Entrevista a Bob Choruch, do Los Angeles Free Press (1971)


Jim Morrison: Já gastei muito tempo e energia neste julgamento de Miami. Mais de um ano e meio. Mas acho que foi uma experiência que valeu para alguma coisa, pois antes dele mantinha uma atitude de garoto de escola perante o sistema judiciário americano (teria eu ouvido americano com "k"?). Meus olhos abriram-se um pouco mais. Encontrei vários jovens negros naquele lugar. Eram julgados durante vinte ou vinte e cinco minutos e pegavam vinte ou vinte e cinco anos de cana. Se não tivesse muito dinheiro e uma conta sem limites, já estaria na cadeia condenado a três anos sem apelação. Geralmente, se você tem dinheiro, você não é nem preso. O tribunal de Miami levou ao chão várias coisas para mim. Agora estou apelando à Suprema Corte.

Chorush: Que fim levaram os processos e acusações anteriores nos quais você estava envolvido?

Fui absolvido de todos. Tivemos de acabar com eles, pois neste momento não é nada bom ter algo assim na ficha.

Você, nesta altura, ainda se preocupa com sua ficha policial?

Se lhe acontece algo sério e você não tem sua ficha limpa, então a situação pode realmente complicar-se.

Me parece que eles querem te pegar. Pesa sobre você também uma acusação de provocar distúrbio num avião, não é?

Vivemos sob uma lei em função do distúrbio, mas não foi, no meu caso, exatamente isso que aconteceu. Tudo não passou de uma forma um tanto exuberante de procedimento. Não foi nada de ameaça à segurança, ou algo assim.

Fui absolvido porque, na verdade, as comissárias me confundiram com alguém parecido comigo. Elas se basearam no número da poltrona. Diziam que o causador de toda a celeuma era o ocupante de tal assento. Me identificaram pelo número e tentaram me prender pois era o unico que tinha um rosto conhecido. Acho que esta é uma boa amostra do tipo de gente que pode ser encontrada nos aviões.

O problema das acusações deste nível é que as pessoas que conheço (inclusive aquelas de que gosto) as acham engraçadas, as aceitam e acabam por acreditar inteiramente nelas. E as que não gostam de mim também as acatam, e me tomam pela encarnação de tudo que existe de pior. Me dou mal em ambos os casos. Fui a julgamento em Phoenix. Tive de aturar diversas audiências para esclarecer a questão.

Que chances acha que tem em Miami? Resta-lhe agora apenas uma acusação de delito.

Dois delitos. Sendo otimista, penso que tenho alguma chance. Mas nada foi provado além do ato de profanação, que assumimos desde o primeiro momento.

Tentaremos agora provar que esta profanação não feriu os parâmetros de comportamento dos padrões de Miami. Levaremos ao júri filmes como Woodstock. A peça Hair está em cartaz nesta cidade e nela existem cenas de nudismo abertas aos jovens de qualquer idade. E por que não citar os livros pornográficos que podem ser encontrados em qualquer biblioteca de High School? Mas o júri recusa-se a fazer qualquer investigação neste sentido, limitando-se apenas as ações criminais. Arrumaram trinta testemunhas. Todas são ligadas direta ou indiretamente à polícia (policiais que estavam a serviço no local e seus parentes). A testemunha de acusação mais importante é uma jovem de dezesseis anos sobrinha de um oficial de polícia que permitiu-lhe gratuitamente a entrada. Todos os testemunhos foram desencontrados e contraditórios. Cada uma delas contou uma versão diferente do que viu.

Ouvi falar que essa moça chamou alguém de "putinha".

Eu não ouvi, embora seja o que todos dizem. Na verdade, existem milhares de fotos tiradas por muitos que estavam lá, em nenhuma delas aparece a tal exposição, ou nada semelhante. Colocaram outras acusaçoes no processo para dar-lhe um ar de maior seriedade. Masturbação simulada e copulação oral.

Com você mesmo?

Masturbação comigo mesmo e copulação oral como guitarrista. Existe uma foto que documenta esta felação na capa interna do LP L3.

E a respeito daquela cabeça de cordeiro que você segurava nesse concerto?

Não, era um cordeiro mesmo. Estava lá Lewis Marvin de Moonfire. Esta figura percorre o país carregando este cordeirinho, para demonstrar seus princípios. No meio do show, ele me entregou o pequeno animal. Achei interessante a performance de entrar no palco com ele. Havia muito barulho e emoção. No meio daquela balbúrdia, ele estava tranqüilo e respirava normalmente. Ficou tão relaxado que descobri que o que dizem a respeito dos cordeiros é realmente verdade. Entretanto, as testemunhas de defesa foram limitadas ao número idêntico ás pedidas pela promotoria.

Acha que milhares de testemunhas a seu favor o ajudariam?

Isto seria tão bom quanto o vinho de uvas. Teríamos mais de trezentas pessoas que estiveram lá e não presenciaram nada dos incidentes alegados. O que aconteceu de fato foi um escândalo promovido principalmente pela imprensa local, que levou milhares de cidadãos a revoltarem-se ao ponto de muitos chamarem a polícia para perguntara razão pela qual o concerto não foi interrompido antes, e porque eu não tinha sido preso. Fui para Jamaica e três dias depois foi emitido um mandato de prisão contra mim. Pode imaginarcomo isto começou...

Pude viajar apenas a ilha de Wight e mesmo assim tivemos de voltar no dia seguinte, pois não sabíamos se uma audiência poderia ser marcada de repente...

Essas audiências são marcadas em espaços de tempo irregulares, não são?

