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ENTRE O TERROR E O EROTISMO (Alguns aspectos da questão da perversão em psicanálise) João Carlos de Araujo 1-Introdução Este trabalho, em linhas gerais, visa levantar algumas questões importantes sobre o tema da perversão em psicanálise. Para isso, colocaremos tanto o Complexo de Édipo como o Complexo de Castração como norteadores para as discussões. A perversão [Ferraz 2002] tem sido uma questão controversa em psicanálise. Há alguns autores importantes dentro da psicanálise que a situam, com suas particularidades teóricas, dentro das categorias psicopatológicas ao lado das neuroses e da psicose, e outros, como estrutura. Na obra Freudiana podemos encontrar esse conceito em momentos distintos quanto à articulação teórica. Pretendemos esboçar, em termos gerais, esse percurso teórico da perversão na obra de Freud, não sem recorrer a alguns autores que trouxeram contribuições importantes para essa compreensão. Não podemos deixar de observar que quando falamos sobre esse tema, incorremos no risco de passar pela referência a certas normas, à moral, aos valores da sociedade, da própria psicanálise e de suas diversas ‘escolas’ (quando, por exemplo, usa-se a noção de normalidade em sexualidade). No entanto, entendemos que psicanálise deva tratar a questão da perversão (como todas as outras) não só em relação à sexualidade e ao que essa tem de constitutiva para o psiquismo, mas tendo em vista fundamentalmente o sofrimento psíquico do sujeito no seu propósito de auxiliá-lo em relação a isso. Nesse sentido, cabe também indagarmos sobre o sofrimento na perversão, ou melhor dizendo, daquele sujeito que exerce sua sexualidade ou erotismo dentro de alguns parâmetros que definiremos durante o trabalho como sendo o campo da perversão para a psicanálise. Para isso precisamos determinar o campo da perversão dentro da psicanálise antes de, finalmente, passarmos a pensar sobre uma possível especificidade ou particularidades em sua clínica. Sempre que nos referirmos a algo do ponto de vista da perversão, mesmo em psicanálise - seja a sexualidade, a identidade ou a qualidade das relações objetais - estaremos considerando determinados padrões, modelos, etc. A psicanálise, enquanto corpo teórico e de conhecimento, desenvolveu certos modelos universais (se assim podemos denominá-los) que servem como eixos para a compreensão teórica e prática (já que Freud usou sua experiência clínica para construí-los) da constituição psíquica humana. Estes modelos que tratam da organização psíquica da sexualidade humana, dos quais lançaremos mão neste trabalho para pensar a perversão, são o Complexo de Édipo e o Complexo de Castração. Tais paradigmas fundamentais da psicanálise surgiram para pensar não só a sexualidade em suas origens, mas também a constituição psíquica e os modelos identificatórios. Por isso, configuram-se como ponto de partida para pensar o que seria perversão em sexualidade para a psicanálise e nos orientar sobre onde isso se liga ao sofrimento humano. 2-A perversão em Freud Ferraz (2002) em seu livro, afirma que o tema da perversão na obra de Freud passou por sucessivas e significativas alterações e aponta que Janine Chasseguet-Smirgel (1991) distinguiu três momentos essenciais dessa teorização. O primeiro modelo baseia-se no axioma da neurose enquanto o negativo da perversão. O segundo momento relaciona-se com a teoria do complexo de Édipo, núcleo das neuroses mas também das perversões. Por fim, o terceiro momento, principalmente formulado no artigo O Fetichismo, de 1927, define a recusa da castração como mecanismo essencial da perversão, a noção de clivagem do ego num processo de defesa e a construção do fetiche como substituto do pênis materno. No primeiro modelo Freudiano a perversão é o resultado da fixação da libido, no adulto, num estágio da sexualidade pré-genital ou infantil. Do ponto de vista libidinal é somente a partir da puberdade que as correntes libidinais infantis passarão a ser dominadas pela sexualidade genital, quando então serão submetidas