AS PORTAS DO DELÍRIO
Alberto Marsicano
"As luzes foram se apagando. Subimos a escada íngreme que dava no fundo do palco e tomamos nossas posições.
Estendi ao máximo a pele da caixa de minha batera, pois os fortes impactos sempre desapertavam a garra. Olhei em volta e vi Robbie agachado, tentando desemaranhar os cabos de sua guitarra.
Jim nos checava o tempo todo com olhares furtivos, empunhando o microfone. Ray recurvava-se soturno sobre o teclado e olhou-me de relance no momento em que:
"Senhoras e senhores: aqui lhes fala Humble Marv da KHJ - a Rádio Boss - aqui estamos nos... The Doors!"
As mãos de Ray precipitaramse furiosamente sobre as teclas de seu órgão VOX e os primeiros acordes de ‘When The Music’s Over’ penetraram-me profundamente e pareciam estar levando o público à estupefação.
Num pequeno intervalo de silêncio, comecei a repicar fortemente a caixa, o bumbo e o chimbau: SNAP-BA, BUM RAP BAP - HSSST BUM... BRAP! A cada batida minha, a tensão na sala aumentava.
De repente, parei. Esperei e esperei:
Este momento era totalmente meu. Permaneci em silêncio, até que a tensão atingisse seu ponto culminante. Por fim, soltei o xamã que existe em mim: TAT-TATTAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TATTAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT CRASH!
Como um animal acometido por dor lancinante, Jim vociferou seu grito primal, no momento em que a guitarra de Robbie emitia uma nota sinuosa, grave e angustiada.
Jim então gritou:
Eeeeeeeeeeeeeee aaaaaaahhhhhhhhh,
When the music’s over
When the music’s over
Yeaaaaah
When the music’s over
Turn out the lights
Um silêncio profundo abateu-se sobre a platéia. Rodopiei as baquetas sobre minha cabeça e golpeei os tambores, enquanto Robbie rugia seu solo de guitarra, que mais parecia uma cobra sendo sufocada.
Outro grito primal. Numa linguagem ininteligível e obcena, Jim manifestava seu desprezo pelo público.
O grito rebelde incendiou-nos. Explodiam os riffs da guitarra de Robbie. Ray entrou no transe hipnótico de Robbie, enquanto eu empurrava o solista, sempre tangenciando o abismo.
A acústica daquela sala lotada não ajudava muito, mas a multidão parecia nos estar venerando. Seria nossa jogada com o perigo que os estaria levando àquele deiirio coletivo? Ou talvez pudesse ser a altura demasiada do palco?
Qualquer que fosse a razão, enquanto Jim provocava a platéia, percebi que finalmente tínhamos saído do amadorismo e fazíamos agora grandes concertos.
Terminamos o primeiro número e recebemos um aplauso razoável. A platéia nos observava atentamente, especialmente a Jim. Eu sabia que havíamos causado boa impressão, estava estampado em sua face.
Robbie começou a tocar ‘Back Door Man’ na sua pesada e contundente guitarra solo. Entrei com os bumhos. Era óbvio que Jim adorava cantar os blues. Aqueles blues autênticos, interioranos, consistiam na forma mais dramática com a qual sabia lidar com sua dor. Eram a válvula de escape mais eficiente para sua ira acumulada.
'Nossa Senhora’! Jim caiu fora do palco!
A platéia amortizou sua queda e tentava feericamente conduzilo de volta à cena. Mas o palco era muito alto e ele não conseguia.
Enquanto isso, mantínhamos o ritmo e quando Jim finalmente conseguiu voltar, ele agarrou o microfone e o público respondeu com uma intensa vaia. Eu não conseguia parar de rir.
Terminamos as cinco músicas (de dez a quinze minutos cada) e, ao sairmos, comecei a imitar Ed Sutlivan:
‘Que show!’
‘Que show!'
