Lenda Folclórica
O Aumento de Salário

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Aumento de Salário

A Rã e o Boi

O Rei Nu


Segundo os pesquisadores alemães Klaus Trofobik e Dieter Notheus, existe uma lenda nos planaltos do Brasil central que tratam de um dos maiores mitos brasileiros: o aumento de salário.

Um domingo à tarde, Jeca Aberrino um simplório funcionário público, foi para uma escola cheia de gente e encontrou um sujeito vestido de terno, com uma passagem de avião numa mão e uma cueca enorme na outra.

— Boa tarde — disse o homem estendendo-lhe um papel — Pode pedir o que quiser.

— O que eu quiser? Sabe o que é?, eu acho que o salário tá meio baixo…

— Baixo? É verdade. Deixe-me ver… 300 mil está bom?

— Bom?! Tá é ótimo! Só se for agora!

— Assim será. Mas, para que isso aconteça, você terá que apertar a tecla verde numa urna mágica.

Jeca fez o que o homem pedia e, ao voltar, este lhe disse:

— Muito bem. Tudo o que te eu disse acontecerá.

No dia seguinte, Jeca foi trabalhar feliz da vida. Era véspera do novo salário e queria fazer uma surpresa para a mulher. No serviço, o patrão mandou-lhe limpar o banheiro depois daquele churrasco do fim de semana. Jeca quis argumentar que aquelas não eram as funções do seu serviço, mas foi suspenso imediatamente, pois o chefe afirmou que era indicado direto do governador e por isso podia afastar quem quisesse.

“Não preciso me preocupar com isso…” — ia pensando Jeca, lembrando do gênio que lhe prometera um bom salário. No meio do caminho, encontrou um assalto, que levou seu Corcel I modelo setenta e pouco com o licenciamento atrasado, dois pneus carecas e um furo de ferrugem na lataria. Ia lamentar, mas lembrando do novo salário, deixou pra lá. 300 mil eram suficientes para comprar um BMW. Entrou tranqüilamente em casa, bem a tempo de ver sua mulher na cama com um negão.

— O que é isso?!

— Não sabe o que é isso, não? Claro que não sabe, você vive naquele servicinho cedo, de tarde e à noite. É por isso que eu estou com o Jorjão Guindaste, aqui. Ele sabe muuuuito bem o que é isso. Ah, se sabe!

— Mas, mulher, se eu não cumpria minhas funções corretamente era porque estava trabalhando para ganhar dinheiro…

— O quê???!!! Ganhar dinheiro?!?!?! Ah ah ah ah ah ah ah… Jeca, dá licença! Onde é que você estava ganhando dinheiro, meu filho? Você não servia nem para marido nem para sustentar a casa, então eu arrumei o Guindaste aqui. Tchau, trouxa.

Jeca só não se desesperou completamente porque lembrou dos 300 mangos que ganharia. Isso dava para mudar a vida e arrumar coisa melhor. No dia seguinte foi ao banco, mas percebeu que seu salário continuava o mesmo dos últimos dez anos. Igualzinho, igualzinho, não tinha mudado nem os centavos.

— Tem alguma coisa errada aqui! — disse ao funcionário do banco.

— Deixa eu ver. É, tá errado sim, esquecemos de descontar os R$ 15,99 de taxa de manutenção de taxas.

Completamente desesperado, foi procurar o gênio. Foi difícil achar, porque ele tinha ido visitar as bases eleitorais e gastou um tempão danado para voltar do exterior. Mas, pelo menos, conseguiu encontrar um assessor:

— Escuta aqui, fala pro teu chefe que os 300 mil que ele me prometeu…

— Ele te prometeu?! Ah ah ah ah ah ah ah… Os trezentão eram pra ele, mané!

Triste, desesperado, sentido-se o maior idiota do mundo, correu para a casa da mãe. Encontrou ela na cama com o político.

— Mãe, a senhora?!…

— Eu o quê? Eu estou sozinha aqui.

— E esse aí?

— Ah, Jeca, faz favor! Vai me dizer que nessa idade você ainda acredita em político?

Jeca, completamente desiludido, sofre um baque no coração e morreu. (Não sei se você já reparou, mas em lenda antiga e história construtiva, o que morre de gente não é brincadeira). No lugar onde foi enterrado (como indigente, pois o plano de saúde do serviço público não estava atendendo), nasceu uma folha estranha, que nunca ninguém tinha visto antes. O nome dela era promissória, e tinha o hábito de não parar de crescer nunca. Quando ficou grande demais, o homem do terno (e da mãe do Jeca) cansou de tudo, pegou uma avião e foi viajar em Paris. Dizem que encontrou todos os seus colegas por lá. Mas isso é lenda, ninguém nunca sabe onde o homem está.