Stone 'viaja' na História dos Doors

Ana Maria Bahiana

O espírito do líder dos Doors, jim Morrison (1943-1971), parece ter contagiado o cineasta Oliver Stone. Na última sexta­feira, Stone estreou nos EUA seu novo filme. The Doors, que retoma a trajetoria da banda californiana do fim dos anos 60.

Em entrevista à imprensa estrangeira no mesmo dia, declara: "Estou viajando ate agora de ter feito este filme".

"Alguns filmes te deixam exausto. Eles tomam sua energia e não colocam nada no lugar", diz Stone. "Definitivamente, não é o caso deste.

The Doors é, de fato, um assalto aos sentidos. Ao longo de pouco mais de duas horas, recompõe a trajetoria de Morrison como a de um herói mítico dos nossos tempos - parte Doinisio, parte Orfeu e parte Fausto.

Stone utiliza imagens que progridem do psicodélico ao infernal. A música dos Doors, onipresente, fornece comentários para toda ação.

O filme tem recebido críticas unanimemente favoráveis. Os críticos destacam a performance de Val Kilmer no dlisputado papel de Jim Morrison. Curiosamente, a escolha de Kilmer para o papel enfureceu tanto a família do cantor e poeta quanto os três Doors sobreviventes.

"Ao longo do projeto, tive que lidar com uma chuva de 'especialistas' que se ofereciam para me dizer como os anos 60 realmente foram" e como as coisas realmente se passaram com os Doors, lembra Stone.

Mas a minha escolha era clara: meu foco era Morrison, a poesia de Morrison. E ela que move todo o filme. Para mim, a história dos Doors sempre foi, sobretudo, a história de jim Morrison.

Stone levou quatro anos para desenvolver e filmar The Dorrs. Assina a direção e é co-autor do roteiro final. O filme começa mostrando Morrison como um garoto tímido da Universidade da Califórnia que fazia filmes obscuros e enchia de poemas um grosso caderno espiral.

Em seguida, envereda por sua transformação em popstar. Em principio relutante, Morrison logo se deixa intoxicar pelas doçuras do estrelato.

Stone mostra-se particularmente brilhante nesta progressão do primeiro ao segundo ato
"que corresponde, no filme, à impressionante reconstrução de uma América em processo de enlouquecimento.

O roteiro flagra a oscilação básica da personalidade pública de Morrison - do narcisismo mais deslavado ("eu adoro ser famoso") ao heroismo poético ("eu sou um xamã que tem visões pela tribo e é capaz de curá­la").

O filme pesquisa ainda outra fransição de Morrison - do binômio bebida/drogas alucinógenas aos químicos pesados. Stone retrata a descida aos infernos de Morrison com a mesma meticulosidade com que documentou os combates do Vietnã.

Segundo Stone, uma serie "enciclopédica" de irnpedimentos legais, colocados pelas famílias de Morrison e de sua namorada Pamela Courson e pelos demais Doors, impediram que fosse mais explícito em sua abordagem do espírito auto-destruidor de Morrison.

O que não impediu o cineasta de levar às telas uma visão peculiar do mito. Para Stone, Jim Morrison era "apaixonado pela morte".

"Jim acreditava que estar vivo só valia a pena se ele pudesse correr todos os riscos, explorar todas as possibilidades", diz. "Ele acreditava nesse flerte permanente com a morte, como forma de validar a vida".

Stone confessa, contudo, saber pouco mais sobre Morrison. "Eu acredito que ele viveu e morreu por sua arte, porque acreditava nela", diz. "Mas a maior parte da vida de Jim ainda é um mistério para mim."


Tecladista condena filme

Dos três Doors remanescentes, apenas o tecladista Ray Manzarek se opõe a The Doors. Quando o filme começou a ser rodado, declarou que Stone não sabia o que fazia e que estava "invocando energias pesadas".

Kyle McLachlan, que faz Manzarek no filme, tem sua própria teoria a respeito: "Ray tem seu proprio roteiro pronto, ele era um dos que queria fazer um filme sobre os Doors e, evidentemente, esta enciumado".

O baterjsta John Densmore (que acaba de publicar seu livro de memórias, Riders on lhe Storm) e o guitarrista Robbie Krieger colaboraram intensamente com o projeto, treinando) os atores Kevin Dillon e Frank Whaley, que fazem seus papéis no filme.

"Ele foi extraordinario", diz Whaley de Krieger. "Eu estava constrangido em representar uma pessoa viva, proxima. Fie me ajudou imensamente."

Densmore foi mais alem na colaboração. Ele faz uma ponta no filme. "Este não é o filme que eu faria, sabendo o que eu sei de Jim, mas é um bom filme", diz. "É um filme honesto, é a visão de Oliver."

Krieger diz que o filme ficou muito melhor do que esperava. "Eu tinha medo porque não tinhamos controle sobre Stone", diz. "Mas acho que foi melhor assim. Antes tera visao dele, que é brilhante. do que ter mais controle sobre um diretor mais fraco, e ter um filme mediocre."

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