a ela, de modo a se tornarem acessórias e introdutórias. A perversão, sob essa perspectiva, é a manutenção da sexualidade infantil na vida adulta. Segundo Ferraz (2002), no entanto, enquanto na sexualidade infantil ainda tudo é potencialidade, na sexualidade adulta perversa tudo está cristalizado e a pré-genitalidade age despoticamente na vida sexual do perverso. O segundo momento da perversão na obra de Freud relaciona-se com a formulação do complexo de Édipo. A entrada e passagem do sujeito pelo conflito edípico marcará a possibilidade da instauração da sexualidade genital como eixo central na vida adulta, além de implicar em inúmeras outras aquisições, resultando nas identificações sexuais, na eleição de um objeto sexual, na implicação com o desejo, no contato com a angústia da castração, na entrada na fase de latência, na possibilidade de renúncia pulsional ao objeto incestuoso, etc. É determinada pela solução edípica também a posição do sujeito frente às gerações e em relação à Lei. Todas essas possibilidades e aquisições se dão a partir do momento em que a criança consegue renunciar à posição incestuosa que mantinha em relação à sua mãe por temor ao rival paterno, ao qual atribui a castração materna. [O próprio surgimento do desejo se sustenta a partir dessa renúncia pulsional incestuosa pela mãe] Assim, o Édipo está intimamente articulado com outro complexo, o de Castração, que Freud vai mencionar pela primeira vez em 1908, com referência às teorias sexuais das crianças que atribuindo um pênis a todos os seres humanos, só podem explicar a diferença anatômica através da castração. (Laplanche, 1997). Segundo Laplanche (1997), o complexo de castração tem no seu centro a fantasia da castração como explicação para a diferença sexual anatômica. A superação do complexo de Édipo e a identificação paternal só pode ser alcançada pelo atravessamento da idade da castração, isto é, se se der a compreensão e aceitação de que à criança lhe é recusada a utilização do seu pênis como instrumento do seu desejo pela mãe. “A unidade do complexo de castração nos dois sexos vem revelar como o objeto de castração, o falo, implica nessa fase de uma importância igual para o menino e para a menina.” (Laplanche, 1997). O falo é considerado pela criança uma parte essencial da imagem do seu ego e uma ameaça de castração viria produzir um enorme impacto no seu narcisismo e ameaçar essa imagem. (Cabe lembrar que o complexo de castração situa-se diferentemente para os dois sexos em relação ao Édipo. Na menina, é um momento de abertura do desejo e da busca do pênis paterno , no menino, levará ao final do Édipo, culminando no período de latência da sua sexualidade infantil e resultando na interdição do incesto em relação ao objeto materno). Freud reserva o termo complexo de castração para a situação relacionada à fantasia de perda do pênis, embora não rejeite o reconhecimento das origens da castração nas experiências de separação oral e anal, nem o significado organizador sobre o eixo genital dessa fantasia em relação às experiências anteriores. Freud situa o ato de castração na categoria de fantasias originárias, porque para produzir seus efeitos, a castração não precisa ser efetuada nem sequer precisa ser objeto de uma formulação específica por parte dos pais; ‘originária’ também na medida em que é na castração que se origina, se estrutura e se especifica o desejo sexual do ser humano. Tanto a castração como o Édipo têm um caráter nuclear e estruturante para o sujeito. (Laplanche, 1997) Do ponto de vista libidinal, seu resultado vai levar à centralização da sexualidade pré-genital em torno da zona genital e à entrada pela criança numa fase de latência, caso o mecanismo predominante seja o do recalque. No entanto, o ego, diante do horror à possibilidade de castração poderá sofrer uma alteração, uma cisão, num esforço violento para se defender, não da fantasia da castração (pois essa é produzida internamente), mas da percepção da ausência do pênis na mulher. Lançando mão de um outro tipo de defesa, mais antiga