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NARCISISMO E RELAÇÃO NARCÍSICA DE OBJETO


João Carlos de Araujo

Apresentação

Há muito se afirma que vivemos sob o signo do narcisismo; e no campo da psicanálise isso aparece freqüentemente através das referências ao crescimento das patologias chamadas narcísicas.  Sem pretender realizar uma discussão mais ampla sobre tal fenômeno, se assim podemos dizer, buscaremos fazer aqui, uma investigação e discussão sobre o narcisismo,  mais especificamente sobre as relações narcísicas de objeto. 

Primeiramente, vamos apresentar e discutir sumariamente a noção de narcisismo enquanto conceito e como ele está articulado na obra de Freud.  Depois, faremos uma discussão sobre o narcisismo no que diz respeito ao seu significado unificador junto ao desenvolvimento pulsional.  Por fim, vamos investigar sobre o modelo narcísico de escolha de objeto e levantar questões relacionadas a ele. 

Narcisismo em Freud 

Embora o conceito de narcisismo tenha representado somente um parêntese no pensamento de Freud, ele trouxe contribuições e modificações importantes para a teoria metapsicológica. (12)

Foi Havelock Ellis, em 1898, quem fez uma primeira alusão ao mito de Narciso, a propósito das mulheres cativadas por sua imagem no espelho. Mas foi Paul Näcke que, em 1899, introduziu pela primeira vez o termo ‘narcisismo’ no campo da psiquiatria para designar um estado de amor por si mesmo, que constituiria uma nova categoria de perversão. (3)

Freud já fazia uso do conceito de narcisismo antes de introduzi-lo em 1914 em Sobre o narcisismo: uma introdução, onde o articula mais profundamente na teoria psicanalítica.  O termo narcisismo aparece em sua obra pela primeira vez em 1910 (Três Ensaios), para explicar a escolha de objeto nos homossexuais. Freud afirmou que estes tomam a si mesmos como objeto sexual, já que procuram jovens que se pareçam com eles, e a quem possam amar como suas mães o amaram. (9) 

Em Leonardo Da Vinci e uma lembrança da sua infância (1910), o conceito narcisismo vem fundamentar um tipo de identificação quando, ante a perda de um objeto, o ego se transforma à imagem e semelhança daquele. 

No Caso Schreber (1911) Freud propôs o narcisismo como uma fase da evolução intermediária entre o auto-erotismo e o amor de objeto. O sujeito começa por tomar a si mesmo, ao seu próprio corpo, como objeto de amor.  Aqui o narcisismo aparece também como um ponto de fixação das psicoses, denominadas “neuroses narcísicas”.            

Em Totem e Tabu, 1912, aparece como um processo de retração da libido ao ego;  e como uma série de atitudes, estados ou traços atribuídos ao narcisismo, como a megalomania e a onipotência do pensamento. (12) 

É, no entanto, somente em Sobre o Narcisismo: uma introdução, que o conceito de narcisismo é inserido no conjunto da teoria psicanalítica, do ponto de vista dos investimentos libidinais. No caso da psicose (neurose narcísica), por exemplo, Freud discute a possibilidade que a libido tem de reinvestir o ego desinvestindo o objeto. O narcisismo também aparece no campo da transferência e do trabalho analítico, no que se refere a insusceptibilidade à influência de certos pacientes, causada por um alto grau de narcisismo. É estabelecido um equilíbrio entre a “libido do ego” (investida no ego) e “libido objetal”: quanto maior o investimento no objeto, mais se dá a retirada da libido sobre o sujeito e vice-versa.  

Aqui, o narcisismo não é posto somente como uma fase evolutiva do desenvolvimento libidinal, mas como uma “condição” do psiquismo que nenhum investimento objetal permite ultrapassar completamente.  [Neste texto Freud também define a escolha objetal narcísica e anaclítica, as quais abordaremos mais adiante]. 

