Morrison 30 anos / Especial JB
UM ARTISTA DO CAOS
Há exatos trinta anos, morria o poeta e rock star James Douglas Morrison, líder do The Doors, uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Todo o trabalho do compositor e cantor revela ao mesmo tempo o criador e a criatura de uma obra musical que conquistou as massas mundialmente e transformou o artista num mito em culto ascendente.
Para conhecer Jim Morrison é necessário passar pelo The Doors. O grupo não era apenas ‘a banda’ de Morrison, mas um conjunto de vários lados que formavam um único diamante. E para entender o impacto da perda do artista, no dia três de julho de 1971, é necessário conhecer a formação, a poesia, a relação amorosa com Pamela Susan Courson, seus vícios e o eterno conflito de um artista que se recusava a comprometer sua pessoa e sua arte.
Declaradamente a favor do caos e da desordem contra todo e qualquer tipo de autoridade, Morrison era um ativista. "Sempre fui atraído pelas idéias contra a autoridade. Gosto das idéias referentes à quebra de sistema destronamento da ordem estabelecida. Me interesso sobre qualquer assunto referente a revolta, desordem, caos e, especialmente, às atividades que parecem não ter sentido nenhum. Me parece que o caminho da liberdade, revolta externa, é o meio de trazer liberdade interna.‘
Jim Morrison atingiu este objetivo, promovia o resgate de consciência das mentes adormecidas pelo sistema. Enfim, seu mito continua atual, presente e atuante e vai muito além de uma simples estampa em uma camiseta.
A VIDA DE JIM MORRISON
James Douglas Morrison nasceu no dia 8 de dezembro de 1943 na cidade de Melbourne, Florida - EUA. Sagitariano, ele era poeta de corpo e alma. Seus amigos mais íntimos eram os outros membros da banda, sua namorada Pam e aqueles que o acompanharam desde o começo de sua carreira.
Antes de ser um músico, Morrison era um poeta, muitas vezes incompreendido. Sua sinceridade, seu jeito de expor a mais dura realidade sobre a humanidade em suas poesias conquistaram grande multidão, mas também afastavam aqueles que não compreendiam suas atitudes. Sua escrita virou porta-voz de um movimento, de uma alternativa ao status-quo social, na sua "in your face poetry" (poesia na cara).
Do seu filósofo favorito, Friedrich Nietzsche, Morrison tirou alívio e incentivo para dizer "sim para a vida". Ele não era mais um suicida do rock, como muitos acreditam, mas escolheu intensidade ao invés de duração. Tornou-se o que Nietzsche definia como "aquele que não nega, que não diz não, que se atreve a se criar".
Uma outra citação do filósofo influenciou a vida do músico: "Dizer sim à vida até diante de seus problemas, mais estranhos e difíceis; o desejo de viver acima de exaustão mesmo diante dos maiores sacrifícios - isso é o que chamo de Dionísio, o que entendo como a passagem para a psicologia do poeta trágico. Não para se dispor do trágico e da compaixão, mas para transformar-se na alegria eterna de transformação, acima de qualquer terror ou piedade". Foi justamente a sede insaciável de Morrison que o matou e não a vontade de morrer.
Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Poe, Blake, Artaud, Nijinsky, Byron, Dylan Thomas, Brendan Behan, Jack Kerouac, aqueles que sentiam a vida muito intensamente apara agüentar vivê-la. Os loucos, intragáveis, perdidos, indomáveis, os artistas resistentes e cabeças-duras, insistentes em serem fiéis a sua natureza a qualquer preço - essa era a linha com a qual Morrison se identificava. Ser um poeta significava muito mais que escrever, pintar ou cantar; significava ter uma visão e a coragem para realizá-lo, independente de quaisquer posições.
Quando perguntado por uma revista pop como se preparava para o estrelismo, Morrison respondeu: "Parei de cortar o cabelo". O que ele não disse foi que também havia se entregado às drogas. Como tantos outros (Jimmy Hendrix e Janis Joplin, faleceram um ano antes de Jim Morrison, também com 27 anos de idade), o cantor usava as drogas para abrir a mente, expandir a consciência, a imaginação, para ‘ter acesso’ a um mundo de outra forma fechado.
O interesse de Jim Morrison pelo desconhecido é bem documentado em suas poesias e escrituras. "Há coisas que sabemos. "E há coisas desconhecidas, e entre elas, existem as portas (the doors)", dizia. Apesar dessa frase ser, freqüentemente, atribuída ao poeta William Blake, eram as palavras de Morrison. Seu compromisso em desvendar o desconhecido desde do início de sua carreira foi justamente o que acabou por terminar com o homem e com a banda.
Ele se recusava a comprometer sua arte. Este foi o seu bem e também o seu mal, ir até o fim dessa busca ou morrer tentando: tudo ou nada. E justamente por ele não industrializar ou popularizar o que escrevia, não conseguia fingir desespero ou êxtase. O que fazia não era mero entretenimento nem simplesmente a realização de movimentos já condicionados; ele era brilhante e desesperado, motivado pela necessidade de "testar os limites da realidade", sondar o sagrado e explorar o profano.
E isso o deixou louco para criar, para ser real. Essas mesmas qualidades o fizeram volátil, perigoso e o deixaram num conflito perverso consigo mesmo. Procurava consolo e alívio nas mesmas substâncias que inicialmente o inspiraram e o fizeram criar: as drogas.
As teorias do teatrólogo surrealista francês, Antonin Artaud, a respeito do confronto (discutidas no livro "O teatro e seu duplo") tiveram influência marcante em Morrison e também no grupo como um todo. Em uma das passagens mais fortes do livro, Artaud faz um paralelo entre a peste bubônica e a ação teatral, afirmando que o teatro tem que conseguir afetar a catarse no espectador da mesma forma que a peste bubônica purificou a humanidade. A meta? "Que eles (espectadores) fiquem apavorados e acordem. Quero acordá-los. Eles não entenderam que já estão mortos", dizia o músico.
Morisson iria gritar "Acordem" mil vezes na tentativa de sacudir o público e tirá-los de seu estado adormecido, "ninguém sai daqui vivo" ele cantava na música "Five to One". E quando se confronta o tipo de medo e terror evocados por músicas como "The End", algo dentro da gente muda, se altera, deixa de ser.
Final da década de 60 e as bandas cantavam sobre amor e paz, mas com The Doors era diferente. Quando a música acabava permanecia o silêncio, a serenidade, a conexão com a vida e a confirmação da existência de cada um. Mostrando o Inferno, The Doors levava seu público ao "Céu". Evocando temas sobre a morte, mostrava que estavam vivos.
E no final, depois de conquistar a América do Norte e todo o resto do Ocidente, depois de ser perseguido nas cortes de seu país, depois de ser ridicularizado pela imprensa, resolveu deixar tudo e ir para Paris, ateliê de tantos outros artistas do passado, para tentar firmar sua vida como poeta.
"Sempre fui atraído pelas idéias contra a autoridade. Gosto das idéias referentes a quebra de sistema destronamento da ordem estabelecida." (Jim Morrison)
Artigo escrito por Alexandre Fontoura (Jornal do Brasil)