(John Densmore, no livro Riders on the Storm, 1991)
Os concertos dos Doors eram, na verdade, rituais. Morrison conhecia profundamente a filosofia de Nietzsche e particularmente suas obras A Origem da Tragédia e A Cultura dos Gregos, nas quais o autor postula o espírito dionisíaco em cujo delírio sagrado a natureza abre ao artista suas verdadeiras portas e lhe mostra sua face real:
"A música mágica e a conjuração parecem ter sido a forma primitiva e origem de toda a poesia. O homem acostumou-se durante milênios com a conecção do idioma com o ritmo da música. O poder mágico da dicção rítmica tem sido paulatinamente esquecido. Distanciamo-nos cada vez mais de nossa origem. A canção mágica é uma conjuração aos demônios que parecem estar em atividade. A iniciação - cujos mestres foram, segundo a mitologia, Orfeu, Musaeu etc. - era fundamentada pelos efeitos catárticos. As canções rituais relacionadas com os antigos mistérios órficos eram vigorosas e entusiásticas.
(Nietzsche, em A Cultura dos Gregos)
"Da mesma forma que os coribantes possuidos pela febre da dança não realizam suas evoluções no espaço segundo uma clara consciência, os poetas líricos também engendram suas mais belas poesias apenas quando a potência da harmonia e do ritmo ‘baixa’ sobre eles."
(Platão, em Ion)
Morrison havia participado, nos tempos da UCLA (Universidade da Califórnia), de um grupo de teatro que seguia as diretrizes do Teatro da Crueldade do surrealista hardcore francês Antonin Artaud. A representação cênica foi revolucionada por este mestre que a concebia como um ritual orgiástico, magico e irrepetitível. Artaud, que nos anos 30 já estava experimentando o peyote* (cactus alucinógeo) entre os xamãs mexicanos, descreveu estes rituais em seu livro antológico Os
Taraumara.
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* Peyote = Lophophora mexicanensis
**Existe muita mitificaçao em torno deste assunto. John Densmore, no livro Raiders on the Storm confessa que Jamais tomou ácido com Ray
Manzarek.
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"O país dos índios Taraumara é repleto de misteriosos signos e deformas esculpidas pela rocha viva sob o sol escaldante do deserto. Sobo efeito profundo do peyote, presenciei a tradição da Cabala, esta notável música dos números. A sagrada matemática oculta, sob a qual o caos materíal
se rende totalmente a seus princípios. Uma matemática grandiosa que explica como a natureza engendra a gênese das formas. Nos maciços rochosos do deserto, distinguia cristalinamente as estátuas esculpidas segundo a progressão numérica 3, 4, 7 e 8. As formas bizarras e barrocas dispunham-se sob um pedestal de granito formado por três sólidas pedras que se arrojavam em 12 pontas às alturas. Os Taraumara repetiam estas séries cabalísticas em seus rituais e danças.
(Antonin Artaud, "Carta a Henri Parisot" em Os Taraumara.)
Os alucinógenos tiveram uma importância muito grande na formulação inicial do som dos Doors. Eram utilizados como catalisadores. Morrison seguiu ao pé da letra a máxima de Rimbaud: "Embriaguês sagrada: te afirmamos método!" Ritualizando seus concertos, deixavam-se levar pelas poderosas correntezas de Dionisio. O batera John Densmore descreve uma dessas incursões que "tangenciavam o abismo":**
"As cerejeiras em flor estavam todas vibrando. As plantas ‘bonsai’ e as árvores pareciam estátuas esculpidas em 3-D. Escutava extasiado o fragor borbulhante da água de um tan de lótus. As vozes dos turistas japoneses mesclavam-se ao sibilo sussurrante da ventania. Tudo parecia surreal e meus ouvidos captavam ao longe os derradeiros acordes de ‘Peer Gynt’, de Grieg, que estava sendo executada por uma sinfônica na Concha Acústica do Golden Gate Park.
Os botões de peyote que havíamos comprado em Los Angeles estavam evidentemente pegando.
Owsley Stanley III, o famoso químico underground, chegou até nós. Pensávamos que o Dr. White Rabbit nos iria regalar com alguns de seus famosos ácidos puríssimos, mas ele queria apenas discutir musica.
Os Doors foram logo denominados pela crítica como os mentores do Rock Teatral, pois na verdade Morrison, desde as primeiras aparições do grupo no Whiskey a Go-Go, tinha percebido que esse tipo de música cabia como uma luva nas concepções cênicas de Artaud. Em 'Unknown Soldier', por exemplo (música de protesto contra o Vietnã), simulavam um pelotão de fuzilamento e, após um repique
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* O LSD nessa época era legalizado e seus componentes básicos eram fabricados pelo laboratório Sandoz para fins psiquiátricos.