Posteriormente, Freud desenvolveu esse conceito em outros textos. Com a elaboração da segunda teoria do aparelho psíquico, opôs um estado narcísico primário (anobjetal), caracterizado pela ausência de relações com o meio, indiferenciação entre o ego e o id e as relações com o objeto. O protótipo desse estado primitivo é a vida intra-uterina, da qual o sono, seria uma reprodução aproximada. (4) [Freud coloca o narcisismo como uma etapa entre o auto-erotismo e o amor objetal e, segundo Laplanche, essa profunda modificação na concepção de Freud, que leva ao desaparecimento da distinção entre auto-erotismo e narcisismo, vem trazer alguns problemas teóricos].  

A idéia de um narcisismo contemporâneo à formação do ego em que a libido retirada dos objetos reflui ao primeiro através da identificação é denominada “narcisismo secundário”. (4)  

Unificação pulsional em torno do narcisismo 

Do ponto de vista pulsional, é o narcisismo que vai permitir uma primeira unificação das pulsões sexuais que se dá em torno do eu.  Até então, predominava a sexualidade infantil  caracterizada pela parcialidade no funcionamento das zonas erógenas. Num estado em que as pulsões sexuais se satisfaziam de forma anárquica, independentes uma das outras, o ego vem a ser tomado como objeto de amor, num primeiro movimento no sentido de unificação pulsional, em torno de uma imagem integrada. O narcisismo infantil coincide com o surgimento do ego enquanto unidade psíquica e representação do corpo. (9) 

Lacan denominará ‘fase do espelho’ a esse momento da constituição egóica, em que a criança é apresentada à imagem de si mesma, a qual recebe com júbilo. É que ela pode ver-se através do espelho, por uma imagem integrada, antecipatória do que virá no futuro: uma organização do seu esquema corporal ainda incipiente. (8) 

Há, no entanto, um contraponto entre o desenvolvimento pulsional, do corpo erógeno e o desenvolvimento do ego – ao mesmo tempo agente e produto das atividades do narcisismo. 

De acordo com Bleichmar, o narcisismo adquire uma prioridade sobre a biologia. A exigência de ser amado, exigência egóica, se desenvolve a partir de uma necessidade de satisfação narcísica. Tal necessidade de satisfação, agirá no psiquismo como uma espécie de atividade pulsional, sendo sempre convocada a ser satisfeita, acompanhando o sujeito por toda sua vida, levando-o a ultrapassar e superar as tendências pulsionais parciais. (1) 

O objeto da pulsão que produz prazer de órgão também passa a ser objeto da atividade narcísica; isso é levado a um tal nível que o prazer narcisista pode chegar eliminar o primeiro. As atividades das zonas erógenas podem passar a serem utilizadas independentemente do prazer ou desprazer que causem, simplesmente para satisfazer a superioridade do ego. 

No melhor dos casos, pensemos na criança que passa a abrir mão de suas satisfações anais, por exemplo, para se sentir amada. São exigências de satisfação do narcisismo que estão em ação e que levam ao superamento das exigências pulsionais, parciais. 

Nesses termos, da oposição do eu à sexualidade infantil, podemos pensar como o narcisismo vem se articular na dinâmica do conflito psíquico. Freud, ao explicar a dinâmica do psiquismo, sempre tomou como seu ponto central a sexualidade, contra a qual alguma força se opõe, gerando o conflito psíquico.  O Ego, desde o início na obra de Freud é o agente da ação recalcante, de defesa contra a sexualidade.  Antes do narcisismo, foram as pulsões de auto-conservação; depois dele, a pulsão de morte. A introdução do conceito de narcisismo implicou uma libidinização das pulsões de auto-conservação, designadas pulsões do ego, exigindo então uma reformulação na teoria da dualidade pulsional. (12) 

Não estamos aqui resgatando a teoria Freudiana da oposição entre libido do ego e libido sexual, mas devemos ter presente que o narcisismo atuará, enquanto envolvido no contexto libidinal, primeiramente em favor da satisfação egóica, mas também contra qualquer coisa que venha a se opor aos seus ideais e a qualquer coisa que venha prejudicar ou diminuir seu valor. O ego está então diretamente relacionado e centralizado com o conflito psíquico que se dá em torno da sexualidade infantil, mas não só isso; também em torno da relação aos investimentos no próprio eu e nos objetos. 