que o recalque, a saber, a recusa, essa reação violenta do ego contra algo indefensável, uma percepção, vai implicar na manutenção de duas posições opostas em relação à realidade. No artigo de 1923, A organização genital infantil, Freud apresentou o mecanismo da recusa, essencial à formulação posterior da perversão, quando escreveu que o menino rejeita o fato de que não viu um pênis e ainda assim insiste na crença de que viu um onde não havia. No artigo A dissolução do complexo de Édipo, Freud (1924) vai mostrar como o menino reluta em aceitar a ameaça da castração. A experiência da visão dos órgãos genitais femininos passa a ser, então, a prova definitiva da realidade da castração, evidenciando, de modo terrorífico, uma verdade que ele insistia em recusar. O horror diante da possibilidade da veracidade (do risco) de ser castrado pelo pai, rival edípico, vai provocar uma reação violenta no psiquismo do menino. O tipo de estruturação psíquica [neurose, psicose ou perversão] vai decorrer do mecanismo defensivo básico predominante ativado a partir do conflito edípico e do seu desfecho. Do ponto de vista estrutural, na solução neurótica, predominará o recalque [pulsional do desejo incestuoso e da sexualidade perverso-polimorfa]. Na solução psicótica, prevalecerá a recusa da percepção da ausência de pênis na mulher [recusa da percepção da realidade]. Já no caso da perversão, que nos interessa aqui, deverá ocorrer um mecanismo de cisão interna ao ego, que em parte recusa e percebe a realidade. O peculiar dessa solução, se assim podemos chamá-la, é o modo desintegrado no seu psiquismo com que tratará daqui para a frente a angústia relativa à crença na ameaça da castração. O resultado disso é que o perverso não poderá [evitar] se furtar totalmente em relação à crença e ao horror à ameaça da castração para explicar a diferença sexual. Aqui temos uma outra questão: acreditar na realidade da castração para explicar a diferença anatômica entre os sexos é permanecer no registro de um pensamento infantil; já reconhecer que a castração pertence ao mundo imaginário, uma fantasia, ao mundo da crença, um mito infantil e que isso produz efeitos no psiquismo, é diferente. O perverso manteria, devido à cisão produzida sobre o seu ego, incerta a solução quanto à veracidade e à fantasia da castração. É por isso que sustentamos que a sexualidade perversa beira o horror: o perverso mantém insolúvel a crença na realidade da castração materna. A consolidação da defesa psíquica diferente do recalque, que é a recusa não é peculiar à perversão. A saída perversa pressupõe também o mecanismo de cisão no ego. Toda essa solução defensiva nada mais é que um meio de contornar a realidade [já que a crença na realidade da castração é uma fantasia, ou seja, uma explicação infantil para a ausência de pênis na mulher]. A psicanálise deve vir em auxílio ao sujeito buscando oferecer elementos no sentido de compreender a natureza fantasmática em seu mundo psíquico. Isso se dará talvez à medida em que enfraqueça a posição defensiva e desafiante de tentar fazer a farsa sobrepor-se às evidências que a realidade lhe traz. Pereda (1996) afirma que a recusa, além de sua dimensão patogênica tem um efeito estrutural em cada psiquismo. O efeito estrutural seria produto do trabalho de recusa, através do qual a criança só poderá registrar internamente e apreender a presença do outro ao recusar a sua ausência. O trabalho estrutural da recusa sustenta a ilusão e as crenças infantis que expressam o desejo ou vão resultar nele. Desse ponto de vista a recusa é inerente à constituição das fantasias infantis. Ao contrário dessa função estrutural da recusa, é a persistência da recusa [da ausência] no adulto que vai definir sua dimensão patológica na medida em que vai dificultar todo trabalho de separação e de simbolização. “No caso da perversão, o predomínio da recusa representa uma obstrução ao trabalho do recalque, com a respectiva perturbação da trama edípica, o que favorece a confusão entre os papéis e contornos sexuais. Desaparecem as