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da bateria e um instante de silêncio cuidadosamente planejado, ouvia-se uma batida forte na caixa da bateria juntamente ao acorde distorcido de
Robbie. Jim então caía ao chão.
Mas após seu encontro com o grupo experimental de Julian Beck, o Living Theatre, que levava às últimas conseqüências as teorias de
Artaud, as coisas se radicalizaram. Morrison levou ao delírio coletivo e à fúria descontrolada mais de 13.000 pessoas em Miami. Essa fatídica performance lhe valeu um pesado processo, o cancelamento de todos os shows programados, o desprezo da crítica, do público e até dos membros de seu grupo, que acabariam posteriormente por expulsá-lo (como bem atesta o último telefonema do cantor aos
Doors). De Homem do Ano-1967 escolhido pela revista Time (que o colocou na capa do número de dezembro desse ano), Jim passou a Inimigo Público numero 1 em pouco tempo.
Este fenômeno tem sido estudado e abordado pela quase totalidade de suas biografias. A meu ver, o vocalista dos Doors seguiu (consciente ou inconscientemente) a trajetória mitológica do supremo artista da Grécia Antiga. Lembremo-nos que Orfeu, a imagem terrena de
Dionisio, foi destroçado pelas Mênades e Dionisio (Zagreus), pelos Titãs.
Pode seresta a razão pela qual John Densmore comentou, certa vez, que Nietzsche teria sido quem matou Morrison.
John Densmore, em seu livro Riders on the Storm, nos relata de maneira fiel e definitiva o que realmente aconteceu naquela fatídica noite em Miami:
"Kafka certa vez escreveu: ‘Existe um ponto além do qual não há retorno. Este é o ponto que devemos atingir.’ Sem dúvida, Morrison o alcançou em Miami. Metamorfoseou-se num monstro que mesmo assim continuava a ser fascinante.
Mas o que realmente o levou a se precipitar no abismo naquela noite? Decerto, a energia extra com a qual nascera ou seus demônios interiores.
O Dinner Key Auditorium estava superlotado. Eram 8h15 da noite, e havíamos combinado de chegar 15 minutos antes do início do espetáculo. Não havia nem sinal de Jim. Aquilo estava me deixando inquieto.
Robbie comentou: Será que podemos entrar sem ele?’
'De modo algum’, eu disse. Este público é completamente diferente do europeu e não tem a minima sensibilidade. O que eles estão querendo é ver o garoto nativo aqui da Flórida cantar!’
Após meia hora de tensão, Vince entrou no camarim gritando: ‘Ele está aqui!’ Não olhei para trás, mas senti que alguém com uma vibração completamente estranha estava penetrando na área. Percebi literalmente o caos se aproximar. O que todos chamam de carisma, eu denomino de psicose!
Não o encarei frontalmente, pois tinha medo daquela sinistra figura. Robbie franziu a testa e Ray, com sua inabalável calma, falou: ‘Bem, vamos lá!’
Jim estava totalmente embriagado. Assim que descemos a escadaria e entramos no palco, me senti numa verdadeira sauna, no inferno de Dante. Estavam lá, em pé ou sentadas no chão, mais de treze mil pessoas num recinto que podia abrigar no máximo dez mil.
Começamos com ‘Back Door Man’. Jim vociferou algumas frases e depois parou subitamente. Iniciou então um discurso próprio de uma pessoa completamente transtornada.
‘Vocês não passam de um bando de fuckin idiotas. Vocês vão atrás de tudo o que lhes mandam. Deixam-se ser comandados. Na verdade, gostam disso. Não é? Acredito até que tal vez apreciem enfiar a cara na merda... Não passan de um bando de escravos. E o que pensam em fazer para mudar isso?’
Naquela hora, meu único desejo era me liquefazer e escorrer sorrateiramente pelos tambores de minha batera. Nunca havia presenciado uma ofença tão pesada dirigida diretamente ao público.
