Os Reis do Rock Lisérgico
Fred Powledge
Oque há demais satanico nos Doors e seu vocalista Jim Morrison, autor da maior parte das músicas. Tem vinte e quatro anos e caiu fora da UCLA. Nos concertos (penso que também nos discos), para sentir o clima, apresenta-se sempre temperamental, em éxtase mental e sobretudo drugado ou algo semelhante.
No palco veste roupas justas de couro negro e, quando começa a cantar, parece a versão masculina de Ms. LiIly Christine, a Mulher Gato do seriado Batman. Mas enquanto a atuação dessa personagem e linear, as performances de Morrison primam pela mais completa imprevisibilidade.
Além de excelente ator, Morrison é um talentoso poeta.
Fala Pouco mas com uma profundidade que lembra o romano catulo. Suas letras são obscuras. Ao ouvir suas composiçoes, tenho às vezes vontade de colocar um disco de Pete Seeger em seu lugar, pois posso entender tudo.
Morrison nos apresenta as cenas que só ele vivenciou, e são tão bizarras que não se pode ser muito explícito ao contá-las.
As letras não são simples e nem aquilo que poderíamos chamar de lógicas. Devemos ouvir o disco várias vezes para tentar entrever seu significado non sense. Ao terminar um lado, o braço do toca-discos retorna ao ponto inicial e somos impelidos a escutá-lo mais vezes. Creio que esta é uma das características da nova música. Temos que tocá-la repetidamente, de preferência em alto volume e com todas as luzes apagadas. Como Mantovani, vamos agora nos acostumara apreciar o rock como os diletantes da música clássica.
Esta música é a reflexão plástica sobre um mundo plástico.
Os matizes sonoros transistorizados, mais suaves que a suavidade, tal como os sacos plásticos que envolvem os hotdogs, são mais rubros que o vermelho. Tudo nesta nova concepção (que inclui desde órgãos de igreja até os ruídos das ruas) parece oniricamente irreal. Reflete de forma impecável o que se passa em nossa sociedade. Pulsa próximo à desarmonia e à insanidade. Parece alucinado e destoante, mas quando o ouvimos atentamente, uma harmonia secreta emerge de suas
profundezas.
Todos que discutem os Doors sao unanimes num ponto: seus concertos são muito semelhantes às performances do Living Theatre e das peças de Kurt Weil e Bertold Brecht (artistas que descreveram uma sociedade precipitando-se na direção de algo que não podiam compreender precisamente). Resolvi tentai entender os Doors em seu próximo concerto.
Prometi a minha mulher e a Polly que visitaríamos o músico favorito desta última: John Densmore. Chegamos ao New Haven Arena bem cedo, mas mesmo assim foi-nos difícil chegar ao camarim. Policiais estavam pelos corredores barrando todos os não credenciados.
A única pessoa que tinha autoridade para permitir-nos o ingresso era o chefe de polícia de New Haven, James P. Kelly, ma estava muito ocupado tentand desbloquear uma porta de emergência. Conversamos com um policial enquanto esperávam pelo Sr. Kelly. Polly e eu estávamos muito interessados num tubo de aerosol que carregava n bolso, denominado "Mace", qu fazia cair qualquer suspeito qu recebesse tal jato na face. Peguntamos-lhe então:
"Você gosta deste tipo de musica?"
"Yeah!" respondeu o policial. "Meu irmão também toca num grupo de rock."
O comissário Kelly estava relutante em deixar-nos entrar mesmo quando apresentei minhas credenciais de jornalista. Mas quando perguntei-lhe como se soletrava seu nome, percebeu que iria ser citado na reportagem e abriu-nos prontamente as portas.
No camarim presenciamos a normal antipatia que se estabelece entre os policiais e os repórteres. Polly pediu autógrafos a todos os componentes do grupo, e fomos para a grande platéia procurar nossos lugares.
Havia pelo menos duas mil pessoas, a maioria delas sabia de cor as letras. Alguns policiais ficavam em pé entre o palco e a platéia e, em certo instante, impediram que duas moças se aproximassem para tirar fotos com suas "instamatics'. Em outro momento, Morrison precipitou-se sobre a primeira fila. Foi tão rápido que ninguém se incomodou, parecia a peça Marat/Sade.
Ele era perigoso e o perigo fazia parte do show. Agora começava a compreender o que Paul Rothchild havia dito sobre o "Rock Teatral" e todas as citações ao Living Theatre, Kurt Weil e Bertold Brecht. Não me saiu da cabeça, também, o que John Densmore havia me alertado sobre a necessidade de assistir os concertos do grupo para entendê-lo.
