Observando os inícios de Vera Martins,
as vésperas de sua primeira individual, percebe-se que talvez ela seja a
expressão de como se forma, hoje, um artista, num grande centro urbano.
Fora de escolas convencionais, realizando cursos com artistas,
“workshops”, tentando fazer, buscando ver e ouvir, com um acesso
fragmentado à História de Arte, a presença em salões do interior, com
menções significando que começou a chamar a atenção dos júris, até o
salão nacional de 1993; e, afinal, um convite, por curadores do
Exterior, para participar de exposição de arte brasileira no Tamarind
Institute, em Albuquerque, Novo México, Estados Unidos.Ou seja, um
gradual expor-se na difícil arena do circuito do meio das artes visuais.
A partir de seu primeiro trabalho desta
série, “Escada“. Já se pressente um clima peculiar, e as constantes de
seu trabalho; a impressão em seco, se assim quisermos denominar seu
processo, ou relevo, obtido, neste caso, com moldes de madeira, em longa
esteira/tela artesanal, de conotações afetivas, porém transfigurada
através da aplicação da têmpera acrílica (pó xadrez com verniz
acrílico). Esta manipulação do elemento cor/matéria confere a textura
aveludada e irregular nestes tons ocres/terra/vermelhões surdos, que
recobrem grande parte de seus trabalhos. Esta “Escada”, indicadora
igualmente de sua vocação para a abordagem de grandes superfícies,
assinala já na relação escala/escada o suporte dividido “em partes
iguais, que indica a relação das dimensões ou distâncias reais”. (Novo
Dicionário Aurélio).
Esta peça, em sua fisicalidade, já dá o
“tom” que preside suas composições posteriores: uma geometria sensível,
íntima coexistência com o gestual, seja na aplicação da cor, seja na
manipulação dos “moldes” em borracha dura, que constituirão o “meio“
para a obtenção dos relevos ou depressões, na organização de suas
superfícies, onde é freqüente a dualidade positivo/negativo que
comparece como uma constante.
Simultaneamente, suas criações não
deixam de estar vinculadas estreitamente á emoção captada diante das
gavetas funerárias (em seu caso observadas atentamente no cemitério da
Freguesia do Ó), na regularidade de sua justaposição, na pátina que o
tempo imprime às pinturas das paredes queimadas pelas velas votivas
acesas ano após ano, à luz secreta do interior inviolado, aos signos,
nomes e datas inscritos sobre essas formas quadradas impregnadas pela
fascinação irrecorrível que sentimos diante das coisas da morte. Vera
Martins fotografaria avidamente essas formas, que posteriormente
transportaria com aparente assepsia, na ordenação dos quadrados, pelo
vinco impresso por sua mão, assim como pela gestualidade visível na sua
aplicação da tinta sobre suas impressões/relevos.
A preocupação com a exatidão é mais
aparente que real; a intuição governa as composições como variações em
torno de um mesmo tema, na delicadeza dos tons terra, ou dos azuis,
negros profundos, e vermelhões que dominam suas sensíveis realizações.
Se a matéria é importante. Assim como as variantes cromáticas de grande
sutileza, a vizinhança da vida que se esvai sem retorno também não deixa
de comparecer nesses sudários que nos remetem aos espaços hospitalares,
freqüentes ante-salas da morte. Sudários nos quais Vera imprime seus
quadrados com uma visualidade que não deixa de trazer à tona a liturgia
religiosa (e as expressões Semana Santa, chagas de Cristo e sudário não
são casuais). Despreocupada com a forma de apresentação de suas peças
(com ou desprovidas de chassis) em lonas, linho, ou telas de algodão,
transfigurados sempre, estes trabalhos possuem como uma luz interior, a
partir de sua própria soturna dramaticidade, explorada através da
estrutura estável do quadrado, encaixado, engavetado, dobrado, ou
ressaltado através do relevo quando positivo.
Sem nenhuma dúvida estamos aqui, no caso
de uma de suas últimas propostas, linhas paralelas verticais em relevo
positivo/negativo, diante de um trabalho que se expressa violentamente
mediante a simbologia, a moral, o drama humano que encontramos em
artistas como Beuys e, em particular, um kiefer, que tanto fascinou a
geração dos anos 80. É possível estabelecer uma vinculação de linhagem
com artistas brasileiros contemporâneos que admira ou com os quais
desenvolveu trabalhos, como Fajardo, Antonio Dias, Paulo Pasta. Embora a
forma hierática religiosa seja evidente também - e aqui outra afinidade
- na obra de Flávia Ribeiro. Mas ao mesmo tempo, é transparente, como no
sinistro e belo painel com vasos de flores decaídas votivas (o trabalho
mais diretamente ligado à inspiração funerária) a presença da intimidade
com a morte, que nos traz esta jovem e vital artista.
O tempo e a morte têm muito em comum,
pois registram e delimitam nosso espaço de passagem. E o tempo,
cultivado com melancólica evocação na obra de uma Rosângela Rennó,
parece também estar presente com um sabor amargo nos floridos frisos
estáticos que nos tocam na obra de Sandra Tucci, além de também
comparecer em certos trabalhos vistos em coletiva recente no Centro
Cultural São Paulo. Foi ao observar os trabalhos que quase tangenciam
dolorosamente a morbidez poética, de Elisa Campos, em suas acumulações
de restos (unhas, cabelos?) do ser humano, que baseia sua ultima
produção em torno a esse tema, que nos demos conta, de pronto, de quanto
à obsessão com a morte está presente em artistas mais jovens.
Possivelmente a violência e a doença fatal afetam diretamente cada vez
mais uma geração que, poderíamos dizer, desperta para a vida. E para a
criação, consciente de seu tempo, a partir de sua sensibilidade. É o
caso da produção de Vera Martins, que saudamos com prazer, no contexto
da linhagem construtiva brasileira, embora com conotações simbólicas
extremamente singulares e que parece já desenhar, com suas últimas
obras, uma personalidade poética a destacar dentro do panorama
brasileiro dos anos 90.