"É Doce e amargo lembrar de Jim Morrison" 

A música dos Doors atravessa 2000 com o mesmo brilho de quando surgiu em 1965. Jim Morrison, Ray Manzareck, Robbie Krieger e John Densmore monstram como o Rock pode viajar pelas décadas e conquistar fãs de várias gerações. Não importa o padrão de comportamento ou o clima sócio-político econômico da época. O talento do quarteto derruba fronteiras e elimina o conceito de tempo. A carreira dos Doors foi curta, mas suficiente o bastante para inovar o que milhões de pessoas conhecem como Rock'n'Roll. Formado em Venice, Bairro da região oeste de Los Angeles, o grupo aliou a força do Rock, o improviso do Jazz e melancolia do Blues. Destacando-se pelo espiríto poético de Morrison. Em 1967, ele foi preso em um show em New Haven, por desordem e obscenidade pública. Dois anos depois, simulou atos sexuais em Miami, Florida, sendo retirado do palco por policiais e processado por ter alegadamente exposto a genitália. "Nosso show é um encontro público drámatico" disse Morrison "Ao Vivo criamos um mundo diferente e celebramos com os fãs". Para dedicar-se à poesia, para fugir às pressões do sucesso, o vocalista mudou-se com sua companheira para a França em 1971. Depois de sua morte, em Julho daquele mesmo ano, Ray, John e Robbie tentaram levar os Doors adiante, mas acabaram seguindo carreira em projetos individuais. Em 1978, homenagearam o vocalista com o disco "An American Prayer", no qual musicaram algumas de suas poesias. Nos anos 80 e 90, milhares de jovens descobriram o significado de Morrison e o colocaram no patamar de lendas como Joplin e Hendrix. Hoje o vocalista ainda orgulha seus Ex companheiros. Manzareck, particularmente, sente-se muito bem em relembrar o passado. O tercladista de 61 anos atendeu a Showbizz no escritório dos Doors e Falou de Morrison, da música e história do grupo, de seus projetos pessoais, tudo isso como um tributo à banda. 
Seu escritório está perto do club Whiskey, onde ocorreram os primeiros shows da banda. As rádios de L.A. ainda tocam Doors e o catalogo do grupo é sempre relançado. Como é viver rodeado de tantas lembranças? 
Fico triste e me sinto um pouco nostálgico. Há um gosto doce e amargo, como nossa música. Ela tem o sol de Venice, mas também tem o lado obscuro de Los Angeles. Tristeza e felicidade injtegram a música dos Doors e a vida dos seres humanos. 
É difícil falar de Jim Morrison? 
Não, porque ele era um grande amigo. Lembrar dele me faz sentir bem. Não penso em Jim o tempo todo, mas quando dou entrevistas e converso com fãs, parece que ele está ao meu lado. Há um lado doce e amargo: é doce lembrar dele, mas é amargo o fato dele ter ido embora. Mesmo que não esteja aqui, sua voz e suas letras sempre estarão conosco. 
Rockstars falecidos normalmente tornam-se lendas. Porque os fãs de música amam tanto os mortos? 
Porque há uma grande perda. Os fãs concluem que nunca mais ouvirão músicas novas destes artistas, a menos que descubram gravações antigas. Além disso, você vê o quanto ama e sente falta dessas pessoas. A morte fortifica o amor - é um sentimento humano profundo. 
Dizem que o excesso de drogas causou a morte de jim Morrison. Como vocês gravavam discos tão bons tomando LSD? 
não tomávamos ácido para fazer música. LSD não é droga para festas, e sim para aproximação da natureza. Eu ficava na praia de Venice observando o pôr do sol e sentindo o universo. Eu, Deus, Jesus Cristo, a praia, o Sol, os gatos e os cães éramos um só. Aplicávamos esta energia em nossa música. Até mesmo Jim, por mais selvagem que fosse no palco, era bastante organizado. Precisa-se de ordem para se criar algo. Somos bons músicos, estudamos nossos instrumentos. Comecei a tocar piano aos sete ou oito anos. Nosso som era bem estruturado, mas tinha a liberdade do Jazz. 
Você disse que não gostou do filme The Doors. Qual é a maior falha no roteiro? 
A representaçào de Jim totalmente louco e selvagem. Ele era mais espiritual e engraçado. Ninguém ri no filme, mas erámos maconheiros e nos divertíamos muito. Você Não vê Isso. Há só o lado obscuro da Banda. É um filme sem luz. 
E do que você gostou? 
Das cenas de Rock'n'Roll e do desempenho de Val Kilmer como Jim. O problema é a falta do jeito espiritual de Jim. Sim. ele era louco e selvagem. Sim, bebia e tomava ácido, mas ele era mais que isso. 
Nos últimos três anos, foram lançadas as caixas "Doors Box Set" e "The Complete Studios Recordings", e agora estão saindo as coletâneas "Essential Rarities" e "The Best Of". Porque soltar tanto material antigo num tempo relativamente curto? 
Para termos certeza de que todos conheçam a banda. Há uma nova geração de fãs. A primeira caixa possui várias raridades. A segunda é como uma mostra do nosso relançamento de nosso catálogo, com uma sonoridade melhor. Já a coletânea "The Best Off" é destinada ao pessoal de 14, 15 ou 16 anos que deseja conhecer os Doors. 
A Caixa "Doors Box Set" trouxe "Orange County Suite", uma canção inédita com Morrison. Existem outras? 