diferenças, limites, normas, visto que a função paterna fica enfraquecida e os impulsos incestuosos não encontram delimitação clara.” (Ferraz, p.34) A recusa é sempre a recusa da realidade, da ausência do objeto e ela não se verifica só em relação à visão do órgão genital feminino no Édipo. Nesse caso ela reedita e organiza em torno do eixo genital outras ausências relativas à sexualidade pré-edípica e pré-genital: a perda do seio, das fezes, do objeto materno, a perda do amor do objeto, etc. A reafirmação da sexualidade genital, a sustentação do desejo sobre o objeto, implicam num esforço do sujeito de superação da angústia [e do medo] da [fantasia da] castração, como castigo pelo desejo incestuoso; isso ocorrerá só à medida em que há uma superação dos desejos incestuosos e a possibilidade de substituição do objeto materno, sem ter que abrir mão da genitalidade. Manter em suspenso o conflito edípico, sob esse ponto de vista, é manter em suspenso, sem resolução, o desejo. O terceiro momento da teorização de Freud sobre a perversão se dá no artigo Fetichismo, de 1927. Nesse artigo Freud vai se perguntar sobre a origem e o sentido do fetiche. Afirma então Freud que o fetiche é um substituto do falo materno, ou seja, um modo de manter no psiquismo a crença infantil na existência do pênis da mãe [fortemente, já que dissociada da percepção da realidade] e de recusar-se em tomar conhecimento de um dado de sua percepção - o de que a mulher não possui pênis. Por outro lado, o fetiche vai servir como proteção contra o horror à outra crença que permanece viva no perverso porque ainda não superada: a da realidade da castração como resultado de sua percepção da realidade do corpo feminino. Ao mesmo tempo, o fetiche sustenta o sujeito no registro da crença, da ilusão: da crença da ‘realidade’ do falo materno e a crença da ‘realidade’ da castração como solução para a diferença anatômica entre os sexos. “O fetiche significa, portanto, o triunfo sobre a ameaça da castração e permanece na vida sexual do fetichista, cumprindo o papel de protetor contra ela. Torna-se condição imprescindível ao gozo e recebe a carga de valorização antes orientada ao genital. Daí o alto grau da idealização de que é objeto”. (Ferraz, p.35). 3-A perversão depois de Freud - A solução perversa enquanto possibilidade de estruturação do sujeito, do objeto e do erótico EM CENA, A CASTRAÇÃO: TEATRO, ATUAÇÃO OU FARSA? O enfrentamento da [fantasia da] castração, enquanto sustentação pelo ego da ameaça de castração, deverá resultar no reconhecimento de sua natureza psíquica. Além disso, vem possibilitar o domínio das pulsões anárquicas e a renúncia do objeto incestuoso, sem prejuízo da sexualidade genital e do desejo sexual. Antes disso, a sexualidade é levada a uma fase de latência e só o retorno e o enfrentamento dessa questão na adolescência é que vai restituir ao sujeito a assunção do seu desejo em relação a um substituto do objeto materno. Diante da impossibilidade da integração das questões relativas à Castração e ao Édipo no psiquismo, podemos pensar que tais materiais permaneceriam em suspenso, funcionando como situações traumáticas, convocando não à elaboração, mas à atuação. De fato, alguns psicanalistas depois de Freud têm contribuído para a compreensão da sexualidade perversa enquanto atuação, revelando o traumático da sexualidade. Para Joyce McDougall (1989) a cena que o perverso monta como um teatro visa provar ad infinitum a inexistência da castração. Vale lembrar que a saída perversa tenta em verdade lidar é com a crença infantil da castração como fato para explicar a diferença sexual humana. A solução perversa trata-se de um falso triunfo sobre a questão que a realidade vem trazer. O triunfo sobre a castração e sobre o pai na sexualidade perversa é um blefe, uma ilusão, pois o sujeito aqui não faz mais que tentar enfraquecer a importância da sua crença na realidade da castração do que enfrentá-la. [Se o pai (biológico) não pôde se tornar essencialmente um elemento de referência positiva, no sentido de proporcionar um eixo