Continuou: ‘Não estou falando em revolução. Não estou querendo fazer nenhum tipo de demonstração. Apenas falo sobre a possibilidade de nos divertirmos. Falo sobre dançarmos. Falo sobre o amor. Agarre seu amigo e faça amor. Vaaaaammmmmooooossssss. Siiiimmmmm!’
‘O que vocês estão fazendo aqui? Querem ouvir música? Não, não é isso que estão querendo. Certo. Quero ver muita ação neste local. Quero vê-los divertirem-se a valer. Quero ver dança. Não existem regras, limites ou leis! Vamos lá!’
"Nesse preciso instante, o palco começou a ser invadido por uma multidão. As pessoas formaram um círculo e dançavam feericamente. Um policial e Jim trocaram os respectivos chapéus. Morrison jogou à platéia o quepe do policial que, ridiculamente tentava em vão recuperá-lo.
Decidi abandonar o palco o mais rápido possível. Dei um pulo e caí acidentalmente sobre a mesa de luz, que despencou no chão. Um segurança, faixa preta em karatê, arrastou Jim para fora, afastando-o sob violentos golpes da multidão."
Desde criança, Morrison interessava-se pelo xamanismo indígena. Chegou até a comentar certa vez a amigos que, aos seis anos, um feiticeiro índio lhe passara sua força espiritual. Esta influência xamânica não está apenas presente nele: Jimi Hendrix era neto de uma índia da tribo Cherokee e Costumava, quando menino, passar suas férias com sua avó, presenciando os cantos ritualisticos tribais que posteriiemente tentaria reproduzir com sua Strato.
Jim jamais tirava um colar (guia de proteção) utilizado nas práticas xamanicas afro-cubanas. Segundo Densmore, o cantor estaria ligado iniciaticamente a esses rituais desde o tempo de adolescente na Flórida. Na "Santeria" (vodu afro-cubano que tem como centro, nos Estados Unidos a cidade de Miami), este tipo de colar é utilizado apenas pelos "filhos" (pessoas que têm associaçõo de nascença) do orixá Xangô (Loa Sangoem Cuba, Haiti e Caribe), o deus do trovão
(Riders On The Storm). Certas entidades oriundas da América, "como Mr. Mojo Risin (evocado pelos bluesmen de Nova Orleans) são também cultuadas pela "Santeria". O poeta beat McClure relata num de seus escritos que Morrison era o proprio Mr. Mojo Risin.
No filme The Doors, de Oliver Stone, o tema do xamanismo é tratado com muita relevância. As entidades indígenas aparecem ao lado de jim, protegendo-o sempre. O cineasta utiliza efeitos especiais e sobreposições de imagens com resultado impressionante. O cantor (Kilmer) dança xamanisticamente ao redor de uma fogueira (estes movimentos xamanisticos são executaclos pelo próprio Morrison no video The Doors tive at the bowl de Ray Manzarek) junto a inumeros pajés que surgem diafanamente na luminosidade do palco.
Há alguns anos, toquei citara (sitar) para o mais famoso pajé brasileiro, Sapaim, da tribo Kamaiurá (Xingu). Após meses de convivência e muitas conversas sobre os mistérios da mata e a tradição xamanística, ele começou a contar-me algumas coisas sobre a flauta sagrada do Xingu. Nesse lugar, a música é utilizada como meio de cura e tocada com muito cuidado, pois seu som é muito poderoso (um erro na escala pode até ser fatal para o pajé). Através dela, espíritos de muita forca são evocados. A maior festa do Xingu é o Jacui, das flautas sagradas.
Os Doors foram a poderosa resposta (ou melhor, a contribuição) xamânica indígena e negra ao revolucionário rock céltico-druida* inglês. Este último, segundo Morrison, era totalmente inovador e diferente do rock americano dos
primórdios. Hendrix, com sua força xamânica, integrou também este
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* A familia de Morrison era de origem escocesa
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processo de fusão, e não é por acaso que foi primeiramente compreendido e acolhido entusiasticamente na Inglaterra.
O nome Doors provém da famosa máxima do poeta vidente Willian Blake (1757/1827): Se as portas da percepção se dcsvelassem, cada coisa apareceria ao homem como é - infinita". Eles foram realmente os portais de um processo que começou a surgir na epoca da criação do grupo: a fusão entre o Oriente e o Ocidente.
