Entrevista a Lizze James parte 2 (1969)


No seu primeiro disco, existe uma visão apocalíptica bem definida - "rompendo através" - de uma transcendência. Você crê ainda nisso hoje em dia?

Agora é diferente (pausa). Parece que se torna possível gerar um movimento - pessoas levantando-se juntas num protesto em massa, recusando-se a ser reprimidas, unindo suas forças para romper aquilo que William Blake denominou "os grilhões que forjou nossa mente"... A época do amor nas ruas é finda. Com certeza, pode-se pensar numa transcendência para eles - mas não ao nível de massa, nem ao de uma rebelião geral. E chegada a hora da rebelião individual - cada um por si, como se diz. Salve-se quem puder. A violência nem sempre é ma. Porque o mal é a paixão louca unida à violência.

Mas o que provoca isso?

A energia primal e os impulsos reprimidos por muito tempo transformam-se em violência. E normal uma pessoa que fique muito tempo sob pressão tomar-se violenta... Uma pessoa que tenha sido violentamente coibida, experimenta grande prazer agindo violentamente. Essas ações são eventuais e de curta duração, mas denotam uma paixão louca pela violência.

Mas, na verdade, a causa do mal não é a violência ou a paixão louca por ela, mas as forças repressivas.

Isto é verdade, mas em certos casos a pessoa apaixonada pela violência engendra uma cumplicidade secreta com seus opressores. As pessoas buscam tiranos. Colaboram com eles e os sustentam. Cooperam cumprindo as regras e restrições. Encantam-se com a violência através de suas breves rebeliões.

Mas por que acontece isto?

Talvez pela tradição. Os Estados Unidos foram forjados na violência. Os americanos são atraidos pela violência. Atacam-se entre si para engendrar violência. São hipnotizados pela TV - TV é um campo de força invisível que os protejeda realidade. O grande mal do século XX é a incapacidade de sentir. As pessoas adoram TV, óperas pasteurizadas, cinema, teatro, ídolos da música pop, e possuem um forte contingente emocional projetado a simbolos. Mas, no que diz respeito a suas próprias vidas, estão mortos.

Mas por que fogem de seus próprios sentimentos?

Temem menos a violência que seus próprios sentimentos. A dor solitária, privada e pessoal, é mais assustadora do que qualquer ameaça exterior.

Realmente, não entendo.

A dor é uma forma de acordar-nos. As pessoas tendem a ocultar sua própria dor. Mas estão completamente erradas. A dor é algo que se carrega, como um rádio. Você sente sua força com a experiência da dor. Tudo depende da forma como você a carrega. Isto é o que importa (pausa). Dor é um sentimento, seus sentimentos fazem parte de você. De sua própria realidade. Se você envergonha-se deles, e os esconde, estará deixando que a sociedade o destrua. Deve lutar pelo direito de sentir sua própria dor.

Você considera-se um xamã? Acho que os fanáticos pelos Doors acreditam que você os levará à salvação. Aceita isso?

Não estou certo se é salvação que buscam, ou se é a mim que procuram para isso. O xamã é um curandeiro, um médico paranormal. Não sei se é isso que buscam em mim. Não me vejo como um salvador.

O que buscam em você então?

O xamã é como um canal de escape. Penso na atividade do artista ou do xamà como canal de escape. As pessoas projetam sobre ele suas fantasias e elas se tornam reais. As pessoas destroem suas fantasias destruindo-no. Obedeço os impulsos, todos os têm, mas não permitirei isso. Atacando-me, punindo-me, liberam­se de seus impulsos.

É isso que você dizia há alguns momentos, que as pessoas projetam muitas emoções selvagens nos símbolos, principalmente nos astros da música pop?

Isso mesmo. As pessoas temem-se a si mesmas. Temem sua própria realidade e seus sentimentos, acima de tudo. Fazem verdadeiras apologias ao amor, mas é tudo conversa fiada. O amor fere. Os sentimentos incomodam. Ensina-se que a dor é má e perigosa. Como podem amar se têm medo de sentir?

Por isso você diz: "Único amigo, o Fim..."?

As vezes, a dor é demasiada para ser analisada ou tolerada. Não engendra o mal mas é encarada perigosamente. Temem mais a morte que a dor. E estranho mas têm medo da morte. A vida fere muito mais que a morte. Com a morte, finda-se a dor. Sim, penso-a como amiga.

As pessoas encaram o sexo como grande libertador, a suprema liberação. Em muitas canções você não aponta o sexo como um caminho libertário?

O sexo pode ser um libertador. Mas pode também ser um empecilho.

Onde está a diferença?

Depende de como as pessoas "escutam" seu corpo através de sua sensibilidade. Muita gente anda tão ocupada que não consegue mais sentir.

O sexo não é uma forma de amplificar os sentimentos?

O sexo está repleto de mentiras. O corpo tenta revelar a verdade. Mas está tão emaranhado em regras que dificilmente conseguimos escutá-lo. Atarno-nos fortemente com mentiras.

Como podemos romper com as regras e mentiras?

Escutando nosso corpo e abrindo nossos sentidos. Williarn Blake disse que o corpo é a prisao da mente até que os cinco sentidos estejam desenvolvidos e abertos. Considerava os sentidos como "janelas da mente". "Quando o SCXO envolve todos os sentidos, torna-se urna experiência mística..."

Em muitas de suas musicas você coloca o sexo como um meio de escape, um refúgio, um santuário,posso citar 'Grystal Ship', 'Soft Parade' e 'Soul Kitchen' Sempre fui fascinado por suas analogias entre sexo e morte, 'Moonlight Drive' é um ótimo exemplo. Mas isto não denota uma rejeição ao colpo?

Não é uma oposição. Se você rejeita seu corpo, ele torna-se-a uma prisão. É um paradoxo. ve-se transcender as limitações do corpo, imergir totalmente nele abrindo-se todos os sentidos... E muito dificil aceitar o corpo totalmente. Nos ensinaram que o corpo deve ser controlado, dominado, um processo que classifica como sujo o ato de urinar e defecar... os comportamentos puritanos morrem muito lentamente. Como o sexo pode libertá-lo se você não quer tocar o corpo e tenta escapar dele?


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