Com a segunda tópica e a noção do antagonismo entre pulsão de vida e pulsão de morte, o eu ainda se mantém num lugar de destaque em relação ao conflito psíquico, agora entre essas duas tendências antagônicas. É através da desfusão pulsional em virtude da identificação com o objeto - desinvestimento libidinal do objeto - que surge o supereu, que por sua vez, age também sob os auspícios da agressividade liberada nesse processo. Vale lembrar que o ego também é o produto de identificações. 

Além disso, o conflito psíquico se expressa, por assim dizer, numa dimensão social quando uma tendência pulsional vai contra os ideais do sujeito ou da sociedade. Tudo para atender às exigências das necessidades narcísicas. 

Relação narcísica primária – constituinte do eu 

Quando falamos de narcisismo estamos no campo das qualidades, dos valores: bondade e maldade, inteligência e mediocridade, valentia e covardia, melhor e pior, homem e mulher, etc.  Em primeira instância quem estabelece que, para cada sujeito no início de sua vida, tal ser incipiente é possuidor de qualidades é a perspectiva de um outro, especialmente dos pais. O narcisismo em sua dimensão primitiva tem a ver com esse momento em que são instauradas no sujeito, através do olhar de terceiros, essas qualidades que o definem para os outros e para si mesmo. Isso tudo é o fundamental do narcisismo para cada um de nós.  

É através desse investimento externo sobre o psiquismo que vai ser instaurado (no narcisismo primário) um estado precoce em que a criança investe toda sua libido em si mesma. (9)  Na melhor das possibilidades, então, constitui-se um campo da ilusão, o da ilusão narcísica: o pequeno sujeito vai passar não só a ser alimentado por uma imagem ao mesmo tempo integrada e de perfeição, mas também vai poder, a partir daí, definir-se, identificar-se, reconhecer-se.

Freud define essa imagem perfeita de si mesmo como ‘eu ideal’ - muito embora uma distinção mais precisa desse termo e do ‘ideal de eu’ tenha sido feita posteriormente por outros teóricos.  À medida que se constitui essa imagem de si mesmo, esta vai ser cultivada e defendida como uma necessidade de satisfação narcísica.  Em última análise é uma relação de amor consigo mesmo que surge e daqui para frente se transformará numa demanda: demanda de ser objeto do amor de um outro.  

O ego ideal erige-se como uma referência perene no psiquismo, uma ilusão e um modelo ao qual o eu sempre buscará ‘retornar’: uma posição na qual estava a perfeição narcísica e na qual se assenta a ilusão de ter sido amado e admirado sem restrições. 

Deste modo, o outro será incluído como objeto à medida que vem satisfazer às necessidades narcísicas do psiquismo. 

Resulta disso a necessidade do investimento externo, da mãe, sobre o eu. O eu primeiro necessita ser tomado como objeto para que possa ser constituído. Na relação primária com a mãe deve ter havido tanto um investimento pulsional nas zonas parciais, no corpo erógeno, quanto investimento narcísico, em direção ao eu da criança, futuro indivíduo. Na verdade ambos os investimentos devem coincidir: o eu do bebê e o seu corpo erógeno são simultaneamente investidos pelos pais. 

Esse momento narcísico primordial, em que não há relação de objeto é o tempo da identificação primária. O eu não pode desde sempre ter sido alvo do próprio amor. A princípio, as catexias dirigidas ao eu não provem do id porque aquele não está constituído. Trata-se de uma relação do tipo que Freud definiu como oral. Essa catexia que o id emite em direção ao objeto é ao mesmo tempo uma relação de identificação, já que o eu está com aquele numa relação de fusão, insuficientemente diferenciado. O narcisismo primário é um tempo ‘mítico’, que é o tempo da identificação primária, quando sujeito e objeto estão fusionados, indiscriminados.  

É somente a partir da constituição de uma unidade tal como é o eu, de uma imagem de si mesmo, após esse tempo da identificação primária, que é possível pensar a questão da relação com objetos  e da escolha objetal. [Só após a constituição do eu e com a perda do objeto (ou renúncia libidinal ao objeto) no Édipo que resultará ao id a possibilidade de reenviar catexias dirigidas a esse novo objeto: o eu.] 

