilegiada.
Lentamente vislumbramos em nossa reflexão que a língua grega não é uma simples
língua como as européias que conhecemos. A língua grega, e somente ela, é lógos.
Disto ainda deveremos tratar ainda mais profundamente em nossas discussões. Para
o momento sirva a indicação: o que é dito na língua grega é, de modo
privilegiado, simultaneamente aquilo que em dizendo se nomeia. Se escutarmos de
maneira grega uma palavra grega, então seguimos seu légein, o que expõe sem
intermediários, O que ela expõe é o que está aí diante de nós. Pela palavra
grega verdadeiramente ouvida de maneira grega, estamos imediatamente sem
presença da coisa mesma, aí diante de nós, e não primeiro apenas diante de uma
simples significação verbal.
A palavra grega philosophía remonta à palavra philósophos. Originariamente esta
palavra é um adjetivo como philárgyros, o que ama a prata, como philótimos, o
que ama a honra. A palavra philósophos foi presumivelmente criada por Heráclito.
Isto quer dizer que para Heráclito ainda não existe a philosophía. Um anèr
philósophos não é um homem ‘filosófico’. O adjetivo grego philósophos significa
algo absolutamente diferente que os adjetivos filosófico, philosophique. Um anèr
philósophos é aquele, hòs philei tá sophón; philein, que ama a sophón significa
aqui, no sentido de Heráclito: homologein, falar assim como o Lógos fala, quer
dizer, corresponder ao Lógos. Este corresponder está em acordo com o sophón.
Acordo é harmonia. O elemento específico de philein do amor, pensado por
Heráclito, é a harmonia que se revela na recíproca integração de dois seres, nos
laços que os unem originariamente numa disponibilidade de um para com o outro.
O anèr philósophos ama o sophón. O que esta palavra diz para Heráclito é difícil
traduzir. Podemos, porém, elucidá-lo a partir da própria explicação de
Heráclito. De acordo com isto, tá sophón significa: Hèn Pánta ‘Um (é) Tudo’.
Tudo quer dizer aqui: Pánta tà ónta, a totalidade, o todo do ente. Hèn, o Um,
designa: o que é um, o único, o que tudo une. Unido é, entretanto, todo o ente
no ser. O sophón significa: todo ente é no ser. Dito mais precisamente: o ser é
o ente. Nesta locução, o “é” traz uma carga transitiva e designa algo assim como
“recolhe”. O ser recolhe o ente pelo fato de que é o ente. O ser é o
recolhimento - Lógos.
Todo o ente é no ser. Ouvir tal coisa soa de modo trivial em nosso ouvido,
quando não de modo ofensivo. Pois, pelo fato de o ente ter seu lugar no ser,
ninguém precisa preocupar-se. Todo mundo sabe: ente é aquilo que é. Qual a outra
solução para o ente a não ser esta: ser? E entretanto: precisamente isto, que o
ente permaneça recolhido no ser, que no fenômeno do ser se manifesta o ente;
isto jogava os gregos, e a eles primeiro unicamente, no espanto. Ente no ser:
isto se tomou para os gregos o mais espantoso.
Entretanto, mesmo os gregos tiveram que salvar e proteger o poder de espanto
deste mais espantoso - contra o ataque do entendimento sofista, que dispunha
logo de uma explicação, compreensível para qualquer um, para tudo e a difundia.
A salvação do mais espantoso - ente no ser - se deu pelo fato de que alguns se
fizeram a caminho na sua direção, quer dizer, do sophón. Estes tomaram-se por
isto aqueles que tendiam para o sophón e que através de sua própria aspiração
despertavam nos outros homens o anseio pelo sophón e o mantinham aceso. O
philein tà sophón, aquele acordo com o sophón de que falamos acima, a harmonia,
transformou-se em órecsis, num aspirar pelo sophón. O sophón - o ente no ser - é
agora propriamente procurado. Pelo fato de o philein não ser mais um acordo
originário com o sophón, mas um singular aspirar pelo sophón, o philein tò
sophón torna-se “philosophía”. Esta aspiração é determinada pelo Éros.