Manzarek tocava seu orgao, Robbie a guitarra e John a batera. Jim começou então um insolito discurso:
"Gostaria de contar-lhes algo que se passou aqui, há dois minutos atrás: estamos mesmo em New Haven, Connecticut, Estados Unidos da América?"
A platéia estava muda. Jim começa a discorrer sobre o que jantara, os drinks que havia tomado, os autógrafos que dera num restaurante, a discussão sobre religião que tivera com uma garçonete e por fim a garota que encontrara no camarim desse concerto.
"Começamos a conversar", disse pausadamente vociferando no ritmo bem marcado de Densmore, sacudindo vibrátil o microfone e deixando transparecer seu lado negro, diabólico:
"Queríamos privacidade
Entramos então no banheiro
Não fazíamos nada, você sabe,
Apenas conversávamos
Quando este pequeno homem entrou
Este homenzinho em seu uniforme azul
Com seu pequeno quepe
E falou
‘Que fazem aqui?’
‘Nada.’
Mas ele não foi embora Ficou lá
Acercou-se de mim
E tirou uma lata de spray negra, ou algo assim,
Parecia de creme de barbear,
Então
Meus olhos foram borrifados
E fiquei cego por trinta
minutos..."
A luzes se acendem. Morrison dá uma olhada de relance na platéia e pergunta como todos estão. Nenhuma resposta. Manzarek caminha pelo palco e lhe segreda alguma coisa. Jim pergunta se querem música. A multidão grita em uníssono: Sim!
"Bem, então apaguem as luzes. Apaguem as luzes!"
Um policial invade bruscamente o palco. É o comissário Kelly, e tenta à força arrastar Morrison para fora na intenção de prendê-lo. Jim, indiferente, dirige a ele seu microfone dizendo: "Fale algo, o que você quer?' Mas o policial retira-lhe num violento golpe o microfone de sua mão. O público vaia e num delírio coletivo começa a invadir o palco. Bill Siddons, o road manager do grupo, tenta proteger Morrison dos policiais com o próprio corpo. Jim é retirado para fora e Siddons luta ferrenhamente para salvar o equipamento (seis amplificadores, um órgão, uma guitarra e a bateria) enquanto dezenas de policiais correm freneticamente pelo palco.
Muitos começam a deixar o local. Outros, em protesto, arrancavam as cadeiras de madeira. Lá fora, Tim Page, famoso fotógrafo (principalmente por seu trabalho no Vietnã) tirava várias fotos de um jovem sendo preso. Um policial notou sua presença e arrastou-o para o outro lado da rua. Tim protestou pessoalmente ao comissário Kelly, que prometeu-lhe tomar as devidas providências quando as coisas se acalmassem.
Assim que o comissário se retirou do local, Tim foi imediatamente preso juntamente com Yvonne Chabrier, da revista Life, e Michael Swerin, do Village Voice (todos arbitrariamente). Muitos adolescentes também foram "enquadrados". A acusação que recaiu sobre Jim foi a seguinte: exibicionismo imoral e indecente e provocação de distúrbios (ameaça à paz pública). A fiança de US$1.500 foi paga com o dinheiro do show.
Contei tudo o que se passara ao comissário Kelly. Respondeu-me que, uma vez efetuadas as prisões, nada poderia ser feito. Parecia surpreso: "É muita insanidade", disse-me. 'O que aconteceu aqui foi terrível."
Cruzei outra vez com aquele policial simpático que me mostrara a lata de spray no início do concerto, e perguntei-lhe: "Continua gostando desse tipo de música?" "Sim", respondeu-me secamente, enquanto empurrava dezenas de adolescentes aos portões de saída. Tinha a expressão dura e circunspecta.
Olhei para minha fllhinha Polly que, atônita, me indagou: "Por que o comissário não pára tudo isso?"
Minha filha estava no fulcro da balbúrdia, entre guardas e adolescentes. Tim, Yvonne e Michael já haviam sido levados num camburão. Não demonstrava tanto medo quanto eu. Sua pequena face franzia-se de irritação, seus punhos estavam cerrados e seus olhos apenas entreabriamse. Observara tudo e entendera muito bemo que se passara. Presenciara ao vivo estes tempos conturbados: não numa gravação, não num filme, e muito menos numa dublagem.
(Life, 1967)