Filme reinventa o Mito Jim Morrison

Sergio Sá Leitão


Estréia amanhã em São Paulo o filme The Doors, biografia do grupo calíforfliano de rock e de seu carismático líder, o cantor e poeta jim Morrison. O filme foi rodado pelo diretor norte ameri­cano OliverStone. Ele deixou de lado o Morrison do cotidiano, optando por filmar o Morrison mítico erigido nos anos 60.
james Douglas Morrison

(1943-1971) foi brindado com uma vasta galeria de cognomes mitificadores. Era chamado de "Rei Lagarto"e "Rei do Rock Orgásmico". Visto com lentes filtradas pelos cognomes, foi retratado pela posteridade como um poeta-bêbado e trovador-dionisíaco integral, um clichê de Rimbaud, Artaud e Byron.

O Morrison-clichê é O herói de livros como no One Here Gets Out Alive, de Danny Sugermane Jerry Hopkins (1980), e Dark Star, de Dylan Jones (1990). É também o herói do filme The Doors, sua definitiva cerimônia de mitificação.

Stone tinha varias opçoes. Poderia filmar 27 anos da curta vida de Morrison com um olhar desmitificador - diria, então,que há ao menos dois Morrisons: O que se tornou notícia e o que não se tornou. Poderia caricaturar o mito numa chanchada
Como fez jim Mcbride em A Fera do Rock, biografia de jerry Lee Lewis (1989). Poderia celebrar o
mito. Escolheu a terceira via.

Nas imagens de The Doors, Morrison surge Como a plena fusão de todos os cognomes consagrados na mídia. O Morrison dos acontecimentos radicais que mereceram registro, das transgressoes permanents-eis o Morrison desenhado por Stone.Um Morrison que, como escreveu o jornalista francês Hervé Mulher, seu amigo em Paris, na premiere francesa, "é uma fantasia do diretor". 

Há traços marcantes e não gratuitos no nevoeiro que envolve o filme. O roteiro, assinado por Randal Johnson e Stone, foi baseado no livro de Sugerman e Hopkins, a apoteose da mitificaçao impressa de Morrison. A trilha reúne apenas musicas Convencionais. Ray Manzarek, o apolíneo tecladista do grupo, negou-se a participar do projeto. Stone declarou, de súbito, que Morrison é seu maior herói.

A ligação entre os quatro momentos revela muitas das razões que fazem de The Doors um filme decepcionante. Manzarek foi a consciência crítica dos Doors, o intelectual racionalista anti-mito.
A tarefa de Sugerman e Hopkins foi oposta. Atrilha, compilada pelo próprio diretor, não denota gosto apurado. A declaração beir a demagogia e indica a superficialidade dos contatos de Stone com Morrison.
Há ainda outros problemas - problemas que superam a excelente atuação de Val Kilmer (Morrison)
e a mestria de Stone em cenas coletivas (shows). O olhar mitificador o leva a entupir os diálogos com discursos manifestos. As falas de Morrison foram extraídas de seus livros de poesia e de suas letras. O Morrison do filme delira sobre copos de água. E suas transgressões parecem insossas rebeldias sem causa. 

(Folha de SP, 23 maio 1991)

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