O abalo dessa imagem narcísica e da ilusão em torno dela será colocado para o eu, especialmente através do Édipo. O sujeito resistirá mais ou menos em enxergar-se fora do centro das atenções e do amor do casal parental, assim como de seus substitutos.  Mesmo diante dessas frustrações narcísicas o indivíduo será convocado a satisfazer tais ‘necessidades’ encontrando formas mais variadas para isso. 

O narcisismo secundário, designa um retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos objetais. Trata-se de uma estrutura permanente no sujeito, onde será sempre solicitado um equilíbrio entre investimento narcísico e objetal – através do ideal do eu.  A satisfação pulsional passará a se dar também através do eu, e portanto ligada à imagem integrada de um corpo. (9) 

[O ideal do eu poderá se constituir o herdeiro do eu ideal. O ideal do eu abre o campo da temporalidade no narcisismo. O narcisismo do ego ideal é transferido para os ideais que o sujeito passará se esforçar para alcançar no futuro, numa promessa da restituição, pelo menos em parte, da perfeição narcísica perdida.] 

Quanto à distinção libido narcisista-libido de objeto: a libido de objeto nasce da libido narcisista – o eu é o primeiro objeto – pelo menos em parte; secundariamente, a libido narcisista será retirada dos objetos. (6) 

Talvez o tipo narcisista esteja fixado numa fase narcísica primária, seja porque não foi investido primitivamente o suficiente pelo outro, seja porque o foi excessivamente.  Ele seria levado a manter-se num campo próximo a este momento fundante, em que qualquer amor se confunde com o amor por si mesmo, de modo que só pode investir num outro se isso significar um não menor investimento em si mesmo. O narcisismo nestes casos não é um ganho secundário na relação com os objetos. 

Escolha objetal narcísica 

Em Sobre o Narcisismo: Uma Introdução, a propósito da vida erótica das pessoas, Freud define a escolha de objeto anaclítica e a narcísica.  A escolha objetal deriva das primeiras experiências de satisfação [infantis]. As pulsões sexuais (parciais) estão ligadas de início às satisfações das pulsões do ego e só depois se tornam independentes: uma criança tem como objetos sexuais, as pessoas que a alimentaram, cuidaram dela e a protegeram.  

Assim, Freud definiu a escolha objetal ‘anaclítica’ ou de ‘ligação’: ama-se segundo o modelo do amor recebido na relação com as figuras parentais, aquela que alimenta, aquele que protege.  

O amor objetal completo do tipo anaclítico, segundo Freud, é o modo de amar tipicamente masculino (embora afirme que também possa ser encontrado em algumas mulheres). Decorre dele a supervalorização sexual do objeto que nos casos de apaixonamento atinge seu mais alto grau. [Nesses casos, em que o sujeito abriu mão do seu próprio narcisismo, ocorreu um empobrecimento da libido dirigida ao ego, em favor do objeto amoroso. O objeto é idealizado pelo sujeito, é-lhe atribuída uma perfeição que só pode equivaler ao ego ideal. O amado toma o lugar do ego ideal e nessa dinâmica se restabelece uma situação narcísica essencialmente primitiva – em que o eu era modelo da perfeição – só que desta vez quem ocupa esse lugar é o outro idealizado.]  

Quanto à satisfação narcísica obtida através dos objetos (ou mais precisamente sobre a escolha objetal narcísica) Freud diz que nos homossexuais, o modelo original sobre o qual apoiaram suas escolhas objetais posteriores não foram suas mães, mas seus próprios eus. Procuram a si mesmos como objeto amoroso. Este tipo de escolha objetal deve ser chamado de ‘narcísica’. 

