Último telefonema de Morrison aos Doors
John Densmore, 1971
O telefone tocou terça de manha:
Como está? Disse a voz que eu bem conhecia. Aquele timbre cavernoso e whiskeado que me inspirava terror.
Oi Jim! Respondi-lhe instintivainente, embora ele fosse a última pessoa com a qual gostaria de falar naquele momento. Como vão as coisas ai na França?
Tudo 0K. Como está indo o LP L.A. Woman?
Muito bem, disse eu. 'Love Her Madly' já está em quarto lugar nas paradas. Embora não lhe dissesse que já havíamos começado a ensaiar sem ele, foi duro admitir e impossível contar-lhe que não conseguia nem pensar em fazer outra gravação com o Dr. Jekyll do rock.
Jim, quando é que você pretende voltar? Meu desejo era de que ele ficasse longe o máximo possível, pois já estávamos pensando em realizar um LP apenas instrumental. Ele mesmo já havia tocado nesta possibilidade. "Mas sem Jim?" Todos disseram: "E os fãs, como receberão a notícia?"
Fodam-se! Será um alívio tocar sem ele!
Estarei de volta dentro de alguns meses...
Jim, a Flektra quer transformar 'Riders On The Storm' num segundo compacto, será demais. Falei isso por cortesia, pois na verdade sabia que ele não continuaria mais no grupo. Eu nao agüentava mais aqueles blues monótonos e arrastados. São excelentes para um cantor, mas para um batera como eu são entediantes.
0K. Bem... Nos veremos. Ate mais.
Jim, obrigado pela chamada.
Tremulante, pensei: Minha nossa! já estávamos ensaiando sozinhos e agora não havia mais retorno. As músicas instrumentais estavam incríveis e tanto Ray quanto Robbie nem cogitavam a possibilidade de gravar outro LP com Jim... no estado empastado e alcoolizado em que este se encontrava. Sabia que aquela sobriedade no telefone era apenas momentânea.
"Meu Deus", exclamei, fazendo o sinal da cruz.
(Riders on The Storm. 1991)