Artaud Rock: a Lógica Dark dos Doors

BiII Kerby

Ray, com a cabeça curvada, observa atentamente as teclas de seu orgao; John faz os últimos ajustes na batera e Robbie, como um filho alucinado de Robert Mitchum, equaliza suavemente seu amplificador. Após uma interminável espera, Robbie começa, seguido por John e Ray. A introdução é poderosa e solene, envolvendo-nos ondulantemente.
O Kaieidoscope já havia esgotado suas entradas. O Ciro’s estava apinhado de gente que provinha de todo o hemisfério ocidental e que, frente ao palco, reconhecia o impacto daquela introduçao, numa expectativa ansiosa.

Lá estava ele, como um Anel provindo das entranhas do inferno, deslizando através do lento pulsar "câmara lenta" da batera. Robbie o espreita com certo desgosto, mas Mornison está indiferente. Em êxtase, podia-se notar seu olhar de cumplicidade com a platéia. Vibrando excitado, aproxima-se do microfone. Suas roupas davam a impressão de que ele não as tirava desde os doze anos. Pega o microfone e num flash, sua maravilhosa face de criança nos alerta deque tudo é mentira.
Todo terror, todo veneno e todo mal são repentinamente exorcizados! Um som não-humano, visceral, projeta-se através dos grandes auto-falantes emudecendo as críticas. Um silêncio espectral invade a sala quando ele começa a cantar, alternando gritos com carícias melódicas e vôos poéticos.

Por mais de uma hora, numa noite de sexta-feira, o grupo americano chamado The Doors ultrapassou todos os limites sonoros naquele lugar. Pela simples razão de que são grandes e porque é precisamente nestes momentos limítrofes que os artistas produzem o que há de melhor, ocorreu lá um verdadeiro milagre.

O criador do Teatro da Crueldade, Antonin Artaud, descreve suas insolitas representacoes cênicas como "erotismo, selvageria, sanguinolência, violência, obcessa() pelo horror, colapso) dos valores morais, hipocrisia social, mentira, sadismo, perjúrio, depravação etc." Todos que ouviram os Doors poderão encontrar um farto catálogo de todo esse material. Artaud, nesse contexto, é mais que um simples ornamento, uma rubrica conveniente nesta música. Os Doors aparecem como algo totalmente diferente.

Indeciso (satisfeito, clesapontado: escolha urna destas duas possibilidades) em sua sobrevivência, o homem ocidental começa a olhar seu interior para examinar o que está certo e o que está errado (ou se eventualmente ambas as coisas não seriam o mesmo). Os conceitos de ordem e caos têm agora novos significados. A contestação assume neste momento uma validade muito grande na arte como um ato intenso de paixão. E os Doors sabem disso. Este tipo de irracionalidade que ultrapassa os devaneios oniricos e a loucura inspira suas músicas que chocam mais do que apresentam histórias lógicas. Ao fim do espetáculo, todo o mal foi exorcizado e Morrison empunha solenemente um fósforo acesO, envolvido por uma negra escuridão. Neste momento você torce para que eles não mande tudo para os ares!

Muitas Coisas acontecem ao ouvi-los. As sensações vão da beleza, hilariedade onírica ao pesadelo. "Os sonhos possuem algo mais que nossa restrita lógica. Têm uma existência própria onde a treva e as sábias verdades se revelam." (Artaud ou Morrison: escolha).

Os Doors são quatro músicos que juntos apresentam uma única visão. Mas é Morrison que o público quer ver. São atraídos por sua ambigüidade que nos conduz calamitosamente à festa. Sua natureza perversa é afirmada quando ele encara as coisas que mais tememos. Encolhemo-nos e morremos um um pouco interiormente enquanto o mal e a morte dançam muito próximos à nossa insignificante concepção de imortalidade. Mas James Douglas Morrison, nascido em Melbourne, Flórida, em 1943, cineasta e astro, move-se no palco dançando com expressão dc indiferença e com a face convulsionada por uma esplêndida fúria. Nota-se u7m desdém espontâneo, o maior e mais completo desprezo por tudo que oc erca que jamais presenciei. mas quano ele se ergue vociferante ao microfone e irradia pelo palco sua contundência, elétrico e tomado pelo fogom tudo ali é seu: a espera, o perido e o terror. Sozinho.

(UCLA Daily Bruin, 1967)

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