A significação da escolha objetal narcísica para a homossexualidade deve ser considerada em relação a outro aspecto. Em  Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância (1910), Freud escreve que uma intensa ligação libidinal com a mãe, na primeira infância, foi reprimida por não poder continuar a se manter conscientemente. Impossibilitado de abrir mão dessa intensa ligação o menino identifica-se com a mãe e toma a si mesmo como modelo para os objetos sexuais.   Assim, pode abandoná-la enquanto objeto libidinal, ao mesmo tempo manter-se fiel ao seu amor. Ama da maneira que a mãe o amava e segundo o modelo narcísico: figuras substitutas e lembranças de si próprio durante a infância.  

O modelo de escolha de objeto narcísica também é atribuído por Freud ao amor que chama de essencialmente feminino.  O investimento que algumas mulheres fazem em si mesmas se compara em intensidade ao amor que os homens lhes dedicam.  A necessidade feminina estaria mais em serem amadas e menos em amar. O fascínio que tais mulheres [especialmente se forem belas] exercem sobre os homens se deve a que o narcisismo de certas pessoas exerce grande atração naqueles que renunciaram ao seu próprio [narcisismo] e estão em busca do amor objetal. Freud fala que o encanto das crianças e dos gatos está em seu narcisismo, sua inacessibilidade. É como se os invejássemos por manterem um estado primário perdido ao qual atribuímos toda perfeição e completude, o ego ideal. 

Freud afirma que mesmo para as mulheres narcisistas há um caminho que as leva ao amor objetal, que é através do amor ao filho – embora esse amor carregue uma marca narcísica no sentido em que o investimento é dirigido a alguém que foi parte do próprio corpo. 

Nesse sentido, propõe o modelo do amor dos pais à criança é narcísico já que aqueles estão compelidos a projetar no filho todas as perfeições que um dia julgaram possuir ou que desejariam alcançar. A criança sempre terá uma vida melhor do que eles tiveram. 

Freud descreve o modo narcisista de amar: ama-se segundo o que o sujeito é, foi, gostaria de ser, ou alguém que foi parte de si mesmo.  

Segundo Freud, a satisfação narcísica obtida através da indução de catexias objetais é secundária. Há uma catexia libidinal original do ego, parte da qual é posteriormente transmitida a objetos [que persiste e está relacionada com as catexias objetais].  No entanto, há uma antítese entre libido do ego e objetal, então, quanto mais uma é empregada, mais a outra se esvazia (a pessoa apaixonada desiste do amor próprio para investir toda sua libido no outro - o inverso do que ocorre na paranóia). Da libido objetal é retirada satisfação narcísica secundária, embora nem sempre o investimento no objeto resulte num retorno em igual medida ao ego. (3)   

Assim, na escolha narcísica, o objeto investido será em última instância sempre o eu. Entretanto, também é narcísico o investimento nos objetos que valorizam o eu, seja pelos atributos que possuem, seja porque recebe em troca admiração, seja porque sendo inferiores ao eu o engrandecem. 

Nesse sentido, há objetos das atividades narcísicas, assim como as definiu Bleichmar, que são além do próprio eu, também aqueles que investem no eu do sujeito direta ou indiretamente, por seu caráter positivo ou negativo. (1) 

O narcisismo constitui-se segundo o modelo relacional de amor, tanto quando o investimento se dá do eu por si mesmo, como quando o investimento sobre o eu vem do objeto.  Assim, é peculiar a uma relação amorosa narcisista o colocar-se na posição daquele que é amado, no lugar de objeto investido pelo outro. [Aqui o eu coloca-se no lugar do outro.]  Segundo Nasio, para Lacan: ‘Em qualquer relação narcísica, o eu é, com efeito, o outro, e o outro é o eu.’ (11, pág. 71) 

Discussão 

Freud dirá que ambos os modelos de escolha de objeto narcísica e anaclítica estão abertos a todos os indivíduos. Cada um de nós tem originalmente dois objetos sexuais: o próprio eu ou a mulher que cuidou de nós. Assim, certamente o tipo narcisista de amar não se restringe apenas às mulheres, homossexuais, mães [e por que não aos pais também?] e nem eles estão exclusivamente fadados a este tipo de amor. 