Uma tal procura que aspira pelo sophón, pelo hèn pánta, pelo ente no ser, se
articula agora numa questão: que é o ente, enquanto é? Somente agora o
pensamento toma-se “filosofia”. Heráclito e Parmênides ainda não eram
“filósofos”. Por que não? Porque eram os maiores pensadores. “Maiores” não
designa aqui o cálculo de um rendimento, porém aponta para uma outra dimensão do
pensamento. Heráclito e Parmênides eram “maiores” no sentido de que ainda se
situavam no acordo com o Lógos, quer dizer, com o Hèn Pánta. O passo para a
“filosofia”, preparado pela sofística, só foi realizado por Sócrates e Platão.
Aristóteles então, quase dois séculos depois de Heráclito, caracterizou este
passo com a seguinte afirmação: Kai dê kai tá pálai te kai nyn kai aei
zetoúmenon kai aei aporoúmenon, ti tò ón? (Metafísica, VI, 1, 1028 b 2 ss.). Na
tradução isso soa: “Assim, pois, é aquilo para o qual (a filosofia) está em
marcha já desde os primórdios, e também agora e para sempre e para o qual sempre
de novo não encontra acesso (e que é por isso questionado): que é o ente? (ti tò
ón)”.
A filosofia procura o que é o ente enquanto é. A filosofia está a caminho do ser
do ente, quer dizer, a caminho do ente sob o ponto de vista do ser. Aristóteles
elucida isto, acrescentando uma explicação ao ti tò ón, que é o ente?, na
passagem acima citada: toutó esti tís he ousia? Traduzido: “Isto (a saber, ti tà
ón) significa: que é a entidade do ente?” O ser do ente consiste na entidade.
Esta, porém - a ousia -, é determinada por Platão como idéia, por Aristóteles
como enérgeia.
De momento ainda não é necessário analisar mais exatamente o que Aristóteles
entende por enérgeia e em que medida a ousia se deixa determinar pela enérgeia.
O importante por ora é que prestemos atenção como Aristóteles delimita a
filosofia em sua essência. No primeiro livro da Metafísica (Metafísica, 1, 2,
982 b 9 s.), o filósofo diz o seguinte: A filosofia é epistéme tõn próton arkhõn
Kai aitiõn theoretiké? Traduz-se facilmente epistéme por “ciência”. Isto induz
ao erro, porque, com demasiada facilidade, permitimos que se insinue a moderna
concepção de “ciência”. A tradução de epistéme por “ciência” é também, então,
enganosa quando entendemos “ciência” no sentido filosófico que tinham em mente
Fichte, Schelling e Hegel. A palavra epistéme deriva do particípio epistámenos.
Assim se chama o homem enquanto competente e hábil (competência no sentido de
appartenance). A filosofia é epistéme tís, uma espécie de competência,
theoretiké, que é capaz de theorein, quer dizer, olhar para algo e envolver e
fixar com o olhar aquilo que perscruta. E por isso que a filosofia é epistéme
theoretiké. Mas que é isto que ela perscruta?
Aristóteles di-lo, fazendo referência às pròtai arkhai kai aitíai. Costuma-se
traduzir: “as primeiras razões e causas” - a saber, do ente. As primeiras razões
e causas constituem assim o ser do ente. Após dois milênios e meio me parece que
teria chagado o tempo de considerar o que afinal tem o ser do ente a ver com
coisas tais como “razão” e “causa”.
Em que sentido é pensado o ser para que coisas tais como “razão” e “causa” sejam
apropriadas para caracterizarem e assumirem o sendo-ser do ente?
