O Texto Icônico e o Texto-Legenda
Muito elucidativa a definição de texto da autoria de Schmidt, que aparece em Fávero & Koch (p. 60):
“Texto é qualquer expressão de um conjunto lingüístico num ato de comunicação; no âmbito de um jogo de atuação comunicativa reconhecível. Textualidade é o modo de toda e qualquer comunicação transmitida por sinais, inclusive os lingüísticos.”
Segundo essa definição, um texto pode constar apenas de elementos não-lingüísticos, desde que ele veicule uma mensagem. Um quadro, uma gravura, uma “charge”, uma escultura são exemplos de textos icônicos.
Às vezes, um texto icônico é auto-explicável, porque ele retoma um referente por similaridade. Como ele substitui uma situação, um contesto real, é capaz de recuperar a coerência de um texto, que sem ele é completamente sem sentido.
Consideremos o texto abaixo:
(13) Se os balões estourassem, não se ouviria o som, pois tudo ficaria muito distante do andar certo. Uma janela trancada também evitaria de se ouvir o som, pois a maioria dos edifícios tendem a ser bem isolados. Sendo que a operação toda depende de corrente elétrica contínua, uma interrupção no meio do fio também poderia causar problemas. É claro que o indivíduo poderia gritar, mas a voz humana não é suficientemente forte para se ouvir tão longe assim. Um problema adicional é que uma corda do instrumento poderia arrebentar. Neste caso, não haveria acompanhamento para a mensagem. Torna-se claro que a melhor situação envolveria uma distância menor. Haveria, então, menos problemas possíveis. Com um contato face a face, o número de coisas que poderiam não dar certo seria mínimo.
(Bransford, 1979 – tradução)
O texto assim é aparentemente absurdo, incoerente. Sua textualidade está garantida por fatores não-lingüísticos. Parece-nos incoerente, dado que não nos transmite mais que uma seqüência de frases desconexas. Se há uma mensagem, ela não chega até nós. Isso acontece não porque o texto está desprovido de sentido, e sim porque somos apenas leitores e não leitores-interlocutores. Sendo assim, encontramo-nos fora do contexto, da situação que gerou esse texto.
Eis o texto icônico que, relacionado ao texto 13, dá-lhe sentido.
![]()
Texto 13-A
Os professores costumam empregar textos icônicos como textos-fonte para a produção de textos-derivados, isto é, textos desenvolvidos a partir do texto-fonte. Um estudo sobre esse tipo de texto nos revelou que muitas redações não são mais que legendas criadas para as gravuras apresentadas aos alunos. Tais legendas, quando lidas separadamente da gravura, costumam perder o sentido.
O ideal seria levar os alunos a parafrasearem o texto icônico de modo que o texto-derivado ficasse auto-suficiente quanto ao sentido. Assim eles produziriam textos mais coerentes.
Selecionamos alguns textos escritos a partir do texto icônico que transcrevemos a seguir.
![]()
(14) “Ele viu que a casa estava pegando fogo aí ele correu, pegou um balde e apagou o fogo e molhou o cachorro. Ele ficou muito zangado.”
(15) “O dono da casa abriu a porta e viu fumaça saindo da casinha do cachorro. Pensou que fosse um incêndio. Aí ele correu, pegou água e jogou dentro da casinha. Só que não era um incêndio, era o cachimbo que o cão estava fumando. O animal ficou muito zangado com o seu dono.”
O texto 14 está com algumas lacunas na coerência, as quais o aluno sabe que serão preenchidas pelo texto-fonte. O próprio professor poderia não se dar conta dessas lacunas, ao considerar inadvertidamente os dois textos como intercomplementares.
Em textos icônicos como esse, qualquer texto escrito (legenda) se constitui numa redundância, porquanto eles são auto-suficientes. Se o aluno não for orientado quanto ao fato de que aquilo que se espera dele é a produção de um texto tão auto-suficiente quanto o texto-fonte, ele tenderá a omitir, por achar desnecessários, alguns dados importantes para a clareza do seu texto.
O texto começa com uma referência exofórica: o “ele” anafórico se refere a algo fora do texto. Seria, na definição de Postal (Fávero, p.20), uma ilha anafórica: o nome que ele substitui não se encontra na estrutura superficial do texto. A ordenação linear (possivelmente sugerida pelos quadrinhos) e a partícula “aí” ajudam a obter a coesão seqüencial temporal. A terceira referência é ambígua e só pode ter sua ambigüidade resolvida ao nível do contexto provido pela gravura.
O texto 15 é compreensível por si mesmo: dispensa o texto icônico donde se derivou. Selecionado como o melhor dentre todos os que foram produzidos, revela um grau satisfatório de domínio dos recursos coesivos. Digna de nota é a presença do recurso da reiteração por sinonímia (cachorro-cão) e por hiperonímia (cão-animal), muito raro em redações de alunos que ingressam na quinta série.
