Paris 1975

John Densmore

Parecia que vinha chuva. Torci para que uma forte tempestade se precipitasse, pois assim não teria de visitar sua cripta. Minha freqüência cardíaca acelerou. Olhei para Robbie, Danny Sugerman e Hervé Muller que estavam no carro, quando nos aproximávamos do cemiterio. Estavam todos inquietos.
As altas muralhas de pedra nos espreitavam, como se estivessem resguardando algo ancestral e misterioso. Ao entrarmos, um "gendarme" do tipo daqueles dos filmes de Chaplin perguntou-nos aonde íamos.

"Sabe onde fica a tumba de Jim Morrison?"

"Ah, mas oui! Monsieur Morrison" está no alto da ruela de paralelepípos. Podem ficar tranquilos: os grafites os levarão lá. Muitos foram removidos re­centemente e espero que voces não contribuam com mais alguns. D'accord?"

A ruela ficava cada vez mais íngreme. Passamos por centenas de criptas cobertas pelo musgo. Uma névoa espessa e úmida nos envolveu, enquanto éramos seguidos por uma verdadeira multidão de gatos que perambulavam pelas tumbas. O cemitério mais famoso da Europa, o Pêre Lachaise, é um verdadeiro albergue para milhares desses felinos.

Jim decerto estaria adorando este tipo de companhia. mas me parecia estranho que o bom menino da flórida estivese aqui. Só esperava que ele não tivesse planejado detalhadamente isso tudo.

As lápides centenárias indicavam as famosas presenças de Oscar Wilde, Balzac e Chopin. Continuamos a caminhar e, de repente, observamos um grafite que dizia: "Morrison - por aqui". Sobre as criptas, dezenas de outras inscrições em spray podiam ser apreciadas: "Domínios do Ácido", "Este não é o Fim", "Jim era Junkie" etc. Comecei a perceber que estávamos nos acercando do local procurado.

"É por aqui", disse Hervé, um pouco cançado. Procuramos o lugar, perambulando em círculos entre várias criptas de granito, até que finalmente encontramos o pequeno retângulo de cimento.
Incrédulo, perguntei: "Mas é isso aqui?" Pensei então, com pesar: teria sido este o fim do Xamã Elétrico, do Rei do Ácido, do Édípo Rei?

Merda.

Lacrimejante, comentei a Danny Sugerman: "Você agora entende?"

Respondeu-me secarnente: "Não tenho a mínima idéia".

"Claro que não", disse-lhe, "você não tocou na banda. Era apenas nosso divulgador."

Robbie estava quieto num canto e, como sempre, nao demonstrava sua emoção. Nosso guitarrista é muito introvertido. E meu melhor amigo.

"Como pode Jim caber neste espaço?", comentei jocosamente.

"Ele tinha pelo menos seis pés de altura!"

Neste momento, pensei na veracidade da hipótese de que ele não esteja morto (ninguém viu o corpo). Decerto, poderia estar em algum remoto lugar na África, tentando reviver Outro mito. Começou como Dionísio depois foi Nietzsche e estaria ele agora sendo Rimbaud?*
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* Rimbaud é um dos maiores poetas franceses. Maldito no fim do século passado, parou de escrever com vinte e poucos anos, passando a viver na África como mercador de armas.
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Silente estava a estela de pedra. Era um silêncio profundo e provocador.

Começou a cair uma tênue garoa. Senti um calafrio, enquanto Robbie e Hervé olhavam em torno, nervosamente. Nesse momento, um jovem guitarrista itinerante aproximou-se e começou a tocar uma de nossas canções. Na sua mochila, estava afixado um grande adesivo "The Doors":

Não há como escapar.

(Riders on the Storm)

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