27/02/04
Comecei a jogar RPG em 1995, quando comprei o livro GURPS Supers. Na época era um grande fã dos quadrinhos de super-heróis, e tudo o que sabia sobre RPG era que se tratava de um jogo educativo que desenvolvia a inteligência e que era jogado por pessoas cultas e intelectualizadas. Porém não entendi nada ao ler o livro, e automaticamente perdi o interesse.
Na metade de 1996, no meio do colegial, conheci um colega que jogava RPG... para ser mais exato ele jogava AD&D, em uma campanha que já rolava há 6 anos. Disse ele que AD&D era o módulo avançado do D&D, e que este tinha sido o primeiro RPG, o mesmo que deu origem ao desenho Caverna do Dragão. Encantado com a possibilidade de "brincar" daquilo aceitei sem delongas o convite deste meu colega. Seu grupo de RPG era tudo o que eu imaginava... Liam muito, discutiam muita filosofia, assistiam filmes cult, escutavam músicas cult... mas principalmente, jogavam videogame e liam quadrinhos. Um novo mundo se abriu para mim. Um mundo muito maior.
Entretanto me assustei com a primeira sessão de jogo. Primeiro de tudo, pensava que era para me comportar como se estivesse em um jogo de videogame... ou seja, deveria conversar com todos, e matar o maior número de inimigos possível. De cara percebi que não era aquilo a essência da coisa. Nós deveríamos interpretar nossos personagens e agir como um grupo, para vencer o desafio imposto pelo mestre. Nada de pilhar, matar e destruir, como diziam. Pra falar a verdade tinha pouco combate... as aventuras tinham muita intriga, investigação, política, filosofia, e principalmente conflitos sociais. E parecia ser lógico isso, já que AD&D era um universo com centenas de raças, credos, culturas, e primariamente feudal, isto é, havia uma distinção bem clara entre os "classeds" e os "villagers", a nobreza e o povo.
Com 6 meses de jogo, conheci outro sistema de RPG, o Vampiro. Parecia ser excelente devido a grande carga emocional que trazia. Em seguida conheci o Shadowrun, um jogo com ótimo cenário futurista, que lembrava um pouco o AD&D. E tão logo comecei a conhecer novos sistemas, comecei a freqüentar as lojas de RPG... e quando dizia que jogava AD&D era enormemente discriminado. Diziam que os jogadores de AD&D não interpertavam, e que se preocupavam apenas com combate e rolagem de dados. E eu juro que não entendia, pois quando olhava aquelas mesmas pessoas, que me discriminavam, jogando, só pensavam em levar vantagem, matar os inimigos, ficar poderoso, rolar dados, fazer fichas, se aproveitar das regras...
Com o tempo, percebi que a maioria dos jogadores de RPG jogava pensando somente em números. Eu não entendia porque você tinha que fazer um teste de lábia no Vampiro... como o dado poderia interpretar por você? Em seguida percebi que a maioria das aventuras de RPG, seja o sistema que fosse, era no estilo missão: Alguém poderoso te contrata pra fazer algo idiota, que ele mesmo poderia fazer. Serviço de mercenário. Ou seja, tudo que falavam de AD&D valia para todos os sistemas!! E quanto mais surgiam novos jogadores, pior eles eram. Para a maioria não existe conversa... ou você luta ou é morto. E pior que a única revista especializada do país era a que mais difundia essa tendência.
Não demorou muito para que eu perdesse a fé no RPG. Sabe... RPG significa "Jogo de Interpretação"... é um teatro de improviso. É necessário uma grande bagagem cultural e raciocínio rápido para fazer um bom teatro de improviso. Se gente mediocre joga, o jogo é mediocre. Já tive partidas de WAR ou brincadeira com playmobil que eram mais RPG do que a maioria dos grupos por aí.
Mas como dizer para as pessoas que RPG não é wargame? Que RPG não é cultura de almanaque? Como separar? Não havia como! RPG se tornou rolagem de dados e regras em livros. Hoje em dia há uma gigantesca massa de idiotas que compram livros e revistas, escritos por gente mais inculta ainda. Não saberiam o que é interpretação nem se Gil Vicente chutesse suas bundas... não saberiam o que é política nem se Nikita Khrushchev lhes desse um soco... não saberiam o que é filosofia nem se Nietzche lhes desse um tiro na cabeça.
RPG se tornou alienação. Do jeito que é usado é um péssimo hobbie, causa dependência, e desvios educacionais.
Se você acha que interpretação realmente precisa de rolagem de dados, regras variadas, ficha de personagem, suplementos, conhecimento superficial de história, física, biologia... você vai sempre estar preso no RPG, e nunca vai conhecer o JLS.
Esse site não é o JLS... é apenas uma porta para você entrar nesse mundo. Busque sempre ser melhor, leia e estude de tudo, expanda seu intelectual e seu social... e então você saberá o que é o JLS.