Após termos apresentado dois textos de alunos da quinta série, passamos a demonstrar que também em redações de alunos do Ensino Médio a incoerência pode ficar por conta da vigência de um texto icônico.
Os quadrinhos abaixo constituem um texto misto (icônico e lingüístico) e foram utilizados numa questão de prova para alunos da primeira série, aos quais foi solicitado explicar o conteúdo da ambigüidade que ativou o humor no texto.
![]()
![]()
— Veja! Posso chutar minha cabeça! Aposto que você não pode!
— Ah, é?!
— Acho que me expressei mal!!
Texto nº 16 (transc do caderno “O Globinho” de “O Globo”, de 04/10/92)
Seguem alguns textos selecionados para demonstração dos desempenhos desses alunos.
(17) “É que o cara falou que podia chutar a cabeça dele e o outro não podia, mas chutou a cabeça do cara.”
(18) “O sujeito magro mostrou que podia chutar a cabeça dele e apostou que o sujeito gordo não podia chutar a cabeça dele. O gordo mostrou que podia e chutou a cabeça do magro, pois pensou que era isso que ele estava querendo.”
(19) “Um cara chutou a cabeça dele e desafiou Hagar a fazer o mesmo. Só que era para Hagar fazer o mesmo com a cabeça dele. Hagar não entendeu isso e chutou foi a cabeça do sujeito.”
20)”Dois homens se encontraram na rua. Um deles chutou a própria cabeça e desafiou o outro a fazer o mesmo, mas em vez de empregar “própria”, empregou “minha”, dizendo: “posso chutar minha cabeça. Aposto que você não pode”. Isso provocou a ambigüidade e fez com que o segundo sujeito chutasse a cabeça do primeiro, ao invés de chutar a própria.”
O texto 17 só ficará coerente se os quadrinhos estiverem estabelecendo com ele uma relação gravura-legenda. O que mais contribui para a falta de clareza é, em primeiro lugar, o emprego inadequado da partícula “mas”; em segundo lugar, a eleição de um mesmo nome genérico para fazer referência a dois personagens. Acresce o fato de que foi permitido ao aluno usar a variação lingüística que o deixa mais à vontade. Mesmo assim, ele não conseguiu verbalizar aquilo que ele entendeu nos quadrinhos, de modo a transmitir a mensagem a um interlocutor que não tenha visto os referidos quadrinhos.
O autor do texto 18 empregou expressões nominais definidas para caracterizar, identificar cada personagem, cujo nome ele desconhece. O problema do texto é não ter explicado o motivo da ambigüidade, mas, ao contrário, estabeleceu outra ambigüidade quando não explicitou o referente do anafórico “dele”.
O defeito do texto 19 é não ter explicado a ambigüidade. O anafórico aparece uma primeira vez, sem ambigüidade, e na segunda vez o aluno contorna a ambigüidade, acrescentando à palavra “dele” uma expressão nominal definida (Hagar). O léxico genérico “cara” é substituído pelo sinônimo “sujeito”, evitando a repetição lexical. A pro-forma pronominal “isso”, na função de pro-constituinte, foi bem empregada, assim como a pro-forma locucional estereotipada “fazer o mesmo”, também em função de pro-constituinte. As expressões “só que” e “foi” também são recursos coesivos aceitáveis no registro empregado pelo aluno. A palavra “Hagar” foi reiterada duas vezes para evitar ambigüidade. A reiteração pela terceira vez poderia ser evitado, bastando ao aluno empregar o anafórico “este”.
O texto 20 foi selecionado como o melhor. Seu autor percebeu, detectou os dois fatores de ambigüidade do texto dos quadrinhos: a substituição por elipse que ocorre na fala da primeira personagem e o emprego do possessivo “minha” em vez do demonstrativo “própria”. No primeiro caso, a elipse substitui um constituinte: “Aposto que você não pode chutar a sua cabeça”. Qualquer falante da língua portuguesa tem implícito no seu código que, nesse tipo de elipse, a expressão lingüística a ser recuperada é sempre aquela já expressa pelo interlocutor na parte final do enunciado. Vale dizer que a elipse, nesse caso, é anafórica. Essa foi a razão pela qual o segundo personagem entendeu: “Aposto que você não pode chutar a minha cabeça. Em suma, o emprego do recurso da elipse, no texto, foi indevido. No segundo caso, a palavra “minha” sempre se refere a alguma coisa que pertence a quem fala, mesmo que este não seja o sujeito da ação verbal. Por isso não devia ter sido usada pela personagem, que devia optar pelo uso de “própria”. Essa palavra só se refere ao sujeito da ação verbal, o que evita a ambigüidade. Chamamos a atenção para o recurso da conexão por contrajunção (mas, ao invés de), e da substituição anafórica do item lexical “homens” (um, o outro, o primeiro sujeito, o segundo sujeito).
Os textos 17 e 18 estão dependentes do texto-fonte de tal modo que começam com a definitização, o que indica que, para os modo que começam com a definitização, o que indica que, para ao autores, esses textos estão dando continuidade ao texto-fonte.
* * *