Mas nós dirigimos nossa atenção para outra coisa. A citada afirmação de
Aristóteles diz-nos para onde está a caminho aquilo que se chama, desde Platão,
“filosofia”. A afirmação nos informa sobre isto que é - a filosofia. A filosofia
é uma espécie de competência capaz de perscrutar o ente, a saber, sob o ponto de
vista do que ele é, enquanto é ente.
A questão que deve dar ao nosso diálogo a inquietude fecunda e o movimento e
indicar para nosso encontro a direção do caminho, a questão: que é filosofia?
Aristóteles já a respondeu. Portanto, não é mais necessário nosso encontro. Está
encerrado antes de ter começado. Revidar-se-á logo que a afirmação de
Aristóteles sobre o que é a filosofia não pode ser absolutamente a única
resposta à nossa questão. No melhor dos casos, é ela uma resposta entre muitas
outras. Com o auxilio da caracterização aristotélica de filosofia pode-se
evidentemente representar e explicar tanto o pensamento antes de Aristóteles e
Platão quanto a filosofia posterior a Aristóteles. Entretanto, facilmente se
pode apontar para o fato de que a filosofia mesma, e a maneira como ela concebe
sua essência, passou por várias transformações nos dois milênios que seguiram o
Estagirita. Quem ousaria negá-lo? Mas não podemos passar por alto o fato de a
filosofia de Aristóteles e Nietzsche permanecer a mesma, precisamente na base
destas transformações e através delas. Pois as transformações são a garantia
para o parentesco no mesmo.
De nenhum modo afirmamos com isto que a definição aristotélica de filosofia
tenha valor absoluto. Pois ela é já em meio à história do pensamento grego uma
determinada explicação daquele pensamento e do que lhe foi dado como tarefa. A
caracterização aristotélica da filosofia não se deixa absolutamente retraduzir
no pensamento de Heráclito e de Parmênides; pelo contrário, a definição
aristotélica de filosofia certamente é livre continuação da aurora do pensamento
e seu encerramento. Digo livre continuação porque de maneira alguma pode ser
demonstrado que as filosofias tomadas isoladamente e as épocas da filosofia
brotam uma das outras no sentido da necessidade de um processo dialético.
Do que foi dito, que resulta para nossa tentativa de, num encontro, tratarmos a
questão: Que é isto - a filosofia? Primeiramente um ponto: não podemos ater-nos
apenas à definição de Aristóteles. Disto deduzimos o outro ponto: devemos
ocupar-nos das primeiras e posteriores definições de filosofia. E depois? Depois
alcançaremos uma fórmula vazia, que serve para qualquer tipo de filosofia. E
então? Então estaremos o mais longe possível de uma resposta à nossa questão.
Por que se chega a isto? Porque, pelo processo há pouco referido, somente
reunimos historicamente as definições que estão aí prontas e as dissolvemos numa
fórmula geral. Isto se pode realmente fazer quando se dispõe de grande erudição
e auxiliado por verificações certas. Nesta empresa não precisamos, nem em grau
mínimo, penetrar na filosofia de tal modo que meditemos sobre a essência da
filosofia. Procedendo daquela maneira nos enriquecemos com conhecimentos muito
mais variados e sólidos e até mais úteis sobre as formas como a filosofia foi
representada no curso de sua história. Mas por esta via nunca chegaremos a uma
resposta autêntica, isto é, legítima, para a questão: Que é isto - a filosofia?
A resposta somente pode ser uma resposta filosofante, uma resposta que enquanto
resposta filosofa por ela mesma. Mas como compreender esta afirmação? Em que
medida uma resposta pode, na medida em que é res-posta, filosofar? Procurarei
esclarecer isto agora provisoriamente por algumas indicações. Aquilo que tenho
em mente e a que me refiro sempre perturbará novamente nosso diálogo. Será até a
pedra de toque para averiguar se nosso encontro tem chance de se tomar um
encontro verdadeiramente filosófico. Coisa que não está absolutamente em nosso
poder.
