A Lírica de um poeta
(30 anos sem Jim Morrison)
Algumas impressões sobre Jim Morrison colhidas do ótimo livro Mate-me por Favor, de Legs McNeil e Gillian McCain, dão a exata medida do que era ter ao lado o autoproclamado Rei Lagarto. São impressões conflitantes. Para o tecladista dos Doors, Ray Manzarek , ele era, claro, um xamã.
O pintor e ex-assistente de Andy Warhol , Ronnie Cutrone, o descreve como um bêbado tomador de pílulas, do tipo que entornava dez vodcas com suco de laranja, cápsulas de Tuinals a granel e urinava no balcão do bar ou mesmo nas famosas calças de couro. O cantor Iggy Pop elogia seus cabelos, roupas e botas de camurça. A atriz e cantora Nico lembra um de seus estranhos convites. "Você andaria comigo pelo parapeito do Castle?"
O empresário Danny Fields ataca a poesia do bardo classificando-a de lixo disfarçado de coisa moderninha e alternativa. "Ele rebaixou o rock and roll enquanto literatura. Acho que a mágica e o poder de Morrison estavam além da qualidade de seus versos. Ele era mais sexy do que sua poesia", diz, com todas as letras, um dos responsáveis pela contratação da banda de Morrison pela Elektra Records. "Ele maltratava as mulheres", revela.
Liberdade - Impressões e desafetos pessoais à parte, os escritos de Morrison, senão brilhantes para alguém na casa dos 20 anos, são de extrema coerência com seu estilo libertário de vida. O que definitivamente não é pouco.
Há neles ecos da lírica dos beats, dos cânticos indígenas, da estrutura rítmica do blues e da total reverência ao poeta inglês William Blake, do emblemático "O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria". Outras influências claras são os arquétipos da Antiguidade, o teatro do absurdo, o cinema (arte que ele estudou por certo período na Universidade da Califórnia) e, como não poderia deixar de ser, toda a efervescência neurológica do advento psicodélico nos anos 60.
Em The End, do disco de estréia, The Doors (1967), ele promove um inusitado encontro entre o velho oeste norte-americano e o complexo de Édipo. "O assassino acordou antes da aurora/ calçou as botas/tirou a face da antiga galeria/e seguiu em frente pelo corredor/foi até o quarto onde a irmã vivia/visitou o irmão/ e continuou a seguir pelo corredor/chegou a uma porta/ e olhou para dentro/pai!/sim, meu filho/eu quero te matar/mãe, eu quero transar com você a noite toda." Forte.
Nos momentos finais de Soft Parade, do disco homônimo de 1969, Morrison narra. "Começou agora o desfile suave/ouçam o ronco dos motores/gente divertindo-se na rua /à minha esquerda a cobra, à direita o leopardo/a mulher corça vestida de seda/moças com colares de contas ao pescoço/um beijo ao caçador vestido de verde/que antes lutou no escuro com os leões."
Oração - Já no livro, An American Prayer, único livro de poesia que Morrison publicou em vida (impresso originalmente em 1970, numa edição de 200 exemplares distribuídos informalmente por amigos), pequenos comentários em forma de versos dão o tom da palavra. "Nos congregamos neste teatro antigo e louco/para proclamarmos o nosso cio de viver/e fugirmos da fervilhante sabedoria das ruas." Alguém poderá dizer que a oração de Morrison não tem o rigor estético da poesia. Talvez esse fosse seu intento, quebrar as barreiras, como cantava em Break on Trough. Não se sabe.
A dúvida recai também sobre o que a fuga para França, por conta do processo de atentado violento ao pudor e embriaguez em público movido contra ele em Miami, faria por seus escritos. Ele abandonara o sexualidade do rock and roll para viver de maneira ultra-romântica a poética parisiense. Não houve tempo para tanto, morreu na banheira dos delírios. Literalmente.
Artigo escrito por Rodrigo Carneiro.