Apatia pelo Demônio

Mike Gershman

Ninguém esta se importando com o que acontecerá a Jim Morrison em Miami.. Isto me ocorreu, enquanto esperava o inicio do julgamento. Grupos de fãs do cantor estavam presentes só para aparecer. A imprensa esta se comportando como se tudo aquilo estivesse passando-se por detrás de uma espessa parede de vidro. Poderiam ter feito matérias menos sensacionalistas, e ele não estaria ali, sendo condenado a cinco anos de prisao. Parece que estão neste tribunal apenas "a trabalho".

Mas o que está por trás deste demonio que supostamente corrompeu a juventude de Miami?
Creio que isto deva ser analisado. levando-se em conta o que passa na cabeça de Morrison. Ele "pega" as pessoas numa dimensão mitica como xamã, símbolo sexual e poeta-filósofo. A imprensa o aborda como se estivesse entrando num templo. As perguntas são sempre respeitosas e a aura de sacralidade que o cerca é impressionante.

Percebi claramente isto quando o promotor Terry McWilliams leu os autos do processo. Caminhou até a tribuna, parou por um momento e, apos uma longa pausa, começou a proferir a acusação: "... Exibicionismo lascivo e impudico do pênis... simulação de masturbaçao e copulação oral... exibicionismo do pênis de uma maneira vulgar e indecente com a intenção de ser observado... uso de linguagem chula... apresentação sob o efeito de drogas ou bebida." Ao chegar ao fim, ele poderia ser desrespeitoso e seco com o acusado, saindo repentinamente; mas nao... olhava para Morrison, como se este fosse Jesus Cristo!

No dia seguinte, o julgamento foi iniciado com uma belíssima jovem, Betty Racine. Ela falou que Morrison abaixou suas calças e gritou: "Vocês querem meu pinto?' Mas, infelizmente, onze meses atrás ela não tinha declarado nada disso ao ser interrogada. Um fotógrafo chamado Jeff Simon disse que estava no palco a menos de três metros do cantor e não vira nada. Suas 160 fotos não revelavam a tal exibição.

Mas a grande hipocrisia desse julgamento aconteceu na terça-feira, quando a testemunha de acusação mais esperada, Robert Jennings, deu seu depoimento. Esta curiosa figura tem menos de um metro e meio de altura, é terrivelmente sardento, possui uma longa e gnômica barba ruiva e, pelo jeito, é chegadíssimo numa droga. Além disso, pasmem, TRABALHA NA PROMOTORIA!. E não é só, foi este anão de jardim quem assinou a acusação oficial contra Morrison (trinta e nove dias após o concerto). Legalmente, para se extraditar uma pessoa de um estado para outro, é necessário acusá-la de um crime muito grave. Ninguém em Miami conseguiu tal proeza, a não ser Jennings, que acusou formalmente o cantor de comportamento impudico e lascivo, numa intrincada operação jurídica que durou onze meses.

Jennings testemunhou que Morrison havia colocado sua mão dentro das calças, exibindo-se depois, além de jogar vinho sobre as cabeças das pessoas. Foi para o juri uma testemunha convincente. Em outro momento, pressionado pela defesa, e com olhar de anão esquivo, vocifera: "Mas o que vocês querem que testemunhe? O que querem de mim?" Acabou sendo desmoralizada quando seu melhor amigo, que durante o concerto sentara ao seu lado, jurou que não vira nada do que o baixinho declarara: exibicionismo, copulação oral, masturbação etc.

(Rock, 1969)

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