Quando é que a resposta à questão: Que é isto - a filosofia? é uma resposta
filosofante? Quando filosofamos nós? Manifestamente apenas então-quando entramos
em diálogo com os filósofos. Disto faz parte que discutamos com eles aquilo de
que falam. Este debate em comum sobre aquilo que sempre de novo, enquanto o
mesmo, é tarefa específica dos filósofos, é o falar, o légein no sentido do
dialégesthai, o falar como diálogo. Se e quando o diálogo é necessariamente uma
dialética, isto deixamos em aberto.
Uma coisa é verificar opiniões dos filósofos e descrevê-las. Outra coisa bem
diferente é debater com eles aquilo que dizem, e isto quer dizer, do que falam.
Supondo, portanto, que os filósofos são interpelados pelo ser do ente para que
digam o que o ente é, enquanto é, então também nosso diálogo com os filósofos
deve ser interpelado pelo ser do ente. Nós mesmos devemos vir com nosso
pensamento ao encontro daquilo para onde a filosofia está a caminho. Nosso falar
deve co-responder àquilo pelo qual os filósofos são interpelados. Se formos
felizes neste co-responder, respondemos de maneira autêntica à questão: Que é
isto - a filosofia? A palavra alemã “Antworten”, responder, significa
propriamente a mesma coisa que ent-sprechen, co-responder. A resposta à nossa
questão não se esgota numa afirmação que res-ponde à questão com uma verificação
sobre o que se deve representar quando se ouve o conceito ‘filosofia”. A
resposta não é uma afirmação que replica (n’est pas une réponse), a resposta é
muito mais a co-respondência (la correspondance), que corresponde ao ser do
ente. Imediatamente, porém, quiséramos saber o que constitui o elemento
característico da resposta, no sentido da correspondência. Mas primeiro que tudo
importa chegarmos a uma correspondência, antes que sobre ela levantemos a
teoria.
A resposta à questão: Que é isto - a filosofia? consiste no fato de
correspondermos àquilo para onde a filosofia está a caminho. E isto é: o ser do
ente. Num tal corresponder prestamos, desde o começo, atenção àquilo que a
filosofia já nos inspirou, a filosofia, quer dizer, a philosophía entendida em
sentido grego. Por isso somente chegamos assim à correspondência, quer dizer, à
resposta à nossa questão, se permanecemos no diálogo com aquilo para onde a
tradição da filosofia nos remete, isto é, libera. Não encontramos a resposta à
questão, que é a filosofia, através de enunciados históricos sobre as definições
da filosofia, mas através do diálogo com aquilo que se nos transmitiu como ser
do ente.
Este caminho para a resposta à nossa questão não representa uma ruptura com a
história, nem uma negação da história, mas uma apropriação e transformação do
que foi transmitido. Uma tal apropriação da história é designada com a expressão
“destruição”. O sentido desta palavra é claramente determinado em Ser e Tempo (§
6). Destruição não significa ruína, mas desmontar, demolir e pôr-de-lado - a
saber, as afirmações puramente históricas sobre a história da filosofia.
Destruição significa: abrir nosso ouvido, torna-lo livre para aquilo que na
tradição do ser do ente nos inspira. Mantendo nossos ouvidos dóceis a esta
inspiração, conseguimos situar-nos na correspondência.
Mas, enquanto dizemos isto, já se anunciou uma objeção. Eis o teor: será
primeiro necessário fazer um esforço para atingirmos a correspondência ao ser do
ente? Não estamos nós homens já sempre numa tal correspondência, e não apenas de
fato, mas do mais íntimo de nosso ser? Não constitui esta correspondência o
traço fundamental de nosso ser?
