CONTRA-IDEOLOGIA: A VEZ E A VOZ DO OPRIMIDO

O DESAFIO DA LEITURA EM TEXTOS CONTRA-IDEOLÓGICOS

O Livro Didático

Ignez de Carvalho Machado, já na apresentação de seu livro “Português, uma Língua Brasileira”, fala das suas intenções de facilitar ao aluno o diálogo com o texto, na busca de sua compreensão integral, “O aluno estará apto a realizar atividades de expressão oral proposta, nas quais ele será solicitado a se posicionar diante do texto lido e externar suas opiniões pessoais”. Alguns textos, com efeito, suscitam debates de fundo sociopolítico. Por meio desses textos, a voz das classes dominadas tem possibilidades de se manifestar e ser ouvida.

Do quarto volume da série destinada ao segundo segmento do Primeiro Grau, escolhemos alguns textos que falam da Reforma Agrária, da família, do trabalho e a dominação econômica. O texto sobre Reforma Agrária é de autoria de José Eli Veiga, estudioso de problemas econômicos e políticos. Traz uma denúncia que envolve o Estado, que dá incentivos fiscais e créditos bancários aos grandes compradores de terra. Trata-se de um texto do livro “O Que É Reforma Agrária”, e se encontra apoiando a Unidade II do livro didático (Anexo 01).

O texto intitulado “Enfrentando Papai” pertence ao romance Anarquistas, Graças a Deus, de Zélia Gattai. Focaliza os conflitos familiares provocados pela autoridade do pai exercita de modo opressivo, autoritário. Situado na Unidade I, questiona o modelo de família burguesa, colocando uma criança a desafiar o pai. (Anexo 02).

Finalmente, o texto intitulado “O Operário em Construção”, extraído de um livro de Literatura, um poema social da autoria de Vinícius de Moraes, trata da relação capital x trabalho. Está na Unidade VII e fala do despertar da consciência crítica de um operário bóia-fria, que a princípio,  alienado, conformava-se com suas condições de existência impostas pela divisão social do trabalho. Depois, conscientiza-se e se revolta contra o patrão capitalista, que enriquece cada vez mais com seu trabalho, enquanto nega o valor desse mesmo trabalho (Anexo 03).

Esses textos não servem de pretexto para o estudo do léxico, da estrutura e da gramática. Na parte de compreensão de texto e de expressão oral, há subsídios para discussão de cada problemática, visando, ao mesmo tempo, à prática da expressão oral e à conscientização sócio-política. Na parte de redação, sugere-se um tema a partir do texto e, obviamente, após o debate.

O livro de Ignez não mostra uma preocupação excessiva com a problemática social. Esse tema chega mesmo a ser episódico em sua obra. Há textos que despertam apenas o prazer da leitura descontraída.

Marilda Prates é autora da série didática em quatro volume Reflexão e Ação em Língua Portuguesa, também destinada ao segundo segmento do Primeiro Grau. Dentre as diversas obras didáticas por nós examinadas, esta não só é a que possui mais textos desafiadores e polêmicos, mas também a que só possui textos dessa natureza. Os terceiro e quarto volumes se abrem com estas palavras:
 

O HOMEM QUE CAMINHA...

 ... a interiorização, à descoberta de si mesmo é convidado à RE-FLEXÃO sobre:

sua realidade;
sua originalidade irrepetível;
sua condição de homem ou mulher;
sua constituição físico-psíquico-espiritual;
sua dimensão individual-social;
seus atributos de ser consciente, em processo de libertação, em relação com o mundo, com o outro, investido de uma missão a realizar.

E tudo isso VISTO e VIVIDO na dimensão humana.


Em cada unidade, ao texto de leitura segue-se o estudo da estrutura e vocabulário. Depois, vem a parte denominada “a sua interpretação crítica do texto”, que é o momento e o espaço da discussão: a vez e a voz do oprimido. Só então vem a parte gramatical. Na primeira unidade do volume 3, a parte de interpretação crítica é introduzida por esta orientação da autora:
 

Por que interpretar com “olhos críticos” o texto ?

Porque você tem direito à opinião própria, a seus próprios pensamentos.
Você pode sentir os fatos da maneira como quiser.
Para crescer em conhecimentos e experiências.
A fim de guardar para você o que considera importante.
Com o objetivo de entender os problemas alheios e, assim, melhor compreender a si mesmo(a).
Para ver, ouvir, sentir e optar.
Para conhecer e participar da realidade em que vive.
Para posicionar-se diante dos acontecimentos.


As temáticas para leitura são diversificadas, privilegiando sempre a visão crítica das vítimas dos diversos tipos de opressão, e funcionam como verdadeiro antídoto contra todas as ideologias de dominação.

Os textos retratam, entre outras coisas, a injustiça social, Escola e realidade, o trabalho, o preconceito racial, a participação política, o consumismo e a família, democracia, o capitalismo, a violência, educação, opressão, liberdade, os valores da vida.

A obra de Marilda Prates é ameaçadora para qualquer poder que se mantém por suas ideologias. Quais as circunstâncias reais que levaram as autoridades educacionais deste estado a adotarem esta obra nas escolas públicas, apesar da intencionalidade indisfarçável, nitidamente política dos textos ? Teriam as autoridades examinado cuidadosamente a obra ? Por que esta obra não foi bem aceita e não deu certo nas escolas ? Por que tentaram recolher os volumes das escolas, principalmente o terceiro volume ? As respostas a estas questões poderiam trazer novos subsídios para uma pesquisa sobre o leitura crítica nas escolas públicas.

Está claro que a maioria dos professores da rede oficial não possui as condições necessárias ao trabalho com esses textos. Após tantas décadas como porta-voz da opressão e divulgadores da Ideologia de dominação (conscientes ou não), não podem, sem uma preparação prévia, assumir o papel de desmistificadores de ideologias, lado a lado com o oprimido, falando com e por ele. O professor não estava pronto para assumir uma pedagogia social que cada texto insistia em exigir deles. Como não seria possível sonegar a vez e calar a voz do aluno, foi preciso “fechar” o livro adotado à sua revelia. Muitos professores preferiram não usar o livro em sala de aula. Alguns, porém, pegaram o bastão e o vêm passando adiante, na escola do povo.

Selecionar textos da obra de Marilda, para ilustrar sua proposta de trabalho é uma tarefa difícil. A obra toda é uma proposta inovadora de ensino crítico da leitura. Decidimos por um texto que mostra a deficiência da Educação, da Escola, do Ensino e a relação escola x aluno nos moldes tradicionais, uma relação de fracasso (Anexo 04). Este texto há de representar todos os demais e mostrar com fidelidade a oportunidade da escolha dos textos de Marilda Prates. Com o texto, destacamos também as sugestões de trabalho que aparecem apoiando o referido texto(Anexo 05).

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