Não vou contar nossos segredos (risos). Compete a você interpretar. Não posso revelar isso para um lugar imenso como o Brasil! É um dos maiores países do mundo e tem muitos fãs dos Doors. Sabe de uma coisa? tenho parentes no Brasil. 
Verdade? 
Sim. Na família de meu pai, dois irmãos moravam na Polônia, mas houve uma migração na virada do século XX. Meu avô foi morar em Chicago e seu irmão foi para o Brasil. Acho que há Manzarecks em Curitiba ou São Paulo. Preciso ir ao Brasil para tentar encontrá-los. Nunca estive lá, mas adoro Samba. "Break On Through" é praticamente uma Bossa Nova. 
De quais artistas você gosta? 
Quando a primeira onda de música brasileira chegou aos EUA eu e John Densmore não parávamos de ouvir João Gilberto e Tom Jobim. Ficávamos em meu apartamento ouvindo "Garota de Ipanema" sentindo a brisa, fumando maconha, olhando as palmeiras de Venice e imaginando que estavámos em Copacabana. Quando fomos compor "Break On Through", John disse: "Vamos tocá-la como samba - algo como João Gilberto". Perfeito. 
jim Gostava de música brasileira? 
Sim, ele adorava. Nós quatro gostávamos. Mas eu e john éramos mais fanáticos porque curtíamos Jazz. Jim era o poeta, o Xamã da banda, mas escutava música brasileira conosco no meu apartamento. Acho que nunca disse isso, mas a música dos Doors tem raízes brasileiras. 
"Light My Fire", incluída na coletânea "The Best Off", possui um dos teclados mais famosos do Rock. Como foi sua criação? 
Robbie (Krieger, guitarrista do grupo) chegou no ensaio e disse: "Compus minha primeira música". Era justamente "Light My Fire". Como precisávamos de uma introdução, mandei todo mundo ir à praia e fui explorar meu treinamento básico. Como eu disse antes, estudamos nossos instrumentos. Você não pode tomar LSD achando que será um grande músico. A inspiração vem depois de anos de treino. Hoje eu nem penso muito em frente ao piano. Mas, quando jovem, tinha de treinar e pensar bastante. Um Anjo passou quando criei a introdução de "Light My Fire". Ele voou sobre mim e disse: "Você trabalhou duro, aqui está sua recompensa". 
Morrison realmente expôs o pênis naquela noite em Miami? 
Ele hipnotizou o público. em Miami, as pessoas acharam que o diabo havia chegado, o Rei Lagarto, o Rei do Rock ácido, o Rei do Rock orgásmico! houve uma alucinação religiosa no show. Mas acho que Jim não colocou seu pênis para fora. 
Você pôde ver de onde estava? 
Não. O interessante é que, no julgamento, havia umas 100 fotos mostrando o que aconteceu no show: o palco desabando, Jim usando o quepe de um policial, as pessoas quebrando tudo, ele sendo jogado no público...Contudo, nenhuma foto mostrava Jim expondo-se. Talvez tenha sido um momento tão glorioso que ninguém quis fotografar. 
Qual foi o show que mais o amendrontou? 
O de New Haven, quando os policiais tiraram Jim do palco. Eles cortaram a energia elétrica, mas o microfone continuou ligado. Jim segurou o microfone e disse ao policial: "Faça seu discurso agora". O policial respondeu: "Você foi longe demais" Jim então foi tirado do palco. Esta era a mentalidade absurda da época. Os Jovens tinham ido longe demais. Eles confrontavam os governantes dizendo: "Vocês só pensam em dinheiro.Vocês estão destruindo a natureza. Vocês não deixam um negro na América sentar com um branco. Vocês não conhecem o amor..." Mas estávamos em um país protestante e anglo saxão que ignorava estas coisas. 
Você, john e robbie pensam em se reunir com outro vocalista? 
Conversamos a respeito e certamente seria demais. Só há um problema: como podemos excursionar com outro vocalista? você gostaria de nos ver tocar "Light My Fire" com alguém substituindo Jim? Não sei se isso acontecerá, mas é uma possibilidade. 
Vocês pensam em gravar outro disco? 
Temos algumas músicas novas. É outra possibilidade. 
Alguma idéia sobre o vocalista? 
Ainda não, mas temos tantas opções: Iggy Pop, Ian Astbury, do Cult, Chrissie Hynde, dos Pretenders, Scott Weilland, dos Stone Temple Pilots... 
O que vocês três andam fazendo? 
John faz shows individuais, onde toca músicas dos Doors e conta histórias de seu livro (My Life With Jim Morrison and The Doors). eu também leio meu livro publicamente. Neste verão, tocarei em alguns festivais de Jazz na Europa e contarei histórias dos Doors. Também trabalho com um poeta, Michael McClure, que foi o mentor de Jim. Fazemos Shows de Jazz e de poesia. Ele lê, e eu toco piano. Robby lançará um disco-solo de Jazz rock. Ele excursiona pelos EUA com uma banda. Ah, eu acabei de dirigir um filme, Love Her Madly, e estou tentando vendê-lo para algum distribuidor. 
Sairá em breve um disco tributo aos Doors com Creed, The Cult, Stone Temple Pilots e outros grupos. Qual participante lhe dá mais orgulho de ter influenciado? 
Não quero ser injusto com os outros grupos, mas adoro o Cult. A banda tem alma, energia e sentimento. É a força de Ian Astbury. Ele tem um pouco de Jim Morrison. São até parecidos fisicamente. 


Entrevista publicada na Revista Showbizz de Agosto de 2000 escrita por Daniel Oliveira de Los Angeles.

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