Na verdade, esta é a situação. Mas, se a situação é esta, então não podemos
dizer que primeiro nos devemos situar nesta correspondência. E, contudo, dizemos
isto com razão. Pois nós residimos, sem dúvida, sempre e em toda parte, na
correspondência ao ser do ente; entretanto, só raramente somos atentos à
inspiração do ser. Não há dúvida que a correspondência ao ser do ente permanece
nossa morada constante. Mas só de tempos em tempos ela se torna um comportamento
propriamente assumido por nós e aberto a um desenvolvimento. Só quando acontece
isto correspondemos propriamente àquilo que concerne à filosofia que está a
caminho do ser do ente, O corresponder ao ser do ente é a filosofia; mas ela o é
somente então e apenas então quando esta correspondência se exerce propriamente
e assim se desenvolve e alarga este desenvolvimento. Este corresponder se dá de
diversas maneiras, dependendo sempre do modo como fala o apelo do ser, ou do
modo como é ouvido ou não ouvia um tal apelo, ou ainda, do modo como é dito e
silenciado o que se ouviu. Nosso encontro pode dar oportunidade para meditar
sobre isto.
Procuro agora dizer apenas uma palavra preliminar ao encontro. Desejaria ligar o
que foi exposto até agora àquilo que afloramos, fazendo referencia a palavra de
André Gide sobre os “belos sentimentos”. Philosophía é a correspondência
propriamente exercida, que fala na medida em que é dócil ao apelo do ser do
ente, O corresponder escuta a voz do apelo. O que como voz do ser se dirige a
nós dis-põe nosso corresponder. “Co-responder” significa então: ser dis-posto,
être dis-posé,3 a saber, a partir do ser do ente. Dis-posé significa aqui
literalmente: ex-posto, iluminado e com isto entregue ao serviço daquilo que é.
O ente enquanto tal dis-põe de tal maneira o falar que o dizer se harmoniza (accorder)
como o ser do ente. O corresponder é, necessariamente e sempre e não apenas
ocasionalmente e de vez em quando, um corresponder dis-posto. Ele está numa
disposição. E só com base na dis-posição (dis-position) o dizer da
correspondência recebe sua precisão, sua vocação.
Enquanto dis-posta e con-vocada, a correspondência é essencialmente uma
dis-posição. Por isso o nosso comportamento é cada vez dis-posto desta ou
daquela maneira. A dis-posição não é um concerto de sentimentos que emergem
casualmente, que apenas acompanham a correspondência. Se caracterizamos a
filosofia como a correspondência dis-posta, não-posta, não é absolutamente
intenção nossa entregar o pensamento às mudanças fortuitas e vacilações de
estados de ânimo. Antes, trata-se unicamente de apontar para o fato de que toda
precisão do dizer se funda numa disposição da correspondência, da correspondance,
digo eu, à escuta do apelo.
Antes de mais nada, porém, convém notar que a referência à essencial dis-posição
da correspondência não é uma invenção apenas de nossos dias. Já os pensadores
gregos, Platão e Aristóteles, chamaram a atenção para o fato de que a filosofia
e o filosofar fazem parte de uma dimensão do homem, que designamos dis-posição
(no sentido de uma tonalidade afetiva que nos harmoniza e nos convoca por um
apelo).
Platão diz (Teeteto, 155 d): mala gàr philosóphou touto tò páthos, tò thaumázein,
ou gàr alie arkhè philojophias hè haúte. “É verdadeiramente de um filósofo estes
pháthos - o espanto; pois não há outra origem imperante da filosofia que este.”
O espanto é, enquanto páthos, a arkhé da filosofia. Devemos compreender, em seu
pleno sentido, a palavra grega arkhé. Designa aquilo de onde algo surge. Mas
este “de onde” não é deixado para trás no surgir; antes, a arkhé torna-se aquilo
que é expresso pelo verbo arkhein, o que impera. O páthos do espanto não está
simplesmente no começo da filosofia, como, por exemplo, o lavar das mãos precede
a operação do cirurgião. O espanto carrega a filosofia e impera em seu interior.
Aristóteles diz o mesmo (Metafísica, 1, 2, 982 b 12 ss.): dià gàr tò thaumázein
hoi ánthropoi kaì nyn kai prôton ércsanto philosophein. “Pelo espanto os homens
chegam agora e chegaram antigamente à origem imperante do filosofar” (àquilo de
onde nasce o filosofar e que constantemente determina sua marcha).