Segundo o físico Fritjof Capra, em seu importantissimo livro O Tao da Física, as concepções de tempo absolutas e categóricas da tradição cultural do Ocidente estão sendo progressivamente
substituídas pelas noções metafísicas e não absolutas do Oriente. No meio da década de sessenta, a música oriental (principalmente a indiana) começava a penetrar no Ocidente. Nossa música - a ocidental - é tiranicamente dominada pelo piano com seu sistema limitado de 15 tons fixos e categóricos. A citara indiana possui 22 tons e recursos para atingir até 10 deles num único traste (pressionando-se a corda para baixo), onde
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**No video The Doors: Dance on Fire. Robbie, Densmore e Manzarek aparecem empunhando instrumentos indianos: citara, tabla e tampura.
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milhares de matizes sonoros surgem em degradê. Hendrix declara, em 1967: "Não me interessam as notas, mas os sons que correm entre elas". Esta noção que havia aprendido na prática, com a alavanca de sua Strato e com a ressonância e as microfonias dos grandes amplificadores, é totalmente de caráter taoísta e oriental.
Quando estive na India no ano passado, e fazia uma preleção aos estudantes de música da Universidade de Benares sobre a influência da música indiana no Ocidente, mostrei-lhes o solo da guitarra de Robbie Krieger (que tocava citara e fora aluno de Ravi Shankar)em 'The End' e o espetacular arranjo de 'Light My Fire' para citara feito por Ananda Shankar(irmão de Ravi Shankar). Eles, entusiasmados, reconheceram no primeiro solo a peça clássica indiana "Raga Bhin Palasi" e no segundo, a Raga Kafi"".
No início de 68, tanto eu quanto Robbie estávamos fascinados pela música indiana**. Ravi Shankar havia aberto recentemente a escola Kinara de Cultura Indiana em Los Angeles. Robbie começou a estudar citara e eu, tabla, o instrumento de percussão mais difícil do mundo. Segundo a tradição indiana, deve-se aprender primeiro a cantar as notas antes de toca-Ias:
TITA-GITA-TITA-NANA-TITAGITA-TITA-DA
Os percussionistas que não conseguem dominar esta intrincada técnica vocal silábica
são Desencorajados a continuar.
Ravi deu-nos uma aula (grupo de 40 alunos). Com sua esposa ao lado, ele nos contou que, sa uma pessoa possui grande força interior, pode sublimar sua energia sexual num instrumento musical.
(John Densmore, no livro Riders on the Storm)
Morrison foi o tipo de artista que a moderna simologia classifica como inter-semiótico, ou dominou simultaneamente vários códigos como musica, cinema, poesia, teatro e expressao corporal,danca e pintura. Talvez, uma das maiores contribuições feita pelos Doors seja a fusão entre poesia declamada e rock. Artaud já havia ressaltado a força da palavra "soprada". O longo poema 'Celebration Of The Lizard' era lido de uma maneira impressionante. As palavras eram
pronunciadas com um vigor rude pe primal por Morrison, enquanto os outros componentes do grupo seguravam o ritmo (especialmente a bateria, com uma pulsaçao forte e bem marcada). Efeitos sonoros eram obtidos com pedais (primitivos naquela época) e distorções microfônicas. John Densmore Conta uma conversa que tivera com Jim em que acambaram por discutir a fusão entre poesia e musica:
Após algumas horas fumando e discutindo filosofia, perguntei a mim mesmo: até ponto o pensamento deste cara pode chegar?
'John'. disse-me ele, 'você já pensou alguma vez sobre o que se passa no outro lado?'
'O que você quer dizer com outro lado?'
'Você Sabe; o vão, o abismo!'
‘Sim, ja Pensei muito nele, embora jamais me aventurasse sondá-lo.'
Esbocei um sorriso amarelo, para tentar disfarçar minha apreensão.
Jim começou então a declamar um intrincado o obscuro monólogo, que incluia citações de poetas como Rimbaud e William Blake:
"Os caminhos do excesso levam ao palácio da sabedoria".
Conhecer Jim foi o fim de minha inocencia.
Mas felizmente a musica era para nós o grande catalisador.
Certa vez, quando num carro nos dirigíamos a Hollywood, ele perguntou-me:
‘Por que você outro dia disse que aquele guitarrista estava tocando "fora"?’