organizador da vida psíquica e sexual ao qual se busca como modelo, ele estaria mais marcado como omisso e secundário, do que representante de uma ameaça, tal como permanece o pai terrível imaginário da castração. O perverso vai estar condenado a provar que pode triunfar sobre e humilhar um pai, mas pouco pode fazer para aplacar o terror em relação ao outro pai, o terrível castrador.] Joyce McDougall vai colocar no lugar do fetiche a encenação perversa. “A castração é o mote de toda criação perversa; e o sentido está centrado na castração lúdica, que visa provar que a castração não é perigosa, nem mutilante...” “É um desafio que se faz no confronto com a angústia, no intuito de se levar a melhor sobre ela. Daí o caráter compulsivo da busca sexual do perverso...” (Ferraz, p.68). Não pode ser o prazer e o desejo sobre o objeto que move, essencialmente, a sexualidade perversa, mas uma necessidade de erotização como tentativa de triunfo sobre essa angústia que a crença na realidade da castração provoca. Uma sexualidade que busca aplacar a angústia ao tentar delimitar funções e lugares para o sujeito. O sujeito é compelido a atuar suas fantasias. A compulsão na sexualidade perversa, entretanto, não parece coincidir com a compulsão à repetição tal como escreveu Freud (1920), sobre os traumas de guerra. Trata-se, menos de uma repetição compulsiva da cena traumática, e mais de uma encenação produzida e modificada pelo sujeito. Se a compulsão não retira o caráter traumático da vivência, a montagem da cena revela uma possibilidade de controle e erotização da mesma. Tal compreensão nos remete ao que escreveu Freud (1920) sobre a brincadeira das crianças, nas quais estas encenam certas vivências para poderem elaborar, lidar e superar experiências sobre as quais não têm domínio ou são novas para elas. No entanto, no caso da brincadeira infantil, essa encenação é movida pelo prazer, e já a sexualidade perversa, pela necessidade. Nesse sentido, a angústia da castração na sexualidade perversa estaria a meio caminho de ser elaborada mas, indefinidamente, pois está indisponível ao sujeito, já que permanece barrada pelo mecanismo dissociativo. PERVERSO DRAMA FAMILIAR Para Stoller (1986) a sexualidade perversa remete, de fato, a um prejuízo sofrido nas experiências familiares na infância e é não só uma criação defensiva mas também a encenação e reconstrução de um trauma infantil. Esse trauma refere-se a determinada dinâmica familiar que, induz ao medo e força a criança a evitar o enfrentamento da situação edípica, na qual, ela já se encontra imersa. O efeito traumático da persistência da [crença na veracidade da] castração é potencializado pela influência familiar, quando esta vem, por exemplo, seja por dissimulação, seja por impossibilidade, minimizar ou desvalorizar aquilo que mais nos confronta com a realidade: os limites, as perdas, as mortes, as ausências. O resultado será uma dificuldade para lidar simbolicamente [e menos com atuações] com o significado da castração. Segundo Stoller esse trauma teria ocorrido tanto sobre a área sexual [anatômica] como sobre a identidade de gênero [como, por exemplo, no caso da criança que é tratada como se pertencesse a outro sexo biológico]. Stoller propõe que na perversão houve de fato um trauma infantil, mas que o estrago não foi completo, o que resultou na manutenção precária da função sexual, mas não da sua destruição. Nesse sentido, a perversão vem proteger e manter viva a função sexual do sujeito contra sua destruição. Essa perspectiva nos permite pensar as modalidades de relação objetal precoces enquanto fatores etiológicos para os problemas psíquicos no adulto. A complicação da entrada e solução do conflito edípico pela criança teria recebido a influência dos genitores quando estes não excluem a criança da sexualidade do casal. É mais provável que o casal tenha mantido a criança presa a um jogo erótico familiar. Há omissão ou consentimento paterno e a sedução materna envolvidos nessa trama. Stoller aposta também que há uma correspondência entre os eventos