Seria muito superficial e, sobretudo, uma atitude mental pouco grega se
quiséssemos pensar que Platão e Aristóteles apenas constatam que o espanto é a
causa do filosofar. Se esta fosse a opinião deles, então diriam: um belo dia os
homens se espantaram, a saber, sobre o ente e sobre o fato de ele ser e de que
ele seja. Impelidos por este espanto, começaram eles a filosofar. Tão logo a
filosofia se pôs em marcha, tornou-se o espanto supérfluo como impulso,
desaparecendo por isso. Pôde desaparecer já que fora apenas um estímulo.
Entretanto: o espanto é arkhé - ele perpassa qualquer passo da filosofia. O
espanto é páthos. Traduzimos habitualmente páthos por paixão, turbilhão afetivo.
Mas pháthos remonta a páskhein, sofrer, agüentar, suportar, tolerar, deixar-se
levar por, deixar-se con-vocar por. E ousado, como sempre em tais casos,
traduzir páthos por dis-posição, palavra com que procuramos expressar uma
tonalidade de humor que nos harmoniza e nos con-voca por um apelo. Devemos,
todavia, ousar esta tradução porque só ela nos impede de representarmos páthos
psicologicamente no sentido da modernidade. Somente se compreendermos páthos
como dis-posição (dis-position) podemos também caracterizar melhor o thaumàzein,
o espanto. No espanto detemo-nos (être en arrêt). E como se retrocedêssemos
diante do ente pelo fato de ser e de ser assim e não de outra maneira. O espanto
também não se esgota neste retroceder diante do ser do ente, mas no próprio ato
de retroceder e manter-se em suspenso é ao mesmo tempo atraído e como que
fascinado por aquilo diante do que recua. Assim o espanto é a dis-posição na
qual e para a qual o ser do ente se abre, O espanto é a dis-posição em meio à
qual estava garantida para os filósofos gregos a correspondência ao ser do ente.
De bem outra espécie é aquela dis-posição que levou o pensamento a colocar a
questão tradicional do que seja o ente enquanto é, de um modo novo, e a começar
assim uma nova época da filosofia. Descartes, em suas meditações, não pergunta
apenas e em primeiro lugar ti tò ón - que é o ente, enquanto é? Descartes
pergunta: qual é aquele ente que no sentido do ens certum é o ente verdadeiro?
Para Descartes, entretanto, se transformou a essência da certitudo. Pois na
Idade Média certitudo não significava certeza, mas a segura delimitação de um
ente naquilo que ele e. Aqui certitudo ainda coincide com a significação de
essentia. Mas, para Descartes, aquilo que verdadeiramente é se mede de uma outra
maneira. Para ele a dúvida se torna aquela dis-posição em que vibra o acordo com
o ens certum, o ente que é com toda certeza. A certitudo torna-se aquela fixação
do ens qua ens, que resulta da indubitabilidade do cogito (ergo) sum para o ego
do homem. Assim o ego se transforma no sub-iectum por excelência, e, desta
maneira, a essência do homem penetra pela primeira vez na esfera da
subjetividade no sentido da egoidade. Do acordo com esta certitudo recebe o
dizer de Descartes a determinação de um clare et distincte percipere. A
dis-posição afetiva da dúvida é o positivo acordo com a certeza. Daí em diante a
certeza se torna a medida determinante da verdade. A disposição afetiva da
confiança na absoluta certeza do conhecimento a cada momento acessível permanece
o páthos e com isso a arkhé da filosofia moderna.
Mas em que consiste o télos, a consumação da filosofia moderna, caso disto nos
seja permitido falar? É este termo determinado por uma outra dis-posição? Onde
devemos nós procurar a consumação da filosofia moderna? Em Hegel ou apenas na
filosofia dos últimos anos de Schelling? E que acontece com Marx e Nietzsche? Já
se movimentam eles fora da órbita da filosofia moderna? Se não, como determinar
seu lugar?