Além disso, não há uma diferenciação pura entre esses dois modelos, afirma Freud.  Se o tipo anaclítico de investimento é baseado num modelo primário de relação com o objeto [de quem recebeu-se alimento e proteção], e o eu estava no lugar do objeto do amor parental, isso demonstra a dimensão essencialmente narcísica também nesse caso. 

No entanto, não pode tratar-se aqui da pura reprodução do modelo anaclítico da relação materna com a criança, porque no tipo anaclítico a satisfação narcísica obtida é secundária, derivada de um investimento objetal. Já na relação mãe-criança essa satisfação é primária dado que o investimento no eu ou no objeto, são em tese o mesmo, porque nessa fase estariam insuficientemente diferenciados. 

De qualquer maneira, o grau de narcisismo numa relação [ou satisfação narcísica secundariamente obtida] vai derivar de onde o acento recai: se o investimento incide principalmente sobre o eu ou sobre o objeto – o que pode ser variável em diferentes momentos numa mesma relação.  

Talvez toda a questão da satisfação narcísica na relação narcísica e na anaclítica estaria em torno do grau de independência ou de alienação em relação ao investimento que retorna do outro em direção ao eu.  Toda essa questão é determinada pelos fatores intensidade e fixidez: tanto menos alienado será aquele que estiver menos condicionado ao desejo do outro.  O aprisionamento nesse olhar torna-se um problema que pode levar o eu às últimas conseqüências para tornar-se o suposto ideal aos olhos de outrem. 

Seria, porém, pura ilusão,  por outro lado – [o que também denota uma alta dose de narcisismo] - acreditar-se totalmente livre do alimento desse olhar, do investimento do objeto sobre o eu. 

Logo, a demanda por ser amado e desejado pelo outro é uma fonte incessante na vida de cada um de nós, que diz respeito a uma relação narcísica primordial e que vai permear seja o tipo de escolha narcísica como anaclítica nas relações com os objetos.           

O desejo de ser amado é insuperável, mas pode causar problemas (essencialmente neuróticos) se permanece o foco central das relações de um sujeito que, por sua vez, são diferentes dos problemas narcisistas colocados pelo ódio ao objeto, que trazem questões como, por exemplo, a da insusceptibilidade na transferência. 

Por outro lado, se há uma dimensão narcisista no desejar o amor dos objetos, no sentido de colocar o eu no lugar daquele que é amado, há também reconhecimento que o outro tem algo de valioso, desejável pelo eu.  Admitir que o eu não é completo é abrir mão de parte do narcisismo para aceitar a incompletude. Assim, demandar amor, investimento do outro, é investir esse outro com algo que se deseja porque não se tem, é amar. 

Bibliografia 

1- Bleichmar, Hugo - O Narcisismo. Estudo sobre a enunciação e a gramática do inconsciente, Artes Médicas, Porto Alegre, 1987.

2- Freire Costa, Jurandir - Narcisismo em Tempos Sombrios, in: Percursos na História da Psicanálise, coord. Joel Birman, Livraria Taurus, 1988.

3- Freud, Sigmund – Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914), S.E., Imago, R.J., 1969.

4-  "O Ego e o Id" (1923).

5- "Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância" (1910).

6- Green, Andre - Narcisismo de Vida Narcisismo de Morte, Escuta, S. Paulo, 1988.

7- Horstein, Luis – Introdução à Psicanálise, Escuta, S. Paulo, 1989.

8- Lacan, Jacques – Psilacánise, Clínica Freudiana, S. Paulo, 1988.

9- Laplanche, Jean. Vocabulário da Psicanálise/ Laplanche e Pontalis, São Paulo, Martins Fontes, 1997.

10- Mezan, Renato - A Trama do Ego in: Freud: a trama dos conceitos, Perspectiva, S. Paulo, 1982.

11- Nasio, Juan David – Os Sete Conceitos Cruciais da Psicanálise, Zahar, R.J., 1988.

12- Tedeschi Vieira, Maria Claudia - Introdução da tese de Mestrado, “O narcisismo: estruturas e manifestações clínicas" (1990).

(Monografia apresentada em 2002 no seminário: “Narcisismo. A Constituição do Eu.”, coordenado por Cleide Monteiro)

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