NOVO BIG BANG

Tendo tido, há cerca de uma semana, uma debilitante doença aguda, da qual estou recuperado ( embora os leitores talvez considerem isso uma afirmativa audaz e provavelmente errada), vou relatar um sonho politicamente muito muito incorreto que tive durante o curso da moléstia. Sonhei que era chefe de um laboratório de biologia celular da reprodução humana e o que agora relato é fruto desse delírio onírico.

"O calendário na parede de meu laboratório indicava fevereiro 2003. Minha agenda dizia que dentro de uma semana iria conhecer N.N., um bebê que eu clonara há dois anos e que agora seus pais iriam mostrar ao mundo, a mais espetacular "nova Louise Brown". Meu gigantesco sucesso científico iria abalar o mundo cem vezes mais do que os bombardeios de Hiroshima e Nakasaki, do que a descoberta do DNA e da clonagem da ovelha escocesa Dolly. Mas o que me apavorava era a certeza de que os mundos científico, político e religioso, a esquerda e a direita mais radicais, enfim toda a sociedade iria me condenar e cobrir de injúrias, calúnias e adjetivos mais horripilantes, desde "novo Dr Mengele" até os mil e um nomes de Belzebu! Sobre minha mesa estava uma revista TIME de 19 de fevereiro de 2001, onde tudo isso era antecipado.

E, lá estavam a me acusar líderes das comunidades religiosas, das quais por ironia a mais vociferante era a Igreja Escocesa. Lá estava, também por ironia e talvez por não ter suportado esse tipo de pressão psicológica o próprio criador de Dolly, um opositor feroz da clonagem humana. Que defesa podia eu oferecer? De que o ser vivo que eu criara era algo muito parecido com o que a natureza faz todos os dias: gêmeos idênticos nada mais são do que clones criados por acaso ( eu mesmo sou um clone de meu irmão gêmeo...). Apenas diferenças muito sutis e apontadas por super-especialistas, como a de que o "imprinting" gênico e diferenças provindas da herança mitocondrial seriam detectadas entre ela e seu "pai biológico". A criatura seria um gêmeo idêntico pelo DNA cromossômico de seu próprio pai ( homem jovem tornado estéril por tratamento contra um linfoma) que doara o núcleo de uma de suas células somáticas para ser fusionado com o citoplasma de um óvulo de sua esposa. Esse casal não tinha nenhuma outra opção reprodutiva na qual o DNA de alguém que não fosse o pai pudesse ser usado. Simplesmente o pai não possuia mais genoma gonadal. O casal usara este argumento definitivo para me convencer a ir adiante com a tentativa: usar esperma de doador era absolutamente algo que eles não queriam. O pai potencial exclamara, com total apoio da esposa: Por quê eu não tenho direito de ter um filho com os meus genes? E, de qualquer modo, a idéia predominante entre os leigos de que os clones são cópias absolutamente idênticas ao doador do DNA e portanto uma forma de imortalizar (a Hitler p.ex.) não passa de grosseiro erro biológico. Perguntem a um gêmeo idêntico, como eu. Somos duas pessoas absolutamente individuais, nada mais distante da idéia sobre a natureza dos clones humanos, cópias que não são cópias..."

Acordei suando frio e debilitado...

Os leitores podem me atirar a primeira pedra, pois acho que esse sonho já foi realizado em algum laboratório do planeta, talvez na Itália do Dr. Antinori, ou Hong Kong, onde tudo é permitido, ou na arqui-conservadora França, ou na desorganizada Rússia, ou ironia final no Canadá dos Raelianos! E as fotos desse bebê, quando finalmente sua família ousar enfrentar o mundo, irão revolucionar o mundo bioético que está fossilizado há muito tempo, pois na questão da clonagem humana parece ouvir os argumentos apenas do lado contrário...Ou, o que é igualmente possível, essa criatura irá ficar para sempre protegida pelo sigilo resultante da união entre o medo que eu senti no sonho (do criador repudiado pela sociedade) e o medo das represálias que a família não pode superar... Talvez a terceira ou quarta tentativa bem sucedida venha finalmente ao conhecimento do mundo e, aí sim, veremos o céu se cobrir de negro e os sacerdotes do templo rasgarem sua vestes em equivocada e mesmo hipócrita "santa raiva..."

Porto Alegre, 17 de fevereiro de 2001

 

Prof. João Carlos Prolla

Unidade de Citopatologia

Hospital de Clínicas de Porto Alegre

P.S.: Em 9 de março Antinori fez um anúncio que confirma o que digo acima...

 

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