Tocava completamente deslocado da estrutura do acorde.
Em outros termos: estava completamente perdido. Claro que é possível ir além dessa estrutura, quando a intenção do som é verdadeiramente "free". Mas isto não funciona quando o executante começa a desconhecer as modulações sonoras. É possível dançar além dos confins. Como Miles e Coltrane. Mas eles puderam sair fora pois pagaram por este direito. Realizaram discos fundamentais.’
Jim concordou plenamente.
Quando comentei que concebia a música de Coltrane como um fluxo de consciência, um devaneio sonoro, Jim fez uma brilhante analogia desta com a literatura:
‘Claro, isto é como Rimbaud e seu "desregramento dos sentidos".
‘É realmente uma perfeita analogia entre a poesia e o free jazz!’
‘Hoje Allen Ginsberg fará uma leitura no Trip, vamos lá?’
‘Evidente, poesia e jazz combinam plenamente.’
Como poeta, Morrison editou dois livros: The Lords & New Creatures (Lords & Novas Criaturas, onde concebe a palavra "Lords" como os artistas independentes que movimentam-se alheios a qualquer forma de controle - são realmente nobres, COmo o maldito Isadore Ducasse que, no fim do século passado, se auto-intitulava "Conde de Lautreamont"; e An American Prayer (Um Pregador Americano). Estes livros apresentam, tanto nos textos curtos quanto nos poemas, a forma sintética que freqüentemente toma a leveza do haikai japonês.
Blusão de couro de cobra
Olhos indígenas
Cabelos iridescentes
Move-se no flutívago
Ar de insetos
do Nilo
Mas é realmente impressionante a semelhança que existe entre o último haikai de Matsuo Bashô, o maior poeta japonês (1644/1694), e os derradeiros versos de Morrison (encontrados após sua morte, num manuscrito em Paris):
tomado pela febre
meus sonhos revolvem
o misterioso pântano
Bashô
logo ela desaparecerá
no cainho
pântano vegetal
Morrison
Morrison era antes de tudo um cineasta. Editava os efeitos sonoros usados nas trilhas sonoras dos filmes em suas gravações. Trovões mixam-se perfeitamente com o piano elétrico de Manzarek que emite verdadeiras gotas de chuva sonoras em 'Riders On The Storm'. Em 'Unknown Soldier', o som de militares marchando e de um pelotão de fuzilamento são incluídos. Jim pensava a arte cinematográfica como herdeira da tradição mágica e chegava a comparar em The Lords & New Creatures a estrutura da montagem do cinema com o processo combinatório das cartas de Tarô. O cinema influenciará também a técnica de composição de seus poemas. Extremamente visuais e carregados de "fanopéia" (poesia visual imagética), segundo a classificação de Ezra Pound,
apresentam travellings e cortes onde os versos são verdadeiros takes cinematograficos.
Um exemplo:
Há sangue na rua
acima de meu tornozelo
Sangue nas ruas
Ela veio
acima de meu tornozelo
Sangue nas ruas
Ela veio
Cidade de Chicago
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Modernos circulos do inferno: Oswald (?)
mata o presidente.
Oswald toma um táxi.
Oswald para numa pensão
Oswald desce do táxi.
Oswald mata o Agente Tippit.
Oswald tira o blusão.
Oswaid é capturado.
Escapule pra dentro de um cinema.
Outro exemplo de montagem poética quase "eisensteiniana" encontra se nesse manuscrito que ficou por vários anos inédito, em poder de Paul Rothchild e foi revelado recentemente no livro de John Densmore. E composto por diversos takes: a coluna da esquerda representa Jim e a da direita, Pamela. São na verdade dois poemas distintos montados de forma cinematográfica:*
Sangue na ladeira persegue-me
Sangue nas ruas corre o rio de pranto
Sangue nas ruas acima de minha coxa
Corre o rubro rio as pernas da cidade
Mulheres gritam lacrimejam os rios
Sangue nas ruas Cidade de New Haven
Sangue varre os telhados e aspalmeiras de Venice
Sangue em meu amor no calor infernal
Sangue no sol rubro e esplêndido de LA.