históricos na vida do sujeito que se fazem representar em detalhes no ato sexual manifesto perverso. Talvez então a perversão sexual tenha mais a ver com a falta de ternura e amor do que a erotização e sedução que objetiva no uso da criança, e a torna mais objeto de prazer dos pais do que a depositária dos seus desejos narcísicos. Para Stoller a hostilidade em relação ao objeto, no ato perverso, é sua característica central. Houve não uma fusão da agressividade no interjogo sexual, mas um predomínio da agressividade em detrimento do sexual. A cena perversa assume a forma de uma fantasia de vingança e tem a função de transformar um trauma infantil em triunfo adulto. Além do mais, o não abrandamento da agressividade pulsional sobre o objeto seria também outra das implicações decorrentes do não solucionamento do complexo de Édipo. A passagem pelo complexo de Édipo vem fornecer ao individuo o controle pulsional e limitar a agressividade da sexualidade infantil. 4-A clínica da dissociação Para pensarmos um pouco sobre o trabalho analítico dentro do campo da perversão e do traumático vale a pena trazer aqui o texto de Gurfinkel (2000) sobre a clínica da dissociação. Segundo o autor, Winnicott aponta para uma diferença fundamental quanto aos efeitos entre os mecanismos psíquicos do recalcamento e da dissociação: no primeiro, o material inconsciente permanece dentro dos limites do indivíduo, no seu psiquismo, e pode emergir através dos sonhos, atos falhos, análise. O trabalho do analista, segundo Winnicott, se dá buscando esse material reprimido no próprio sujeito. Já os fenômenos dissociativos ocorrem de modo desintegrado do sujeito, o que é inconsciente não está reprimido e sim dissociado do sujeito. A clínica, nesses casos, deve buscar elucidar a cisão na pessoa do paciente. ‘A cisão toma o lugar do inconsciente recalcado do psiconeurótico’, afirma Gurfinkel. O autor propõe, então, uma clínica própria à dissociação que, por exemplo, pode ser observada nas situações onde o sujeito mantém, sem contato entre si, ‘vidas ou mundos paralelos’. Para Winnicott, segundo Gurfinkel, os fenômenos dissociativos se referem a uma fase muito anterior à situação edípica, quando haveria uma cisão básica entre o indivíduo e o ambiente, um momento inicial do psiquismo no qual não havia um eu ainda constituído. Por esse motivo, a cisão não pôde ocorrer por intermédio do eu [mecanismo de recalcamento propriamente dito] mas no próprio eu [dissociação]. Aqui ainda não havia uma relação objetal com a mãe que permanecia fundida com um ambiente. Problemas na relação com essa mãe-ambiente, que tem a função de apresentar ao ego incipiente a realidade de modo suficientemente apreensível, confortável, boa, é que gerariam as vivências traumáticas desse ego dissociadas do ambiente. As dissociações do ego remetem, para Winnicott, às falhas de uma adaptação necessária desse eu primitivo a um ambiente pouco acolhedor. Winnicott localiza os fatores que provocam a cisão básica citando algumas condições desse ambiente traumático: violência, invasão, instabilidade, depressão materna, cuidado mecânico e impessoal, impossibilidade da mãe de oferecer o seu rosto para o self do bebê, etc. Também recorrendo a Winnicott, “Khan formula a hipótese de que o objeto do perverso tem o valor de objeto transicional, pois devido à sua disposição a obedecer, ele pode ser criado ou inventado, manipulado, submetido a abusos, destruído, descartado, idealizado, tratado com ternura, etc. O sujeito na relação com esse objeto busca curar-se de sua falta de integração egóica.” (Ferraz, p.88) Nesse sentido, a própria montagem das cenas já poderia se tornar um caminho, na melhor hipótese, intermediário, e na pior, incipiente, para se relacionar com a realidade e tentar integrar aquilo que escapa ao sujeito sobre si mesmo. 