SYLVAIN
As minhas raízes são resistentes. Exigem pouco do solo. Nasci no deserto. A minha terra é onde me deixarem ser.
FUMADOR
E que ser é você?
SYLVAIN
A minha infância. É essa a minha pátria mais intacta. De todos nós um pouco, não concorda? Só que é necessário uma grande distância, muitos anos, para percebermos isso. Envelhecemos, caminhando empurrados por uma parede que anda nos nossos calcanhares. Chegamos a pensar que somos nós que arrastamos a parede. Agrada-nos a ilusão dessa força. Muito mais tarde, vemos para onde estamos a caminhar: contra outra parede que se aproxima. As duas paredes são paralelas. Não alcançamos o seu fim para nenhum dos lados. Há um momento, então, em que percebemos que as paredes se aproximam, apesar de nós: seremos esmagados por elas. Esmagados entre dois horizontes de cal. Nessa altura, viramo-nos para a primeira parede e tentamos empurra-la ou, pelo menos, parar a sua marcha. No fim, apenas queremos que elas se fechem mais lentamente sobre o nosso corpo. Em vão.
FUMADOR
Se eu tivesse esse sonho, correria ao longo das paredes. Nunca contra elas.
SYLVAIN
Seria inútil. A loucura: uma alameda sem fim de branco. Sonho bastante com portas mágicas: riscarmos um rectângulo na parede com o dedo e abrir-se uma porta. Escaparmos por ela.
FUMADOR
E o que existe do outro lado da parede?
SYLVAIN
Nada, claro: uma miragem de liberdade. A planície por onde já caminhamos e por onde caminhou a parede. Um campo depois da batalha. Tudo o que vivemos mas já não podemos tocar. Recordações que precisam de nós para sobreviver. Uma paisagem de nitidez impossível.

*Retirado do blog Telling stories
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