Sangue iridescendo os cérebros cortando fora os dedos
Sangue jorrará
no nascinient0 da nação
sangue é a rosa
da união misteriosa
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Ela veio
Ao romper do dia
Ela chegou e se foi
Com a luz do sol nos cabelos
Ela chegou
Ela chegou
Ela chegou
Ela chegou
Ela chegou na cidade e se foi com a luz do sol nos cabelos
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O poema dacoluna esquerda (acima) foi escrito por Jim Morrison. O da direita (abaixo), que representa Pamela Courson, foi elaborado pelo produtor Paul Rothchild. A montagem foi feita por ambos.
Alguns poemas de Morrison detêm uma poderosa vertente sonora. Parecem vibrar ao som dos poderosos amplificadores Marshall. Podemos observar, tanto nestes versos quanto nos do bardo inglês William Blake, o fluxo musical alucinado pelas aliterações sonoras. Num dos primeiros concertos do grupo no Whiskey a Go-Go, trechos do "Casamento do Céu como Inferno" foram lidos em meio aos feéricos improvisos de Robbie e Manzarek. Infelizmente, este material não foi registrado.
Deixa que o vento do oeste adormeça sobre o lago
Fala em silêncio com os teus luminosos olhos
Banha de prata o crepúsculo e de repente
Te retiras enquanto enfurece o lobo
E o leão o escuro bosque espreita
William Blake
Eis que a noite retorna com suas púrpuras legiões
Recolham-se às tendas & aos devaneios
Amanhã entraremos na cidade onde nasci
Quero estar preparado
Morrison
Hoje, após 20 anos da morte do cantor, o interesse pelo grupo é crescente. Suas letras, bem como suas músicas, continuam cada vez mais atuais e a sonoridade característica e única dos Doors (que não deixou continuadores) é considerada pela unanimidade da crítica como um marco na história do rock.
Os Doors foram uma antena parabólica que conseguiu mandalizar uma fusão que vai da música indiana até a brasileira, passando pelos blues, jazz, flamenco e até cânticos xamânicos tribais.
"‘Break On Through’ foi a canção escolhida para ser o nosso primeiro compacto. Fiquei preocupado pois seu ritmo era muito excêntrico, uma 'bossa nova speed'. Este ritmo, tipicamente brasileiro, é bem visível na pulsação de minha batera. Os músicos brasileiros influenciaram decisivamente todos os tipos de música com aquela bossa nova que 'falava o idioma do jazz'. Um bom exemplo disso é ‘Garota de Ipanema’ de Antônio Carlos Jobim."
(John Densmore, no livro Riders on the Storm)
Vivemos uma época marcada por uma multiplicidade cada vez maior de "armações" articuladas por certas gravadoras que chegam até a lançar artistas que só aparecem na capa do disco e nesta intrincada arte os abandoacabam recebendo o Grammy. Por outro lado, começa-se a sen uma certa desconfiança pelos "truques de estúdio" e por certas engenhocas como os samplers (usado da maioria da vezes apenas para piratear) e as abomináveis e redutoras baterias eletrnônicas.
Quando, no ano passado, estive em benare, na India, entrei em contato com alguns dos maiores percurssionistas do país. pbservei que no início de sua formação utilizaram muito tanto o metrônomo quanto a baterias eletrônicas, mas ao progredirem nesta intrincada arte os abandoram completamente, pois seu ritmo é modulado segundo uma pulsação subjetiva de tempo que não pode ser capturada pela mediçào absoluta. Nào é linear e sua dimensão mântrica reside basicamente nester toques não rigorosamente regulares engendrados pelo sentido de respiração rítmica do percurssionista que, felizmente, não é um relógio suíço.
O grande percurssionista de jazz elvin Jones* deu-me todas as coordenadas que precisava
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* Elvin Jones, o magistral batera de John Coltran
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Aprecio muito de sua técnica perfeita. Gostaria de saber se é mesmo verdade que os percussionistas contemporâneos veneram estas baterias eletrônicas japonesas. Quando um batera desenvolve a percepção de tempo, percebe que esta é como praticar meditação ou entoar um mantra interior.
