Os últimos dias de Jim Morrison em Los Angeles
Uma semana para o futuro
Dan Knapp
Semanas atrás, numa das mesinhas de calçada de um café na Cinega Boulevard, Jim Morrison estava parecendo nada menos que o Dr. Jekyll, bem de acordo com a imagem que lhe pintaram a grande e a pequena imprensa. Muita comida o havia inflado e acentuara seu bom caráter e sua conversação tranqüila e brilhante. Cabelos castanhos caindo pelos ombros, urna barba um tanto messiânica. Estava plácido e calmo, como se fosse urna versão ultramasculina da cantora folk Joni Mitchel que estava sentada na mesa ao lado. Não havia nele o menor sinal de tremedeira, depressão, obscenidade, emhriaguêz ou narcótico.
Tomou rapidamente três drinks, entremeados de várias garrafas de cerveja que, segundo suas palavras, "serviram para saciara sede dos demônios que me guiam".
mais tarde, num pequeno estúdio que ficava ao lado do escritório do grupo, na Santa Monica Boulevard (onde o LP L.A. Woman estava sendo mixado), seu lado Dr. Jekyll revelou-se intensamente, como sempre: "Tivemos vários atritos com Paul Rothchild, produtor da maior parte de nossos discos, e decidimos fazer este por nossa conta. Nos sentimos confortáveis aqui, parece que estamos em casa".
Nascido na Flórida, estudou cinema na UCLA. Era muito mais poeta que performer. Este poeta-ana lista de gravação-filósofo publicou por uma grande editora suas obras poéticas completas The Lords & New Creatures.
Vivia no centro da cidade num pequeno hotel de terceira, e seus poucos pertences cabiam todos numa mala ou duas (a despeito de estar praticamente milionário).
Nos últimos meses, andava meio aborrecido com Los Angeles, cidade que há muito odiava. Entretanto, prestou-lhe uma grande homenagem, cantando-a em LA. Woman:
"Se eles disserem que nunca a amaram, saberá que estão mentindo."
Durante a conversa que tivemos, me segredou que o próximo LP do grupo seria apenas instrumental, e não participaria. "Tocarão Heavy Blues certamente!" Os blues já haviam infundido grande parte de L.A. Woman. Mas depois acabou mudando de idéia, dizendo que gostaria também de cantar no novo LP. Sua voz suave e contundente havia lhe regalado fama e dinheiro, mas também muito desgosto.
(Los Angeles Times, 1971)