Parece até que levantamos apenas questões históricas. Mas na verdade meditamos o
destino essencial da filosofia. Procuramos pôr-nos à escuta da voz do ser. Qual
a dis-posição em que ela mergulha o pensamento atual? Uma resposta unívoca a
esta pergunta é praticamente impossível. Provavelmente impera uma dis-posição
afetiva fundamental. Ela, porém, permanece oculta para nós. Isto seria um sinal
para o fato de que nosso pensamento atual ainda não encontrou seu claro caminho.
O que encontramos são apenas dis-posições do pensamento de diversas tonalidades.
Dúvida e desespero de um lado e cega prossessão por princípios, não submetidos a
exame, de outro, se confrontam. Medo e angústia misturam-se com esperança e
confiança. Muitas vezes e quase por toda parte reina a idéia de que o pensamento
que se guia pelo modelo da representação e cálculo puramente lógicos é
absolutamente livre de qualquer disposição. Mas também a frieza do cálculo,
também a sobriedade prosaica da planificação são sinais de um tipo de
dis-posição. Não apenas isto; mesmo a razão que se mantém livre de toda
influência das paixões é, enquanto razão, pre-dis-posta para a confiança na
evidência lógico-matemática de seus princípios e regras.4
A correspondência propriamente assumida e em processo de desenvolvimento, que
corresponde ao apelo do ser do ente, é a filosofia. Que é isto - a filosofia?
somente aprendemos a conhecer e a saber quando experimentamos de que modo a
filosofia é. Ela é ao modo da correspondência que se harmoniza e põe de acordo
com a voz do ser do ente.
Este co-responder é um falar. Está a serviço da linguagem. O que isto significa
é de difícil compreensão para nós hoje, pois nossa representação comum da
linguagem passou por um estranho processo de transformações. Como conseqüência
disso a linguagem aparece como um instrumento de expressão.5 De acordo com isso,
tem-se por mais acertado dizer que a linguagem está a serviço do pensamento em
vez de: o pensamento como co-respondência está a serviço da linguagem. Mas,
antes de tudo, a representação atual da linguagem está tão longe quanto possível
da experiência grega da linguagem. Aos gregos se manifesta a essência da
linguagem como o lógos. Mas o que significa lógos e légein? Apenas hoje
começamos lentamente, através de múltiplas interpretações do lógos, a descerrar
para nossos olhos o véu sobre sua originária essência grega. Entretanto, nós não
somos capazes nem de um dia regressar a esta essência da linguagem, nem de
simplesmente assumi-la como herança. Pelo contrário, devemos entrar em diálogo
com a experiência grega da linguagem como lógos. Por quê? Porque nós, sem uma
suficiente reflexão sobre a linguagem, jamais sabemos verdadeiramente o que é a
filosofia como a co-respondência acima assinalada, o que ela é como uma
privilegiada maneira de dizer.
Mas pelo fato de a poesia, em comparação com o pensamento, estar de modo bem
diverso e privilegiado a serviço da linguagem, nosso encontro que medita sobre a
filosofia é necessariamente levado a discutir a relação entre pensar e poetar.
Entre ambos, pensar e poetar, impera um oculto parentesco porque ambos, a
serviço da linguagem, intervêm por ela e por ela se sacrificam. Entre ambos,
entretanto, se abre ao mesmo tempo um abismo, pois “moram nas montanhas mais
separadas”.
Agora, porém, haveria boas razões para exigir que nosso encontro se limitasse à
questão que trata da filosofia. Esta restrição seria só então possível e até
necessária, se do diálogo resultasse que a filosofia não é aquilo que aqui lhe
atribuímos: uma correspondência, que manifesta na linguagem o apelo do ser do
ente.