(John Densmore, no livro Riders ou lhe Storm)
A carreira dos Doors restantes foi desastrosa após a morte de Jim. Os dois discos lançados pelo grupo, 'Other Voicuse FulI Circle' foram medíocres (felizmente todos já se esqueceram deles), bem como os individuais feitos por Manzarek e Krieger (que atualmente pesquisa amplificadores "vintage" Fender adaptados com válvulas modernas fabricadas pela NASA e desaconselha a todos os guitarristas os transistorizados). Nestas gravações, o ouvinte inconscientemcnte fica esperando a entrada de Jim, o que nunca ocorre.
Em meados da década de setenta, o diretor da Elektra, Jac Nolzman, comentou que Jim já havia sido completamente esquecido. Robbie, Ray e Densmore acabaram por ficar numa situaçao financeira embaraçosa e, descrentes, venderam por uma ninharia seus direitos autorais de todo o material referente aos Doors para o oportunista Herb Alpert da A&M Records. A família de Jim recusou-se a entrar nessa arapuca e atualmente fatura milhões de dólares com os discos, livros, filmes e vídeos*. Por falar nela, os pais de Morrison quebraram o impenetrável sigilo (sempre tinham-se recusado a fazer qualquer tipo de comentário público sobre o filho) e recentemente, numa entrevista, o reporter perguntou-lhes como haviam-se sentido em 67, quando Jim declarara, num press release de divulgação da Elektra, que eles estavam mortos:
"Tanto o Almirante quanto Ms. Morrison responderam que Jim tinha agido dessa maneira a fim de resguardar a privacidade e a segurança deles. Mas, na minha opinião, foi exatamente o contrário que aconteceu: Jim, desta maneira, estava proclamando sua independência e havia cortado definitivamente o cordão umbilical."
(John Densmore, em Riders on the Storm)
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* Jorge Luiz Borges escreveu, corte vez, que a história é o melhor e mais autêntico
critico de arte.
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Mas o grande foco de interesse pelos Doors que vem acontecendo ultimamente foi detonado pelo filme de Oliver Stone, The Doors, que traz Vai Kilmer no papel principal. Neste momento em que os Estados Unidos atravessam um periodo de neo-puritanismo e o publico está sendo bombardeado por uma gigantesca campanha nacional contra as drogas (onde os principais vilões e bodes-espiatórios saã os latino-americanos), o filme concebido pelo mago hollywoodiano das imagens está soando realmente como uma grande provocaçao. A sua repercussão é polémica: o Los Angeles
weekly e a revista Rolling Stne o receberam entusiasticamente, enquanto o Washinfton Post o classificou como "uma obra vulgar e ridícula que fica todo o tempo tentando demonstrar quão entediante e drogado foi Jim Morrison". A revista Time comentou numa ampla materia
que The Doors poderia ser divertido e interessante há vinte anos atrás, pois mergulha num banho de
decadência. Hoje em dia, porém, não é mais hora de imergirmos neste lamaçal.
Ray Manzarek, que dirigiu e montou o documentário The Doors Live at Hollyhood Bowl (disponível nas locadoras brasileiras em vídeo) onde podemos presenciar Morrison empunhando um maracá xamantico, estava preparando cuidacosamente por mais de dez anos o roteiro de um filme sobre o grupo. Robbie, que sempre se manifestam contra tal tipo de realização, mudou (embora cautelosamente) de idéia. Mas o filme acabou sendo rodado pelo cineasta de 'Platoon'.
Muitos não estávam engolindo Val Kilmer no papel de Morrison. O ator ocupa tanto espaço que ate chega a cantar no lugar de Jim na trilha sonora da película (a voz do vocalista dos Doors foi retirada eletronicamente).
O mito Jim Morrison vem sendo cada vez mais capitalizado: uma infinidade de produtos é atualmente comercializada utilizando sua imagem. Vários livros têm sido também publicados: um deles, por incrível que pareça, tenta provar a todo custo, com argumentos "irrefutáveis" (segundo o autor), que o cantor estaria vivo nos dias de hoje numa remota paragem da África (Jim Morrison vivo!, por Jacques Rochard). Seja como for, aerografados em spray sobre a cripta de Morrison no Pere Lachaise em Paris (que já virou ponto de peregrinação) estão os grafites "KILMER NÃO É JIM" e "DEIXEM-NO EM PAZ!".
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