Sim, e mudam constantemente. Nunca sabemos. Precisamos dos fins-de-semana para descançar e isto é odioso.

Acha que querem pegar ou seu estilo de vida?

Certamente é o meu estilo d vida que querem. Não penso que seja algo pessoal contra mim. como dormir ao lado de um vespeiro. Não se sabe nunca se reação do júri será receptiva o não. Os espectadores parecem se divertir com a coisa. Um clima de histeria coletiva foi detonado pela imprensa que distorceu os fatos. Poucas semanas após o concerto, iniciou-se uma "Cruzada pela Decência" que contou até com a participação de um comediante muito famoso.

Bem conhecido por sua decência.

Certo. E outro também conhecido pela sua grande decência, o presidente Richard Nixon, congratulou pessoalmente a criança que deu o primeiro passo nesta passeata. Querem outras por todo o país.

Você se sente impedido de se defender no processo, da mesma forma como Manson se sentiu?

Sim, sinto-me como um espectador, mas não pensaria em defender-me eu mesmo, pois arruinaria tudo na primeira ofensa que faria. Realmente, não é fácil.

Chegou a dar seu testemunho?

Não era obrigado a testemunhar, mas achei bom, pois esta era a melhor maneira de o júri conhecer-me verdadeiramente. Uma das funções do julgamento é confundir as coisas a tal ponto que você não sabe mais o que pensar. Esta é a forma que a sociedade utiliza para assimilar um evento horrível.

Pretende continuar a fazer filmes?

Sim, mas não tenho nenhuma pressa.

Me interessou muito algo que você diz no livro The Lords: 'O apelo do cinema reside no medo da morte"; poderia explicar isso?

Não falo em arte em geral, mas refiro-me principalmente aos filmes. As pessoas têm de confirmar suas próprias existências. Muitas coisas tornam-se mais reais se são fotografadas e criam uma aura de vida na tela. Mas estes pequenos aforismos que estão em The Lords, se pudesse dizê-los de outra maneira, eu diria. Seriam mutilados. Não os tomei muito a sério. Escrevi a major parte deles quando estudava cinema na UCLA. Era na verdade uma tese de estética. Não estava preparado naquela época para fazer filmes, porém o estava para escrever sobre o assunto.

Muitas passagens (principalmente aquelas que dizem respeito ao xamanismo) tornaram-se proféticas alguns anos mais tarde. Não tinha a menor idéia sobre o que estava dizendo quando os criei.

No final de The Lords, você define os Lords como pessoas que controlam as artes.

É estranho, mas de certa forma foi isso que pensei. Não necessariamente detêm o controle das artes. Esse livro está repleto do sentimento de falta de poder e de auxílio que têm as pessoas frente à realidade. Não têm o poder de controle sobre os eventos ou suas próprias vidas. Alguém sempre os está controlando. A realidade mais próxima a que têm acesso é um aparelho de TV. Quando criei a noção de Lords pensei na oposição total a isto. Para mim, os Lords representam algo completamente diferente. Não posso explicar. Os Lords são uma raça romântica de pessoas que encontraram um meio de direcionar seu comportamento e suas próprias vidas. São totalmente diferentes das demais pessoas.

"As Novas Criaturas". Existem muitas criaturas com as quais você se identifica. Lagartos, cobras e répteis. Faz parte de sua reputação. O Rei Lagarto. Como isso começou?

Tive um livro sobre cobras e répteis que se iniciava com a seguinte sentença: "Répteis são descendentes interessantes de magníficos ancestrais". Outra coisa que me fascina neles é seu completo anacronismo em termos de história natural. Se todos os répteis desaparecessem amanhã, isto não abalaria em nada o equilíbrio ecológico. São uma espécie completamente arbitrária. Penso que eles poderão resistir a outra guerra mundial ou a um envenenamento total do planeta. Os répteis encontrarão um caminho para isso.

Isso se adecua perfeitamente às suas idéias?

Não podemos esquecer que os répteis são associados ao inconsciente e às forças do mal. O poema "Celebração do Lagarto" é uma longa evocação às forças da treva. Mas não tome isto a sério. São apenas palavras e as pessoas não as interpretam deste modo. Se você faz o papel de vilão num western, não significa necessariamente que este é o seu caráter. E apenas um aspecto humano que quer representar. Não estou afirmando nada seriamente, apenas tento ser um pouco irônico. Mas adoro os répteis. Cresci no Sul e habituei-me a caçar lagartos e sapos com chifres. Mas jamais consegui me aproximar das cobras. Nem consigo pegá­las com a mão. Existe algo muito profundo na mente humana que se relaciona com elas. Representam tudo o que mais tememos. Suas peles sao esplêndidas e talvez por isso nos atraiam tanto.

E sua fama de beberrão?

(Longa pausa) Passei por um período em que eu bebia demais. Estava sendo muito pressionado e não podia lutar contra isso. Acho que a bebida é um meio de lutar contra o aborrecimento. Conheço muitas pessoas que bebem porque estão entediadas. Gosto de beber. Estimula a conversação. E nunca se sabe se no dia seguinte vai-se trabalhar bem ou ser um desastre. E como um jogo de dados.

Muitas pessoas também jogam. Detesto a conotação sexual dos jogos e nunca os pratico. Gosto do álcool pois pode-se ficar encostado em qualquer canto do bar ou numa mesa.

As pessoas estão fumando muito e cada vez mais constantemente. Não é mais uma viagem. Penso que engendraram uma tolerância celular para a erva. Tornou-se parte de sua química siologíca. Não estão realmente narcotizados.


Voltar

Hosted by www.Geocities.ws

1