Com outras palavras: nosso encontro não se propõe a tarefa de desenvolver um
programa fixo. Mas ele quisera ser um esforço de preparar todos os participantes
para um recolhimento em que sejamos interpelados por aquilo que designamos o ser
do ente. Nomeando isto, pensamos no que já Aristóteles diz:
Tò òn légetai pollakhõs.
“O sendo-ser torna-se, de múltiplos modos, fenômeno”.
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NOTAS
1. Em francês, no texto original.
2. Palavras e citações gregas, latinas e francesas, que ocorrem no original alemão, são mantidas no texto em português.
3. Disposição (Stimmung) é um originário modo de ser do ser-aí, vinculado ao sentimento de situação (Befindlichkeit) que acompanha a derelicção (Geworfenheift). Pela disposição (que nada tem a ver com tonalidades psicológicas) o ser-no-mundo é radicalmente aberto. Esta abertura antecede o conhecer e o quer e é condição de possibilidade de qualquer orientar-se para próprio da intencionalidade (veja-se Ser e Tempo, § 29). Jogando com a riqueza semântica das derivações de Stimmung: bestimmt, gestimmt, abstirnmen, Ges!imnitheit, Bestimmtheit, Heidegger procura tornar claro como esta disposição é uma abertura que determina a correspondência ao ser, na medida em que é instaurada pela voz (Stimme) do ser, O filósofo toca aqui nas raízes do comportamento filosófico, da atitude originalmente do filosofar. (N. do T.)
4. Já em Ser e Tempo (§ 29) se alude à disposição que acompanha a teoria e se afirma que “o conhecimento ávido por determinações lógicas se enraíza ontológica e existencialmente no sentido de situação, característico do ser-no-mundo (p. 138). Apontando para o fato de que a própria razão está pre-dis-posta para confiar na evidência lógico-matemática de seus princípios e regras, Heidegger fere um tabu que os sucessos da técnica ainda mais sacralizam. Mas, desde que Habermas, em seu livro Conhecimento e Interesse (Ed. Shurkamp, Frankfurt a. M. 1968), mostrou que atrás de todo conhecimento existe o interesse que o dirige, que a teoria quanto mais pura se quer mais se ideologiza, pode-se descobrir, nas afirmações de Heidegger, uma antecipação das razões ontológico-existenciais da mistura do conhecimento e interesse. Não há conhecimento imune ao processo de ideologização; dele não escapa nem mesmo o conhecimento científico, por mais exato, rigoroso e neutro que se proclame. (N. do T.)
5. A crítica da instrumentalização da linguagem visa a proteger o sentido, a dimensão conotadora e simbólica, contra a redução da linguagem ao nível da denotação, do simplesmente operativo. Não se trata apenas de salvar a mensagem lingüística da ameaça da pura semioticidade. O filósofo descobre na linguagem o poder do lógos, do dizer como processo apofântico; entrevê na linguagem a casa do ser, onde o homem mora nas raízes do humano. Se lembrarmos as três constantes que a tradição apresenta na filosofia da linguagem - a lógica da linguagem, o humanismo daa linguagem e a teologia da linguagem -, verificamos que o filósofo assume a segunda, radicaliza-a pela hermenêutica existencial, carrega-a de historicidade e transforma a linguagem em centro de discussão, pela idéia da destruição da ontologia tradicional, a partir de sua tessitura categorial. Em Heidegger, uma ontologia já impossível é substituída pela critica da linguagem, numa antecipação da moderna analítica da linguagem, veja-se esta admoestação do filósofo que abre um texto seu, saído no jornal Neue Zurcher Zeitung (Zeichen, 21-9-1969): ‘A linguagem representada como pura semioticidade (Zeíchengebung) oferece o ponto de partida para a tecnização da linguagem pela teoria da informação. A instauração da relação do homem com a linguagem que parte destes pressupostos realiza, da maneira mais inquietante, a exigência de Karl Marx: “Trata-se de transformar o mundo”. (N. do T.)
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