5-Considerações finais Se não nos parece ser o caso de mostrar a perversão enquanto patologia, também não é o caso de concebê-la enquanto possibilidade: por exemplo, uma possibilidade de liberdade sexual da qual o neurótico em excesso se priva. A erotização e construção do fetiche [seja este compreendido em termos mais freudianos ou como a cena do perverso] trata-se de um recurso possível de estruturação de uma vida libidinal, erótica. Se os objetos são usados, manipulados, o são como estratégia para salvaguardar a vida psíquica. O mais importante no que encontramos sobre perversão em psicanálise até aqui são as tentativas de compreensão sobre algo da sexualidade humana que certamente mereceria outro nome (para não ser associada a significados tão negativos como, por exemplo, à noção de perversidade). Seja entendida como um modo de estruturação psíquica, ou como um quadro psicopatológico, tudo isso que a psicanálise diz a respeito da perversão não tem a menor importância se não servir de referencial ao analista para aparatá-lo para compreender: ao que se refere, onde está implicado, em relação ao que se organiza, o sofrimento do sujeito. Certamente, o compromisso da psicanálise não pode estar meramente em amenizar as dores de quem a procura. No processo de uma análise, freqüentemente o acesso a certas partes dissociadas ao sujeito vai gerar conflitos e isso levará fatalmente ao sofrimento. Mas se a psicanálise postula que é essencialmente humano ter que se haver com exigências internas contrárias, seja entre quais instâncias psíquicas forem, é porque ela acredita que o conflito seja inerente e constitutivo de cada ser humano e do desejo. Não pode ser papel da psicanálise adequar quem quer que seja ao seu próprio sexo biológico, gênero ou determinado objeto sexual e muito menos, sugerir, baseada em seus postulados teóricos, qual a solução normal para essas que são questões humanas e de cada um. Tudo isso não tem o menor valor, se para o sujeito em questão não houver implicação com o seu próprio desejo. Podemos, no entanto, perguntar, se o sofrimento na perversão para a teoria psicanalítica [que não pode ser intrínseco a ela mesma] não esteja talvez mais próximo daquilo [dos mecanismos de recusa ou da dissociação] que age sobre o sujeito, quando isso leva à impossibilidade de mover-se em busca de algum reconhecimento de si, do outro e do desejo. Acredito que essa alienação, esse não saber sobre si, sobre o outro e sobre o seu próprio desejo, possa não ser exatamente a razão do sofrimento de um sujeito, mas é preciso poder equacionar essas questões internamente antes de buscar solução para qualquer coisa que o atormente. 6-Bibliografia 1- Bleichmar, H. Introdução ao estudo das perversões. Artes Médicas, Porto Alegre, 1984. 2- Chasseguet-Smirgel, J. Ética e estética da perversão. Artes Médicas, Porto Alegre,1991. 3- Dor, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Taurus editora, Rio de Janeiro, 1997. 4- Ferraz. F.C. Perversão. Casa do Psicólogo, 2ª edição ampliada, São Paulo, 2002. 5- Freud, S. Sobre as teorias sexuais das crianças (1908). E.S.B., Imago editora, Rio de Janeiro, 1996. Vol.IX. 6- . O mal-estar na civilização (1920). Vol.XVIII 7- . A organização genital infantil (1923). Vol.XIX. 8- . A dissolução do complexo de Édipo (1924). Vol.XIX. 9- Freud. S. O fetichismo (1927). Jornal de Psicanálise, São Paulo, 1997. 10- Garcia, J.C. Problemáticas da identidade sexual. Casa do Psicólogo, São Paulo, 2000. 11- Gurfinkel, D. A clínica da dissociação. In: Fuks, L.B. & Ferraz,F.C. A clínica conta histórias. São Paulo, Escuta, 2000. 12- Kernberg, O.F. Perversão, peversidade e normalidade: diagnóstico e considerações terapêuticas. Revista Brasileira de Psicanálise, 32 (1), 1998. 13- Laplanche, J. & Pontalis J.-B. Vocabulário da psicanálise. Martins Fontes, São Paulo, 1997. 14- McDougall, J. Em defesa de uma certa anormalidade. Artes Médicas, Porto Alegre, 1898. 15- Nasio, J.D. Os 7 conceitos cruciais da psicanálise. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1996. 16- Pereda, M.C. Recusa, seu efeito estrutural e sua dimensão patogênica. Revista Brasileira de Psicanálise, 30(3), 1996. 17- Stoller, R.J. Perversion: the erotic form of hatred. Karnak, New York, 1986.
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